Karman: jornalista Nobel da Paz luta contra a corrupção
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ARTIGO DA SEMANA

Mulher(es) e jornalista da Paz

Vitor Hugo Soares

Para um mundo em tumulto e à beira de um ataque de nervos – de Jerusalém a Wall Street – a semana não poderia terminar da maneira mais surpreendente e promissora. O Comitê sueco do prêmio anunciou nesta sexta-feira, histórico sete de outubro, a distribuição em partes iguais para três mulheres, do tão emblemático quanto cobiçado Nobel da Paz em sua edição 2011.

O Nobel vai para as liberianas Ellen Johnson-Sirleaf (pacifista e primeira mulher eleita presidente de um país da África) e Leymah Gbowee, parceira da mesma luta humanitária. A terceira laureada é a ativista iemenita Tawakkul Karman, brava criadora do movimento “Mulheres Jornalistas sem Cadeias”, líder da luta não violenta “em favor da segurança das mulheres e dos seus direitos de participarem no processo de paz”.

Aí está uma boa notícia. Plena de relevância e simbolismos em qualquer lugar do planeta e sob qualquer ângulo de observação ou enfoque. Do ponto de vista jornalístico, então, é um fato tão significativo quanto transcendental. Isto já é possível perceber (mais em algumas regiões que em outras) pelas primeiras e intensas repercussões internacionais.

De Salvador, capital da Bahia – chamada por alguns de Roma Negra brasileira -, confesso o impacto no peito e o desejo de gritar um “viva” a pleno pulmão quando ouvi antes do café da manhã a informação através da Rádio Metrópole, no programa jornalístico apresentado pelo âncora e ex-prefeito de Salvador, Mario Kertész.

Temeroso de um mico ou alguma decepção no futuro, a exemplo do acontecido no ano passado, quando o Nobel da Paz foi parar nas mãos do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, consegui conter o grito de entusiasmo na hora H. Mas, ainda assim, não resisti de todo: antes de começar a escrever estas linhas, levantei da cadeira e bati palmas. Sozinho na sala do apartamento, aproveitando que a minha mulher, Margarida, também jornalista de antigas e mais recentes batalhas pelo jornalismo, pela liberdade plena de expressão e pelos direitos humanos, havia saído para apanhar um objeto qualquer no quarto, antes de ir para o supermercado, em meio a reclamações contra a inflação, “que anda insuportável em Salvador”. Imagino como deve ter sido no supermercado, mas isso é outra história…

Sei que as três laureadas pelo Comitê do Nobel merecem aplausos em igualdade. Seria hipócrita de minha parte, no entanto, não dizer: senti uma alegria especial, e mesmo um certo orgulho particular, com a premiação de minha distante colega de profissão do Iémen.

Confesso uma ponta de surpresa também com descobertas sobre a laureada à medida que vou recolhendo aqui e ali pedaços de informações dispersas sobre a vida e a atuação de Tawakkul Karman.

A primeira e mais surpreendente para mim, o fato de que ela é uma profissional de jornalismo, carreira muitas vezes tida como ninho de egos e vaidades sem tamanho, formada por gente egocêntrica e que não raramente parece carregar o rei na barriga. Ideias sintetizadas na comparação clássica com os profissionais da Medicina, que li pela primeira vez em livros na biblioteca da Escola de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia, onde me diplomei: “o médico imagina que é Deus, o jornalista tem certeza”.

No caso da colega vencedora do Nobel, o que se observa é uma invejável doação pessoal na defesa generosa de causas coletivas tão fundamentais: a paz associada aos direitos de liberdade das mulheres. Ambas tão violentamente agredidas nas regiões onde vivem e lutam as três “guerreiras da Paz” – a denominação vejo na edição online de um jornal de língua espanhola, em reportagem sobre as ganhadoras do Nobel.

Mãe de três filhos, Karman criou o grupo “Mulheres Jornalistas sem Cadeias” em 2005, para defender em primeiro lugar a liberdade de pensamento e expressão. A partir desta iniciativa começou a receber ameaças de morte e ofertas de corrupção por telefones e mensagens postais, partidas muitas delas – nos dois casos – de autoridades governamentais.

Ainda assim, ela denunciou proibições a um jornal e uma rádio, partidas do Ministério de Informação em seu país. Desde então, o pensamento e a ação pacifista da jornalista do Iémen começou a ser percebida e acompanhada mais de perto em regiões democráticas do planeta. De 2007 a 2010, Tawakkul Karman participou ativa e intensamente das manifestações na Praça da Liberdade de Sanaa, capital do Iémen, apesar da violenta repressão do governo. Na revolta iemenita do ano passado, ela organizou as assembleias estudantis nos protestos contra o ditador Ali Abdullah Saleh e seu regime. Por isso, Karman foi presa em 24 de janeiro, e solta em seguida. Convocou então um “Dia de Protesto”, em fevereiro, que a levou novamente à prisão.

Tem mais, mas não conto, não só por questão de espaço, mas na tentativa de despertar o interesse de mais gente para conhecer mais sobre a vida e ação desta mulher e jornalista tão meritoriamente premiada com o Nobel da Paz.

Aproveito as últimas linhas para uma sugestão e um apelo: Que na Marcha contra a Corrupção marcada para Brasília, Salvador e outras cidades brasileiras neste feriado de 12 de outubro, os nomes destas três mulheres notáveis sejam lembrados. Em especial o da colega iemenita, que tem tudo a ver com a pauta do protesto brasileiro. Que tal uma faixa ou uma flor para Tawakkul Karman?

Todos nas praças.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Eliana Calmon: voz firme contra a impunidade

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ARTIGO DA SEMANA

­ Peluso x Eliana: encruzilhada do Judiciário

Vitor Hugo Soares

De repente, não mais que de repente, como no poema de Vinícius de Moraes, uma imensa onda de protesto se formou e espalhou-se rapidamente pelo País. Tudo isso a partir da ameaça da cúpula do judiciário brasileiro – à frente o presidente do STF, Cézar Peluso – de retirar poderes do Conselho Nacional de Justiça, comandado pela corregedora Eliana Calmon, de punir juizes que cometem crimes e tentam se esconder sob a toga.

Tão de repente como tudo começou, a vaga poderosa – a ponto de melar reputações e ameaçar de afogamento muita gente de anel de brilhante vermelho no dedo – dá a impressão de amainar, antes de completar uma semana.

A Corte Suprema fez um recuo estratégico. Desistiu de julgar na quarta-feira, como previsto, ação corporativa movida pela Associação dos Magistrados Brasileiros, destinada a retirar poderes do CNJ – e assim constranger e jogar para escanteio a corregedora em sua firme e corajosa ação de combate à impunidade.

“O momento não é adequado. Vamos deixar até que os fatos sejam mais esclarecidos”, sintetizou o ministro Marco Aurélio Mello, relator da ação da AMB, ao explicar o adiamento do julgamento que assumiu características cruciais para o próprio futuro do Supremo, conforme alertou o senador gaúcho Pedro Simon (PMDB) em entrevista à revista digital Terra Magazine.

