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23

O ex-presidente segunda-feira na FIESP…

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…e ontem em Recife: mais festejado que Dilma
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ARTIGO DA SEMANA

LON CHANEY E LULA

Vitor Hugo Soares

No fim dos anos 50, no cinema de Terra Nova, então distrito de Santo Amaro da Purificação dos antigos barões do açúcar do Recôncavo Baiano, vivi uma das minhas primeiras e mais fascinantes experiências com o cinema, ao assistir “O Homem das Mil Faces”. Esta semana, a recordação da marcante sensação daquela noite distante bateu forte outra vez durante a passagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela Bahia e Pernambuco.

Provavelmente, isso deve-se ao contexto factual e lances jornalísticos da visita em si, mas também decorre das imagens da primeira parada do ex-ocupante do Palácio do Planalto em seu périplo sentimental de retorno ao Nordeste: a casa de Dona Canô, em Santo Amaro, em cuja porta ele bateu acompanhado do governador petista Jaques Wagner para um afago na matriarca da família Veloso, ultimamente com a saúde abalada.

Rara unanimidade baiana destes tempos temerários, como no romance do grande Nestor Duarte, Dona Canô é figura reverenciada com justiça e mérito por muita gente. Pelos políticos então, nem se fala.
E não é coisa de agora como alguns desmemoriados imaginam. É assim, sem distinção de credos e partidos, desde o tempo em que quem mandava na Bahia era Antonio Carlos Magalhães, que esta semana teve lembrada pela oposição de hoje na Bahia, seu quarto aniversário de morte ( 20/07/2007).

Mas voltemos ao começo desta história, para não perder o fio da meada e evitar o risco de ser chamado outra vez de “enrolado
saudosista”, por algum fanático da objetividade jornalística sempre à espreita.

“O Homem das Mil Faces” é a cine-biografia do ator Lon Chaney, um dos atores mais famosos de Hollywood na década dos anos 20, por sua extraordinária capacidade de encarnar os mais diversos e estranhos personagens.

Na sua extensa biografia cinematográfica e vida pessoal fascinante – iniciada em uma família marcada por conflitos de toda ordem em ambiente geográfico inóspito e de pobreza extrema -, Chaney somou mais de 100 filmes, entre eles títulos inesquecíveis: “O Fantasma da Ópera”, “O Corcunda de Notre Dame” e “O Vampiro da Meia-Noite”, entre dezenas de outros. Por este notável talento de transformar-se em cada nova representação, o ator foi chamado pelos críticos da época de “o homem das mil caras”.

Em “Man of a Thousand Face”, dirigido por Joseph Peyney, exibido em
Terra Nova há mais de 40 anos, Lon Chaney é representado por outro ator imortal: James Cagney. O papel de Cleva, a mulher do ator, coube à atriz Dorothy Malone, diva do cinema mundial na época. E mais não conto para não destruir a surpresa e sustos do cinéfilo que se aventurar nesta trama de 1957. Deve ter ainda alguma cópia em prateleira de antiguidades e cults nas melhores locadoras do País.

E estamos de volta à passagem do ex-presidente pelos dois importantes e estratégicos estados do Nordeste, nesta semana do agitado e tenso mês de julho. Complicado no âmbito da política brasileira em geral e, em especial, no interior do governo Dilma Rousseff, onde segue por absoluta necessidade sanitária e moral, o desmonte no Ministério do Transportes e DNIT. Ainda em curso e, provavelmente, com mais quedas nos próximos dias, a começar pelo insistente Pagot, bamba do salão, na volta das férias.

Na segunda-feira, em um dos endereços mais ricos da Avenida Paulista, Lula acompanhado da ex-primeira-dama Marisa Letícia, fez o papel de amigo confiável da nata empresarial detentora da fatia mais suculenta do PIB nacional.

Na Fiesp, Lula abriu uma exposição de fotografias, jantou, tirou sarro com a seleção de Mano Menezes derrotada na Copa América. No fim, antes de se despedir do auditório especial, desceu a madeira mais uma vez na imprensa e elogiou a forma como a presidente Dilma tem lidado com as denúncias de corrupção nos Transportes, ao afastar rapidamente seis figurões da área, incluindo o ministro Alfredo Nascimento, do PR, amigo e aliado. Dias antes, na abertura do Congresso da UNE, em Goiânia, encarnara o combativo e mordaz “mitingueiro” dos movimentos sindicais do ABC paulista e das grandes manifestações estudantis.

Em Salvador desembarcou na pele de “ajudante do governo Dilma”, como ele próprio se definiu em um dos encontros que manteve na capital baiana (alguns claramente para amainar tensões flutuantes entre petistas e aliados no governo federal e no governo petista de Wagner).

Em Santo Amaro da Purificação, o ex-presidente bateu na porta de Dona Canô com a cara do menino pobre do Nordeste que deu certo no Sul, e retorna como filho pródigo para rever parentes e abraçar amigos queridos dos quais não se esqueceu. Em Pernambuco, sua terra natal, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou em seguida sem conseguir ainda ainda assumir “o papel de coadjuvante sete meses depois de deixar o Palácio do Planalto”, como registrou o Diário de Pernambuco.

“Ontem, na primeira visita que fez a Pernambuco sem o status do cargo, atraiu mais atenção de aliados e populares que a sucessora, Dilma Rousseff (PT), quando esteve em Caruaru no São João”, acrescenta o tradicional jornal pernambucano ao narrar a performance de Lula no Parque Dona Lindu (nome em homenagem à mãe do ex-presidente), em Boa Viagem, Recife, na festa do quinto aniversário da Orquestra Criança Cidadã Meninos do Coque.

Diante do pernambucano, já se vê, Lon Chaney é fichinha.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Sergio Cabral: desastre em Porto Seguro
e inferno astral no Rio de Janeiro

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ARTIGO DA SEMANA

Jobim, Cabral e paraísos baianos

Vitor Hugo Soares

Embrenhado no sertão da Bahia na semana dos festejos de São João, passei quase uma semana sem entrar na internet ou ler jornal. Portanto, fiquei meio desligado em relação aos desdobramentos do fato mais dramático, importante e emblemático destes dias estranhos e contraditórios que atravessamos no País.

Não senhor, não me refiro ao desabafo contra os “idiotas” feito anteontem em Brasília pelo ministro da Defesa do governo Lula (mantido no posto por Dilma Rousseff) , Nelson Jobim, no discurso de saudação à moda do poema O Gaúcho de Ascenso Ferreira, pronunciado em louvor a Fernando Henrique Cardoso na sincrética cerimônia pelos 80 anos do ex-presidente .

As provocativas e sintomáticas palavras de Jobim – plenas de veneno e duplo sentido -, bem que merecem artigos e comentários dos quais certamente outros jornalistas e analistas políticos com mais informações de bastidores sobre suas motivações certamente se ocuparão. Principalmente depois do enorme mal-estar estabelecido nas hostes petistas no poder – em contraposição ao regozijo na banda tucana – depois da fala do ministro peemedebista.

