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Posted on 02-04-2011
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 02-04-2011


Em BH o povo se despede de Zé Alencar

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ARTIGO DA SEMANA

O peso da morte de Zé Alencar

Vitor Hugo Soares

“Há mortes que para um país e para a humanidade pesam menos que uma pluma. Há outras, porém, que pesam toneladas” (Mao Tsé-tung).

Atiradores de plantão podem pegar pedras no meio da rua – sempre existem alguns ao alcance da mão em obras inacabada por aí – para jogar. Apesar do risco, recorro à citação das palavras do ex-líder chinês Mao Tsé-Tung na abertura destas linhas por considerá-la a mais completa tradução de sentimentos político e humano diante da partida de José Alencar.

Cremado quinta-feira, em Belo Horizonte, o empresário e ex-presidente da República foi velado duas vezes (em Brasília e Minas) em meio a demonstrações de pesar e comoção raramente vistas no Brasil, principalmente na morte e enterro de homens públicos. Registre-se, por mais raro ainda, que os tributos partiram de todas as categorias sociais e começaram ainda no hospital paulista de onde saiu o corpo de Alencar.

No caso, segue mais apropriada e atual que nunca a frase que aprendi quando frequentava ao mesmo tempo as salas de aulas das faculdades de Direito e de Jornalismo na ardente Universidade Federal da Bahia nos agitados dias dos anos 70.

A UFBA era então um emblema. Reduto de saber, ensino de qualidade e de resistência contra a ditadura que se implantava no País. Movimento que na origem unia militares e civis, se prolongaria por 21 anos até a redemocratização, mas cujas marcas que remetem à disseminação do medo e da intolerância seguem latentes, a deduzir pelos zumbidos em círculos militares nos últimos dias e as declarações de um de seus principais porta-vozes atuais, o deputado Jair Bolsonaro.

Quando li a citação pela primeira vez, o “livrinho vermelho do presidente Mao” ainda não havia sido “renegado” pelas “massas”, nem “caído em desgraça” nos círculos de comandos das “esquerdas”. Ao contrário, era sucesso total de vendas e de público no mundo inteiro: de Salvador a Paris; de Buenos Aires a Marrakesh; de Roma a Bagdá, de Londres a Tóquio. Únicas exceções: Moscou e Havana, onde a simples posse do livrinho podia dar em expulsão do Partido, cadeia ou desgraça política.

“Mas isso é passado, coisa de saudosista”, dirão os politicamente corretos de hoje. Não discuto, apenas confesso: foi no livrinho que pensei primeiro, desde o momento em que, no começo da tarde de terça-feira, vi na TV a imagem daquele médico do Hospital Sírio Libanês em visível esforço para não cair em prantos.

Desolado, dizia aos jornalistas que o cercavam ansiosos por uma notícia de nova reação do bravo paciente: “Ele está sedado, sem sofrimento, prestes a descansar”. E o doutor saiu apressado da frente das câmeras, provavelmente em busca de um lugar reservado para liberar a sensação de pesar que mexia com os sentimentos do experiente profissional da medicina. Sim, era o desfecho de uma situação previsível e natural, mas difícil de aceitar no caso de José Alencar, até para o especialista.

Em Brasília, a presidente Dilma Rousseff, comovida também, mas solene e impávida em público diante do corpo velado no Palácio do Planalto. Ao lado, o ex-presidente Lula é a outra face do mesmo sentimento: ao retornar da viagem de tributos em Portugal e ver pela primeira vez o corpo inerte do “companheiro Zé Alencar”, cai em pranto solto, assoado na manga do paletó. Em Belo Horizonte, na rua próxima ao Palácio da Liberdade, a típica mulher do povo de Minas, cabelos embranquecidos, chora como dezenas de outros cidadãos anônimos com as mãos no rosto.

Tive apenas uma experiência profissional e pessoal mais próxima de José Alencar, mas suficiente para entender todo o pesar nacional com a sua partida. Foi na Bahia, dia 12 de setembro de 2002. Já narrei o episódio marcante em outros textos, mas não custa resumi-lo aqui, por oportuno e referencial.

Fervia a arrancada final e decisiva da campanha que desaguaria na inédita escolha no Brasil de um torneiro mecânico, ex-dirigente sindical do ABC, ao Palácio do Planalto. “Naquele dia, um temporal, assustador ameaçava afogar Salvador, enquanto se aproximava uma noite daquelas em que o melhor a fazer era ficar em casa ou ao abrigo de um hotel, mesmo sendo um político à cata de votos em encardido embate presidencial. Pegar avião nem pensar, ainda mais se a pessoa ardia com febre de mais de 38 graus, e estava com a garganta estropiada por uma faringite agravada pelo excesso de uso das cordas vocais em comícios sucessivos país afora”, escrevi então.

Era esta exatamente a situação de Alencar, bem sucedido empresário – dono da Coteminas, campeã do ramo têxtil no País -, ao chegar à sede da Associação Comercial da Bahia – mais antiga e das mais conservadoras entidades de empresários da América Latina – para uma palestra com o objetivo de derrubar na terra de Antonio Carlos Magalhães, “resistências ainda fortes na elite empresarial do Nordeste, quanto a apoiar o barbudo sindicalista do PT para ocupar o mais alto posto de comando da Nação”.

Lembro bem: na cidade já corria o boato de que Zé Alencar não iria mais ao encontro na ACB: “Foi para a cama”, espalhavam adversários, com ar de troça. Puro engano, como uma figura saída de livro de Guimarães Rosa, o mineiro vestido em terno de linho branco, “garganta quase tapada, rouco e ardendo de febre, chegou debaixo do toró, falou sem parar durante uma hora e meia e levou mais de 40 minutos respondendo a perguntas dos desconfiados homens de negócios da Bahia.”

Na manhã do dia seguinte, o candidato a vice pegou o avião empanturrado de antitérmicos e foi encerrar a campanha presidencial em conversas com mais empresários em Itabuna e Vitória da Conquista. O resultado é o que todos conhecem. Uma morte com peso de toneladas, portanto.

Difícil esquecer ou não sentir pesar pela partida de uma figura assim tão rara, quanto Zé Alencar.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Lula:festa árabe em São Paulo
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ARTIGO DA SEMANA

LULA NÃO SAI DA RAIA

Vitor Hugo Soares

Quem estiver angustiado na expectativa de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva desencarne logo do poder, depois da passagem de oito anos no Palácio do Planalto, é bom tratar de achar alguma sinecura ou outro lugar confortável qualquer para enganar o tempo. Caso contrário, o conselho é encontrar um pedaço menos incômodo de calçada em algum lugar com sombra e água fresca, para esperar sentado.

Fatos políticos esta semana mostraram fartamente a gregos e baianos: Lula, além da retórica espírita, não emite nenhum sinal palpável de que pretenda de fato “desencarnar” do poder ou sair da raia política e do foco dos holofotes tão cedo.