No dia seguinte, quinta-feira, o STF aceitou denúncia contra o deputado Paulo Maluf na ação que acusa o ex-governador de São Paulo e seus familiares de crimes contra os cofres do Estado e de “extraviar” a dinheirama para bancos estrangeiros.

Diante de tais fatos, os franceses provavelmente apelariam para uma de suas frases mais irônicas: “Honni soit qui mal y pense” (amaldiçoado quem pensar mal destas coisas). O ex-presidente francês Charles de Gaulle preferiu fazer avaliação mais dura em uma de suas frases mais famosas…

No blog Bahia em Pauta, que edito há alguns anos em Salvador, a jornalista Rosane Santana, mestre em História pela Universidade Federal da Bahia e com passagem relativamente recente pela conceituada Harvard, nos Estados Unidos, postou comentário sobre estes dois assuntos que dominaram a semana.

Por considerá-las oportunas, reproduzo as palavras de Rosane, postadas esta sexta-feira (30) no blog baiano: “Efeito perfeito: sai das manchetes o affair STF x Eliana Calmon. Entra Maluf. Reviravolta total. A que prestam-se as manchetes de jornais? A percepção do STF agora fica positiva. Quem não quer ver Maluf condenado?”, diz a jornalista e mestre em História.

Ateu que acredita em milagres rogo piamente para que a previsão da competente jornalista e mestre acadêmica não se concretize, embora um demônio sopre em meus ouvidos que ela está carregada de razão. Enquanto isso, vale recordar aqui uma questão relevante exposta em frase também emblemática da ministra corregedora do CNJ na polêmica entrevista à Associação Paulista de Jornais, mas relegada a segundo plano, no noticiário dos dias seguintes, tal o barulho hipócrita que se formou com a exposição pública pela corajosa magistrada dos “bandidos de toga” que proliferam no País.

“Sabe que dia eu vou inspecionar São Paulo? No dia em que o Sargento Garcia prender o Zorro. É um Tribunal de Justiça fechado, refratário a qualquer ação do CNJ e o presidente do STF é paulista”, afirmou a ministra Eliana.

Aí está uma questão que cobra respostas esclarecedoras e convincentes da cúpula do judiciário brasileiro, em lugar de pressões injustificáveis, corporativistas, indevidas e acima de tudo baseadas em pura hipocrisia.

Para terminar, vale lembrar ainda trechos do artigo que escrevi sobre esta exemplar magistrada baiana de quem tive a honra de ser contemporâneo na Faculdade de Direito da UFBA, publicado neste espaço com o título: “Eliana Calmon: quem é esta mulher?”, na época da Operação Navalha.

“Como na canção de Joyce e Ana Terra, que a voz de Elis Regina consagrou, esta questão não comporta uma resposta ligeira ou simplificada, a exemplo do que se vê e escuta aqui e ali. A ministra Eliana não é uma unanimidade, como se percebe em depoimentos destes últimos dias. Nem ela acalenta o tipo de pretensão que Nelson Rodrigues considerava burrice…

…Movimenta-se, como se espera de um magistrado, com discrição, firmeza e o indispensável conhecimento da lei e do processo. Virtudes raras no terreno minado em que vicejam nulidades, intrigas, egos inflados, vaidades escancaradas – além de atitudes suspeitas ou abertamente indignas como se tem visto nas últimas semanas. Seu nome: Eliana Calmon Alves. Seu posto: ministra do Superior Tribunal de Justiça.” Assino hoje as mesmas palavras sobre a digna e brava corregedora do CNJ.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Miss Universo em São Paulo…
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…Sarney e o novo ministro em Brasília
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ARTIGO DA SEMANA

Leila Lopes: lições da Miss Universo

Vitor Hugo Soares

A turma políticamente correta de plantão que me perdoe, mas devo registrar neste espaço de opinião a quem possa interessar: fiquei acordado até altas horas na madrugada da segunda para a terça-feira, ligado na transmissão do concurso Miss Universo, feita de São Paulo pela TV Band para milhões de espectadores no Brasil e no mundo inteiro (sim senhor!).

Um evento pela primeira vez realizado no Brasil e cujo resultado foi histórico: a vitória da representante de Angola, Leila Lopes, na festa da beleza mundial. Não me arrependo um segundo sequer do sono perdido. Afinal, é isso que me permite afirmar agora: poucos fatos jornalísticos foram tão importantes e merecedores de repercussão esta semana, apesar do estranho pouco caso dispensado ao assunto pela maioria da imprensa brasileira. Principalmente, as redes mais poderosas de televisão – salvo evidentemente a própria Band, uma das promotoras do concurso de beleza.

Um acontecimento exemplar destes dias de setembro. Tanto sob o ponto de vista da própria magnitude da festa social em si e dos recursos dispensados em sua realização e cobertura (humanos, técnicos e financeiros), mas também quando analisado como fato relevante de comportamento e indiscutível significado social e político. Em alguns países, é verdade, bem mais que em outros.
Considero-o tão ou mais expressivo e digno de registro, análises e suíte de repercussão, quanto o surpreendente recorde (?) conseguido esta semana pelo governo da petista Dilma Rousseff – cada vez com mais forte coloração peemedebista e influência do senador Jose Sarney e do vice-presidente, Michel Temer: seis ministros atirados pelas vidraças do Palácio do Planalto antes da administração completar nove meses. Um deles, membro do PT, conseguiu na Pesca um abrigo de consolação.

Pode contar, usando agora os dedos das duas mãos. E pelo bafafá da surda guerra interna de poder, o efeito dominó pode não parar na surreal pedra (estorvo talvez fosse uma expressão melhor) representada pelo ex-ministro do Turismo, cuja escolha do substituto parece tão estranha e sem sentido quanto a indicação inicial. Pelo menos para os interesses do turismo nacional e elevação da capacitação técnica e ética da equipe do primeiro escalão do governo, tão apregoada pela presidente.

E para não perder o foco jornalístico do começo destas linhas, voltemos ao concurso de Miss Universo. À noite da consagração de Leila, uma cinematográfica Miss Angola, nascida em Benguela e residente em Londres, onde estuda Administração e Gestão Empresarial. A partir desta semana ela passou a ter residência oficial e tratamento de estrela em New York, o que destaca a relevância atribuída à sua escolha como máxima representante e embaixadora da beleza mundial.

