nov
16

=======================================================

CRÔNICA

DETALHES

Maria Aparecida Torneros

Como profetizou o Rei Roberto, o tempo pode até transformar todo o amor em quase nada, mas um dia , muitos anos depois, você acorda e não é que lembra dele, por um detalhe, um movimento qualquer do dia-a-dia que faz com que sua lembrança volte, de repente, mesmo que o sentimento tenha se escafedido, o cara reaparece por uma frase que alguém disse, ressuscitado pela magia da memória que devolve o encanto por algum milésimo de segundo. E você se pergunta: onde ficou aquela criatura que me despertou a tal paixão avassaladora daqueles dias da minha mocidade?

Aliás, em tempos de tanto botox, tanta cirurgia plástica, tanta academia, haja “curves”, para conter o avanço da velhice sobre a juventude que se torna objeto de cultivo raro… por seu bom humor e inconsequencia, muito mais do que por sua contaminação de beleza, leveza, soltura de gestos, falta de dores musculares, ou coisa que o valha, pensemos, em contrição e com certa compaixão por nossa caminhada em mundo tão visual, onde parece até que ter peitos e coxas, bundas e faces, etc, etc, conservados em formol, daria a chave para abrir as portas do paraíso…

Como não se curvar diante daquele pequeno detalhe que alguém nos legou para florescer, exatamente, 20, 30, 40 anos depois, como se fora um feitiço virando contra o enfeitiçado? Aí, o som daquela voz antiga volta como num filme, o brilho de certo olhar insistente e pedinte ressurge das cinzas, o desenho de uma boca, de um nariz e até o contorno dos dedos dos pés podem oferecer registro póstumo para um amor que já morreu, uma daqueles transformado em “quase nada”, que, como diz a própria canção , o próprio “quase também é mais um detalhe…

Aí, melhor embarcar na sucessão de “quases”, deixar-se levar pela emoção revivida, anunciar ao velho coração que “tá tudo bem”, que pode se permitir reviver, rememorar, talvez o gosto de um velho beijo, quem sabe o calor de um abraço que virou nada, até a sensação da presença de alguém que a vida já levou para o outro lado, e a gargalhada, seu eco, sua marca, suas piadas, a luz da sua passagem em nossas vidas, pode ser de gente que está viva, nos deu momentos sublimes, e saiu por aí, casando e descasando, como todos nós, buscando pares novos para velhos desejos de sermos felizes…

E estar feliz é exatamente isso, é ter boas recordações, viver intensos encontros, continuar na luta em função de armazenar detalhes tão pequenos que um dia, ora, pode ser hoje e agora, nos tornam pessoas grandes, profundas, maduras, agradecidas por termos lembrancinhas de amores passados, pérolas de brilhos rejuvenescidos, tesouros interiores.

São tantass coisinhas miúdas, patrimônio nosso de cada dia, como o “pão nosso”, como o detalhe nosso, aquele que deixamos marcado em gente que nos ama ou já amou, nos recorda, e até nos reaparece numa manhã de terça-feira, como um presente que o correio deixou de entregar, levou anos na prateleira, e lá vem ele, exatamente no instante em que a gente descobre que estar vivo para reviver, é uma chance única, só nos resta agradecer…

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher necessária

nov
11
Posted on 11-11-2010
Filed Under (Crônica, Janio) by vitor on 11-11-2010

Amado Batista: sucesso de fato

=========================================================

CRÔNICA/AFOGAMENTOS

Chico Buarque, Amado Batista e Florentina

Janio Ferreira Soares

Essa onda de discriminação contra os nordestinos por conta da grande votação de Dilma é apenas mais uma das milhares que acontecem diariamente no Brasil. A maioria é disfarçada e silenciosa, como quando alguém entra num restaurante estrelado destoando do padrão estético estabelecido (de bermudas, por exemplo) e recebe uma sequência de olhares fulminantes que começa pelo porteiro, passa pelo garçom, se acentua no maitre e chega ao ápice com o cochicho dos comensais. Outras são mais abertas e corajosas, como a opinião dessa garota que sugeriu nos afogar. Só acho que ela deveria ter apontado quais seriam nossas alternativas.

