Discurso da ministra Maria do Rosário…

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…não bate com o do general Elito

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ARTIGO DA SEMANA

Trancos e Barrancos do novo governo

Vitor Hugo Soares

O ex-presidente da República na base militar próxima da bela praia paulista de Guarujá – em silêncio, mas provocado praticamente todos os dias por antigos e novos críticos, cada vez mais numerosos, apressados e inclementes nas cobranças. Nada escapa dos olhares curiosos e dos pedidos veementes de “investigação rigorosa”, nem as tralhas da mudança da família Lula da Silva.

Enquanto isso, a presidenta Dilma Rousseff vai instalando “aos trancos e barrancos” – como na velha canção popular – o novo-velho circo do poder em Brasília. Em geral, bafejada por opiniões positivas, acenos compreensivos e palavras carinhosas dos mais duros e impiedosos analistas e adversários políticos até a oficialização dos resultados do pleito presidencial de outubro de 2010.

“O poder é isso, sempre foi e sempre será assim”, repetem gregos, mineiros e baianos há muito tempo. Ou como sintetizou a nova presidente na sua primeira fala à Nação depois de empossada no Congresso, direto do Parlatório do Palácio do Planalto, depois do temporal no normalmente seco planalto central do país. Em raro momento de brilho misturado com emoção genuína, a mineira e ex-combatente guerrilheira nas lutas contra a ditadura militar, que alcançou pelo voto democrático o posto de mando mais elevado do País, surpreendeu de fato.

No discurso, depois de passar em revista as formações militares sob seu comando, Dilma Rousseff recorreu “a um poeta da minha terra”, na verdade o escritor e ex-diplomata Guimarães Rosa, em citação retirada de capítulo notável do romance “Grande Sertão: Veredas”.

“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”, disse a ex-presa política duramente torturada em sua passagem pelo cárcere político.

Belas e bem escolhidas palavras, pronunciadas com voz embargada, sob os olhares atentos e testemunhais de meia centena de líderes políticos estrangeiros – de Hugo Chavez a Hillary Clinton – e aplausos da multidão presente na festa da Esplanada, sem falar nos milhões de brasileiros de olhos e ouvidos ligados nas transmissões das redes de rádio e televisão Brasil afora. Resta saber como a nova presidente honrará de fato durante seu mandato as citações de seu discurso de posse, ou se as deixará à deriva do tempo e do vento.

É cedo ainda para ter respostas, mas é sempre recomendável – principalmente para quem pensa e faz jornalismo -, ficar atento ao movimento dos ventos e das velas. Por exemplo: a volta repentina dos gestos significantemente expressivos da ex-ministra Erenice Guerra, em seus passos aparentemente seguros sobre os tapetes macios e silenciosos do Palácio do Planalto.

Não custa lembrar: depois de pintar e bordar no pedaço – até dedo na cara de ministro ela botou no governo Lula -, Erenice foi afastada do comando da Casa Civil no bojo do maior escândalo da recente disputa presidencial, que abalou severamente os principais pilares em que se sustentava a campanha de Dilma, como reconheceu em entrevista recente à Folha de S. Paulo o publicitário baiano João Santana.

Vale ficar atento igualmente ao conteúdo das entrevistas e discursos notoriamente divergentes quanto a intenções e rumos pretendidos, de antigos e novos integrantes do núcleo mais fechado do poder que se instala em Brasília.

Novo comandante do Gabinete de Segurança Institucional do governo petista – antigo passageiro das hostes do governo tucano do presidente Fernando Henrique Cardoso -, o general José Elito Carvalho Siqueira disse ao tomar posse do cargo que não se deve “ficar vendo situações do passado”, ao falar sobre sobre a possibilidade de criação da Comissão da Verdade para investigar a violação de direitos humanos ocorrida durante o período da ditadura militar (1964-1985).

Na manhã do dia seguinte, ao assumir seu posto no governo Dilma, a nova ministra da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Maria do Rosário, defendeu a criação da Comissão da Verdade o mais rápido possível. E foi incisiva na argumentação: “É mais do que chegada a hora do Estado brasileiro prestar esclarecimentos”.

Tem mais, muito mais, e como alertava o personagem vivido por Jô Soares na antiga chanchada do cinema nacional do começo dos anos 60: “Vai dar bode!”. Por enquanto, porém, fiquemos por aqui neste complicado começo de ano e de governo.
Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

dez
18

Lula e Assange: dupla em alta no fim do ano

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OPINIÃO POLÍTICA

Assange e Lula nas quebradas de 2010

Vitor Hugo Soares

É fim de ano outra vez. No Brasil e no mundo vive-se período de baixa estação de notícias. Os diários impressos, as revistas semanais, as redes de TV, os blogs e os sites “operam à meia boca”, expressão que o jornalista Ricardo Noblat gostava de usar quando morava e trabalhava na Bahia – antes da explosão da web que o levaria de vez de Salvador e o transformaria em pioneiro dos blogueiros políticos mais citados do País.

Em dias assim a mídia está voltada, em geral, para o jogo interesseiro e desinteressante que cerca as escolhas ministeriais da presidenta que chega; ou às viagens e pajelanças de despedida do presidente que sai – na capital o no interior do País. Pior ainda, abre manchetes e produz textos amplos e generosos para mais “um retorno do imperador Adriano ao futebol brasileiro” (depois de eleito o pior jogador estrangeiro na Itália), ou para as maravilhas que a “top model” consegue operar na cozinha.

Tamanha apatia investigativa e falta de vigor no noticiário político e geral, principalmente, mas também o insosso e repetitivo noticiário de comportamento de nossas “celebridades”, é que valorizam e dão sabor jornalístico especial à matéria de capa da revista “Time” desta semana.

Trata da escolha do público leitor, por larga margem de votos, do australiano criador do site WekiLeaks, Julian Assange, como Personalidade do Ano, e da polêmica e contestável decisão dos editores da influente publicação de ofertar o título ao décimo colocado na votação popular do leitores: o norte-americano Mark Zuckerberg (criador do Facebook), a onda da moda na Internet.

Ainda assim merece destaque o notável saque jornalístico da Time, que começa pela própria composição da capa em si. A imagem na revista corre o mundo. No entanto, nunca é demais descrevê-la mais uma vez para os menos avisados, ou em respeito à lição de técnica de redação do saudoso e premiado mestre do Jornal do Brasil, Juarez Bahia (sete premiações do Esso de Jornalismo): “escreva sempre como se estivesse transmitindo a informação para o leitor pela primeira vez”. Obedeço ao querido Bahia, que nos deixou em um dezembro como este.

Assange está com a boca amordaçada por uma bandeira americana, o que já seria forte o suficiente, mas não pára aí. Acompanha uma incômoda pergunta como chamada, que completa o jeito ousado e genial de pensar e fazer imprensa: “Quer saber um segredo?”, pergunta a revista.

