jun
10

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CRÔNICA

Maria Aparecida Torneros

FIM DE OUTONO NO RIO

O tempo chuvoso, quando a sexta é imprensada pelo feriado religioso da quinta e a véspera do fim de semana outonal e friorento.

Convite da amiga para ver Branca de Neve em versão juliarobertiana, na tarde que virá, horário infantil, coisa de gente que depois irá dançar (ela) em baile de salão, enquanto eu irei acompanhar a velha mãezinha na noite comprida.

Um sentimento de inquietação por uma tia que está doente e que amo muito. Ela é a responsável pelos melhores momentos da minha infância, daí a sintonia em acompanhar todos os passos que a medicina pode dar para minimizar suas dores em mal tão avassalador. Um tempo para ouvir música antiga. Andei cavando canções do passado, acho que vale recordar um dos seus ídolos, o Benvenido Granda, com sua voz possante e seu espanhol melado, quase trágico. Era um tempo de anos 50 e 60. A juventude da época organizava o futuro de um mundo tecnológico onde o romantismo iria ser comercializado em pílulas e bites, em sites e messengers. Telegráfico novo mundo, de explosões de homens bombas e carícias essenciais que sonham com o desenvolvimento sustentável.

No Rio, tudo quase pronto para a Rio mais 20… eu estava trabalhando na Rio 92, como tudo passou tão depressa e parece que mudou muito pouco. O sonho daqueles dias se transformou no pesadelo da poluição chinesa ou terá renascido em milhares de projetos ambientais que infestam o tal mundo contemporâneo, ambicionando ser realidade e ultrapassar a fase de projetos, lutando contra um desenvolvimento econômico-social que se baseia no lucro e na exploração dos recursos naturais da mãe Terra. Intensa luta e grande dicotomia. Arestas quase inaparáveis… Código Florestal brasileiro, seara de emendas, remendos, acordos, ajustes, um ninho de cobras bem criadas a buscar melhores botes em presas ingênuas.

Esperanças renovadas, ainda bem, as novas gerações a postos, ainda bem, gente com sorriso estampado e protesto organizado, criaturas capazes de gritar pelo melhor lugar ao Sol que os faça respirar o melhor oxigênio do Planeta em tempo hábil, antes que seja tarde e que o mundo se esvaia em ganâncias e inconsequências.

Anos 2010…década incrívelmente rica de tecnologia e pobre por seus desconfortos e crises… Mas, há ainda resquícios de 50 anos atrás nos direcionando sentimentos. Herança e dança, arte e efeito, a humanidade caminha, conquistas a comemorar nos campos da medicina e da ciência, apesar da nostalgia benvenidana…que tal reparar que a chuva que cai agora é benéfica para os campos e para as florestas? nem tudo está perdido, claro, há salvação nos fóruns que serão discutidos pelos povos e governantes no Rio de Janeiro, e a tal Rio mais 20, com seus movimentos circulares, sacode o país e o mundo diante de uma verdade absoluta.

Este mundo possível tem uma nova geração que está atenta, que faz acontecer, que nos parece redentora e busca soluções. A grande novidade , 20 anos depois, é o advento das redes sociais, que podem mesmo fazer a diferença. E a boa nova: Sociedade pode escolher 30 recomendações para serem discutidas na Rio mais 20, e vale conferir:

“O Governo Federal e a Organização das Nações Unidas colocaram à disposição dos internautas uma plataforma interativa na internet. A iniciativa tem como objetivo ampliar a participação da sociedade na Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio mais 20.Quem acessar poderá escolher 30 recomendações para serem apresentadas a chefes de Estado na conferência.Para colaborar, basta acessar o link http://vote.riodialogues.org/. Na página, estão disponíveis 100 itens em dez áreas: combate à pobreza, resposta às crises econômicas e financeiras, produção e consumo, energia sustentável, florestas ,além de água, trabalho decente e migrações ,cidades e oceanos. O objetivo é que a sociedade destaque as prioridades para o desenvolvimento sustentável no planeta.
As sugestões de recomendações estão disponíveis em seis idiomas. Para votar, basta selecionar a recomendação que se deseja fazer e preencher um cadastro rápido. O resultado será anunciado no próprio site, no dia 16 de junho, e será discutido na Rio mais 20 até o dia 20.”