Deixaríamos este vasto mundo nas profundezas de uma cacimba ou na turvez de um barreiro meado? Sob as pontes do rio Capibaribe ou de susto, com um balde de água jogado na nossa cara, já que temos a fama de não conhecer muito bem o líquido? E quem nos afogaria? Paulistas de escafandros Lacoste ou gaúchos de bombachas flutuantes?

Seguiríamos pacificamente rumo ao asfixiamento ou puxaríamos a nossa temida peixeira para reagirmos de acordo com a lenda lampirônica que habita esses rincões? Detalhes, minha filha, detalhes.

A verdade é que tudo que tem um apelo popular tende a ser taxado preconceituosamente. Um exemplo que até hoje gera calorosas discussões é a tal breganização da música brasileira. Em qualquer roda de chope com fundo musical mais elaborado, neguinho puxa logo o mote de que bom era no tempo em que só Chico, Caetano, Tom Jobim e afins “faziam sucesso”. Que sucesso, cara pálida? Eles faziam música de qualidade, mas sucesso quem faz é Amado Batista e os sertanejos de calças justas – que vendem milhões de discos e lotam ginásios -, ou o cearense Tiririca, que usando a força de um personagem se elegeu com mais de um milhão de votos, coincidentemente na terra da moça que prega o nosso fim.

Mas o negócio é relaxar, como faz um gay da região, que diz que vai se vestir de Florentina e se afogar na foz do São Francisco, pois lá é a maior concentração de Nego D’água por metro cúbico do rio.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

nov
01
Posted on 01-11-2010
Filed Under (Crônica, Gilson) by vitor on 01-11-2010


=====================================================

Bahia em Pauta traz para seu espaço principal as palávras postadas no espaço de comentários deste site blog pelo jornalista e poeta Gilson Nogueira sobre a morte de Ildásio Tavares e a sensação de orfandade intelectual e de vazio humano que a notícia provoca em gerações de baianos, como este editor do BP. Confira. (VHS)
=====================================================

CRÔNICA/UM POETA

BAHIA QUE MORRE

Gilson Nogueira

Abro o computador com a mesma sede de informação que me faz ,no início do dia, ler o jornal. Os olhos batem na notícia da morte de Ildásio Tavares. A sempre mesma dor da perda de um amigo deixa-me sem palavras. No lugar delas, a exclamação: Oh,Deus! E um silêncio se transforma em prece de pedir a Ele que o receba em festa porque o grande poeta Ildásio foi a Bahia em carne e osso. Ao mesmo tempo, a lágrima que chora sua partida estimula o riso por sabê-lo vivo. E ele ,feito santo, de bata branca, parece surgir de sandália de couro no altar de minhas sagradas lembranças.

Eis o homem, magnificamente inteligente, literaturalmente belo, deixando-me orgulhoso por ensinar-me a tratar a poesia como se lapida diamante. Sob o sol de um sábado que iluminava nosso encontro, vivi, um dia, no Porto da Barra, entre uma dose e outra de um uisque honesto, um dos maiores instantes na face da Terra,na companhia de um gênio.

Ao meu lado, Ildásio, dando o terceiro tratamento em um poema que escrevi para meu pai, sacudiu-me o peito de orgulho por ser seu súdito. Senti em sua pena iluminada, no momento, em que ele escrevia ser Gilson mistura de vinagre e mel, a reverberação do som do tambor que saúda o orixá da palavra, o doce cumprimento verbal do boêmio cheio de festa e fantasia e a manha do capoeirista que não temia a cara feia do diabo. Afinal, para mim, e para muita gente mais, Ildásio possuia, no seu jeitão desassombrado, um certo quê de Deus das Letras, um jeito debochado de uma santidade mulherenga. É isso!

Que porra, Ildásio!!! Vai ser fodinha sorrir sem você daqui pra frente ? Ah, tome uma com o Pai!

