maio
29

Delegado Cleyton: crime e política

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ARTIGO DA SEMANA

TIROS E VUVUZELAS

Vitor Hugo Soares

Foi uma semana como o diabo gosta na Bahia, embora nada indicasse que terminaria assim. Os indícios eram de que uma trégua se anunciava no horizonte das complicadas manobras sucessórias na política local, depois das recentes e agitadas passagens dos pré-candidatos José Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva por Salvador. Todos eles de olhos e garras voltados para a conquista do mais alentado naco possível do quarto maior colégio eleitoral do País, no espaço nordestino que os estrategistas consideram crucial para quem deseja o lugar do presidente Lula nas eleições que se aproximam.

Animado e festeiro como reza a fama, o baiano na verdade parecia deslocar seu foco de interesse para a África do Sul, distante do campo de conflitos do governador petista Jaques Wagner com o ex-ministro peemedebista Geddel Vieira Lima, enquanto o carlista ex-governador Paulo Souto, do DEM, aproveita a brecha para ir ganhando terreno nas pesquisas do jogo pelo Palácio de Ondina.

Salvo pequenas escaramuças e querelas localizadas, a “gente dos interiores”, principalmente os moradores da capital e Região Metropolitana – adeptos de um barulho como ninguém – pareciam interessados mesmo, por enquanto, em aprender a lidar com a Vuvuzela.

Os soteropolitanos pegaram gosto pela diabólica invenção em forma de instrumento de sopro das arquibancadas sulafricanas. Mas, assim como o aparentemente descomplicado toque do berimbau na terra de João Gilberto e Carlinhos Brown, a vuvuzela também não é tão simples e óbvia de soprar e fazer zoada como aparenta. Ou tocar como se deve e fazem os torcedores da terra de Mandela nas ruas e nos estádios.

Requer técnica, pulmão forte e bastante esforço. No entorno da Baia de Todos os Santos alguns até já conseguiram dar um jeitinho para tornar as coisas mais fáceis, sem perder a festa: “é a chamada vuvuzela baiana , com fole em uma das extremidades para não precisar botar os bofes para fora na hora da barulheira”, explica ao articulista um surpreendido amigo, ao verificar a febre da vuvuzela que começa a grassar na cidade da Bahia.

Enquanto isso, em Brasília, os escolhidos de Dunga e a ladina turma da CBF recebiam, na quarta-feira, as bençãos do poder, antes do embarque para campos africanos. No meio do foguetório no Planalto Central, e acima do zumbido das vuvuzelas, escuta-se o som de disparos de verdade e os gritos de socorro e de desespero de uma jovem esposa diante do marido assassinado fria e inapelavelmente.

O morto é o delegado Cleyton Leão: 35 anos, dois filhos pequenos (um ainda de colo), chefe de polícia em Camaçari, considerado modelar. Assassinado com tiros na cabeça quando dava entrevista, por telefone celular, a uma emissora de rádio local, sobre combate ao crime organizado, dentro do carro parado na margem da estrada da Cascalheira – área metropolitana onde a violência e a miséria se alimentam e vicejam em glebas de pobreza ao lado de um dos mais prósperos e produtivos polos petroquímicos do País e de uma das mais modernas montadoras de automóveis da América Latina

Logo a tragédia baiana dividiria os espaços dos principais noticiários locais e nacionais, da quarta-feira, com a festiva despedida dos canarinhos em Brasília. É tempo de Copa do Mundo e de campanhas eleitorais e as emoções se misturam . Oportunismo e demagogia política e administrativa também, no governo e na oposição. A grave questão da violência é politizada de parte a parte. Volta ao topo do cardápio de promessas dos pré-candidatos presidenciais e estaduais. Segue-se a ladainha de sempre dos “a favor” e “dos contras”.

“Depois do crime, o tiroteio”, diz o Correio da Bahia em título primoroso e emblemático de uma de suas manchetes, no noticiário político desta sexta-feira, sobre o crime da Cascalheira. Em menos de 24 horas a força tarefa policial mobilizada pelo Governo do Estado prendeu, em vistosa mega-operação, três acusados pelo “latrocínio seguido de morte do delegado”, apresentados em feérica entrevista coletiva. Um quarto suspeito foi morto e o caso dado por “encerrado” em seguida ao sepultamento de Cleyton, no Campo Santo.

Mas não acaba aí, pois segue sem trégua o conflito político. Os pré-canditatos ao governo, Geddel e Paulo Souto, juntaram-se nos ataques cerrados à política de segurança do governo de Jaques Wagner, que acusam de inerte, leniente e vacilante diante do crescimento da violência no estado. Os petista do governo estadual e seus novos aliados reagem e jogam a culpa na “herança maldita” deixada por sucessivos governos carlistas, comandados pelo finado Antonio Carlos Magalhães.

Como se vê, vai ser preciso soprar forte as vuvuzelas para abafar o barulho da campanha na Bahia antes do primeiro chute na Copa do Mundo..

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: Vitor_soares1@terra.com.br

maio
22
Posted on 22-05-2010
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Marina na Metrópole fala de sucessão com jeito…

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…de Leão da Barra na Copa Brasil

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ARTIGO DA SEMANA

MARINA E VITÓRIA, LEÃO E JAGUATIRICA

Vitor Hugo Soares

Mal comparando, como se diz nas barrancas do rio São Francisco da minha aldeia, a acreana Marina Silva, pré-candidata do Partido Verde à presidência da República, desembarcou nesta sexta-feira, 21, em Salvador, decidida e surpreendente. Do jeito que o time do Vitória, o rubro-negro baiano, aportou nas finais da Copa do Brasil na noite histórica para o futebol estadual da última quarta-feira,19 de maio .

O time dos quase anônimos Viáfara, Berola e Junior e de veteranos notáveis que parecem jogar com uma fita métrica de passes perfeitos nos pés, como Ramon, qualificou-se para brigar pelo título máximo com o Santos dos fenômenos indiscutíveis da hora para a mídia inteira do País – até na baiana – Ganso, Neymar e companhia dos “meninos da Vila”.

