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ARTIGO DA SEMANA

A MADRE DILMA E O PADRE SERRA

Vitor Hugo Soares

Fascinantes, estressados, caóticos, surreais, hipócritas. Assim foram, não necessariamente nesta ordem, os primeiros movimentos dos partidos, dos candidatos, da imprensa, dos coordenadores de campanhas e marqueteiros esta semana. Marcas mais visíveis no reagrupamento das tropas com vistas a disputa presidencial no segundo e decisivo turno entre a ex-ministra da Casa Civil, Dilma Roussef (PT), e o ex-governador de São Paulo, José Serra (PSDB).
No centro de tudo o invencível exercício do dom de iludir, presença histórica e inevitável, há séculos, em eleições no País. Marina Silva, digna e grande vitoriosa nas urnas do primeiro turno, é misturada com a sombra da cruz apontada na forma quase inquisitorial de estigmas e condenações as mais hipócritas e horrorosas sobre cabeças de candidatos e eleitores.
Em alguns casos, o símbolo religioso está nas mãos e nas palavras de crentes de ocasião, de vários credos. Verdadeiros “hereges” de batina, em hábitos de freiras ou de paletó e gravata a proclamar o santo nome de Deus em vão, como dizia em suas pregações o beato Antonio Conselheiro, em Canudos, no sertão da Bahia, no começo do século passado, naquele confuso e conturbado período de transição do Império para a República no Brasil.
“Gente estúpida, gente hipócrita”, diria o baiano Gilberto Gil em tempos mais contemporâneos, sobre esta explosiva mistura de interesses políticos e eleitorais com religião e seus dogmas, que marca os primeiros movimentos do segundo turno da eleição presidencial em pleno século XXI.
Em tudo, ou quase, ambientes estranhos e tonalidades surreais dignos de um conto do argentino Julio Cortazar, a exemplo da “Pequena História Destinada a Explicar como é Precária a Estabilidade dentro da qual Acreditamos Existir, ou seja, que as Leis Poderiam Ceder Terreno às Exceções, Acasos ou Improbabilidades, e aí é que eu Quero Ver”, que fala das incertezas quanto ao futuro quando “o Comitê se reúne e procede à eleição de novos membros do órgão”. Ciro Gomes, que entra na campanha de Dilma e Jorge Bornhausen, na de Serra, que o digam.

Ou a atmosfera de realismo histórico e fantástico de um romance de Mário Vargas Llosa, o notável escritor peruano vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2010 – para honra, gloria a afirmação cultural e política de um continente chamado América Latina. Isso, apesar da envergonhada e pífia cobertura, factual e analítica, dada pela imprensa brasileira – de repente tomada por arroubos beatos na cobertura jornalística sobre a questão do aborto que virou prioritária na pauta dos diários e nos programas dos candidatos – à transcendente vitória do autor de “A Festa do Bode” e “A Guerra do Fim do Mundo”, entre outras obras primas da literatura do continente e mundial.
Que diferença da profusa, profunda e diversificada cobertura do fato mostrada na CNN, e lida nos diários argentinos e seus sites, no México, na França, na Espanha, para ficar em apenas alguns exemplos mais marcantes e significativos. Fica patente, assim, o intrigante contraste com esta campanha eleitoral brasileira, na qual os temas culturais foram praticamente amputados dos discursos dos candidatos, dos programas de governo e das justas cobranças da imprensa.
Durante a semana inteira, inclusive nesta sexta-feira, 8, no recomeço do horário gratuito de propaganda na televisão e no rádio, o que ficou mais evidente foi o fato da candidata do PT, Dilma Rousseff, por exemplo, trocar o salto alto em que andava metida com os coordenadores e aliados, nas últimas semanas de sua campanha no primeiro turno, por hábitos e pregações de quase monja .
É verdade que, em lugar das modestas e tradicionais sandálias franciscanas, a petista optou pelas modernas mas não menos confortáveis Croc, aquelas de fibras sintéticas com furinhos em cima que os estilistas brasileiros, em geral, abominam e consideram a coisa mais feia do mundo, mas que caiu no gosto de norte-americanos e europeus, principalmente de seus dirigentes políticos e celebridades.
José Serra, o candidato do PSDB, ontem esteve no interior da Bahia, acompanhado de seus aliados do DEM, em pregação cerrada contra o aborto. ”Parece todo o falecido monsenhor Magalhães ou o Frei Damião”, compara um antigo morador de nova Glória, no Vale do São Francisco, ao lembrar dos dois conservadores religiosos e seus amedrontadores sermões, em “santas missões” pelo Nordeste, na segundo metade do século passado. Motivo de enormes pesadelos deste jornalista quando jovem.
Só falta a batina preta, como a asa da graúna. Em outra época isso poderia ser ajuda providencial para virar eleição. Hoje, no entanto, é aposta arriscada, ainda mais para um candidato de perfil progressista como o do ex-presidente da UNE. Mas eleição é o diabo, dizem os mineiros. A conferir.
Enquanto isso, saudemos Vargas Llosa, que tanto nos ensina em seus escritos repletos de personagens notáveis, a exemplo do jornalista míope, de “A Guerra do Fim do Mundo” que, aparentemente perdido no sertão baiano, “resgata a experiência de Canudos, narrando-a”. E opinando, evidentemente.
Viva!!! Viva!!!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail; Vitor-soares1@terra.com.br

