mar
27
Posted on 27-03-2010
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 27-03-2010

Tupinambas:”mais juizo que cacauicultores”

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ARTIGO DA SEMANA

NO VESPEIRO BAIANO

Vitor Hugo Soares

Com a ministra Dilma Rousseff a tiracolo, o presidente da República desembarcou em Ilhéus nesta sexta-feira. Coração da região cacaueira, onde Luiz Inácio Lula da Silva pisa pela primeira vez em seu segundo mandato, apesar da Bahia ser um dos solos mais frequentemente visitados por ele, que não se cansa de repetir a crença espírita de que um dia em outro tempo viveu por aqui, o que o faz enxergar o lugar (por sentimento humano ou estratégia de político) como talismã eleitoral, mesmo nas vezes em que foi derrotado em pleitos nacionais.

Ontem, Lula sofreu picadas como raras vezes ao andar pelo vespeiro baiano em que transformou-se a disputa sucessória presidencial atrelada ao embate sem trégua pelo Palácio de Ondina, onde Jaques Wagner deseja permanecer mais quatro anos. O problema é que o esquentado ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), o ex-governador Paulo Souto (DEM), nascido, bem votado e com largo trânsito na zona do cacau, e até o deputado verde e ex-petista, Luiz Bassuma, também estão de olho no “palácio das cigarras”, como dizia o cronista Raimundo Reis, e cavam buracos para afundar o governador.

No caso do ministro Geddel, só uma preocupação: bombardear Wagner sem derrubar os dois palanques de Dilma Rousseff no Estado. Situação que deixa Lula visivelmente constrangido, como o próprio presidente confessou há duas semanas, ao visitar Juazeiro, na região do Vale do São Francisco. Constrangimentos repetidos ontem na inauguração do Gasene, em Itabuna, e nos atos administrativos, mas principalmente políticos e eleitorais na vizinha Ilhéus, a terra de Gabriela e dos antigos e poderosos coronéis do cacau do sul do Estado.

Na véspera, em Brasília, o pleno do Superior Tribunal Eleitoral condenou Lula a pagar multa de R$ 5 mil por fazer campanha fora de hora, ou passando por cima de normas legais, se preferirem. Ainda assim, nada capaz de de assustar o condutor da marcha de Dilma à sua sucessão. No comício de quinta-feira em Osasco – inauguração de obras do PAC -, o presidente até brincou com a decisão e sugeriu que quem deve pagar a multa por sua infração: “vou mandar a conta da multa para vocês”, disse Lula, enquanto a plateia gritava ao fundo o nome de sua candidata.

Assim, Lula e a ministra desembarcaram com ar cansado mas aparentemente tranquilos no sul da Bahia na manhã de ontem, acenando com novas bandeiras. Não as flâmulas rubras do PT das companheiras metalúrgicas do ABC, mas as do Gasene (Gasoduto de Integração Sudeste-Nordeste), abertura das licitações para construção da ferrovia Leste-Oeste, e novos afagos da “mãe Dilma” em relação ao PAC do Cacau, de inegável apelo político e eleitoral na região visitada.

Afinal, alimenta sonhos e fantasias de reabilitação da economia da lavoura cacaueira devastada nas últimas duas décadas pela praga “vassoura de bruxa” e pela terceira geração de “empresários da cacauicultura” (às vezes pior do que praga que atinge e seca a plantação, segundo historiadores locais), viciados nas tetas dos empréstimos dos bancos públicos (e privados também), e no perdão paternalista das dívidas por sucessivos governos estadual e federal.

Além das vespas representadas pelos políticos com os quais terá de lidar nessa passagem em região conflagrada, Lula e Dilma atravessam zonas cercadas de boatos de que terão de enfrentar desta vez uma série de protestos, “puxados por fazendeiros de cacau, índios tupinambás e policiais civis e militares”.

Na verdade, os empresários do cacau brigam por mais uma mamata do governo federal: querem a anulação de uma dívida superior a R$ 400 milhões, relativa às duas primeiras etapas do Plano de Recuperação da Lavoura, implementado na década passada. Segundo alegam os cacauicultores, a própria Ceplac, órgão federal de apoio à lavoura, reconheceu erros nas recomendações repassadas aos produtores para conter a praga da Vassoura-de-Bruxa.