Mas paro por aqui em relação a este assunto seguramente destinado a dar muito bafafá político ainda. É outro o rumo da prosa nestas linhas, destinadas na verdade a pontuar informações e observações sobre o desastre com o helicóptero que caiu nas águas baianas do mar de Porto Seguro no dia 17 , causou a morte de todos os seus ocupantes e ironicamente destampou, em junho de 2011, um caldeirão de segredos no território do descobrimento do Brasil, em abril 1500.

Vale lembrar, a bem da verdade factual, contextualização e memória jornalística como ensinava o editor nacional do Jornal do Brasil e mestre saudoso, Juarez Bahia: este é o segundo acidente aéreo em menos de três anos com características semelhantes de perfil como tragédias humanas e pessoais.

Mas, igualmente, episódios tisnados por turvos sinais de escândalos submersos ou parcialmente desvendados a partir de quedas de aviões que voam na escuridão ou falta de controle do cada vez mais movimentado espaço aéreo da costa turística do extremo-sul do estado. Em especial, na deslumbrante faixa privilegiada de praias, hotéis e resorts “de cinema” espalhados na última década entre Porto Seguro e Itacaré, passando por Ilhéus dos antigos personagens românticos dos livros de Jorge Amado.

Atualmente, território “privê” frequentado por multimilionários homens de negócios brasileiros e estrangeiros, ao lado de políticos poderosos como o governador Sergio Cabral, do Rio de Janeiro; presidentes do porte de Nicolas Sarkozy acompanhado de sua linda Carla Bruni; ou a própria Dilma Rousseff em sua primeira viagem depois de eleita, dias antes da posse.

Perifericamente, um não menos intenso circular de gente importante de fato ou que simplesmente aparentam prestígio como moscas famintas sobre bolo confeitado: magistrados nos “encontros de atualização jurídica”, parlamentares em convescotes suprapartidários, palestrantes regiamente pagos para falar em convenções de grandes empresas, alguns jornalistas, “celebridades” e artistas de diferentes matizes. E, como é comum em espaços assim, notórios malandros e espertalhões, parecidos com aqueles dos filmes policiais americanos rodados nos monumentais hotéis de paraísos na Flórida, principalmente em Miami.

Uma pausa para recordar o que escrevi neste espaço há dois anos, quando bombeiros baianos e especialistas da Marinha e Aeronáutica suspenderam as operações de buscas pelo avião Cessna que havia desaparecido uma semana antes, quando em meio a forte temporal fazia o percurso entre Salvador e Ilhéus e sobrevoava a costa sul da Bahia.

A bordo do bimotor de uma empresa de táxi-aéreo, dois tripulantes locais, quatro empresários britânicos, todos mortos. Muitos segredos estão submersos até hoje no pedaço do Atlântico cuja orla abriga alguns dos mais exclusivos empreendimentos turísticos e imobiliários do País.

Então, familiares dos britânicos que vieram da Europa para acompanhar as buscas, agradeceram em nota sintética às autoridades e voluntários da região, pelos esforços na procura sem resultados dos desaparecidos. Igualmente, “pelo respeito da imprensa baiana e nacional em relação aos sentimentos e direito a privacidade dos familiares das vítimas”. Estas, identificadas como Alan Kempson, Ricky Every, Nigel Hodges e Sean Woodhall, este último, presidente da World Wide Destinations (WWD), cujo projeto de maior visibilidade no Brasil é o “Barra Nova Pearl Eco-Nature Resort”, entre Ilhéus e Itacaré.

Uma busca mais refinada por informações, no entanto, conduziu na época a revelações surpreendentes sobre viagens e transações de Woodhall antes do acidente. As primeiras suspeitas sobre a movimentação do empresário britânico por seletos destinos turísticos da Espanha, Caribe e América do Sul foram levantadas em março de 2006, quando o jornal “El Mundo” publicou reportagem sobre a chamada “Operação Malaya”.

O tradicional diário de Madri teve acesso a um informe detalhado depois da detenção, por ordem judicial, de 28 pessoas acusadas de envolvimento no “Escândalo de Marbella” – rumoroso caso de desvio de verbas públicas e suborno de autoridade que abalou a cidade consagrada como um dos mais sonhados destinos de férias e badalação de gente rica e celebridades do mundo inteiro até pouco tempo – escrevi então neste espaço sobre o caso.

No ano do desastre, a WWD presidida por Woodhall tocava importante empreendimento turístico-imobiliário no Sul da Bahia: o “Barra Nova Pearl Eco-nature Resort”. Complexo de luxo, com investimentos avaliados na casa dos R$ 500 milhões, previa a construção de um hotel de luxo, um condomínio de 1,3 mil apartamentos e um seletíssimo campo de golfe.

Tudo isso em “bela área da Bahia, de clima político seguro, praias deslumbrantes, habitat tropical, comida exótica, cultura colorida e vibrantes localidades, perfeitas como destino”, segundo exaltava o site da empresa, na fase de pré-lançamento ante do Cessna desabar e sumir no mar com seus ocupantes.

E aqui paro, porque certamente haverá quem pergunte. “Mas que diabo tem isso a ver com o helicóptero que há duas semanas caiu em Porto Seguro e produziu a tragédia que tem o governador Sergio Cabral como um dos principais personagens, em promíscua relação com empresários que mantém negócios bilionários no estado que ele governa?”.

Confesso não saber a resposta. Responda quem souber.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares@ig.com.br

De Ricardo Teixeira, da CBF, ao deputado Romário…

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…estranho alvoroço em BrasíliA com votação de RDC

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ARTIGO DA SEMANA

A Copa e as entranhas de Brasília

Vitor Hugo Soares

Há nos subterrâneos e nas entranhas de Brasília, destes dias que correm no governo Dilma Rousseff, um ambiente de alvoroço e estranha excitação como raramente visto por estas bandas da América do Sul. A não ser – ressalve-se a bem da verdade histórica -, na segunda metade do século passado, quando da construção da própria cidade erguida em tempo recorde no governo de Juscelino Kubitschek, no Planalto Central, para substituir o Rio de Janeiro como capital do País.

As movimentações foram mantidas até o final da administração Lula e nos primeiros meses da atual em espasmos brandos. Algo semelhante aos fenômenos de atritos nas “acomodações de terra”, que em geral funcionam como avisos sonoros vindos das profundezas da terra em antecipação aos grandes abalos sísmicos.

Esta semana, porém, tudo parece ter saído do controle. Isso a partir da veloz aprovação da mudança no texto da aprovação da mudança no texto da Medida Provisória 527, que cria o Regime Diferenciado de Contratações – RDC A decisão flexibiliza ao mesmo tempo os processos de fixação de preços das obras para a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada Rio-2016.

Um tema, logo se vê, com apelos e interesses capazes de mexer com os “instintos mais primitivos” (diria o deputado Jefferson) da política, dos negócios (sobretudo os das poderosas empreiteiras nacionais), da imprensa e da administração pública.

