Lêucio Flavo, um cidadão exemplar

Joaci Góes

Para o querido amigo Marcelo Matias!

O rebaixamento ostensivo dos padrões éticos praticados no Brasil levou o conhecido articulista Roberto Pompeu de Toledo a afirmar, sob a aprovação geral, que estávamos passando de um país sede de grande corrupção para um povo corrupto, em si mesmo, tamanha a degradação observada em todos os segmentos de nossa vida social, política e econômica, com o comprometimento das três esferas de poder, nos níveis municipal, estadual e federal. Basta consultar as matérias diárias em todas as mídias para se constatar essa desanimadora realidade que, conquanto dominante, não é universal em nosso meio tupiniquim. As exceções vicejam para prosperar. Deus seja servido!

As festividades, na semana passada, pelo transcurso dos oitenta anos do advogado e servidor público Lêucio Flavo Moreira de Borges Sampaio ensejou aos participantes observar a incolumidade moral que tem caracterizado a biografia desse Varão de Plutarco, ao longo de uma impecável trajetória que não encontra exceção em qualquer das vertentes de sua exemplar conduta como membro destacado de uma numerosa e briosa família, coroada pelo seu papel como esposo e pai, do mesmo modo, entre colegas de trabalho e de bancos escolares. A essa última categoria, tenho a honra de pertencer desde o curso ginasial, no Severino Vieira, em Nazaré, passando pelo Colégio Estadual da Bahia, o legendário Central, frequentado, dentre inúmeros outros, por gente como Castro Alves, Rui Barbosa, Euclides da Cunha e Glauber Rocha, até a Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. Nossa turma de advogados teve a ventura histórica de cursar dois anos e meio na antiga sede da Av. Joana Angélica, hoje sede da OAB, e dois anos e meio na atual sede no bairro da Graça, debruçada sobre o Vale do Canela. Líder estudantil, Lêucio dirigiu os grêmios do Severino Vieira e do Central. O seu altivo enfrentamento aos diretores do Severino Vieira, ao cobrar, pioneiramente, esclarecimentos na prestação de contas da aplicação dos recursos públicos elevou-o, perante mim, ao patamar do meu primeiro herói moral, episódio que figura nas memórias que ora escrevo.
Lêucio veio ao mundo, e mais nove irmãos, no município de Macajuba, os demais em Mairi, na Bahia. Ele é o terceiro filho de uma prole de quatorze da união entre Viriato Borges Sampaio com Ruth Moreira de Borges Sampaio. Lêucia e Leucila, mais velhas do que ele, e Rute, a décimo terceira, já nos deixaram, enquanto vivem Rutildes, Ninfa, Elko Emílio, Sírio Glauco, Maria Aparecida, Rosa Virgínia, Dênia, Ronaldo, Sandra e a caçula Rita de Cássia.

Do casamento com a exemplar pedagoga Lícia Queiroz Flavo, com mestrado pela Universidade de Quebec, no Canadá, Lêucio é pai da Administradora e Advogada Ana Marta Queiroz Flavo, bacharel em turismo e pós-graduada em Análise de Sistemas e em gestão de Sistemas e Serviços de Saúde. Atualmente, Ana Marta reside em Brasília, onde faz pós-graduação em Direito Civil e Processo Civil.
A exuberante cidadania de Lêucio Flavo que lhe confere, com todos os méritos, o título de Cidadão Estadista, se consolidou ao longo de mais de quarenta anos como servidor público, chegando a ser o primeiro Superintendente do INSS na Bahia, auditor fiscal da Receita Federal, também na Bahia, cuja categoria presidiu, e presidente da ANFIP-Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil. Em cada um desses postos, Lêucio atuou com invariável competência e espírito público para cujo desempenho a retidão de conduta é o combustível essencial. Que distância abissal entre essa bela história e a crônica escabrosa que, diariamente, compromete a confiança do povo brasileiro em seu destino!

Educação é uma moeda de duas faces: uma abriga conhecimentos e a outra valores. O conhecimento da vida de Lêucio Flavo Moreira de Borges Sampaio, pela nossa juventude estudiosa, a partir dos verdes anos, seria um bom começo para resgatar a confiança do povo brasileiro no caráter redentor da honra e do desejo de servir ao público, desinteressadamente.

Joaci Góes, escritor, é presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Texto originalmente publicado nesta quinta-feira, 12, na TB.