Quanto ao protesto dos indios, foi necessário a comitiva presidencial ter cautela apenas com algumas bordunas. Os índios de verdade foram praticamente todos dizimados na região do Descobrimento e no sul baiano, em luta desigual e marcada pela omissão dos governos, da polícia e dos políticos, pelos próprios pioneiros da cacauicultura e seus jagunços, como está nos livros de Jorge Amado ou nos filmes de Glauber Rocha.

Apedrejado na região que visitou pouco antes de morrer, o falecido cacique Juruna, do gravador, desabafou em desalento diante do que viu por lá: “Aqui não tem mais índios, só tem caboclos”.

E ferroadas de vespas. Muitas vespas!

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

mar
20
Posted on 20-03-2010
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Ciro esquenta disputa presidencial

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ARTIGO DA SEMANA

SAI DE BAIXO QUE LÁ VEM CIRO

Vitor Hugo Soares

Fixo minha parabólica baiana de mais longo alcance na direção do sul do País e sintonizo em São Paulo. Mais exatamente na página principal da revista digital Terra Magazine, onde o editor-chefe e repórter em tempo integral, Bob Fernandes, que vi dar os primeiros passos na redação da sucursal do JB (rádio e jornal), em Salvador – e depois andar a passos cada vez mais largos com Ricardo Noblat, na revista Veja – faz o que mais gosta e sabe: jornalismo político.

Bob levanta a lebre escondida sob os tapetes elegantes do PSB. Destampa o caldeirão de uma trama ainda meio submersa mas já com a cauda de fora quanto aos objetivos: afastar o mais rapidamente possível a candidatura à presidência da República do deputado Ciro Gomes (PSB-CE), sempre inquieto, imprevisível, língua solta. Isso significaria manter a campanha que se aproxima restrita ao governador de São Paulo, José Serra, e a ministra petista Dilma Rousseff. A Verde senadora Marina Silva correndo bem por fora para emprestar credibilidade internacional à disputa.

Assim a campanha poderia rolar praticamente o tempo inteiro no planejado estuário insosso, livre de surpresas, sem debates que mereçam este nome. Típico das disputas plebiscitárias tão do agrado das forças que contam de fato e que seguram as rédeas da política e da economia cabocla. Bem na linha leopardiana da transição do Império para a República na Itália: “É preciso mudar alguma coisa para deixar tudo como está”.

O problema – se é que isso é mesmo um problema – é que Ciro Gomes parece decidido a “melar” os planos de petistas e tucanos na sucessão presidencial, para usar uma expressão bem ao estilo do político cearense, personagem principal destas linhas.

Na Bahia, há uns dois meses, já dava para desconfiar Do jogo para apresentar Ciro como um estorvo maior que o da trama do livro de Chico Buarque. Desde os primeiros movimentos das pedras no Estado com vistas às composições para a sucessão de Lula, no Planalto, e do governador Jaques Wagner, em Ondina, circulavam no ar aqueles ruídos de fuxico bem sertanejo, onde se conta a história e a fonte permanece escondida no escuro.

Esta semana, porém, Terra Magazine desencavou peças fundamentais do tabuleiro da história que mistura malandragens com ameaças explícitas de traição ao socialista de Sobral, rápido no gatilho e eficiente (embora desastrado às vezes quando exagera no ataque como aconteceu em campanha passada no pega com um ouvinte da Rádio Metrópole em Salvador) tanto no debate quanto no bafafá.

Ciro Gomes reúne em um mesmo personagem a sagacidade e capacidade de argumentação dos acadêmicos treinados em política e economia na Universidade de Harvard, aliado ao instinto de caubói de faroeste que não nega nem as origens nem o jeito de falar sertanejos, embora tanto se esforcem para fazer dele um paulista talhado para governar o Estado mais rico do País.

Esta semana, quando o jornal Valor Econômico perguntou por que ele transferiu o título de eleitor para São Paulo, foi direto ao ponto: “Porque Lula pediu”.

De volta a Terra Magazine: desde a última terça-feira crescem as informações e também rumores dos movimentos dentro do PSB a favor e contra a manutenção da candidatura de Ciro Gomes à presidência da República. A reação mais emblemática veio de Pernambuco, no comentário do governador Eduardo Gomes – neto dileto de Miguel Arraes e uma das lideranças mais ilustres dos socialistas no País – a propósito de opiniões de Ciro sobre as alianças do PT na sucessão.