O que se prevê, de agora em diante, é um terremoto de proporções nipônicas, com epicentro em Brasília, mas com capacidade de alcance nacional e internacional. Coisa capaz de mexer nos intestinos (a expressão é do jornalista Bob Fernandes) do País, de Norte a Sul.

Com maior intensidade, evidentemente, nas cidades e estados mais ou menos contemplados com algum naco deste monumental e suculento “filé” de custos astronômicos: Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Salvador, por exemplo. A rede é grande e embala sonhos e desejos de muitos brasileiros. No entanto, chega “em tempo de farinha pouca no mundo”. Teme-se que sirva, desde já, como moeda valiosa de barganhas ou potente moderador do apetite insaciável de alguns por estas bandas.

Aqui uma pausa para uma historinha baiana dos anos 50, tempo em que quem mandava na Bahia era Antonio Balbino.

Naquela época, durante memorável e demolidora campanha para o governo do estado, em 1954, o habilidoso e competente ex-ministro da Educação de Getúlio Vargas disputava o Palácio da Aclamação com o ex-reitor da Universidade Nacional do Rio de Janeiro e respeitado historiador Pedro Calmon, apoiado pela UDN.

Um dia, em busca de votos, Balbino aportou na cidade de Juazeiro, no Vale do São Francisco. Ali o seu partido não conseguia eleger nem um vereador. Mas, abrigado na casa de um dos raros pessedistas do lugar, o político fez uma reunião da família e traçou uma estratégia para não perder de todo a viagem eleitoral.

Depois, acompanhado de dois filhos de seu hospedeiro, partiu rumo ao cais do febril porto fluvial naquele tempo. Ali, tendo a balaustrada como palanque, o notável tribuno decidiu falar para os barqueiros e quem mais tivesse interesse em ouvi-lo na cidade politicamente “dominada pelos Viana de Castro” .

Naquele dia, Balbino comoveu muita gente. Principalmente ao falar sobre a ventura e desventura de ser, ele próprio, nascido em Barreiras, região do além São Francisco, “um barqueiro e filho de barqueiro que conhece como poucos dramas e necessidades de sua gente”.

Saiu ovacionado do cais, mas esta história é longa e o espaço pequeno para contá-la por inteiro. O resultado, no entanto, é que Antonio Balbino foi eleito governador com vitória histórica e estrondosa, também, na até então anti-pessedista Juazeiro. Meses depois da posse, com o novo governo já bem instalado no soberbo Palácio da Aclamação, eis que aparecem na capital os dois rapazes, acompanhantes de Balbino no comício do cais, para apresentar “a fatura do pai e cabo eleitoral inestimável”.

O governador da Bahia recebe em seu gabinete de mando, com alegria e afeto especiais, os dois jovens visitantes. Reafirma o seu “eterno reconhecimento” e promete construir boas escolas na cidade, para cuja direção nomearia as duas professoras, filhas “do estimado cabo eleitoral”. Aí a história ganha um rumo inesperado.

Um dos rapazes pergunta em tom de reclamação: “Escolas? Professora?”. E o irmão completa: “Meu pai não quer isso, não, Balbino. Ele quer é construção de açudes, de estradas pra roubar”. Surpreso o governador contesta : “mas isso eu não posso fazer, é impróprio, ilegal, seria como mentir para minha gente”. O primeiro rapaz toma outra vez a palavra para o arremate:

“Mentir, governador? Mas o senhor não disse no comício de Juazeiro que foi barqueiro, como seu pai? Seu pai nunca foi barqueiro, Balbino. Seu pai sempre foi dono de barcas”. E cai a cortina sobre a conversa e o seu resultado. Haverá agora quem pergunte: “mas que diabo de relação tem esta história dos anos 50 na Bahia, com os fatos desta semana em Brasília?”.

Boa pergunta, mas o autor destas linhas ainda não tem a resposta. Assim, responda quem souber.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

jun
04

Dilma com Palocci: a situação ministro…

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…e a semelhança com o filme cubano

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ARTIGO DA SEMANA

“GUANTANAMERA” E O MINISTRO PALOCCI

Vitor Hugo Soares

Diante dos fatos e discursos mais recentes sobre a crise da multiplicação da fortuna do ministro chefe da Casa Cilvil, Antonio Palocci, uma impressão ganha corpo. A de que a presidente Dilma Rousseff está agora diante do primeiro mandamento do “Decálogo do Estadista” – A Coragem – proclamado em vida nos quatro cantos do país pelo bravo deputado Ulysses Guimarães, que há anos repousa no fundo do mar.

Trocando de alegorias, se poderia dizer também que o governo petista e seus aliados de todas as plumagens – além de boa parte da oposição e da mídia brasileira – estão diante de uma situação bastante semelhante àquela descrita no filme “Guantanamera”, de Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabio.

Notável tragicomédia realizada em Cuba (1995) – país coincidentemente visitado esta semana pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva -, que virou “cult” do cinema no mundo inteiro, incluindo o Brasil. Só para avivar a memória dos mais esquecidos: trata-se daquele filme em que depois da morte de uma tia, em Guantánamo, um casal e um amigo da família partem para enterrar o defunto em Havana.

Uma história – como a do ministro Antonio Palocci neste Brasil de 2011 – de matar de rir e chorar ao mesmo tempo. Na longa, engraçada e pungente última viagem do defunto através de Cuba, se revelam as entranhas de um lugar corroído pela burocracia, pela corrupção, pelas pequenas e grandes traições políticas e desmoronamentos diários de sonhos sociais. Mas, principalmente, a carnificina cruel causada pelo jogo na disputa de poder nas mínimas e mais insignificantes coisas.

No primeiro mandamento do Decálogo de Ulysses está escrito que o pusilânime nunca será estadista. O autor cita o britânico Winston Churchill, quando afirmou que das virtudes, a coragem é a primeira, porque sem ela, todas as demais, a fé, a caridade, o patriotismo, desaparecem na hora do perigo.

Os de boa memória certamente dirão que o autor destas linhas já falou sobre isso em outros escritos. Pura verdade, mas confesso aqui a minha mais profunda admiração por Ulysses e Nelson Rodrigues, o primeiro na política, e o segundo na arte teatral e no texto jornalístico. Ambos ensinaram a vida inteira que a repetição – até à neurose – é uma das melhores maneiras de não permitir que verdades e ensinamentos relevantes, na política como no jornalismo, sejam esquecidos ou relegados.

Feito este esclarecimento, repitamos Ulysses Guimarães em seu Decálogo mais uma vez: “Há momentos em que o homem público tem que decidir, mesmo com o risco de sua vida, liberdade, impopularidade, ou exílio. Sem coragem não o fará. César não foi ao Rubicon para pescar, disse André Malraux. Se Pedro Primeiro fosse ao Ipiranga para beber água, suas estátuas não se ergueriam nas praças públicas do Brasil. O medo tem cheiro. Os cavalos e cachorros sentem-no, por isso derrubam ou mordem os medrosos”.