Bravo! Sensacional! Mesmo que no fundo a imagem e a pergunta sirvam para disfarçar uma boa dose de temor. Até mesmo de pusilanimidade – para ser mais exato – dos editores da legendária publicação. Na verdade, uma piedosa, embora criticável compressa jogada sobre a enorme ferida aberta na diplomacia e nos círculos mais representativos do governo e do poder nos Estados Unidos.

Ainda assim, o fato quando se analisa o conjunto da obra é que esta edição da Time é um primor. Um marco neste ano de 2010, em que a mídia impressa nos Estados Unidos, no Brasil e no resto do mundo tem pouco ou nada a festejar. E olha que, por estas bandas do Atlântico Sul, foi um ano de campanha presidencial.

Semana passada, bem antes de surgir a idéia da capa e de começar a circular a revista americana, o presidente Lula, notório peladeiro da Granja do Torto, não deixou a bola passar sem petardo certeiro na direção dos vacilos e omissões da mídia e dos grupos de opinião e intelectuais mais destacados no país. Deu apoio firme e explicito a Assange e seu site explosivo, além de levantar suspeitas em relação ao que, de fato, se esconde nos subterrâneos da insólita perseguição desencadeada contra o Wekileaks e seu criador: um grave e surpreendente atentado contra a liberdade de informação, com origem nos Estados Unidos.

Assange foi levado à prisão pelo governo britânico, sempre dócil e atencioso aos desejos do governo americano, parceiro histórico para toda obra na Europa. Mesmo que esses desejos sejam manifestados “por vias travessas” (como dizem os nordestinos) de uma ordem de prisão com base em estranha e suspeita acusação de “estupro” vinda da Suécia, onde o criador do Wikileaks teria se recusado a usar camisinha ao fazer sexo com duas súditas do farrista e bígamo Rei Gustavo, que anda as voltas em casa com atribulações sérias no gênero.

Tão forte quanto a capa da Time são as imagens de Assange saindo da detenção na última quinta-feira, sob aplausos e gritos de incentivos vindos das ruas de Londres, depois de pagamento de salgada fiança. Graças, registre-se por justiça, à colaboração de anônimos rackers e blogueiros do mundo, ajuda financeira mais substancial de celebridades como Michael Moore e Bianca Jagger, além de apoios políticos como o do presidente do Brasil. “Seguirei na minha luta”, anunciou Julian Assange, em breves e alentadoras palavras de coragem na saída da prisão.

Duas vitórias de uma vez e na mesma semana do criador do Wikileaks: A sua escolha, pelos leitores da Time, como “Personagem do Ano” e a reconquista da liberdade, ainda que tardia e provisória, mas sob palmas e vivas das ruas. Isso apesar da mal justificada decisão dos editores da revista de não dar bolas à vontade dos leitores, e oferecer o prêmio, de fato, ao criador do Faceboook, décimo colocado na votação.

Poderiam ao menos minorar a injustiça, se tivessem optado pelos mineradores e heróis chilenos retirados do fundo da terra, que ficaram em oitavo lugar na escolha dos leitores da revista. Os protestos já pipocam aqui e ali e não será surpresa se o presidente cobrar satisfações mais uma vez antes de passar a faixa para Dilma Rousseff.

No fim, Viva a revista Time. Afinal, fotos, opinião e polêmica seguem sendo, apesar de tudo, os melhores combustíveis da mídia (impressa ou digital) e do bom jornalismo.

Vitor Hugo Soares é jornalista; E-mail: vitor_soares1@terra.com.

Mario Minicelli: genio da tragicomédia

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ARTIGO DA SEMANA

VIDA E MORTE DO COMPANHEIRO MONICELLI

Vitor Hugo Soares

“A quem vocês irão chamar quando eu morrer?”. Com esta inquietante pergunta disparada em seu particular estilo de humor, cético e cortante, em face de tudo ou quase todos ao seu redor – donos do poder, sindicalistas, jornalistas, religiosos, parentes, amigos… – o mestre da comédia italiana e mundial, Mario Monicelli, recebia repórteres que queriam dele uma reação sobre a morte de algum companheiro célebre na agremiação do cinema.

A pergunta fica agora dolorosamente no ar diante do suicídio do realizador de obras fundamentais do porte de “Os Companheiros”, “O Incrível Exército de Brancaleone”, “Parente é Serpente” – para ficar em apenas três exemplos de um diretor de vida e obra repletas de lições e aprendizados até o seu desfecho surpreendente – mas de uma espantosa coerência com tudo que ele disse e fez ao longo de seus 95 anos.

Para este jornalista baiano, a notícia da morte do cineasta, descoberta na leitura com olhos de blogueiro em um portal da web editado em Lisboa (TSF), foi o fato mais triste, impactante e transcendente da semana. Mesmo quando comparado ao que se viu e se vê nestes dias de “Tropa de Elite”, em terceira dimensão, na maravilhosa cidade do Rio de Janeiro. Principalmente durante os feitos da Vila Cruzeiro e posterior ocupação do Morro do Alemão, que abrem um novo ciclo de ação e de debates sobre o combate à bandidagem do crime organizado no Brasil.

Um show de mídia, propaganda do medo e lobbies políticos e governamentais, transmitido ao vivo por nossas principais redes de televisão. Por estranha ironia, não faltam nem mesmo narrativas chocantes de deslavados desvios funcionais e corrupção de agentes civis e militares durantes as ações.

As denuncias que se multiplicam, partem de pacíficos trabalhadores que moram na Vila Cruzeiro e no Alemão e seus familiares, espantados alguns, amedrontados outros, desapontados outros tantos, diante da dúvida sobre quem são os verdadeiros heróis e os bandidos dessa história. Casos constrangedores transmitidos em horário nobre da TV.

Alguns já admitidos ou reconhecidos por autoridades de governo e de polícia, que cobram investigações e punições exemplares e urgentes – devidamente levadas também ao conhecimento público, sob pena de aumentar mais ainda o terreno pantanoso da impunidade, além de espalhar dúvidas e ceticismos sobre a ação de combate ao tráfico e ao crime organizado, iniciado como um dos mais espetaculares e esperançosos episódios não só para fluminenses e cariocas, nesta encruzilhada do tempo e do poder que o país atravessa.

Mas voltemos ao começo destas linhas, que o personagem principal aqui é Mario Monicelli, cuja vida foi encerrada no dramático estilo de seus filmes tragicômicos mais impactantes. A cena final de “Parente é Serpente”, por exemplo – um de seus sucessos mais marcantes – que não revelo aqui para não ser um indiscreto contador de final de filmes a quem ainda não os assistiu.