out
02

Lula dá autógrafo em Mataripe/AGECOM

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ARTIGO DA SEMANA
A expressão utilizada pelo saudoso sambista Jamelão, ao definir o estado de espírito do ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, na histórica visita à quadra da Escola de Samba da Mangueira, no Rio de Janeiro, em 1997, é, seguramente, a que se encaixa com mais exatidão factual a aparência do presidente da República, na passagem esta semana pela Bahia. “Um pinto no lixo”, principalmente durante a visita à região petrolífera do Recôncavo baiano (onde ele tem sido campeão de votos no País) nestes dias decisivos para a escolha de seu/sua sucessor (a) na votação em primeiro turno deste domingo (3).
Há menos de um mês Lula havia agradecido e se despedido dos baianos, no comício do candidato petista a governador, Jaques Wagner, na histórica Praça Castro Alves. O evento causou mágoas e muito desconforto nos aliados do PMDB, principalmente no ex-ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, que disputa também o Palácio de Ondina. Mal estar só superado pela indignação maior causada pelas declarações da candidata Dilma Rousseff, ao dizer no Farol da Barra, que na Bahia ela só apóia um nome para governador: “E o meu candidato é Wagner”.
Na quarta-feira, sob pretextos variados em sua agenda administrativa, eis que o chefe da nação retornou para mais uma despedida depois de 8 anos no poder. Uma das razões alegadas, oficialmente, foi a participação nos festejos de 60 anos de fundação da Refinaria Landulpho Alves-Mataripe (Rlam), marcados pela entrega das obras de modernização e ampliação do complexo de refino de petróleo pioneiro do País. No fundo no fundo, porém, outros motivos menos visíveis moveram a vontade de Lula nesta nova passagem pelo estado às vésperas da eleição.
Primeiro, uma boa dose de superstição que faz o pernambucano acreditar e proclamar a Bahia, há anos, como uma espécie de talismã que precisa ser tocado na última semana de cada campanha importante de que participa. Segundo, a pretensão pessoal de conferir eleitoralmente e passar a tranca da porteira no Nordeste.
Esta região, de onde mando notícias e opiniões semanalmente, que tem na Bahia, onde vivo, o seu maior colégio eleitoral, o presidente e seus conselheiros mais próximos estão convencidos, será crucial para dar à sua candidata do peito, Dilma Rousseff, a vitória já na votação de amanhã.
Mesmo para quem se considera um predestinado, bafejado pelos fluidos da sorte e do sucesso pessoal e político, esta não é das missões mais fáceis que o pernambucano de Caetés já enfrentou. Principalmente depois que os termômetros mais sensíveis das pesquisas de preferências de votos detectaram a capital baiana, nas últimas semanas, como um dos principais epicentros da chamada “onda verde”, em cuja superfície navega com notável disposição, desenvoltura e competência a candidata Marina Silva, que também sonha – e com méritos de sobra para isso, como tem revelado nos comícios e debates – em ser a primeira mulher presidente do Brasil. Quinta-feira, no último debate na televisão, produzido pela Rede Globo, mais uma vez sua garra e seu desempenho foram marcantes e comoventes. A tendência ascendente da candidata do PV , também às margens da Baia de Todos os Santos, se verifica desde que a acreana vinda da selva amazônica recebeu o título cidadã soteropolitana, ainda no início da campanha.
É igualmente em Salvador, cidade com fama de oposicionista, onde o candidato José Serra consegue seus melhores índices fora de São Paulo, empurrado por aliados do DEM (os que ainda tentam manter acesa a chama do carlismo com Paulo Souto candidato a governador à frente, que ainda briga ferreamente para levar para o segundo turno a disputa com o petista Jaques Wagner. Este, no entanto, vence em todas as pesquisas divulgadas ultimamente, com diferença suficiente sobre seus adversários para garantir, já no domingo, sua permanência em Ondina por mais quatro anos.
No começo desta agitada semana da, em geral, insossa campanha baiana, Serra também esteve na primeira casa legislativa do Brasil, para receber o canudo de filho adotivo de Salvador. Ao agradecer a honraria, o candidato tucano originário do revolucionário grupo de esquerda católica Ação Popular (AP), criado na Bahia com a participação decisiva de Serra, na juventude, dirigiu palavras de afago e exaltação à figura do falecido, antigo adversário e ex-chefe político local, Antonio Carlos Magalhães. Ao mesmo tempo, fez duros ataques ao PT, a seus militantes e aos candidatos do partido à presidência da República e a governador do estado.
Estas últimas notícias da Bahia calaram fundo e levantaram preocupações no Palácio do Planalto. Lula decidiu então verificar o quadro nordestino de perto. Dar uma última conferida no terreiro onde tem cantado de galo nas últimas eleições nacionais. Não por acaso – embora seus assessores e aliados jurem que a estada nada teve de política ou eleitoral – o presidente foi parar no município de São Francisco do Conde, um recordista nacional de votos lulistas, que o presidente se empenha em tentar transferir para Dilma.
Em São Francisco do Conde ficam a pioneira Refinaria de Mataripe e seus petroleiros, que se constituem, historicamente, no mais referencial agrupamento sindical baiano, nascido na época do Sindipetro conduzido pelo ex-deputado socialista Mario Lima, onde bebeu em sua origem até o poderoso movimento sindicalista do ABC paulista, de onde emergiu mais tarde o atual presidente da República.
Na refinaria da Petrobras, Lula deitou e rolou ao lado do baiano presidente da estatal José Sérgio Gabrielli, os dois vestidos com macacões e capacetes dos trabalhadores dos campos de petróleo e refinarias do país. Lula parecia não caber em si de contentamento , cercado de petroleiros e sindicalistas petistas por todos os lados, que lhe pediam autógrafos como a uma celebridade da música ou do cinema.
O visitante não se conteve nas auto-referências: “se o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, viesse ao Brasil e soubesse dos índices de aprovação do governo, diria que ele é “o cara do cara”. Para deixar não só colega norte-americano mordido de inveja, mas mexer também com o tucano FHC, foi além: “Vamos terminar o mandato com mais de 80% de aprovação, de bom e ótimo. Se o Obama soubesse disso e se soubesse que eu com 4ª ano do primário sou o presidente que mais fez universidade e escola técnica, ele ia falar: ‘não é que esse cara é o cara do cara?’”.
Pinto no lixo é pouco. Agora só falta conferir o que dirão as urnas deste domingo.
Bom voto!
Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: Vitor_soares1@terra.com.br

PINTO NO LIXO

Vitor Hugo Soares

set
25
Posted on 25-09-2010
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Dilma: tropeço no Farol da Barra/A Tarde

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ARTIGO DA SEMANA

TROPEÇO COM SALTO ALTO

Vitor Hugo Soares

Recebo em Salvador uma ligação de Brasília. Na outra ponta da linha está um jovem repórter em sua primeira cobertura em escala nacional, mas em cujas corretas informações factuais e observações opinativas sempre agudas e inteligentes confio integralmente. Lembra muito o inquieto Bob Fernandes, recém saído da Escola de Comunicação da UFBA, em seu começo de carreira na redação da Radio JB-FM e sucursal baiana do Jornal do Brasil, que então eu chefiava no bairro de Pernambués.

Conversamos sobre política e Bahia e lamentamos mutuamente a morte do antropólogo Vivaldo da Costa Lima na quarta-feira, 22, (motivo principal do telefonema). Poucos parecem se dar conta da extensão cultural da perda, envoltos no tiroteio da campanha política e do cada um por si dos últimos dias de comícios, animados ou macambúzios pelos números mais recentes das pesquisas dos principais institutos.

Acadêmicos, jornalistas e intelectuais em particular, salvo raras exceções, passam batidos diante do desaparecimento de Vivaldo, pensador, pesquisador e contundente homem de ação que marcou um tempo na Bahia. Na política, inclusive, quando conduzia a restauração do Pelourinho, no primeiro governo de Antonio Carlos Magalhães.

Escurece na capital baiana e na capital do País. Ao telefone, o repórter informa: está parado diante do quartel general de comando da campanha petista, à espera da saída da candidata da coligação PT-PMDB, que voaria dali a instantes para participar, ainda naquela noite, de um comício no Paraná.

No interior do prédio, Dilma Rousseff aguarda o “fim do expediente” no Palácio do Planalto. Em seguida, o presidente Luís Inácio Lula da Silva trocará o terno com gravata de chefe da Nação pela camisa vermelha de cabo eleitoral, antes de também decolar no avião que o levará ao comício paranaense, onde aparecerá horas depois em imagens esfuziantes ao lado de sua candidata “in pectore” .

Antes de desligar vem à tona na conversa considerações sobre o ambiente de evidente e perigoso “já ganhou” no núcleo principal de condução da campanha da chapa da coligação governista. “Salto alto quase geral”, comenta o atento repórter. O comentário confere com registros de Brasília chegados aos ouvidos do autor desta linhas por outras vias. O empenho visível de passar a impressão de “favas contadas”, e, principalmente, apresentar Dilma não mais como candidata preocupada com os resultados das urnas, e sim na condição de executiva sentada na cabeceira da grande mesa, tratando já do futuro governo.