Na mosca, grande Ulysses do Brasil! Daqui vai um tributo comovido (que os “politicamente corretos” seguramente chamarão de “saudosismo de baiano besta”) onde quer que esteja o seu espírito. Creio, piamente, que ele andará sobrevoando Brasília nestes dias de tumultos e sobressaltos.

Em “Guantanamera”, aplaudido e premiado filme cubano, o casal e o amigo conduzem o corpo da tia morta, num caixão, em um velho carro da funerária estatal, em longa e demorada travessia pelo país de Fidel. Viagem cheia de lances que em momentos levam às gargalhada ou ao riso contido, mas sempre com a comoção entalada na garganta a ponto de explodir em lágrimas ou soluços em qualquer ponto de parada no meio da estrada.

No caminho para enterrar o corpo do defunto na capital cubana, caminhos e destinos dos três passageiros se cruzam a todo momento com os caminhos da gente e da sociedade cubana. Além de enterrar o defunto em Havana, terão de tomar decisões cruciais sobre relacionamentos afetivos, políticos, ou desnudar dúvidas incômodas no campo das relações sociais e de poder.

“Guantanemera”, em síntese, é uma extraordinária metáfora cinematográfica destinada a mostrar que, se não tivermos coragem de tomar decisões, de arriscar, corremos o risco de passar uma vida inteira de arrependimentos, e, no final das contas, a única coisa que conseguiremos é transportar cadáveres insepultos por toda uma existência.

Transposta para a política, é esta a metáfora brasileira atual: para o ministro Antonio Palocci, para o governo da presidente Dilma, e para um País paralisado diante da expectativa de saber o que será feito do defunto transportado do carro da funerária estacionado agora em Brasília.

A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Lula de volta a Brasília: imagem da semana

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ARTIGO DA SEMANA

GALO NO POLEIRO

Vitor Hugo Soares

Em seus noticiários de maior audiência, na noite de quarta-feira (24), as principais redes de televisão do país, cada uma ao seu estilo e enfoque, exibiram na cobertura sobre os vertiginosos ganhos de Palocci, imagens que mais pareciam retiradas de arquivos da história recente. Algo assim do tempo em que o então senador e ex-governador Antonio Carlos Magalhães deitava e rolava da Bahia a Brasília, exalando mando e poder à sua passagem.

“Pura ilusão de ótica”, como ensinava há décadas a professora Letícia Campos na escola de Santo Antonio da Glória, no vale do São Francisco. No centro da imagem que as TVs mostraram esta semana quem pontificava de fato na capital federal – deitando e rolando no meio da multifacetada tropa política ao seu redor – era o ex-presidente República, Luiz Inácio Lula da Silva.

Principal esfinge do partido dominante instalado no Palácio do Planalto, a pleno vapor ele estava de volta ao cenário do qual se despedira há cinco meses. Desta vez em missão de negociador e bombeiro, duas de suas mais reconhecidas especialidades, cultivadas no sindicalismo e aplicadas na política em seus oito anos de governo. Lula tenta apagar o incêndio que grassa no gabinete do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, cujas chamas ameaçam chamuscar as vestes da presidente Dilma Rousseff.

“Que foto, que imagem!”, exclama Margarida, a provocativa e mordaz jornalista que vive ao meu lado. Sempre em alerta e em eterno estado de objeção. Espécie de consciência crítica afetiva, permanentemente de plantão, cheia de desconfianças de qualquer coisa emanada do poder ou que apareça com carimbo oficial.

O grito funciona como um despertador. Convoca para “a vida real” que a televisão anuncia como fazia antes o Jornal do Brasil de minhas mais gratas lembranças profissionais, no tempo da canção tropicalista do baiano Gilberto Gil.

Até o alerta da jornalista ao lado, o autor destas linhas prestara pouca atenção aos principais lances dos noticiários daquele dia na TV. Por sinal, notícias de estarrecer. A começar por uma das mais lamentáveis sessões da história da Câmara dos Deputados do Brasil, que aprovou o Código Florestal. Trágica mas emblemática coincidência com o assassinato do casal de seringueiros e defensores da floresta Zé Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, abatidos em mais uma emboscada nas selvas do Pará.

A desatenção tinha motivo. Estava envolto na leitura de “Contra la prensa”, uma referencial antologia de textos sobre o que se poderia chamar de o outro lado do jornalismo ou, se preferirem, da história da imprensa. Na verdade, esses escritos compõem agora uma outra história da imprensa: o descobrimento de margens sombrias e vaidosas do jornalismo, em páginas críticas deixadas por profissionais que duvidaram e gozaram ao assinalar suas deserções e excessos.

“Em muitos casos é uma história forjada também por jornalistas, espíritos travessos que com sarcasmo, ironia ou condescendente ceticismo, deixaram um feixe de lúcida incredulidade ante a epopeia da imprensa escrita”, como registra a apresentação da antologia de Esteban Rodrigues, profissional de comunicação argentino, responsável pela meticulosa compilação dos textos de primeira linha que integram o livro. Um dos vários da pilha de publicações sobre jornalismo e comunicação adquirida em recente passagem por Buenos Aires.

Por pouco não resultou em multa por excesso de bagagem na hora do embarque no aeroporto de Ezeiza, mas valeu a pena carregar o peso, correr o risco da multa e até ser acusado esta semana como um dos responsáveis pela explosão de gastos de turistas brasileiros no mês passado em viagens ao exterior. Não sei se já existe edição em português da obra que indico. Leitura essencial nesta quadra de transe e quase completa confusão na imprensa brasileira e mundial.

De volta ao começo:

Mal comparando, nas imagens em movimento da TV, congeladas em expressivas fotografias publicadas nos sites, blogs e jornais impressos do dia seguinte, o ex-presidente Lula reapareceu em Brasília “ciscando” com a segurança do galo que chega para repor a ordem no poleiro.

Paletó a ponto de ver explodir o único botão que o fecha, expressão enigmática, braço direito estendido em acenos para o alto, Lula parece não só à vontade, mas satisfeito com a tropa que vê à sua volta, depois de assumir, na prática, a articulação política do governo Dilma Rousseff, enquanto tenta socorrer o companheiro Palocci, atingido na asa.

“Lula almoçou nesta terça-feira, 24, com senadores do PT, jantou com Dilma e Palocci, no Palácio da Alvorada, deu voz de comando para a defesa do ministro e nesta quarta-feira, 25, tomará café da manhã, na casa do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), com os líderes da base aliada no Congresso”, resume O Globo.

A imagem que contemplo – agora atento – é de depois do café na casa do presidente do Congresso. Lula aparece diante da tropa com aquele ar típico de “missão cumprida”. Ao lado do ex-presidente aparecem Sarney, à esquerda, e Temer (vice de Dilma) à direita. Mais afastados, Humberto Costa (PT) e Renan Calheiros (PMDB). Atrás, o senador Magno Malta em sua pose típica de “papagaio de pirata”. Ao fundo, uma nuvem densa de parlamentares do baixo clero no Congresso, que se confundem com seguranças atentos.