De 20 em 20 , vamos mudando o mundo, pra melhor, é claro! Seguimos sonhando como nos tempos das canções do Benvenido!

Cida Torneros é escritora e jornalista, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Cida

abr
27


Governadores do Nordeste com Dilma em Sergipe: “ETs?”
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Órfãos da infinita seca

Janio Ferreira Soares

A leitura que se pode fazer da foto de Dilma reunida com os governadores nordestinos para tratar dos problemas da estiagem, é a de que parece que todos são extraterrestres que acabaram de chegar por aqui e (“oh, surpresa!”) encontraram o sertão esturricado, coitado, como se a seca fosse apenas uma turista acidental que, cansada de atravessar o deserto de Saara, deve ter acordado numa quentíssima manhã de sol e dito: “Allah, meu bom Allah, acho que eu vou mudar um pouco de ares. Vou dar um rolê pelo interior do Nordeste, matar uns bois, secar uns açudes e fazer um belo estrago nos pés de milho que o sertanejo plantou no dia de São José achando que iria colhê-los no São João. Volto antes do Carnaval, para não ter que ouvir neguinho lhe pedindo para mandar água pra Ioiô”.

Tudo bem que a estiagem atual é uma das maiores dos últimos anos, mas, desculpe a redundância, ela é exatamente igual àquela que passou e igualmente igual àquela que virá, só mudando seu tempo de permanência. Agora, o que me irrita é vê-la mais uma vez sendo tratada com um misto de admiração e desdém pelos nossos governantes e por apresentadores de telejornais, que adoram se comover e franzir o cenho diante do gado se estrebuchando no chão, mas já no bloco seguinte abrem o maior sorriso para comemorar mais um golaço de Neymar.

Sabe o que comove de verdade? É ver seu Antônio, seu João e seu Zé, ganhando o mundo antes que o impiedoso clarão do dia cruze seus fachos pelos furos das telhas e transforme o chão de seus barracos numa triste rave comandada por calejados DJs e suas enxadas nas costas; é vê-los sempre agradecendo e se benzendo quando voltam e passam diante do calendário com a gravura do Sagrado Coração de Jesus pregado no reboco, ali somente para confortá-los e lhes dar alento, pois os dias nascem e morrem sempre iguais; é sabê-los José, João e Antônio, nomes santos que são, implorando clemência aos céus e recebendo em troca esmolas travestidas de ajuda oficial. Mas o que dói mesmo é vê-los resignados, humildemente dizendo: “amém”.

Janio Ferreira Soares, cronista, e secretario de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

abr
14


Cid Moreira dizendo:“jabulaaani!”

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CRÔNICA / COSTUMES

O azar do Dr. Demóstenes

Janio Ferreira Soares

E se nos microfones houvesse um detector de mentiras acoplado? Na mesma linha do bafômetro, ele emitiria algum tipo de sinal acompanhado de uma debochada voz – de preferência com o timbre parecido com o de Cid Moreira dizendo “jabulaaani!” -, toda vez que alguém tangenciasse a curva do embuste e acelerasse na reta da malandragem. Essa invenção tanto serviria para desmascarar artistas, jogadores e apresentadores que vivem dizendo “eu te amo, galera!”, quanto para pegar certas autoridades chegadas a derrapadas morais.

Vamos supor que esse apetrecho estivesse instalado no microfone em que o senador Demóstenes Torres costumava discursar, evocando para si qualidades que somente ele e alguns poucos sabiam ausentes. No momento em que o nobre ex-paladino falasse: “Por quê estou aqui? Porque aqui é o local dos grandes homens, dos mais experientes, como Getúlio Vargas, Tancredo Neves e Affonso Arinos”, a voz imediatamente o cortaria e diria: “Deixa de onda, Demóstenes, que atrás dessa estampa de probo do cerrado existe uma caudalosa cascata de águas turvas onde vossa excelência costuma se esbaldar assim que o sol se esconde na platitude do planalto!”. Neguinho tremeria na base e a tribuna ficaria às moscas.

