out
17
Posted on 17-10-2009
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 17-10-2009

Igreja da Barra: sinos e silêncio
Ibarra

———————————————————————————–
ARTIGO DA SEMANA

ÁGUAS QUE SALVAM E QUE AFOGAM

Vitor Hugo Soares

Uma vez, navegando pelas barrancas do Rio São Francisco a trabalho do Jornal do Brasil, vi escrito na parede em Juazeiro da Bahia: “Seca e enchente, meio de vida de muita gente”. Não sei explicar direito a razão, mas o fato é que lembrei desses dizeres a semana toda, durante os três dias da passagem do presidente Lula e numerosa comitiva belas barrancas do rio, ao longo de três estados.

Mesmo replantado na beira do litoral da mui formosa cidade do Salvador, nas décadas seguintes, não consigo desligar os olhos e ouvidos quando o assunto é o Velho Chico. Assim, passei quase todo o tempo ligado em cada passo da caravana, Lula carregando debaixo de suas asas atraentes como as de uma ave dos campos gerais de Guimarães Rosa, sua trupe de acompanhantes.

G0vernadores, ministros, parlamentares, assessores, jornalistas, marqueteiros, além de três postulantes à sua sucessão em 2010 (Dilma Rousseff, Aécio Neves e Ciro Gomes). Gente de linguagens diversas e projetos nem sempre comuns, a falar para uma gente nem sempre disponível a acreditar em santos, promessas e milagres.

Mesmo não sendo candidato direto agora, Lula levou o tempo inteiro debaixo do braço nessa travessia a ministra Dilma Rousseff, apresentada aos ribeirinhos como principal guardiã do cumprimento de um dos projetos mais polêmicos , babilônicos e bilionários de seu governo: a transposição das águas do São Francisco. Nele o governo promete despejar mais de R$ 6 bilhões.

O Velho Chico transforma-se assim em retumbante bandeira eleitoral na terceira campanha presidencial consecutiva, como já sabe há um bom tempo o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), que engordou a comitiva presidencial no trecho mineiro. E como acaba de descobrir o governador de São Paulo, José Serra, que também pousou esta semana em Petrolina, na beirada pernambucana do rio, ao lado de fieis companheiros tucanos, para tentar reduzir os efeitos da inundação.

Entendo o vôo de todas essas aves de arribação. Da região percorrida por elas nos últimos dias, guardo a primeira e mais poderosa lembrança que trago comigo até hoje: o rumor da correnteza do rio da minha aldeia passando quase por dentro do quintal da minha casa, a caminho dos cânions magníficos que espremiam suas águas antes de chegar à cachoeira de Paulo Afonso.

No capítulo “Infância e Poesia”, na abertura do livro de memórias “Confesso que Vivi”, o poeta Pablo Neruda ao recordar do seu Chile amado e sempre presente em sua obra, revela que nos anos de sua infância seu único personagem inesquecível foi a chuva. ‘a grande chuva austral que cai como uma catarata do Pólo, desde os céus do Cabo de Hornos até a fronteira. Nessa fronteira, o faroeste de minha pátria, nasci à vida, à terra, à poesia e à chuva”, conta Neruda.

Sem conhecer outra melhores, me socorro das palavras do poeta da América Latina para descrever essa sensação de presença permanente do rio dos quintais de Abaré. Minha cidade, do lado baiano, que fica a menos de oito quilômetros navegando em canoa, até chegar a Cabrobó, cidade pernambucana onde o governo Lula fincou o Marco Zero do seu “projeto redentor de combate à seca e a fome no Nordeste”.

Lem de redentor, como proclamam as vozes oficiais em discursos nas margens do rio, uma frondosa árvore político-eleitoral que já deu frutos a granel na campanha que levou Lula ao Palácio do Planalto em 2002 – quando a idéia de transposição que vem do tempo do Império virou plataforma de campanha do primeiro governo petista. Serviu depois na reeleição de Lula, e os melhores sonhos governistas é de que sirva também nos comícios de sua candidata em 2010.

Em um dos relatos sobre a Coluna Lula no São Francisco – a definição perfeita é da revista digital Terra Magazine, cujos repórteres Bob Fernandes (editor-chefe) e Claudio Leal seguiram de perto o curso da caravana, leio o seguinte:

“No segundo turno das eleições presidenciais de 2006, Lula obteve 77% dos votos no Nordeste , contra 22% do tucano Geraldp Alckmin. Entre os estados nordestinos que integram a viagem desta semana, o presidente obteve 78% dos votos dos baianos em 2006 e 65% em 2002, quando se elegeu superando José Serra, também do PSDB.