É, ou não, uma imagem de causar espanto e admiração? Confira e responda quem souber.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E~mail: vitor_soares1@terra.com.br

Strauss-Kahn, preso em Nova Iorque e…

… Abdelmassih, foragido da polícia e da lei

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ARTIGO DA SEMANA

Strauss-Kahn e Abdelmassih: a diferença

Vitor Hugo Soares

“Vamos recordar”, como dizia Pacheco Filho, nobre e querido animador de rádio de um dos programas de maior audiência nas tardes baianas dos anos 60. Sucesso retomado por Pacheco décadas depois nas tardes de domingo na Radio Metrópole (a convite de Mário Kertész), até a morte que calou uma das vozes e nomes mais marcantes da história radiofônica da Bahia e do País.

Em Nova Iorque, há exatamente uma semana, o francês Dominique Strauss-Kahn, chefe do FMI e um dos homens mais poderosos do planeta, foi detido dentro de um avião no Aeroporto John F. Kennedy. Já estava instalado na poltrona de Primeira Classe do aparelho da Air France que se preparava para voar até Paris, no continente europeu, do outro lado do Atlântico e, provavelmente, fora do alcance do braço da polícia e, principalmente, da justiça americana.

O que se veria a seguir, em vertiginosa e espantosa sucessão de fatos e imagens de uma das mais espetaculares coberturas de mídia já realizadas nos Estados Unidos e na França – mas também no resto do mundo, incluindo o Brasil -, é algo incomum. Mesmo nos filmes e romances de ação, suspense e aventura mais extraordinários.

Acusado de violentar uma camareira de luxuoso hotel novaiorquino, o homem mais temido dos países em crise financeira em busca de bóia de salvação – Portugal e Grécia, por exemplo – recebeu voz de prisão. Algemado, o político do Partido Socialista da França – nome preferencial das pesquisas para a sucessão de Sarkozy na eleição presidencial do ano que vem – foi retirado do avião e apresentado a uma juíza, que o mandou para a cadeia, diante de indícios robustos apresentados pela polícia.

Mas o salto do diretor do FMI do paraíso para o inferno estava apenas começando. Strauss-Kahn, que deveria participar na segunda-feira de uma reunião em Bruxelas, com ministros da União Europeia (UE), sobre a possível reestruturação da dívida grega, foi mandado pela juíza para o presídio de Rikers Islanda, não antes de ter sido formalmente acusado de sete crimes de caráter sexual.

Se condenado pela rígida e implacável lei americana em casos do tipo, o agora ex-diretor do FMI poderá ficar mais de 70 anos na prisão, se tiver tempo de vida suficiente para isso, obviamente. Quinta-feira, um dia antes do previsto, a justiça formalizou a acusação contra Dominique, para que ele responda nos Estados Unidos pelos crimes que lhe são imputados. Mas, mediante pagamento de fiança, milionária, permitiu que ele responda em liberdade. Com um policial permanentemente de plantão na porta do apartamento onde ficará em NY, além de um dispositivo eletrônico amarrado no calcanhar, para que possa ser localizado em caso de tentativa de fuga.

Mesmo com a polícia e a justiça fazendo tão rápido a sua parte, ainda é cedo para o desfecho do caso com tudo para virar em um dos mais rumorosos confrontos judiciais deste século em curso, além de desnudante e implacável embate de mídia, envolvendo veículos de comunicação norte-americanos e franceses.

Agora, trocando de caso, mas sem sair do assunto, uma pausa para rápido olhar e reflexão sobre o Brasil.

Em São Paulo, mais importante capital brasileira, vigoroso tambor de ressonância política, financeira e social do país – para o bem e para o mal – o médico Roger Abdelmassih foi preso pela primeira vez em 17 de agosto de 2009, acusado de ataques sexuais a 57 mulheres, pacientes internadas em sua clínica, uma das mais badaladas e caras na área de reprodução humana.

Em um dos maiores escândalos da medicina, da mídia e da justiça, o médico teve prisão preventiva decretada depois que as vítimas afirmaram ter sofrido ataques sexuais durante consultas. Os crimes haviam sido denunciados pela primeira vez ao Ministério Público em abril de 2008, por uma ex-funcionária do médico.

Poupo os leitores de detalhes escabrosos do caso, porque o relevante aqui é lembrar que em agosto de 2008 – três meses depois -, Abdelmassih foi intimado pelo Ministério Público a depor, mas não compareceu, e, a partir daí, o caminho da impunidade, ao contrário do que acontece agora com Strauss-Kahn, foi sendo alargado com o passar do tempo.

Resumo: Julgado e condenado, à revelia, a 278 anos de prisão por crimes sexuais, o médico está foragido da Justiça desde janeiro deste ano. Abdelmassih é acusado agora de crimes ainda mais terríveis: ter gerado bebês com espermatozóides de outros homens e de ter vendido óvulos de outras mulheres a pacientes que queriam engravidar. E segue a roda brasileira, com o tempo a serviço do crime e da impunidade.

Para concluir o texto sobre histórias exemplares no Brasil e nos Estados Unidos, um comentário postado no Bahia em Pauta (blog que edito em Salvador) pela jornalista baiana Rosene Santana, que levou três anos estudando em Harvard e conhece como poucas a realidade de lá e de cá:

“Por trás da notícia (da prisão do diretor do FMI), um detalhe que não pode escapar. Camareira de origem africana denuncia um figurão por estupro e a polícia tira o figurão de dentro de um vôo da Air France. Só mesmo nos EUA. Imaginem uma cena dessas em hotel de luxo em Salvador… A camareira, seguramente, seria chamada de prostituta, a polícia a ameaçaria, a acusaria de fraude e o figurão estaria em Paris posando de civilizado. Em São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Argentina, Uruguai, Chile etc e etc, abaixo do Golfo do México a coisa não seria diferente. Até quando?”, pergunta Rosane.

Responda quem souber.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: vitor-soares1@terra.com.br

maio
07


Lucas Mendes comanda bancada do
Manhattan Conection em Nova Iorque
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ARTIGO DA SEMANA

Do Manhattan Connection à morte de Bin Laden

Vitor Hugo Soares

“Domingo pede cachimbo”, ensina o ditado aprendido no tempo em que na Bahia se amarrava cachorro com linguiça, segundo os versos inspirados de Gilberto Gil em “Ladeira da Preguiça”. Alérgico a fumaça, dispenso o conselho. Viciado em jornalismo, prefiro ligar a televisão para esperar o sono na quase madrugada, mas ainda a tempo de receber impacto demolidor de uma das mais aguardadas notícias em quase uma década: “O terrorista Osama Bin Laden está morto”.

Agora vamos por partes, que o caso é mesmo de causar insônia das brabas ainda por muito tempo e requer cuidados especiais no tratamento factual e opinativo.

