Eu aconselho vocês a lerem as peças [do processo] para me defenderem, como o [jornalista e colunista da Folha] Reinaldo Azevedo está fazendo. Ele todo dia fala “Eu li. Eu li o processo”. Eu não peço para dizerem que eu sou inocente, não. Peço que vocês leiam. E se acharem uma vírgula de culpa, por favor, me telefonem. É só isso”.

Luis Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República, fundador do PT, condenado a 9 anos e seis meses de prisão em processo da Lava Jato, e postulante a candidato a presidente da República nas eleições de 2018. Dando conselhos aos jornalistas.

fev
18

Postado em 18-02-2018 00:23

Arquivado em ( Artigos) por vitor em 18-02-2018 00:23

 

Apresentada ontem pelo presidente Michel Temer (PMDB) como a solução para os problemas do Rio de Janeiro,, o uso das Forças Armadas na segurança pública está longe de ser uma novidade nas comunidades pobres do Rio e, para muitos de seus moradores, viraram sinônimo de mortes e abusos.

Desde 2008, o Exército foi chamado a intervir com poder de polícia em 12 ocasiões, em operações chamadas de GLO (Garantia da Lei e da Ordem). Além de não diminuir a criminalidade, as ações das Forças Armadas deixaram nas comunidades as lembranças de constantes violações de direitos.

“Na Maré tivemos uma série de situações mal resolvidas, com denúncias e críticas muito fortes da população à ocupação “ avalia o teólogo Ronilson Pacheco, ao recordar a ocupação do Exército na favela da Maré entre 2014 e 2015. O objetivo oficial desta era preparar o terreno para a implementação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na região, que acabou não saindo do papel. A ocupação aconteceu às vésperas da realização da Copa do Mundo e durou um ano e três meses.

O músico Brunno DJ, morador do Parque União, lembra bem das limitações e opressões que viveu durante a incursão das forças de segurança. “Não se podia fazer nada. Forró, pagode, nada. O esculacho era geral, o tratamento não era diferenciado entre bandido e trabalhador. Todo mundo tava errado pra eles”, conta o DJ.

Em pesquisa divulgada pela Redes da Maré em 2017, cerca de 75% dos moradores consideraram regular, ruim ou péssima a ocupação do Exército no Complexo da Maré entre 2014 e 2015.

Para Irone Santiago, de 52 anos, há ainda um aspecto pessoal para seu desgosto com intervenções semelhantes. A mãe de Vitor Santiago Borges, de 31 anos, viu seu filho ser baleado por militares da Força de Pacificação do Complexo da Maré em fevereiro de 2015. Vitor acabou tendo sua perna esquerda amputada e perdeu uma parte do pulmão. Inicialmente, o Exército nem ao menos aceitou investigar o crime.

Para Irone, essa nova intervenção é um absurdo. “E agora os militares também tem a seu favor mudanças na Lei 13.491”, disse a costureira, referindo-se a lei no Código Penal Militar promulgada ano passado que permite que crimes dolosos de militares contra civis sejam julgados na Justiça Militar. “Eu continuo lutando, mas tem horas que bate o desespero, e aqui na Maré eu percebo cada vez mais gente desacreditada”.

Não é apenas para moradores da Maré que a perspectiva é negativa. Para a graduanda em direito Deize Carvalho, moradora de uma comunidade em Copacabana, essa intervenção pode trazer ainda mais à tona a banalização da vida do pobre e favelado. Outro que teme as consequências da intervenção é Deley, conhecido ativista da favela de Acari. “Meu medo é que persistam as violações aos direitos humanos, que já são recorrentes”.

“Lógica de guerra”

A pesquisadora Lena Azevedo, da ONG Justiça Global, explica que a lógica das Forcas Armadas é de eliminação do inimigo, que é muito diferente da lógica de segurança. “É uma lógica de guerra, de combate ao inimigo externo e isso aplicado na segurança urbana vai causar muitas mortes. Um ano ocupando a Maré e foram mais de 20 mortos e mais uma dezena de sequelados e são crimes que não têm responsabilização. A Justiça militar é muito pouco transparente”, afirma.

