fev
20


Usina de Paulo Afonso: poder de iluminar
e desligar as luzes do Nordeste
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CRÔNICA/LUZES

Apagão, Ronaldo e estrelas

Janio Ferreira Soares

Passava da meia noite de sexta-feira, 04 de fevereiro, quando as luzes de Paulo Afonso desapareceram. Pensando tratar-se de um problema local, imediatamente abri a janela para ver até onde ia a extensão do breu e calcular o tempo em que a turma da Coelba iria me devolver os compressores que abrandam minha insônia e climatizam meus medos. Porém, ao ver o complexo das usinas da Chesf completamente apagado, percebi que o problema era mais sério que uma simples canela arriada num transformador qualquer, o que foi logo confirmado por uma rádio pernambucana que anunciava todo o Nordeste às escuras, inclusive com algumas tentativas de saques a lojas de Recife. Como aqui é outra onda, coloquei meus óculos de avivar distâncias e fui para o quintal contemplar o lado bom do apagão.

Lembrando uma peneira gigante vazando luzes, lá estava o firmamento qual uma imensa concha acústica reverberando latidos distantes acompanhados de pios de corujas e ruídos de aviões mais além ainda, formando sons perfeitos para ouvidos que até há pouco eram torturados por um “valei-me Deus, é o fim do nosso amor”, mais gritado do que cantado vindo de um clube próximo. Aos poucos, mulher e filhos foram chegando e ficamos um bom tempo desplugados de telas e demais vícios eletrônicos, apenas curtindo os vagalumes, que lembravam pequenos leds diante da imensidão de estrelas e galáxias que quase nunca aparecem por conta dos clarões das cidades, mas que, assim como o outro lado da Lua, continuam lá.

A propósito, uma estrela de admirável grandeza felizmente percebeu que o hidrogênio que habitava seu núcleo rareava cada vez mais e, antes de virar uma simples nebulosa, decidiu não mais iluminar os gramados do mundo. Ronaldo, um dos maiores atacantes que eu já vi jogar, enfim foi vencido pelas dores e pela gravidade, e sabiamente antecipou o seu crepúsculo. Uma pena.

Voltando ao apagão, aqui mesmo neste espaço eu já alertei que se o governo não desse a devida atenção a Paulo Afonso a gente podia apertar um botão e desligar o Nordeste. Viu só o teste?
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Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo da cidade de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco, sede da CHESF, um dos maiores complexos hidrelétricos do País, responsável pelo abasstecimento de energia do Nordeste.

fev
05
Posted on 05-02-2011
Filed Under (Crônica, Janio) by vitor on 05-02-2011


Dilma e Lula:diferenças de estilo
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CRÔNICA/DIFERENÇAS

SERÁ QUE DILMA AGUENTA?

Janio Ferreira Soares

Um mês e pouco depois de Dilma Rousseff assumir a presidência, observa-se uma estranha calmaria nas falas de Bonner e Fátima, nas páginas das folhas e nos bares do País, a ponto de meu filho, Juca, 14 anos de games, guitarras e metade-da-vida-vendo-Lula-todo-dia-na-tevê me perguntar se ela já tinha tomado posse.

Depois da confirmação e da tentativa de esclarecimentos (“cada um tem seu estilo, o dela é assim mesmo…”), ele deu de ombros como quem diz: “ela é que sabe”, que apesar de não ter nada a ver, soou mais ou menos parecido com o “Fernando Henrique começou assim”, chantagem das mais rasteiras proferida recentemente pelo deputado federal, Paulinho da Força.

Pensando bem, o quê o nosso inolvidável sindicalista queria? Que uma mulher criada na disciplina paramilitar continuasse por aí interpretando Dilma da Silva, personagem bolada e esculpida pelas experimentadas mãos do publicitário João Santana?

Que de repente ela incorporasse o estilo “caboclo conciliador de todos os credos” que baixava em Lula toda vez que ele se via diante de um agrupamento de pessoas ou de algum pepino? Portanto, nada mais normal que a presidente, fazendo jus à fama pregressa de técnica linha dura, aposente a capa cheia de estrelas – e o cinto de cometas – e retome a identidade da velha Rousseff de guerra que fora aprisionada no baú dos interesses eleitorais, quando nada, para dar um belo susto nos milhares de paulinhos que conspiram por aí.

