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CRÔNICA

O homem que decifrava ventos

Janio Ferreira Soares

Como um clarividente do sertão, João Vaqueiro gabava-se de que não precisava ler jornais ou assistir TV para saber o que se passava pelo mundo, já que possuía o dom de entender os recados do vento. Bastava alguém comentar alguma notícia recente, que ele dizia: “conte outra que essa o vento já me soprou ontem”, e aí partia uma melancia, se ajeitava na cadeira trançada de fitas plásticas coloridas e então começava a contar a sua versão do fato, geralmente recheado de peculiaridades.

Para aqueles que iam na onda e perguntavam como se dava o processo ele explicava, com a propriedade de um Deus grego responsável pelos alísios, que os mais difíceis de compreender eram os que sopravam entre setembro e dezembro, pois vinham açoitados e misturados com cheiros primaveris e algazarras de passarinhos no cio, causando embaraços olfativos e sonoros. Já os de maio/junho eram os seus preferidos, pois chegavam mansos e perfumados pelas delícias juninas, aí incluídas pamonhas, canjicas e moçoilas com gotas de alfazema calculadamente colocadas na saboneteira da clavícula, que era exatamente o lugar onde ele encostava a cabeça durante o forró no pátio da igreja. Pena que o velho gabola não esteja mais aqui para nos dar suas interpretações sobre as últimas rajadas vindas do Planalto Central, que nesses tempos pós-Inácio andam zunindo mais do que os assobios dos fantasmas dos antigos filmes de terror. Mas presumo suas respostas.

Dilmista ferrenho, inicialmente ele culparia a herança maldita recebida por sua musa, reforçando que todos os ministros demitidos até agora foram-lhes servidos numa bandeja de inox com manchas suspeitas nas bordas deixadas por apenas quatro digitais. Em seguida, para não perder a fama, comentaria sobre sua fantasia de vê-la com um espanador de penas de ema faxinando o Alvorada, e, por fim, iria até um descampado, colocaria a mão no ouvido e voltaria, tripudiando: “querem saber quem é o próximo a ser espanado depois de Orlando Silva? Pois vão aprender a ler os ventos, seus willianbonistas!”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, margem baiana do Rio São Francisco

out
04

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CRÔNICA

O FIM DE UM CACHORRO VALENTE

Maria Aparecida Torneros

Ele foi um cachorro valente…apesar de pequenino, tinha amor pela vida, buscava caminhar, já cego e alquebrado, veio ficar na minha casa nos últimos seis meses, mas era o cachorrinho da minha mãe, que não tinha mais condições de tomar conta dele. Quando eu viajava, o deixava na clínica. Ele me reconhecia pelo cheiro, mesmo velhinho, balançava o rabo e fazia festa. Reclamava como um vovozinho se algo nao lhe ia bem, resmungava.

Às vezes, eu o envolvia em manta e o embalava como um bebê ( ele só pesava 3 kilos), ficou internado várias vezes, hospedado na veterinária, onde era querido e cohecido. Semana passada veio pra casa, e nestes dias, eu o senti se despedindo. Seu corpo não respondia mais direito a nada. As patinhas traseiras travavam. Ele reclamava, mas tentava comer, dormia horas no tapete da sala. De madrugada, roçava na porta do meu quarto, me chamando. Como já nao controlava os esfincters, eu o banhava no meio da noite, com água quente, ele se acalmava e voltava a dormir, sono profundo, mas no domingo, anteontem, recusou-se a comer, a beber, e chorou …um choro de despedida…levei-o na segunda cedo para a clínica. A veterinária colocou-o no soro, e me pediu 24 horas para pensar, eu devia ligar hoje cedo e decidir pelo sacrifício.

Tudo o que fiz foi rezar, enquanto lavava as mantas dele ontem à tarde, meu choro era um pedido de que a morte lhe chegasse sem que eu precisasse ser responsável por ela. Lembrei-me então de S. Francisco de Assis, considerado protetor dos animais, em cuja igreja estive orando em maio passado, na Italia, e pedi, que o Santo, se pudesse, tomasse conta do destino do Benginho.

Acordei hoje e protelei ligar para a clínica. Eu não queria decidir. Busquei distrair-me batendo papo no computador com um italiano chamado Enzo. a manhã passou correndo. Eu não queria pensar na responsabilidade de mandar sacrificar o cãozinho.