Foi uma noite e um dia seguinte para não esquecer. E não apenas para as moças concorrentes (em geral moldadas no padrão de qualidade internacional para miss desenvolvido na Venezuela); os organizadores do concurso de beleza e as poderosas empresas multinacionais de olhos no atraente filão publicitário que o evento representa.
Além do enorme interesse do público (apesar dos preconceitos de tantos), incluindo países do porte dos Estados Unidos, que teve uma de suas mais importantes redes de TV associada à Band na transmissão do evento monumental na capital paulista. No caso do Brasil, basta registrar que a Rede Band praticamente dobrou a sua audiência na noite de segunda e madrugada de terça-feira.
Uma festa de arromba, de encher os olhos desde o início. Um final eletrizante e surpreendente de fato, e não apenas na retórica bombástica comum nas coberturas de eventos do gênero. No palco, na plateia do Credicard Hall, e na frente dos aparelhos de TV no Brasil e em inúmeros países mais. Nervos alterados, tensão à flor da pele, angústia, muita beleza de todo lado.
No fim o veredicto do júri, momento mais esperado e definitivo: Miss Angola, Leila Lopes, bela, lúcida e carismática africana de 25 anos venceu o Miss Universo 2011, em sua 60ª edição. Muita gente – incluindo este jornalista – acreditava que a angolana ficaria entre as cinco finalistas. Poucos, no entanto, salvo alguns de seus conterrâneos presentes no auditório da grande festa, apostavam que ela levaria o cetro para Luanda.
“Mas a espigada e bela morena Leila Luliana da Costa Vieira Lopes, 25 anos, se converteu de forma contundente na primeira angolana coroada como a primeira e mais bela do universo”, registrou com entusiasmo e pontada de inveja um jornal da Venezuela, país onde o concurso sempre obtém espaços generosos.
Mas Leila Lopes além de tudo, fez história no Brasil, porque desde 1999 a organização do Miss Universo não tinha uma soberana negra. A última foi Mpule Kwelagobe, de Botswana, que curiosamente herdou o cetro de outra beleza de ébano, Wendy Fitzwilliams, de Trinidad y Tobago, registrou ainda o jornal latino-americano.
A Folha e outros grandes jornais brasileiros abriram espaços em suas edições online para o concurso e seu desfecho. Principalmente para a primeira e reveladora entrevista da vencedora. “Meu sorriso contagia as pessoas e mostra minha personalidade. Sou alegre e consegui mostrar que sou divertida”, disse a Miss Universo 2011″. Sobre algumas reações racistas à sua vitória, principalmente na Internet, Leila foi contundente e definitiva como sua beleza: “Racismo não me atinge. Os racistas, sim, devem procurar ajuda, porque não é normal uma pessoa pensar assim no século 21”.

Bonita e justa escolha. Feliz reinado para a angolana Leila Lopes, desde terça-feira a incontestável número um entre as mulheres mais belas do planeta.

Vitor Hugo Soares é jornalista.
E-mail: vitor_soares1@terra.com.be


Lula com Cristina no velório de Néstor Kirchner
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ARTIGO DA SEMANA

Tango brasileiro para Cristina

Vitor Hugo Soares

Em fevereiro deste ano, um mês depois da festa da posse da presidente Dilma Rousseff, o carnaval fervia no Brasil. Nos camarotes mais badalados, frequentados por empresários, políticos e “celebridades” no circuito Barra-Ondina, em Salvador, e no sambódromo na Avenida Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, já rolava a pergunta da hora: “E agora, fora do Palácio do Planalto, o que o ex vai fazer”?

No mesmo período, metido em um daqueles táxis pintados em tonalidades fortes de preto e amarelo, uma das marcas da cidade para o visitante, eu cruzava Buenos Aires a caminho do hotel onde estava hospedado, na Calle Lima. Por puro vício profissional, mal percebia a linda paisagem da ensolarada tarde portenha à minha frente. Da janela do automóvel, preferia olhar curioso para os inumeráveis quiosques de jornais e revistas ao longo das largas calçadas.

Na verdade, andava atraído principalmente pela capa sensacional de “Noticias” daquela semana. Lá estava, em formato de esfinge, o retrato da presidente Cristina Kirchner em seus primeiros ensaios explícitos com vistas à conquista do segundo mandato na Casa Rosada. A chamada de capa para a reportagem naquela edição dos “140 dias da presidente vestida de negro”, não escondia as suspeitas sobre a utilização marqueteira do luto como arma na caça ao voto: “El Extraño Luto de Cristina”. Dispensa tradução.

Escrevi sobre isso neste espaço ao retornar da viagem. No princípio, porém, tudo parecia muito distante, diga-se a bem da verdade factual. “O projeto de bis da viúva Kirchner no poder” mostrava-se um desafio considerado quase inatingível antes da morte repentina do marido ex-presidente, até mesmo para muitos aliados históricos do justicialismo peronista. Diante de resultados eleitorais e de pesquisas mais recentes, a empreitada parece agora “um passeio por Olivos” até para adversários mais ferozes e competitivos.

Um deles, o prefeito Mauricio Macri, de Buenos Aires, citado na grande imprensa argentina como praticamente imbatível há menos de um ano. Este até já entregou os pontos, atropelado pelo fiasco de sua administração à frente da cidade-vitrine da América do Sul.

O liberal e moderado Ricardo Alfonsín, atualmente considerado o mais competitivo candidato da oposição para as eleições presidenciais de 23 de outubro próximo na Argentina, ameaça igualmente “jogar a toalha” antes mesmo do primeiro “round”. Domingo passado, o filho do saudoso e eticamente modelar ex-presidente Raul Alfonsin, reconheceu ser quase impossível ganhar da presidente Cristina Kirchner, vencedora nas recentes primárias gerais com 50,20% dos votos.

E estamos de volta ao táxi que segue sem muita pressa pelas ruas da estupenda metrópole latino-americana, capital do país cujo PIB neste ano de crise geral deve bater perto dos 10%. Outra vez recém saída do buraco e novamente florescente em suas monumentais avenidas em diagonal, descrita na letra de “Anclao em Paris”, o tango imortal no qual Carlos Gardel canta sua saudade desde o exílio francês em Montmartre.

Sem tirar os olhos das bancas de revistas, alimentava a conversa com o bem informado e politizado motorista que me conduzia. Tentava matar com as informações de que dispunha no começo do ano, a curiosidade do taxista, também voltada para o futuro do ex-presidente do Brasil, mas com um viés de interesse bem argentino: “Como vai Lula? Por onde anda? Será que ele vem dar uma ajuda na campanha de reeleição da viúva este ano?”.

O motorista, sem disfarçar a paixão de peronista histórico, seguidor de Nestor Kirchner depois do desastre do governo Menem “que quase sepultou de vez a Argentina”, lembrava com emoção as imagens da recente passagem do ainda presidente brasileiro pela cidade, no velório de Nestor Kirchner. Lula suspendeu sua participação em comício marcado para Recife, considerado crucial no Nordeste na reta decisiva da campanha de Dilma.

“Ele embarcou no Rio de Janeiro, onde se encontrava, e voou para abraçar Cristina no velório de “Pinguim” (Nestor Kirchner) na cena mais tocante transmitida ao vivo pela TV da Casa Rosada. Chávez, da Venezuela, também estava presente, mas os argentinos se apaixonaram pelo brasileiro”, conta o taxista, que insiste por uma resposta: “Ele vem ajudar Cristina?”

Na época – e isso contei em artigo neste espaço ao retornar de Buenos Aires no período do carnaval – , o ex-presidente mal iniciava sua nova fase de conferencista, em geral para empresários. Fiquei devendo uma resposta ao motorista de Buenos Aires.
Esta semana li reproduzida no Blog do Noblat matéria assinada pela repórter Janaina Figueredo, publicada originalmente no jornal O Globo. O texto informa que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitará Buenos Aires nos primeiros dias do mês que vem, na reta final da campanha para as eleições presidenciais do próximo dia 23 de outubro. Segundo a repórter, Lula participará de atos de campanha da presidente argentina.