Até agora o grande barato dessa diferença de estilos entre criador e criatura é observar as feições assustadas dos velhos viciados de sempre, uma vez que todos esperavam tetas ainda mais turbinadas jorrando o doce líquido que os sossega e os sacia. Por conta disso eles estão chorando ameaças e querendo colo. Resta saber se o espírito maternal de Dilma é o daquelas mães que deixam o bebê se esgoelando no berço até parar o dengo e cair na real, ou se ela é daquelas que não aguentam pressão e acordam no meio da noite para dar de mamar “ao fofo do Paulinho da mamãe!”. Segure a onda, presidente.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco


Fortaleza:descoberta de uma cidade
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CRÕNICA DE VIAGEM

Ceará: descobertas na chuva

Maria Aparecida Torneros

Pois não é que eu encontrei um Ceará no meio de muita chuva quando cheguei aqui, pela primeira vez na vida, em corpo presente, neste janeiro de 2011?

Vim para passar uma semana, tenho tido dias, de chuva e sol, se revezando, lugares lindos sendo visitados…a bem da verdade, minha a alma já esteve por aqui desde há muito… quando li Iracema, Senhora, a Pata da Gazela, entre outros, minhas paixões afloraram por José de Alencar e suas personagens fascinantes…Ao visitar o teatro José de Alencar, fiz-me cortesã dos anos 800, seu garbo, pompa e glória, a história do nordeste “in locu” revisitada…minha nossa, tenho lembrado muito da Raquel de Queirós, porque trabalhei nos anos 70 na mesma redação que ela, na revista O Cruzeiro, a autora de O Quinze, Memorial de Maria Moura, criatura tão inteligente, de presença tão forte, inesquecível acadêmica das letras brasileiras.

Mas, o Ceará é muito mais. Mostra-se com sede de produção agrícola, muito verde de irrigação e plantação programada, margeando estradas que levam a pontos turísticos, atualmente explorados estratégica e inteligentemente, pelos investidores portugueses, entre tantos. Há uma Fortaleza histórica e uma cidade crescendo verticalmente. Modernidade a olhos vistos, peremeada de resquícios humanos característicos de povo bravo, lutador, tanto faz o jagunço que vem à cidade grande buscar melhores condições de vida, ou o letrado, com seu diploma debaixo do braço a pleitear um lugar ao sol no desenvolvimento.

Este é um estado que deu a volta na secura da terra, que encontrou soluções para seus problemas climáticos, e ainda o faz, com ganas de superar dificuldades, sangrando açudes ao ver o inverno de janeiro chegar com força acima da média, inundando e apresentando uma natureza que reverteu seu movimento, nos últimos tempos.

Tem um sabor de vitoriosa mudança com ares que me adentram as narinas e os olhos, mostrando-me um lugar aprazível, reorganizado, cheirando a novidades, apesar dos problemas normais de cidades e interiores, por cá se objetiva e se vence as agruras dos tempos da terra seca.

Os meninos da colônia de férias do Sesc em Caucaia me passaram uma alegria contagiante, são fruto de nova época, estão antenados, sabem do mundo novo, estão de olho no futuro de um Brasil melhor. Tiramos muitas fotos juntos, pude sentir sua vivacidade com reflexos de orgulho da sua terra natal.

Vim ao Ceará pela primeira vez, ficarei mais alguns dias, entre sol e chuvas, observo seu dia a dia, na capital e adjacências, fazendo passeios a cidades próximas, conhecendo sua gente, trocando gentilezas, comprando com as rendeiras o artesanato magnífico do lugar, bebendo cajuína geladinha, banhando-me em praias de águas mornas.

É tempo de avistar as jangadas dançando no horizonte, de parar para ouvir e dançar o forró e ainda degustar os pargos.

Um cheiro de cardume fresco sopra na brisa que embala a jangada ao longe…fico por aqui e me embriago de superação, admiro a bravura nordestina, dou um viva ao Ceará, rendo-me aos seus encantos, na arte da sua literatura, no esmero das suas rendeiras, no canto dos seus repentistas, descubro um mundo novo e molhado em contraponto a uma história antiga e seca…

No Ceará 2011, tem é muito desenvolvimento, e quando a gente descansa na rede, é para curtir a sombra da construção de um futuro pródigo, exemplar, pedacinho delicioso de um Brasil intenso e extenso, terra com “secura” de melhores dias para sua gente.

Como diz a canção, a vida aqui só é ruim quando não chove no chão…e deixar uma terra assim, mesmo no último pau-de-arara, já é mesmo coisa de um passado causticante, agora, tecnologia e natureza se uniram em prol de um Ceará que está dando nó em pingo dágua…de chuva ou de irrigação, ainda bem!

Aparecida Torneros é jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária.