Mas quando consegui telefonar, já hora do almoço, a médica veio ao telefone informar que ele falecera às 7 da manhã, de morte natural, no soro, dormindo.

Lembrei então, de repente, que hoje é o dia de S. Francisco de Assis…e chorei muito, agradeci que o Benginho descansou…estou sentindo imensa saudade do seu caminhar lento pela casa, da sua graça de velhinho valente. Lembro das vezes em que era bem novinho e dava pulos altos ao nos receber na casa da mamãe.

Não tive coragem de ir lá e vê-lo agora. Pedi ao meu filho que resolva tudo pra mim, sobre a cremação, e busquei a última foto que fiz dele, esta semana, enquanto dormia calmo no tapete da sala.

Quando ele reclamava eu dizia: Bengi, estou aqui, você não está sozinho. Já nem sei se ele me ouvia. Só sei que eu cuidava de um cachorrinho velho e valente, amoroso e reclamão, companheiro que foi da minha mãe, por tantos anos, fiel pois, há 3 anos atrás, quando ela esteve internada no hospital, doente, ele não quis comer todos os dias enquanto ela nao retornou para casa.

Não sei se os cães tem alma. Sei somente que eles sabem amar. E nos dão exemplo de fidelidade que muitas vezes seres humanos não sabem dar.

Acho que S.Francisco o recebeu em algum lugar da Itália. Quando estive na igreja dele, contei sobre o Bengi, achei que o santo devia saber que havia um cachorrinho no Brasil que amava a vida, amava as pessoas, lutava para prolongar sua estada aqui e que viveria até o dia em que S.Francisco o viesse buscar.

Se tudo o que estou escrevendo ou pensando ou sentindo tem o reflexo da minha tristeza por perder o Bengi, creio que tem mais que isso, tem a certeza do quanto esse animalzinho me ensinou sobre a Vida.

Aparecida Torneros , jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

set
30
Posted on 30-09-2011
Filed Under (Crônica, Janio) by vitor on 30-09-2011

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CRÔNICA

Meia-noite no Relógio de São Pedro

Janio Ferreira Soares

Apesar da baianidade e do charme de sua gente, atualmente não vejo nenhum dos motivos estéticos, sonoros e aromáticos que me pegavam de jeito quando eu ia passar minhas férias na cidade da Bahia. Hoje eu ando pelas suas ruas e ladeiras e, no lugar das exclamações que naquele tempo finalizavam meus alumbramentos, agora só me restam interrogações pontuando inúmeros por quês diante de tantas modernidades de fachada e tantos maus tratos diários.

Outro dia, caminhando pela Avenida Sete, parei perto do Relógio de São Pedro e por um bom tempo tentei me ver descendo as escadas rolantes da Fundação Politécnica com uma sacola cheia de vinis indo em direção a Lobrás, com a exclusiva intenção de me fartar diante de um sorvete daqueles. Mas a única coisa que vi, ou melhor, ouvi, foi uma espécie de voz da consciência me dizendo algo do tipo: “deixa de saudosismo barato, seu velho safado. Não vês que onde anseias Concerto for Bangladesh e Araçá azul (lacrado!), Raghatoni e Fantasmão? E onde salivas banana split, casquinha do MacDonald’s? Se oriente, meu tio!”.

Não, ainda não tinha assistido Meia-Noite em Paris, a nova e pequena obra prima de Woody Allen. Se tivesse, quem sabe esperaria as doze badaladas noturnas do velho relógio (por sinal também francês) para, como no filme, pegar um frescão e dar uma volta não pela Paris de Buñuel e Scott Fitzgerald, mas pela Bahia de Glauber e do grande escritor gloriense e boa vida, Raimundo Reis, que comia buchada e arrotava foie gras, enquanto teclava seus escritos numa mesa furada por brasas de cigarros sem filtro e pontilhada de manchas de destilado escocês.