A matéria acrescenta: “A presença de Lula, um dos políticos estrangeiros com melhor imagem no país, caiu como balde de água fria entre os opositores de Cristina. Já é difícil enfrentar uma candidata que obteve 50,20% nas primárias realizadas em 14 de agosto passado. A ajudinha do presidente brasileiro favoreceria ainda mais a candidatura de Cristina, que segundo analistas locais vencerá sem problemas a eleição no primeiro turno”.

Pode ser que tudo isso seja parte do que a candidata a senadora nacional pela Frente Popular, Hilda “Chiche” Duhalde, chama de “estratégia do kirchenismo de instalar nos eleitores a idéia de que Cristina Kirchner já ganhou”. Ela exorta os partidos de oposição a “incrementar os controles para evitar que a manobra se repita no pleito de outubro que vem”. Oposição de fato e pra valer é isso mesmo. Mesmo com o reforço prometido de Lula no palanque argentino, acredita até o fim, na hora da apuração dos votos.

Falta pouco para a hora de conferir quem de fato tem farinha no saco para vender na feira, como dizem os gaúchos ali pertinho da fronteira.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Ministro Negromonte e prefeita Ena:
Glória sob os olhares do País
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ARTIGO DA SEMANA

Glória, além de Negromonte

Vitor Hugo Soares

O ministro Mario Negromonte, das Cidades, é apontado há dias como bola da vez do encarniçado jogo de poder entre petistas e as demais correntes políticas e partidárias de “sustentação” do governo Dilma Rousseff. No meio do tiroteio, infelizmente, acabou sobrando balas para a cidade de Santo Antonio da Glória e seus habitantes. Território querido da minha infância à beira do Rio São Francisco, aparentemente condenado a pagar caro e injustamente pela segunda vez em sua história pelas omissões, desvios, preconceitos e intolerância de políticos e administradores públicos.

A primeira vez, nos autoritários anos 60/70, a antiga Glória foi submersa e retirada do mapa pelas águas do lago imenso formado pela barragem da Chesf, na construção da usina hidrelétrica de Moxotó, que, somada depois às de Itaparica, submergiram outras cidades e lugarejos tradicionais da Bahia e Pernambuco situadas à beira do rio da minha aldeia.

A título de “não impedir o crescimento do Nordeste e evitar o colapso no fornecimento de energia do sistema elétrico do País”, a gente de Glória foi transplantada entre choros, velas e procissões, para um balneário nas vizinhanças da cada vez mais próspera e bela cidade de Paulo Afonso. Esta, virou importante centro turístico da Bahia e modelo da engenharia nacional desde a construção da primeira hidrelétrica da Chesf – com seus canyons fantásticos, pontes, lagos e o Rio São Francisco a correr na tríplice divisa com Pernambuco e Alagoas, cenário mágico da novela “Cordel Encantado”, da Rede Globo.

A lendária terra de Corisco, que jamais permitiu que Lampião e seus cabras a invadissem, virou balneário de seu antigo distrito, a partir da inauguração da primeira usina da Chesf, erguida no governo de Getúlio Vargas e entregue em festa grandiosa por Café Filho em seguida ao suicídio do presidente gaúcho há 57 anos, no Palácio do Catete, Rio de Janeiro.

Morador da antiga Glória, cidade do coração, peço emprestadas as palavras escritas pelo jornalista Sebastião Nery na apresentação do livro “Rompendo o Cerco”, com o discurso notável de Ulysses Guimarães da janela da sede do antigo MDB, na praça do Campo Grande, no episódio dos cães amestrados açulados pela PM contra representantes nacionais da oposição em histórico 1º de Maio em Salvador: “Ninguém me contou. Eu vi. Estava lá”.

Assim posso afirmar: praticamente tudo é artificial na nova Glória, que anda no olho do furacão político destes dias em Brasília. Incluindo a “prainha” à beira do lago, de que fala a reportagem de duas páginas publicada na “Época”, esta semana. Em cada pedra das edificações é possível ver ainda as marcas da improvisação e falta de planejamento do balneário fabricado nas cercanias de Paulo Afonso (onde construiu residência o ministro Mario Negromonte e sua mulher, Ena Vilma, atual prefeita de Glória, “o canteiro de obras com dinheiro federal”, segundo a revista de circulação nacional).

Ali foi largada por década uma população retirada de seu lugar de origem, sem direito nem de discutir as novas moradias ou a justa indenização pelas perdas de propriedades e de vidas inteiras. Gente obrigada a deixar para trás o único lugar que conheci no mundo arborizado com frondosos tamarineiros gigantes e pés de umbu cajá, de aromas inesquecíveis, quando a brisa do rio que corria rumo à cachoeira famosa soprava infalivelmente nos fins de tarde, como os bandos de andorinhas pousadas nos fios da rede elétrica.

“Os dias eram assim”, como na canção de Ivan Lins, que Ellis Regina imortalizou.

Leio agora na manchete da reportagem da revista semanal, assinada pela repórter Isabel Clemente: “Glória está nas alturas”. No texto, o relato de maravilhas. Conta que até as placas de acesso à cidade estão tinindo de novas. O balneário na beira do Rio São Francisco está em reforma. Na “prainha” serão erguidos cinco quiosques, para os quais o Ministério do Turismo destinou quase R$ 1 milhão. Também custarão R$ 1 milhão “a ciclovia e a pista de cooper de 4 metros de largura, da entrada da cidade ao balneário”.

A reportagem informa mais: a mesma empresa executa as quatro obras feitas na cidade com dinheiro federal. A Praça da Juventude, projeto do Ministério dos Transportes, está orçada em R$ 1,5 milhão. “As verbas destinadas a Glória passaram incólumes ao corte de R$ 50 bilhões no Orçamento, que tirou R$ 8 bilhões do Ministério das Cidades”. “O segredo? A prefeita é a mulher do ministro das Cidades”, assinala a reportagem.

O texto registra que Ena Vilma, casada com o político que comanda o PP na Bahia, forte aliado do governador petista Jaques Wagner, dentista aposentada de 60 anos de idade, “é uma senhora esguia e alta. Seus cabelos bem cuidados e a maquiagem combinam com os óculos Chanel e a bolsa Louis Vuitton”. Enquanto Glória progride, o Ministério dos Transportes traz dissabores a Negromonte, acrescenta Época, ao registrar os conflitos de Negromonte com a bancada de seu partido, que abalroaram seu ministério, além do desconforto causado no Palácio do Planalto pela recente entrevista do ministro das Cidades ao jornal O Globo.

O governador Jaques Wagner, que esta semana esteve em Brasília, segundo o jornal A Tarde para conferir o termômetro , assegura que a queda de Negromonte “não é assunto no círculo mais próximo da presidente Dilma Rousseff”. Da última vez que o governador da Bahia fez uma afirmação parecida ao voltar de Brasília, o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, caiu no dia seguinte. Por enquanto, porém, o fato é que Negromonte parece balançar, mas ainda tem cordas para segurar.