Ao contrário: a efusiva e emblemática participação do ex-ocupante do Palácio do Planalto na festança que a comunidade árabe no Brasil lhe ofereceu no Clube Monte Líbano, em São Paulo, na noite de segunda-feira, 21, escancara para quem quiser ver que o ex-presidente pode estar pensando em muita coisa atualmente, menos em vestir um pijama para descansar no apartamento de São Bernardo com a família, ou, de bermuda e sandália japonesa, pegar uma vara de anzol para ir pescar.

Durante a homenagem no clube árabe da capital paulista, Lula deixou inúmeras pistas – algumas nítidas outras meio submersas – de que não só não quer descansar ou desaparecer por vontade própria do noticiário político, mas que já tem praticamente traçada rota e estratégia de seu próximo voo: tentar arrebatar São Paulo do bico dos tucanos e trazer a mais importante cidade da América Latina para garras e órbita de domínio petistas nas eleições municipais de 2012.

Quem prestou atenção ou não fechou os olhos de propósito (pior para o jornalismo) para fazer de conta que não está vendo ou não está nem aí, testemunhou seguramente que Lula raras vezes esteve tão à vontade quanto no Monte Líbano durante a homenagem dos integrantes legítimos (e aderentes de todo tipo) da comunidade árabe no País.

E não era para menos: cerca de duas mil pessoas disputavam um cumprimento ou um aceno, enquanto centenas aplaudiam de pé, segundo registro do repórter Claudio Leal na esclarecedora reportagem publicada na revista digital Terra Magazine sobre o evento.

A conversa com a colunista da Folha de S. Paulo, Mônica Bergamo, e as críticas duras de Lula contra dirigentes da ONU ao protestar contra a invasão da Líbia, em lugar de mandar um negociador ao país em tentativa de paz, não é coisa de quem procura repouso tranquilo.

Além do protesto com vários decibéis de volume acima do esperado pelos ouvidos mais delicados dos conhecedores das etiquetas diplomáticas, contra os “exageros” da segurança norte-americana durante a visita de Barack Obama a Brasília (fez revistas humilhantes até em ministros do governo na casa visitada).

É bom não esquecer: Lula compareceu à reluzente e animada recepção oferecida a ele pela comunidade árabe apenas dois dias depois de recusar convite do Palácio do Planalto para o almoço em Brasília com Barack Obama.

Na Capital Federal, domingo passado, quatro ex-ocupantes do palácio provaram do cardápio oferecido pela presidente Dilma Rousseff ao colega norte-americano, incluindo FHC (PSDB), visto e fotografado em conversa aparentemente nada cômoda com o colega e atual presidente do Congresso, José Sarney (PMDB).

E aqui um rápido corte como nas filmagens cinematográficas, antes do ponto final destas linhas.

A memória é parte essencial do texto e da informação jornalística. Aprendi esta lição em meus anos de Jornal do Brasil, trabalhando com o saudoso Juarez Bahia, ex-editor nacional do então imbatível (qualitativamente falando) diário editado no Rio de Janeiro. Mestre dos maiores que conheci da teoria e da prática do jornalismo no Brasil (sete prêmios Esso na bagagem, conquistados com mérito ao longo da brilhante carreira).

Transmito aqui uma lição básica de Juarez Bahia, ministrada com seu jeito sempre doce e gentil, mas firme, de baiano de Feira de Santana, mesmo quando já era um jornalista de renome nacional e cidadão do mundo: “Quanto sentar diante da máquina na redação de um jornal para produzir um texto, escreva sempre como se estivesse falando do assunto pela primeira vez, mesmo que algum “copy” reclame ou considere repetitivo. Pense no leitor que não tenha nenhuma informação ou referência prévia sobre o tema e cuide bem do enfoque, pois isto é que faz toda diferença na comparação dos jornais, em cujas páginas se publicam todos os dias praticamente as mesmas notícias”. Grande Bahia!

“A semana que vem tem mais”, como dizia o folclórico prefeito de São Francisco do Conde, petrolífera cidade da Região Metropolitana de Salvador, ao anunciar suas obras na TV. A convite do colega Cavaco e Silva, a presidente Dilma Rousseff inicia na próxima terça-feira sua primeira visita oficial a um país europeu depois da posse.

Vai a Portugal, onde participará na quarta-feira com o chefe de Estado português da cerimônia de entrega do título de Doutor Honoris Causa ao ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva, na Universidade de Coimbra.

Pode até parecer repetitivo, mas, a depender do enfoque, vai dar ainda muito mais o que falar.

Vale repetir:  Grande Juarez Bahia!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@ig.com.br

mar
19
Posted on 19-03-2011
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 19-03-2011


Luto de Cristina: dor ou marketing eleitoral?
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ARTIGO DA SEMANA

POLÍTICA, CULTURA E POLÊMICA EM BUENOS AIRES

Vitor Hugo Soares

Caminhar por Buenos Aires, como fiz estes últimos dias, é respirar política, cultura e polêmica o tempo inteiro. Sempre a vi assim e segue sendo assim nesta luminosa e enigmática cidade da América do Sul a que retorno periodicamente. Enfeitiçado desde que, oriundo das barrancas baianas do Rio São Francisco, pisei nas margens do Rio da Prata pela primeira vez, há mais de 30 anos.

Primeira surpresa: de volta ao hotel depois de um passeio de reconhecimento do terreno, dentro de um táxi amarelo e preto, marca registrada do lugar, o motorista de meia idade faz ansioso ao passageiro brasileiro curioso sobre a política local, perguntas improváveis de serem feitas por um portenho até bem pouco tempo: “Como vai Lula? Por onde anda? Será que ele vem dar uma ajuda na campanha de reeleição da presidenta Cristina este ano?”.

O politizado motorista fala, evidentemente, da presidente da República, Cristina Fernandez de Kirchner, viúva do ex-presidente e ex-senador justicialista, Nestor Kirchner, que antes de sofrer o ataque traiçoeiro do coração que o matou recentemente, fincou as bases de uma tendência claramente em ascensão na Argentina destes dias: o kirchenismo. O fenômeno , uma espécie mais moderna e envernizada do peronismo sem Perón e Evita, bem à moda da família Kirchner, é reconhecido por adeptos governistas e adversários. E o jornalista o confirma a cada passo.

Na capa da última edição de “Notícias”, por exemplo, a principal revista semanal da Argentina, vê-se a impactante imagem (jornalisticamente falando) de uma espécie de esfinge de Cristina toda vestida de negro, ao fundo de um bordado de pequenas fotografias da presidente em vestimentas de luto.

“140 dias vestida de negro: El Extraño luto de Cristina”, assinala a revista na manchete de sua reportagem principal. “O uso eleitoral da dor. Os dilemas íntimos de uma viuvez prematura. O vestuário de Olivos (a residência presidencial). Plano taliban para a presidência eterna e a operação midiática do “Já Ganhou” – completa Notícias, com evidente desconforto e azedume, a sua chamada para o texto informativo, analítico, dramático e seguramente destinado a polêmicas, como é do gosto argentino.