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador e amigo do Bahia em Pauta desde o começo do site blog.

nov
01
Posted on 01-11-2010
Filed Under (Crônica, Regina) by vitor on 01-11-2010

Depois de Schwarzenegger a Califórnia…

…escolhe entre Jerry e Meg

==================================================

CRÔNICA/ MUNDO

DEPOIS DO BRASIL, A CALIFÓRNIA

REGINA SOARES
Direto de San Francisco(Ca)Depois da eleição de 31 DE OUTUBRO no Brasil agora é a vez da Califórnia. Amanhã, 2 de Novembro estaremos dizendo “hasta la vista” a Schwarzenegger e escolhendo outro/a para botar no seu lugar.

Se vocês pensam que nossa tarefa é mais amena do que a escolha entre Dilma e Serra, se enganam.

De um lado, o Democrata Jerry Brown, velho político de carreira, ex-governador da época em que esta que vos fala desembarcava por essas terras. Do outro, a Republicana Meg Whitman, noviça na política, mas com extenso currículo no mundo dos negócios e economia, ex presidente e CEO da eBay de 1998 a 2008, multimilionária, já gastou perto de $142 milhões do seu próprio bolso para alcançar o governo de uma das regiões mais importantes dos Estados Unidos.

Nenhum deles entusiasma os californianos, que atravessam umas das piores crises econômica e altas taxas de desemprego.

A disputa é também acirrada, embora as pesquisas de intenção de voto assegurarem uma pequena margem a favor de Brown, Whitman está jogando tudo, além do dinheiro, na sua capacidade de reerguer o Estado Dourado.

Por ironia do destino, o voto latino poderá resolver essa parada. Aqui, podemos votar com antecedência e por correio, muitos dos votos já estão sendo computados, faltam os dos indecisos. Pelo que parece até aqui, Jerry tem motivos para estar “happy” e Meg “worried”.

Desinteresse geral, mas…

Dentre as proposições de leis, isso mesmo, nós, como eleitores, votamos em varias iniciativas colocadas na célula eleitoral através de abaixo assinados dos eleitores registrados, que, se alcançarem a maioria dos votos, passarão a ser lei, está a legalização, para uso recreativo, do uso da marijuana (cannabis), como o aborto, outro assunto com características “demoníacas”, e talvez possa levantar os ânimos, pró ou contra…é só esperar, pra ver…

Regina Soares, advogada, especializada em eleições nos Estados Unidos, veve há mais de 30 anos na Califórnia e mora atualmente em Belmont, na área da linda Baia de San Francisco, mas sempre de olho na sua não menos linda Baia de Todos os Santos.

out
31
Posted on 31-10-2010
Filed Under (Aparecida, Crônica) by vitor on 31-10-2010


==========================================================

CRÔNICA/DO DIA

Pero que las hay, hay

Aparecida Torneros

Uma lenda da Galícia, terra minha avó Carmen e da minha bisavó Manuela, conta que as Meigas (como são chamadas as bruxas por ali), não possuem pelos pubianos, são mestras em aparecer e desaparecer, capazes de ajudar os aflitos, protegem mulheres perdidas e acendem luzes nos caminhos dos peregrinos andarilhos, para que alcancem o fim das suas trilhas, com sucesso.

Mas, é voz corrente que elas são atentas além de boas cobradoras, se andam soltas nos solstícios ou equinócios, em festas que seitas e tradições lhes oferecem, não se descuidam de afazeres cotidianos. Atendem pedidos, esforçam-se para superar as marcas da terrível inquisição, continuam a produzir poções e unguentos, curam feridas físicas e morais, providenciam pares para soldões aparentemente irreversíveis, viajam de avião, modernamente, travestem-se de jovens bem vestidas, algumas vezes estão nos escritórios em pele de executivas ou comandantes de governos, são mulheres modernas, seguem reencarnando em corpos suficientemente capazes de suportar seus dons que continuam surpreendendo os desavisados ou descrentes.

Bruxas, Meigas, Fadas, Feiticeiras, Médius, Sensitivas, quaisquer nomes que assumam, em verdade cumprem missão nos seus povos, através dos tempos, surgem em comunidades ciganas, em aglomerados de periferias, em clubes de bairro, em escolas de governos, em competições olímpicas, em pleitos eleitorais, em salas de aula, em salões de danças, em sets de filmagem, elas se multiplicam, assustadoramente, em olhares hipnotizadores, em perfumes extasiantes, são adeptas do no sense, ou do inebriante instante de prazer , dominam ambientes, param o tempo, proporcionam mudanças de dimensões, passam enganos, deixam que muitos imaginem que estão sonhando, os tiram da realidade, propositadamente.