Por falar em Demóstenes, o seu caso me lembra a história do camarada que toda vez que a esposa ia à missa, corria para pegar a empregada. Depois de anos nessa situação confortável, certo dia ela esqueceu o terço e, ao voltar para pegá-lo, deu um tremendo flagra nos dois. Sua reação foi a manjada pergunta: “o que é isso?”. E o marido, na bucha: “azar!”.

Deve ter sido essa a sensação de Demóstenes (e de Palocci, Delúbio e mais alguns poucos que também foram flagrados com as calças nas mãos), acompanhada da inevitável pergunta: “e os outros?”.

Bem, os outros (300 picaretas, nas contas de Lula; uns 400, segundo Romário) permanecem torcendo para que a sorte sobreponha-se ao azar e nunca permita que alguém volte para pegar qualquer coisa enquanto eles estiverem nos quartos dos fundos com as partes íntimas expostas.

Janio Ferreira Soares, cronista, secretario de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, margem baiana do Rio S. Francisco


Janio Ferreira Soares
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E se o disjuntor da usina da Chesf desligar?

CRÔNISTA

O dia em que Wagner tremeu

Janio Ferreira Soares

Cena 01 – Junho de 2014, Arena Fonte Nova lotada para o primeiro jogo da Copa. Na tribuna de honra o governador Jaques Wagner, em plena campanha para eleger seu sucessor, vibra com a festa e com o som dos tambores do Olodum, que reverbera pelas arquibancadas antes de desaparecer pela nesga que revela o Dique e aborta o anel. Do lado direito das cabines a torcida grita “bahêêêa!”, para surpresa dos estrangeiros que pensam tratar-se de um ritual. Acertaram. A resposta vem em forma de vaias, o que faz com que alguns políticos tremam na base, como se dissessem: “pronto, me descobriram”. Mas é apenas a torcida do Vitória dando o troco.

Cena 2 – Final do primeiro tempo, Wagner e comitiva sorriem aliviados. Agora é esperar os 45 minutos finais e comemorar. Os jogadores retornam ao gramado já iluminado por modernos refletores de led, que em contraste com o Sol que se põe por trás do Farol proporcionam imagens aéreas indescritíveis. Mas eis que, quando tudo se encaminha para os tradicionais tapinhas nas costas seguidos de “parabéns, governador!”, apagam-se os refletores e o verde vira breu.

Cena 3 – Enquanto as luzes de emergência são acesas (para alívio de muitos que já tinham colocado suas carteiras no bolso da frente) Wagner e Leonelli disparam telefonemas aflitos, até que o locutor avisa que o problema é numa usina de Paulo Afonso e que os jogos de Recife, Natal e Fortaleza também foram interrompidos. Imediatamente os turistas e jornalistas procuram nos panfletos distribuídos pela Embratur alguma informação sobre essa estratégica cidade que pode parar uma Copa. Espanto. A Bahiatursa sequer a colocou entre os destinos baianos indicados para visitação durante a competição. O bem informado locutor da Globo estranha e comenta que Paulo Afonso, com seus cânions e cachoeiras, é uma das cidades mais bonitas e importantes do País, já que é de lá que sai toda a energia que abastece o Nordeste. Em meio às vaias, alguém liga: “operadores da Chesf? Acho que dessa vez o governo aprendeu a lição. Religuem o disjuntor”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, cidade da margem baiana do Rio São Francisco, mas que a administração estadual quase nem liga, a não ser quando alguma pane desliga as usinas da CHESF


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CRÔNICA/NATAL

Três bilhetes para Papai Noel

Janio Ferreira Soares

“Prezado Noel, antes de tudo quero lhe dizer que eu só comecei a acreditar no senhor depois que outro barbudo (este sim, o meu eterno Papai Noel) me deu de presente mais de 50 milhões de votos e me colocou aqui onde estou. Até então – apesar de sua roupa vermelha e da barba parecida com as de velhos companheiros -, eu o via apenas como uma abstração mantida pelos reacionários para iludir a juventude oprimida. Mas agora, até eu vou me transformar em você para surpreender o fofo do meu netinho Gabriel na noite de Natal. A propósito, espero não receber nenhum telefonema do Gilbertinho contando novas denúncias sobre algum ministro, pois meu saco já está literalmente cheio”.