Segundo a revista, o uso eleitoral do luto presidencial é o mínimo que pode fazer o kirchenismo para vencer a batalha eleitoral de outubro que vem. “A bateria de operações está em marcha. Uma pesquisa da consultoria Aresco, de Julio Aurélio, convenientemente amplificada pela mídia oficialista, não só tentou demonstrar que Cristina está em condições de ganhar no primeiro turno – sua intenção de votos , projetando indecisos, superaria a marca dos 50% – mas também que ela estaria largando com vantagem abissal sobre seu principal competidor, Maurício Macri (governador da Província de Buenos Aires), líder do PRO (conservador), que segundo a surpreendente medição reuniria apenas 14% das intenções de voto e estaria acima de Eduardo Duhalde e Ricardo Alfonsin, ambos patinando ao redor de 10%.”, revela Notícias.

Instigante começo de uma campanha que já saiu dos gabinetes dos políticos e dos marqueteiros, para ganhar as ruas de Buenos Aires, este ano em que os argentinos viverão votando, como registra um tablóide local. 2011 apresenta-se como um largo ano eleitoral, cuja arrancada foi dada domingo passado , com as eleições municipais em Catamarca, e se concluirá em 23 de outubro, quando se elegerão o presidente da República e o vice para os próximos quatro anos.

De volta ao começo. Diante da questão inesperada do taxista sobre Lula, a memória do ex-repórter da sucursal do Jornal do Brasil na Bahia nos anos 70, (que a exemplo do saudoso jornal impresso nem existe mais), voa de retorno ao tempo da primeira visita à capital portenha.

Então o Brasil vivia seu período mais brutal de ditadura, sob o mando do general Garrastazu Médici: um país fechado não só para seus vizinhos do continente, mas também para o resto do mundo democrático. Envolto no manto do chamado “milagre brasileiro” operado na economia por Delfim Neto e cantado em verso e prosa por seus arautos. Alguns deles ainda cantam de galo por aí, com poder no Congresso e muito prestígio no governo federal.

A Argentina daquela época, ao contrário, fervilhava de democracia. Os filmes censurados por aqui, lá eram exibidos com foco de luz néon sobre os cartazes nos inumeráveis cinemas da Lavalle e Corrientes. Os livros proibidos por cá, eram vendidos fartamente, a preço de banana, na cidade invejável para o visitante também pela fama de ter mais livraria que o Brasil inteiro.

Na política, a vibrante efervescência que tomava conta das imensas avenidas em diagonal, ruas, praças, bares, cafés e recintos públicos, na campanha eleitoral que antecipava o retorno do exílio na Espanha de Juan Domingos Peron. Os bumbos ensurdecedores no primeiro comício de Hector Campora em Santo Andrés de Gilles, com Isabelita , que voltou antes do marido, no palanque.Os grafites nas paredes de Buenos Aires convocando no provocativo estilo portenho da época: “Vuelva, Peron. Somos machos, e somos muchos”.

No outro lado, as manifestações do candidato da União Cívica Radical, Raul Alfonsin, mais densas em conteúdo dos discursos, mas não menos intensas em vibração popular, a começar pelo hino de guerra da campanha de Alfonsin, que se cantava nas ruas de Buenos na época: “Oh, luche, luche, luche/ No dejes de luchar/ Por um govierno obrero, obrero e popular”. Depois, lá e cá, vieram os terremotos, as tempestades, os desastres e a fratura irreparável de sonhos políticos e utopias existenciais. Não há espaço para dizer mais nessas linhas.

A não ser para o registro amoroso de que Buenos Aires segue linda como sempre: feiticeira, política, intensa, culta e polêmica, como nos velhos tangos ou nas páginas dos livros de Borges e Cortázar. Vale a pena ir lá. E conferir de perto.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

mar
05
Posted on 05-03-2011
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 05-03-2011


Dilma: acenos e sinalizações em Irecê
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ARTIGO DA SEMANA

Recados de Dilma e beijos de Lula

Vitor Hugo Soares

É bem provável que a primeira visita da presidente Dilma Rousseff à Bahia, dois meses depois da posse, não renda um folheto de literatura de Cordel como aqueles antológicos criados pelo Cego Aderaldo, célebre repentista do Crato, e outros grandes da comunicação popular nas feiras do Nordeste em eventos semelhantes.

Mas, convenhamos, a passagem, esta semana, da mandatária maior do País por Salvador, no litoral, e Irecê, em pleno sertão, não pode ser desqualificada por seus atuais narradores e analistas. Ou resumida a pura perda de tempo ou dinheiro público jogado pelo ralo, como alguns apressados da política e do jornalismo sugeriram logo que a presidente pegou o avião de volta ao mundo hermético de seu gabinete no Palácio do Planalto.

Nem é preciso ter muita sensibilidade – ou mesmo sentidos tão atilados quanto os daqueles mestres dos repentes nas praças do sertão – para perceber que Dilma sinalizou o tempo inteiro, em sua rápida passagem pelo andar de baixo da complicada construção chamada Brasil, terça-feira passada.

Jeito cabreiro e pouco dada a reações mais expansivas, a presidente se movimentou na maior parte do tempo envergando um figurino convencional da “mineira típica”: observadora e silenciosa.

Em momentos, porém, por estilo ou pura insegurança, Dilma despiu o modelo pacato das alterosas para “rodar a baiana”, no melhor estilo durão dos gaúchos, e distribuir chineladas. Foi assim, por exemplo, em Irecê, depois de errar a pronúncia do nome da cidade de Ibititá (e ser alertada por políticos locais), quando assinalou mais uma vez, de público, o desconforto na relação com seus atuais assessores de comunicação no Palácio do Planalto.

Assim, “como quem não quer nada, querendo” ( no registro de um observador baiano), ela transmitiu recados, mandou sinais e recebeu sinalizações importantes e reveladoras, principalmente para os mais habituados a lidar com signos da política, do poder e do jornalismo.

Tanto no plano estritamente político e social, como no sempre complexo e escorregadio terreno das experiências pessoais, Dilma Rousseff fez movimentos “para além” (como dizem os portugueses) dos abraços e apertos de mãos.

Foi então que ficaram mais evidentes alguns signos da passagem de Dilma pelo Nordeste esta semana. Por exemplo, o apelo explícito da presidente pela ajuda do carisma do ex, que notoriamente lhe falta.

No evento no sertão baiano, um dos raros momentos de vibração popular autêntica, – não ensaiada previamente com os chefes políticos municipais e estaduais e seus cabos eleitorais – foi quando a presidente, no discurso escutado a maior parte do tempo com apatia, pelo público que enchia o local da festa pelo reajuste do Bolsa Família, transmitiu os recados mandados por Lula para os nordestinos.

Dilma contou que, na véspera de viajar para a Bahia, fora até São Bernardo do Campo, em São Paulo, conversar com Lula. “Ele enviou muitos beijos para vocês, mandou dizer que segue nos ajudando e em breve aparecerá pessoalmente por aqui para abraçar a todos”, disse a presidente, conseguindo assim reações empolgadas da platéia.

Diga-se ainda: a própria escolha da cidade baiana para anunciar o reajuste dos valores pagos pelo programa Bolsa Família e iniciar as celebrações do Dia Internacional da Mulher (ao qual o governo Dilma quer emprestar um significado especial em 8 de março), foi mais um sinal devidamente planejado para render respostas políticas, que fruto de mero acaso.