Continuando na onda do filme, o quê você faria se tivesse a chance de pegar uma carona para o passado? Eu, como o espaço já está no fim, correria para o Teatro Castro Alves a tempo de ver o Clube da Esquina cantando Criaturas da Noite, e depois iria com a turma do Mar Revolto tomar uma cerveja no bar do aipim, na Boca do Rio, na ilustre companhia do “meu caro amigo Afonsinho”, craque de bola, de papo e da canção de Gil.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no Vale do São Francisco

set
17
Posted on 17-09-2011
Filed Under (Crônica, Janio) by vitor on 17-09-2011

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CRÔNICA

ROCK IN DILMA

Janio Ferreira Soares

Se FHC estava mais para a Bossa Nova e Lula para o trinado de Zezé de Camargo e Luciano, Dilma, com seu topete e suas jaquetas bem talhadas é a cara do rock pesado alemão, embora ela insista em recusar a sina de uma autêntica metaleira-faxineira-linha-dura-pós-Nina Hagen, que por pouco tempo encheu de esperança essa moçada que começou a sair às ruas para protestar contra a corrupção, fato que certamente deverá acontecer no Rock in Rio que começa na próxima semana. A propósito, rock e política têm tudo a ver.

Lembro que na primeira edição do festival, em 1985, além da lama dando na canela e das filas intermináveis para comprar Malt 90 morna, vivíamos uma enorme expectativa de mudanças por conta da eleição de Tancredo Neves, com vários artistas brasileiros subindo ao palco com a bandeira nacional em punho e gritando palavras de ordem, na certeza de que, como cantava Cazuza, os dias finalmente nasceriam felizes.

Mas aí veio a diverticulite do presidente e a atuação do doutor Pinotti pôs fim à perspectiva do refrão do Barão Vermelho vingar, entrando em seu lugar o lamento de Coração de Estudante, que viria a ser o réquiem da Nova República. (Tenho uma tia que até hoje, quando ouve “quero falar de uma coisa…”, diz: “hein, hein, o bichinho de Tancredo!”).

Não sei ao certo o que levou a presidente a cessar o ímpeto de bater de frente com o pessoal do toma lá dá cá. Dizem que foi uma orientação do melhor do melhor do mundo em não saber o que se passa ao seu redor, mestre maior em acomodar balaios de gatos, ratos e demais espécies.

Em todo caso, seria bacana se ela aproveitasse o embalo do Rock in Rio e se rebelasse contra o seu tutor, abandonando para sempre essa falsa imagem que querem colar nela de uma presidente acústica e assumindo definitivamente a sua porção rock’n’roll. “Let’s go, Lady Roussef!”

Para findar, uma pergunta rimada. Qual será a lógica do universo em bombardear o fígado do Dr. Sócrates e deixar que as bochechas de Jaqueline Roriz reluzam como as romãs que não couberam na canção de Djavan?

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso


Elevador Lacerda:Má gestão ameaça entregar
símbolo público da cidade a negociantes
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CRÔNICA

Baratas e ratos da Cidade da Bahia

Gilson Nogueira

Um copo com água foi o remédio que uma cliente encontrou para se acalmar depois de nocautear uma barata voadora que acabara de subir no seu ombro no interior de uma loja localizada na Avenida Sete de
Setembro, ontem, no Centro de Salvador.O “rebu” durou pouco, mas, o tempo suficiente para provocar correria do mulherio em pânico, adiamento de compras, boatos fulminantes, como assalto com arma de fogo, e obrigar a jovem senhora a despir-se da blusa que vestia para
ficar, apenas, por poucos minutos, de sutiã, na base do desespero e, posteriormente, alívio, por ter aplicado o cruzado que atirou a barata invasora na calçada, logo pisoteada, com raiva, por um curioso, que trajava camiseta do Esporte Clube Bahia ,e que só foi embora
quando o segurança da loja mandou a galera de enxeridos evacuar o pedaço.

Era horário de pico na área habitada, à noite, por drogados e ladrões, que vivem aterrorizando moradores e transeuntes, a poucos passos do prédio antigo da Secretaria de Segurança Pública, majestosamente situado diante do Jardim ( sujo) da Piedade, onde mendigos e vagabundos imaginam ser hóspedes de hotel ao ar livre, com direito a companhia do Gabinete Português de Leitura, de duas igrejas católicas, e, juntinho, da loteria do mestre Gildo Alfinete, do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, tão maltratado quanto suvaco de aleijado, como diz o povo, e outros imóveis de alto valor e importância.