“Companheiro Noel, lembro que lá em Caités (PE) nem sapato eu tinha pra colocar na janela. Uma vez eu inventei de botar minha japonesa no terreiro e no outro dia só tinha um pé, pois um desgraçado de um vira-lata levou o outro pro meio do mato. Resultado: perdi o chinelo e ainda levei uns petelecos de mãe Lindu no meu pé-de-ouvido. Mas o motivo dessas mal traçadas é para agradecer as recompensas que o senhor me proporcionou. Todavia (gostou da evolução?), ainda quero lhe fazer um baita de um pedido, esse sim, o mais importante da minha vida. Não vou nem dizer o nome pra não dar azar, mas espero que no próximo ano eu esteja barbudo, cabeludo e joiado pra pegar minha galega e fazer uma farra daquelas por aí”.

“Noel, meu rei, sabias que por causa da minha barba branca muitas crianças me confundem com o senhor? Quem dera fosse verdade, pois aí eu pediria a mim mesmo que desse um jeito na Cidade da Bahia, pois a sujeira, a violência e o caos no trânsito tomaram conta das ruas, mangues e Pelourinho, tudo ao som de uma trilha sonora de dar saudade do negão da Baixa do Tubo. Ainda bem que nosso povo é manso e festeiro, prefere ouvir Chiclete à ler Risério e já é quase fevereiro. Aí vem o Carnaval, oclão escuro na cara…O baiano é massa. Axé, Papai!”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, lado baiano do vale do Rio São Francisco


Reynaldo Gianecchini
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CRÔNICA

Sorrir desmoraliza a dor

Janio Ferreira Soares

Leio que o ator Reynaldo Gianecchini anda “na maior felicidade” e muito confiante na sua luta contra um câncer. Leio também que Lula, apesar do tratamento quimioterápico, “está bem-humorado e feliz”, principalmente com o seu Corinthians – a um passo de ser campeão brasileiro. Se eles não estiverem jogando para a plateia, estão no caminho certo.

Recentemente passei algumas horas num corredor de um hospital e pude observar que, mesmo em nítida desvantagem, a alegria consegue comer pelas beiradas e penetrar sorrateira no espaço onde o sofrimento é rei, para, quando nada, dar uma bela desmoralizada na dor. Como no caso de uma menina com poucos meses de vida que deu entrada no setor pediátrico depois de engolir uma banda de um comprimido de origem desconhecida e, mesmo se esgoelando num choro de dar pena, de vez em quando esboçava um luminoso sorriso, como se dissesse: “relaxem, que daqui a pouco eu fico boa e vou pra casa brincar”.

Já na ala feminina, uma senhora beirando os 80 anos resolveu voltar aos seus tempos de adolescente e começou a paquerar descaradamente o jovem médico que lhe atendia, dizendo, toda melosa: “me leve pra casa, doutor, que aí o senhor vai ver como eu vou ficar boazinha, boazinha!”, provocando boas gargalhadas em alguns pacientes que, pelo menos por alguns instantes, se esqueceram da agonia de ficar horas e horas apenas assistindo o percurso do soro viajando lentamente até entrar em suas veias.