Se cair, que isso não represente para o atual balneário de Paulo Afonso, o mesmo destino infeliz da Velha Glória e seus antigos habitantes, marcas de um período da civilização colonial do Brasil – o do Curral dos Bois, seu nome de origem – passagem obrigatória do gado que demandava para os sertões do Nordeste. Glória de Corisco, que resistiu a Lampião. Glória do Coronel Petronilo Reis e do ex-deputado Raimundo Reis, seu neto, escritor e saudoso cronista do cotidiano da Bahia. Glória do falecido ex-líder petroleiro Mario Lima, que ensinou sindicalismo a Lula.

Velha Glória sem culpa, mas condenada, morta e sepultada sob as águas da barragem de Moxotó.

Vitor Hugo Soares é jornalista- E-mail: vitor_soares1@ig.com.br

“Os Infiltrados”:lnvestigação sobre os espiões…

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… que vigiavam Dilma, Prestes e outros

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ARTIGO DA SEMANA

“Os Infiltrados” e Dilma Rousseff

Vitor Hugo Soares

Na sua passagem mais recente por Salvador, para rever a cidade – que anda meio perdida em labirintos de modernices e descontrolada sanha imobiliária – além de reencontrar amigos de antigos carnavais baianos que ela cultivou no Rio Grande do Sul em tempos temerários -, a arquiteta gaúcha Helga Corrêa me trouxe de presente um desses livros cada vez mais raros de encontrar em estantes de livrarias baianas: “Os Infiltrados”.

O livro de apenas 126 páginas é uma construção de jornalistas profissionais produzida por Carlos Etchichury, Carlos Wagner, Humberto Trezi e Nilson Mariano. Inspirado na série publicada pelo jornal Zero Hora, de Porto Alegre, no verão de 2010, “Os Infiltrados” pode e deve ser lido neste inverno confuso da política brasileira, em 2011, por vários motivos. Entre eles o prazer despertado pelos bons textos e as surpresas de cada página recheada do melhor jornalismo investigativo. Produto cada vez mais raro na época das operações tipo “prato feito” da Polícia Federal no estilo atirar (ou algemar) primeiro e perguntar depois, dos filmes de caubói americano.

Um exemplo é o capítulo no qual Dilma Rousseff – a presidente do Brasil posta esta semana no terceiro lugar do ranking das 100 mulheres mais poderosas do mundo da revista Forbes – vivia como militante de esquerda na capital gaúcha. Com o subtítulo “eles eram os olhos e ouvidos da ditadura”, o livro tem como ponto de partida “uma foto embolorada” de arquivo de jornal, caída por acaso nas mãos do premiado repórter Carlos Wagner, quando ele produzia reportagem sobre Trabalhadores Sem Terra (MST).

A imagem mostrava homens de chapéu de palha e sandálias de couro curtido acampados em um parque público “como se agricultores fossem, sorvendo mate à sombra de uma árvore”. Na vida real, como dizem os baianos, eram policiais em campana, disfarçados de trabalhadores rurais na linha de frente dos chamados conflitos de terra na virada dos anos 1970 para 80, no Rio Grande do Sul, berço da luta pela reforma agrária.

O resultado decorre do faro jornalístico, instinto investigativo, garra e competência profissional de repórteres especiais que se reuniram para apurar fatos escondidos a sete chaves em arquivos e porões poeirentos. “O cheiro da foto deu impulso à idéia de revelar pela primeira vez a face dos espiões da ditadura militar que assombrou o Brasil”, assinala Ricardo Stefanelli na apresentação do livro que reli ainda mais atentamente e surpreso esta semana de tumultos e dúvidas em Brasília e em vários estados do País, incluindo a Bahia.

Na verdade, o livro desvenda a trajetória do “agente policial infiltrado”, um personagem indispensável à sustentação da ditadura militar de 64 a 85 no Brasil (e de tantos outros regimes repressivos e prepotentes na América Latina no mesmo período, e em outros países do mundo atualmente). “Vinte e cinco anos depois de cumprida a missão secreta, eles rompem o silêncio a que foram obrigados, pela profissão, para contar como se introduziram nos movimentos de resistência ao regime autoritário. Pela primeira vez os espiões revelam como se transformaram em clones daqueles a quem deviam vigiar e sabotar, como estudantes, guerrilheiros, colonos sem terra, políticos, religiosos e sindicalistas”.

“São relatos exclusivos que agora (o livro saiu ano passado) se incorporam à História do Brasil”, destacam os editores gaúchos da obra. Um desses episódios está relatado em “Os Infiltrados” no capítulo intitulado “Olhos treinados vigiavam Dilma e Prestes”. Fala do período em que a volta dos exilado políticos ao País ainda era uma miragem, mas os espiões da ditadura não largavam o calcanhar dos perseguidos políticos, de Montevidéu a Paris.

Uma noite em 1979 na capital francesa, por exemplo, um público, formado por muitos banidos e jornalistas, assistiu a uma palestra. Ao microfone um dos mais famosos perseguidos pela ditadura militar, Luis Carlos Prestes, dirigente máximo do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e o primeiro da lista de cassados pelo regime militar de 1964.

O que ninguém sabia é que, dias depois da palestra em Paris, uma foto do evento chegaria às mãos do capitão Sílvio Carriço Ribeiro. Oficial da Brigada Militar, ele não usava farda. Trabalhava em roupas civis, a serviço do Departamento Central de Informações (DCI), o núcleo de operações secretas da Secretária de Segurança Pública do Rio Grande do Sul.

“Como a foto foi parar lá?”, perguntam aos autores no livro.

A resposta é dada em “Os Infiltrados” pelo próprio Ribeiro, hoje com 70 anos e aposentado, que abre o jogo no livro. Ele não tem certeza de quem a enviou. Sabe apenas que desde Paris “alguém avisou a comunidade de informação – como gostam de ser chamados os policiais que atuavam para o regime militar – da reunião de comunistas brasileiros”.

Aponta, também, que a foto pode ter sido obtida em uma das inúmeras vezes em que a polícia política deu batidas e fez buscas no Coojornal, veículo ao qual Prestes deu entrevista exclusiva pouco antes de retornar ao Brasil, depois de 15 anos de exílio. O fato, revela o livro, é que a fotografia está numa pasta guardada com carinho por Ribeiro.

Entre os vigiados da mesma operação estava a atual presidente da República, a terceira mulher mais poderosa do mundo, segundo a revista americana, que na época assinava Dilma Linhares. Ela morava então com o advogado Carlos Araújo, militante brizolista, numa bonita residência da Vila Assunção, à beira do Guaíba. “Ribeiro e uma policial vigiaram o casal, fazendo-se passar por namorados numa praça contígua à casa de Araújo”.

E mais não digo para não bater com a língua nos dentes e quebrar outras surpresas de quem ainda não leu o livro dos jornalistas gaúchos. Só digo e garanto, antes do ponto final: “Os Infiltrados” é leitura mais que recomendada nestes dias da política e do governo no Brasil. E na passagem dos 50 anos da Campanha da Legalidade, liderada por Leonel de Moura Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, que através de uma cadeia nacional de emissora de rádio (Cadeia da Legalidade), a partir de Porto Alegre, comandou a mobilização que empolgou o País. Confira.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Dilma em Brasilia esta semana:
que diriam Brizola e Lacerda?
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ARTIGO DA SEMANA

BRIZOLA, LACERDA E A GELEIA DA DILMA

Vitor Hugo Soares

Gaúcho de sangue quente e língua sem travas, Leonel de Moura Brizola, ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, faz falta na atual conjuntura brasileira pelo menos por um motivo. Ele era um mestre do fraseado e comparações críticas: armas ferinas, arrasadoras politicamente, às vezes capazes de produzir reflexões em momentos críticos e de baita confusão e tempo de geleia geral como este que o País experimenta em relação aos políticos e ao governo Dilma Rousseff, apenas oito meses depois de seu início.