No futebol da Bahia, o Leão da Barra provoca paixões e tem tradição mais que centenária. Mas só agora conseguiu romper o círculo de ferro das disputas entre paulistas e cariocas. À exceção de uma boquinha de vez em quando para representantes mineiros e gaúchos, como variação da batida de uma nota só que não raramente deslumbra e até causa cegueira em boa parte da chamada “crítica esportiva do Brasil”.

Na política, a ambientalista e evangélica pré-candidata do PV à sucessão de Lula deixou claro em suas entrevistas, conversas e encontros na capital baiana – um deles com o arcebispo de Salvador e cardeal Primaz do Brasil, Dom Geraldo Magella -, que um de seus sonhos e motor fundamental da campanha que empreende com vistas às eleições presidenciais deste ano, é muito semelhante aos do Vitória nesta Copa Brasil a ser decidida em agosto.

Marina, voz mansa e figura aparentemente frágil, pisa no chão devagarinho, chega como quem aparentemente não quer nada, navegando pelas beiradas dos igarapés de sua região natal. No entanto, é contundente e firme ao dizer a que vem: quer mostrar e discutir projetos novos, mostrar a face de uma parte sem voz e sem mídia no país.

Em síntese – e nisso foi contundente nas conversas da sexta-feira e deve repetir no discurso deste sábado no lançamento dos candidatos verdes à eleição estadual: fará o que estiver ao seu alcance para evitar que tudo se transforme em mero plebiscito entre a mineira-gaucha Dilma Rousseff (PT) e o tucano paulista José Serra (PSDB).

Na primeira e emblemática entrevista do dia, concedida ao programa da Rádio Metrópole do apresentador Mario Kertész, a pré-candidata do PV lamentou a ausência na disputa de um nome que ela considerava aliado crucial na defesa da apresentação de projetos nacionais e dabate de ideias, como em princípio deveria ser no primeiro turno de uma campanha como a que se aproxima: o deputado Ciro Gomes (PSB-CE), tirado do jogo na hora H por razões que nem os socialistas ainda conseguiram explicar direito.

A “doce, frágil e gata” Marina de repente vira jaguatirica – como ela própria já antecipou a um blogueiro -, ao repelir a ideia dos eleitores serem conduzidos e reduzidos em 2010 a passivos observadores de uma disputa plebiscitária entre petistas e tucanos, entre Serra e Dilma.

Pior ainda, pensa Marina, se tudo virar um grande Palmeiras e Flamengo eleitoral. Uma inaceitável disputa de egos, como muitos já antecipam, entre o tucano Fernando Henrique Cardoso, “cujo mandato duplo terminou há oito anos”, e o petista Lula, “cujo governo também de oito anos, está prestes a chegar ao fim”, protesta Marina em Salvador.

E a candidata verde volta a considerar imperdoável a rasteira do PSB e do governo Lula – “de quem Ciro Gomes foi um dos amigos e aliados mais competentes e leais, até em questões polêmicas e delicadas como a transposição das águas do rio São Francisco” – no deputado socialista pelo Ceará.

“Quem poderia dizer se o Ciro seria ou não presidente eram os brasileiros e brasileiras”, disse Marina na conversa com Mário Kertész na Rádio Metrópole, cercada por todos os lados de mensagens via internet e telefonemas de aprovação e elogios de ouvintes durante e depois de um dos programas de maior audiência do rádio na Bahia.

Na entrevista e nas andanças e contatos baianos, a pré-candidata lançada domingo passado pelo PV em ato na cidade de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense (com anúncio do empresário da Natura como candidato a vice -, tambem para marcar diferenças), Marina falou de sua saída do PT sem atirar pedras em antigos companheiros.

A senadora acreana destacou avanços do governo do presidente Lula – sem esquecer o de FHC, e sem o mesmo entusiasmo em relação ao presidente petista revelado recentemente por Serra na visita a Recife, ou os petardos pesados que Dilma costuma disparar contra o período do governo tucano.

No fim, disse fazer política com humildade e sabedoria – que segundo a senadora acreana são virtudes tipicamente femininas . Mas deu o tom pessoal que ela pretende seja a marca de sua caminhada nesta campanha presidencial e de um eventual e surpreendente caso de triunfo eleitoral: “Vamos manter o que já temos de bom, mas vamos transitar para o futuro”.

A torcida do Vitória, o glorioso Leão da Barra de garra e tradição, que acaba de chegar de supresa para a decisão com o Santos da Copa do Brasil, também agradece.

Bola pra frente!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares@terra.com.br

maio
15
Posted on 15-05-2010
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Dilma:teste na TV