Quase ninguém parece dar importância igualmente aos vídeos da “campanha alternativa” do candidato do PSDB, José Serra, que minutos antes começavam a circular nos múltiplos espaços da Internet, via You Tube, mas já bombavam em quantidade acessos nos mais importantes sites, portais e blogs políticos do país , a ponto de até travar alguns, como revelava em comentário um leitor do Blog do Noblat.

Nos vídeos, em produções marqueteiras caras, de primoroso acabamento técnico e artístico, pontuado por corrosivas mensagens críticas, a imagem de Dilma se transforma em José Dirceu, e cães agressivos são açulados em cena. Nem parece campanha sonolenta do tucano Serra na TV, mas os petistas nem ligam. Ou pelo menos não ligavam até a divulgação, no dia seguinte, da mais recente pesquisa Datafolha, na qual Dilma cai cinco pontos diante de seus adversários em conjunto, o que transforma a antes remota possibilidade do segundo turno no pleito presidencial em algo nem tão distante assim. Marina, sem mud ar o tom, se destaca na “onda verde” que cresce em todas as regiões e pode levar o jogo para a prorrogação. Ou para decisão nos pênaltis.

Desligados os telefone, revejo mentalmente que o “salto alto” não é só em Brasília. No começo da semana, Dilma Rousseff chegou de surpresa em Salvador. Veio gravar cenas para o seu programa eleitoral no Farol da Barra, dias depois de ter alegado problemas de agenda para não subir no palanque do aliado do PMDB, Geddel Vieira Lima.

No cartão postal de Salvador, de público, a petista “rifou” de vez o apoio ao candidato peemedebista. Anunciou no Farol dos grandes eventos, que seu apoio nesta etapa definitiva da campanha é exclusivamente a Jaques Wagner (PT). “Nesse instante eu tenho apoio claro ao governador Jaques Wagner. Geddel nós apoiamos, mas pelas pesquisas, não está bem situado. Tudo indica que a disputa é entre os dois primeiros (Wagner e Paulo Souto). Por isso eu tenho um candidato: Jaques Wagner”.

E ponto quase final, não fossem os resultados das pesquisa Datafolha para o governo da Bahia, divulgados quinta-feira, 23. Wagner, do PT, caiu cinco pontos diante de Paulo Souto, do DEM/PSDB, que subiu cinco em relação à última pesquisa. Geddel cresceu um ponto. São 11 pontos de perda do governista para seus adversários. Sustos na Bahia como em Brasília.

Pelos índices do último Datafolha ainda daria Wagner no primeiro turno. Mas a oposição ganhou o gás que já parecia faltar para tentar empurrar a decisão baiana para novembro.

Salto alto é pouco.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: Vitor_soares1@terra.com.br

Marina:a surpresa positiva

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ARTIGO DA SEMANA

CAIXÃO E VELA

Vitor Hugo Soares

Não se assustem com o título destas linhas. Ele aí está por representar, para o autor, uma das expressões mais saborosas em seu exemplar significado no chamado baianês, rico idioma popular falado nas ruas de Salvador, ou, como preferia Jorge Amado, o linguajar especial do povo da cidade da Bahia. Em tempo de campanha política, ou não.

Adianto que não tratarei aqui de nenhum filme de terror ou suspense, mas do quadro eleitoral que se configura no País a menos de 20 dias do pleito, a partir de quatro fatos cruciais da semana política: o debate dos presidenciáveis na Rede TV!; a mais recente pesquisa Datafolha; a passagem explosiva, por Salvador, de Zé Dirceu, dirigente do PT, que causou tremores e rebuliços locais e repercussão internacional. Por fim, o segundo desmonte na Casa Civil do governo Lula, com a queda da ministra Erenice Guerra.

“Caixão e vela”, no dicionário baiano, significa “morreu aí, não há mais o que fazer”. Desconheço a origem exata da expressão, mas tomei conhecimento dela na condição de irremediável ouvinte, desde a infância, das transmissões de partidas de futebol pelo rádio. Na Sociedade da Bahia, a emissora AM de maior alcance do Estado, em geral quando um time fazia 2 a 0 ou 3 a 1 no adversário depois dos 40 minutos do segundo tempo, se escutava o som do martelo batendo pregos na madeira. E o locutor, implacável, sentenciava: “Caixão e vela, meu povo torcedor (e dizia o nome do time perdedor), agora só resta rezar para o Senhor do Bonfim, e até assim ficou difícil”!

Isso pode parecer perverso para alguns, pessimismo exagerado para outros, pirraça de torcedor político para uns tantos mais. No entanto, ao jornalista que sempre prezou o fato acima de todas as coisas, e vem de longe quando o assunto é disputa eleitoral (desde as acirradas e ideológicas campanhas para grêmios secundaristas e diretórios acadêmicos dos anos 60/70, até as históricas e inigualáveis coberturas de campanhas políticas do assassinado Jornal do Brasil, a partir do processo de reabertura democrática) este parece um caso típico para lembrar o bordão baiano.

Há reduzida possibilidade de erro na avaliação de que a 4 de outubro próximo terá saído das urnas do dia 3 o futuro presidente do Brasil para os próximos quatro anos. Ou mais, a depender de como as coisas correrão depois de 1 de janeiro de 2010, quando Lula finalmente deixará o Palácio do Planalto. Ou não, se optar por deixar sua sombra continuar rondando por lá.

Fica cada vez mais nítido o barulho do martelo pregando a tampa do caixão em que deverá ser sepultado o sonho do tucano José Serra e de seus nada fiéis aliados do DEM, entre outros em diferentes áreas – incluindo na imprensa -, de retomada do poder depois de oito anos de domínio petista, ou mais concretamente, de construção e de consolidação do lulismo no País.

Os fatos desta semana de muitos fatos são mais que emblemáticos. No debate da Rede TV!, em que se esperava um candidato do PSDB indo com tudo para cima – até por falta de espaço para recuar mais – o que se viu? Um Serra desconhecido até para os que o conhecem como poucos, a exemplo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: tímido, atrapalhado em seu discurso de uma nota só que parece mais retirado de bulas de medicamentos que do pensamento e da ação de um dos mais vibrantes, inteligentes e hábeis combatentes da ditadura e, principalmente, um dos mais versáteis, competentes e comprovados governante e administrador público do País.

Um Serra cada vez mais distante de suas origens na brava Ação Popular (AP) dos católicos progressistas, mesmo dos acadêmicos intelectuais tucanos, e cada dia mais próximo do antigo pensamento e ação da velha UDN falso moralista e rançoso, pessimista e mau humorado, reencarnado nas propostas do aliado DEM, pessimamente maquiado.

Do outro lado uma petista Dilma Rousseff, cercada de escândalos e acusações por todos os lados, mas surpreendentemente tranqüila e bem humorada, capaz de fazer piadas e trocar galanteios com o duro e hábil Plínio de Arruda Sampaio, ou de gestos impensáveis de amabilidades com a concorrente verde, Marina Silva, esta sim, uma surpresa positiva e digna de menção da campanha. Resultado: 24 pontos de frente da candidata de Lula sobre Serra (que já nem FHC tem mais ao seu lado) na mais recente pesquisa Datafolha..