Não sei até que ponto o bom humor das pessoas tem a ver com a sua longevidade, mas tenho pra mim que aqueles que não se levam muito a sério e conseguem rir de si mesmos têm mais chances de receber alguns anos de acréscimo, mesmo depois de esgotado o tempo regulamentar. Agora, aqueles que levam a vida como se ela fosse uma espécie de pós-graduação para algum NBA celestial e agem como se os problemas do mundo dependessem de suas performances de vendedores de Delta Larousse, aí já não sei. Se o juiz for dos meus, é cartão vermelho antes mesmo que a primeira frase de
Paulo Coelho saia de suas bocas.


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Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no lado baiano do Vale do Rio Sâo Francisco


Aninha Franco: “nenos lambuzada”

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CRÔNICA/ MAPA

Bahia com menos dendê

Aninha Franco

A Geração Mapa (anos 1930), sucessora da Geração Baianidade (anos 1910), que mapeou a Bahia popular nos livros de Amado, na música de Caymmi e nos desenhos de Carybé; nasceu menos lambuzada de dendê e menos pop que a Geração Tropicalista (anos 1940) dos Velloso, de Capinan, de Tom Zé e Rogério Duarte, mas capaz das criações extraordinárias de Fernando Péres, Florisvaldo Mattos e Joca. Dela, Glauber Rocha é o farol no Brasil e no mundo. Em lugares culturalmente remotos do Brasil, como Marrocos, nos anos 1990, o Povo apreciava jogadores de futebol e os intelectuais curtiam Glauber.

Quando Ivana Bentes lançou as Cartas ao Mundo com a correspondência de Glauber, coladas à biografia Esse Vulcão, de João Carlos Teixeira Gomes, Joca advertiu que o pensamento de Glauber se insere na linha dos explicadores do Brasil, de Euclides da Cunha, Gilberto Freyre. Que Glauber pensava o cinema como guerrilha cultural, capaz de criar um território e uma rede de trocas culturais, novos mitos, novas formas de resistência e criação estética, onde ficasse visível nossa diferença e originalidade como civilização. Que era hora de olhar menos para o Glauber folclórico, delirante, e enxergar sua originalidade, lucidez e a consistência do seu pensamento, o que só pode ser feito por uma Bahia menos idiotizada que essa.

Se vocês me perguntarem se outra biografia sobre Glauber Rocha é oportuna, eu digo que sim, porque sua vida, riquíssima, o mais atraente cineasta brasileiro de todos os tempos, ainda hoje, é desconhecida do Brasil, e escrita por Nelson Motta, homem pop, pode popularizá-la, o que as obras de Joca e Bentes não podem. Quando eu pesquisei o Teatro na Bahia, na Biblioteca dos Barris, nos anos 1980, Motta também estava lá, desconfio que pesquisando Glauber, ambos lutando contra os maus gestores e as baratas, como de hábito, para proteger a memória do Brasil. Mas uma biografia pop, ou qualquer outra coisa que se faça sobre o pensador-cineasta Glauber Rocha, precisa ser avalizada pela Geração Mapa, à qual eu, minha geração, do AI-5 (anos 1950), a Bahia e o Brasil devem respeito e deferência.

Aninha Franco é autora teatral e pesquisadora baiana. O texto sobre a Geração Mapa foi publicada originalmente na revista MUITO, encarte da edição dominical de A Tarde.


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Relíquia: o passaporte azul do professor Luis Henrique

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CRÔNICA/ HISTÓRIA E SENTIMENTOS

O PASSAPORTE AZUL DE MEU PAI

Luis Guilherme Dias Tavares*

Está comigo o passaporte azul, modelo destinado a diplomatas e autoridades de alto escalão que o governo brasileiro forneceu ao professor Luis Henrique Dias Tavares em 1959. Aconteceu quando Juscelino Kubitschek era presidente da República e o doutor Anízio Teixeira era o diretor do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais – INEP -. A história do passaporte especial tem a ver com hombridade, determinação e generosidade.