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ARTIGO DA SEMANA

FIM DE CASO

Vitor Hugo Soares

Quinta-feira passada foi um 13 de Maio para não esquecer na política brasileira. Não pelos atos e fatos relacionados com a data histórica em si, destinada a recordar a longa luta contra a escravidão e a discriminação racial no País, ofuscada pela movimentação dos dois principais pré-candidatos à presidência da República, em situações diferentes mas destinadas a levantar poeira e polêmica por alguns dias, pelo menos enquanto a seleção de Dunga não entra em campo.
Mais cedo foi a movimentação de José Serra, do PSDB, em seu “tour” nordestino (campanha é palavra que o candidato recusa) por Pernambuco. Na Rádio Jornal do Comércio – famosa por falar para o mundo desde o tempo em que o grande Antonio Maria andava por seus estúdios – o tucano até arriscou alguns versos do samba canção “Fim de Caso”, de Dolores Duran, clássico da criativa e explosiva fase de rompimento de Dolores com o notável compositor e cronista pernambucano.
Isso tudo entre um elogio e outro do tucano ao presidente Lula em cada entrevista, encontro ou esquina do Recife por onde Serra passou . O pré-candidato do PSDB fez mais: proclamou Lula como “cidadão acima do bem e do mal” e ainda prometeu, se eleito, tocar adiante todas as obras em andamento do governo petista, incluindo a polêmica transposição das águas do Rio São Francisco, cantiga cara, problemática desde o tempo do Império, e que não soa maviosa aos ouvidos de todos os nordestinos.
Mais tarde, antes de voar para Vitória, no Espírito Santo, o tucano precisou dar explicações quanto a “infalibilidade” do governante petista e negar que tivesse sido irônico em suas afirmações e elogios ao presidente no solo pernambucano. Se tivesse esperado pelo que estava guardado para ele e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em rede nacional de TV na noite do 13 de maio, Serra provavelmente teria se poupado das explicações e de ter arriscado a canção de Dolores na Radio JC.
O fim de caso, se algum caso havia entre tucanos e petistas nesta estranha e hipócrita campanha eleitoral que precisa esconder o nome, foi explicitado, sem meias palavras, em 10 minutos de programa de rádio e televisão que parece ter apanhado de surpresa até os juizes eleitorais.
Sem levar em conta proibições legais e tendo como apresentador e mestre de cerimônia ninguém menos que o presidente Lula, a pré-candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, não perdeu tempo com amabilidades e afagos a adversários. Muito menos se intimidou em fazer do programa do partido uma plataforma de largo alcance para lançamento de seu nome, imagem e história, na corrida da sucessão presidencial.
Entre afagos e juras mútuas de afetos, Dilma e Lula dividiram o tempo precioso na pintura a quatro mãos da obra de propaganda e marketing político e eleitoral. A começar pela biografia emoldurada da ex-ministra, da sua trajetória política na época da ditadura militar e em cargos ocupados nos governos do Rio Grande do Sul e federal.
“Eu lutei sim pela liberdade e pela democracia com os meios e as concepções que eu tinha. Quando o Brasil mudou, eu mudei, mas nunca mudei de lado”, disse nos primeiros tiros disparados a queima-roupa contra o adversário Serra, ex-líder estudantil, exilado na época e que condena a luta armada.
Lula chegou a comparar sua candidata a Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul, preso por 27 anos por sua luta conta o apartheid e que “depois virou presidente da República do país africano”. A candidata do PT lembrou também, no final da apresentação, o significado do 13 de maio de 1888 nos combates contra o racismo e a discriminação no Brasil.
Mas o programa insistiu mesmo foi na comparação entre os oito anos do governo Lula e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), tudo que os tucanos pareciam mais temer e estratégia evitada a todo custo por Serra nestes primeiros dias de campanha, como se viu em Pernambuco na quinta-feira.
Quase tudo foi apresentado como realizações da dupla Lula-Dilma, com moldura informativa e jornalística e dados lançados sempre em contraponto com FHC-Serra – aí seguramente com o dedo e a cabeça do marqueteiro da campanha de Dilma e do programa do PT. “Eu tive que aprender e aprendi a encarar as dificuldades”, disse a candidata.
Na imagem pré-gravada, o presidente Lula, fisicamente a milhares de quilômetros do país – prestes a desembarcar no Irã -, manda o recado final: “Ela (a candidata Dilma) tem a ternura, a sensibilidade e o jeito de fazer política dos mineiros e a intrepidez dos gaúchos. É um bela mistura.”
Serra e seus aliados ouviram em Recife o recado do nordestino Lula, que de alguma maneira deu sentido ao samba canção que o candidato tucano ensaiou na Radio Jornal. A partir do 13 de maio de 2010, a cantiga do candidato de PSDB e seus aliados deverá mudar de tom e de ritmo.

A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

maio
07

Dom José Rodrigues: lembrado no Salitre

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ARTIGO DA SEMANA

RELIGIÃO E PALANQUES

Vitor Hugo Soares

Em março deste ano, quando o bafafá da disputa sucessória começava a ganhar pressão, o presidente Luis Inácio Lula da Silva segurou pelo braço sua candidata, a ainda ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e sem dar bola aparentemente para a justiça eleitoral, vôou com ela e comitiva para a Bahia. Cortou o caminho do litoral e pousou no aeroporto da pernambucana Petrolina. Em seguida, atravessou a ponte e logo estava na baiana cidade de Juazeiro, também na beira do Rio São Francisco, local escolhido a dedo para a lição de “como fazer política”, que ele queria ministrar a Dilma e aos coordenadores de sua campanha .
No município administrado por um prefeito comunista do PC do B, ladeado pelo governador Jaques Wagner e os ministros Geddel Vieira Lima e Franklin Martins, o presidente pressionou o botão que acionava as bombas de irrigação do projeto Salitre. Em seguida, dedicou as palavras mais candentes e afetuosas de seu discurso a uma figura religiosa marcante na região, mas ausente na cerimônia: o bispo diocesano aposentado Dom José Rodrigues, chamada do “o Bispo dos Excluídos”.
Diante de uma espantada Dilma, o presidente recordou o velho amigo e aliado de peso – apesar da aparente fragilidade física do bispo destacado no âmbito da chamada “igreja progressista” no Nordeste. Seguidor de palavras e exemplo do arcebispo de Olinda e Recife, D. Helder Câmara, para Dom Rodrigues até figuras com voz forte na igreja da Bahia e no Vaticano, como os cardeais Avelar Brandão Vilela e Lucas Moreira Neves, tiravam o gorro cardinalício.

Voltando ao leito do rio: No comício, a título de inauguração de obra do PAC que se seguiu, Lula registrou a luta do bispo, que não mereceu nenhum destaque nos noticiários do dia seguinte, quase todo tomado pelos esforços do presidente (e da ministra Dilma) para apartar a briga feroz entre o governador Wagner (PT) com o ex-ministro Geddel, com abalos evidentes para a campanha presidencial governista no Estado.
“Todos sabem o desejo que Dom José tinha do projeto Salitre. Ele organizou 72 mil pessoas desalojadas. Diria que foi quase um herói”, disse Lula sob aplausos de centenas de lavradores, vários deles representantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que o bispo ajudou a criar na época da construção da Barragem do Sobradinho, cujas águas do lago artificial, 20 vezes maior que a Baia de Guanabara, submergiu quatro cidades baianas .