Eduardo Campos afirmou que o colega de partido tem “um jeito de falar” diferente do seu e que conversariam em Brasília. Não se sabe ainda se a conversa de fato ocorreu, ou se morreu no ar e na distância que separam o Crato (CE) e Carpina (PE) do Planalto Central.

É preciso esperar as próximas falas, para verificar se houve alguma mudança no jeito de Ciro Gomes sacar a sua espingarda verbal. Enquanto isso vale escutar o que disse o senador Renato Casagrande (PSB-ES), 49 anos, um dos entusiastas da candidatura Ciro, “sobre o rumo dos ventos”, como assinala Bob Fernandes na apresentação da entrevista.

-… Para ser franco, o partido está em dúvida, tremenda dúvida se deve ou não ter Ciro como candidato à presidência da República.

O que fazer, então? Afinal, como reconhece Renato Casagrande, “não dá pra tirar assim, sem nada, um candidato que tem 10%, 11%, 13% de intenção de voto.”

Voltamos então à clássica questão da fábula da assembléia dos ratos:

Quem terá a coragem de colocar a sineta no pescoço de Ciro Gomes, para avisar a tucanos, petistas e socialistas sobre o perigo de sua presença?

Um queijo para quem acertar no palpite.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail:vitor_soares1@terra.com.br

mar
14
Posted on 14-03-2010
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 14-03-2010

Lula e Wagner juntos no Oriente Médio

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BAHIA EM PAUTA COMENTA:

O relato de Josias de Souza,  da Folha,  postado anteriormente neste BP,  está quase perfeito nas informações de bastidores e análises. Mas vale pontuar alguns aspectos bem regionais, que podem ecoar nacionalmente.

No caso da Bahia, cairá em erro grosseiro quem tentar reduzir o governador petista, Jaques Wagner, a simples amigo do presidente. Bem mais que isso, Wagner é tido, também,  como um dos melhores negociadores políticos do PT, saído da velha escola sindicalista de Lula, e aprofundado no Polo Petroquímico de Camaçari. Nesse particular, os dois se entendem por música. E em “otras cositas más”.

E não é preciso apurar os ouvidos para saber que o governador é considerado um dos nomes estratégicos para os embates políticos e eleitorais que estão a caminho.

Ah, não custa lembrar, também, que Wagner foi escolhido a dedo, por indicação presidencial, para compor a comitiva que embarcou ontem para o Oriente Médio, com agenda das mais delicadas a ser cumprida.

Judeu, o “galeguim dos óio azul”, como Lula o chama na intimidade, é bom de conversa e, em geral, nada ortodoxo. O convite à Jaques Wagner “se apóia, dentre outras razões, no relacionamento do Governo do Estado com Israel, por conta da visita do presidente Mahmoud Abbas,  à Bahia, e ao encontro que o governador promoveu entre integrantes da Sociedade Israelita da Bahia e o presidente Abbas –  que teve o intuito de demonstrar ” exemplo de convivência harmoniosa entre judeus e palestinos no Brasil”, assinala um comunicado distribuído pela Agecom-BA em seguida ao embarque de Wagner.  Mas não é só isso. É isso e muito mais!

Além dos temas internacionais, seguramente, não faltarão na viagem momentos de conversas – e acertos- sobre política caseira.

Pena o ministro Geddel, do PMDB, não cultivar barba nem bigode, pois assim poderia colocá-los de molho desde já.

(Vitor Hugo Soares ).

mar
13

Bachelet: honras e aprovação

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ARTIGO DA SEMANA

BACHELET: ESTATURA DE UMA ESTADISTA

Vitor Hugo Soares

De passagem por Buenos Aires, em 1986 (acho que o mês era abril), vi no antigo e bem cuidado teatro da Avenida 9 de Julio, bem próximo ao Obelisco das grandes celebrações portenhas, uma apresentação histórica dos rapazes do grupo chileno Quilapayún. A exemplo de milhares em seu país, eles cumpriam a diáspora do exílio sem lugar certo no mundo, arrostando – como Michelle Bachellet e família – a condição de perseguidos implacavelmente pelo regime de Pinochet.

Jamais esqueci aquela noite e lembro dela enquanto pela CNN em espanhol acompanho o novo abalo de 7,2 de intensidade na escala Richter, que faz o chão de Santiago tremer enquanto pessoas correm em desespero pelas ruas em busca de abrigo seguro.