“O Rio parece um laboratório de todo mal, de toda perversidade. Tudo que querem experimentar de ruim na política de segurança pública é no Rio. As UPPs [Unidades de Polícia Pacificadora], por exemplo”, critica a pesquisadora.

Lena Azevedo lembra que, quando o Brasil usou pela primeira vez uma operação de Garantia da Lei e da Ordem para colocar o Exército nas ruas, uma boa parte da sociedade ainda criticava a medida. Foi em 1992, também no Rio, no que ficou conhecido como “Operação Verão”, que buscava combater os ainda recorrentes arrastões nas areias das praias, especialmente da zona sul.

“Depois da ditadura, em 1992 foi a primeira vez que teve uma GLO no Rio de Janeiro e ela foi muito rechaçada pela sociedade, porque tínhamos saído de um processo ditatorial, então a sociedade não aceitava de novo ficar sob a lógica militarizada. Hoje as pessoas acham isso normalíssimo, mas não é. Isso é um estado de descaso”, afirma.

O decreto de intervenção federal também foi considerado “bastante preocupante” pela ONG Human Rights Watch. “O Rio de Janeiro precisa aperfeiçoar a atuação da polícia e, para isso, precisa de um especialista em polícia, não um especialista em guerra. A abordagem da segurança pública como um problema militar, baseada em operações militares nas favelas, vem fracassando há décadas, causando uma enorme perda de vida de moradores e policiais e exacerbando os problemas de violência no Rio”, afirmou a entidade, em nota.

Nos últimos sete anos, entre 2010 e 2017, foram 29 usos da GLO em todo o país, muitos em virtude dos Jogos Olímpicos e da Copa do Mundo. A controversa prisão de 18 jovens no Centro Cultural São Paulo, com a presença de um capitão atuando como infiltrado em movimentos de oposição ao governo e assediando jovens, aconteceu durante uma GLO preparada para a passagem da tocha olímpica na Avenida Paulista.

Intervenção inédita

O decreto assinado ontem pelo presidente Michel Temer, contudo, difere das outras 12 de vezes em que o Exército foi chamado a intervir no Estado.

As operações anteriores eram amparadas pela GLO, que é prevista no artigo 142 da Constituição Federal e pela Lei Complementar 97, de 1999, e pelo Decreto 3897, de 2001, que davam às Forças Armadas poder de polícia para apoiar operações pontuais de combate ao tráfico de drogas e roubos de carga, por exemplo. O decreto de intervenção federal assinado nesta sexta-feira (16/2), ao contrário, evoca os artigos 144 e 145, que tratam da gestão da segurança pública – o que inclui traçar estratégias e destinar recursos – de um Estado da Federação.

Em evento no último dia 31 de janeiro, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, ressaltou, no entanto, que o que deveria ser uma medida extrema em casos extraordinários acabou virando rotina. “Estou há dezoito meses à frente do Ministério da Defesa, e já estamos indo para a nossa 11ª Garantia da Lei e da Ordem”, lamentou o ministro.

As 12 ações de GLO no Rio foram as seguintes: em outubro de 2008 (eleições municipais), de dezembro de 2010 a junho de 2012 (Ocupação do Complexo do Alemão), julho de 2011 (V Jogos Mundias Militares), junho de 2012 (Rio + 20), outubro de 2012 (eleições municipais), julho de 2013 (Jornada Mundial da Juventude), julho de 2014 (Copa do Mundo), de abril de 2014 até junho de 2015 (Ocupação do Complexo da Maré), agosto de 2016 (Jogos Olímpicos), outubro de 2016 (eleições municipais), fevereiro de 2017 (votação do pacote de austeridade), e a partir de julho passado, a implantação do Plano Nacional de Segurança no Rio.