O doutor Anízio Teixeira escolheu alguns dos seus colaboradores do INEP para comporem um grupo que visitaria instituições educacionais norte-americanas. A Embaixada dos Estados Unidos, no Rio de Janeiro, então capital do país, vetou o pedido de visto do professor Luis Henrique Dias Tavares que, na época, além de ensinar no Colégio Central da Bahia e na Faculdade de Filosofia da UFBA, trabalhava no INEP – pesquisava no Arquivo Público, do qual era diretor, a educação na Bahia. Indignado, Anízio Teixeira solicitou que, em seu gabinete, ele, um representante da Embaixada e o professor Luis Henrique tratassem do assunto a fim de superar o impasse diplomático. O funcionário norte-americano propôs que o professor Luis Henrique ditasse uma nota que sairia no jornal O Globo repudiando o Partido Comunista. O professor declarou que era assunto pessoal e o funcionário da Embaixada levantou-se e deixou o gabinete. Crescia no país a campanha anti-comunista que desembocou no Golpe Militar de 1964 e no AI-5 de1968.

Anízio Teixeira, após a saída do funcionário da Embaixada norte-americana, indignado com o seu procedimento, decidiu enviar o professor Luis Henrique para a Europa com a missão de conhecer ao vivo o sistema educacional de Portugal, Espanha, França e Itália. Chamou a secretária e mandou entregar ao professor US$ 1,500.00 (mil e quinhentos Dólares) para a viagem. Meu pai chegou do Rio de Janeiro e foi direto para casa, onde comunicou à esposa, dona Laurita, que iriam viajar para a Europa por três meses. Tinham três filhos. Eu era o mais velho. Em seguida vinha o meu irmão Sérgio. Minha irmã Cláudia não completara dois anos de idade.

O que fazer? Meu pai tinha muita coisa para resolver. Minha mãe e ele decidiram que nós ficaríamos sob os cuidados de Glória, auxiliar em quem minha mãe depositava imensa confiança, e tia Maria Luiza, irmã caçula de meu pai. Sérgio completara seis anos e eu tinha pouco mais de sete anos. Sérgio estudava numa pequena escola da rua Manoel Barreto, perto do apartamento da família no bairro da Graça. Eu estudava na recente Escola de Aplicação do INEP de formação de professores. Naqueles dias, os jornalistas tinham abatimento na compra de passagem aérea. Isso animou o professor Luis Henrique a levar sua esposa com ele na viagem. Meu pai comprou as passagens na Panair do Brasil e viajaram com destino a Lisboa, escala em Dakar (Senegal) para reabastecimento do avião Constellation. Na capital portuguesa, foram para um hotel sugerido pela Panair. Dali, Luis Henrique telefonou para o primo Antonio Henrique, cujo número telefônico fora fornecido pelo primo Nestor Duarte. Ele atendeu-lhe e marcou o primeiro almoço num restaurante da Avenida da Liberdade. Antonio Henrique foi acompanhado da esposa e das filhas Guida e Terezinha.

Guardo na lembrança o comentário do professor com relação ao rigor francês com as crianças nos primeiros anos da idade escolar. Os professores franceses puniam os alunos com a dor física e moral. Da Itália, destino mais que sonhado pela dona Laurita, restaram, até a última mudança do casal, guias, mapas e postais da terra de Dante e o comentário repetido de que em 1959 o país ainda exibia marcas muito evidentes da 2ª Guerra Mundial, vencida pelos aliados desde 1945.

O passaporte azul número 024392 tem 24 páginas numeradas e sua validade foi de apenas três meses e meio. Emitido em 16 de setembro de 1959, valeu até 31 de dezembro do mesmo ano. As páginas 8 e 9 contêm os vistos dos Consulados de Portugal e Espanha carimbados em Salvador e as páginas 10, 11 e 12 tem os carimbos alfandegários do Brasil, Itália, França, Portugal e Espanha. Permanece grampeado na face interna da contracapa o Certificado Internacional de Vacinação contra Varíola, com selo, no verso, do Tabelião do 4º Ofício.