De olho no ato político-eleitoral no Salitre, na beira do rio de sua aldeia e na cidade em que passou alguns de seus melhores momentos na adolescência, este jornalista recua no tempo, em busca de pistas e explicações para entender os caminhos intrincados e confusos desta campanha presidencial, esquentada bem antes do toque de bola inicial da Copa do Mundo na África do Sul. Ou o sentido da “lição política” de Lula à sua candidata e seguidores, como um pregador bíblico nas margens do Velho Chico.

Chefiava a sucursal da revista VEJA na Bahia e Sergipe e fui escalado para cobrir a última etapa da campanha do candidasto do PT à presidência da República, no primeiro turno das eleições de 1989. Aquela em que Lula superou a votação de Brizola que avançava, e foi disputar com Fernando Collor de Mello o turno decisivo, no qual foi derrotado.
Era o tempo em que o presidenciável petista não se preocupava com trajes e maneiras de se apresentar nas conversas e nos palanques. No périplo final da campanha, em Vitória da Conquista, depois de comer muita poeira na estrada, Lula apareceu no palanque vestido de jeans e camiseta, barbudo, cara de poucos amigos. O “visual despojado”, como registrou a Folha certa vez, ajudava a solidificar o preconceito de vastas camadas da população contra o líder operário.
Mas a “queimação”- na expressão dos petistas da época – não funcionava para os fiéis seguidores das “comunidades eclesiais de base”, da Igreja Católica, espalhadas por dioceses nordestinas, que atuavam pró-Lula a todo vapor e sem descanso. Em Conquista, no extremo-sul baiano, lá estavam eles, às centenas, quase meia noite, misturando cânticos religiosos com grito de “É Lula, É Lula”.
Na Juazeiro do bispo Dom José Rodrigues um dos episódios mais marcantes e reveladores:
Todas as camisas e camisetas do candidato petista estavam suadas, rasgadas ou imprestáveis para uso no comício final, marcado para Paulo Afonso, por mais “despojado” que fosse o candidato. E a solução emergencial veio do guarda roupa do franzino bispo, na forma de uma camisa de tricoline de mangas curtas, que mal cabia dentro seu novo e parrudo usuário. E assim Lula desembarcou em Paulo Afonso para seu último comício no primeiro turno daquela histórica campanha.
Lula bateu Brizola por pouco no primeiro turno, mas foi abatido por Collor na decisão. Agora, 2010 é outra história. Mas a mistura da questão religiosa com a campanha presidencial já permeia os palanques dos três principais concorrentes: da evangélica declarada e de primeira hora, Marina Silva (PV); do tucano José Serra, criado e formado nas sacristias e lutas da Juventude Universitária Católica (JUC), onde foi atraído para os quadros da Ação Popular (AP), que orientou seus primeiros passos da política. “Que todos estejam na paz do Senhor”, pregou o candidato do PSDB em recente ato evangélico em Santa Catarina.
Dilma Rousseff , nascida de família católica, diz acreditar em “uma força superior”, mas fez confissão de fé católica, recentemente, diante de pergunta mais direta de um repórter. Só não se sabe se aprendeu a “lição” pretendida por Lula, em março passado, ao levá-la às barrancas do São Francisco, na diocese de Dom José Rodrigues, que já não está mais por lá.
A conferir
Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail:vitor_soares1@terra.com.br

maio
01
Posted on 01-05-2010
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Dilma em campanha na Agrishow

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ARTIGO DA SEMANA

CANDIDATOS E O FILME SUECO

Vitor Hugo Soares

Perdi a conta das vezes que vi e revi o filme sueco dos anos 80, “Minha Vida de Cachorro”, um de meus preferidos do cinema de todas as épocas. Guardo a cópia em DVD deste fascinante painel de vida e esperança em meio ao desvario quase total de um tempo. Dirigido por Lasse Hallstrom, a fita revela tudo através do garoto Ingemar e suas observações comparativas: lições agudas a partir de sua aldeia sobre o mundo e seus habitantes, da gente mais simples aos mais célebres e poderoso ao seu redor.

Sensibilidade, graça, equilíbrio e lúcida visão crítica, mesmo nos momentos mais loucos do enredo, estão presentes do começo ao fim. Mesmo quando tudo parece perdido, sem controle e sem saída nesta realização cinematográfica que virou cult com o passar do tempo. A cópia em DVD, digitalizada de antigo vídeo cassete, está sempre ao alcance das mãos e dos olhos, principalmente em tempos de campanhas eleitorais estranhas e polvilhadas de interesses nada recomendáveis, cheias de ruídos, blefes, falsas informações, imposturas de todo lado, como as que se tem visto ultimamente.

Isso e muito mais que tornam atualíssimo e digno de referência neste espaço, tanto o filme quanto o conselho repetido durante toda a fita pelo garoto Ingemar: “É preciso sempre comparar”.

Quase tudo torna o filme inesquecível. O rico conteúdo humano; o desempenho de atores e direção invulgares; o cenário magnífico de uma Suécia de sonhos cujos habitantes amam o samba do Brasil e torcem por seu futebol bem antes do presidente Lula chegar ao Palácio do Planalto.

Comove e surpreende ver o entusiasmo da fervorosa torcida de um povo com fama de “frio e pouco dado a emoções”, na noite gloriosa em que o lutador sueco Ingemar Johanson derrota o até então imbatível peso pesado americano Floyd Peterson.

Esta semana deu uma vontade danada de assistir “Minha Vida de Cachorro” outra vez. Isso em razão de alguns episódios, movimentos e imagens da campanha antecipada que anda a todo vapor em praticamente todas as regiões brasileiras, bem antes da Copa da África do Sul começar, mesmo que nenhum candidato o admita, nem seus condutores políticos e marqueteiros de plantão.