No estado da Bahia reside a maior legião de beneficiários do programa social que virou a menina dos olhos do presidente Lula, além de mina de votos para a eleição da primeira mulher para comandar o País: cerca de 1,65 milhões de pessoas. Em Irecê, município administrado pelo PT, a platéia da presidente foi formada por cerca de 2 mil pessoas, na maioria, mulheres beneficiárias de programas sociais do governo federal.

No discurso de 31 minutos, a presidente gastou boa parte do tempo na citação enfadonha de interminável lista de agradecimentos a prefeitos da região – 51, ao todo. Não há boa vontade e paciência que resistam. E foi aí que a presidente errou o nome de Ibititá e aproveitou para manifestar sinais de desconforto e irritação com seus assessores de comunicação em Brasília, que não colocaram o acento agudo no A da cidade baiana na lista que deram para ela ler.

O entusiasmo do público no comício caiu e só foi recuperado quando Dilma transmitiu os beijos e os recados mandados por Lula para os nordestinos. “Amaldiçoado quem pensar mal dessas coisas”, diriam ironicamente os franceses. Mas, sinais são sinais!.

Bom Carnaval para todos.

Vitor Hugo Soares é jornalista: E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Ana de Holanda, Jaques Wagnee e Fátima(D)
com Mãe Stela no Axé Opô Afonjá
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ARTIGO DA SEMANA

ESSA MENINA VAI LONGE…

Vitor Hugo Soares

A receita é infalível. Desde que o jornalismo é jornalismo é assim: primeiro, encontre um repórter. Desses atentos até a neurose, com os cinco sentidos ligados em tudo que se passa ao seu redor e seja profissional decidido a transformar-se a qualquer momento em olhos, ouvidos e palavras dos que não sabem o que aconteceu, não veem o que se passou, e não têm onde contar o acontecido, como ensina Carlos Ferreira na entrevista do livro “Entre Periodistas”, do argentino Teódulo Dominguez.

Em seguida, é fundamental encontrar uma boa fonte: a primeira-dama da Bahia, Fátima Mendonça, por exemplo, não só disposta, mas tendo o que dizer. Esse é outro ingrediente essencial, pois o repórter, por melhor que seja – mesmo um Bob Fernandes, como no caso do prato em pauta – não faz nada sozinho.

Se a mistura for feita em Salvador, em um terreiro de santo do candomblé, então não tem erro: daí sairá um prato delicioso e picante, mesmo na temporada de verão, período em geral pobre e insosso, no qual o jornalismo local e nacional parece decidido a investir suas melhores fichas no exotismo ou nas proezas das “celebridades” da vez no Big Brother Brasil.

Foi isso, bem ou mal contado na introdução dessas linhas, o que aconteceu na capital baiana, no território sagrado do centenário terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, comandado pela venerada Mãe Stela, mais famosa ialorixá da Bahia desde a partida há décadas de Mãe Menininha do Gantois. Repórter e entrevistada se encontraram no cenário que fervilhava, pois alí se realizava a cerimônia de reinauguração das casas de Iemanjá e Oxalá, fato com força religiosa e política suficiente para mover até o estado natal dos ex-ministros da Cultura, Gilberto Gil e Juca Ferreira, a nova ministra Ana de Hollanda, que a petista Dilma Roussef escolheu para ocupar em seu governo o posto que foi dos verdes baianos nos anos Lula.

Presentes também ao ato marcado pelo sincretismo, o governador petista nascido e criado na religião judaica, Jaques Wagner, cinco deputados federais da bancada baiana na Câmara, a senadora socialista e ex-prefeita da capital Lídice da Mata (PSB), secretários de estado e dirigentes do Patrimônio Histórico. Gil e Juca , antigos frequentadores e reconhecidos defensores da transformação do terreiro de Mãe Stela em patrimônio cultural, não foram vistos da cerimônia.

Fora isso, saltava aos olhos de observadores mais atentos, entre estes Bob Fernandes, o burburinho em forma de frisson causado pela passagem da primeira-dama da Bahia no terreiro. “É a Maria de Fátima Mendonça, a Fatinha, que se dirigem filhos e filhas de santo, o ‘povo do candomblé’. Ela, de vestido branco no dia de Oxalá”, conta o editor-chefe de Terra Magazine, na apresentação da entrevista, ao falar das exortações à Fátima para que seja ela a candidata de oposição ao evangélico prefeito de Salvador, João Henrique Carneiro, nas eleições municipais do ano que vem.

O prefeito também estava ausente da concorrida cerimônia no Axé Opô Afonjá.

Mas existiam os ingredientes principais para a provocativa conversa do repórter com a primeira-dama, postada no começo da semana em TM. Reproduzida em vários sites e blogs baianos e nacionais, gerou polêmicas em vários terreiros da política local, motivou ciumeiras e reações de todo lado (principalmente nas sombras dos bastidores), incomodou do ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB) ao líder do DEM na Câmara, ACM Neto (ambos de olho desde já no palácio Thomé de Souza). E ainda sobrou fogo para os próximos dias, principalmente depois da entrevista de Bob Fernandes, na quinta-feira, 17, no programa radiofônico de Mario Kertész, o mais ouvido e comentado da Bahia.

Filiada ao PV, Fátima é casada com Jaques Wagner. Aí estaria o principal obstáculo –”no caso, legal”, como assinala Bob – para “Fatinha” levar ou não adiante a candidatura a prefeita. Enquanto advogados e juristas estudam o caso, ela vai preparando o terreno. Em seu estilo “rápido e caceteiro”(como dizem os baianos), vai direto ao ponto, e ataca o calcanhar de João, “num momento em que o prefeito da terceira maior capital do País dispensaria maiores desqualificações”.

“Além dos tradicionais índices de miséria e desemprego, da sujeira, abandono, do desrespeito ao bom senso e às leis, a transformação da cidade num pasto para apetites imobiliários fala por João Henrique e sua Era. Um tempo que marca negativamente a história de Salvador e que irá custar caro, muito caro à cidade”, como Bob destaca. “Ele é um dirigente medíocre”, dispara a primeira dama.

“Eu sou a esperança”, completa uma vaidosa e confiante Fátima Mendonça. Entre um ponto e outro da conversa, muitas revelações sobre a relação afetiva e política da entrevistada com o governador Wagner. Um papo solto e esclarecedor, salpicadas de bom humor e malícia bem soteropolitana, sobretudo nas comparações com o prefeito João Henrique e a esquentada primeira dama municipal e deputada estadual Maria Luiza. Mais não digo para não quebrar o suspense e tirar o prazer de quem ainda não leu o conteúdo completo da entrevista.

Para terminar, recorro a um escrito do saudoso deputado pessedista Raimundo Reis, um dos maiores cronistas do cotidiano da Bahia. Certa vez, conta no livro “Malhada do Sal”, ele almoçava em Paris, “em companhia de Pámela, uma sexual italiana de Perúgia”, quando a moça perguntou de repente.

-Quem é você?