E José Dirceu, como entra nesta história, perguntará a turma da objetividade jornalística. Este, de tanto visitar a Bahia e indiscutivelmente hábil estrategista, já percebeu que o jogo está no fim, e escolheu o histórico e emblemático reduto sindical dos petroleiros, criado pelo líder Mario Lima – falecido ex-deputado socialista, constituinte e sindicalista de quem o próprio Lula reconhece ter recebido lições em muitas idas e vindas a Salvador, no ABC paulista e em Brasília – para mandar o seu recado “pós-eleitoral”, como definiu o cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Emerson Cervi.
“É já uma disputa dentro do governo. Ele quis mandar um recado para a Dilma de que ele quer espaço”, afirma o acadêmico. O jornalista opina que a queda, surpreendentemente rápida, de Erenice Guerra na Casa Civil também pode ser incluída nesse contexto. No mais é como diz o soteropolitano: Caixão e vela! Ou muita reza ao Bonfim, pelo menos por um cada vez mais improvável segundo turno.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

set
11
Posted on 11-09-2010
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 11-09-2010

Jatene e Ana Julia: o Pará ferve

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ARTIGO DA SEMANA

DOIS BRASIS E FHC DE QUEBRA

Vitor Hugo Soares

Na quarta-feira da semana passada, convidado para um evento familiar a que não podia faltar, peguei um avião de manhã no aeroporto de Salvador e rumei para o Norte, com destino ao Pará. Deixava para trás, por uma semana, a morna campanha sucessória que pelo andar das pesquisas e salvo improvável surpresa de última hora, caminha para dar em overdose de petismo na Bahia.

Na disputa dos votos do quarto maior colégio eleitoral do País, Dilma Rousseff surfa a largas braçadas rumo à presidência na “onda Lula”, mais impressionante ainda na região Nordeste. Jaques Wagner, embora sem o mesmo vigor, aparenta também nadar sem maiores sustos de morrer na praia – como o adversário Paulo Souto (DEM) no pleito passado – embora a possibilidade deva ser levada em conta até mesmo por este precedente recente. A probabilidade maior, no entanto, é de mais uma temporada do quatro anos do “galego” (como se refere o presidente ao governador) no Palácio de Ondina.

Começo quase sem perceber uma viagem por dois brasis diferentes nas paisagens, nos sabores e, principalmente, no jeito de encarar este em geral modorrento confronto de poder em 2010, que entra na reta final. No meio da tarde desço em Brasília, um país à parte desde o aeroporto. Logo se vê que a máxima que mais importa por lá é a da canção do saudoso piauiense Torquato Neto: “Só me interessa o que pode dar certo”. No caso, descobrir com o máximo de antecedência possível quem será o vencedor. A quem dirigir os memorandos dos pleitos futuros. Com quem negociar interesses a partir de janeiro de 2011. O resto, seja quem for o vencedor, é miudeza que se acerta com o tempo. Dilma ou Serra dá no mesmo no Planalto para essa gente.

Troco de avião para sobrevoar a floresta amazônica: imensa, verdejante, caudalosa como a poesia de Thiago de Melo ou do chileno Pablo Neruda. Aqui e ali os blocos de fumaça das queimadas na mata se projetam no espaço que observo pesaroso da janela da aeronave. “Até quando?”, pergunto intimamente. Sem resposta, no final do dia, desembarco na escaldante e hospitaleira Belém da Fafá, que ferve como no tempo das Diretas Já. Duplamente: pelo forte calor que normalmente faz na região e pela encarniçada batalha eleitoral na qual se defrontam PT e PSDB pelo governo estadual. Neste caso, diferentemente da Bahia, com larga vantagem para os tucanos.

Tanto pelo que apontam os números das pesquisas mais recentes, como pelo que o visitante vê e ouve em todo canto: ruas, taxis, bares, esquinas. Também nos ambientes mais sóbrios e fechados, como na cerimônia de casamento a que fui convidado, realizada na basílica de Nossa Senhora de Nazaré, da famosa e multitudinária procissão do Círio. O interesse e a participação vão do histórico formigueiro humano do mercado Ver-o-Peso aos recantos mais recomendados pelas elites locais, como o belíssimo Mangal das Garças.

No Pará se vê um outro Brasil. Uma campanha política como nos melhores tempos das grandes e ferrenhas eleições estaduais. Coisa de dar gosto ver.

“Vamos tirar o Pará dos vermelhos”, convoca o locutor, brandindo um dos mais contundentes e bem bolados slogans do candidato Simão Jatene, do PSDB, líder disparado nas pesquisas, que chuta no calcanhar de Aquiles da governadora petista Ana Julia Carepa. A menos de um mês do pleito, a “vermelha” a que se refere o slogan tucano, está encostada nas cordas à espera de uma “visita salvadora”, de Lula e Dilma, para “virar o jogo”.

O grito contra o petismo parte de um vistoso carro de som com potência de decibéis de dar inveja aos trios elétricos de Ivete Sangalo, Timbalada de Carlinhos Brown ou de Daniela Mercury no carnaval baiano. Está parado na frente do imenso centro de exposições de Belém, por onde circulam milhares de pessoas de todas as idades na concorrida Feira Anual de Livro do Pará. É domingo, último dia do evento, e o locutor anuncia a pesquisa recém-saída do forno de um dos principais institutos do país, que o jornal O Liberal publicaria no dia seguinte. Muita gente que sai da feira parece gostar do que ouve, e até se diverte com o esforço do acanhado carro de som ao lado, de um candidato a deputado que faz campanha pela reeleição de Ana Júlia.

“Essa mulher não fez nada nesses quatro anos, a não ser os viadutos novos no caminho do aeroporto, que é obra da PAC, com dinheiro federal”, comenta o taxista no caminho de volta para o hotel. “Tudo de bom que o senhor viu em Belém foi Jatene que fez”, completa, desnudando a preferência e o voto.

Retorno à Bahia na quarta-feira, com nova escala em Brasília. Tempo curto de parada, mas o suficiente para Margarida, jornalista atenta que viaja comigo adquirir a revista Isto É desta semana, que traz a contundente e digna entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao jornalista Yan Boechat. Goste ou não de FHC, é preciso tirar o chapeu e reconhecer: a entrevista na revista semanal o coloca em lugar de destaque entre aquele que Ulysses Guimarães definia em seu famoso decálogo do “verdadeiros estadistas”.

Alijado da campanha tucana, “que prefere usar a imagem de Lula à dele, FHC deixa claro que está insatisfeito e ataca os marqueteiros de Serra”, enquanto arruma as malas para uma viagem para fora do país, “por motivos particulares”. Anda magoado porque considera que o País mudou em seu governo “e agora o Serra faz uma campanha escondendo que quem mudou o país fomos nós”. Mas quanta verdade e sutilidade nas queixa sobre a campanha tucana. “Eu não quero colocar toda responsabilidade nele (Serra). É todo mundo. É preciso mais tenacidade, motivação. Serra é professor, sabe falar de maneira clara. Há mil modos de se comunicar com o povo”. Qual a receita? “Não há, mas nesse tipo de situação, a meu ver, você tem que convencer, ser espontâneo, fazer graça e ser contundente também. Tem que misturar tudo isso e mostrar que tem garra”, ensina.
FHC deixa o recado final para Serra, antes de embarcar para a Alemanha: “Não há uma onda petista. Há uma onda lulista. Em governo de Estado o PT não está crescendo em nenhum lugar. Acho que nesse momento entra a vontade. Ou entra com vontade ou não faz nada”.