A imagem retorna para o imenso salão no início dos atos de posse de Sebastian Piñera, que treme dos lustres ao solo e amedronta chefes de estado, autoridades e convidados presentes à cerimônia. Nesse momento a presidente sai, atravessa o salão com passos firmes e destemidos. Sorri e todos ficam em pé no salão. Aplausos explodem para Bachelet, que caminha para passar a faixa presidencial ao vencedor da recente eleição presidencial, seu adversário político.

A memória retrocede a Buenos Aires outra vez: como esquecer as reações emocionadas e sempre calorosas do público que lotava todos os espaços do majestoso treatro e deram àquele espetáculo musical um caráter simbólico e único de resistência e generosa solidariedade. Imortalizado no disco vinil “Quilapauyun en Argentina”, que um querido amigo baiano remasterizou em CD que guardo até hoje em lugar especial de minha discoteca.

Naquele tempo o Brasil vivia de costas para seus vizinhos do continente, enquanto o líder metalúrgico do ABC, Luiz Inácio da Silva, o Lula, brigava: preso uma vez, não só fez greve de fome, mas pregava a prática como bandeira de luta contra os amordaçamentos da ditadura. Hoje proclama arrependimento, mas o fato é que apesar do isolamento continental de então, seu grito teve mais eco que o do pobre operário cubano Orlando Zapata Tamayo, que morreu à mingua em Havana, depois de mais de 80 dias sem se alimentar. Sem merecer uma palavra de misericórdia do companheiro Lula, muito ao contrário.

Tanto quanto a música de maior sucesso dos rapazes do Quilalapayún: “El Pueblo, unido, jamás será vencido”, embora minha canção preferida do grupo sempre tenha sido “Mi Pátria”. Um canto potente de exaltação ao Chile vulcânico, telúrico, com seus desertos escaldantes, lagos deslumbrantes, montanhas nevadas. Além de um povo educado, generoso e hospitaleiro que só vendo para acreditar.

Acho que me perdi um pouco nas trilhas dos lugares de minhas paixões na América Latina. O que desejava mesmo, desde o começo, era falar da socialista Michelle Bachelet e de sua despedida do governo do Chile, embora não da política chilena, onde acredito sua presença será cada vez mais intensa e decisiva. Afinal, apesar do terremoto, ela deixa o governo com mais de 80% de aprovação popular, segundo a pesquisa mais recente.

Com a palavra Bachelet, na entrevista fora de agenda, publicada no jornal independente La Tercera, enquanto sob aplausos intensos ela pisava o tapete vermelho que a conduzia para fora dos muros do Palácio la Moneda: “Estou muito emocionada com este carinho e por estes aplausos (…) Há quatro anos entrei pela porta que está às costas de vocês e vinha rodeada de meninos, pequenos cidadãos que entravam pela primeira vez no La Moneda ”.

“Agora vou sair pela porta grande, vou sair triste pela dor de nossa gente, mas também vou sair com a fronte erguida, satisfeita pelo que conseguimos fazer, tranquila porque colocamos todo nosso maior empenho em fazer as coisas bem feitas. E contente também porque esta Moneda nunca mais será a casa dos presidentes, mas a casa dos presidentes e das presidentas do Chile e isso também nos faz um país melhor”.

Diante dos gritos que pediam para que seja candidata em 2014, a Presidenta explicou: “Hoje é nosso último dia, isso é o que importa, e não façamos política de ficção”. Mais palmas.

Em seu famoso Decálogo do Estadista, o saudoso deputado Ulysses Guimarães não traça explicitamente o perfil de nenhuma mulher. Mas é certo que Bachelet se encaixa com perfeição em vários mandamentos – Vocação, Talento, Caráter, Paciência – e principalmente no primeiro: Coragem.

Diz Ulysses: “O pusilânime nunca será estadista: Churchill afirmou que das virtudes, a coragem é a primeira. Porque sem ela, todas as demais, a fé, a caridade, o patriotismo desaparecem na hora do perigo. Há momentos em que o homem público (a mulher também) precisa decidir. Sem Coragem não o fará”.

Até mais ver, corajosa Bachelet. Espero que em Santiago ou em Concepción restaurada.
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Despedida da sacada de La Moneda

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Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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mar
09
Posted on 09-03-2010
Filed Under (Artigos, Multimídia, Vitor) by vitor on 09-03-2010

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Pode parecer bobagem editor ou mera impressão de amigo, mas o fato é que nesta primeira semana do desaparecimento do jornalista e editor político da Tribuna da Bahia, Janio Lopo, coisas estranhas andam acontecendo pelas bandas do Bahia em Pauta. Coisas aparentemente banais mas que deixam grilado o editor.