Hoje, no tal “dia das bruxas”, a la americana, são mostradas como figuras menores, aliadas a abóboras iluminadas, em rituais infantilizados, o que não as incomoda, de modo algum. De tão sábias, em milhões de anos à frente da humanidade aprendiz, elas aproveitam a data e se soltam por aí, nas entrelinhas do tempo, penetram pensamentos cuja guarda se abre, e plantam fé.

Misteriosas, as Meigas influenciam meditações dos que precisam respostas e ainda, de quebra, salpicam dúvidas nos que julgavam detentores de verdades absolutas.

Só brincalhonas, divertidas, mas sabem ser responsáveis nos instantes de dores e dramas, se necessário, fazem dormir e esquecer, acalmam corações aflitos, oferecem chance de aconchego e paz aos que se acham decepcionados ou desesperançados.

Mas, é preciso sintonizá-las, nas noites de lua cheia, por volta da meia-noite, seu zumbido perpassa ouvidos sensíveis, seu perfume inunda narinas delicadas, sua luz ofusca quartos escuros, sua aura desencanta os medos e acende o céu dos insensatos medos, clareando espaços dignos de fantasias impossíveis.

Duma coisa estamos certos, elas estão soltas e devem continuar assim, não as tentem prender, são seres esvoaçantes por natureza, entram e saem das nossas vidas, com o desvelo da liberdade absoluta, não há nada a questionar e nem cadeados a trancar.
Deixem-nas assim, livres como os pássaros, porque Bruxas são criaturas além da nossa compreensão e habitam entre nós em forma de mulheres que todos conhecemos, que identificamos e nos põe interrogações cujas respostas não encontraremos nunca! Se, no meio da madrugada, lhes ouvirmos a gargalhada sonora, ecoando pelo infinito, melhor guardar sua voz como o símbolo do grito do tempo.
Cabe-nos respeitar o delírio do seu riso solto, penetrante, reverberante, aquele riso forte, restaurador e assustador, inquietante e mesmo assim, apaziguador de nossas almas que buscam o elo perdido entre os místicos poderes que sua energia é mestra em administrar. A elas, nosso silêncio e nosso olhar atento, além, claro , de ouvido ansioso por algum cântico que nos revele o paraíso além do universo !

(Aparecida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária )

Caraibeira em flor: espanto para ETs/Janio

——————————————————————————————–

CRÔNICA/ SERTÃO
A invasão do sertão amarelo

Janio Ferreira Soares

Para relaxar de tanta política, um filme. De ficção. O início se dá num planeta distante e seco, com milhares de alienígenas tentando encontrar um novo lar, já que o deles será extinto em breve.

Desesperadamente eles procuram planetas com características favoráveis, até que a imagem da Terra aparece no telão. Em seguida a câmera dá um zoom num ponto amarronzado e surge o sertão nordestino acompanhado daquelas letrinhas estilo Matrix, com informações do tipo: Sol e seca o ano inteiro, um povo pacato que na sua maioria vive com um cartão que lhe dá um pouco de comida e bebida no fim do mês, e o melhor de tudo: nenhum sinal de vegetação colorida ou flores, já que os ETs sofrem de uma alergia mortal. Perfeito.

Depois que todos aprovam a invasão balançando as mãos compostas apenas do polegar e do mindinho – fato que deixa a assembléia com ares de um convescote de surfistas fazendo o sinal de hang loose -, a tela escurece e na cena seguinte surgem centenas de naves partindo em nossa direção. Um close no mapa indica as coordenadas do local a ser conquistado. “9°39’3″S 38°42’7″W, Estação Ecológica Raso da Catarina.