A partir de julho, as operações do tipo Garantia de Lei e Ordem deram apoio em operações conjuntas e pontuais com as polícias Civil e Militar para combater o tráfico de drogas e os roubos de carga. Desde então, houve incursões nas favelas da Rocinha, Cidade de Deus, Jacarezinho, Mangueira, Tuiuti, Arará, Mandela 1 e 2, Barreira do Vasco, Complexo do Salgueiro, Anaia, São Carlos, Zinco, Querosene e Mineira. Como parte da GLO do Plano Nacional de Segurança, o Exército também foi usado na disputa de facções da Rocinha.

Embora a intervenção anunciada pelo presidente seja inédita, o ativista Ronilso Pacheco teme que as consequências sejam as mesmas das GLO feitas desde 1992. Para ele, a mídia tem bastante influência nesse processo que levou a decisão da intervenção, uma vez que o Rio é apenas o décimo Estado mais violento do país, segundo o 11º Anuário de Segurança Pública.

“Essa intervenção atende a uma histeria e provê uma resposta rápida”, avalia, pontuando porém, que as perspectivas não são boas. “Para os corpos pobres, que serão os corpos efetivamente controlados, para essa comunidade, essa mudança é muito pouco significativa. É até negativa.”

Depois de “confundir” faixa de torcedor europeu com homenagem a Lula e verso musical “Vai dar PT” (perda total) como tributo ao governo petista da Bahia, Gleisi Hoffmann divulgou uma fotomontagem de Sergio Moro, como se fosse imagem real, para tentar atingir a reputação do juiz.

“Afe, muitos interesses por trás! Menos os do povo!!!”, escreveu Gleisi no Twitter, ao compartilhar uma imagem de Moro à frente de um quadro de patrocinadores de evento e também a versão ampliada de uma parte do quadro, na qual se veem a logomarca do PSDB e a da Rede Globo.

Um cidadão então divulgou a foto original do juiz no evento em questão, com o crédito do fotógrafo Fabio Rodrigues Pozzebom, da Agência Brasil, na qual o quadro de patrocinadores não existe, como qualquer um pode comprovar em uma pesquisa rápida nos sites de busca.

“Eu conto, vocês contam ou ela já sabe?”, ironizou Thiago, o cidadão que denunciou a farsa.

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Walter Braga Netto: o general de Temer para comandar no Rio
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Segovia e Temer: abafa no caso do Porto de Santos

 

 

 

 

 

ARTIGO DA SEMANA

Do Porto de Santos, de Temer, ao Porto de Nápoles, de “Gomorra”

Vitor Hugo Soares

Caminha para desaguar no brejo – assim como a Reforma da Previdência, afogada pela intervenção militar e a indicação do General Walter Braga Neto para mandar, de fato, no estado do Rio de Janeiro-, a manobra desastrada (ou desesperada?) tocada pelo novo chefe da Polícia Federal, Fernando Segovia, com o infeliz propósito de abafar ou fulminar de vez as investigações que envolvem o mandatário atual da República, Michel Temer, no rumoroso caso do Porto de Santos.

Pior, mesmo, só o desastre e o quadro indecente de terra arrasada – sem governantes, sem lei, sem segurança e sem perspectivas – que o Rio apresentou ao mundo nos dias do carnaval. Agravado, na madrugada da quinta-feira, deste início da Quaresma de 2018, com o temporal que caiu na Cidade Maravilhosa, Baixada Fluminense e redondezas, cujo balanço de devastação, desabamentos, prejuízos, quatro mortos e mais de dois mil desalojados, segue seu curso. Em meio às mazelas e omissões de governador e prefeito, trêfegos e ausentes. E, desde sexta-feira,16, sob mando militar de imprevisíveis e sempre temerários objetivos e rumos.