Por exemplo: na manhã desta terça-feira decidi fazer uma correção simples do nome da querida colaboradora de Brasília, Mariana Soares, que sugeriu a música “Essa Mulher” para ontem, em dueto que nunca existiu entre Ellis Regina e sua filha, Maria Rita, mas que a tecnologia tornou possível.

Tentei muitas vezes e não consegui mais recuperar o vídeo de ontem, mas achei um parecido postado no You Tube por Jardelterrível, que também teve a feliz ideia de produzir um vídeo com o dueto Ellis-Rita, postado no You Tube em março de 2009.

Jardel diz:”Há 4 dias atrás foi o dia internacional da mulher. Então fiz uma edição da Elis cantando “Essa mulher” no programa da “Série grandes nomes”, da Rede Globo, e Maria Rita cantando no especial “Por toda minha vida”, da Ellis-Ritamesma emissora. Espero que gostem”.

Bahia em Pauta agradece a Jardel pela idéia e execução do vídeo, e a Mariana pela sugestão da música fabulosa.

BP não conseguiu recuperar as mensagens, mas espera que seus autores a postem novamente.Obrigado.

EM TEMPO: Fontana, o parceiro de todas as horas do BP, acaba de encontrar o vídeo de Million que perdi em alguma esquina da web, e mandou para o site blog baiano de olho no mundo. Posto então as duas versões e recomendo visita essencial ao Blogbar do Fontana ( http://fontanablog.blogspot.com/ ) porto seguro de quem gosta de boa música, poesia de primeira, o que vai pelo mundo da arte e da cultura e bebida não “batizada” , pois como diz o grande Ascenso Ferreira, “hora de comer, comer/hora de beber, beber/ hora de trabalhar, pernas pro ar/ que ninguém é de ferro”.

(Vitor Hugo Soares, editor)

mar
06
Posted on 06-03-2010
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 06-03-2010

Bachelet: dor na despedida

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ARTIGO DA SEMANA

LÁGRIMAS DE MICHELE BACHELET

Vitor Hugo Soares

Uma noite vi a terra tremer também em Santiago. Os anos 80 caminhavam para o fim e, de férias do Jornal do Brasil, estava hospedado com Margarida (então repórter de A Tarde, na Bahia) em um hotel tradicional a menos de 200 metros do Palácio La Moneda, já restaurado e livre da presença do general Augusto Pinochet, que o havia mandado bombardear no dia da morte do presidente Salvador Allende.

Era madrugada e fazia frio, havia andado o dia inteiro por montanhas da Cordilheira, tomando pisco e vinho. Caí como um saco de cimento na cama e peguei no sono. Despertei aos poucos como quem sai de um sonho. O quarto balançava de leve e a sensação era a de estar deitado em colchão cheio de água, quase flutuando. Efeito do pisco?.

Só pulei de vez do leito quando vieram os primeiros gritos da rua e os sussurros de outros apartamentos e corredores do hotel. Então despertei e o instinto – ou a curiosidade de jornalista – me empurrou, como recomendam os melhores manuais de sismos, para debaixo da pilastra de uma das janelas do quarto.

Abri a janela ainda a tempo de ver as luzes que tremiam com os postes no cerro de San Cristobal, à distância. Espetáculo de beleza telúrica, mas apavorante ao mesmo tempo. E, embora felizmente fugaz neste caso, absolutamente inesquecível para o turista acidental. Logo os tremores cessaram, sem deixar vítimas humanas ou vestígios de destruição. No dia seguinte, os chilenos quase não falavam do assunto em suas conversas habituais, a não ser se interrogados sobre o fenômeno da madrugada. As TVs e rádios faziam apenas referências rápidas. E ponto final.

Nada nem de longe parecido com a tragédia monumental desta semana no Chile, no tristonho final do governo da socialista Michelle Bachelet, que tem mais de 70% de aprovação nas pesquisas de opinião pública, não conseguiu eleger o sucessor. Na próxima quinta-feira, será substituída pelo conservador Sebastián Piñera. Este, empresário e amigo da velha casta e herdeiros de militares do tempo de Pinochet e dos saudosistas civis de seu regime, que não são poucos.