Sem falar em “azaradores” que não dormem como o baiano Duda Mendonça. Este não larga o calcanhar de seu conterrâneo João Santana, que não acha sossego para cuidar profissionalmente de seu trabalho e da imagem da petista Dilma, como Lula recomendou ao publicitário de sua campanha vitoriosa mais recente.

Esta foi uma semana rica em exemplos (nem sempre recomendáveis), a começar pela rasteira do alto comando do PSB aplicada no socialista cearense Ciro Gomes, para derrubar o deputado pelo Ceará em sua postulação para disputar o primeiro turno da eleição presidencial pela legenda de seu partido.

Outro: a pré-candidata petista Dilma Rousseff em seu blog recentemente criado, desfilando na histórica Passeata dos 100 Mil no Rio de Janeiro, com a face emprestada da atriz Norma Bengell. Ou mais recente, dirigindo um trator com chapéu de roceira na cabeça e vestindo terninho executivo na Agrishow, a superexposição de implementos agrícolas em Ribeirão Preto.

No Sudeste e no Norte o auê político-eleitoral causado pelo sorriso novinho em folha inaugurado pela senadora do Acre e postulante presidencial do Partido Verde, Marina Silva. Sorriso que ela exibirá este domingo na Bahia, quando estará em Salvador para impulsionar os candidatos da chapa Verde nas eleições majoritárias no Estado.

No Nordeste, o paulista José Serra visita a Bahia pela segunda vez em menos de 15 dias. Faz força para bater o recorde de Lula em campanhas passadas, sempre a repetir nos palanques a convicção espírita de que um dia, em outra encarnação, foi baiano.

No esforço para cortar caminho na terra onde as pesquisas mostram Dilma mais forte eleitoralmente, Serra não chega a tanto. Mas o paulista não cansa de repetir que foi na Bahia, na época do movimento estudantil contra a ditadura e da construção da Ação Popular (AP), ao lado de Duarte Pacheco Pereira, que aprendeu “a fazer política de verdade”. Desta vez, Serra apareceu bem à vontade ao lado do ex-governador Paulo Souto, postulante a voltar ao Palácio de Ondina na eleição deste ano.

Cercado por toda cúpula carlista do DEM no estado, o tucano visita a cidade de Feira de Santana, segundo maior colégio eleitoral do estado e antigo reduto da esquerda baiana, sob o comando de um dos maiores adversários de Antonio Carlos Magalhães e da ditadura militar durante décadas: o falecido ex-prefeito e ex-deputado Chico Pinto.

Enquanto enfrenta seu drama pessoal em “Minha Vida de Cachorro”, o garoto Ingemar observa tudo e filosofa sobre sua vida, as pessoas e as notícias do mundo à sua volta. Para minorar seu sofrimento, pensa em tragédias maiores que a sua, como a da freira que foi ajudar pessoas na Etiópia e lá foi morta a pauladas.

Ou da cadelinha Laika, que os russos haviam acabado de mandar para o espaço dentro do foguite “Sputnik”, e lá morreria de fome. Feita a reflexão, Ingemar conclui com a sua frase preferida: “É preciso comparar”.

Pois é, antes que seja tarde.

Vitor Hugo Soares é jornalistan – E-mail:

vitor_soares1@terra.com.br

abr
24
Posted on 24-04-2010
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 24-04-2010

Usinas da Chesf:como negar?

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ARTIGO DA SEMANA

RESPEITO À MEMÓRIA

Vitor Hugo Soares

Nas barrancas do São Francisco, rio da minha aldeia, no tempo pioneiro da construção da hidrelétrica da CHESF – que iluminaria o Nordeste depois de inaugurada pelo presidente Café Filho -, um detalhe em especial impressionava o garoto de então: as manifestações populares grandiosas das campanhas políticas na cidade transformada em formigueiro humano de operários, engenheiros e técnicos de toda parte, atraídos pela obra monumental que se erguia na vizinhança árida do quase deserto do Raso da Catarina.
Nunca esqueci o comentário de um “cassaco” (mistura romântica imortalizada dos cossacos da Rússia de então, com os heróicos carregadores de milhões de sacos de cimento consumidos na mega-construção no sertão da Bahia, imortalizados por Luiz Gonzaga). Depois de um discurso de palanque arrasador feito por Antonio Balbino, que disputava o governo do estado com o historiador Pedro Calmon, disse o atento operário ao meu lado no comício:: “Em tempo de eleição ninguém tem descanso, nem os mortos”.
Mais de meio século depois vejam este bafafá cercado de interesses estranhos – e pouco transparentes -, por todo lado, que envolvem o leilão para a construção bilionária da mega-hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. Beatos e conselheiros dos novos tempos andam metidos na briga – um deles o diretor de Avatar e seus santos guerreiros do Greenpeace, em cruzada internacional contra a obra.
Briga feia, que cobra explicações mais nítidas tanto do governo e demais propagandistas da obra, como de seus opositores, alguns acenando as bandeiras justas da defesa do meio ambiente, dos índios, da floresta, e outros nem tão idealistas assim. Travada em tempo de pré-campanha eleitoral, tudo parece antecipar uma nova Guerra de Canudos no norte do País, como a que dizimou o belo monte de Canudos, no sertão da Bahia, nos primeiros anos da República.
Em termos de argumentos vale tudo. Até os mais equivocados ou que escamoteiam a verdade. Por exemplo, dizer e escrever como alguns têm feito, que falta tradição em construção de obras do porte de Belo Monte ao consórcio vencedor do polêmico leilão, encabeçado pela Companhia Hidro-Elétrica do São Francisco – CHESF. Ora, em nome dos fatos e da história da engenharia brasileira, nunca é demais perguntar: “Quem tem mais tradição em obras assim no País que a CHESF?
Vale escutar o rei do baião Luiz Gonzaga, em seu canto de louvor a Paulo Afonso, para reavivar memórias fracas ou mal intencionadas. Também como tributo merecido, nesta hora confusa e interesseira do debate sobre Belo Monte, a tantos que se empenharam até a morte – e não foram poucos – na construção daquilo que para muitos não passava de utopia nordestina.
“Delmiro (Gouveia) deu a idéia. / Apolônio (Sales) aproveitou / Getúlio fez o decreto, e Dutra realizou / O presidente Café (Filho) a usina inaugurou/ E graça a esse esforço, de homens que têm valor/ Meu Paulo Afonso foi sonho que já se concretizou… Olhando pra Paulo Afonso eu louvo nosso engenheiro/ louvo nosso cassaco, caboclo bom brasileiro./ E vejo o Nordeste erguendo a bandeira de ordem e progresso à nação brasileira. / E vejo a usina feliz mensageira, vivendo da força da cachoeira/ Meu Brasil vai”.
Mais de 50 anos depois da epopéia da Chesf em Paulo Afonso, tudo pode parecer piegas e romântico agora, diante de Belo Monte e dos monumentais interesses que a mega-obra amazônica representa, inclusive os eleitorais. Mas na época, quase tudo foi heróico na grande aventura humana sob o ronco da cachoeira nas margens baianas do Rio São Francisco.
Digo isso como o jornalista Sebastião Nery na apresentação de “Rompendo o Cerco”, livro sobre a bravura dos falecidos Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Rômulo Almeida, naquele 13 de Maio de 1978, em Salvador, quando a ditadura soltou os cachorros para impedir a fala de Ulysses em ato público na data histórica: “Ninguém me contou. Eu vi. Estava lá.”.
No caso da CHESF, serve também para lembrar as palavras de sabedoria e ser justo com aquele “cassaco” anônimo que estava ao meu lado no comício de Antonio Balbino, em Paulo Afonso.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@ terra.com.br