Vamos por parte, para não transformar em caos definitivo, incluído no rol do “sem jeito”, a situação suficientemente grave que se apresenta agora. Na Quarta-Feira de Cinzas mesmo, o Jornal Nacional (TV Globo), divulgou os termos do memorando dos delegados da Polícia Federal que formam o Grupo de Inquéritos do Supremo Tribunal Federal, responsáveis pela investigação de detentores de foro privilegiado. Os delegados entregaram ao diretor de combate ao crime organizado da PF, Eugênio Rica, o protesto por escrito, produzido depois da extemporânea entrevista (para dizer o mínimo), do novo chefe da PF, distribuída pela Agência Reuters: “Em face dos recentes acontecimentos amplamente divulgados pela imprensa, os delegados integrantes deste Grupo de Inquéritos junto ao STF vêm a Vossa Excelência dar conhecimento de que, no exercício das atividades da Polícia Judiciária naquela Suprema Corte […], não admitirão, nos autos do inquérito 4621/STF ou em outro procedimento em trâmite nesta unidade, qualquer ato que atente contra a autonomia técnica e funcional de seus integrantes, assim como atos que descaracterizem a neutralidade político-partidária de nossas atuações”, diz o memorando em recado duro, direto e de certeira pontaria.

Resta saber se alguém (e quem) vai pagar para ver. Porque se efetivamente for levada a fundo uma investigação sobre malfeitos no Porto de Santos – não só neste caso nebuloso da Rodrimar, mas também mergulhando nas inúmeras denúncias acumuladas no largo período de controle do PMDB (Temer à frente) sobre o mais importante complexo portuário do Brasil-, a terra vai tremer. Em 1999, quando presidia o Senado e emendou os bigodes com o mandatário atual do País, Antonio Carlos Magalhães afirmou, de público: “As coisas morais nunca foram o forte do senhor Temer. Se abrir um inquérito no Porto de Santos, ele ficará péssimo”, disparou ACM. Premonitório? Responda quem souber.

Portos escondem segredos em suas docas, em seus navios, em seus contêiners e em suas águas. Roberto Saviano – jornalista infiltrado na máfia napolitana -, faz uma descrição tão esplêndida quanto terrível, no capítulo “Porto”, em seu livro-reportagem, “Gomorra”. Fala sobre o Porto de Nápoles: “O contêiner balançava enquanto a grua o deslocava para o navio. Como se estivesse flutuando sozinho no ar, o sprider, gancho que prendia a grua, não conseguia domar o movimento. Suas portas mal fechadas se abriram bruscamente e dezenas de corpos começaram a cair”… Mais não conto. Só recomendo, mais uma vez, a leitura do livro extraordinário.

Não deve ser a mesma coisa por aqui. Mas há quem desconfie – e até aposte – , que há segredos e esqueletos escondidos também nos contêiners do Porto de Santos. Metaforicamente ou não. Agora é aguardar, para ver onde os delegados da PF vão chegar.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br 

Postado no Facebook pelo jornalista ( e músico de primeira linha) Araken Gomes E Silva. Bahia em Pauta reproduz e agradece ao amigo do peito. 

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

fev
17

Postado em 17-02-2018 00:25

Arquivado em ( Artigos) por vitor em 17-02-2018 00:25

Soldado do exército patrulha a Linha Amarela, no Rio de Janeiro, em fevereiro deste ano. MAURO PIMENTEL AFP
Felipe Betim
Felipe Betim Jornalista | Periodista – El País
São Paulo

 