O violento terremoto de 8.8 graus na escala Richter, seguido de pavoroso e mortal tsumani na costa chilena do Pacífico, já havia custado até ontem a vida de 802 pessoas, deixado mais 2 milhões de chilenos ao desabrigo. Gente apavorada que sai correndo em desespero para as montanhas próximas a cada repique de tremor ou aviso de tsunami nas áreas portuárias e históricas de Concepcion. Até o famoso Festival Internacional da Canção de Viña del Mar, cidade próxima à área do epicentro do sismo da semana passada, foi suspenso.

As imagens que as cadeias internacionais de televisão e seus repórteres na área do desastre e comentaristas competentes no estúdio – em especial a CNN em espanhol – tem mostrado diariamente, são desoladoras: regiões inteiras em ruínas, monumentos históricos destruídos de Santiago a Concepcion, carros nos precipícios dos viadutos e modernas rodovias destruídas; famílias perdidas e desesperadas em busca de filhos, maridos, pais e mães desaparecidos. Saques, pilhagens, prisões, militares de volta às ruas de um país convulsionado e dividido às vésperas da saída de Bachelet e da chegada de Piñera ao poder.

Infraestrutura arruinada, prejuízos financeiros imensos no país mais desenvolvido da América Sul e um dos mais belos e civilizados do continente, que já produziu dois Nobel de Literatura: Gabriela Mistral e Pablo Neruda.

O primeiro levantamento apresentado na CNN indica que serão necessários mais de três anos – “talvez todo o período do novo governo” de Piñera, como disse a presidente em uma emissora de rádio na visita a Concepcion e Maule – e investimentos maciços com indispensável ajuda internacional coordenada pela ONU, para a recuperação dos desastres desta semana.

Agora com as operações de resgate e atendimento aos sobreviventes mais organizados, a descoberta de novos desaparecidos fez o número de mortos subir para 802 no Chile, informou ontem o Escritório Nacional de Emergências. As lágrimas rolaram de público pela primeira vez dos olhos de Bachelet ao transmitir a notícia à população e admitir em entrevista a uma rádio, que o número de mortos ainda pode subir.

Peço socorro à poesia do chileno maior, Pablo Neruda, na “Ode à Tristeza”, para terminar as linhas deste artigo:

“A tristeza não pode/entrar por estas portas.
Pelas janelas /entra o ar do mundo,
As rosas vermelhas novas,/ as bandeiras bordadas
do povo e suas vitórias. /Não podes./ Aquí não entras.
Sacode
tuas asas de morcego, / eu pisarei as penas
que caem de teu manto, / eu barrarei os pedaços
de teu cadáver/ até as quatro pontas do vento,/
eu te torcerei o pescoço,/ te coserei os olhos,/
cortarei tua mortalha /e enterrarei teus ossos roedores
debaixo da primavera de uma macieira”.

Bravo, poeta! O Chile sobreviverá!!!

Vitor Hugo Soares é jornalista.
E-mail: vitor_soares@terra.com.br

EM MEMÓRIA: Este texto é dedicado pelo autor à memória de JANIO LOPO, editor político da Tribuna da Bahia, que ontem nos deixou precocemente. Ficam para os amigos e colegas, como o que assina estas linhas, exemplos de competência, coragem e profunda dedicação ao seu ofício desde a juventude até a partida definitiva.A Bahia lamenta e chora a perda de um de seus melhores jornalistas.
(Vitor Hugo Soares)

Velório de Orlando Zapata Tamayo

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Raul Castro e Lula em Havana

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A nostalgia comovente de Célia Cruz

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ARTIGO DA SEMANA

NOSTALGIA DE HAVANA

Vitor Hugo Soares

Das caixas de som do computador explode a voz potente e marcante da cantora cubana Célia Cruz. No vídeo do YouTube ela interpreta pela enésima vez com a mesma força e o mesmo sentimento de sempre – pouco antes da partida definitiva – a dor de seu interminável exílio e da saudade que a distância de Havana lhe provoca. Algumas vezes, antes de morrer, ela disse ser esta uma das preferidas de seu repertório imenso e repleto de muitas das mais belas canções da América Latina: “Nostalgia Habanera”.