Nessa arte, arma fundamental das oposições – qualquer oposição – o trabalhista Brizola era praticamente imbatível. Comparável em seu sua época apenas ao udenista Carlos Lacerda, também um demolidor nesse terreno movediço no qual o combatente caminha sempre na ponta da faca que separa a glória de uma frase de mestre e o ridículo de mero falastrão.

Tenho imaginado nestes últimos dias, o que diriam se vivos estivessem, esses autênticos gigantes do fraseado nacional, a propósito de pelo menos duas questões atuais nesta quadra confusa e complicada da política e da administração do País.

Dilma Rousseff, por exemplo, só está no poder desde janeiro deste ano, mas nos partidos governistas e de oposição praticamente não se pensa nem se fala de outra coisa além da sucessão presidencial em 2014. Até mesmo um dos partidos da chamada “base de apoio do governo”, o PR, finge entrega de cargos e recusa de favores oficiais, ao anunciar esta semana que está abandonando o atual barco do poder – os desafios da navegação mal começaram -, para dedicar-se livremente ao jogo de barganhas e busca de mais vantagens com especulações no mercado futuro em relação ao governo que vem.

O que pensaria Brizola diante da indicação pelo PMDB do novo ministro da Agricultura (um conterrâneo para substituir o paulista antigo que sai sob saraivada de denúncias de corrupção em sua pasta e desvios éticos de comportamento pessoal). Mas que em suas primeiras declarações públicas após a indicação faz questão de deixar claro, além dos apadrinhamentos, que mal conhece a diferença entre um limão e um alface?

Talvez o político gaúcho repetisse: “Essa reforma ministerial é um balaio de caranguejos. Uns caranguejos entrando, outros saindo.” E o que diria Lacerda sobre o deputado federal Mendes Ribeiro (PMDB-RS) – figura aparentemente saída direto do poema “O Gaúcho”, do genial Ascenso Ferreira -, para o Ministério da Agricultura do Brasil, que ele assume na segunda-feira? Responda quem souber e conhecer melhor o pensamento do falecido udenista carioca.

Os tucanos, atualmente, a começar pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, tentam ocupar o espaço vazio de herdeiros de uma das melhores tradições da política brasileira, que tem entre seus patronos a figura do baiano Octávio Mangabeira, autor de frases e pensamentos políticos antológicos. O mais imortal deles: “Pense em um absurdo, o maior de todos, e na Bahia tem precedente”. Vale agora também para o País.

Olhando e comparando bem, é fácil constatar: FHC, bom frasista, e seus companheiros tucanos (ou aliados do DEM, herdeiros de Carlos Lacerda) se utilizam bastante desta preciosa arma de combate oposicionista, mas são fichinhas diante de gigantes do gênero no passado recente. Saudosismos à parte e a bem da verdade factual, todos eles juntos perdem feio para Lula (o “sapo barbudo” na histórica comparação de Brizola).

No particular, apesar da fama de língua presa, o ex-presidente da República e do PT demonstra claramente sua preferência pelo fraseado inspirado na escola ex-governador gaúcho. Quando vivo, nos famosos bafafás com Luiz Inácio e seus companheiros, Brizola alfinetava: “O PT é a UDN de tamanco e macacão”.

Antes do ponto final nestas linhas, breve pausa para recordar experiência pessoal e profissional marcante: um dia que entrou madrugada adentro, nos anos 70, então repórter do Jornal do Brasil na sucursal da Bahia, de passagem pelo Uruguai, fui parar na estância de Brizola no povoado de Carmen, província de Durazno. Isso pouco antes dele ser expulso do exílio uruguaio e buscar abrigo em New York, no governo do democrata Jimmy Carter.

A longa conversa (possível graças à interferência do bravo e incorruptível coronel Dagoberto Rodrigues, chefe dos Correios e Telégrafos no governo Jango, e do jornalista e querido amigo Paulo Cavalcante Valente, ambos no exílio em Montevidéu), se deu quando já rondava a Operação Condor que uniu chefes de ditaduras em vários países da América Latina para eliminar adversários como Allende, Jango e o próprio Brizola.

Foi uma aula de história do continente e da arte da prosa política. Guardei na memória algumas pérolas do rico fraseado, outras se esfumaçaram infelizmente, pois o autor não permitiu anotá-las. Não esqueço da última, na despedida: “Baiano, tu vais ver: Portugal se livrará em menos de 30 anos das marcas de meio século do regime de Salazar. O Brasil levará mais de 50 para livrar-se do entulho deixado pela ditadura de 64.”

Pelo visto nestes dias de agosto de 2011, quem duvida?

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Dilma:governo dá nó e aprovação cai
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ARTIGO DA SEMANA

Samba do Bexiga na casa da Dilma

Vitor Hugo Soares

A situação no governo Dilma Rousseff não só deu um nó esta semana, mas parece entrar na encruzilhada decisiva de seus rumos de perdição ou salvação diante do futuro político e administrativo. Tudo já se mostrava complicado desde o começo na composição frouxa e precária do time principal – apesar do comando de cara enfezada à la seleção de Mano Meneses – , mas se agravou ainda mais nestes primeiros dias de agosto que promete não negar fogo em sua tenebrosa tradição histórica.

A guerra surda no começo virou ultimamente tiroteio encarniçado com emboscadas públicas por espaços e verbas dos grupos de apoio e sustentação (PT, PMDB e PR, principalmente). Isso torna difícil uma previsão de quantas baixas e estragos maiores causarão ainda estes conflitos de poder antes de uma trégua ou do fim improvável do fuá, a julgar pela barulheira infernal destes dias.

Para complicar este cenário local de tumulto no qual outra vez as minguantes “forças de oposição” se fazem de mortas (ou será que foram dizimadas efetivamente?), avistam-se já nuvens densas que sopram dos Estados Unidos e Europa, ameaçando em breve bater sob forma de ventania nas costas brasileiras, causando abalos bem mais significativos que as “marolinhas” do governo Lula.

Olhando atentamente e com alguma dose de humor sempre indispensável, será fácil verificar que o desenho em Brasília, com repercussão por várias partes do País, está muito parecido com a “cínica situação” descrita em “Um Samba no Bexiga”, antiga mas sempre emblemática composição de Adoniran Barbosa. Não canso de citá-la periodicamente nos artigos que assino há anos neste e em outros espaços do jornalismo impresso e eletrônico.

Pizzas e bracholas (muita fumaça também ) – a exemplo da história contada na música -, voaram esta semana em Brasília, com respingos do Amapá à Bahia. Inevitável outra vez, portanto, a comparação com o famoso bafafá do samba paulista. Eu ouço, enquanto batuco estas linhas, Adoniran interpretá-lo no vídeo do encontro inesquecível com Elis Regina em uma cantina de São Paulo, disponibilizado no You Tube. Sugiro para quem quiser comprovar a genial atualidade da composição, ou simplesmente matar a saudade de dois artistas notáveis.