Em Pernambuco, onde fica sua cidade natal, levou 57% dos votos em 2002 e na eleição seguinte ampliou a vantagem para 78,5%.” Mas Lula é Lula e, desta vez, ele poderá receber os votos do Velho Chico diretamente. Precisará fazer a transposição das vontades para alguém.

Se a caravana desta semana serviu para alguma coisa foi para demonstrar que esta não será uma tarefa fácil; O Rio São Francisco tem lá seus segredos insondáveis. Podem salvar, mas também afogam.
A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista.-mail: vitor_soares1@terra.com.br

out
16
Posted on 16-10-2009
Filed Under (Artigos, Vitor) by Margarida on 16-10-2009


=======================================================
“A todos o herói luso, um poeta. A toda uma revolução de cravos. Deixamos estas migalhas, para quem da bondade interpreta por burro , a quem do coração tranquilo interpreta por apatia. As diferenças induzem a erros, mas não são impossíveis de interiorizar… apreender… apreciar… admirar…quem sabe um dia…  Terra velha, com rosto moldado em sal, todos os sussurros que gemes pensamentos , trazem palhas simples demais aos olhos imaturos… Oxalá o teu Brasil Maitê , não se acanhe, não se aflija, mas sossegue confortado Proença” .

Trecho do comentário feito no Bahia em Pauta pelo leitor que assina Miguel C, a propósito do vídeo produzido pela atriz brasileira Maitê Proença e exibido no programa de televisão Saia Justa, que indignou os portugueses e segue causando polemica. A mensagem vem acompanhada de belissima e emblematica melodia portuguesa interpretada pelo conjunto Madredeus, que Bahia em Pauta escolheu para encantar esta madrugada de outubro.

(Postado por Vitor Hugo Soares)

out
13


=====================================================
Se vivo estivesse Angenor Oliveira (1908-1980), o magnífico Cartola, teria festejado 101 anos sábado passado, 11 de outubro de 2009. Na década de 1950, quando lavava carros no bairro de Ipanema, o músico e letrista genial , nascido no bairro do Catete, Rio de Janeiro, foi tirado reconhecido e tiradodo esquecimento por outro imortal do País: Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta).Desde então não parou de reluzir e sua estrela segue brilhando intensamente na memória dos sambistas, dos artistas e do povo brasileiros.l

Coube a Alcione, Beth Carvalho, Leci Brandão, Emílio Santiago, Nelson Sargento, Elba Ramalho, Maria Rita, Velha Guarda da Mangueira, entre outros, a principal homenagem, no show Cartola Eterno, realizado na noite de ontem, 12, segunda-feira, às 20h30, no Canecão.

Outras homenagens estão previstas para o correr desta semana .Nelson Sargento é autor da célebre frase “Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve”, que ornamenta a entrada do Centro Cultural Cartola, na Mangueira. “Uma vez, eu o vi compor em 10 minutos. Ainda bem que ele existiu, senão teria que ser inventado”, revê a frase Nelson Sargento, que elege Cordas de Aço sua música preferida.

Em seu tributo a Cartola, Bahia em Pauta escolheu um vídeo feito especialmente para as comemorações do centenário do artista, no ano passado. Nele, o infinito Cartola interpreta dois de seus maiores sucessos de ontem, hoje e sempre. Confira.

(Vitor Hugo Soares)

out
11


==================================================
A segunda canção deste domingo, 11 de outubro, no Bahia em Pauta é “Amado”, de Vanessa da Mata. Neste vídeo mostrada com toda emoção e entrega que só ela sabe traduzir na interpretação dos versos da sua música premiada, que deve voar até a beira do Rio São Francisco e pousar como mensagem de afeto e admiração do editor e dos que fazem este site-blog a aniversariante Grazzi Brito.

Sim, ela mesma, a atenta , dedicada e competente repórter do BP, desde o primeiro momento na cidade de Juazeiro, na cada dia mais atraente e desenvolvida região do Vale do São Francisco – mas também das mazelas políticas e administrativas que infelizmente persistem.

Tudo isso Grazzi tem ajudado a este site-blog mostrar para o país e o mundo em matérias com o toque texto marcado pela simplicidade do bom jornalismo – sempre firme, crítico, opinativo e correto. Até no Terra Magazine um deles já foi parar, com direito a elogios de Bob Fernandes, um dos melhores e mais acatado jornalistas do País. E vem mais por aí, podem esperar.