Sou fã de carteirinha de Monicelli desde que vi “Os Companheiros” na tela do Cine Liceu, em Salvador, na época dos primeiros grandes embates estudantis, nas ruas da capital baiana, contra a ditadura. O sindicalismo também começava a ganhar corpo e força com as lutas de resistência do Sindipetro-BA, lideradas pelo falecido líder operário e depois deputado socialista na Constituinte, Mário Lima, reconhecidamente um dos mentores de Lula bem antes da explosão dos metalúrgicos no sindicato do ABC. Na época, o filme exibido quase clandestinamente nos sindicatos, diretórios estudantis e cineclubes, foi uma descoberta fundamental.

Com a morter do realizador, confesso ter sentido crescer outra vez a inquietante sensação de engolir em seco, depois de tantas gargalhadas e experiências informativas, culturais, históricas e sensoriais agradáveis vendo um filme de Monicelli. Algo semelhante à sensação provocada pela notícia da partida de Glauber Rocha, escutada em uma edição do Jornal Nacional e, em seguida, a explosão de choro convulsivo enquanto caminhava tonto pelas ruas do bairro da Barra, sem que os passantes entendessem o que se passava com aquele novo “maluco de rua” de Salvador.

O mestre do cinema italiano sofria muito com um tumor de próstata em fase terminal. Aos 95 anos, criativo e cético como sempre, optou por lançar-se do quinto andar do Hospital San Juan, de Roma. Com Monicelli, morre também a chamada comédia à italiana, nascida em meados dos anos 50. É tempo de orfandade.

Partiu assim o “Balzac italiano, autor de uma gigantesca comédia humana, através de dezenas de filmes, a maioria obras primas”, como sintetizou o jornalista Curzio Maltezi, em Lá República. Vai Monicelli depois de terem partido antes cineastas fundamentais no gênero: Dino Risi, Luigi Comencini, Pietro Germi . E atores eternos da comédia e do drama: Alberto Sordi, Vittorio Gassman, Marcelo Mastroiani, Nino Manfredi e Ugo Tognazzi, entre tantos que se foram.

Sem o “eterno desafiante da censura”, como destaca o “Corriere della Será”, no Obituário do magnífico realizador italiano, resta a pergunta crucial que o jornalista se faz antes de assinar estas linhas: “A quem iremos chamar agora, depois que o companheiro Mario Monicelli se foi?”

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail:vitor_soares1@terra.com.br

Presença militar no Rio reforça
pressão para Jobim ficar na Defesa

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ARTIGO DA SEMANA

LOBISTAS EM AÇÃO

Vitor Hugo Soares

No andar de cima, nos escalões médios e nos porões da sociedade brasileira (a deduzir pelas imagens projetadas do Rio de Janeiro para o Brasil e o mundo esta semana) ganha corpo uma onda de “lobbies” em intensidade raramente registrada na história deste País, para ficar na expressão do presidente que se despede.

A ofensiva em curso – do Rio a São Paulo, de Minas à Bahia, de Pernambuco ao Ceará e por aí vai até o Rio Grande do Sul e outros rincões – tem diferentes formas e métodos, mais ou menos recomendáveis moralmente. Revelam aparentemente, no entanto, um mesmo objetivo principal: pressionar a presidente que chega, Dilma Rousseff, na hora das escolhas dos nomes para compor o primeiro escalão de seu governo.

O que deveria teoricamente ser algo simples e natural, dentro do jogo democrático e republicano, tão em voga nas citações retóricas , vira a guerra de foice como a que se instalou há semanas, na fase crucial da transição de poder. Jogo mais ou menos às claras para quem tiver olhos de ver, ou submerso e camuflado, a ponto de ser preciso um desses óculos que permitem enxergar na escuridão em conflitos bélicos, agora usados também no combate ao crime organizado nas favelas cariocas.

Em princípio, não é muito difícil compreender as razões da pressão e do tumulto. Afinal chegou um dos momentos mais aguardados por todos os lobistas de dentro e de fora do país. A hora da divisão dos cargos entre os vencedores. O bolo de chocolate da festa, repartido na escolha dos componentes do primeiro escalão, dos ministros das mais desejadas pastas, de presidentes de cobiçadas estatais, ou diretores das mais suculentas autarquias com seus respectivos e recheados orçamentos.

É este, também, o momento da indicação mais nítida e reveladora, do lado para o qual o novo poder que se instala penderá de fato, além da retórica dos palanques. E de suas tendências mais evidentes. Por exemplo, a implantação definitiva “e pra valer” das chamadas Unidades de Política Pacificadora (UPPs) no Rio de Janeiro, como emblema da política de combate ao crime organizado e à violência, que a petista Dilma Rousseff prometeu espalhar pelo país uma vez eleita.

É chegada, portanto, a hora da pressão em defesa de interesses os mais diversos. A hora de Macunaíma, do “cada um por si e Deus contra”. Em síntese, é hora do “lobby”, que por esta banda de baixo da linha do Equador, em geral, “é associada com corrupção, conversas escusas e tráfico de influencia”, como resumiu o Brasil Econômico em editorial.

A temporada lobista que promete como nunca, diga-se a bem da verdade, não começou nos conflitos dos morros e áreas mais pobres e largadas à própria sorte há décadas no Rio de Janeiro. Não se iniciou com esta espécie de Tropa de Elite em terceira dimensão que se tem visto nas transmissões e noticiários das nossas principais redes de televisão nos últimos dias.

Olhando bem se verá que tudo começou no andar de cima da sociedade e com imagens bem menos chocantes. Praticamente ao mesmo tempo em que a presidente eleita fazia os primeiros movimentos na direção da escolha de seus principais auxiliares no governo.

Isso, dias depois da escolhida sucessora de Lula ter, em vão, buscado recolhimento e repouso na mansão de beira de praia na Bahia, após sair de uma das mais selvagens e desgastantes campanhas eleitorais já vistas no país.

Por indicação do amigo e ex-ministro da Justiça Thomas Bastos, segundo se publicou então, a presidente foi acolhida na mansão de obscuro empresário, na paradisíaca Itacaré, costa do cacau e do dendê, no sul do Estado.Território pontilhado de outras mansões e soberbos “resorts” que hospedam parte expressiva do PIB nacional em férias ou descanso de fins de semana e feriados. Um paraiso dos lobbies, digamos assim.

Aliados mais próximos sussurram que Dilma, cercada de empresários, câmeras fotográficas e de TVs por todos os lados, não demorou a perceber o “equívoco” cometido e tratou de bater em retirada bem antes do tempo previsto, voando para o sossego da casa da filha, em Porto Alegre. Depois viajou para a Coréia do Sul, compondo a comitiva do presidente Lula na cúpula recente do G-20, que praticamente resultou em nada, a não ser sinalizar para o “mercado”, sempre soberano, a continuidade de Guido Mantega no Ministério da Fazenda de seu governo.