A letra, para os que ainda a desconhecem (este felizmente não deve ser o caso da presidente), narra a briga feia “num samba no bairro do Bexiga, na rua Major, na casa do Nicola, à mezza notte o’clok”, ao qual o sambista compareceu acompanhado de amigos. Ao contrário da “madame” de outra composição igualmente fantástica, esta do baiano de Santo Amaro da Purificação, Assis Valente, de volta às paradas na onda do sucesso da novela da Globo, Insensato Coração, Dilma proclama gosto e prazer pela música popular brasileira. Deve, portanto, saber de cor ou, no mínimo, ter escutado alguma vez a letra do sambista maior de São Paulo.

Ainda assim, vale dar palavra e voz ao próprio autor para cantar uma de suas criações mais antológicas, a partir da segunda estrofe, quando a bagunça já está instalada na casa do Nicola:

“Nóis era estranho no lugar/ E não quisemos se meter/Não fumos lá pra brigá, nós fumos lá pra comer. / Na hora “H” se enfiemos debaixo da mesa/ Fiquemo ali, que beleza, vendo o Nicola brigá / Dali a pouco escutemo a patrulha chegá/ E o sargento Oliveira falá / Num tem importância/ Foi chamada as ambulância/ Carma pessoal, / A situação aqui está muito cínica/Os mais pió vai pras Clínica”.

No caso do samba do Planalto, na casa da Dilma, a situação também já começa a ficar pra lá de “cínica”. Pizzas e bracholas são arremessadas de todo lado nas mais indiscriminadas direções – pelos partidos e seus principais arautos, pelo Congresso comandado por José Sarney; pela Polícia Federal em suas operações com as algemas de antes reforçadas pelo cinto amarelo amarrado na cintura dos detidos na Operação Voucher; pelas corporações insatisfeitas; pelo fogo amigo dos aliados do peito em suas insuperáveis e antropofágicas divergências; pelos ratos de porão em desespero e engalfinhados na briga centenária e desvairada que só conhece a toada da “farinha pouca meu pirão primeiro”.

Os estragos e furos começam a aparecer de todo lado. O mais gritante deles veio esta semana nas asas dos dados da pesquisa mais recente do Ibope, que registram abalos sensíveis na aprovação popular a Dilma Rousseff e ao seu governo.

Para a comparação de “Um samba no Bexiga” de Adoniran Barbosa ficar mais completa, falta talvez aparecer o sargento Oliveira no samba da casa da Dilma. Alguém com poder e traquejo suficientes para dar um tranco no bafafá, chamar as ambulâncias, mandar “os mais pió para as Clínicas”, acalmar o ambiente cada vez mais pesado, e recomeçar o batuque em outro tom.

Está difícil, mas o sargento Oliveira da briga paulista na casa do Nicola precisa baixar urgentemente no bafafá de Brasília.

Enquanto é tempo.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Dilma sorri na Bahia no dia seguinte sem Jobim
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ARTIGO DA SEMANA

JOBIM, SEM AÇUCAR E SEM AFAGOS

Vitor Hugo Soares

Aparentemente cansada do jogo de gata e rato com o ministro da Defesa de seu governo, a presidente Dilma Rousseff jogou Nelson Jobim no mar, sem açúcar e sem afeto. Nem ligou para as orientações clássicas do genial Walt Disney nas narrativas animadas das historias dos conflitos entre Tom&Jerry – drásticas às vezes, mas sempre divertidas – para dar um fim na complicada trama política e de egos que já abria furos e começava a fazer água na nau do poder no Palácio do Planalto.

Dilma, a bem da verdade, optou por método próprio para livrar-se de um dos maiores estorvos ao exercício do mando até aqui. Apelou para ação cirúrgica sem anestesia, técnica aprendida provavelmente nos turbulentos tempos da guerrilha contra a ditadura. Tudo ainda em fase de testes no governo, mas já se transforma em marca e começa a fazer história na República brasileira.

Ontem, por exemplo, ao desembarcar em Salvador para rápida e trepidante “agenda positiva” de encontros, visitas e inaugurações na Bahia e Pernambuco – Estados onde as pesquisas de imagem lhe dão sempre os percentuais mais positivos – Dilma Rousseff não conseguia disfarçar o ar que misturava alívio e satisfação diante dos resultados menos de 24 horas depois da mais recente aplicação de seu método na nova operação que acaba de realizar.

Na passagem pela capital baiana no começo da tarde de ontem, a imagem que a presidente transmitia era bastante diferente, por exemplo, em relação à retratada no começo da semana pelo premiado desenhista cubano Osmani Simanca, publicada na edição de terça-feira (2) do jornal baiano A Tarde. Portanto, um dia depois do ministro da Defesa ter-se derramado em explicações e elogios “à maravilhosa presidente Dilma”, na entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura.

Isso logo em seguida à constrangedora e extemporânea declaração de voto no tucano José Serra na eleição de 2010, vencida pela petista Dilma. Além de revelações efusivas sobre as maravilhas da convivência sempre afetuosa e cheia de “afagos” com o ex-presidente FHC, feitas na entrevista ao jornalista Fernando Rodrigues, da UOL/Folha.

Na charge genial de Simanca, publicada dois dias antes do pote derramar em Brasília, a presidente Dilma Rousseff, com rosto enfezado de quem ouviu e não gostou, entra de surpresa na sala onde Jobim, o ministro, está sentado diante de um piano. Calçado de botas e metido em uniforme de camuflagem das Forças Armadas, dedilha melodias.

Ao perceber a inesperada presença da presidente às suas costas com cara de poucos amigos, o pianista puxa o samba famoso e universal do outro Jobim: “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça”…

Tudo poderia ter parado aí. Um perdão mesmo que temporário – a pedido do ex-presidente Lula, padrinho dos dois – e o fisicamente grandalhão ministro Jobim faria esforço para acomodar seu ego ainda maior no território de poder e prestígio cada vez mais reduzido no novo desenho da fechada roda das decisões que efetivamente importam no Planalto.

E assim permaneceria no governo antes de se mudar a mobília para São Paulo, ano que vem, depois da aposentadoria da mulher, como o ministro da Defesa repetia antes de efetuar cada novo disparo de sua metralhadora giratória de fogo amigo, no delicado e perigoso do jogo de morde e assopra ao qual Jobim se dedicava ultimamente.

Veio então o estouro com a divulgação antecipada do conteúdo das declarações à revista “piauí”, que o ministro escondera da presidente na conversa de “conciliação” dias antes. A publicação chegou ontem às bancas do País, quando Jobim já se tornara ex.

Neste novo ataque o ministro da Defesa dirigiu suas baterias para o interior do governo Dilma, apresentado como reduto de “muita trapalhada”; a ministra Ideli ” é bem fraquinha” e Gleisi, poderosa da Casa Civil, nem conhece direito Brasília. Nem vale repetir o resto, pois todo mundo já sabe.