João Ubaldo: baiano porreta
faz 70 domingo(23) na ilha
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CRÔNICA/ UM PORRETA

NEM TODO JOÃO É UBALDO

Janio Ferreira Soares

Todo mundo tem um João em sua vida. Eu mesmo fui amigo de um com oitenta e tantos anos de gabolice que atendia pela alcunha de Vaqueiro, cujo perfil transitava entre Clint Eastwood e Charles Bukowiski. Do eterno caubói carregava o estilo de quem entra sem pressa no saloon, acotovela-se no balcão e vira várias doses de whisky com o mesmo prazer que eu tive ao tomar minha primeira fratelli numa lanchonete da Carlos Gomes. Do escritor levava o jeitão do velho safado que pisca para as dançarinas do mesmo recinto e as arrastava para uma banheira cheia de espuma e possibilidades. Pena ter partido sem realizar seu sonho maluco de dar um grau em Dilma, “rodopiando num forró pé-de-serra pra ela perder a autoridade e o juízo”. Grande figura.

Na Bahia, celeiro natural de cores e nomes, abundam joões. Tem o de sobrenome Gilberto, mestre em acordes e influências; tem o rei da confusão, de Gil; tem o Valentão, de Caymmi; têm os que carregam a pecha de Ninguém, Bobo e Sem-Braço; e, por esses dias, têm dois que estão passando por momentos distintos.

Um anda despertando a ira dos soteropolitanos e periga tornar-se unanimidade no quesito “sinônimos desaforados terminados em ado” (odiado, execrado, abominado…). Trata-se do prefeito João Henrique, que está deixando Salvador virar algo nunca dantes imaginado. Já o outro pode ser descrito por predicados bem diferentes dos dirigidos ao alcaide, embora com as mesmas harmonias verbais. João Ubaldo (admirado, venerado, festejado…), craque maior na arte de transformar caracteres em obras-primas, estará completando 70 anos neste domingo, 23 de janeiro, data que, torço, vire feriado municipal no restante da Ilha de Itaparica, posto que, no bar de Espanha e adjacências já o é de há muito.

De Paulo Afonso, cidade onde sargento Getúlio veio buscar um preso em um de seus melhores livros, este locutor se inclui no coro dos contentes e faz votos para que o farol da Ilha continue guiando e protegendo os passos do seu filho mais porreta toda vez que ele sair pra bater pernas pelas ruas do Leblon.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo da cidade de Paulo Afondo, do lado baiano do Rio São Francisco, com vista para Alagoas e Pernambuco.

jan
14
Posted on 14-01-2011
Filed Under (Crônica, Gilson) by vitor on 14-01-2011


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CRÔNICA/TEMPESTADES
)

CHOVA OU FAÇA SOL

Gilson Nogueira (Do Rio de Janeiro

Ao ouvir o trovão, imaginei um raio cortando ao meio o Cristo Redentor. Chovia forte no Rio de Janeiro. O aparelho de TV já havia sido desligado. Era dia de Lua Crescente, tempo de novos começos, como afirmam os que acreditam no que dizem as fases da Lua. Logo, pegaria no sono, para mente e corpo relaxarem. Dormi direto.

Ao acordar, no dia 13, estupefação, angústia diante da tragédia na região serrana do estado fluminense relatada no jornal. Faltaram palavras para traduzir o que lia. A dor não permitia que elas formassem uma frase. Uma dor aguda, profunda, sem tradução alguma, que dói diferente da dor comum, até agora. E que vai doer bastante em todo mundo para sempre.

Que absurdo, meu Deus, a morte de mais de 500 pessoas, por causa dos problemas provocados pelas chuvas! Como pôde acontecer uma coisa assim, meu Pai, em pleno verão, época de férias e de festa de sol, de uma hora para outra, com aquela gente toda, em Nova Friburgo, Petrópolis,Teresópolis e em cidades de menor tamanho do Rio???!!!

Não há palavras que definam o sofrimento dos que perderam seus parentes e amigos, nesta hora. Há, sim, uma certeza. Enquanto os interesses políticos de homens públicos que só querem o “vem a nós e ao vosso reino nada”, como diz o ditado, sobrepuserem-se aos interesses do povo, tragédias como a que faz o Brasil sofrer agora voltarão a acontecer.Chova ou faça sol.