Há muito a palavra crise deixou de ser forte o suficiente para descrever a atual situação do Rio de Janeiro, de colapso financeiro do Estado, escalada da violência e decadência e prisões de nomes de sua classe política. Nesta sexta-feira, 16 de fevereiro, o panorama ganhou um capítulo dramático e inédito na nova democracia brasileira : a partir de agora, o terceiro Estado em população do Brasil passa a ter dois governadores em exercício em pleno ano eleitoral. Um deles continua sendo Luiz Fernando Pezão (MDB), que ficará responsável por todas as áreas da gestão estadual exceto a mais importante e espinhosa: a de segurança pública. O sucessor e pupilo do ex-governador Sérgio Cabral, preso e condenado, já havia admitido ter perdido o controle sobre essa área. Foi a pedido dele que o presidente Michel Temer, seu correligionário de partido, decretou nesta sexta a intervenção federal no Rio que, de acordo com o ministro da Defesa Raul Jungmann (PPS), confere plenos poderes de governador na área de segurança para o chamado “interventor federal”. Seu nome é Walter Souza Braga Netto, general do Exército e chefe do Comando Militar do Leste e, agora, chefe máximo das polícias Militar e Civil, Corpo de Bombeiros e da Administração Penitenciária fluminenses.

Muitos pontos do plano ainda seguem nebulosos e foi o próprio Braga Netto que deixou isso claro. Cabe ao general tomar todas as medidas que achar necessárias para conter o crime no Rio, incluindo o domínio das facções criminosas de alcance nacional. No entanto, em sua primeira coletiva de imprensa como interventor, ele limitou-se a dizer: “Recebi a missão agora, vamos entrar numa fase de planejamento. Não tem nada que eu possa adiantar, vamos fazer um estudo, fortalecer a segurança no Estado do Rio de Janeiro, somente isso”. Em momento posterior, disse que a situação do Rio não estava tão ruim e afirmou que o problema é que havia “muita mídia”. Coube ao general linha-dura e ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Sérgio Etchegoyen, falar sobre a intervenção federal e pedir apoio da população, inclusive nos momentos mais duros. Antes dele, Temer havia dito que “o crime organizado quase tomou conta do Estado do Rio de Janeiro. É uma metástase que se espalha pelo país e ameaça a tranquilidade do nosso povo”.

O decreto de intervenção federal deve passar pelo Congresso Nacional em no máximo 10 dias e será válido até o dia 31 de dezembro de 2018. Uma vez em vigor, nenhuma alteração na constitucional será permitida no Brasil, o que inclui uma eventual reforma da Previdência. Temer garantiu nesta sexta que pode revogar temporariamente seu decreto para que a reforma seja votada, mas isso não é o que está na Constituição e está longe de ser um consenso entre juristas. A oposição e analistas políticos já tratam a medida como uma cortina de fumaça para disfarçar o fracasso do Governo federal de levar adiante as mudanças nas aposentadorias e encaram a declaração sobre a possível suspensão apenas como retórica. Sai de cena um tema impopular como a Previdência e entra um de amplo clamor popular como é o da violência, que é nacional, o que poderia, se der algum resultado rápido, alavancar a pífia aprovação dos governistas antes das eleições presidenciais e estaduais em outubro.

Passo inédito e planos de segurança no papel

A decisão de intervir com as Forças Armadas em um Estado da Federação é inédita desde a redemocratização e abre um precedente incerto no Rio, que passou em poucos anos de ter uma relativamente bem-sucedida política de Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) nas comunidades a flertar com o status de Estado falido, com nova escalada criminosa. “É mais um passo na direção de sempre. Sacraliza o mito de que a solução passa pelo Exército, que a militarização é a solução”, argumenta o sociólogo Ignacio Cano, especialista em segurança pública da UERJ.

O general Walter Souza Braga Netto, que agora tem poderes de governador do Estado do Rio de Janeiro na área de segurança pública. Walter Souza Braga Netto
O general Walter Souza Braga Netto, que agora tem poderes de governador do Estado do Rio de Janeiro na área de segurança pública. SERGIO LIMA AFP
 