Corta para a Terra, primavera no sertão do São Francisco, Paulo Afonso (BA). Alheias ao perigo crianças brincam nas praças cercadas de flores, com destaque para as belíssimas caraibeiras, que nessa época do ano ficam lindamente amarelecidas, especialmente no Raso da Catarina, onde, em minutos, os invasores chegarão e terão uma surpresa.

Dentro das naves, desespero. O líder quer saber quem traçou a rota, já que este não é o sertão prometido. Depois de muita discussão eles somem por trás de uma Lua crescente que, com seu traço feliz e envolta pelo dégradé das cores do pôr-do-sol, lembra um bago de tangerina sorrindo. A voz de Luiz Gonzaga canta “Não há, oh gente, oh não, luar como este do sertão…”. Sobe o letreiro: “Este filme é dedicado aos “alienígenas” Dilma e Serra, que também se assustariam se vissem as caraibeiras de outubro chuleando seus pontos dourados sobre a manta marrom da caatinga”. Fim.

Janio Ferreira Soares, cronista baiano, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso (Ba), no vale do São Francisco. Mora à sombra de caraibas em flor no sertão baiano.

out
18

Serrinha(Ba): estação sem o trem de gente
==================================================================
Crônica/Tempo e lugares

O Maracassumé e o trem faminto

Gilson Nogueira

A louça era branca, como, branco, o avental do professor de desenho do Colégio São Bento, Arlindo. Com ele nos ensinando trabalhos manuais, começávamos a utilizar régua e compasso, no despertar dos “artistas” e, principalmente, do fazer bem os trabalhos, a fim de tirar boas notas, a caminho de mais um ano a ser vencido na estrada da vida, expressão esta bastante utilizada por aquele garoto tirado a poeta que, um dia, já formado, ao encontrar-se com o mestre de trabalhos manuais, disse-lhe: “ Você continua o mesmo, Arlindão, não mudou nada, forte e simpático, que Deus o conserve, sempre jovial, com esse seu carisma, professor!” Nunca mais vi o bom Arlindo!

Voltando à louça. Havia, também, pratos, bule de café, açucareiro, mantegueira, potes e outros apetrechos de mesa, em azul e branco, com aqueles desenhos de cavalos e castelos e um nome inglês indicando haver sido fabricados na Europa.

O ar de silêncio e cheiro de coalhada, sem esquecer o de perfumes de coisa antiga e de alecrim, invadiam cozinha,salas, quartos e a varanda, onde havia um sino, cor de ouro, tocado por tio Dida, toda vez que ele nos via chegar, nas férias, para uma visita, acompanhados dos nossos pais.

A primeira vez que ouvi o som daquele sino aconteceu na primeira visita. Justamente, dia do batizado! Não sei, não lembro se foi meu ou de anjos, e passarinhos, de todas as cores, que voavam lá, dia e noite, como se o paraíso fosse, ali, naquele local com pinta de presépio, perto da Estação e do Matadouro.

Recordo, com clareza, que, depois de pedir a benção ao irmão de minha avó paterna, que Deus a tenha, a primeira coisa que eu fazia era correr para a entrada do Sítio Maracassumé, montar na cancela ,e ficar a ver o trem passar. Já escrevi sobre ele, o trem faminto, em texto que enviei, não lembro quando, para a Tribuna da Bahia, jornal que, ao folheá-lo, até hoje, sinto a pulsação do novo e o exalar dos seus ideais calcados no forte propósito democrático, há mais de 40 anos, preconizado por seus fundadores, antigos e novos dirigentes e colaboradores.

Foi, ali, em Serrinha de minhas doces lembranças de brincadeiras de criança, como fazer de conta que era caubói, atirando com a ponta do dedo indicador da mão direita, que, ao pescar piabas e traíras, no riacho da Bela Vista, vendo o trem passar no pontilhão, sobre o Açude da Bomba, onde imaginei o dia em que não veria mais o trem faminto.

Foram-se os anos de criança, ficaram recordações que dão sabor especial ao cardápio de saudade daquela época em que o mundo parecia outro, literalmente. Não havia violência. Isso é tudo. E não estou tão distante, assim, dos tempos de criança. No pontilhão, atualmente, passam trens, de carga, somente, não mais como antes, aos montes.Os de passageiros, pelo que soube, “já eram!”.