Gilson Nogueira é jornalista


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CRÔNICA/Pelo Telefone

O telefonema de Lula para FHC

Janio Ferreira Soares

– Alô, Fernando Henrique? Desculpe o adiantado da hora, é o Lula.
– Olá, Lula, demorou a ligar, hein?
– Como é que você sabia que eu ia…
– Ora, Lula, não precisa de rapapés, eu sei bem o que é isso. Fiz até uma aposta comigo mesmo que você ligaria em menos de uma semana. Ganhei. Aliás, até nisso você tem sorte, ter alguém para ligar, pedir conselhos. Pior foi quando eu saí, pois só tinha a opção de falar com o Collor, Itamar ou Sarney. Desisti. Pensei até em fazer como o Elio Gaspari e tentar um contato com o Juscelino para pedir-lhe uns conselhos, mas aí o e-mail podia cair na caixa do Getulio… (risos). Confesso-lhe que se não fosse a Ruth para me suportar nos primeiros meses, não sei não, acho que tinha enlouquecido. Mas, desculpe “companheiro”, acho que eu me empolguei. Como estão as coisas (riso de satisfação no canto da boca), abrindo muitas portas?
– Olha, Fernando, eu pensei que fosse fácil, mas a coisa é pior do que eu imaginava. Não consigo dormir direito, ando sonhando com a Ideli Salvatti com uma tarrafa nas mãos cantando como pode um peixe vivo viver fora da água fria. Viro pro lado e vejo Michel Temer com a capa de Christopher Lee mordendo o pescoço de uma jovem loira.
– Calma, amigo, isso é o que eu chamo de Delirium Post, ou, no popular, ressaca do poder. É algo parecido com a ressaca normal, só que vem acompanhada de assombrações. Eu mesmo tinha sonhos horríveis com o ACM e o Jader Barbalho presos numa jaula e eu como o zelador responsável pela tosa. Ruth não dormia com meus urros. A propósito, você devia ligar para a Dilma e sugerir-lhe a criação de uma espécie de clínica de reabilitação para ex-presidentes. Se ela resistir, lembre-a da possibilidade de daqui a quatro anos ela vir a sonhar dançando um tango num motel de beira de estrada com o ministro do turismo, como é mesmo o nome dele, aquele que tem cara de velho tarado de chanchada italiana?
– Pedro Novais… Mas Fernando, o que você me aconselha nesses primeiros dias? Viajar para uma praia, fazenda…
– (Rindo) Se eu não fosse seu amigo lhe recomendaria uma turnê de uns três meses pelo “circuito Ingrid Betancourt”, que compreende a Colômbia, Venezuela e Bolívia, já que você vivia dizendo que eu só gostava do Elizabeth Arden. Ou então abrir uma igreja. Você daria um ótimo pastor. Mas, falando sério, acho que você devia sumir por uns tempos e deixar a Dilma em paz. Mas é sumir mesmo e não ficar como se fosse um errante que se recusa a cumprir o seu destino.
– Acho que eu não consigo.
– Consegue. Em breve a Ideli sairá dos seus sonhos e aí você poderá voltar a contar carneirinhos.
– Você me deu uma boa idéia. Quantos faltam até 2014?
– Boa noite, Lula!
– Marisa, traga uma calculadora, rápido!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turisno de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

dez
18

Life: um livro para não esquecer

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CRÔNICA/ UM LIVRO

Keith Richards – LIFE

Regina Soares

“People say ‘why don’t you give it up?’ I don’t think they quite understand. I’m not doing it just for the money, or for you. I’m doing it for me.” – Keith Richards in action!

Tudo começou num 18 de Dezembro, e agora, 67 anos depois, ele, o mais controverso, fora da lei, figura quase apocalíptica, extraordinário músico e compositor, um Rolling Stone, na profissão e na vida, resolveu nos contar de próprio punho, em parceria com James Fox, jornalista do Sunday Times em Londres, sua historia, que, mais que isso, é sua vida, LIFE, como ele chamou o livro, quente do forno e nas bancas do mundo para nosso deleite.

Como ele nos adverte logo de entrada:

“This is the life. Believe or not I haven’t forgotten any of it”
“Essa é a vida. Acreditem ou não eu não esqueci nada dela”
Uma vida que muitos de nós só poderiam imaginar e invejar, narrada por ele, que sempre abriu seu caminho, falou o que sente e sentiu o que falou, ao seu jeito, sem disfarce, e que agora nos abre nesse livro que acabo de começar a ler e pretendo compartir com vocês, leitores do Bahia em Pauta, em alguns capítulos, à medida que a leitura avançe e os fatos se desdobrem.