abr
17
Posted on 17-04-2010
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Serra:passageiro da chuva em Salvador…

…e Bronson no cinema

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ARTIGO DA SEMANA

COMÍCIO RELÂMPAGO X MASTURBAÇÃO SOCIOLÓGICA

Vitor Hugo Soares

Quando desembarcou em Salvador esta semana, debaixo do maior aguaceiro, o pré-candidato do PSDB à presidência da República, José Serra, parecia aquele personagem representado por Charles Bronson em “Passager de La Pluie” (Passageiro da Chuva), “cult” dos anos 70, dirigido pelo francês René Clement, cujo lançamento nacional vi no antigo Cine Condor, no Rio de Janeiro, de passagem pela cidade.

Enigmático ao desembarcar no aeroporto, que pouco depois teria seus acessos bloqueados pelas águas que transbordaram dos rios Ipitanga e Joanes, o político paulista, a exemplo de Bronson ao descer do ônibus na cidadezinha do filme, deixava evidente: tinha algo relevante em seus planos políticos a experimentar ou a desvendar na Bahia naquela tarde e noite, apesar do dilúvio.

Havia anotado um dia antes em Terra Magazine: Serra, mesmo insistindo na jura de ainda não estar em campanha para ocupar o lugar de Lula no Palácio do Planalto, voaria para o Nordeste, começando pela capital baiana, para inaugurar a estratégia que deve marcar sua campanha nos próximos meses.

Estimulado pelos seus principais conselheiros – com marqueteiro no meio, evidentemente – Serra resolveu que precisava sair do ninho em São Paulo e fazer a viagem rapidamente – apesar dos perigos contidos nas previsões meteorológicas para a região. Antes mesmo de pousar em Minas, no começo da semana que vem, para, ao lado do governador Aécio Neves, dar o que até então o alto comando tucano anunciava como “a grande largada”.

Eureka! O que se viu na última quarta-feira em Salvador foi o ressurgimento (com modelo renovado e mais apropriado ao tempo e a hora da política do País), dos antigos “comícios relâmpagos” dos anos de ditadura, utilizados então pelo chamado Movimento Estudantil (ME), União Nacional dos Estudantes à frente. Em síntese: deslocamentos rápidos para pontos estratégicos, com a finalidade de surpreender os adversários, a conversa restrita ao essencial, pouco discurso e o máximo de ação possível.

No caso em pauta, talvez só o nordestino Lula, em seus melhores tempos de juras de amores baianos, poderia ter feito igual, ou melhor. À ex-ministra Dilma Rousseff, pré-candidata do PT, ainda parece faltar chão e iniciativa própria quando não tem o padrinho e mais vigoroso defensor de sua candidatura por perto.

No vácuo, como o durão Bronson em “Passageiro da Chuva”, Serra, ex-presidente da UNE, pegou o avião em São Paulo desafiando as previsões de temporais para a Bahia, convencido de que, como na época dos “comícios relâmpagos”, não havia tempo a perder com divagações ou “masturbação sociológica”, antiga prática partidária e administrativa que enlouquecia tucanos mais velozes como o falecido ex-ministro das Comunicações de FHC, Sergio Mota, o Serjão.

A agenda baiana e nordestina foi escolhida a dedo e às pressas, como exigia a nova estratégia a ser testada. Primeiro uma visita às Obras Sociais de Irmã Dulce, a quase santa freira, morta em 1992, que criou e deixou o mais importante trabalho de assistência e caridade em Salvador. Em seguida, uma passada pelo Mercado Modelo, para as fotografias e filmagens em um dos mais populares cartões-postais locais, ao lado de capoeiristas, artesãos e figuras típicas do lugar. Além, é claro, de políticos da terra, como o ex-governador Paulo Souto (DEM), que tenta retornar ao Palácio de Ondina; ex-prefeito tucano Antonio Imbassahy, ex-governador Nilo Coelho e o deputado Jutahy Magalhães, um de seus principais escudeiros no Estado há tempos.

Finalmente, o “comício relâmpago” de maior repercussão política. A entrevista de mais de meia hora na Rádio Metrópole ao experiente âncora radiofônico e ex-prefeito, Mario Kertész, no programa de maior audiência e repercussão da capital. Tempo que Serra não jogou fora e preencheu com respostas sobre sua trajetória de vida e antigas ligações políticas com a Bahia, desde o histórico Congresso Internacional dos Estudantes do Mundo Subdesenvolvido, meses antes do golpe de 64, e depois a fundação da Ação Popular, criada na Bahia. “Muito do que aprendi de política devo ao movimento estudantil e à Bahia”, disse Serra, à moda de Lula em campanhas passadas.