Ou seja, o Centro de Salvador é o paraíso do abandono e da esculhambação, no salve-se quem puder dos camelôs e consumidores, nos passeios, espremidos, a sugerir folia momesca, entre ratos e baratas. “Imagine o Trio-Elétrico deslizando alegria no asfalto quente e a galera jogada contra as paredes e vitrines”, afirmou a empregada doméstica que presenciou a cena da barata baixo astral e a
consumidora aflita.

“Foi o maior corre-corre, com as mulheres gritando e a coroa enxuta tremendo mais que vara verde. Aliás, depois que ela levantou da cadeira e colocou a blusa deu pra ver seu corpão, o que fez o segurança, que estava também assustado, ficar todo cheio de gentileza,” acrescentou a testemunha do fato inusitado.

O lance, revelado com pitadas de exagero, ou não, lembra trechos de chanchadas cinematográficas assistidas nos antigos cinemas da Baixa dos Sapateiros, nos anos 1950/1960. Mais um episódio hilariante, quase tragicômico, em meio a outros, do mesmo nível, que agitam, para
o bem ou para o mal, aquele trecho de Salvador?
Sim, o Centro da Cidade é o símbolo da decadência da administração urbana de uma das sedes da próxima Copa do Mundo de Futebol. É uma zebra, diria o apostador da Loteca.

Creio eu, tanto no que se refere ao seu patrimônio histórico, quanto no aspecto do comércio, dos negócios, em geral, o Centro da Cidade, nem de leve lembra o período em que as escadas rolantes do Edifício
Fundação Politécnica, em São Pedro, e a da Loja Duas Américas, na Rua Chile, eram atração de peso para rapazes e moças e idosos, homem e mulher, interessados em consumir e paquerar, sem a violência a
interromper-lhes os passos.

Enquanto isso, o Elevador Lacerda vai balançando por falta de cuidado e sendo entregue à iniciativa privada para que dele cuide e não o deixe cair. Um ícone do turismo baiano e, sobretudo, um dos caracteres definidores da nossa identidade, do nosso berço, como primeira capital do Brasil, fora das mãos do poder público. Por essa
a Cidade da Bahia, não esperava.

O estado, como um todo, vai descendo a ladeira. E não é a da Conceição da Praia, outro papo.

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador do Bahia em Pauta


Sarney vestido para voar/Jornal Pequeno(MA)
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CRÔNICA / ATOS SECRETOS

Antes de Sarney partir

Janio Ferreira Soares

A foto de Sarney com roupa de veraneio ao lado do helicóptero da PM do Maranhão (este feudo disfarçado de estado que deveria ter um bigode no lugar do til), parece ser uma espécie de “coisas que ainda me faltam fazer para que todos vejam que Lula tem razão quando diz que eu não sou uma pessoa comum”.

Como Jack Nicholson e Morgan Freeman, protagonistas do filme Antes de Partir – que ao saberem condenados por uma doença terminal listam uma série de coisas que sempre sonharam realizar -, Sarney, talvez sentindo-se expirar, também resolveu fazer a sua “lista da bota”, fato corriqueiro entre aqueles que sabem que estão prestes a batê-la.

Chego a imaginá-lo logo cedo tomando guaraná Jesus com própolis de maribondos e depois seguindo em direção ao seu escritório-caverna, onde, ao contrário do morcego que simboliza Batman, um bigode se faz presente desde a maçaneta da porta até a sua famosa agenda-buço (um presente de um padeiro português primo do ex-primeiro-ministro Mario Soares), onde ele anota suas performances.

É claro que, pela idade, confusões acontecem, mas Roseana está sempre atenta para segurar a onda. Como recentemente, quando o nosso incomum imortal insistia em falar com Agaciel (ex-diretor do Senado) para nomear uns parentes através de atos secretos, no que foi prontamente alertado por ela, que disse: “não, papai, isto o senhor já fez. Mas providenciei um passeio de helicóptero que o senhor vai amar!”.

Como sugestão para suas próximas aventuras, recomendo um selinho na presidente Dilma. É uma coisa que está super na moda e o máximo que pode acontecer é Suplicy achar que se trata de algum ato de desagravo ao ministro Pedro Novais por conta daquele lance do motel e, na sequência, tascar um beijaço de cinema em Ideli Salvatti.