O passaporte do professor Luis Henrique é, para mim, uma relíquia, apesar de documento de apenas 52 anos. É a prova material de um episódio relevante da vida dele… Alguns anos depois, mais uma vez os norte-americanos vetaram sua entrada quando ele desembarcou com a esposa em Nova Iorque. Ela pode circular na cidade, ele ficou detido no hotel. Enfim, passaram-se os anos e não houve mais problemas e o casal retornou alguns vezes aos Estados Unidos e acompanhou netos nos parques da Disney, em Orlando. No seio da família, jamais cultivou nenhum anti-americanismo. Ao contrário, tem manifestado sempre admiração e respeito pelo povo lá de cima. Ademais minha filha Gabriela, neta deles, mora lá há mais de 10 anos.

Está comigo o passaporte azul… Os filhos e netos do casal que viajou em 1959 pela primeira vez para a Europa são viajantes como poucos. O casal, até cinco anos atrás, viajou todos os anos para Portugal e Inglaterra, como se revisitassem lugares aos quais pertenciam. Agora, aos 85 anos, depois de tantas viagens, depois da construção de tantas memórias, esvaem-se pouco a pouco as imagens do passado e temo, de coração, que quiçá lhes reste a saudade.

* Luis Guilherme Dias Tavares é Jornalista e produtor editorial. O texto foi revisto pelo professor Luis Henrique Dias Tavares. lulapt@svn.com.br

nov
11


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CRÔNICA

A primavera dos dragões da USP

Janio Ferreira Soares

Apesar de não gostar muito do estilo literário de Nelson Motta, corri para comprar seu último livro, A Primavera do Dragão – A Juventude de Glauber Rocha -, na esperança de que as deliciosas histórias do biografado amenizassem a minha cisma com a escrita do autor.
Capa de primeira, letras graúdas, cadeira de balanço ajustada no ponto exato da sombra de uma mangueira para não dar chance ao Sol do São Francisco, lá vou eu rumo a Vitória da Conquista e adjacências na ilustre carona de uma turma da pesada.
Pouco depois da metade do livro recebo a visita do amigo Mestre – leitor voraz também conhecido como Tarzan por conta de sua intimidade com as coisas da natureza (a propósito, o seu diálogo com um pica-pau através de batidas percussivas num tronco de uma velha quixabeira já virou um clássico nas rodas de viola) -, que assunta: “e aí, bom? Posso levar?”. Confesso que me deu vontade de emprestá-lo, mas desisti e fui até o final, até para não parecer implicância com o escritor que nunca envelhece. Mas não teve jeito.
Sabe aquela sensação de quando você espera algo arrebatador e recebe na caixa da vitrola um lance tipo Araçá Azul? Pois foi mais ou menos isso que aconteceu, porém fiquei na minha, esperando outras opiniões.
Primeiro liga o Mestre, revoltado: “quer dizer que nem o dragão nem os dragãozinhos queimavam uma coisinha pra animar o ambiente, é? Me engana!”. Mas só depois que eu li no Terra Magazine os depoimentos de João Carlos Teixeira Gomes (Joca), Antonio Guerra Lima (Guerrinha) e Fernando da Rocha Peres (o bananeira fake), danados da vida com as inverdades do livro, foi que eu vi que não estava sozinho no quesito pôxa-mas-que-desperdício-de-histórias-bacanas.
Falando em dragão, pensei que não existiam mais bichos-grilos, mas alguns sobrevivem na USP e agora lutam por baseados livres nas dependências do campus. Beleza. Como sugestão, eles deviam reivindicar uma extensão da USP na região de Cabrobó (PE), com uma fábrica de mariola e uma padaria por perto – e com uma polícia importada da Jamaica fazendo a ronda. O Mestre seria jubilado.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Francisco

nov
09


Mãe Stela
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CRÔNICA/ SABEDORIA