Depois vieram as confirmações de Alexandre Tombini, no BC, Miriam Belchior, no Planejamento e, por último, Antonio Palocci , que irá para o “olho do furacão” na Casa Civil. Todos eles do chamado “andar superior”. Na órbita do novo poder que se instala – querendo entrar ou mandando claros avisos de que não aceitam ser ignorados – circulam , com mais ou menos fome, muitos satélites. Ou mais concretamente, raposas e capivaras de um leque de interesses difícil de saciar integralmente, por qualquer governo. Haja lobby.

O Rio de Janeiro destes dias que o diga.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail; vitor_soares1@ terra.com.br

nov
20

Ulysses:princípios acima de tudo

Severino: olho nos cargos

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ARTIGO DA SEMANA

ULISSES E SEVERINO EM BRASÍLIA

Vitor Hugo Soares

Em cenário ainda de pouca luz e muita sombra começou em Brasília, esta semana, um torneio de fato interessante na disputa pelo poder no País nos anos pós-Lula que começam a se delinear. Um torneio “aperitivo” como o antigo Roberto Gomes Pedrosa ( Rio – São Paulo) , com dimensão nacional, valendo pontos e taça para os vencedores,

Por seus contrastes gritantes, nos primeiros lances, este campeonato de Brasília tanto poderia ser batizado com o nome do paulista Ulysses Guimarães quanto do pernambucano Severino Cavalcanti, ex-parlamentares de comportamentos opostos. Ambos, no entanto, figuras emblemáticas da política brasileira. De ontem e de agora, para o bem e para o mal.

Com alguns lances manjados, ferrolhos defensivos e jogadas surpreendentemente ofensivas e até alguns chutes nas canelas, o torneio político merece atenção: vai revelar em breve – provavelmente até 15 de dezembro, duas semanas antes do Reveillon de 2011 -, quem de fato tem “farinha no saco para vender na feira” no governo da ainda reticente presidente eleita Dilma Rousseff, e seu apressado vice, Michel Temer, do PMDB.

Ah, como observo tudo e escrevo da Bahia, devo reconhecer: Taça Antonio Carlos Magalhães também não cairia mal para denominar este confronto encardido, de fim de temporada, jogado neste período de tempo incerto que faz no planalto central do país.

Revejam, por exemplo, imagens transmitidas em noticiários, nos horários nobres, de algumas redes nacionais de TVs, em seguida à badalada reunião, no começo da semana, das tropas governistas sob o comando de Temer e mais algumas cabeças de facções partidárias, que se julgam coroadas no novo círculo do poder estabelecido pelas urnas de outubro.

Como em velhos tempos, tudo culminou em girândolas de fogos de artifício, a partir do anúncio da formação do bloco capitaneado pelo PMDB e completado pelo PR, PP e PSC. O líder peemedebista na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), logo correu para negar que houvesse, na decisão, quaisquer propósitos de disputas de cargos ou de “confronto” com o PT no governo Dilma.

As imagens, porém, como rezam os princípios mais verdadeiros da comunicação de massa, em geral valem muito mais que mera retórica no histórico confronto entre o adjetivo e o substantivo. E estas (as imagens), mostradas nos noticiários, exibiam com clareza as tropas reforçadas de Temer – ex-ministro baiano Geddel Vieira Lima à frente – preparadas para a guerra, enquanto desciam as escadarias do local do encontro para formar o megabloco. Parecia replay de jogo antigo para furar bloqueios no Palácio do Planalto.

Megabloco, diga-se, que em menos de dois dias acabou batizado mesmo de “blocão”. Graças “a essa mania brega brasileira do ão, como registrou o bem humorado colunista político da Tribuna da Bahia, Ivan de Carvalho, ao comentar o assunto no dia seguinte. Breguice que, desgraçadamente, vai se eternizando também em nossa imprensa.

Se vivo estivesse o nobre timoneiro da democracia, Ulysses Guimarães, teria seguramente alertado aos atuais comandados de Michel Temer: “É o voto, somente ele, que faz a acoplagem dos cidadãos com os homens públicos e o Estado”.

Ou, quem sabe, o velho Ulysses seria mais duro em sua advertência, e diria agora como o fazia no passado de resistência: “O jeito também é força. Se vence obstáculos e antagonismos, é força. “Suaviter in modo, fortiter em re”, eis a receita pessedista dos romanos, que dominaram o mundo. A toupeira quando em seu caminho encontra a pedra, não podendo escalá-la não tem jeito para contorná-la. Morre ao sol, à fome ou à sanha dos inimigos. O PSD foi o laboratório do jeito”.

Na mosca. Mas, como se sabe, Ulysses Guimarães continua no fundo do mar, mesmo que espiritualistas jurem ter visto sua sombra sobrevoando o Planalto Central nestes dias difusos e complicados da política nacional. Vivinho mesmo, em carne e osso, quem circulou por Brasília esta semana foi outro ex-presidente da Câmara, o polêmico ex-deputado Severino Cavalcanti, atual prefeito da pernambucana cidade de João Alfredo, pelo PP.

Severino se deslocou do Nordeste para reforçar as hostes de seu partido, na disputa pelos cargos no pedaço de poder no governo Dilma que imagina lhe caber. Ao velho e conhecido estilo foi direto ao ponto, sem subterfúgios ou meias palavras. Como já fizera no passado, ao exigir do presidente Lula “a diretoria da Petrobras que fura poço de petróleo” para um protegido seu, agora circulou pelo Salão Verde do Congresso com propósitos semelhantes.
Disse que a aliada Dilma precisa jogar duro e mostrar que ela é quem manda. Mas logo tratou de avisar aos outros partidos aliados: ninguém tira do PP o Ministério das Cidades, que dá votos. “Está todo mundo de olho no Ministério das Cidades, mas ele já tem dono e o ministro será Márcio Fortes. O ministro deu a eleição a Dilma porque fez tudo que Lula mandou ele fazer. É uma pasta que dá emprego, dá condições ao povo, por isso, automaticamente, dá voto, proclamou Severino com todas as letras.
Um torneio de profissionais, logo se vê. O fato, no entanto, é que só o PT já levou alguma coisa, ao ter garantida a permanência de Guido Mantega – fiel companheiro da presidente eleita – no poderoso Ministério da Fazendo.
O resto, incluindo o jogo de abafa de Severino Cavalcanti, é de resultado imprevisível, ainda a conferir até 15 de dezembro. Ou depois.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Dona Canô no TCA: “coitado de meu filho!”

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ARTIGO DA SEMANA

SEGREDOS DOLOROSOS

Vitor Hugo Soares

Os principais diários de Salvador e os grandes jornais do País – com seus estranhos e incompreensíveis cadernos B e suplementos culturais cada vez mais grudados no que acontece ou vem de fora, alheios ou indiferentes ao que se passa diante do nariz -, praticamente ignoraram o principal fato da música e da cultura esta semana no Brasil. Um caso acontecido na capital baiana, é verdade, mas bem emblemático da confusão nestes dias de faz de conta na mídia em geral, na cultura, na política e no poder.