E ainda acenou para o socialista Ciro Gomes (PSB), um de seus mais duros críticos: “Ciro tem pinimba comigo, mas é mão única. Eu não tenho nada que me oponha a Ciro”

Depois, ainda debaixo de chuva, pegou o avião em Salvador e viajou para mais um “comício relâmpago”. Desta vez no Ceará dos Gomes.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: vitor.soares1@terra.com.br

abr
12
Posted on 12-04-2010
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 12-04-2010

 

Dimas (2005)

Dimas e Marcia (2004)

Bahia em Pauta está de luto nesta segunda-feira.

Dor profunda pela perda de Dimas Josué Melo da Fonseca, moderador competente e dedicado e uma das pilastras humanas de sustentação desde seus primeiros dias. Um gigante de dedicação e generosidade, mas também de extrema competência técnica e doação , que sempre fez o BP caminhar e crescer, ajudando e estimulando a todos de sua equipe, a começar por este editor, mesmo tendo de enfrentar sofrimentos pessoais e limitações decorrentes do longo e delicado tratamento de saúde.

Dimas – engenheiro e auditor fiscal do estado da Bahia – morreu na manhã de hoje em sua residência, cercado de cuidados pela equipe médica que o atendia, e de amor, afeto e muita admiração de parentes e amigos. Ao lado da mulher e guerreira Marcia (também colaboradora deste blog) e dos filhos Natascha (médica) e Tiago (engenheiro). O enterro dos mais concorridos no Jardim da Saudade, no começo da noite chuvosa , foi outra demonstração comovente do quanto Dimas era querido e admirado.

No dia 11 de novembro, data em que Dimas fez 55 anos, Bahia em Pauta publicou que moderador era pouco para definir Dimas Josué da Fonseca. Pelo papel que cumpriu desde o começo, neste site-blog baiano de olho no mundo, ele foi um permanente pilar de sustentação, que possibilitou e estimulou progressos seguidos ao BP.

Repetimos, agora sem a sua presença: Dimas era pilar, no sentido mais literal do termo, ou em seu sentido definidor de um ser humano. Era uma figura estrutural, vertical, usada normalmente para receber os esforços de uma edificação e transferi-los para outros elementos, como as fundações. Na arquitetura, costuma estar associado ao sistema laje-viga-pilar.

Isso era Dimas em pessoa, o aniversariante que Bahia em Pauta homenageava naquela data e pranteia hoje nestas palavras de reconhecimento e gratidão. Mestre dos software e dos hardware, imbatível nos números e cálculos, sempre magnânimo, corajoso seguidor e arauto da ciência, leitor compulsivo e apreciador incansável de filmes e vídeos de ficção científica, vertical e ético sempre, amante da boa mesa, do vinho, da música, do mar.

BP disse no aniversário: “Dimas é ser inesgotável”. Não retira uma vírgula sobre esse gigante guerreiro no dia de sua morte e sepultamento. A ele, onde estiver agora , nosso tributo e nossos agradecimento, alem do compromisso deste site blog de ser fiel à sua memória e ensinamentos.

(Vitor Hugo Soares, em tributo pessoal e de todos os que fazem Bahia em Pauta)

abr
09
Posted on 09-04-2010
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 09-04-2010

Fatima Bernardes e…

…Laura Beatriz(8 anos): encontro na tragédia

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ARTIGO DA SEMANA

DEPOIS DAS CHUVAS

Vitor Hugo Soares

Nada como os grandes desastres que se abatem sobre populações inteiras e a visão dos dramas que se seguem, entrando pelas casas do país, em imagens instantâneas de coberturas jornalísticas, como a conduzida por Fátima Bernardes na quinta-feira, direto do Morro do Bumba, em Niterói, para desnudar o que a fauna humana tem de melhor e pior nas duas pontas opostas de seu espectro.
No Rio de Janeiro desta semana – assim como nas recentes tragédias causadas pelos terremotos no Haiti e no Chile – as situações se assemelham em grandiosidade e em pequenez: heróis anônimos, em geral gente desconhecida da própria comunidade surgem de repente do lamaçal, de dentro das águas ou dos círculos de poeira e escombros.

Pessoas de todas as idades. Uma delas, a menina de oito anos que Fátima entrevista no final da sua pungente e humana reportagem no JN. Laura Beatriz narra sua experiência pessoal dolorosa e comovente no meio do caos, da dor incontida e dos gemidos em volta, enquanto tudo desmorona. No final, a mensagem surpreendente de que é preciso não jogar fora a esperança que ainda resta: “ainda tenho muito a viver”, diz a menina.

Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”. Penso em seguida nas palavras do poeta enquanto observo as imagens dos voluntários generosos vindos de lugares próximos da favela fluminense, ou de países distantes, armados de infinita coragem e vontade de ajudar. Cidadãos despreendidos, técnicos capazes.

E o contraste com o bate-cabeça desordenado de governantes e administradores insensíveis, sem planos e sem idéias do que fazer efetivamente. A não ser esperar a chuva passar, para ver “como a gente vai resolver os problemas”. Enquanto isso, repisam surrado discurso de outras tragédias. Acusam a “ocupação desordenada dos terrenos urbanos e dos lixões abandonados”, jogam pedras em governos passados , “que em mais de 50 anos nada fizeram”, como gosta de repetir o governador Sérgio Cabral.

Em volta, por todos os lados e de todos os partidos, políticos e candidatos que não enxergam um palmo além do próprio umbigo ou da sobrevivência por mais um mandato nas eleições que se aproximam. Na fotografia de O Globo, a ex-ministra Dilma Rousseff, candidata do peito do presidente Lula à sua sucessão, confraterniza-se alegremente com o ex-governador Garotinho, até recentemente apontado como responsável por metade das desgraças do Rio de Janeiro das últimas décadas.