Em outras ocasiões, as Forças Armadas atuaram conjunto com as polícias Militar e Civil e sob ordens do Governo do Estado. De fato, um contingente de quase 10.000 homens das Forças Armadas já estava no Estado desde o ano passado, com resultados considerados frágeis. Antes, entre abril de 2014 e junho de 2015, durante o Governo de Dilma Rousseff (PT), as Forças Armadas ocuparam o Complexo da Maré a um custo de 600 milhões de reais para os cofres públicos e sem resultados efetivos. Em compensação, os relatos sobre abusos das tropas por parte de moradores não foram poucos. A diferença agora é que a hierarquia é outra: o general Walter Braga Netto atua como governador e deve se reportar diretamente ao presidente Temer e ao ministro do GSI, Sérgio Etchegoyen. Não está claro quanto isso custará aos cofres públicos, mas Cano argumenta que o dinheiro poderia ser gasto para recuperar o aparato policial do Estado, contratar policiais ou recuperar viaturas. “Essa intervenção federal pode gerar uma resistência nos aparatos de segurança, porque muitos não concordam. E não vai resolver o problema porque o Exército não investiga. Trata-se de uma operação cosmética para mostrar que os Governos estão fazendo alguma coisa”, explica Cano.

O decreto de intervenção federal deve passar pelo Congresso Nacional em no máximo 10 dias e será válido até o dia 31 de dezembro de 2018

Para a socióloga Julita Lemgruber, ex-diretora do sistema penitenciário do Rio e coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), a situação de falência na segurança pública já vem de anos. “O que me chama atenção é o fato de que outros Estados têm um quadro também muito grave. A intervenção no Rio responde a uma pressão da mídia que colocou o foco no Rio de Janeiro”, argumenta ela. “Não nos enganemos. A intervenção pode momentaneamente transmitir sensação de segurança, mas, se não resolvemos algumas questões básicas da política de segurança do Rio, não vamos a lugar nenhum”, diz.

E quais são essas questões básicas? Isso passa por discutir a política de drogas e como o Rio optou por enfrentar o varejo do tráfico. E por encarar com seriedade a questão da corrupção dentro da polícia, algo “grave e histórico”, na avaliação da especialista. “A gente sabe que grande parte dessas drogas e armas circulam com colaboração da polícia”, afirma a socióloga. Lemgruber fala de uma temática que não é nova no Estado, mas que desde 2008, com o projeto das UPPs, parecia estar encaminhada. Suas muitas falhas e seu posterior desmantelamento mostraram que o plano estava longe de ser estruturante e de longo prazo. E a população fluminense voltou a ficar refém de medidas improvisadas, mas que sempre implicam no uso ostensivo da força, para estancar a escalada de violência. Com resultados pífios até o momento.

A decisão aumenta o temor de que abusos contra os direitos humanos sejam cometidos, ainda mais em um contexto em que os militares não serão submetidos a um julgamento civil

Ainda não está claro como será a atuação das Forças Armadas desta vez. O ministro da Defesa apenas disse que pode haver tanto cerco em favelas como ações em rodovias. Para Cano, da UERJ, é possível que a intervenção federal no Rio de Janeiro seja inócua e se limite a colocar militares em ruas da nobre Zona Sul da capital fluminense para gerar uma sensação de segurança. A segunda opção, explica, é que seja “uma intervenção para confrontar o crime organizado” de maneira ostensiva, o que deixa o cenário “super aberto”. Não é à toa, ele lembra, que no final do ano passado foi aprovado o projeto de lei que retira da Justiça comum o julgamento de crimes de homicídios praticados por militares contra civis. Cabe a Justiça Militar julgar esses crimes, o que retira o controle civil sob as ações das Forças Armadas. “A intervenção é algo sondado já faz algum tempo, não é algo de agora. Já haviam falado em chamar um general para a secretaria. A ideia de que é uma resposta ao Carnaval é ingênua. Há um projeto político”, afirma o especialista em segurança pública.