De todo modo, na próxima quinta, 8 de setembro, São Luís estará comemorando 399 anos. Portanto, que ninguém se espante se ele chegar ao senado empunhando um zabumba e convocando Pedro Simon, Jarbas Vasconcelos e João Durval para dançarem o Bumba-meu-boi do Maranhão. Ele pode tudo.

Janio Ferreira Soares, cronista. é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no lado baiano do vale do Rio São Francisco


Janio Ferreira Soares
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CRÔNICA/ SENTIMENTOS

Quando o “a” era difícil

Janio Ferreira Soares

Duas mortes anunciadas. A primeira é a da tevê de tubo, que brevemente deixará as prateleiras das lojas e sobreviverá apenas nos quartos dos fundos e na memória de quem, como eu, ficava horas em frente à velha Colorado valvulada mesmo depois de encerrada a programação, apenas observando o indiozinho analógico da TV Itapoan sorrindo um riso preto e branco para mim – sem jamais imaginar que um dia eu veria os seus descendentes em alta definição nos leds da vida.

A outra é a da escrita cursiva (aquela em que as palavras são formadas por letras emendadas pelas pontas), que em algumas cidades americanas já deixou de ser ensinada, dando lugar a outras habilidades consideradas mais úteis, como digitar textos em teclados de computadores.

Quanto ao fim da tevê de tubo, tudo bem, agora, acabar com o ensino da grafia cursiva é preocupante, pois indica que no futuro poderemos ter o fim de todas as formas de letras escritas, o que provocará a extinção definitiva de uma geração que vivia escrevendo versos, poemas e cartas apaixonadas para amores doces e vis, em noites regadas a álcool, desejos e canções. (Cá pra nós, há coisa mais impessoal do que um e-mail de amor?).

Recentemente eu tive o prazer de almoçar com Ariano Suassuna aqui em Paulo Afonso e, enquanto traçávamos uma tilápia (que no exterior é chamada de Saint Peter, o que nos levou a pedir perdão ao todo poderoso por estarmos cometendo a heresia de comer um de seus mais queridos apóstolos), quis saber do que ele precisava para criar, já que está na moda (além do computador) neguinho usar a falta de apoio governamental como se isso fosse determinante para brotar a inspiração, e ele respondeu, com aquela voz que parece saída do fundo de um pote vazio: “Só de uma resma de papel e de uma caneta”. E tome-lhe limão na espinha de São Pedro.

É, meu caro Ariano, pelo jeito, logo chegará ao fim a sua geração e a de meu primo Mourão, que ao voltar de seu primeiro dia de aula, chegou todo assustado para a nossa avó e disse: “mas vó, como o ‘a’ é difícil!”. Era, Mourão, era.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Vale do Sâo Francisco


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CRÔNICA/ MEMÓRIA

Viva o futebol brasileiro

Janio Ferreira Soares

A primeira vez que entrei na Fonte Nova foi para ver Bahia e Cruzeiro, jogo que ficou para sempre gravado num velho vídeo-cassete que cultivo no Dique do Tororó da memória, que de vez em quando aciono só para me lembrar de um tempo em que craques como Tostão e Dirceu Lopes voavam pelos gramados feito anjos barrocos salpicados de estrelas soltas sobre o manto azul das Gerais.

Logo depois daquele alumbramento vibrei com as feras de Saldanha, com o tri no México, com o timaço de Telê e com alguns lampejos do Flamengo de Zico, do Atlético de Reinaldo, do Internacional de Falcão e dos brasis de Romário e Ronaldo, mas nada que superasse a emoção daquela noite na Fonte de um anel só, quando um menino acostumado a duas ruas e um rio correndo rumo às cachoeiras de Paulo Afonso descobriu que o futebol ia muito além do que se apresentava no campo de terra de Santo Antonio da Glória.

Quando é agora, na última quarta-feira de julho, alguma coisa baixou na Vila Belmiro e decretou que naquela noite (apenas naquela noite) uma geração de brasileiros que até então só ouvira falar da época em que o nosso futebol era de sonho e magia, finalmente teria a oportunidade de saber com quantos Neymar se faz um Pelé e com quantos Ronadinho se faz um Garrincha. “Jovem torcedor: futebol brasileiro. Futebol brasileiro: jovem torcedor”. Estava feita a apresentação.