Mas hoje queremos abraçar Grazzi – ao lado de todos que a cercam e amam na cidade de Juazeiro – através da voz doce de Vanessa da Mata que interpreta a canção que, sabemos, toca fundo no coração e sentimentos da reporter do Bahia em Pauta. Beijos e parabéns!

(Vitor Hugo Soares, editor, e toda equipe do Bahia em Pauta)

out
10
Posted on 10-10-2009
Filed Under (Artigos, Multimídia, Vitor) by vitor on 10-10-2009


=================================================
A música para começar no Bahia em Pauta neste sábador, 10 de outubro de 2009, é “Papel de Pão”, composta e interpretada por Jorge Aragão. Era a música preferida de uma mulher especial para este editor, que partiu em uma data como esta no ano de 2001. Se viva estivesse seria seguramente leitora assídua e estimuladora deste site-blog.

Chamava-se Jandira, nome que -escrevi certa vez em um cartão – em tupy-guarany reune as palavras abelha e mel. “Dona Jandira de força e fé nos santos e nos destinos da humanidade. Abelha que se encantava com as águas do Velho Chico, ora serenas ora revoltas, correndo em sua terra natal. Sertaneja que também se embevecia com o mar de Salvador, com a boa leitura e que amou a música até os suspiros derradeiros”, escrevi também naquele cartão.

Onde estiver, vai para ela este samba, uma das músicas de sua devoção, em nome de todos que a amaram e lembram dela com saudades nesta data.

(Vitor Hugo e Maria Olívia)

out
10
Posted on 10-10-2009
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 10-10-2009

Dilma: passe de candomblé no Bonfim/Estadão
dilmas
==================================================
ARTIGO DA SEMANA

A peregrina Dilma vai ao Bonfim

Vitor Hugo Soares

Salve a Bahia, Sinhá! E os marqueteiros políticos também!
É preciso tirar o chapéu. Afinal de contas, nem a mirabolante cabeça do cineasta Glauber Rocha, o saber de Octávio Mangabeira, ou mesmo o reconhecido e proclamado estilo matreiro de fazer política de ACM nos tempos áureos de seu domínio local, seriam capazes de conceber ou dirigir as cenas das primeiras horas da visita que a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, iniciou na noite de quinta-feira, em Salvador.

Depois de longo afastamento da larga barra da cidade da Bahia, como definia o poeta Gregório de Mattos, o “Boca de Brasa”, a preferida do presidente Lula como candidata à sua sucessão, retornou com a corda toda. Um festival de surpresas, “até mesmo para os baianos mais acostumados com essas coisas”, como assinalou nesta sexta-feira um atento observador político local, ao analisar a performance da ministra. Dilma, porém, jura não estar em campanha – ao pisar outra vez o conflagrado solo político da Bahia nesses primeiros movimentos que antecedem 2010.

Mal desembarcou no aeroporto de Salvador, ela fez apenas uma breve parada no hotel para se preparar “comme il faut” para seu primeiro compromisso. Bem de acordo com os tempos que correm: um ato tipicamente político-eleitoral, com fachada de acontecimento social. Assim foi a festa de aniversário do ex-dirigente máximo do PCdoB no Estado, o comunista Haroldo Lima, atual presidente do Conselho Nacional de Petróleo (CNP), a que Dilma compareceu.

O ultra sofisticado centro de eventos Trapiche da Adelaide ficou coalhado de ministros, secretários de Estado, parlamentares de todas as tonalidades – da direita ao centro -, empresários e figurões variados dos governos petistas de Lula, no país, e de Jaques Wagner na Bahia. Uma tenda ampla, onde Dilma (seguramente recomendada por marqueteiro dos bons e dos mais requisitados, ou um santo forte do Planalto), onde a visitante operou o seu primeiro “milagre” baiano.

Ela foi filmada e fotografada dividindo a mesma mesa com dois sorridentes personagens que viviam aos tapas e trocas de insultos até horas antes da ministra chegar: o governador Jaques Wagner (PT) e o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), ferrenhos adversários na postulação ao Palácio de Ondina em 2010.