Segunda-feira (08/11) Caetano Veloso saiu do histórico palco do Teatro Castro Alves visivelmente extenuado. Os sinais de tensão e emoção ainda permaneciam à flor da pele do artista, como se ele tivesse acabado de participar de uma experiência semelhante a da maratona enfrentada pela atriz Jane Fonda, no demolidor filme de Sidney Lumet, “A Noite dos Desesperados” (Não se matam mais Cavalos?), jóia premiada do cinema político e social dos anos 70.

Pode parecer exagero, mas esta é a primeira imagem comparativa que vem à cabeça do jornalista diante do espetáculo protagonizado pelo filho querido de Santo Amaro da Purificação, na cidade que o projetou para o País e o mundo. Agora, beirando os 70 anos de idade, Caetano havia acabado de vencer com a mesma garra e brilho (mesmo despedaçado física e intimamente) um teste demolidor.

Quase três horas de música e conversa sobre a vida, a poesia, a juventude e a velhice, os colegas e amigos, a profissão, a família, a religião, a política, a prisão, o exílio, a volta e a permanência. Uma catarse pessoal diante da platéia que ocupava todos os lugares do TCA em festa, como em suas noites mais memoráveis.

Por exemplo, aquela do reencontro (também na incrível década dos 70) de Chico Buarque de Holanda com Caetano na volta do compositor baiano do exílio em Londres, imposto pela censura e o tacape da ditadura que então imperavam por aqui.

Na época, repórter do Jornal do Brasil na sucursal de Salvador, lembro de ter permanecido praticamente o tempo inteiro ajoelhado atrás daquela balaustrada de madeira que separa as partes inferior e superior da platéia do TCA. Isso para não atrapalhar a visão da turma de cima e, ao mesmo tempo, não perder nenhum detalhe, por mínimo que fosse, daquele momento inigualável que meu amor pela profissão e minha paixão pela música me permitiam presenciar tão de perto.

No mesmo lugar de permanente acolhimento “da verdadeira Bahia”, como disse João Gilberto certa vez no mesmo palco, Caetano Veloso encerrou esta semana a temporada 2010 do projeto “Música Falada”. Trata-se, na verdade, de uma experiência baiana de sucesso – infelizmente ainda pouco divulgada na própria Bahia e no resto do país- que reúne no palco e na platéia interativamente, música, comunicação e teatro.

O projeto surgiu em 2007. Foi idealizado pelos apresentadores do programa Roda Baiana, na Rádio Metrópole de Salvador – André Simões, Jonga Cunha e Fernando Guerreiro, este último um autor e diretor teatral de reconhecimento nacional. Um dos principais responsáveis pela notável transformação da cena baiana nas últimas décadas, em termos de integração palco e platéia. O que ajuda a explicar em boa parte o fato de Salvador ter se transformado em verdadeira usina de produção de espetáculos premiados e atores. Wagner Moura, Lázaro Ramos, Wladimir Britcha – entre muitos outros atores e atrizes – que o digam.

“Teatro Falado” segue o formato do programa radiofônico da também inovadora Radio Metrópole, de Mario Kertész. “Roda Baiana” tem sido levado ao palco do TCA em edições períódicas e quase sempre antológicas e com a mesma química que alia inteligência, criatividade, irreverência e bom humor do programa diário no estúdio da rádio. Foi assim também na última segunda-feira, só que com muito mais intensidade.

Principalmente quando o artista foi levado a falar sobre sua prisão e posterior exílio ao lado do amigo e colega Gilberto Gil. “Enlouqueci com a prisão. Sou narcisista pelo fato de ser brasileiro, e o Brasil ficar contra mim foi muito difícil de metabolizar”, disse Caetano num dos momentos mais pungentes do espetáculo. Mas tudo regado, diga-se, com doses generosas de humor, a exemplo das lembranças de vivências com Chico Buarque, em especial do que os dois aprontaram no programa que apresentavam juntos na TV Globo.

Caetano começou o espetáculo cantando “Coração Vagabundo”, sentado num banquinho com seu violão e cercado no palco pela família e muitos amigos. Quase três horas depois deixou a cena interpretando “Tenda dos Milagres”, aplaudido e mais emocionado ainda do que entrou. Foi abraçado e confortado ainda no palco pela mãe, Dona Canô, que acaba de completar 102 anos.

Foi dona Canô quem deu o magnífico toque final de uma noite para não esquecer. Cumprimentada ainda no palco do TCA pelos realizadores do “Música Falada”, em agradecimento pela presença ilustre, a matriarca dos Veloso disse a Fernando Guerreiro, voltando-se para a principal figura da noite: “Coitado de meu filho, ele sofre muito quando fala da prisão e do exílio”. E ela decidiu na hora: “A partir de hoje vou proibir Caetano de falar dos sofrimentos na prisão e do período que foi forçado a passar longe da família e fora do Brasil”.

Grande Dona Canô! Pena que uma noite como a de segunda-feira em Salvador tenha passado praticamente incólume do olhar da imprensa local e nacional. Saudades do Caderno no B do falecido Jornal do Brasil, que seguramente não deixaria um fato como este passar sem informação aos seus leitores.

À exceção – registre-se a bem da verdade – dos belos registros do site da revista “Contigo” (editora Abril) e do portal da Metópole, cuja TV transmitiu tudo via web. Quem sabe daí não sairá mais tarde um vídeo tão sensacional quando o disco ao vivo, gravado durante o encontro histórico de Caetano e Chico Buarque, também no TCA.

A conferir

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor.soares1@terra.com.br

nov
06
Posted on 06-11-2010
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 06-11-2010

Dilma no JN: mudança no tratamento

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ARTIGO DA SEMANA

TENDA DOS MILAGRES EM BRASÍLIA

Vitor Hugo Soares

“Oh, como cantam as pessoas do andar de cima!”. É a frase do escritor argentino Julio Cortázar, no Manual de Instruções do livro Histórias de Cronópios e Famas, que retorna à memória do jornalista ao observar os movimentos dos primeiros dias depois de jogado o jogo eleitoral para a presidência do País.

E esta impressão do personagem surreal de Cortázar, ao perceber que há festa no andar superior, assemelha-se à sensação de quem escreve estas linhas quando já está em andamento, a todo gás, o confronto dos craques profissionais da política e dos negócios – da mídia inclusive – em disputa das fatias do poder no governo Dilma Rousseff.

Vencida a primeira batalha, a presidente descansa a seu jeito, até este domingo, em Itacaré, no sul baiano. Da ensolarada Costa do Dendê e do Cacau a presidente eleita retorna amanhã para pegar pesado, segundo ela própria declarou, na construção de sua equipe de governo – até agora mais composta de boatos que de fatos.