Desde seus primeiros dias, filho único criado por devotos pais, Bert Richards and Doris Dupree Richards, ou simplesmente Bert e Doris, como ele os chama carinhosamente e intimamente, durante o desenrolar da sua historia, seis tias, foi criado em um verdadeiro matriarcado, onde mulheres eram maioria e ditavam as regras do jogo, e outras figuras importantes na sua formação como homem e músico, já que música se manifestou desde muito cedo em sua vida, como única opção. O avô materno, Gus, de quem herdou o temperamento boêmio e o amor pela música desde muito cedo, quando escapavam da casa em longas caminhadas, “para escapar das mulheres”, e se perdiam em aventuras que ao fim se transformaram em lições de vida.
“Gus, uma vez me perguntou, enquanto caminhava-mos, eu tinha 5 ou 6 anos de idade”:
– “Você tem uma moeda nos bolsos?”
-“ Sim, Gus.”
-“Vê aquele menino na esquina?”
-“Sim, Gus,”
-“Vá e entregue a ele.”
-“O que, Gus?”
-“Vai lá, ele necessita mais que você.”
“Eu entregava a moeda. Gus me dava duas de volta. A lição ficou comigo…”

Como também o dia em que, finalmente recebeu de suas mãos a primeira guitarra, a mesma que tinha visto em cima do piano e que não podia alcançar nos seus tenros 5 anos de idade, estava sempre lá, inalcançável e atrativa e vivia nos seus sonhos. Aos 9 ou 10 anos essa “clássica guitarra Espanhola, doce e ansiado desejo, adorável como uma garota, embora eu não soubesse o que fazer com ela, me foi entregue”. “O cheiro, lembro até hoje, quando abro a caixa de uma guitarra, quando é uma velha guitarra, eu poderia enrolar-me dentro e fechar a tampa”…

Desde esses tenros dias, como um garoto, vivendo numa familia que se reunia em torno do radio para cantar e esquecer as amargas lembranças de guerras vividas na Europa dos seus primeiros passos, escutando obsessivamente, Chuck Berry e Muddy Waters, até levar a guitarra aos seus mais absolutos limites e juntar forças com Mick Jagger para formar os Rolling Stones, muita agua vai rolar….

Regina Soares, advogada, especializada em eleições americanas, mora em Belmont, na área da baia de San Francisco, Califórnia(EUA).
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Nota: prometo voltar de quando em quando para continuar a historia… Essa é uma daquelas que a gente tem que sorver devagarinho, como um bom vinho. (Regina)

A Vila boêmia de Noel e da cronista

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CRÔNICA/UM LUGAR

Noel na minha vida na Vila Isabel…

Maria Aparecida TornerosPiso nas notas musicais desenhadas no chao da Vila Isabel. Em pedrinhas portuguesas, ali estao alguns pedacinhos das canções que Noel Rosa imortalizou, em nosso bairro.

Quando vim morar no Andarai, com meus pais e irmao, tinha 20 anos. Logo, mudamos para a Vila e aqui passamos a morar em casas proximas, a partir dos casamentos e vindas de filhos e netos, costumamos circular pelas ruas onde vivemos, Teodoro da Silva, Maxwell, Artistas, Dona Maria, Souza Franco, e no Boulevard 28 de setembro.

Para quem vive por aqui, ja se tornou habito, dar uma paradinha no Petisco e ouvir historias de Noel.

Passei minha infancia e adolescencia no subúrbio da Leopoldina, precisamente em Ramos, era vizinha do mestre Pixinguinha, morava na rua do bloco Cacique, via e ouvia serenatas, pagodes de quintal, chorinho nos portões das casas, homens nas esquinas tocando violão.

Havia sempre gente cantando num Rio de Janeiro dos anos 50 e 60; cresci metida na “grandeza da gente humilde e fui muitas vezes a igrejinha da Penha, nas suas festas de outubro, subindo ate o alto, de onde avistava uma cidade encantadora, sob o prisma inverso do glamour da zona sul. Por ali, comecei a ouvir o que contavam sobre Noel, passei tambem a escutar sua musica, aprendi a sentir sua alma carioca , especialmente a vida curta e boêmia que levou

A marca do quanto Noel ziguezagueou mesclando-se entre classes sociais, misturando-se sem preconceitos ao seu povo, ele, um estudante de medicina, que se fez amigo dos malandros, que leu e traduziu o espirito gozador que caracterizou as duas decadas da sua passagem na terra.