Há quem diga que na tenda do Trapiche se deu uma bem sucedida tentativa com vistas ao palanque duplo na Bahia, assunto do qual os petista locais não querem nem ouvir falar. Podem ter que engolir, mas isso é coisa que se verá bem mais adiante, depois que a correnteza passar e os ânimos estiverem de fato serenados, se é que isso acontecerá além das aparências. O mais surpreendente, no entanto, estava reservado para algumas horas depois da festa que rolou animada até altas horas da manhã.

Às 7h da manhã Dilma Rousseff já estava “inteiraça”, no adro da Igreja do Bonfim, como observou um passante local. Toda vestida de branco, dentro dos preceitos do Candomblé na sexta-feira baiana, consagrada a Oxalá, para assistir a primeira missa do dia no templo católico. Minutos antes, no adro, como na cerimônia famosa da Lavagem, eis a ministra cercada de mães, filhos e filhas de santo. Ali a ministra Dilma Rousseff, que acaba de ser declarada curada de um câncer linfático pelos cientistas e médicos do hospital paulista Sírio Libanês, recebeu um banho ritual de folhas de aroeira, consideradas as melhores para “abrir caminhos fechados”. Foram misturadas outras folhas destinadas a reforçar o pedido.

Depois veio a apoteose da sexta-feira, 9, no Bonfim: a missa no templo lotado de fiéis, rezada e animada pelo padre Edson Menezes, pároco que conduziu tudo como um ato “religioso e político eleitoral” como raramente visto em terras e terreiros baianos, apesar de todo o seu sincretismo.

Diante de uma contrita ex-guerrilheira e atual poderosa ministra petista de Lula, acompanhada do governador petista de origem judaica, Jaques Wagner e da primeira-dama Fátima Mendonça, uma baiana cem por cento, o pároco caprichou nos gestos e palavras do sermão, como o melhor dos cabos eleitorais que Dilma jamais imaginou encontrar, nas circunstâncias.

Padre Edson deu vivas e pediu palmas aos fiéis “para a peregrina Dilma, que também subiu a colina para agradecer como fazem os baianos”. E as palmas vibraram com força diante do altar. Ainda molhada do banho de folhas do Candomblé, com medidas do santo de todas as cores nas mãos, Dilma, emocionada, agradeceu a cura e beijou a imagem do santo. Mas não recebeu a hóstia da comunhão distribuída aos fiéis pelo padre e seus acólitos.

Missa encerrada, a visitante saiu, ainda cercada de palmas, abraços, bilhetes com pedidos pessoais ou apelos por uma pose para fotografia, que ela atendeu, sempre solícita.

Afinal, o que mais poderia querer um marqueteiro, ou uma postulante ao Palácio do Planalto?

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares@terra.com.br

out
04
Posted on 04-10-2009
Filed Under (Artigos, Multimídia, Newsletter, Vitor) by vitor on 04-10-2009

Despedida de Mercedes: fila e lágrimas em Buenos Aires
despedida

=================================================

No dia 11 de novembro de 2007 (o Bahia em Pauta ainda não estava nem em gestação), escrevi para publicação no espaço que disponho há anos, todos os sábados, no Blog do Noblat, um artigo intitulado “Ela (Mercedes Sosa) e elas”, que foi publicado tanbém no Ponto de Vista, espaço de Opinião do jornal Tribuna da Bahia.O texto fala de um momento político na América Latina marcado pela intensificação da participação feminina na política e no poder , que coincidia com o retorno aos palcos, no México, depois de longa ausência por motivos de saúde,da grande cantora argentina que morreu na madrugada deste domingo.

Quase dois anos depois o texto vai republicado. Agora no Bahia em Pauta, no dia da partida de Mercedes. Vai a título de informação deste site-blog, mas igualmente de tributo deste editor a uma das artistas que mais contribuiram para o amor do jornalista pela música e paixão pela América Latina.

Com um beijo de saudades no coração de La Negra. (VHS)

================================================

================================================

ELA(MERCEDES SOSA) E ELAS

Vitor Hugo Soares (24/11/2007)

Miro a Cordilheira dos Andes e os altiplanos do México, enquanto no Atlântico Sul o tucano Fernando Henrique Cardoso sai do silêncio temporário e abre o bico em nova arrelia contra o seu sucessor no Palácio do Planalto, Luiz Inácio Lula da Silva, ao sugerir que o governante petista detesta a educação, “a começar pela própria”. O novo bafafá já se propaga pelos blogs – a começar por este do Noblat -, com a dura resposta do ministro petista Tarso Genro, e a briga, nem sempre em tons exemplares, promete ser das boas.