Na mosca, FHC. O Pará que o diga.

Vitor Hugo Soares é jornalista- E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

set
04
Posted on 04-09-2010
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 04-09-2010

Serra: campanha reformulada na TV

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ARTIGO DA SEMANA

Vitor Hugo Soares

De Belém (PA)

A menos de um mês da votação no primeiro turno já é possível dizer com reduzida probabilidade de erro: falharam – e falharam feio – os partidos, os candidatos, os analistas políticos na mídia e, principalmente, os estrategistas de marketing que no começo deste ano apostavam fichas valiosas na ideia de que se repetiria no Brasil, em 2010, o fenômeno das redes sociais na WEB que um ano antes, nos Estados Unidos, viabilizara financeira e eleitoralmente a vitoriosa campanha de Barack Obama.

Puro engano, ou simples engodo em alguns casos. Menos de 30 dias depois do início do chamado horário eleitoral gratuito de propaganda, o que se vê cada dia com maior nitidez é um verdadeiro banho da “velha televisão” – e do “velhíssimo rádio” também – na preferência nacional quando chega a hora de decidir em quem votar.

Aqui em Pindorama é diferente, já se vê pelo andar da carruagem. Quem foi capaz de perceber isso mais cedo, como o publicitário e jornalista baiano João Santana e os estrategistas da campanha da governista Dilma Rousseff, botou frente invejável e muita poeira nos olhos dos adversários, a se acreditar no que mostram os resultados das mais recentes pesquisas dos principais institutos de verificação de preferências no País.

Nada desesperador ou diferença impossível ainda de tirar até 03 de outubro, ao menos para viabilizar o segundo turno como pretende e pede aos eleitores Marina Silva, do Partido Verde. Mas é melhor não perder de todo o senso de realidade: uma virada é tarefa seguramente muito difícil e ingrata para quem, como José Serra, do PSDB, está sendo obrigado a reestruturar praticamente toda a sua estratégia de marketing político, um completo fiasco até esta semana.

Os tucanos e seus aliados do DEM perderam tempo precioso até despertarem finalmente para o fato de que será na televisão e no rádio o terreno onde a batalha pelo voto no Brasil será decidido mais uma vez. Bastante tempo, esforço e dinheiro jogados fora até a mudança de rumo verificada no horário eleitoral esta semana. Depois do puxão de orelha do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – veterano e tarimbado ganhador e perdedor de eleições -, a descoberta afinal de que “José Serra não é Zé. Serra é Serra”. De canela, mas quem sabe ainda há tempo!

Não foi por falta de aviso mais cedo. Vale a pena recordar aqui, por mérito da autora, o conteúdo do artigo assinado no fim do ano passado pela jornalista Rosane Santana, que atualmente integra a equipe “Eleições 2010” do portal Terra, coordenada nacionalmente por Bob Fernandes. Quando os balões da mídia brasileira exaltavam o desembarque no País da Blue State Digital, empresa norte-americana que estruturou o suporte tecnológico para viabilizar a bem-sucedida campanha de marketing de Obama na Internet nos EUA, saiu o texto “Obama, Web e Brasil”, publicado na revista digital Terra Magazine e no Blog do Noblat.

Rosane acabara de ler em jornais brasileiros, que a BSD estava de malas prontas para desembarcar por estas bandas nas eleições presidenciais deste ano. Pelas mãos do engenheiro elétrico Ben Self, sócio da companhia, o efeito Obama poderá dar resultado na Terra Brasilis, informa a jornalista, citando edições online de nossos jornais e blogs.

“Não acredito”, escreveu em 2009 a autora do artigo, mestre em História pela UFBA, que então ainda morava em Boston, e concluía estudos de três anos na universidade de Harvard, de onde postou o texto publicado originalmente no site blog Bahia em Pauta. Antes de escrever, a jornalista conta ter relido uma esclarecedora entrevista de Eli Parisier, diretor da Moveon.org Politic Action sobre como a Internet está revolucionando a política, concedida à revista Rolling Stone em 2007.

O artigo fala da colossal estrutura humana e tecnológica da Moveon nos Estados Unidos. Criada há 10 anos, é uma organização que congrega cinco milhões de internautas ativistas, e foi um dos principais responsáveis pelas milionárias arrecadações de Obama e o sucesso dele no mundo virtual, “embora muitos continuem a pensar que Obama inventou o Blackberry e descobriu a Internet”, ironiza a jornalista no texto esclarecedor e mais que atual nesta altura da campanha .

O que importa aqui, no entanto, é a explicação da jornalista sobre as razões de sua descrença, quando na época praticamente todos apostavam no papel decisivo da web também por aqui este ano. “Como imaginar, no curto prazo, uma estrutura dessa natureza funcionando no Brasil, país onde a região norte não conhece banda larga, segundo informações que me chegam por telefone, e boa parte do território não possui sequer energia elétrica. Superados os entreves da infraestrutura, cairemos na questão da democracratização da tecnologia . Aqui nos Estados Unidos entre pobres e ricos, negros e brancos, gregos e troianos, o uso da tecnologia de ponta esta disseminado em toda parte”, informava a jornalista baiana, de Boston.

Esta semana, de passagem por Salvador, Rosane Santana lembrava pessoalmente o que dissera pouco antes de retornar dos EUA. Computadores, microcomputadores e afins são acessíveis à população de tal forma, que é difícil você encontrar por lá um celular que não seja iPhone ou Blackberry. A maioria dos estudantes maneja computadores desde a escola fundamental, sem risco de sofrer violência, de ser assaltado na próxima esquina.

E lembra o historiador Oliveira Viana na conclusão de seu texto tão atual: “Como no Brasil tudo acontece por decreto, de cima para baixo, a utilização da tecnologia na política será instrumento do partido do governo e com dinheiro público. Coisa muito diferente do que ocorreu nas eleições americanas”.

Na mosca. Só resta assinar embaixo.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site-blog Bahia em Pauta

ago
28

Serra: sem achar o compasso

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ARTIGO DA SEMANA

É DE PIOR A PIOR

Vitor Hugo Soares

A mais recente pesquisa do Instituto Datafolha mostra com clareza: é periclitante a situação de José Serra, candidato do PSDB à presidência da República que, na verdade, nunca andou bem das pernas nesta campanha. Ele e os claudicantes aliados que ainda o acompanham pelo país – cada semana em menor número e a cada dia com menos firmeza no discurso – à medida que se aproxima 03 de outubro.