No colossal recanto da costa do Atlântico Sul, de águas cálidas, límpidas e areia de cartão postal de ensolarado paraíso tropical, Dilma banha-se e passeia ao sol e à brisa no ambiente onde pisaram antes dela pés de celebridades como o presidente francês Nicolas Sarkozy e a primeira-dama, Carla Bruni. Em horas mortas, conversa com nativos e com poderosos detentores de boa parte do PIB baiano e nacional, gente que povoa seletos e sofisticados “resorts” e suntuosas mansões da região.

Enquanto isso, diante dos resultados eleitorais e suas primeiras consequências, ainda repercutindo com pressão máxima dentro e fora do País, converso à distância com dois queridos amigos jornalistas cujas informações e opiniões busco sempre nos momentos em que a salada da política e da profissão fica difícil de entender e de engolir sozinho e sem ajuda.

Por exemplo, esse “trololó” de quase beatificação da vencedora (para usar a linguagem do tucano José Serra, o perdedor) na primeira semana pós eleição da primeira mulher presidente do Brasil. Tudo virou o avesso do avesso do avesso daquilo que se via, ou se ouvia há menos de 10 dias, na chamada grande imprensa nacional. De repente, é como se o milagre da transubstanciação da água em vinho houvesse sido operado outra vez, agora em terras de Tupã. E de Macunaíma, é bom que se registre para avivar memórias.

Saída quase das cinzas da fogueira ardente, bombardeada em ataques e condenações os mais insólitos e terríveis lançados sobre ela e seu passado, a eleita de repente, não mais que de repente, foi entronizada em altares insondáveis. Nos mesmos espaços onde até a véspera ela era pintada como “figura do mal”, dada a malvadezas e bruxarias impensáveis, tudo parece ter-se invertido em favor de Dilma Rousseff.

Na grande tenda dos milagres nacional (salve Jorge Amado) ela acaba de ser posta no trono dos novos santos brasileiros. A quase bruxa que aparecia diariamente na fase de campanha nas paginas editoriais de tantos diários e revistas semanais importantes, é agora tratada quase como nova Irmã Dulce, a freira baiana na iminência da beatificação oficial no mundo católico, depois do Vaticano ter reconhecido recentemente o seu primeiro milagre.

No lugar de bode expiatório do País (é preciso sempre ter um de reserva para oferecer aos leões famintos), deixado vazio só por poucas horas, insanos voltam-se agora contra gente do Nordeste, mostrada como responsável por levar a vencedora ao Palácio do Planalto. Está provado, no entanto, que mesmo sem os votos dos nordestinos o triunfo da petista estaria garantido com a vantagem obtida em outras regiões – algumas delas citadas até a véspera como santuários eleitorais do tucano Serra.

Isto foi mostrado cabalmente na reportagem tão simples quanto relevante produzida pelo jornalista baiano Eliano Jorge, da equipe de Bob Fernandes, na revista eletrônica Terra Magazine, que caiu em campo na busca da verdade dos números e dos fatos, no mar jornalístico povoado de lendas, delírios e versões interesseiras. Bingo!

Um dos jornalistas das conversas no começo destas linhas, com quem bato bola via MSN, está em São Paulo. Mesmo estafado e ainda arfando pelo esforço demolidor de percorrer o país de ponta a ponta na cobertura da campanha, ele segue no batente da Redação. Busca novos fatos, enquanto a candidata eleita já repousa na praia baiana.

Depois de ver bem de perto tudo – ou quase – que Dilma Rousseff teve de engolir durante a campanha, o repórter se revela espantado “com o fervor dilmista” que sacode o Brasil, principalmente nos círculos da grande mídia, onde a vencedora parece ter virado unanimidade “a favor”.

Na praia do litoral norte de Salvador, onde estuda para um concurso federal, desolada com a profissão, antes mesmo da contagem dos votos do pleito presidencial, converso por telefone com uma querida colega. Ela transmite a mesma impressão do jornalista e amigo comum em Sampa. E diz muito mais coisas, que deixo para reproduzir em outras linhas e em outra oportunidade.

E isso seguramente não faltará a partir de amanhã, quando Dilma Rousseff voltará a Brasília depois do repouso em Itacarezinho e a tenda dos milagres no planalto central do Brasil voltará a ferver.

A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

out
30
Posted on 30-10-2010
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Lula no velório de Kirchner em Buenos Aires

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ARTIGO DA SEMANA

História e destino

Vitor Hugo Soares

Na quinta-feira, 28, a quatro dias da votação decisiva para a escolha de seu sucessor, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha um compromisso político dos mais importantes no Nordeste. Para muitos, petistas principalmente, um evento considerado crucial diante da cinzenta e tensa conjuntura que cerca de boatos e previsões caóticas e insensatas a votação em segundo turno neste domingo (31).

Lula iria a Recife participar do que se anunciava como apoteótico comício em favor da candidata Dilma Rousseff no estado natal do presidente e na região onde a petista que ele empurra ladeira acima em direção ao seu lugar no Palácio do Planalto, desfruta os números mais confortáveis nas pesquisas de todos os principais institutos

O comício gorou, para usar a expressão bem nordestina. De manhã, Lula na capital fluminense – mais Fluminense que nunca – exercitava plenamente a tão polêmica quanto estafante dupla função que assumiu desde o começo da campanha: a de chefe de Estado e cabo eleitoral da sua candidata do peito.

Um telefonema da Argentina mudaria tudo em questão de minutos. O imprevisível, a história e o destino outra vez atravessavam os passos e os caminhos do pernambucano de Caetés: o filho de família de retirantes da seca nordestina, operário metalúrgico em São Paulo, pouca escola e quase tudo em cima para dar errado – incluindo mandinga e mau olhado, como ele repete em suas frequentes viagens à Bahia. No entanto, em 2002 chegaria pelo voto ao posto máximo de mando no País.

Qualquer que seja o resultado das urnas amanhã, oito anos e dois mandatos depois, Lula sairá do Palácio do Planalto em janeiro de 2011 na condição de mais popular governante da história do País. Com aprovação de mais de 83% da população brasileira, segundo o mais recente levantamento da CNT/Sensus.

Na quinta-feira, enquanto o presidente ainda estava no Rio, se realizava em Buenos Aires, o velório do ex-presidente Néstor Kirchner. O líder político do justicialismo morrera atingido por um inesperado e fulminante ataque do coração. Nestor, “El pinguino” dos argentinos, repousava com a mulher e presidente Cristina Kirchner, na casa da família à beira das geleiras do Pólo Sul, na província de Rio Gallegos, quando a morte o surpreendeu aos 60 anos.

Informado de que o velório só iria até a madrugada de ontem, porque o corpo seria transladado para sepultamento em cerimônia intima e familiar em Rio Gallegos, Lula mudou sua rota de voo. No Rio cancelou o comício em Pernambuco e seguiu direto para Buenos Aires, onde três horas depois estaria de novo sob os olhos do continente e de boa parte do mundo.