Olhando as águas calmas do Sena, Raimundo respondeu:

-Um menino de Curral dos Bois (antiga cidade de Glória, na margem baiana do Rio São Francisco, onde as aguas desciam turbulentas vindas de Paulo Afonso)

O cronista relata que, quase chorando, lembrou do avô, o Coronel Petro, que dizia orgulhoso.

– Este menino vai longe…

Ao encerrar estas linhas sobre a primeira-dama da Bahia e sua entrevista a TM, sou tentado a repetir como Raimundo Reis em suas crônica parisiense:

– Esta menina vai longe…

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail; vitor_soares1@terra.com.br


Lula:o dono da festa dos 31 anos do PT

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ARTIGO DA SEMANA

UM TAMBOR PARA LULA

Vitor Hugo Soares

Na festança dos 31 anos de fundação do PT, em Brasília, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva retornou à cena principal da política no País, depois de apenas 40 dias de afastamento do palco. E voltou com toda pinta daquele herói francês citado por Ulysses Guimarães no sexto mandamento do seu famoso Decálogo do Estadista: “Estou cercado. Eu ataco”.

Quando muitos adversários políticos, críticos e analistas já o apontavam como “estrela cadente”, eis que o resistente retirante da seca nordestina que alcançou o posto de comando mais elevado da nação ressurge como astro mais candente da Companhia. Mesmo – é bom não esquecer – estando presente no cenário do espetáculo de luz e cores montado no Planalto Central, ninguém menos que a presidente Dilma Rousseff – na plena força que os votos e a caneta lhe conferem na fase inicial de governo.

Na festa petista, porém, o papel reservado para Dilma foi o de assoprar a vela comemorativa. No resto, praticamente só deu Lula, a começar pelos mimos que ele recebeu. Um deles – mais óbvio, visível e palpável -, a flâmula especial do partido que lhe foi entregue pelo presidente do PT, José Eduardo Dutra, embalado em uma caixa de presente de fazer inveja, amarrada com fita de grife e tudo.

O outro mimo, e seguramente o mais importante, é o cargo de Presidente de Honra do PT, que o recém saído da cadeira de mando no Palácio do Planalto assumiu de fato na quinta-feira, 10. “Posto meramente simbólico”, como se apressam em proclamar adversários políticos e até “companheiros” roídos de inveja.
Honorífico e simbólico sim. No entanto, como se viu já na própria quinta-feira do aniversário do PT, um instrumento como este nas mãos de Lula, tende a se transformar em tambor de ressonância com poder de alcance ainda impossível de prever. Mas, deduzir pela estreia em Brasília , com alcance ainda maior que os famosos tambores de percussão executados pelo artista baiano e internacional Carlinhos Brown nos carnavais de Salvador, ou nas ruas de New York, Madrid, Barcelona e Lisboa.

Belo presente para um “ex” que ainda há poucos dias ao deixar o posto de comando maior do País, sentiu-se na pele de um “cachorro quando cai do caminhão da mudança e fica sem saber para onde ir”. Lula fez a confissão no “improviso” elaborado nos mínimos detalhes, pronunciado na festa de aniversário do partido que ele fundou, fez crescer e ao qual acaba de retornar como militante, com furor de iniciante, vestido de camisa vermelha e tudo a que tem direito.

Antes de Dilma Rousseff pintar no pedaço e abocanhar um naco do bolo de aniversário, Lula aproveitou para usar o tambor que acabara de receber. Mandou sinais para todo lado, dentro e fora do governo, dentro e fora de seu partido. Mas acima de tudo, para dois de seus alvos preferenciais: os críticos mais contundentes na imprensa ao seu governo e ao seu modo de governar e ao seu estilo pessoal, e os adversários políticos pousados principalmente nos ninhos dos tucanos e do DEM.

Avisos aos que tentam “criar uma dicotomia entre governo Lula e Dilma, como se fosse possível, como se fosse crível”, conforme já havia antecipado Dutra, presidente de fato do PT. Lula foi mais direto e contundente no toque: “Eu só não estou no governo, mas eu sou governo tanto quanto outro companheiro que está lá. O sucesso da Dilma é o meu sucesso, o fracasso da Dilma é o meu fracasso”, pontuou.

Criado em São Paulo, o presidente de honra do PT jamais perdeu o estilo do pernambucano nativo que anota tudo na caderneta para não deixar ofensa sem vingança. Uma dessas anotações para cobrança posterior, garantem os mais próximos do ex-presidente, são as recentes declarações do colega Fernando Henrique Cardoso – publicadas até na imprensa estrangeira – considerando que “Lula foi cúmplice com a corrupção em seu governo”.

Lula tratou de ir direto ao ponto na festa do PT esta semana, ao sugerir que os companheiros já estão atrasados em relação ao planejamento para as eleições municipais de 2012. “Aqui não tem aposentadoria. E a campanha para as eleições do ano que vem deve começa agora”, conclamou.

Entendidos em signos lulistas garantem que o aviso aos tucanos tem endereço certo: São Paulo. E guarda muita semelhança com aquele mandado para a Bahia quando ACM chamou o então presidente da República de ladrão e o deputado ACM Neto ameaçou do plenário da Câmara, dar uma surra no presidente.

“Se continuar me ofendendo eu volto na Bahia e acabo com o carlismo”, disse Lula, de Brasília, dias antes de participar dos comícios históricos em Feira de Santana e em Salvador, no Farol da Barra, que definiram a vitória de Jaques Wagner (PT) em seu primeiro mandato, e o ocaso da era ACM na Bahia.

No caso de São Paulo – de FHC, Serra, Alkimin e Kassab – a parada parece mais encardida. Mas, ainda assim, vale a pena dar tempo ao tempo. E conferir depois.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail;
vitor_soares1@terra.com.br

fev
05
Posted on 05-02-2011
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 05-02-2011


O Cão do Segundo Livro (gravura)…
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…e Salvador na escuridão
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ARTIGO DA SEMANA

A NOITE DO APAGÃO NO NORDESTE

Vitor Hugo Soares
Seis minutos da sexta-feira, 04, na Bahia. Um “apagão” inesperado da luz elétrica em noite de céu límpido e sem tempestades, deixa Salvador e mais sete capitais nordestinas nas trevas do breu. É o “Cão do Terceiro Livro que se prepara para fazer das suas” – como dizia um querido colega da UFBA. Além de atrapalhar o cochilo da presidenta Dilma Rousseff, em Brasília, neste sonífero começo de governo, e dar calafrios e pesadelos no ministro Lobão, das Minas e Energia.

Começa assim a “madrugada de cão” da Bahia ao Ceará, passando pela capital federal. Mas, a alegre temporada de verão em curso – até no governo e na política – nem de longe indicava que o diabo iria se soltar dali a minutos, como se verá no correr destas linhas.

Na pista do aeroporto , o avião com Jaques Wagner (PT) a bordo, se preparava para levantar voo com destino à Europa, onde neste sábado, em Paris, “a Bahia será homenageada pela Federação Internacional de Judô (FIJ) por ter sido escolhida como sede do Campeonato Mundial de Judô por Equipes em 2012”. O governador do Estado decidiu ir pessoalmente receber a honraria.