“De pior a pior” segue o ex-governador de São Paulo na disputa à sucessão Lula. Parecido com o xaxado nordestino “A cantiga da perua”, dos saudosos Jackson do Pandeiro e Almira Castilho, sucesso nacional dos anos 50, que fez dançar milhões de brasileiros nos forrós juninos.

egravada mais recentemente pela também paraibana Elba Ramalho, a música pontifica entre as gozações atuais dos petistas do Nordeste aos tucano, e define com perfeição o dilema de um candidato sem rumo, que roda dentro de um círculo que se reduz, sem conseguir sair do lugar.

A diferença a favor da candidata do PT já bate na casa dos 20 pontos percentuais, segundo a última Datafolha. Não falta quem antecipe diferenças ainda maiores em próximos levantamentos de outros institutos. Pode ser puro blefe de apostador, ou pura pirraça mesmo. Mas ainda assim é melhor ficar atento.

“Eleição sem pirraça não tem a menor graça no sertão”, já dizia o falecido deputado pessedista Raimundo Reis. Ele sabia das coisas universais e nordestinas e, nos dois casos, as contava com muita graça e inteligência. Além de político, Raimundo foi também um dos maiores cronistas do cotidiano da Bahia em qualquer época, um conhecedor de almas, de costumes políticos, da transitoriedade e pequenez do poder. O autor de “Enquanto é Tempo” e “Geografia do Amor” faz muita falta em épocas eleitorais casmurras que até censura ao humorismo, como esta que está chegando próximo da sua encruzilhada.

Tudo é possível em eleição, dizem os mineiros. Bob Fernandes, que anda pela Bahia, me liga e percebo que ele também tem lá ainda suas dúvidas, apesar dos números, como é próprio dos bons repórteres. De minha parte confesso: não consigo enxergar sinais visíveis e objetivos (nem mesmo subjetivos) de alguma reação digna do nome no desempenho futuro de Serra: nas pesquisas, na qualidade dos programas no horário eleitoral de propaganda no rádio e na televisão, nos comícios, até mesmo nos rostos cada vez mais contrafeitos e agressivos de tucanos e democratas.

Sem falar nas minguadas arrecadações para o caixa de campanha do ex-governador de São Paulo, na medida que o candidato desce a ladeira. Este, sem dúvida, um sinal vermelho em campanha nacional no país com as dimensões do Brasil.

Vejam, por exemplo, o caso baiano. O governador petista Jaques Wagner anunciou, com quase uma semana de antecedência, que o presidente Lula lhe havia garantido presença em Salvador ao lado da candidata “in pectore” à sua sucessão, Dilma Rousseff, no comício que varou a madrugada de ontem na Praça Castro Alves.

Foi o suficiente para a capital baiana praticamente virar um deserto de tucanos e democratas. Não havia buracos suficientes na cidade administrada pelo prefeito João Henrique Carneiro (PMDB), onde tanta gente em fuga pudesse se esconder de uma hora para outra, da mão pesada e dos olhos penetrantes na passagem do “rei” e sua “soberana” pela província.

Mesmo no PMDB do ex-ministro Geddel Vieira Lima, aliado nacional da candidata petista à presidência e ácido adversário de Jaques Wagner no estado, muita gente preferiu “tomar o caminho da roça” para se esconder. Ou fazer campanha no interior, a começar pelo candidato peemedebista a governador.

Ficou João, o prefeito, porque teria sido vergonhoso demais ele sumir de repente quando também o ministro das Cidades visitava Salvador para entregar “as chaves” e prometer mais recursos para o interminável metrô baiano, cuja primeira e única linha está em construção há 11 anos. Além disso, até os mais ingênuos dirigentes de PMDB estão convencidos de que João já caiu nos braços de Wagner há um bom tempo.

No comício de ontem, na Praça Castro Alves, uma cena das mais emblemáticas destes dias e desta campanha. Ao discursar, Lula faz suas escolhas eletivas no estado, com cortes de cirurgião consagrado. Ao governador petista a seu lado, atacado por Geddel na campanha, recomenda: “Não perca a calma, Wagner, quando os adversários estiverem babando de ódio”.

Depois o presidente pediu votos para eleger toda chapa majoritária de Wagner – os candidatos ao senado Lídice da Mata (PSB) e Walter Pinheiro (PT). No palanque Lula vê Otto Alencar (PP), fina flor do antigo carlismo baiano. Agora candidato a vice-governador na chapa petista, Otto veste uma camisa amarela da campanha petista com o “Wagner 13” escrito nas costas. Lula não perde a embalagem: “Companheiro Otto, não sabia que tu ias vestir essa camisa com tanta rapidez”, dispara o presidente. E a platéia ri do constrangido ex-seguidor de ACM.

Enquanto isso, na campanha e nos palanques de Serra, parece prevalecer a lei daquele motorista de caminhão do filme “Macunaima , o herói sem caráter”. Depois de despejar a leva de retirantes sem emprego e sem rumo na periferia da grande cidade o motorista avisa :”Agora é cada um por si e Deus contra”.

“É de pior a pior”, como no xaxado de Jackson do Pandeiro.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: Vitor_soares1@terra.com.br

ago
21
Posted on 21-08-2010
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 21-08-2010