No passado domingo, já na cama, peguei no controle remoto e sintonizei no canal privado “Globo News”. No horário, o jornalista Lucas Mendes comandava de Nova Iorque a sua equipe internacional no programa “Manhattan Connection”, transmitido de um estúdio com vista espetacular para o espaço onde antes se erguiam imponentes um dos principais cartões postais da “Big Apple”: as Torres Gêmeas” (lembra o apresentador, apontando com visível deslumbre para o novo esqueleto das torres em reconstrução diante de seus olhos), destruídas pelo mais medonho, incrível e espetacular ataque terrorista de 11 de setembro, prestes a completar uma década.

“Manhattan Connection”, como se sabe, é uma fonte semanal sempre borbulhante de notícias, opiniões, polêmicas e arrelias desde a origem, no tempo do jornalista Paulo Francis, seu histórico e mais brilhante participante. Dá para esperar quase tudo e sempre algo provocador, a exemplo do que aconteceu há poucas semanas, quando Caio Blinder, em geral um dos mais recatados e ponderados participantes da mesa de Lucas em NY, resolveu chamar a rainha Rania, da Jordânia, de “piranha”.

Confesso que esperava domingo passado algum novo desdobramento do caso, que resultou em grave entrevero diplomático, desde que o governo jordaniano, através de seus representantes em Brasília, segue fazendo carga e sérios reparos éticos e profissionais à condução do programa do canal brasileiro de TV.

Sabe-se que o Rei da Jordânia ainda aguarda pedidos de desculpas formais e oficiais pelas ofensas à rainha, por considerar insuficiente o mero reconhecimento do erro ou da “falha nossa”, como já feito no programa seguinte por Blinder e Lucas Mendes.

Manhattan Connection é um exitoso e prolongado “cult” da televisão brasileira. Amado irrestritamente pela intelectualidade de classe média, mas odiado até o fundo da alma pela poderosa turma da “esquerda do povão”. Domingo, porém, o programa caminhava inseguro sobre palafitas.

Mas seus participantes se esforçavam para segurar a fama e manter a tradição. A impressão era de um programa tocado “por aqueles jornalistas boêmios e fumantes inveterados, de instinto implacável, que povoavam as redações há poucas décadas”.

As aspas são do livro “Periodismo de calidad: debates y desafios”, que traz vários textos de destacados profissionais de imprensa da América Latina, que descobri em uma livraria na mais recente visita a Buenos Aires. Desconheço se existe edição em português, mas o recomendo com ênfase, mais ainda nesta estranha e confusa quadra do jornalismo brasileiro e mundial.

Tendo como universo de análise as redações, o livro assinala que toda redação se debate hoje entre duas forças, que para efeito de identificação são chamadas de “os clássicos” e os “modernos”. Os clássicos são aqueles boêmios, e acreditam que o talento do jornalista de sangue puro e tradição é suficiente para manter aceso o fogo sagrado do ofício. Os modernos acreditam que a tecnologia e o mercado chegaram para aumentar e melhorar exponencialmente o exercício da profissão.

Da teoria para a prática: de frente para o sitio das antigas Torres Gêmeas, a bancada do Manhattan Connection discutia já na quase meia noite de domingo, a qualidade e perfeição do caimento das camisas sociais vendidas em certa loja bacana de Nova Iorque.

De repente, não mais que de repente, o corte brusco que tira do ar o programa comandado por Lucas Mendes. A imagem voa do estúdio na Big Apple para a redação brasileira onde está instalado o comando da Globo News. Aparece então o jovem repórter com a bomba em forma de notícia: “O terrorista Osama Bin Laden está morto”, diz o âncora do horário, sem esquecer de dar o devido crédito pela informação à CNN americana.

Depois é o que se sabe pela repercussão transcendente de um fato jornalístico de tirar o sono e o fôlego, com poder de fogo ainda para muito tempo e desdobramentos ainda imprevisíveis e cercados de dúvidas.

Quanto ao Manhattan Connection, não mais voltou ao ar domingo passado. Mas, como dizia aquele prefeito baiano na publicidade de TV sobre seu município: “Domingo que vem tem mais”.

A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista- E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

O liberal peruano Vargas Llosa, Nobel de literatura…

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…Recomenda voto no esquerdista Ollanta no segundo turno

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ARTIGO DA SEMANA

PERU À MODA BRASILEIRA

Vitor Hugo Soares

Tento encontrar uma explicação para o interesse especial que desperta, no jornalista da baiana e desgovernada cidade de Salvador, na beira do Atlântico, o processo eleitoral para a escolha do novo presidente do Peru, que incendeia políticos, empresários, marqueteiros e multidões lá na costa do Pacífico.

Um incêndio – diga-se – com notórios toques à moda brasileira de política e marketing, que grassa na campanha já em seu segundo e decisivo turno na capital Lima e em todo território onde no passado se ergueu a Civilização Inca no continente latino-americano.

No entanto, há quase total desinteresse dos vizinhos brasileiros, cuja mídia prefere apostar praticamente todas as suas fichas nas narrativas das picuinhas de Brasília, ou na cobertura embasbacada, faustosa, acrítica e alienante do casamento do príncipe com a plebéia em Londres, megaevento que tenta dar uma mãozinha para tirar o Reino Unido de uma de suas mais severas crises política e econômica.

O interesse e a paixão particular começou nos primórdios dos anos 70, mas não nasceu no Peru, como se poderia imaginar, pois lá nunca estive, apesar dos muitos sonhos e planos de viagens para Lima e Machu Pichu, que jamais deram certo, desde a juventude rebelde e militante na Bahia.

A fagulha se acendeu bem depois de ter escutado, com emoção, pela primeira vez, Caetano Veloso interpretar a canção peruana “La Flor de la Canela” – cuja origem e procedência eu desconhecia então. Aconteceu quando era repórter do sucursal do Jornal do Brasil, em Salvador, em uma das primeiras estadas na Argentina, na companhia de um casal de queridos amigos pernambucanos (Samuel e Veraci ).

Resolvemos entrar em uma daquelas fantásticas lojas de discos de Buenos Aires, na florescente e livre Avenida Corrientes, no tempo em que o Brasil atravessava uma das fases mais fechadas e truculentas da ditadura implantada em 64.

“Vocês não conhecem esta cantora no Brasil?”, perguntou a surpresa vendedora ao ver a nossa reação de desconfiança quando ela mostrou e sugeriu com entusiasmo o disco intitulado “Chabuca Granda – voz e vena de América”.

Pedimos então para ouvir algumas faixas onde estavam gravadas, na insuperável interpretação da prória autora, algumas das maiores preciosidades musicais já produzidas no continente e no planeta em qualquer tempo: “La Flor de la Canela”, já citada, “Fina Estampa” – que Caetano também gravaria mais tarde, em um de seus discos mais belos – “Señor Manuel”, “Ponte de los Suspiros” e “Quizas um dia Así” (entre outras), esta última, embora jamais gravada por ele, seguramente uma das fontes mais limpas onde o artista baiano, de Santo Amaro da Purificação, bebeu.