A entrada de Lula na Casa Rosada – mostram bem as imagens do Canal 5, de Buenos Aires – coincidiu com a presença do presidente venezuelano Hugo Chávez “em um momento alto da noite”, como descreve com perfeição o jornal “Página 12” em sua edição de sexta-feira. As pessoas – entre elas muita gente jovem que a campanha eleitoral brasileira não conseguiu tocar, mobilizar e muito menos levar para as ruas – se mostram especialmente emocionadas.

Choram, rezam, gritam palavras de ordem reunidas na histórica Plaza de Mayo e no recinto do velório. Bem ao apaixonado estilo da terra, são demonstrações de afeto e respeito aos presidentes visitantes, e de “fuerza” a Cristina.

Diferentemente do venezuelano, que fez um “discurso de chegada”, Lula não falou ao aterrisar em território portenho. Preferiu ir diretamente à Casa Rosada. Deixou uma mensagem quando se foi de volta ao Brasil, na qual, como destaca o diário argentino, não só fez referência a suas recordações pessoais de Kirchner, mas também à sua construção política, tanto do país – “recuperou a autoestima dos argentinos” – como da região.

Bom orador, Lula o é melhor ainda em ocasião emotiva, registrou ontem o Página 12. “Eu dizia à companheira Cristina que um homem morre, mas as ideais permanecem. Eu creio que Kirchner foi uma figura que construiu ideias na Argentina. O legado mais importante para os argentinos foi recuperar a autoestima do seu povo, o orgulho, que estavam há duas década e meia praticamente perdidos”, completou o presidente brasileiro, que ontem entrou e saiu sob gritos de “Brasil” e “Lula” ouvidos e gravados na Casa Rosada e na Plaza de Mayo.

História e destino. Se o tempo é de fato o senhor da razão, como apregoam sábios e historiadores, mais uma vez fica evidente que é cedo demais para previsões sobre o verdadeiro retrato de Lula e o seu legado para o futuro. Neste ar meio insano e carregado de paixões que se respira por aqui nesses dias de meros interesses eleitorais e de jogo destrutivo de poder, é precipitado principalmente lançar sentenças definitivas sobre o tamanho de Lula: se ele mergulhará no limbo do esquecimento já a partir de segunda-feira, ou se seguirá presente no imaginário e nas referências dos brasileiros – como um Getúlio Vargas ou um Juscelino do século XXI – depois da votação deste histórico 31 de outubro de 2010.

Isso quem dirá é senhor da razão. E o tempo, em casos assim, demora mais em seu julgamento.

Bom voto a todos.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

out
22
Posted on 22-10-2010
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 22-10-2010

Dilma e Serra: brigas de rua

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ARTIGO DA SEMANA

De festa democrática a bafafá

Vitor Hugo Soares

Olhando bem para os fatos da semana, a campanha presidencial, à medida que se aproxima do fim, perde de vez o quase nada de substância política e conteúdo programático apresentados no primeiro turno pelos candidatos José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) e os que os apóiam. Qualidades que, a bem da verdade, se deveram principalmente à presença na disputa da candidata do PV, Marina Silva.

Assim, aquilo que deveria ser bonita e exemplar festa do livre, inteligente e saudável confronto de novas idéias e projetos para o País, fica cada dia mais parecido com um bafafá de beira de estrada, semelhante ao narrado na letra de “A Mulher do Aníbal”, música interpretada originalmente pelo mestre ritmista Jackson do Pandeiro.

Para os de pouca memória, não custa lembrar: a composição de Genival Macedo e Nestor de Paula, na voz do grande artista paraibano, virou um dos maiores sucessos nos forrós nordestinos nos anos 50/60. Não havia garoto na região – a exemplo deste jornalista que vos escreve – que não tivesse na ponta da língua, letra e música de “A Mulher do Aníbal”.

A música foi depois reinterpretada em gravação mais recente de Chico Buarque de Holanda (de avô pernambucano). Por coincidência (ou não?) um dos principais e mais polêmicos personagens políticos desta semana, ao lado de Oscar Niemeyer. O arquiteto, enfrentando a chuva e os 102 anos de idade, como assinalou o jornal português Diário de Notícias, compareceu de cadeira de rodas ao ato de declaração de voto de artistas e intelectuais no Teatro Casa Grande, no Rio.

Uma semana para não esquecer na refrega decisiva entre a petista Dilma e o tucano Serra pelo assento do poder que depois de oito anos o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixará livre em janeiro de 2011 no Palácio do Planalto. Nomes de peso no atual “staff” de comando da campanha governista, novamente eufóricos com os mais recentes números das pesquisas, estão convencidos de que “o grito dos artistas” na histórica casa de espetáculos carioca, foi um marco. Serviu para acordar Lula, Dilma e os propagandistas de sua campanha, que andavam sonolentos e sem inspiração diante do inesperado segundo turno que tiveram de encarar.

Os números da mais recente pesquisa do instituto Datafolha, porém, apontam também em outras direções na arrancada final da candidata petista: a popularidade do presidente Lula, que não para de aumentar e quase bate no teto em fim de governo de dois mandatos. Isso teria turbinado o desempenho de Dilma Rousseff, principalmente na região Nordeste, seu maior celeiro de votos no primeiro turno (Bahia e Pernambuco à frente), enquanto o candidato do PSDB, José Serra, segue derrapando no Sudeste, área que os tucanos e seus aliados do DEM sempre tiveram como fundamental para uma “virada” antes de 31 de outubro.

No Nordeste (cerca de 27% dos eleitores do país), Dilma cresceu cinco pontos em uma semana, indo de 60% a 65% das intenções de voto. Lula, segundo o Datafolha, registrou esta semana 82% no pico de aprovação para o seu mandato (respostas “bom” e “ótimo”), desde quando assumiu o comando do poder, em janeiro de 2003.

Serra só lidera no Sul, no conjunto das regiões brasileiras, com 50% (tinha 48% semana passada) contra 39% da governista (o percentual era de 40%). No Nordeste, para quem segue acreditando em pesquisas eleitorais, a mais recente Datafolha indica que a vantagem de Dilma é de 37 pontos (Serra só pontua 28% na região quando faltam oito dias para a votação). No Norte e no Centro-Oeste juntos, Dilma tem 49% contra 42% do tucano.

Tudo pode não passar de nuvens de momento, embora os números parecem indicar que cada vez é mais reduzido o percentual dos que acreditam nessa história, incluindo os mineiros que a criaram.Virar o jogo, portanto, não é tarefa fácil para os tucanos e seus aliados no segundo turno. Vários deles, dos mais importantes, já abatidos no primeiro. Muito menos com campanha conduzida nos moldes arruaceiros atuais.