– Um moço de Salvador falou que o trem de gente pra Juazeiro vai voltar, com aquelas máquinas porretas, sem chaminés, mais rápidos!”
Tomara! As locomotivas dos antigos trens, pretas e douradas, inglesas, quando passavam, imponentes, engoliam trilhos, distâncias, retas e curvas, ziguezagueando feito serpentes , no mato, em busca de mais comida, imaginava eu, que ficava contando o número de vagões do bicho e dando adeus para as pessoas nas suas janelas, como se todas elas fossem da minha família. O mundo parecia mais feliz. As pessoas sorriam mais.

Gilson Nogueira

out
15
Posted on 15-10-2010
Filed Under (Crônica, Janio) by vitor on 15-10-2010

Dilma na Band

=====================================================

CRÔNICA DE CAMPANHA

A romaria da beata Dilma

Janio Ferreira Soares

O último debate da Band foi o mais animado de todos e serviu para mostrar aos eleitores um pouco da verdadeira Dilma Rousseff, fato até então exclusivo de alguns petistas e colegas de governo. Marina Silva e Sérgio Gabrielli que o digam.

À vontade, ela mandou diversos cruzados no fígado de um surpreso Serra, além de mostrar um tipo de olhar que, como bem observou Carlos Heitor Cony, lembrou o de Collor. Já eu fiquei mais preocupado com uma pequena veia que se dilatava acima do seu olho esquerdo toda vez que ela se irritava. Culpa da TV de Alta Definição.

Dias depois, quando todos esperavam mais golpes, eis que ela apareceu exibindo um semblante calculadamente divinal durante uma missa no santuário de Aparecida – fato que eu presumo inédito em sua biografia, já que a Folha de São Paulo a flagrou passando batida na hora do sinal da cruz –, como se fora uma cópia sem credibilidade do caipira pirapora da bela canção de Renato Teixeira, Romaria, que, por não saber rezar, foi lá apenas mostrar o seu olhar e pedir a Nossa Senhora que iluminasse a mina escura e funda da sua vida. Serra também fez o mesmo, mas, mostrando certa intimidade, até comungou. A dúvida que fica é até que ponto essas encenações são verdadeiras.

Confesso que não sou a pessoa mais indicada para discorrer sobre este assunto, apesar de batizado, crismado e criado entre tias devotadíssimas, hóstias não bentas e foguetes estocados para iluminar o Céu nas noites frias da trezena de Santo Antônio da Glória. Mas, em conversas com meu amigo Dom Guido, Bispo de Paulo Afonso, fiquei sabendo que esse tipo de fé repentina não convence muito, já que Deus costuma analisar o conjunto da obra e não somente gestos praticados com segundas intenções e sem o aval do coração – a exemplo desses jogadores que apontam para o Céu toda vez que marcam seus gols,dando a entender que só eles fazem tabelinha com o Divino.

Portanto, devagar com o andor, que o santo, apesar de ser de barro, sabe perfeitamente distinguir quem é do ramo ou quem é devoto do pau oco.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

out
09


=====================================================
A versão de Imagine como Regina mandou. Agora abriu.
Ficam as duas versões no BP. BOA TARDE!!!

CRÔNICA: UM GÊNIO

IMAGINE

HAPPY BIRTHDAY JOHN!!!

REGINA SOARES

De San Francisco – Califórnia
É difícil imaginar John Lennon com setenta anos, mas a julgar pela festa que está preparada para celebrar seu aniversário, de Los Angeles a Liverpool , ele segue influenciando gerações além do século 20. Sua natureza rebelde e presença de espírito, transpareciam em seus atos, sua música, poemas, escritos e estendiam-se através do mundo com a força que vem, como ele mesmo dizia, do amor.

My role in society, or any artist’s or poet’s role,
is to try and express what we all feel.
Not to tell people how to feel.
Not as a preacher, not as a leader, but as a reflection of us all.

John Lennon

Como membro dos Beatles e na sua carreira depois deles, John mostrou ao mundo, através de suas composições, que rock ‘n’ roll poderia ser mais que uma música de três notas.