Acontece que ando meio saturado dos freqüentes ataques de ciumeira dessa relação tumultuada de amor e ódio entre FHC e Lula. Desvio a atenção para o suplemento cultural da edição “on-line” do jornal chileno “La Tercera”. Ali encontro uma notícia que espero há quase 10 anos: a cantora argentina Mercedes Sosa superou finalmente a enfermidade que a obrigou a um longo afastamento dos palcos e volta a espalhar pela América Latina, o seu canto inimitável, na série de apresentações pelo continente iniciada ontem na Cidade do México.

Em seu giro , Mercedes apresenta o espetáculo “Gracias a la Vida”, considerado pela crítica como um canto de louvor e entusiasmo renovado de quem sai de depressivo e prolongado fundo de poço. A amiga de Milton Nascimento e dos estudantes pode soltar o vozeirão outra vez em “Como la cigarra”, para mim uma de suas mais emblemáticas e comoventes canções.

“Tantas veces me mataron, tantas veces me mori,/ Sin embargo estoy aqui, resucitando”. Imagino à distância essa música se espalhando pela noite da capital mexicana neste final de semana, como tantas vezes vi os garotos e adultos de Buenos Aires fazerem na saída de teatros e casas de discos, quando a artista estava no auge. E como eu próprio me vi fazendo nos anos 70, em meu primeiro show com a argentina de Tucuman, em histórica noite no Teatro Castro Alves, em Salvador.

“Cantando al sol, como la cigarra/ después de um año bajo la tierra/ igual que sobreviviente/ Que vuelve de la guerra”. Desta vez, o mergulho de Mercedes foi mais longo do que uma simples estação. Aparentemente também, muito mais dolorido para a sua alma sensível.

Nos últimas décadas ouvi muito e vi de perto algumas vezes está que é uma das minhas cantoras preferidas. A última vez que estive próximo dela foi há cerca de dois anos, em Buenos Aires, quando Mercedes compareceu a uma apresentação do espetáculo em que o cantor e compositor Victor Heredia celebrava 30 anos de carreira em um teatro de Corrientes, no coração da capital portenha. Foi uma noite inesquecível, até mesmo pelo que deixou de acontecer, como a prevista canja da cantora.

Na platéia, Mercedes demonstrava profundo abatimento físico e parecia extremamente deprimida. Não subiu ao palco. Heredia pediu desculpas ao público e explicou que ela estava “muito gripada e afônica”, impedida de cantar. Agradeceu a presença da cantora no teatro, mesmo doente, e a casa quase vem abaixo de aplausos. Guardei comigo a impressão de que, no corpo e na mente da artista, se escondiam bem mais que um simples resfriado. E conservei a esperança de que, fosse o que fosse, seria passageiro.

Em sua ressurreição, constato agora com alegria que Mercedes Sosa não só voltou à superfície como manteve o prumo. De longe, a impressão é de que ela segue íntegra e fiel ao que sempre foi ao longo de toda a carreira. Quinta-feira, na véspera da primeira das três apresentações que fará no México – a última será neste domingo em Guadalajara –, convocou jornalistas para uma entrevista coletiva e aproveitou para fazer uma convocação política às conterrâneas da revolucionária Fryda Kallo: “As mulheres deste país devem sair a ganhar eleições, porque sabem o que custa manter a casa e manter o trabalho”.

Aos 72 anos, a intérprete que fez de “Coração de Estudante” um hino também da América Latina, chama a atenção para o bom momento das mulheres na política atual. Citou fenômenos como as mandatárias do Chile, Michelle Bachelet; da Alemanha, Ângela Merkel, e de sua conterrânea Cristina Kirchner, que tomará posse na Argentina nos próximos dias. Até ontem, pelo menos, Mercedes Sosa parecia desconhecer que o presidente Lula começa a colocar na fila dos nomes fortes à sua sucessão – o da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef.

Em sua passagem pela Cidade do México, a caminho de Santiago do Chile e de outras cidades da América Latina onde levará o show Gracias a la Vida, Mercedes Sosa rende um tributo especial aos estudantes mortos em 1968, no trágico massacre na Praça das Três Culturas de Tlatelolco, ocorrido em 2 de outubro de 1968, dias antes do início dos Jogos Olímpicos do México. Segundo grupos de direito humanos, o massacre deixou uns 300 mortos, a maioria estudantes, como registrou na época a premiada repórter Oriana Falacci nas reportagens que produziu dentro do olho do terremoto.