O coco do sucesso de Jackson do Pandeiro pergunta em seu refrão principal: “Que briga é aquela que vem acolá?”. E narra o bafafá da mulher do Aníbal com o Zé Hangar, iniciada “numa brincadeira lá no brejo véio”, na qual a mulher do Aníbal foi dançar , “e o Zé inxirido, quis lhe conquistar”. O tempo virou, e de madrugada , no meio da estrada, o pau ainda “tava comendo”.
Mais não conto para não tirar a graça. Quem não conhece ainda a historia, que a escute na voz de Jackson do Pandeiro ou de Chico Buarque. Só posso adiantar que o caso não acaba bem para o Zé do Hangar. Mas isso é coco e não tem nada a ver com eleição.

Ou será que tem?

Vitor Hugo Soares é jornalista . E-mail; Vitor_soatres1

Lula com Dilma suam no palanque…

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…na terra do tropicalista Torquato Neto

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ARTIGO DA SEMANA

Do calor de Teresina ao frio de Atacama

Vitor Hugo Soares

Noite de quarta-feira, 13, em Teresina. Faltam menos de duas semanas para a hora da onça beber água no segundo turno que sacramentará ( é bem o termo) o nome do próximo ocupante do Palácio do Planalto. Em cima do palanque governista na capital do Piauí , citada nos boletins meteorológicos, no rádio e na TV, como a mais calorenta do país, o presidente Luís Inácio Lula da Silva faz das tripas coração no papel de privilegiado cabo eleitoral.

Novamente trajado de palanqueiro, o chefe da Nação se esforça para empurrar adiante o carro da campanha de Dilma Rousseff à sua sucessão, na região Norte e Nordeste. Pedaço distante do Brasil onde as pesquisas apontam os índices mais confortáveis da candidata petista, que dá visíveis sinais de derrapagem no resto do País, com o tucano Serra agora colado em seu calcanhar.

Roupa encharcada de suor, sob um calor de 40 graus, Lula esgota seu repertório de “mitingueiro” notório. Capricha no gestual e na retórica; repete casos, reinventa histórias contadas na Bahia e outros estados, renova despedidas já feitas mas que se revelaram (graças à crença e a tenacidade da verde Marina Silva), insuficientes para acabar tudo no primeiro turno como esperava, quando os olhos e ouvidos do mundo estavam todos voltados para o “cara” do Brasil.

Mas, como estão cansados de saber sulistas e nordestinos, o mundo dá voltas. Mais rápidas e surpreendentes ainda em tempos eleitorais. Na noite do comício em Teresina esta semana, sinais cristalinos das mudanças rondavam no ar, quase impossíveis de não serem enxergados até pelo mais míope político, candidato, empresário ou jornalista.

E estas transformações não se resumiam às presenças, destacadas no palanque piauiense, do “galego” petista governador da Bahia, Jaques Wagner, e do socialista Cid Gomes, do Cerá, reeleitos na primeira rodada. Ambos arregimentados às pressas “para dar uma mão” ao presidente, e tentar não deixar derrapar o carro da candidata petista também no Norte e Nordeste, considerados os principais bastiões e as mais ricas e fiéis reservas dos votos que Lula tenta transferir para sua candidata “do coração”.

As alterações são visíveis, também, nas imagens internacionais mais marcantes da quarta-feira, 13. Na noite do palanque quase invisível do Piauí, os olhos e a emoção no Brasil, e no resto do planeta, estão grudados na distante localidade de San Jose, em pleno deserto de Atacama, no Chile sempre emblemático e surpreendente.

Ali, sob um frio de rachar, tão comum nas noites dos desertos em qualquer fase do ano, culmina uma operação de salvamento modelar e sem precedentes na história dos países e da humanidade. Ao mesmo tempo, um dos exemplos mais belos e extraordinários de resistência humana já vistos. Coragem, entrega, capacidade de mobilização de um povo, solidariedade interna e internacional , fé sincera na realização do sonho e da vontade aparentemente impossíveis – além do invejável modelo de consciência política e maturidade de governantes e governados. Tudo misturado.

Resultado: um a um, depois de mais de dois meses do início de um pesadelo medonho, a cápsula-nave Fenix 2 resgata do fundo da terra, são e salvos, todos os 33 mineiros que pareciam irremediavelmente condenados à morte mais terrível depois de um desastre a 700 metros da superfície. Final mais que feliz para uma história que tinha tudo para terminar em tragédia.

Tocantes cenas de emoção por toda parte. Nos gritos de “Viva Chile”, nos cânticos políticos e patrióticos, no batuque dos bumbos das festas e demonstrações de alívio e felicidade que se espalham por um povo e um país , nas cenas dos trabalhadores da mina abraçados por familiares, companheiros, amante e heróicos integrantes das equipes de salvamento.

Em seguida, os resgatados abraçam com força, sentimento de gratidão e reconhecimento a Sebastián Piñera, o tido como conservador dirigente recém eleito presidente chileno, depois de derrotar o candidato dito progressista, apoiado pela ex-presidente Michelle Bachelet, que deixara o poder no Palácio de La Moneda nos braços do povo, com quase 80% de apoio popular nas pesquisas de opinião. Piñeda, de repente, emerge como o “cara” da vez da América Latina e do resto do vasto mundo.

Na quentura do comício de Teresina, no duelo quase final da campanha marcada dos dois lados pela virulência quase insana e a hipocrisia mais deslavada, a questão cultural, a memória histórica, os sentimentos mais éticos e nobres parecem definitivamente rifados dos programas dos candidatos e dos discursos de seus padrinhos e apoiadores.

Nem Lula, nem Dilma, nem qualquer de seus acompanhantes forasteiros ou mesmo políticos locais, parecem se dar conta de que pisam o chão de Torquato Neto. Notável poeta, artista, compositor e jornalista, que tragicamente abriu o gás do fogão e partiu precocemente. Não antes, porém, de produzir uma obra genial. Versos de mestre e composições de músicas transcendentes ao tempo e ao espaço, que elevariam o piauiense de Teresina, aluno de colégio de padres em Salvador, à posição justa de um dos pilares do Tropicalismo, o movimento revolucionário que viraria o Brasil de pernas para o ar e marcaria gerações, inclusive a deste jornalista.

Autor, dentre outras maravilhas, de Go Back . Uma música e uma poesia cuja letra ninguém no Brasil, principalmente governantes, político e candidatos e marqueteiros deveria esquecer. Em especial na parte que diz: “De  repente a madrugada mudou/ e certamente/ aquele trem já passou/ e se passou daqui pra melhor, foi!/ Só quero saber do que pode dar certo / não tenho tempo a perder”.

Grande Torquato! Viva o poeta do Piauí que conhecia como poucos seu país, seus governantes, sua imprensa, seus políticos e a gente que vive no Nordeste e no Sul, no Norte e no Sudeste. Salve!!!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: Vitor_soares1.@terra.com.br

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