O efeito foi imediato, como injeção na veia. Comprei aquele e todos os discos de Chabuca que encontrei naquela loja portenha e em outras por onde passei depois. E aí está explicada a origem da minha paixão peruana e do forte interesse que me desperta o debate atual sobre o destino político dos conterrâneos da saudosa e imensa artista que sigo escutando.
.
A recordação me leva a outra situação que liga umbilicalmente Brasil e Peru atualmente: lá e cá o povão não pára de surpreender. Está sempre a dar nó em muitas cabeças. E não só na de políticos e bem pensantes intelectuais brasileiros, como se tem visto nos acirrados debates e bate-bocas, desde que FHC publicou a sua polêmica receita para reanimar a combalida oposição no Brasil. Agora, petistas e tucanos, ex-amigos e aliados do ex-presidente em outras batalhas, tentam transformar o ex-príncipe dos sociólogos em sapo sem barba da política nacional.

Em meio ao bafafá brasileiro, o Peru divulgou o resultado da votação em primeiro turno nas eleições presidenciais. E lá está o povão outra vez dando dribles desconcertantes e aprontando das suas até para Vargas Llosa. O escritor notável, premiado com o mais recente Nobel de literatura , quando o assunto é a política de seu país – a exemplo do brasileiro FHC – tem dado topadas de estudante de escola primária.

No primeiro turno, os peruanos afastaram da disputa, de uma só tacada, os três candidatos de discurso liberal, mais ao gosto da classe média e das chamadas elites históricas e políticas do país. Na hora de decidir quem ditará os rumos da política e da economia do Peru, os centristas e liberais de todas as tonalidades estão obrigados a fazer a escolha que mais temiam e optar entre extremos: o esquerdista Ollanta Humalla (o preferido da rodada inicial, com 31% dos votos) e a direitista Keiko Fugimori (pouco mais de 21%, na segunda colocação), mas que acredita em uma virada na hora do vamos ver.

Quando as urnas colocaram o país diante desta realidade inapelável, Vargas Llosa, que votou e fez campanha para o liberal Alejandro Toledo (quarto colocado entre os cinco candidatos no primeiro turno) gritou que estava fora, “pois isso é como escolher entre o câncer e a AIDS”

Há poucos dias, em entrevista à CNN no México, o Prêmio Nobel peruano deu meia volta no discurso e propôs um apoio “exigente e crítico” para o esquerdista Ollanta Humala. Em artigo publicado na edição dominical do jornal espanhol “El País”, Llosa assinalou que votar em Humala implica um risco “para todos que defendem a cultura da liberdade”. No entanto, o autor de “Pantaleão e as Visitadoras” destacou o fato de Humala ter moderado “de forma visível sua mensagem política” durante a campanha, distanciando-se do modelo autoritário de Hugo Chávez e aproximando-se do brasileiro Lula”. Vale arriscar um voto, acha agora Llosa.

Uma campanha à moda brasileira, já se vê, de resultados a conferir. Qualquer que seja, viva a peruana Chabuca Granda!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

abr
16


FHC recebe flechadas no Brasil e…
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…Mario Vargas Lhosa no Peru

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ARTIGO DA SEMANA

Llosa e FHC: sob fogo cerrado

Vitor Hugo Soares

Crivado de flechas impiedosamente – como o São Sebastião da música de Chico Buarque -, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso anda atônito e desolado. Sobre ele desabam saraivadas de críticas, partidas indistintamente de adversários e aliados. Entre estes (o que mais dói como dá para sentir nas reações de FHC) combatentes da primeira hora do PSDB – políticos e intelectuais de mais rica plumagem no tucanato brasileiro.

O mais espantoso: o fogo cerrado começou imediatamente depois do presidente honorário do PSDB produzir – em tempo de muita intriga e pensamento ralo e rasteiro – um dos mais brilhantes, completos e elevados textos políticos em forma e conteúdo sobre os descaminhos e equívocos das oposições no Brasil.

Aparentemente, uma única frase, que inclui a palavra “povão”, fez explodir toda a arenga: “Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os movimentos sociais ou o povão, isto é, sobre as massas carentes, e pouco informadas, falarão sozinhos”, escreveu Fernando Henrique Cardoso no ensaio “O papel da oposição”, produzido para a revista “Interesse Nacional”, que começa a circular esta semana.

Pronto, estava aceso o estopim de uma das maiores e mais ácidas polêmicas de que se tem notícia no País ultimamente. Pouca gente (petistas “e tucanos principalmente”, como se queixa o autor), pareceu interressada de verdade em seguir adiante na leitura do texto. Repita-se, escrito exemplar no estilo e conteúdo didaticamente elucidativo sobre métodos, estratégias e jeito de fazer oposição atualmente.

No Decálogo do Estadista, Ulysses Guimarães, o oráculo do antigo MDB, de cuja costela nasceu o PSDB de Fernando Henrique, ensina no sétimo mandamento: em política deve-se evitar ao máximo “proferir palavras irreparáveis”.

Se o termo irreparável for escrito e divulgado para milhões, então, tudo fica muito mais complicado e avassalador, pois obriga, algumas vezes, a uma das tarefas mais inglórias da comunicação: “o autor precisar explicar no dia seguinte o que escreveu na véspera para seus leitores”, como ensinava na redação do Jornal do Brasil e em seus livros preciosos de jornalismo, o saudoso editor nacional Juarez Bahia.

A Paciência é o sétimo mandamento do Decálogo do Estadista criado por Ulysses Guimarães. Parece ser esta a virtude que FHC precisará exercitar nos próximos dias – em lugar de tantas e tão dispensáveis explicações para alguém com sua biografia. Alem, é claro, de lamber as feridas, como o cão de São Roque ou de São Lázaro, para curar as chagas causadas principalmente pelo fogo amigo destes últimos dias.

Saber escutar é um dom político, pregava Ulysses: “A santa paciência de escutar! A misericordiosa paciência de ouvir os redescobridores da roda, os inventores da quadratura do círculo, os chatos ‘que não o deixam ficar só e não lhe fazem companhia’, como lamentava o filósofo Benedetto Croce”.

Paciência, principalmente, para lidar com “homens-moluscos”, que se moldam sofregamente à palma da mão dos poderosos da vez, aves de arribação de todas as tendências e partidos, que grassam como praga na política brasileira destes dias. A triste descoberta que FHC parece estar fazendo ao avaliar vários de seus companheiros, alguns meio trêfegos sempre, mas outros insuspeitos até aqui.

Agora, antes do ponto final, uma rápida passagem pela costa do Pacífico, por onde tem apanhado feio também nas últimas semanas o outro personagem desta crônica: Mario Vargas Llosa, doublé de fantástico escritor laureado com o mais recente Nobel de Literatura, e, ao mesmo tempo, apressado e agressivo guerrilheiro do liberalismo econômico e político na América Latina.