Torcida do Ínter: um exemplo

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ARTIGO DA SEMANA

SIMBOLOGIAS GAÚCHAS

Vitor Hugo Soares

A quarta-feira (16 ) foi um dia para não esquecer, e não me refiro como se verá adiante às primeiras apresentações dos candidatos nos programas do chamado horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão, que nem foram tão marcantes assim. Salvo, evidentemente, uma ou outra exceção de brilho criativo na forma e de qualidade no conteúdo, para compensar as inúmeras decepções de praxe.
Um exemplo positivo – é preciso reconhecer por mérito de seus criadores – foi a primeira apresentação da candidata do PT, Dilma Rousseff, receita quase perfeita de jornalismo e propaganda em uma mesma peça. O lado negativo fica por conta da enorme frustração de expectativa, na forma e no conteúdo, causada pelo programa de Marina Silva, do Partido Verde, vendido previamente como cinematográfico avanço da propaganda política, mas que na prática se revela, até aqui, um formidável fiasco como cinema e como propaganda eleitoral.
De volta ao começo destas linhas, devo uma explicação: o que me prendeu até altas horas na quarta diante da tela da TV, na Bahia, foi o memorável espetáculo de gigantes – no gramado, na arquibancada e nas ruas -, produzido pelo duelo entre o Internacional, lá dos pampas gaúchos, e o mexicano Chivas Guadalajara, que levou o time brasileiro à conquista pela segunda vez da Taça Libertadores da América.
Coisa digna de narrativa de Nelson Rodrigues, se vivo estivesse o magistral cronista do Rio de Janeiro nascido em Pernambuco. Espetáculo talhado para “À Sombra das Chuteiras Imortais”, por exemplo, ou para uma daquelas odes fantásticas de grandes poetas ou mestres da literatura ao narrar epopéias dos conquistadores.
No Estádio Beira Rio, símbolo de um país naquela noite, um jogo eletrizante, daqueles capazes de dar enfarte até em quem não curte futebol. O visitante “Chivas” não parecia impressionado com a torcida nem com os prognósticos dos críticos de que os mexicanos haviam feito a longa viagem da América do Norte ao Rio Grande do Sul só para cumprir tabela.
Os craques do Guadalajara jogam apaixonadamente em honra da camisa que vestem. Entram firmes em todas as divididas, manejam a bola com classe quando podem, ou chutam para qualquer lado com disposição de jogadores de várzea, quando necessário. Até estão na frente do placar quando o juiz apita o final do primeiro tempo.
O problema é que do outro lado há ainda mais paixão, garra e entrega. Talento e profissionalismo também, que só com paixão, entrega e vontade não se conquista nada, no máximo se chega ao limiar do gozo incompleto. E os gaúchos viram o placar, ganham as faixas e levantam a taça de melhor time das Américas, pela segunda vez.
Há ainda a destacar o maravilhoso exemplo que vem das arquibancadas, do começo ao fim da partida carregada de símbolos. De fazer chorar de emoção mesmo quem está em Salvador, a milhares quilômetros de distância de Porto Alegre, e nem é torcedor do Inter. Principalmente, quando todas as vozes se juntam para entoar o sucesso nacional dos Mamonas Assassinas, transformado em empolgante hino do time gaúcho: “Você me deixa doidão”, canta a torcida unissonamente enlouquecida para seu time em campo.
Que espetáculo de criatividade, de paixão, garra, união e combate em busca de um objetivo! Quanta diferença, mal comparando, com o que se viu até esta semana na disputa presidencial e mesmo para governadores na maioria dos estados, a Bahia por exemplo! Nesse campo, a marca principal, quando faltam menos de dois meses para a votação no primeiro turno, tem sido o óbvio de um lado, e a indiferença do outro.
Entrei acordado pela madrugada adentro diante da TV na quarta-feira. Queria escutar as últimas notícias da campanha eleitoral por dever de ofício, mas principalmente tinha a esperança de rever as empolgantes imagens do Beira Rio transmitidas para a Bahia durante o jogo. E a expectativa não foi frustrada. No Jornal da Noite, da TV Globo, com William Waack no comando, a cena final foi a torcida do Inter a cantar “Mamonas”, enlouquecida de alegria, para o seu time bicampeão das Américas: “Você me deixa doidão”.
Que maravilha! Depois, antes deitar, penso com meus botões: uma gente e um País assim, capazes de produzir um espetáculo tão belo e tão carregado de simbologia como este no Rio Grande, não podem dar errado. Aproveito então para pedir ao Senhor do Bonfim da Bahia e ao meu Santo Antonio da Glória que os políticos não desmintam ou atrapalhem este caminho de esperança.

E agarro no sono e no sonho!

Vitor Hugo Soares é jornalista -E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

ago
14
Posted on 14-08-2010
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 14-08-2010

Plinio Arruda: recado para a Globo

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ARTIGO DA SEMANA

BATALHAS NAS TVs

Vitor Hugo Soares

A chapa começa a esquentar no picadeiro e nos bastidores do grande circo da campanha presidencial, que entra em sua fase crucial neste agosto, quando é indispensável mostrar “quem de fato tem farinha para vender na feira”, como dizia o gaúcho Leonel Brizola em temporadas políticas mais empolgantes. O fato é que até já se registram as primeiras ameaças de incêndios e muto “deixa disso” na calda dos debates e sabatinas dos candidatos nas grandes redes de televisão.

Oba, saúda o jornalista que vive de fatos. Finalmente um pouco de sal na sopa insossa de retórica desenxabida servida até aqui aos senhores ouvintes e eleitores. A maioria, segundo os indicativos mais confiáveis, saturada de ouvir o mesmo na fala de pouco brilho, sofrível fluência verbal e praticamente nenhuma proposta nova ou relevante dos principais concorrentes ao posto principal de comando da nação, ao qual seu atual ocupante parece tão apegado.

Mesmo depois de oito anos no cargo, o presidente Lula chora de tirar o lenço toda vez que lembra que terá de desocupar o Palácio do Planalto até o fim do ano. Deu pito nos ministros esta semana e disse que não quer corpo mole antes de janeiro de 2011. Apesar da estafa visível no rosto de quem precisa governar e carregar no muque a campanha de Dilma Rousseff à sua sucessão, Lula parece nem pensar ainda em azeitar os molinetes para “voltar a pescar livremente”, seu sonho de “depois do poder”, dito por onde tem passado ultimamente.

Na Bahia, inclusive, onde José Serra, do PSDB, esteve ontem, uma sexta-feira, 13 de agosto. O tucano paulista desembarcou com tarrafa de pescador de votos, para lançar seu programa de governo para a área de segurança pública, que começa com a criação de um ministério específico para o setor.
Para observadores mais atentos, um aceno a mais, além da relevância que se espera do projeto em si, para tentar apaziguar seus aliados do DEM e, ao mesmo tempo, atender aos apelos mais conservadores do eleitorado da região Nordeste, onde sua candidatura derrapa perigosamente nas mais recentes pesquisas eleitorais de diferentes institutos.Quase me perdi, pois o que quero ressaltar mesmo é o novo e mais interessante momento da disputa eleitoral, patente no primeiro debate conduzido por Ricardo Boechat, na Rede Bandeirantes, e na sabatina de William Bonner e Fátima Bernardes, no Jornal Nacional da Rede Globo.

Como no escaldante e perigoso verão da Rússia, também no invernoso período eleitoral brasileiro começaram a atuar incessantemente, ao mesmo tempo, bombeiros e incendiários de todo tipo. Os primeiros com água jogada de carros e baldes; jatos de espuma lançados de helicópteros e até galhos de árvores batidos na tentativa de apagar o fogo que se espraia. Os segundos, munidos de galões ou litros de gasolina, pavio e fósforo, se esforçam para propagar ainda mais as chamas.

O debate da Band, apesar da reduzida audiência apurada pelos institutos, obteve nos dias seguintes uma surpreendente e extraordinária ressonância pelo país afora, ocupando farto e generoso espaço de repercussão informativa e opinativa nos jornais e revistas da chamada mídia impressa, mas principalmente nos meios eletrônicos – televisões, emissoras de rádio do país inteiro e blogs à frente.
A sabatina dos candidatos pelos normalmente circunspectos, mas, de repente – em alguns momentos – agressivo casal de âncoras William Bonner e Fátima Bernardes, do Jornal Nacional -, esquentou muito mais ainda o tempo na campanha esta semana.

A audiência multiplicada por 10 vezes em relação à concorrente do Morumbi, em São Paulo, deu mais eco e relevância a atos e palavras de Dilma Rousseff, do PT, Marina Silva, do Partido Verde, e José Serra, do PSDB, na Globo. Mais ressonância às palavras e amplitude às imagens naquilo que de melhor e pior fez e disse cada candidato na bancada de primeira classe da televisão. Até Lula protestou, em Minas Gerais, contra o tratamento dispensado à sua candidata no JN.

As conversas de reduzido brilho e interesse na forma e no conteúdo – tanto nas perguntas dos âncoras quanto nas respostas dos candidatos – foram sempre pontuadas por reprimendas severas, “lições” de bom comportamento, advertências e até cortes bruscos da imagem como na interrupção, por determinação de Bonner, das palavras finais de Serra em sua sabatina. As reações dos sabatinados foram diferentes e isso, sem dúvida, deu o molho das entrevistas. Forneceu igualmente o combustível para atear fogo no circo eleitoral.