Faltava a vingança para a ofensa. Esta veio nos moldes dos melhores manuais do gênero. Um avião a jato foi mandado ao Amazonas onde estava o ministro na quinta-feira e ele foi trazido a Brasília para o ato final de humilhação pública, que guarda notáveis semelhanças com emparedamento de Fortunato, vaidoso personagem do conto “O Barril de Amontillado”, um clássico sobre vingança escrito pelo mestre Edgar Alan Poe.

Vale a pena reproduzir aqui a abertura do conto. Pela maravilha que é o texto em si e pela emblemática atualidade de seu conteúdo:

“Suportei o melhor que pude as mil e uma injúrias de Fortunato; mas quando começou a entrar pelo insulto, jurei vingança. Vós, que tão bem conheceis a natureza da minha índole, não ireis supor que me limitei a ameaçar. Acabaria por vingar-me; isto era ponto definitivamente assente, e a própria determinação com que o decidi afastava toda e qualquer ideia de risco. Devia não só castigar, mas castigar ficando impune. Um agravo não é vingado quando a vingança surpreende o vingador. E fica igualmente por vingar quando o vingador não consegue fazer-se reconhecer como tal àquele que o ofendeu”.

Mais não digo para não quebrar o prazer da leitura de um dos mais notáveis escritos sobre a vingança na literatura mundial. “O Barril de Amontillado” devia ser recomendado como leitura obrigatória para ministros, aliados, opositores e quem mais deseje compreender melhor a presidente Dilma e seu governo. Confiram e boa leitura.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail:vitor_soares1@terra.com.br


Ministro Jobim: “fui amanuense de Fernando Henrique”
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ARTIGO DA SEMANA

JOBIM, O AMANUENSE DE FHC

Vitor Hugo Soares

As embaraçosas e polêmicas confissões do ministro da Defesa, Nelson Jobim (PMDB), sobre suas relações com os dois nomes da linha de frente da oposição nacional – Fernando Henrique Cardoso e José Serra -, na estreia do programa “Poder e Política – Entrevista” (parceria da UOL e da Folha), merecem figurar com louvor entre os destaques desta semana no País.

A entrevista do ministro de FHC, Lula e agora do governo Dilma, conduzida pelo jornalista Fernando Rodrigues, do grupo Folha, superou em muito os limites do simples trabalho profissional bem executado. Foi, além disso, uma realização quase completa na proposta de fugir às obviedades apelativas – cada vez mais comuns em programas do gênero – e focar no essencial, jornalisticamente falando: arrancar informação relevante, gerar fatos e, ao mesmo tempo, dar o que pensar e falar ao ouvinte ou leitor.

A conversa de Jobim com Rodrigues, escutada em Salvador pelo redator destas linhas, fez mais: conduziu a memória às nuances mais intrincadas do personagem-título do romance do mineiro Cyro dos Anjos, “O Amanuense Belmiro”, que considero desde as primeiras leituras na escola secundária um dos mais complexos e interessantes no rico e diversificado cardápio de figuras da literatura brasileira.

Transposto para o universo complicado do poder e da política no Brasil atual, isso vale também para o gaúcho ministro da Defesa. Não adianta disfarçar: vaza por todos os cantos o conhecimento de que nomes de peso e da primeira linha do petismo nacional, aparentemente tolerantes na superfície, viram araras quando o nome de Nelson Jobim vem à baila em conversas nas esferas mais altas do partido e nos gabinetes mais poderosos do governo Dilma.

A pinimba cercada de desconfianças mútuas é antiga. Começou a agravar-se, porém, no episódio traumático do afastamento do ministro Waldir Pires (PT-BA), com a participação direta da então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e mais direta e agressiva ainda da ex-chefe de gabinete e depois ministra defenestrada em meio a um dos muitos escândalos recentes da República, Erenice Guerra.

Mas a questão ganhou foro de guerra surda a partir de um caso bem mais recente. A ainda mal explicada expressão “idiotas”, introduzida pelo ministro da Defesa em seu discurso de tributo rasgado ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, na cerimônia de homenagem pelos 80 anos do presidente de honra do PSDB, realizada no Congresso. No recinto, com a presença de parlamentares de proa do PT, até os próprios tucanos foram mais contidos que Jobim nas palavras e gestos de exaltação ao seu guru político e partidário.

Na entrevista de enorme repercussão esta semana, o ministro apesar de todo bafafá à sua volta nos núcleos do poder atual, parecia com vontade de entoar a todo momento a popular canção de enorme sucesso na interpretação de uma cantora do Rio Grande do Sul: “Tô nem aí”.

De certa maneira o gaúcho grandalhão, com fama de valente, fez isso em suas respostas ao entrevistador. E não apenas ao abrir com toda clareza e sem titubeios o seu voto para presidente no ex-governador de São Paulo José Serra, na eleição de 2010, vencida por Dilma Rousseff. Segundo Jobim, isso não era segredo para ninguém no governo, muito menos para Lula e Dilma, desde que ele decidiu ficar fora da campanha, “por motivos pessoais e institucionais” expostos diretamente em conversa “na lata” com o ocupante da principal cadeira de mando na época.

Foi liberado por Lula da campanha, depois de explicar a estreita ligação afetiva com o candidato tucano: “O Serra foi meu padrinho de casamento, eu morei com ele algum tempo aqui em Brasília. Quando vou a São Paulo normalmente eu janto com ele, vou ao Palácio (dos Bandeirantes) com minha mulher, nos damos muito bem”. Ponto.

Quanto ao amigo FHC, o ministro da Defesa foi ainda mais explicito e surpreendente ao falar sobre sua relação com o ex-ocupante do Palácio do Planalto, de cujo governo foi ministro da Justiça e de onde saiu para o Supremo Tribunal Federal, na única indicação de FHC para o STF.

“Tendo em vista as relações do PMDB eu tinha uma grande integração com o Fernando (Henrique).Trabalhei com o Fernando também, na Constituinte. Servi como uma espécie amanuense de Fernando Henrique, se essa expressão ainda significa alguma coisa para você e os ouvintes”, ressaltou o entrevistado dirigindo-se a Fernando Rodrigues, no único momento da entrevista em que o ministro demonstrou preocupação de não ser bem entendido em suas palavras e intenções.

A expressão amanuense, por acaso ou não, foi expurgada na publicação “da íntegra” da entrevista no portal da Folha.com/UOL, substituída pela palavra “assessor”, também utilizada pelo ministro de Dilma para falar da relação pessoal e política com FHC. Uma pena para quem admira o escritor mineiro Cyro dos Anjos e a sua obra-prima “O Amanuense Belmiro”, como este ouvinte à distância da entrevista.

Amanuense, diga-se, é muito mais do que um simples assessor, figura que grassa atualmente em qualquer esquina da burocracia oficial. Por força de sua origem, a palavra designa qualquer pessoa que copia textos ou documentos à mão, o que praticamente não existe mais em tempos cibernéticos, a não ser nos resistentes cartórios da Bahia.

Mas preserva ainda o significado simbólico da palavra originária do latim amanuensis, por sua vez, como explica a Wikipédia, derivada da expressão latina “ab manu” (à mão). Assim como o personagem do romance famoso. Ou o ministro Nelson Jobim em sua relação com Serra e FHC. Ou não?

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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