A cantora argentina fala da enfermidade, que a obrigou a recolher-se por longa temporada: “Cheguei a estar muito grave, em 97 os médicos entravam e saiam de minha casa sem saber o que eu tinha”. Mas aproveita para desmentir a quem anda espalhando por aí que este seja o seu giro de retirada dos palcos: “Nada disso”, reage. Bemvinda, Mercedes! Siempre.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitors.h@uol.com.br

out
03
Posted on 03-10-2009
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 03-10-2009

Lula e Pelé: emoção à flor da pele…
pelula
…que invadiu o Rio
BRAZIL-OLY2016-RIO DE JANEIRO
===============================================
ARTIGO DA SEMANA

AS FACES DA VITÓRIA DO RIO

Vitor Hugo Soares

Semana passada, no plenário da ONU, o presidente Lula reeditou o antigo “sapo barbudo” das lutas sindicais e políticas na região do ABC paulista nos anos 70. De cara amarrada e palavras duras, ele atacou os golpistas de Honduras, garantiu abrigo a Manuel Zelaya na embaixada brasileira em Tegucigalpa, defendeu o direito de retomada do posto de governo pelo presidente eleito, usurpado pelas armas. Em seguida, retomou as vestimentas franciscanas, que lhe têm caído como luva nesta década, para ajudar a produzir , ontem, uma vitória histórica para a América do Sul.

Em Copenhague ele jogou mais um papel tão crucial quanto arriscado. Desta vez, porém, optou estrategicamente pela face do “Lulinha paz e amor”. Assim o presidente do Brasil desfilou esta semana sob o céu da Dinamarca. Cenário sheakespeariano cheio de paixões trágicas e desencontradas; manobras muitas vezes desleais e mal-encobertas; conspirações e traições sem fim de todo lado. Neste cenário Lula entrou de corpo, alma e convicção, mas vestido de modéstia , na defesa vitoriosa do Rio de Janeiro para sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

Nesta refrega internacional entre Rio, Madri, Chicago e Tókyo, dá gosto e comove ver a imagem de Luiz Inácio Lula da Silva que a televisão transmite de Copenhague para o Brasil e para o planeta inteiro interessado no desfecho da disputa encarniçada. Com o auditório repleto de celebridades mundiais de todos os esportes, das artes, dos negócios e da política, é praticamente impossível – a não ser por cegueira ideológica ou preconceitos inqualificáveis -, não ser contagiado pela emoção do ex-operário metalúrgico no seu terno azul e elegante gravata nas cores da bandeira nacional, que está na tribuna.

“Essa candidatura não é só nossa, é também da América do Sul, um continente com quase 450 milhões de homens, mulheres e cerca de 180 milhões de jovens, um continente que nunca realizou os Jogos Olímpicos. Está na hora de corrigir esse desequilíbrio. É hora de acender a pira olímpica em um país tropical, na mais linda e maravilhosa cidade: o Rio de Janeiro”, dispara Lula, com pontaria política e diplomática de um campeão olímpico de tiro.

Apesar dos argumentos convincentes e irrespondíveis, esta não foi uma missão fácil. O presidente, Pelé, o governador, o prefeito do Rio, o cineasta Fernando Meirelles com seu filme de beleza e apelo irrecusáveis, além de todos os mais diretamente envolvidos nesta batalha da Dinamarca – e não são poucos – seguramente sabiam disso. E se não sabiam, basta ver a reportagem que o jornal espanhol El Mundo publicou ontem, assinada pelo repórter Fernando Mas.

O texto mostra primorosamente como o Hotel Marriot, nas margens de um dos principais canais de Copenhague, se transformou nesses últimos quatro dias, no centro das conspirações olímpicas. A caça e conquista do voto definitivo era a missão de todas as delegações que buscavam até a tarde de ontem, converter-se na sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Assinala o jornal de Madri:

“O rei Juan Carlos de Espanha em uma suíte. A rainha Sofia em outra. Zapatero em uma terceira. Todos no sétimo andar do Marriot. O sexto andar está reservado para os negociadores brasileiros, com Lula da Silva à frente. Os delegados que visitavam as suítes do sétimo andar eram reclamados em seguida num piso mais abaixo. O terceiro, onde atuava Michelle Obama, a desenvolta primeira-dama dos Estados Unidos”, conta o texto de El Mundo.