A decisão de apostar mais uma vez no uso da força e o poder policial conferido às Forças Armadas, ainda mais em um contexto em que os militares não serão submetidos a um julgamento civil, aumenta o temor de que abusos contra os direitos humanos sejam cometidos. “Nós, jovens e moradores de favela, vivemos os reflexos das mesmas ‘táticas’ quando diversas casas foram invadidas pelos militares, durante a invasão em 2010, no Complexo do Alemão e Penha. Já vimos o mesmo acontecer na Maré e, mais recentemente, no Jacaré, Rocinha e Cidade de Deus, Acari e arredores. Vemos as Forças Armadas serem empregadas para fins de segurança pública na cidade do Rio de Janeiro há pelos menos três décadas”, disse em nota o grupo Movimentos, um coletivo de 15 jovens de favelas e periferias do Brasil que questiona e se opõe à política de guerra contra as drogas. “Nenhuma dessas intervenções trouxe paz e segurança para os moradores das favelas e periferias. Ao contrário, trouxe invasões de casas, violência, tortura, roubos e estupros. Intervenções militares custam caro, não são sustentáveis ao longo do tempo e, quanto mais tempo duram, mais violações de direitos trazem”, acrescenta. O grupo ainda diz que a intervenção “está do lado oposto ao nosso no debate sobre a guerra às drogas, que tantas vítimas vem fazendo ao longo destes anos”.

O escritor e cronista Anderson França, conhecido como Dinho e morador do Cachambi, na periférica Zona Norte do Rio, descreve este temor de que mais abusos sejam cometidos. “Para o sujeito comum que está na comunidade, a sensação de medo está aumentando. Hoje eu vi pessoas nas redes sociais dando dicas: ‘Saiam com seus comprovantes de residência E nota fiscal provando que o que é seu é seu, levem identidade, avisem alguém no zap por onde anda….’ É uma sensação terrível. Porque serão esses moradores que vão pagar o preço. Do Alemão, da Maré, da Rocinha, das periferias…”, explica ele, que diz ter a sensação de estar vivendo em um estado de sítio. “O general é hoje o governador na área de segurança. É uma resposta muito dura, muito pesada. A primeira vez que minha geração vê isso”, argumenta. 

Já o arquiteto e urbanista Washington Fajardo afirma que a questão de segurança no Rio é um problema urbano e histórico que, a longo prazo, só pode ser resolvido com uma política séria de habitação e de transporte público. “O problema que existe no Rio, que não é diferente do que existe em outras cidades, é a segregação espacial, que faz com que exista um poder paralelo em diversos territórios”, explica ele. E o Rio expõe isso como nenhuma outra cidade. Isso significa, acrescenta, “que milhões de brasileiros estão fora da cidade e estão sujeitas a outro tipo de poder”.

fev
17

Postado em 17-02-2018 00:23

Arquivado em ( Artigos) por vitor em 17-02-2018 00:23


 

 

Pater, no jornal (ES)

 

fev
17

 
Crivella vai ao Facebook rebater a Globo
O prefeito do Rio, flagrado por O Antagonista em Frankfurt, acaba de publicar um longo post sobre a intervenção federal em seu perfil no Facebook.

Nele, Marcelo Crivella dá uma alfinetada em Luiz Fernando Pezão –“lamento muito que a crise da segurança no Rio de Janeiro tenha chegado a um nível insustentável até mesmo pelo governo do Estado” –e volta a dizer que já havia pedido “diversas vezes” o reforço das Forças Armadas.

“Diferente do que veicula a Rede Globo, estou trabalhando muito para trazer bons resultados para a nossa cidade”, acrescentou o prefeito.

Jair Bolsonaro, deputado federal (PSL-RJ), postulante a candidato à presidência da República, ao manifestar-se contrário ao decreto do presidente Michel Temer de intervenção federal e a nomeação de um general para comandar o Rio de Janeiro.

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General Walter Braga Neto vai mandar no Rio

O presidente Michel Temer deve decretar uma intervenção na segurança pública do estado do Rio de Janeiro nesta sexta-feira (16), informou o presidente do Senado, Eunício Oliveira.