Vale lembrar, por factual e oportuno, que a notícia da escuridão no Nordeste chegou ontem a outro governador da região sob trevas, Cid Gomes (PSB), do Ceará, quando este já pousara há dias em solo europeu, em “viagem de observações e contatos”. Mas não percamos de vista as lambanças do diabo na madrugada de sexta-feira.

No Centro de Exposições de Salvador, bem nas proximidades do aeroporto, o apagão desnudou outro oceano de contraste na terra onde “todo absurdo, por maior que seja, tem precedentes”, segundo garantia, há tempos, o sempre lembrado governador Octávio Mangabeira.

A escuridão quase completa e suas conhecidas – mas nunca evitadas consequências -, se abateram sobre a capital e o interior, quando a multidão esperava o começo do show da estrela Ivete Sangalo, principal e mais aguardada atração da noite no Festival de Verão de Salvador. Megaevento musical “marcado pela mistura”, segundo anuncia a propaganda dos organizadores da festa que virou marco do calendário baiano e nacional do verão, ponto de encontro do público com suas “celebridades”.

Um mar de tranquilidade (garantida por mais de 700 agentes mobilizados das polícias Civil e Militar e número não sabido de seguranças particulares) na Salvador inquieta com os índices crescentes de violência e o tráfego de veículos cada dia mais caótico e estressante. A apresentação de Ivete atrasa por mais de uma hora. A luz não volta, mas a festa é garantida pelos geradores disponíveis no evento milionário.

Ali, tudo é um aparente paraiso na terra. Ou mar de tranquilidade, prazer, alegria… E indiferença com o que acontece fora dos cercados da festança. O público e as celebridades, misturados com políticos, administradores e homens de negócios e de comunicação, se esbaldam Como na festa da Gávea na apresentação de Ronaldinho Gaúcho à torcida do Flamengo, há poucos dias, enquanto ali bem próximo se ouvia os gritos de desespero e pedidos de socorro, na maior “tragédia natural” da história do Rio.

As explicações oficiais são as de sempre – em apagões como nas inundações. Pipocam aqui e além. No caso de ontem, temos o arrazoado da direção da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (CHESF), em nota lavrada no linguajar típico dos comunicólogos de plantão quando se misturam com os tecnocratas da vez no poder.

De prático mesmo, só uma suspeita no lugar da informação verdadeira esperada. A de que tudo pode ter começado com um problema na subestação Luiz Gonzaga, da Chesf, em Pernambuco, a que se teria seguido “a participação da mão humana”, como disse o ministro. E a partir daí, falhas de operações em cascata, que derrubaram praticamente todo o sistema de abastecimento de energia do Nordeste.

Em síntese: coisas que mais confundem do que explicam, a exemplo da entrevista coletiva desta sexta-feira do ministro das Minas e Energia, Edison Lobão. O ministro não conseguiu explicar por que um problema tão previsível, – e que deveria ter sido isolado de imediato como medida preventiva para “não contaminar o resto do sistema Chesf”-, como afirmou o senador petista baiano, Walter Pinheiro, que entende do assunto e falou o que pensa na Radio Band News. Papel crítico que deveria ter sido exercido por algum representante da oposição. Estes, provavelmente dormiam a sono solto.

Agora o bode com figura de diabo está solto. O governo seguramente fará tudo para deter o bicho, até para impedir que mais dúvidas sobre a real confiabilidade do sistema elétrico nacional se propaguem. Lobão afirmou que a presidenta Dilma Rousseff foi avisada por ele do desastre durante a madrugada. Dilma disse que soube de tudo pela Internet, e mobilizou Lobão, a quem cobrou providências e informações confiáveis.

Pelo estresse do ministro na coletiva é mais que provável que a presidenta não tenha dormido mais, nem deixado ninguém do governo dormir, depois da má notícia procedente da região que mais deu votos para a eleição da sucessora de Lula, primeira mulher a governar o Brasil.

Nem é preciso apurar o olfato para sentir que há forte cheiro de enxofre no ar.

A conferir.

Vitor Hugo Soares – E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Gil: entrevista para ler e guardar /Fernando Vivas/MUITO
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ARTIGO DA SEMANA

Simone de Beauvoir e Gil: Arte de envelhecer

Vitor Hugo Soares

Há alguns anos recebi de presente de aniversário o livro “A Velhice”, de Simone de Beauvoir, mais importante e referencial ensaio contemporâneo que conheço sobre as condições de vida dos idosos. O regalo – como dizem os portenhos – veio de uma querida irmã jornalista – fã de carteirinha da escritora francesa, mas preocupada, também, com o avançar da idade do mano. A obra, publicada em 1970, segue mais atual do que nunca, principalmente no País de pouco cuidado – para não dizer desprezo escancarado – com os seus velhos.

Mas o jornalístico e factual nesse “nariz de cera” é a oportunidade de dizer que desde então não lembro de ter lido mais nada tão interessante e revelador sobre o envelhecer, que as reflexões do artista Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura do Brasil, esta semana em Salvador.
Estão na entrevista concedida pelo cantor e compositor de 68 anos à jovem repórter Emanuela Sombra, publicada como matéria de capa de “MUITO”, a revista da edição dominical do jornal A Tarde.

Não recordo igualmente de ter lido nada melhor nos jornais e revistas nacionais nesses últimos dias. Sei que afirmativas como essas são perigosas e incomodam muita gente do meio. Mexem com vaidades e ciumeiras tolas do cada dia mais estranho e egocêntrico modo de pensar e fazer jornalismo, ultimamente.

Devo acrescentar, a bem da verdade e da qualidade da informação, nestas linhas, que a entrevista do ex-ministro da Cultura do Brasil não é mais um daqueles tratados insuportáveis sobre velhice, cheios de obviedades e lições hipócritas e “politicamente corretas” de como vencer achaques e limitações.

Gil faz um balanço quase completo da carreira. Fala da vida, da juventude, dos atritos durante sua atuação no ministério do governo Lula (a polêmica demissão do ator Antonio Grassi, que acaba de voltar com Ana de Holanda no governo Dilma, por exemplo). Conversa livre e abertamente, também, sobre amores passados e presentes, da mãe Claudina (a “negra baiana cem por cento” da maravilhosa canção na volta do exílio), da relação com Flora e Sandra (Drão) – mulheres para as quais compôs duas de suas músicas mais belas e expressivas -, dos filhos, netos e amigos. E, obviamente, do show do CD “Fé na Festa”, que ele apresenta domingo (amanhã,30) , na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador.

Já se vê por esta “palinha” que a conversa do autor de “Parabolicamará” com a repórter baiana não é coisa de velho saudosista – como alguns apressadamente podem pensar – maldosamente (ou não) – mesmo que a saudade atravesse as palavras do artista de vez em quando, mas quase sempre daquele jeito bom de que falava o genial sanfoneiro e cantor pernambucano, Luiz Gonzaga, em seu baião antológico.
Mas o forte e eloquente da entrevista é mesmo o jeito original e marcante de Gilberto Gil encarar a velhice, na atual etapa de sua vida e de seu trabalho. Aproximando-se dos 70, o artista não esconde nem evita falar sobre as limitações dos anos nas costas, mas ensina com doçura e realismo como essas limitações estão sendo transformadas por ele numa nova juventude.