Derrotado como candidato na disputa presidencial que levou ao poder Alberto Fujimori e o Peru a uma das fases mais trágicas e deprimentes da historia, Vargas Llosa não teve a paciência necessária para deixar passar a mágoa pelo insucesso eleitoral. Retornou ao seu país – e isso é mais que justo e elogiável – para a campanha em curso, mesmo sem ser candidato. Veio com ganas de vingador de discursos ácido e palavras irreparáveis.

No primeiro turno, as eleições presidenciais tiveram um resultado inesperado para muita gente, mas principalmente para Vargas Llosa, considerado pela mídia, analistas e políticos aliados, como um dos maiores perdedores na etapa inicial. O Nobel votou declaradamente e fez campanha para Alejandro Toledo, o liberal ex-presidente que começou a campanha como o preferido em todas as pesquisas e acabou como quarto colocado na primeira volta eleitoral.

Vargas é flechado no Peru não por sua defesa do liberalismo, perfeitamente legítima, mas sim, apontam seus críticos, pelo fanatismo que respinga do seu discurso de palanque, o desprezo pelos adversários, e não raro pelos aliados também. “Se um mérito cabe atribuir ao liberalismo político – não ao econômico – é justamente a tolerância, virtude que Vargas Llosa parece desconhecer. Seu dogmatismo esquerdista da juventude, se transferiu para o outro extremo, sem sofrer alterações”, escreveu o crítico e ex-diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, Silvio Juan Maresca, em artigo publicado na prestigiosa revista semanal “Notícias”.

Resultado: vão disputar o segundo turno o candidato das esquerdas Ollanta Humala (mais votado no primeiro turno) e a direitista Keiko Fugimori, filha do corrupto ex-presidente do Peru. Segundo Mario Vargas Llosa, “é como escolher entre o câncer e a AIDS”.

Palavras irreparáveis do político. Que viva o escritor Vargas Llosa!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Sergio Cabral: De Washington para a tragédia no Rio
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ARTIGO DA SEMANA

LIÇÕES A PESO DE OURO

Vitor Hugo Soares

Há poucos dias – quando ainda pensava e propagava, igual a tantos brasileiros adultos e “brasileirinhos”, que massacres em escolas, como os terremotos, eram tragédias impossíveis de acontecer no país tropical abençoado por Deus – estava na Argentina de tantos tremores e rumores, em manhã de 13 graus de temperatura e sol brilhante.

Realengo, naquele luminoso domingo portenho, lembrava apenas o simpático bairro carioca da letra do antológico samba “Aquele Abraço”, do baiano Gilberto Gil, composto na despedida do artista ao partir para o exílio em Londres. E o mundo naquela manhã, visto das margens do Rio da Prata, parecia uma quase completa maravilha.

Sentado em uma daquelas mesinhas de rua em frente ao Bar Dorrêgo olhava portenhos, ao lado de gente do mundo inteiro, passeando, comprando antiguidades preciosas, ou dançando tango na praça principal onde se realiza aos domingos a famosa feira do histórico bairro de Santelmo, em Buenos Aires.

Aproveitei a pausa entre “una copa de viño y otra” e a enésima audição do tango “Por una Cabeza”, de Gardel e Le Pera, para passar a vista rapidamente na edição dominical do jornal “Página 12” que havia comprado, num quiosque a caminho da mesa e do bom vinho do Dorrêgo.

E lá estava o Brasil presente na notícia do diário sobre a expectativa com que era aguardada uma palestra do ex-ocupante do Palácio do Planalto prevista para breve na importante província argentina de La Plata, “sobre como fazer uma crise com tamanho de tsunami nos Estados Unidos virar uma simples marolinha no maior país da América do Sul”.

Tomado de repente da virose de pessimismo e maledicência que outra vez grassa perigosa e predatoriamente em algumas áreas – principalmente em núcleos influentes da mídia e círculos intelectuais de classe média no País, antes mesmo do massacre da manhã de quinta-feira na escola pública do Rio de Janeiro – pensei: Lula parece que achou rapidamente um novo caminho para tocar e ganhar a vida de palestra em palestra.

Ou de conversa em conversa, para dar um tom mais informal e ritmo de samba brasileiro à questão. Em resumo, do jeitinho que o ex-presidente mais gosta e provavelmente pediu a Deus e aos orixás. “Pena que seu auditório vá ficar instalado na periferia do mundo, restrito aos manjados ouvintes brasileiros ou vizinhos da América do Sul – políticos e empresários principalmente”, foi o que imaginei de imediato naquela manhã portenha no bairro de Santelmo.

De volta ao Brasil, verifico através de fatos e imagens desta semana: o pensamento de alguns dias atrás corre o risco de estar redondamente equivocado. Em Washington, capital dos Estados Unidos, Luiz Inácio Lula da Silva estreou quarta-feira (véspera da tragédia brasileira em Realengo), o circuito de palestras internacionais que fará a partir de agora.

Na cidade emblemática das decisões políticas e econômicas mais importantes do mundo, Lula fez a palestra mais noticiada e concorrida do Fórum de Líderes do Setor Público da América Latina e Caribe, promovido pela Microsoft, de Bill Gates, poderoso empresário norte-americano, alvejado por severas críticas do palestrante em tempos recentes.

Lula foi convidado – e “pago a peso de ouro”, segundo a preocupação principal de seus críticos refletida nas pautas de boa parte da mídia nacional – para falar e dar lições sobre “como combater e vencer crises” a partir das ações que desenvolveu em diferentes áreas quando governava o Brasil.

Entre os participantes na conversa de Lula com gente grande e de poder nas Américas, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Este, retornou (ainda tonto e sem saber direito o que dizer e fazer) direto para o olho do furacão de uma das maiores tragédias brasileiras. Mas voltemos ao começo da conversa para evitar desvios no final.

Leio que depois da passagem por Washington, o ex-ocupante do Palácio do Planalto seguiu para o cinematográfico balneário de Acapulco, no México, para ser conferencista de destaque em encontro de endinheirados homens de negócios do setor financeiro internacional, também alvo de críticas do brasileiro no auge da crise dos Estado Unidos e de vários países europeus.

Na semana que vem o ex-presidente segue para o Reino Unido, que também namora com a crise há um bom tempo, sem achar saída. Em Londres vai falar igualmente para empresários. E assim, enquanto boa parte da mídia concentra baterias de pautas na especulação sobre quanto Lula ganha por cada uma de suas palestras, ele vai fazendo sucesso ao levar suas lições a qualquer lugar do mundo que quiser ouvir e puder pagar. Por volta de R$ 200 mil – segundo espalham alguns, tomados de mal disfarçada inveja. “A peso de ouro”, preferem murmurar alguns críticos e adversários de bico grande, sem adiantar cifras.

Seja como for, difícil não imaginar diante dos fatos (e dos boatos): o futuro próximo parece sorrir e prometer dias de Midas para o antigo retirante da seca do Nordeste, passageiro de caminhão pau-de-arara, depois ex-dirigente sindical da região paulista do ABC que alcançou o posto mais alto de poder pelo voto em seu país e que agora – exageradamente ou não – dá a impressão de querer escalar o topo do mundo.

Resultado a conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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