Assisti ao espetáculo ao lado de Juca, meu filho de 15 anos, que até aquele dia tinha no Barcelona a sua única referência de fantasia. Mas depois que Neymar fez aquilo que eu não ouso dizer o nome (até porque não sei) com os zagueiros do Flamengo e Ronaldinho fez aquele gol de falta, vi no seu olhar o mesmo brilho que clareou o meu quando Dirceu Lopes deu um drible tão desconcertante no grande Roberto Rebouças que quase lhe quebra o espinhaço.

Foi um jogo tão perfeito que até o locutor não foi o chato do Galvão Bueno. Se fosse, o zagueiro teria derrubado Neymar, a barreira não teria pulado e Juca, coitado, iria continuar achando que Bahia e Vitória nem são tão ruins assim.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso (BA), no Vale do São Francisco.

jul
27

Amy: liberta do circo

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CRÔNICA / AMY

O que eu gostaria de dizer sobre a rainha de Camden

Laura Tonhá

Queridos leitores do Bahia em Pauta, estou desde domingo com um nó na garganta pela morte de Amy, desde então tento traduzir em palavras o que ela significou e significa para mim, mas ainda não tinha conseguido chegar no cerne da questão.

Aparentemente eu adorava a genial cantora e não poderia ser diferente. Além de considerá-la a mais autêntica e talentosa artista da atualidade, morei em Londres em 2007 – ano que Amy se tornou um sucesso mundial. Seu rosto estampava freqüentemente os tablóides ingleses e eu me acostumei a cruzar com a exótica artista nas ruas de Camden, sempre cheia de estilo: sapatilhas de bailarina, muita maquiagem, cabelo arrumado em seu topete, caminhando no famoso bairro alternativo, acompanhada de seu marido: Blake. Acho que ela estava no auge: feliz, apaixonada, seu álbum lançado no ano anterior (2006) – Back to Black – estourado, ela se tornava um sucesso mundial. Eu estava vivendo a vida em uma das cidades mais fascinantes do mundo e todos ouvíamos a diva local. Desconfio que apenas Londres poderia ter “produzido” Amy Winehouse.

Desde então, acompanho como fã as notícias sobre ela: a tumultuada relação com Blake – começaram a namorar em 2005, em 2007 se casaram, em 2009 se divorciaram, em 2010 se reconciliaram e prometeram que iam se casar novamente, romperam novamente; mais recentemente o novo namorado “almofadinha” Reg Travis que não estava com ela nos últimos meses porque, de acordo com ele, ela continuava a beber (faça-me o favor…) ainda mais recente, agora em julho as notícias de que ela ligava de madrugada desesperada para Blake, que por sinal está para ser pai de um filho com outra mulher (isso deve ter sido duro para Amy, o sonho dela era ser mãe). Além disso, reabilitações, prisões, drogas, brigas em família etc. Ainda assim, aguardávamos o próximo álbum, o retorno da diva.

Pois bem, com a notícia da morte da cantora, fiquei com isso tudo na cabeça, o talento absurdo, as drogas, a vida louca, a paixão por Blake, tudo foi Amy, mas ela foi muito mais. O nó continuava.

Felizmente, lendo Guilherme Fiuza, em sua coluna semanal, entendo o que eu já sabia, mas não tinha tido o insight. Amy, veio ao mundo para bagunçar a fronteira entre o bem e o mal, o certo e o errado. A voz sublime, das mais belas que o mundo já ouviu, em contraste com a vida sem limites. Deus e o diabo são uma coisa só. Os olhos míopes não conseguiram enxerga-lá. O senso comum tornou a mais conhecida pelos escândalos do que pelo talento e ela seguiu dando comida aos abutres: destruição e canções maravilhosamente desconcertantes.

Como uma “atração no zoológico”, tornou-se um prato cheio para imprensa sensacionalista. Em sua vinda ao Brasil muito mais se falou do seu seio de fora do que do seu talento. Brinde à miopia.