Ah! Antes que esqueça por uma traição da memória: As fotos, da capa com o título “Tempo Rei”, e das páginas internas são assinadas por Fernando Vivas (de tantas jornadas ao lado de Bob Fernandes e Ricardo Noblat, pela Bahia e país afora, as vezes também deste que vos escreve, no tempo da sucursal da Veja ). Imagens que impactam, encantam, informam e fazem pensar nessa matéria quase completa em termos de bom jornalismo.

Gil com a palavra, sobre as limitações do envelhecer e seu jeito de encarar o passar do tempo:
“Muda o sentido de atenção, de cuidado. O desempenho físico é outro, as tarefas, os afazeres são afetados. E isso também afeta o desempenho psíquico. A memória é uma coisa que é afetada drasticamente, ela começa a ter menos resposta do que antes. Envelhecer implica uma outra maneira de viver, uma outra arte de viver, novas autorresponsabilidades. Você passa a ter que responder a si próprio de maneira diferente, a dizer sim de maneira diferente, a dizer não mais severo, com mais intensidade, mais frequência. Passa a aceitar o sentimento de renúncia com mais resignação”.

Um pouco mais de um dos motores mais vibrantes da revolucionária Tropicália na entrevista a Muito, quando a repórter pede que ele explique melhor: “Renuncia a muita coisa que você não pode fazer mais, como subir uma escada, que era um ato inconsciente e irresponsável. Hoje em dia envolve todo um desempenho e um empenho, um cuidado ao subir ou descer uma escada que me obriga a renunciar a tudo aquilo, à espontaneidade, ao desleixo, a uma impetuosidade”. Subir em um trio elétrico no Carnaval de Salvador, para passar horas como no passado, também é algo impensável atualmente, confessa Gil.

Tem mais, muito mais na entrevista para ler e guardar. Como o livro que Simone de Beauvoir escreveu nos anos 70 para rasgar o véu de hipocrisia e “quebrar a conspiração do silêncio” em relação à velhice, assunto que aparece para os homens e para a sociedade como uma espécie de “segredo vergonhoso”.
Grande Simone! Bravo Gil!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Um certo toque de Exu…

…Na comunicação de Gal no tuiter
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ARTIGO DA SEMANA

Gal: preguiça baiana e polêmica nacional

Vitor Hugo Soares

“Laroyê, Mojubá!”. Direto da Bahia, abro as linhas deste artigo semanal com uma saudação a Exu, para anunciar que a temporada de verão 2011 começou por aqui do jeito que mais gosta o orixá brincalhão e polemista dos cultos afro-brasileiros – do candomblé principalmente. O pau está quebrando – na defesa e no ataque – em relação ao mais novo bafafá que se alastra de Salvador para o resto do País, e, desta vez, nem o ex-presidente Lula nem o cantor e compositor Caetano Veloso, podem ser responsabilizados de nada.

Na verdade depois de entregar a faixa à presidenta Dilma, Lula ainda não passou por estas bandas nordestinas, embora tenha prometido o que deve acontecer provavelmente no Carnaval. O santamarense Caetano Veloso também ainda não soltou o verbo na praia do Porto da Barra e adjacências (como costuma fazer sempre nesta fase do ano), mas o bafafá que promete tomar conta do Verão-2011 já corre mundo afora.

Exu não dorme no ponto quando o assunto é criar uma boa confusão. O orixá festejado por Jorge Amado e escolhido para guardar a área em torno da Fundação que leva o nome do escritor baiano no Pelourinho – um dos pontos mais visitados por turistas na capital baiana – se encarregou de mandar Gal Costa e assim não deixar ninguém na mão, em tempo de jornalismo sonolento e de poucas notícias, salvo as ruins – também anuais no Brasil de norte a sul – como as da tragédia da região serrana do Rio, onde o número de mortos já beira os 800 nesta sexta-feira em que escrevo.

Quem sabe dos cultos de santo por aqui, não tem dúvida: só pode mesmo ser coisa dos exus, esses chefes de terreiros, “lixeiros alegres que passam pelas ruas recolhendo todas as ‘sujeiras’. Vêm com brincadeiras e algazarras, mas fazem um trabalho enorme em benefício da sociedade, que diga-se de passagem é muito pouco reconhecido”, como assinala um especialista em Guia sobre cultos afro-brasileiros na web (http://www.guia.heu.nom.br).

Vejam o caso e tirem vocês as próprias conclusões:

A cantora Gal Costa, que em geral vive calada e só gosta de falar através das letras das canções que interpreta (quase sempre maravilhosamente), decidiu soltar o verbo esta semana, ao ver dar tudo errado nas obras de reforma de sua casa em Salvador e nas relações trabalhistas com o operário da terra encarregado da execução.

Contrariada, a doce bárbara de outras épocas na MPB partiu para uma abordagem meio sociológica “meio senhora de engenho do antigo Recôncavo Baiano” (o achado da frase é de um querido amigo jornalista cujo nome evito citar por falta de autorização e por não querer jogar mais lenha na fogueira) via Web – ou seja, para a Bahia, o Brasil e o planeta – de tema recorrente em tempo fraco de notícias, mas sempre muito delicado em qualquer época: a preguiça dos baianos.

Na verdade, o operário queixou-se de uma forte dor de cabeça que o impedia de concluir no dia e prazo combinados entre as partes a instalação do aparelho de ar condicionado na casa da cantora. Seguramente também sob o efeito do forte calor que faz estes dias na capital baiana, a mana e conterrânea Gal desabafou na mensagem postada em seu endereço no Twitter:

“Como na Bahia as pessoas são preguiçosas! Técnico do ar-condicionado ñ pode terminar o trabalho pq está com dor de cabeça. Essa é a Bahia!!!”, reclamou, no impulso. “Ela costuma tuitar a partir de um iPhone”, contou a revista digital Terra Magazine na matéria assinada pelos repórteres Claudio Leal (baiano) e Dayanne Sousa, em suite jornalística do assunto que então já pegava fogo na Bahia e se alastrava país afora, via Internet.

Foi o toque dos exus que faltava no caso. Na quarta-feira à noite, pouco tempo depois de postado palpite infeliz, a cantora já havia arrebatado mais de 39 mil seguidores no Twitter. Muitos deles fãs que a acompanhavam e que se consideraram ofendidos também com a pecha de “preguiçosos”, lançada por Gal na briga com o técnico de ar condicionado. Não faltaram acusações de preconceito e até “racismo” jogadas sobre a cabeça da doce bárbara.

Espantada com a repercussão inesperada, Gal tentou dar tudo por encerrado, como governantes e velhos políticos quado se vêem diante de fatos e situações incômodas e embaraçosas, mas sem desistir da tese desatrosa, certamente com Exu ainda soprando em seu ouvido: “Ñ é racismo meu filho, é REALIDADE!!!!”. “Tem gente mais preguiçosa em cidades q tem mar”, teorizou a cantora, ressaltando no tuiter que também morou 23 anos no Rio de Janeiro e tem autoridade para falar.