Mas o auê, como dizem os baianos, não para por aí. A exclusão do candidato Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, da seleta bancada do JN , também ainda rende muito rebuliço nos partidos e na mídia. Afinal, Plínio de Arruda, tratado como um grande e em igualdade de condições com os demais no debate da BAND, foi quem mais surpreendeu e brilhou no estúdio do Morumbi, sob o comando discreto e sempre profissional do jornalista Ricardo Boechat. Virou até celebridade nas ruas, onde até então não passava de “ilustre desconhecido”

A ausência do velho cavalheiro das esquerdas de São Paulo, no tablado principal da Globo, além de causar desapontamentos em muita gente, contribui para aumentar a munição dos incendiários nos dias seguintes.
Sabatinado em casa durante três minutos pelo repórter Tonico Ferreira, o candidato do PSOL lavou a mágoa de quem se considerou tratado como “passageiro de segunda classe”, com o recado que mandou para o Jardim Botânico e foi levado ao ar no tempo extra cedido pela emissora, como condição imposta por Plínio para participar do programa. Um recado educado, diga-se, mas tão severo quanto algumas das reprimendas e lições de Bonner e Fátima nos felizes convidados à sabatina do JN, que acusou o golpe.

“Não é nada, não é nada, não é nada!”, diria a turma do Pasquim antigamente. Mas já é alguma coisa.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: Vitor_soares1@terra.com.br

ago
07

Plinio: a boa surpresa na tela da TV

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ARTIGO DA SEMANA

UM DEBATE SUECO

Vitor Hugo Soares

Se aquele irônico personagem marciano das crônicas imortais de Nelson Rodrigues tivesse aterrissado com seu disco voador no Brasil, na noite de quinta-feira, e ligasse o aparelho de televisão no primeiro debate da campanha presidencial de 2010, promovido em São Paulo pela Rede Band, teria tomado um susto: “Errei de rota e pousei na Suécia!”, pensaria o ET.

O que ele teria visto? No cenário do embate conduzido pelo jornalista-âncora Ricardo Boechat, aparecem Josá Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT), Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) e Marina Silva (PV). Duas mulheres e dois homens da política brasileira, que os “senhores ouvintes e telespectadores” se acostumaram a identificar ao longo de décadas pelo estilo de cada um, mais para o “quente” que para o “frio”, para usar a linguagem padrão dos comunicólogos dos anos 60/70, substituídos pelos marqueteiros e seus jargões atuais.

Os quatro candidatos são todos passageiros do trem da chamada esquerda brasileira, cujos destinos, de uma forma ou de outra, se cruzaram antes nos célebres e agitados anos de luta contra a ditadura (que não nos ouçam os chatos da objetividade jornalística e os politicamente corretos de agora).

É visível que todos eles dissimulam o quanto podem na implacável imagem da televisão – uns mais outros menos, evidentemente. Não fica claro o motivo, mas é como se cada um tentasse esconder a carapaça do passado de “jovem rebelde” , para vender a imagem “clean” de “bom moço”, meio arrependido de traquinagens idas e vividas, na hora de disputar o voto sabidamente conservador da maioria dos eleitores do País, principalmente nas regiões onde as pesquisas indicam que o jogo anda mais apertado.

Serra, ex-agitador militante de Ação Popular (AP) e ex-presidente da UNE, ex-guerreiro das passeatas que foi parar no exílio chileno, é a gentileza em pessoa na tela. Esbanja elegância e “fair-play” de zagueiro do Fluminense, o “pó de arroz” carioca, como se recepcionasse em sua casa os demais convidados do debate. O candidato paulista não ri (como registra sua preocupada filha em um dos intervalos) mas também não se exaspera em nenhum momento.

Nem mesmo quando provocado mais diretamente por Plínio – o em geral enfezado comunista padrão, mas que se revela na TV o mais lépido e bem humorado candidato á sucessão de Lula. Diante da insistência do tucano em trazer para o cenário o tema da saúde, o candidato do PSOL pontua: “Agora eu entendo porque Serra é chamado de hipocondríaco”.

Diante da estocada de Plínio em seu adversário mais direto nas pesquisas, Dilma quase se engasga ao tentar disfarçar o contentamento com um gole de água no copo colocado à sua frente. Imagem marcante que a câmera ágil e indiscreta registra em fração de segundos. Mas a ex-militante esquerdista da guerrilha urbana, temida também por suas tiradas explosivas em mais recentes reuniões do governo Lula (que o diga o ex-ministro da Defesa Waldir Pires), logo se recompõe, sem perder a elegância e sem molhar o alva roupa que ela ostenta no debate, em substituição ao tradicional terninho vermelho que costuma envergar nos encontros com companheiros trabalhadores metalúrgicos no ABC e em outros palanques e reuniões de campanha. “Vim em nome da paz”, explica a petista aos que se surpreendem.

Marina Silva, já se sabe, é normalmente um doce de pessoa. No debate da Band, virou puro mel de mandassaia. A ex-militante petista, valente jaguatirica acreana, braço direito de Chico Mendes na preservação da mata amazônica e defesa da exploração dos recursos sustentáveis da floresta, esteve mais “ligth” ainda.

A candidata verde não mostrou as garras de felina nem quando Plínio também lançou um bote direto contra ela, acusada de ter virado uma “capitalista da luta ambiental” cujas posições não guardam mais “nenhuma diferença na comparação com o pensamento conciliador de Serra e Dilma” sobre política, economia e até a questão social. A jaguatirica responde com um riso discreto, compreensivo e quase filial ao atacante.

Suécia é pouco! Isso no tempo em que o país nórdico era mostrado nas escolas brasileiras como modelo mundial de boa educação, “terra de gente que não xinga, não fala alto, nem joga papel na rua”. Talvez esteja aí a principal razão da baixíssima audiência do primeiro debate da campanha presidencial na TV Band, que variou entre 3 e 6 ponto percentuais (no pico), segundo revelado pela própria emissora paulista.

Números pífios (talvez seja esta a mais perfeita definição), principalmente quando o índice é comparado com o banho da concorrente Rede Globo, que bateu nos 44 pontos de pico ao transmitir o jogo Internacional x São Paulo pela Libertadores da América, no estádio do Morumbi. Bem pertinho da arena política.

No estádio de futebol, sim, se viu um jogo de verdade. Vontade de ganhar dos dois lados: garra, raça, valentia, jogadas de efeito e chutes para o mato quando necessário, no jogo de campeonato. Gente sem medo de correr riscos dentro de campo, sem temor dos urros e apupos vindos da galera nas arquibancadas. No fim um gaúcho, o Inter, vencedor no campo do adversário.

Um elixir contra o tédio, que não deixou ninguém desligar o aparelho, e muito menos dormir diante da TV antes do árbitro apitar o final da partida. Quanta diferença do debate presidêncial da quinta-feira. Se o marciano de Nelson Rodrigues mudou o canal, como muita gente de carne e osso, descobriu finalmente que conduzira sua nave espacial na rota certa.

“Estou mesmo no Brasil!”, deve ter dito o E.T.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: vitor_soares@terra.com.br

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