Michelle comandou as negociações em favor de sua cidade, até o presidente Obama desembarcar na Dinamarca, na undécima hora, para as manobras do inútil esforço final em favor de Chicago, cuja população parece não chorar muito a derrota, assim como os habitantes de Tókyo, cidade do oriente que já abrigou uma Olimpíada.

O Rio venceu! Viva o Rio! Nenhum lugar de mundo merecia mais este triunfo magnífico. A vitória não será em vão, mas cobra, a partir de agora, o cumprimento das emocionadas e, seguramente, decisivas palavras do presidente brasileiro em Copenhague: “Os que nos derem essa chance não se arrependerão. Os jogos no Rio serão inesquecíveis (…). Para o movimento olímpico será a chance de sentir o nosso sol. Será a chance de falar para o mundo que a Olimpíada é de todos”.

Bravo! “Viva a sua paixão”, como recomenda o maravilhoso e também decisivo filme de Fernando Meireles mostrado ontem em Copenhague para o mundo. Viva o Rio, com sua gente tão maravilhosa quanto a cidade.

E viva a América do Sul, outra grande vitoriosa de ontem na Dinamarca.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

set
30
Posted on 30-09-2009
Filed Under (Artigos, Multimídia, Vitor) by vitor on 30-09-2009


==================================================
Deborah Kerr
No dia 30 de setembro de 1921, na cidade escocesa de Helensburg, nascia aquela que será lembrada para sembre como uma das atrizes mais elegantes do cinema em todos os tempos: Deborah Jane Kerr-Trimmer , a diva Deborah Kerr, que estaria festejando hoje 88 anos.

Ela começou como bailarina, mas sempre de olho também no teatro, apresentando-se ainda na cidade sua Escocia natal em adaptações de Shakespeare. Mas seu destino, para deleite de milhões de admiradores espalhados no mundo inteiro, seria mesmo o cinema, onde fez sua estréia em 1940, no filme “Nas Sombras da Noite”, dirigido pelo mestre Michael Powell. Depois atuou numa série de produções inglesas e teve ainda a oportunidade de ser dirigida novamente por Michael Powell e Emeric Pressburger em “Narciso Negro” (1947) e “Coronel Blimp” (1943). Em 1947, a atriz faz seu primeiro filme americano, “Mercador de Ilusäes”, ao lado de Clark Gable.

Daí em diante, a bela e notável atriz participou de produções marcantes e em papéis inesquecíveis, a exemplo do musical, “O Rei e Eu”. No cultuado, “Tarde Demais Para Esquecer” (1957), de Leo McCarey, contracenando com outro s¡mbolo de elegância, Cary Grant. Em um dos melhores filmes de terror já realizados, “Os Inocentes” (1961), de Jack Clayton, inédito ainda em v¡deo no Brasil e ainda, “A Noite do Iguana” (1964), de John Huston, outro inédito. Quem não guarda na memória uma lembrança cinematográfica de Kerr?

Como tributo no aniversário da diva sempre lembrada, Bahia em Pauta escolheu uma um vídeo  com diferentes desempenhos de  Deborah durante  sua trajetória na fabulosa sétima arte, em qualquer tempo, com a música tema do filme  Tarde Demais para Esquecer, em primorosa execução com piano e orquestra. Um presente para o quem gosta de cinema e de Deborah Kerr. Confira.

(Postado por Vitor Hugo Soares )

set
26
Posted on 26-09-2009
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 26-09-2009

O Lula da ONU…
lulonu
—————————————————————-
…E o Lula da camiseta
pasquim

=================================================
ARTIGO DA SEMANA

A CAMISETA DE LULA E A ONU

Vitor Hugo Soares

Foi um impacto, não nego. A câmera da televisão enquadrou a cara enfezada de Luiz Inácio Lula da Silva com toques de algum aprendiz americano do baiano Glauber Rocha. Era quarta-feira, 23 de setembro de 2009 e o presidente do Brasil caminhava para a tribuna onde faria, por praxe diplomática, o primeiro discurso na abertura da 64ª Assembleia Geral das Nações Unidas – proeminência da qual o dirigente brasileiro soube tirar proveito como raramente se viu naquele pedaço globalizado de Nova Iorque.

Mesmo metido em terno de corte impecável, cabelo e barba agora tomados de incontáveis fios brancos – mas aparados e cuidados por bom barbeiro de Brasília ou de São Bernardo – a imagem que a TV mandava para o mundo, empurrava a memória para São Paulo de uns 30 anos atrás.