Seu mundo virou legado e patrimônio para nossa cidade, e alcançou o patamar de brasilidade formada na consciencia cultural de uma capital como o Rio de Janeiro, infestada de fabricas de tecidos, botões, predios publicos, faculdades formadoras de médicos, engenheiros, e vidas paralelas, os botecos, os lugares do baixo meretricio, as noitadas, os amores oficiais e as paixões clandestinas, proibidas ou seus desdobramentos. Festas de São Joaã, festas da igreja da Penha, bailes nas gafieiras do centro, banhos de mar em Copacabana, escapadas da juventude que ele representou. Havia o risco da tuberculose, e ainda pairava nos ares daquele seu tempo, o romantismo quase suicida de viver intensamente as emoções, ainda que o tempo fosse curto, mas de profunda busca da felicidade.

Noel estava constantemente nas histórias suburbanas. Todos os antigos da época sabiam algo sobre ele, cada música sua tinha um enredo tão carioca e tão entranhado no orgulho dos trabalhadores que pegavam o trem de manhazinha.

Nas minhas aulas de escola normal, analisavamos suas letras. Lembro-me que a professora Telenia Terezinha levou semanas trabalhando conosco os versos de algumas das suas criações. Impressionavam-me pelo conteudo e forma, por exemplo: “O orvalho vem caindo, vai molhar o meu chapeu, e também vão sumindo as estrelas lá do céu, tenho passado tão mal, a minha cama e uma folha de jornal, meu cortinado é o vasto ceu de anil e o meu despertador é o guarda-civil, que o salário ainda nao viu”

Como nao se apaixonar por Noel, sua genialidade e seu irreverente viver? Anos mais tarde, trabalhei com um médico que fora seu companheiro de classe na universidade, dr. Paulo Ferreira, que já velhinho, me contava mazelas entre risadas, sobre o rodizio que os colegas faziam para cobrir suas faltas, ajuda-lo nos trabalhos, esconde-lo no fundo das salas, para que ele dormisse nas manhãs em que tentava frequentar a faculdade de medicina, vindo direto da boemia, mas encantando os amigos com seus relatos e poesias musicais.

Talento, arte, encanto, um conjunto privilegiado para um compositor e interprete do seu proprio destino, capaz de nos sensibilizar hoje tanto que ao completar 100 anos de nascimento, e depois de ter vivido somente 26, na verdade, permanece vivo, esta entre nós, e a mim, especialmente, me faz muito bem cantarolar Palpite Infeliz… ” quem e você que nao sabe o que diz, meu Deus do ceu que palpite infeliz, a Vila não quer abafar ninguem, so quer mostrar que faz samba tambem…”

As rodas de samba continuam pela Vila e pela cidade toda, temos uma herança que nos mobiliza especialmente na vida e obra do grande Noel, o sensivel estudante, o apaixonado homem, o gozador e brincalhao letrista que perguntava com que roupa iria ao samba, o sofrido autor do ultimo desejo, o simpatico motorista apaixonado pela operaria da fabrica de tecidos, cujo apito feria seus ouvidos, nas manhas em que ele voltava da farra e observava a jovem que nao lhe dava bola.

Noel fez do seu dia a dia um enredo de canções especiais, imortalizou costumes através das suas poesias, brincou com seus momentos de dor e ultrapassou os sofrimentos humanos nos oferecendo alegria, emoção, a sensação deliciosa de que realmente ser da Vila, com licença, meus senhores, nos confere o status de sermos parceiros do Noel, mesmo um seculo depois…

Cida Torneros, jornalista e escritora, moradora da Vila Isabel, edita no Rio sdew Janeiro o Blog da Mulher Necessária.

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Viva a Vila de Noel, Martinho, Martinália e Cida.

BOA NOITE!!!

(Postado por Vitor Hugo Soares)

nov
23


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CRÔNICA/ANOTAÇÕES

APARECER, JAMAIS!