We’ve got this gift of love, but love is like a precious plant.
You can’t just accept it and leave it in the cupboard
or just think it’s going to get on by itself.
You’ve got to keep watering it.
You’ve got to really look after it and nurture it.
John Lennon

E o amor foi sempre sua motivação e razão de viver.

It matters not
Who you love
Where you love
Why you love
When you love
Or how you love
It matters only that you love.
John Lennon

Percebendo que a máquina da sociedade é dirigida por maníacos com sórdidos objetivos, nos lembrou da importância de agir em nome da paz.

If everyone demanded peace
instead of another television set,
then there’d be peace.
John Lennon

A dream you dream alone is only a dream.
A dream you dream together is reality.
John Lennon

Nós embarcamos nesse barco nos anos sessenta, nossa geração, íamos em busco do novo mundo.

The thing the sixties did was to show us
the possibilities and the responsibility that we all had.
It wasn’t the answer.
It just gave us a glimpse of the possibility.
John Lennon

E as possibilidades são infinitas…

Imagine there’s no Heaven
It’s easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today

Imagine there’s no countries
It isn’t hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace

You may say that I’m a dreamer
But I’m not the only one
I hope someday you’ll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world

You may say that I’m a dreamer
But I’m not the only one
I hope someday you’ll join us
And the world will live as one

Regina Soares, advogada , mora em Belmont, na área da Baia da San Francisco, Califórnia.

out
05
Posted on 05-10-2010
Filed Under (Crônica, Janio) by vitor on 05-10-2010

======================================================

CRÔNICA/ UMA CANÇÃO

Quem vai para o trono?

Janio Ferreira Soares

Eu tenho um amigo que sempre compara eleição a um programa de calouros. Ele explica que quando o apresentador pergunta a opinião dos jurados sobre o desempenho dos aspirantes ao estrelato, invariavelmente eles dizem algo do tipo: “gostei muito da voz do rapaz que cantou Raul Seixas, adorei o outro que imitou Silvio Santos, mas vou votar na mocinha que interpretou Detalhes.” Na mosca.

Tanto no auditório quanto no teste das urnas, nem sempre vence o melhor ou o mais simpático. Conheço várias pessoas agradáveis e cheia de amigos que, induzidas a testar sua popularidade numa eleição, perderam justamente para aquele candidato antipático, mas que “canta Detalhes” como ninguém. Creio ter sido esse o principal problema de Dilma.

Quando Lula a escolheu como candidata e começaram os questionamentos por ela ser mais conhecida pelo seu jeito durão e técnico do que por algum atributo político, imediatamente os milagreiros do marketing começaram a adequá-la ao manjado padrão eleitoral vigente que acompanha todos os candidatos, que é o: “veja-como-eu-sou-uma-pessoa-simpática-católica-umbandista-evagélica-e-preparada-para-o-que-der-e-vier-sempre-com-um-sorriso-forçado-no-rosto.” E aí repaginaram o seu antigo visual de professora de matemática que toma a tabuada batendo a régua no birô, ajeitaram o seu cabelo, mas se esqueceram de um detalhe fundamental: não lhe ensinaram a cantar “aquela” canção do Roberto. Dizem que foi aí que começou a se desenhar o segundo turno.

De qualquer maneira, o eleitor/jurado terá uma segunda oportunidade para comparar e julgar as novas performances de Serra e Dilma, agora numa versão mais acústica, já que o metaleiro Plínio foi gongado. E acredito que os marqueteiros já devem ter traçado novidades para os seus pupilos, como talvez um duo formado por Serra e Alckmin mandando uma moda de viola, ou então Dilma, Wagner e Tarso Genro, numa mistura tri-legal de milonga, axé e dança búlgara. Uma dica: como Marina está rouca e dá sinais de que não quer ser vocalista de ninguém, o nosso Ey-Ey-Ey-Eymael se encontra disponível para qualquer canja.

Pages: 1 2 3 4 5 6 7 8

  • Arquivos

  • outubro 2018
    S T Q Q S S D
    « set    
    1234567
    891011121314
    15161718192021
    22232425262728
    293031