A cidade onde em cada esquina se vendia aquela camiseta de algodão, com o desenho do então líder dos operários metalúrgicos do ABC. Lula com pinta de “sapo barbudo”, como definiu o gaúcho Leonel Brizola ao retornar do longo exílio decorrente do golpe que derrubou o governo democrático do presidente João Goulart. Na camisa, o desenho do rosto do então líder operário de cabelos desgrenhados, cara amarrada, e o aviso escrito em tom vermelho: “Não mexa comigo. Hoje eu não tô bom!”

Lembram? Até em Montevidéu e Buenos Aires vi algumas delas penduradas nas barracas da feira de San Telmo e nos quiosques da Corrientes ou, do outro lado do Rio da Prata, na Avenida 18 de Julio, onde ainda era possível tropeçar com exilados brasileiros em cada esquina, mesmo depois da expulsão de Brizola para os Estados Unidos, pelos ditadores da turma da Operação Condor que mandavam por lá.

Mas o que quero mesmo dizer é: raras vezes nos últimos tempos Lula esteve tão parecido com o cara da camiseta, como nesta semana, em Nova Iorque. É só conferir as imagens – o que não é fácil, porque a mídia brasileira (especialmente os jornais impressos e as grandes redes de TV), cobriu o assunto com displicente e estranha má vontade. Quase sempre em tom irônico ou abertamente ofensivo em relação às vítimas do golpe e benevolente, para dizer o mínimo, com os golpistas.

Vale observar que Lula modificou de última hora sua fala do chefe de Estado sobre temas mundiais mais candentes – como a crise financeira que amedrontou o mundo e o aquecimento global que ameaça o futuro do planeta – para introduzir um tema tipicamente latino-americano. A velha e sempre daninha tentação golpista contra regimes democráticos e as liberdades fundamentais no continente.

Esta questão, que parecia superada, foi retomada em junho passado, a partir da surpreendente, audaciosa e violenta deposição do presidente eleito de Honduras. Sob o argumento que tentava convocar um plebiscito para mudar a constituição e poder disputar um segundo mandato, Manuel Zelaya foi tirado da cama de madrugada, de pijama, com armas apontadas para sua cabeça por militares emcapuçados. Levado à força para o aeroporto, foi posto dentro de um avião e expulso de seu país e do governo legitimamente conquistado.

Episódio que agora recrudesce com consequências imprevisíveis, a partir do retorno do presidente – de surpresa para o ditador civil posto em seu lugar – , abrigado na embaixada brasileira em Tegucigalpa, em meio a cortinas de fogo e fumaça que o episódio levanta. Lula, o primeiro a gritar na primeira hora do golpe, não muda de tom.

Na ONU defendeu a imediata recondução do presidente eleito de Honduras ao cargo e exigiu a inviolabilidade da embaixada brasileira como preliminar para outras negociações legais e diplomáticas. Disse de forma clara e com a expressão apropriada, que se o fórum mundial em geral, e em particular o Conselho de Segurança não tomar uma posição firme desta vez sobre a crise em Honduras, outros golpes se seguirão.

“Não somos voluntaristas. Mas sem vontade política não se pode enfrentar e corrigir situações que conspiram contra a paz, o desenvolvimento e a democracia… A comunidade internacional exige que Zelaya reassuma imediatamente a Presidência de seu país e deve estar atenta à inviolabilidade da missão diplomática brasileira na capital hondurenha”, disse o presidente.

Ontem, em Pittisburgh, onde desembarcou para a reunião do G-20, o presidente não baixou s voz. Insiste na urgência do Conselho de Segurança da ONU entrar com firmeza no caso, “pois os golpistas estão exagerando, estão quase exigindo que o presidente eleito democraticamente peça desculpas por estar em Honduras”.

E reservou as farpas finais para os que seguem firmes nas teorias de conspiração do Brasil mexendo os cordões em Honduras, ou priorizam nos espaços de informação mais o chapelão de Zelaya que a efetiva cobrança de responsabilidade dos que tocam, de fato, esta nova aventura golpista na América Latina.

“Vocês vão ter que acreditar num golpista ou em mim”, disse Lula, ainda sem tirar a camiseta dos anos 70.

Façam suas apostas.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Pages: 1 2 ... 9 10 11 12 13 14 15 16

  • Arquivos

  • dezembro 2019
    S T Q Q S S D
    « nov    
     1
    2345678
    9101112131415
    16171819202122
    23242526272829
    3031