Aí todos os raios e trovões e até algumas flechas de São Cristovão desabaram de vez sobre a cabeça e o peito de Gal, a quem parece só ter restado como alternativa a fuga em desabalada: “Gente, chega! Acabou o assunto da preguiça. Ñ se pode falar nada aqui q tudo vira polemica. Sou baiana e falo pq posso. Vou sair. Tchau”, postou a cantora, ao anunciar que estava deixando o microblog na quarta-feira (19) mesmo. Depois sumiu.

Na fuga apressada, nem lembrou dos versos da antológica música “Vaca Profana”, que Caetano Velosos escreveu para ela e que Gal interpreta divinamente, como ninguém: “Respeito muito minhas palavras/ Mas ainda mais minhas risadas/Mas ainda mais minha risada/Inscrevo, assim, minhas palavras/Na voz de uma mulher sagrada/Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada/Ê, ê, ê, ê, ê,/Dona das divinas tetas
Derrama o leite bom na minha cara/E o leite mau na cara dos caretas”Entrevistado em São Paulo pela Terra Magazine sobre a polêmica que abre mais uma temporada de verão na Bahia e no País, o compositor Tom Zé, conterrâneo de Gal Costa, ladino como um exu de Jorge Amado, “preferiu ser telegráfico ao analisar a tormenta vivida pela cantora baiana, no Twitter, desde que atacou a “preguiça baiana”:

– Gal está aprendendo a lidar com os códigos da comunicação de massa, é isso – diagnosticou Tom Zé.

Exu é pouco!

Vitor Hugo Soares, jornalista baiano que confessa e pede desculpas pela falta de traquejo com as coisas dos orixás. E-mail:
vitor_soares1@terra.com.br.


Dona Ilair:salvamento comoveu o mundo
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Imagens de humanismo e bom jornalismo
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ARTIGO DA SEMANA

OUTRO LADO DA TRAGÉDIA NO RIO

Vitor Hugo Soares

O antigo e sempre novo compositor baiano ensina que “a tristeza é senhora e desde que o samba é samba é assim”. De Salvador, olhando para a tela da TV enquanto se desenrolam as cenas da maior catástrofe climática de que se tem lembrança na história do País, é praticamente impossível não associar os versos do samba pungente aos fatos, mazelas e personagens de um drama nacional tantas vezes anunciado e tantas vezes repetido, como acontece nestes primeiros dias de 2011 na região serrana do Rio de Janeiro, cujo grito de alerta (não escutado) partiu de São Paulo e Minas.

“Essa história é velha”, proclamam as vozes críticas dos arautos da “objetividade jornalística”, antes de remoer ataques à concessão de passaportes diplomáticos pelo Itamaraty aos filhos e netos do ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva.

Essa é outra história antiga, que lembra tempos de mesquinharias e vinganças políticas e pessoais. Da época dos ditadores que dominavam quase a América Latina inteira e conduziam a feroz “Operação Condor”. Então, o ex-presidente João Goulart e o ex-governador Leonel Brizola, vigiados o tempo inteiro e ameaçados de morte no exílio do Uruguai, tentavam em vão conseguir um passaporte que os permitisse – e a seus familiares – chegar a terras mais seguras, enquanto tanta “gente com dois passaportes” (a frase é de Brizola) – da imprensa, inclusive – voava livremente dentro e fora do Brasil.

Isso ninguém me contou, eu vi. Na época em que, repórter do Jornal do Brasil, também costumava voar de férias (com Carteira de Identidade apresentada antes do embarque) para sentir a pressão da chapa no continente. Mas, por enquanto, não quero perder o rumo destas linhas destinadas a falar sobre o drama atual nas serras fluminenses.

Sim, a tragédia das chuvas no Rio e no País também é velha e recorrente. No entanto, a cada tempo ela se apresenta mais intensa em sua dramaticidade exemplar, como na batida do clássico Bolero de Ravel. E a cada vez, há sempre algo novo e diferente para ver e aprender, basta abrir bem os olhos e tirar a cera dos ouvidos, como esta semana aconteceu comigo em um consultório médico da capital baiana.

No caso da zona serrana do Rio, os números apavorantes nesta sexta-feira em que escrevo, crescem sem parar. Já são mais de 530 mortos, dezenas de soterrados, milhares de desabrigados (vários na busca notícias desesperada de parentes mortos ou ainda soterrados), mas o rol de tristes fatos e consequências – sociais, políticas, econômicas, mas principalmente humanas – aumenta diariamente.

“Tudo demorando em ser tão ruim”, como no samba triste de Caetano Veloso. Mas, aqui e ali, demonstrações de força, coragem, generosidade e profissionalismo que redimem e restauram a crença em uma nação, em uma gente e em um país. Quando tudo parece ruir e ser arrastado montanha abaixo pela enxurrada, eis as imagens com força humanística e competência jornalística capazes de restaurar fé, esperança e confiança quase inteiramente perdidas.

Falo, evidentemente, das imagens da reportagem que sugiro desde já como forte candidata a conquistar todos os prêmios de jornalismo do Brasil este ano – o Esso inclusive. Transmitidas pela primeira vez no Jornal da Globo, madrugada de quarta-feira, 12/1, as cenas correm e emocionam o mundo desde quinta-feira quando foram mostradas também no canal internacional de notícias CNN . Podem ser vistas nos blogs e no You Tube.

Mostram a operação de salvamento de dona Ilair de Souza, 52 anos, na localidade serrana de São José do Rio Preto. Reproduzidas inúmeras vezes e com todos os detalhes pelo canal fechado Globo News, na quinta-feira e ontem, a reportagem é simplesmente magnífica. Um desses momentos raros que unem bom jornalismo com demonstrações espontâneas de coragem, iniciativa, força, solidariedade, entrega e o melhor do caráter de um povo nas condições mais dramáticas e adversas. Tudo conduzido por gente simples, vizinhos, desconhecidos, heróis anônimos da comunidade fluminense.

Dado digno de nota: nas imagens fortes e comovedoras colhidas pelo olhar atento e competente do cinegrafista Rogério de Paula no comando de sua câmera, não aparece nem se percebe a presença de nenhum político, governante, representante de ONG, assessores, ou símbolos oficiais, nem mesmo da polícia, em um dos momentos mais emblemáticos e humanos dessa tragédia que abala o País.

Exemplo bom de ver no meio das patéticas e permanente representações teatrais de políticos e de governantes; da feiúra que restou de casas simples e ricas mansões destruídas; dos escombros que encobrem o rico cenário geográfico, cultural e artístico de belas localidades da época imperial; da bizarra festa de 20 mil pessoas saudando a chegada de Ronaldinho Gaúcho no campo do Flamengo, na Gávea, alheios ao horror e ao grito de dor que parte da região serrana, pela identificação do parente no necrotério improvisado ou na pilha de corpos congelados dentro do caminhão frigorífico.

Apesar de tudo, as imagens do salvamento de dona Ilair são reveladoras de que nem tudo está perdido. Há coragem e esperança entre os escombros da tragédia fluminense. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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