Com a medida, serão as Forças Armadas as responsáveis pelo comando tanto da Polícia Militar como da Polícia Civil. Assim que o decreto for publicado pelo presidente, ele deve ser encaminhado pelo Congresso Nacional, em até 10 dias, que precisa aprovar ou rejeitar a decisão.

Conforme informações de fontes do governo, a decisão teve a concordância do governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, e foi aprovada durante uma reunião emergencial no Palácio da Alvorada na noite desta quinta-feira (15).

O interventor seria o general Walter Braga Neto que, na prática, substitui Pezão na área de segurança pública do estado.

O estado do Rio de Janeiro vê a crise na segurança se agravar dia após dia, tanto por parte da população civil, vítima do fogo cruzado entre bandidos e policiais, como nas próprias corporações, que somaram mais de 100 mortos no ano passado.

Segundo a Constituição brasileira, no caso de uma intervenção federal em qualquer estado, nenhuma medida poderá alterar a Carta Magna do país. Ou seja, se realmente entrar em vigor, a desejada reforma da Previdência de Temer poderá ficar fora da pauta. A votação estava marcada para a próxima semana. (ANSA)

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 ARTIGO
Além de um fricote
Lilian Machado

Uma catarse de alegria e chão desvendado por pés que andam e pulam sem parar, atrás de uma imensa caixa de som que eleva o poder da música. Em cima dessa definição chamada trio elétrico, versos, acordes e batidas ampliam a euforia de quem está embaixo. O folião entra naquela onda sonora e se inebria com passos e danças que surgem sem ensaios – é o corpo que pede e responde aos apelos.

Essa emoção eu vivi na experiência de pular atrás do trio elétrico de Luiz Caldas, no Carnaval de Salvador, trajeto Barra-Ondina.

Depois de alguns anos sem ir àquele circuito da folia, decidi arriscar a volta até o lugar “serenado” pelas águas do mar e abençoado pelo Farol e o Cristo. Há algum tempo resistia ao corredor que havia se transformado numa vitrine de televisões e camarotes. Mas, era preciso conferir de perto o que se propagava como o “novo” carnaval sem cordas da Bahia, em um dos mais efusivos locais da folia.

As companhias é bem verdade valeram muito mais. No carnaval, a energia do folião do lado tem que vibrar igual a sua senão não presta. A combinação existiu, portanto, a alegria eclodiu, aconteceu! Mas Luiz Caldas ajudou demais. Foi fácil se contagiar com o seu repertório.

Com Visão do Cíclope (Quero ver toda a massa cantando reggae
sem se importar com a coisa que me carregue), Luiz explodiu a multidão que o acompanhava.  Era gente demais, gente que reconhece aquele que muitos resumem apenas, como pai do Axé Music, mas que representa muito mais para a deusa música.

Clássicos do Carnaval, de Moraes Moreira, Armandinho, Jerônimo, entre os próprios de sua conhecida carreira receberam o brilho dos solos de sua guitarra. Assim, Luiz contagiou a massa, ferveu o chão, fez a alegria do folião pipoca, como se diriam nas definições clichês da festa. Assim nos fez amar aquela noite de Carnaval. 

Já tinha noção sobre o seu talento e afinco musical, mas só pude ter certeza neste Carnaval ao pular junto a sua pipoca.

Entre aqueles que ainda não o conhecem ouso o convite. Como amante da música, vocacionado, aprendiz diário de novos arranjos, Luiz não faz marketing,  mas abriu um portal na internet, onde disponibiliza música gratuita, com a intenção de lançar um álbum por mês. 

Já são 64 discos, 700 músicas gravadas e 25 milhões de downloads, numa prova de que a sua vida musical foi muito além de um “Fricote”.   

PS: Fricote é o nome do primeiro sucesso de Luiz Caldas.
Lilian Machado é jornalista, ex-repórter de política da Tribuna da Bahia, premiada mais de uma vez pela melhor cobertura da Assembleia Legislativa da Bahia
 

 

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