Olhos magros: uma nova tendência

Maria Stella de Azevedo Santos

A minha função espiritual faz de mim uma intermediária entre o humano e o sagrado e para exercê-la da melhor maneira possível tenho como instrumento o Jogo de Búzios. Pessoas de diferentes idades, raças e até mesmo credos, buscam a ajuda desse oráculo. Surpreende-me o fato de que uma grande parte dos que me procuram sente-se vítimas de inveja.
Engraçado é que nunca, nem um só dia sequer, alguém chegou pedindo-me ajuda para se libertar da inveja que sentia dos outros. Será que só existem invejados? Onde estarão os invejosos? E o pior é quando consulto o oráculo e ele me diz que os problemas apresentados não são decorrentes de inveja, a pessoa fica enfurecida.
Percebo logo que existe ali uma profunda insegurança, que gera uma necessidade de autovalorização. Se isso ocorresse apenas algumas vezes, menos mal, o problema é que esse comportamento é uma constante. Isso me leva a pensar que cada pessoa precisa olhar dentro de si, tentar perceber em que grau a inveja existe dentro dela, para assim buscar controlar e emanar este sentimento, de modo que ela não venha a atuar de maneira prejudicial ao outro, mas principalmente a si, pois qualquer energia que emitimos, reflete primeiro em nós mesmos.
Uma fábula sobre a inveja serve para nossa reflexão: Uma cobra deu para perseguir um vagalume, cuja única atividade era brilhar. Muito trabalho deu o animalzinho brilhante à insistente cobra, que não desistia de seu intento. Já exausto de tanto fugir e sem possuir mais forças o vagalume parou e disse à cobra: – Posso fazer três perguntas? Relutante a cobra respondeu: – Não costumo conversar com quem vou destruir, mas vou abrir um precedente. O vagalume então perguntou: -Pertenço à sua cadeia alimentar?- Não, respondeu a cobra. – Fiz algum mal a você-?- Não, continuou respondendo a cobra.- Então por que me persegue?- perplexo, perguntou o brilhante inseto. A cobra respondeu: – Porque não suporto ver você brilhar, seu brilho me incomoda.
Ingênuas as pessoas que pensam que o brilho do outro tem o poder de ofuscar o seu. Cada um possui seu brilho próprio, que deve estar de acordo com sua função. Existem até pessoas cujas funções requerem simplicidade, onde o brilho natural só é percebido através do reflexo do olhar do outro.
Lembro-me de uma garotinha de apenas 10 anos de idade que a mãe me procurou para ajudá-la, pois ela ficava furiosa quando não tirava nota dez na escola. Comportamento que fazia com que seus coleguinhas se afastassem dela. Algumas tardes eu passei conversando com a garota. Um dia ela chegou me dizendo que não aparesentava mais o referido problema, que até tirou nota dois e não se incomodou.
Fiquei muito feliz, cheguei mesmo a ficar vaidosa, pois acreditei que aquela nova atitude era resultado de nossas conversas. Foi quando ela me disse:- Sabe por que não me incomodei de tirar nota dois, Mãe Stella? Ansiosa, perguntei:- Por que? Ao que ela me respondeu: – Porque o resto da turma tirou nota um. Rimos juntas da minha pretensa sabedoria de conselheira e do natural instinto de vaidade que ela possuía e que muito trabalho teria para domá-lo. O desejo que a garota possuía de brilhar mais do que os outros, com certeza atrairia para ela muitos problemas. Afinal, ela não queria ser sábia, ela queria ser vista.
O caso contado anteriormente fez lembrar-me de outro que eu presenciei, onde uma senhora repleta de ouro insistia em me dizer que as pessoas estavam olhando para ela com inveja. Cansada daquele queixume, disse-lhe que quem não quer ser visto, não se mostra.
A inveja é popularmente conhecida com olho gordo. Se não queremos ser atingidos pelo olho gordo do outro, devemos cuidar para que que nossos olhos emagreçam, não deixando que eles cresçam com o desejo de possuir o alheio. Já que fazemos dieta para nossos corpos serem saudáveis, devemos também fazer dieta para nossos olhos, pois eles refletem a beleza da alma. A tendência agora é, portanto, olhos magrinhos, mas não anoréxicos, pois alguns desejos eles precisam ter, de preferência desejos saudáveis.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Texto publicado originalmente na edição impressa do jornal A Tarde, esta quarta-feira(9)(

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