Amy era pura arte, do estilo, a música, aos trejeitos pouco lhe foi feito justiça, sobre isso Fiuza comenta:

“frequentemente, Amy era descrita como uma mulher desajeitada, que não sabia o que fazer com o próprio corpo em cima de um palco. Outro brinde à miopia. Poucas cantoras tiveram tanto estilo em cena. O charme de Amy só era visível aos olhos nus – aqueles não adestrados para enxergar na cantora uma caricatura humana. Aos demais, restava esperar pelo clímax de um gole a mais e um tombo no palco. Mórbido clímax.”

O jornalista em suas conclusões faz o arremate final:

“Amy Winehouse tinha Deus e o diabo dentro de si. A prova está em cada instante da intérprete potente, possessa, possuída. Em cada melodia magistral com que enchia de doçura um verso amargo. O senso comum não gosta de ver Deus e o diabo em comunhão.

Eleita para o lugar da estranha (aquela que serve para os outros se sentirem normais), Amy foi ficando a sós com seus conflitos – que eram letais, como ela própria inscreveu em sua obra. Dissolveu-se ao vivo.

Agora o público do circo está a sós com sua curiosidade mórbida. Deus deu a Amy a libertação. O diabo lhe deu a vingança.”

A matéria completa de Guilherme Fiuza esta no site da Época.

Com o meu nó desfeito e feliz por entender Amy liberta do circo, permaneço com a alegria de ser fã inconteste da sublime cantora, feliz e grata por saber que ela será para sempre trilha sonora do meu período londrino. Feliz pelos momentos vividos na Camden de Amy, que eu apresentei com tanto entusiasmo para pais, irmã, tios e amigos que me visitaram. Grata a Fiuza que desfez meu nó e a Tia Margarida que, com seus dons premonitórios, me brindou há 2 semanas atrás com uma boa dose de Amy e bom vinho em sua casa.

Sem Amy sigamos atentos ao circo.

Laura Tonhá, publicitária baiana, fundadora e diretora-executiva do Bahia em Pauta, está de férias em São Paulo, onde produziu o texto publicado no BP

Ilustração: Gilson Migué

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CRÔNICA / CINEREALIDADE

FICHA LIMPA

Gilson Nogueira

Acabo de ler mais uma crônica de Arnaldo Jabor, um dos gênios do cinema brasileiro, que tem em Glauber Rocha seu principal autor. Jabor é nome sonoro, lembra aquelas badaladas, digamos, escuras, emocionantes, boooommm, boooommm, booommmmmmm, que precediam o começo do filme principal na tela branca da sala de projeção do Cinema Guarani da minha mocidade, na Praça Castro Alves, em Salvador, Bahia, Brasil.

Brasil varonil, cuja sonoridade neologística-silibal-final rima, agora, com o palavrão que seu povo parece estar ensaiando para mandar, de uma só vez, do meio da rua, aos políticos corruptos que destroem a imagem do país aos olhos da sua população e do mundo.

Glauber, como Jabor, é um nome sonoro e que, também, emociona. Glauber sugere suspense, algo, assim, como aquele toque de caixa ligeiro à entrada em cena de um trapezista maior em uma grande tarde de domingo de circo grande. Lembra, ainda, Glauber, acho eu, som gutural, desses que dão balão na língua de poeta ou de clarim anunciando, e conclamando, aplauso a eleitos e eleitas adentrando ao palco do teatro das ilusões concretizadas, como, por exemplo, o Brasil sério que todos os brasileiros almejam.

Baixo o pano da lembrança de Jabor e Glauber, dispo-me das fantasias que estimulavam idéias e recordações, para, de repente, encontrar-me em um túnel escuro, fétido, com ventilação precária, úmido e frio, onde ouço ecoar a voz da realidade a dizer-me: “ E aê, gente boa, sabe a lâmpada que, aqui, existia, e a sua função de acender-se, automaticamente, à possibilidade de uma salvação para este país? Pois é, já era! Roubaram a lâmpada, a única, disponível! Não há mais jeito a dar.”

“ Mas, e agora, como fazer, diante do caos que se anuncia, do apocalipse político que está por vir, com essa bandidagem tomando conta da nossa república?!

“ Sei não, amigo, sei não, acho que o melhor que os que estão com esperança em ver o Brasil progredir no quesito da moralidade na política deveriam fazer é não votar em quem não tenha ficha limpa. Se virem, rápido!”

“Falou, amiga, é isso aí, é isso aí!!! “
Gilson Nogueira é jornalista

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