Gilson Nogueira

“ Balanço da bossa – antologia crítica da moderna música popular brasileira”, livro escrito por Augusto de Campos, que, agora, releio, provoca-me vontade de ouvir “sucessos musicais”, em discos de vinil, com aquele som puro, e de listar, no sentido de exercitar a memória, cantores e cantoras nacionais que conheci como repórter de rádio e de jornal, nas décadas de 1960 e 1970 do século passado, em Salvador
A lembrança de anotar nomes como Cauby Peixoto, Miltinho, Dick Farney, Luizinho Eça, Tim Maia, Rita Lee, Nelson Ned, Caetano Veloso, Fafá de Belém, Gilberto Gil, Wilson Simonal, e outras feras da música, nesta crônica, não tem nada a ver com o interesse em “ aparecer”, coisa, aliás, que não faz parte, convictamente, da minha maneira de ser. “Aparecer” jamais, assim como desesperar, nunca, gente boa, que me honra com a leitura destas linhas !
“ Repórter não aparece”, foi uma das primeiras verdades que escutei ,na velha Universidade Federal da Bahia, a Ufba, onde graduei-me, em Jornalismo, no ano de 1971. Sinto-me, até hoje, apaixonado pela profissão de jornalista. Busco, com a mesma intensidade, transmitir, aos mais jovens, principalmente, o conselho ouvido no primeiro dia de aula.
Alguns amigos, dos velhos tempos de baba, no meio da rua, em Nazaré, dizem que, desde o dia em que minha mãe vestiu-me a primeira fralda, atuo na área. “ E se derrubar é pênalti”, garantem eles.Talvez, por saberem que, bebezinho, no berço, eu queria trocar a chupeta por um microfone, a fim de anunciar a chegada da querida Bebé, de Pojuca ou, quem sabe, cantar, igual a Nélson Gonçalves, a “Deusa da Minha Rua”.
Verdade, ou não, parentes mais próximos entendiam que o fato de gostar de brincar, aos oito anos, de fazer jornal, em papel de desenho, e multiplicá-lo, em casa, utilizando folhas de carbono, aquele menino de olhar invocado teria que, um dia, vir a ser jornalista. O que pode acontecer hoje, também, com as crianças que não movimentam mais o chocalho e, sim, o mouse do computador. Estas, no ritmo em que o mundo dança, onde tudo se cria e se transforma, quase nada se perde, e a vida surpreende, no rol de acontecimentos inimagináveis, que causam múltiplas reações, em idade adulta, lá na frente, poderão lembrar de nomes de gente famosa que conheceram e anotar, no papel, seus nomes, como faço, para matar o tempo e ativar a cuca.
Agora, para que algum neurônio sacana não se apague, por pirraça, puxo a fita do passado e lembro o dia em que o “furioso” Tim Maia, no Hotel Acácia, ao chegar do Aeroporto Dois de Julho, onde fui apanhá-lo, com um amigo meu – e dele-, no curto período em que atuei em rádio, ofereceu-me, ao abrir a janela do seu apartamento, que dava para a Rua Carlos Gomes, uma “nuvem” que acabara de criar. “ Obrigado, velho Tim!” E lá fui eu, para casa, sorrindo muitooooooo, com aquela vozeirão ecoando nos meus ouvidos : “ Vaaaaaiiiii?”

Gilson Nogueira é jornalista e uma das melhores crias do radio baiano

nov
19
Posted on 19-11-2010
Filed Under (Aparecida, Crônica) by vitor on 19-11-2010

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CRÔNICA/PARTIDA

Saudades e “solidões” que voam…

( dedicada ao Paulo Faya, parceiro do Guinga)

Aparecida Torneros

Ontem, peguei-me amargurada, depois que, por email, recebi a notícia da morte de um grande amigo, com quem troquei, nos últimos 15 anos, muitas vezes, a sensação de um futuro que teríamos juntos e que nunca aconteceu. Estivemos próximos e distantes, por inúmeros momentos. O tempo se encarregou de nos povoar de uma saudade estranha.

Houve ocasiões em que éramos tão cúmplices das nossas histórias de perdas e desenganos pessoais, que bastava uma conversa de cinco minutos, via telefone, e direcionávamos nossos sentimentos para a construção do grande pilar familiar. Podíamos dividir as preocupações com filhos e com seu neto, por exemplo, com seu futuro. Partilhávamos as dores físicas, as necessidades cirúrgicas, o passar dos anos, minhas dores de coluna, suas dificuldades de locomoção, a tal velhice que iniciava em nós um processo lento de despedida da vida.

Faz alguns meses, aconteceu a última vez em que nos falamos, também por telefone, depois de um ano, talvez, meio perdidos um do outro, senti sua voz embargada do outro lado da linha, perguntei o que acontecia, e ele apenas justificou-se estar emocionado por ouvir-me de novo, após tanto tempo.

Contou-me das mudanças de vida nesse período, falou-me que finalmente estava andando sem as muletas que o perseguiram por causa dos problemas no joelho, fora operado e estava recuperado.

Disse-me que mudara de casa e de bairro, que estava bem feliz, com nova companheira, deixara de morar sozinho, já que era viúvo há muito tempo.