Agora a culpa é jogada sobre mortos. Um deles, o ex- governador Leonel Brizola, que no túmulo em que descansa no Rio Grande do Sul, nem pode responder. Na hora de acusar, não falta quem lembre até de outro gaúcho; Getúlio Vargas.

Simbolicamente, até a histórica e sempre afetuosa ligação Rio-Bahia anda ameaçada pelos efeitos da catástrofe. No meio das chuvas devastadoras no Rio – pouco antes do desmoronamento no Morro do Bumba, que previsões indicam pode ter soterrado até 200 pessoas – saiu o relatório da auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU). O levantamento revela que, entre 2004 e 2009, o estado do Rio recebeu menos de 1% do total de recursos destinados à prevenção de catástrofes em todo o país, enquanto a Bahia – terra do ex-ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), virtual candidato de seu partido ao governo no estado – teria abocanhado mais de 60% dos recursos.

O conselho nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que parece despertar da letargia dos últimos anos, quer que o Ministério Público investigue tudo. O presidente da instituição, Ophir Cavalcante, reconhece que a OAB não tem como exigir do poder público certos dados, o que o MP pode fazer, até para afastar esse tipo de acusação ou de coincidência.

“Queremos apenas a explicação. O governo tem que se explicar. É o mínimo que pode ser feito nesse momento”, assinala o presidente da OAB. Na quinta-feira, o presidente Lula saiu em defesa de Geddel, ex-auxiliar destacado de sua administração e aliado político e de palanque em 2010, apesar dos desentendimentos do ex-ministro com o governador petista baiano, de quem quer o lugar no Palácio de Ondina. Novos temporais à vista, desta vez políticos e administrativos, já se vê.

Corte para Nelson Rodrigues, no livro de memórias “A Menina sem Estrela”, em que ele recorda a tragédia dos desabamentos nos anos 60, quando morreu seu irmão Paulo Rodrigues, a mulher dele, dois filhos e a sogra. Nelson escreve:
“Sou outro depois das chuvas. E me admira que eu tenha mudado e os outros não. As pessoas continuam indo à praia, meninas tomam grapete de biquíni. Uma catástrofe eufórica como a de Laranjeiras realmente não influiu na cor de uma gravata… Agora mesmo tenho diante de mim um recorte de jornal. É a croniqueta do poeta Drumond sobre o desabamento. Já vasculhei o papel impresso, já o apalpei, já o farejei, já o virei de perna pro ar…”

Mais Nelson Rodrigues para terminar: “E o papel não diz nada… Preliminarmente, uma catástrofe para seus largos movimentos, exige espaço, exige extensão. E a crônica miúda é um gênero próprio para furtos de galinha, duzentas mortes pedem a abundância de Jorge de Lima da “Invenção de Orfeu”.

E ponto final, por enquanto.

Vitor Hugo Soares é jornalista . E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

abr
02
Posted on 02-04-2010
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 02-04-2010

Interlagos: Geddel fecha chapa aqui

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DEU NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE

Vitor Hugo Soares
De Salvador (BA)

Praticamente todos os caminhos do PMDB na Bahia levam ao litoral norte de Salvador neste feriado da Semana Santa. Mais exatamente ao condomínio privado de Interlagos, onde o ex-ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, conversa com seus principais aliados políticos na tentativa de superar dificuldades e fechar a chapa das eleições majoritárias para o governo do Estado, que pretende lançar até quarta-feira, 7.

Na corrida pelo Palácio de Ondina, Geddel terá pela frente não só o seu ex-aliado no pleito passado e maior adversário atualmente, o petista Jaques Wagner. Também o ex-governador do DEM, Paulo Souto, ex-carlista que tenta reconduzir suas forças ao poder, além do deputado Luiz Bassuma, expulso do PT e que se prepara para concorrer ao governo pelo Partido Verde, no palanque baiano da senadora Marina Silva.

Agora sem cargo de comando no governo federal e dependendo de uma vitória para não ficar sem mandato quando acabar o atual de deputado federal , Geddel e seus aliados sabem que a vulnerabilidade é maior. Trabalham e atuam mas discretamente para preencher “buracos” e afastar “dúvidas” que persistem na formação da chapa do PMDB, antes do anúnicio que se quer festivo , feérico e com repercussão nacional.

“Mas ainda falta decidir detalhes e agora mesmo estou indo para Interlagos, onde juntamente com o ministro Geddel e companheiros do PMDB e aliados, as coisas serão acertadas. Depois a gente conversa”, disse a Terra Magazine um dos nomes de maior trânsito junto ao ex-ministro no âmbito parlamentar e das articulações políticas.

Nas conversas em Interlagos para a formação da chapa da coligação PMDB, PSC e PTB, um dos temas mais espinhosos será a escolha do vice. Até duas semanas ante, era dado como “pule de 10” a escolha do empresário e magnata na área da mineração no Estado, João Cavalcanti. Ele chegou a dar entrevista ao jornal Tribuna da Bahia, afirmando que o martelo havia sido batido em torno de seu nome.

Desde ontem, porém, em volta da casa de praia de Geddel Vieira Lima, os ruídos de uma reviravolta eram cada vez mais fortes. Motivos: o gênio excessivamernte impetuoso e a notória “língua solta” do empresário, que tem gerado alguma polêmica e muitas críticas, principalmente em relação ao seu temperamento agressivo com a imprensa.

Cresceram as apostas pelo nome da deputada do PMDB, Marizete Pereira, mulher do vice-governador de Wagner mas aliado de Geddel, que daria o toque feminino desejado ao palanque peemedebista. Para o Senado, uma das escolhas deve recair em Edvaldo Brito, vice-prefeito de João Hentique Carneiro (PMDB) e ex-prefeito de Salvador. A outra vaga do Senado seria de Eliel Santana.

Mas ainda resta a incógnita do polêmico e explosivo magnata da mineração, João Cavalcanti.

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