Procurei conter também, por minha parte, a emoção de senti-lo de novo, tão próximo pela voz e tão distante, pelos descaminhos da vida. Mesmo assim, nos prometemos, tirar um dia para sairmos e comemorar, em família, com sua filha e neto, o menino que o orgulhava tanto e que ele não cansava de idolatrar. Prometemos nos encontrar para comermos novamente, juntos, aquele peixinho especial que servem num restaurante localizado nas imediações da minha casa. Este almoço, ficamos nos devendo, então, sei agora, pra sempre.

Quando era possível, ele vinha, depois de atravessar a cidade, da Barra da Tijuca até Vila Isabel, para compartilharmos o sabor dos mares, peixes e camarões, o gosto dos oceanos, a face de alguma saudade que voava sobre nós, de vez em quando.

No fundo, nos recentes meses, comecei a me dar conta dos inúmeros familiares, amigos e amigas que tenho perdido e de como vou acrescendo a lista de saudades destas pessoas em mim e das consequentes solidões que elas me provocam.

O meu amigo se foi, preparo-me para ir assistir a missa em sua homenagem. Lembro-me dele em diversas ocasiões, trabalhando ainda como médico em consultório ou hospital, lembro-me dos nossos almoços, das nossas batalhas políticas, das longas reflexões sobre nossos filhos e das muitas confissões sobre nossas angústias de vida.

Houve ainda, momentos de descontração. Ele cantava algum trecho de canção antiga, no telefone. Ríamos, ele tinha sido compositor-estudante no tempo de universitário. Parceiro do famoso Guinga. Uma composição dos dois intitulada – “sou só solidão”, fora finalista e premiada na primeira eliminatória do inesquecível festival da canção de 1967.

Gostava de me relembrar aquela época de jovem romântico compondo músicas em festivais. Uma vez, fui ao google e o avisei que ele estava lá como compositor de uma canção vencedora em algum desses festivais.

Talvez pudéssemos ter aprofundado o convívio, mas não foi o caso. Tivemos aquele bom viver baseado em admiração, respeito e carinho. Era bom sermos referências mútuas de vidas dedicadas ao trabalho e à família.

Sua admiração pelos filhos, a intensa e dolorosa recordação do filho que perdera, ainda adolescente, o orgulho pelo outro filho fotógrafo de moda, a paixão pela filha advogada, que lhe deu o “netão”, sua felicidade em acompanhar o nascimento e crescimento do menino.

Entre muitas declarações de amizade, pudemos construir uma base para sentirmos imensa saudade, daquelas que voam, que permanecem, além da vida, que flutuam no nosso interior, estejamos em corpo ou em alma, em presença ou ausência, em palavras ou silêncio.

Atualmente, sinto que isto pouco importa, meu amigo está aqui, apesar da sua passagem para o outro lado, ele consegue me trazer a lembrança viva da sua voz embargada, concluo que talvez fosse mesmo o prenúncio da nossa despedida que o tivesse levado às lágrimas, enquanto eu não percebi isso, naquele dia.

O que me deixa amargurada não é o nosso adeus nesta Terra, nem tampouco algum medo de um fim que sei não é eterno, pois creio no encontro espiritual, possível e etéreo.

O que me deixa amargurada, na verdade, tem a interface da proposta de sua velha canção premiada, a idéia da “solidão” como uma premissa infame e constante na vida. Penso que podemos sentir saudades do que nunca aconteceu, do que cultivamos somente em sonhos, do que foi fantasia quando projetamos futuros incertos, das realidades que não alcançamos, e dos desejos que não realizamos.

Penso que estas saudades tão marcantes, refletem o vôo dos pássaros sobre os mares, das gaivotas que buscam os peixes para seu alimento.

Meu amigo e eu, ocasionalmente, baixávamos sobre a linha dágua e engolíamos os tais peixinhos, trocando olhares de satisfação e palavras de esperança, como tento encontrar agora, as mesmas palavras carregadas de emoção e agradecimento por ter podido conhecê-lo e ter dividido com ele tantas boas recordações, e ainda, receber esta herança sem preço… carregar comigo as saudades dele, pairando, voando, sobre meu coração solitário e sobre minha cabeça de “mulher mais inteligente que eu conheço” – era como ele se referia a mim, numa confissão quase infantil, tão sincera e tão inconsistente…

Como eu sempre rebatia…- se eu fosse mesmo tão inteligente assim, teria sabido preencher com mais alegria o coração daquele ser que me legou esta saudade estranha, que agora me invade, dando voltas ao meu redor, alada, voejante, insistente, que me faz chorar e rir ao mesmo tempo, que me confunde entre o sonho e a realidade.

Maria Aparecida Torneros, escritora e jornalista, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

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