Traduzo para o leitor os versos que escuto em castelhano da letra do fabuloso bolero: “Sinto a nostalgia de voltar a ti, mas o destino manda que não pode ser/ Minha Havana, minha terra querida, quando eu poderei voltar a ver-te?… Eu não sei se voltarão aqueles tempos/ de quando eu procurava a tua lua no céu do Malecón?”.

Para Célia Cruz – ela deixou Cuba quando o regime do comandante Fidel Castro começou a entrar pelos primeiros desvios -, aqueles dias com os quais ela sonhava no bolero inolvidável não voltaram. Nem ela retornou a sua Havana querida, sequer a passeio. Morreu em Nova Jérsei, exilada nos Estados Unidos, aos 78 anos de idade e de muito sucesso no mundo inteiro, incluindo o Brasil, que visitou muitas vezes.

Para outro dissidente, Orlando Zapata Tamayo – “negro cubano, bom filho, operário, pobre, e valente cidadão a vida inteira”, como destacou esta semana sua mãe Reina Tamayo repetidas vezes com dor e orgulho – o destino parece ter sido mais cruel. Tamayo, de pouco mais de 40 anos, que preferiu ficar e gritar o seu protesto entre Olguin e Havana, também perdeu para sempre a lua do Malecón: o recanto poético e de histórica beleza na capital cubana pelo pôr-do-sol e pelas noites enluaradas.

Depois de cumprir 7 anos de cárcere dos 30 a que havia sido condenado por crime político de “desobediência civil” – com seguidas denúncias de maus tratos a ele e a mais de uma centena de “prisioneiros de consciência” – Zapata Tamayo morreu na última terça-feira, depois de 85 dias de uma greve de fome.

Após denúncias de grupos de defesa dos direito humanos, incluido a Anistia Internacional- AI, o preso foi levado às pressas para um hospital de Havana e colocado em tubos de soro contra a sua vontade. Mas já era tarde demais.

Célia Cruz pára de cantar e saio da frente do computador para passar água nos olhos vermelhos, provavelmente por causa de algum desses ciscos irritantes que nessas horas insistem em incomodar. De volta sigo no vício de todo blogueiro: navego por Havana e pelo mundo, via Internet, para observar reações diante do que acontece nestes dias mais nostálgicos que nunca em Cuba.

O país governador pelos irmãos Castro, como escuto em algumas entrevistas de rádio e TV mundo afora, ou nas páginas dos jornais nas edições online, que começam a noticiar a morte do preso político. Principalmente nos veículos de Madri, Paris, Londres, Nova Iorque e Lisboa.

Por aqui, como de hábito, notícias como esta, principalmente sua contextualização e repercussões sempre demoram mais a chegar, sabe-se lá porque cargas d’água. Mesmo quando o fato acontece no mesmo dia em que desembarca em Havana em “viagem de amizade e solidariedade ao governo e ao povo de Cuba”, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado de comitiva repleta de jornalistas de diferentes órgãos de comunicação, incluindo os oficiais.

Nos jornais do dia seguinte lá está a imagem dos sorrisos do presidente Lula em visita ao não menos sorridente comandante Fidel Castro, aparentemente vendendo saúde, depois da grave doença que o afastou do comando direto do País, transferido ao irmão Raúl. No encontro com Fidel, nenhuma palavra para publicação sobre a morte de Orlando Tamayo.

Mas fatos com tal gravidade cobram responsabilidades e explicações de governantes, principalmente nas circunstâncias dolorosamente trágicas da morte de Tamayo, e de sua forte repercussão mundial. Ainda mais quando está de visita a Havana um personagem simbólico das lutas e dos governos democráticos do continente – o presidente Lula. Ele formalmente lamenta a morte do preso, embora afirme não entender como ainda hoje alguém “se deixa morrer em uma greve de fome”, tipo de protesto que condena agora por já ter feito antes: “Por experiência própria”, como ressalta na entrevista mostrada de Cuba no Jornal Nacional, na TV Globo.

As imagens da americana CNN, no entanto, são mais contundentes. Mostram Raúl Castro em seu discurso gritado e nervoso – marcados pelos rictos de violência no rosto, e arrogância ameaçadora nos gestos mal contidos – tentando explicar a Lula ao seu lado e ao mundo inteiro, “que em Cuba ninguém morre por maus tratos”. A imagem do presidente do Brasil, na CNN, também é impressionante, por outro motivo: Visivelmente constrangido, Lula parece indeciso: não sabe se ri ou se chora diante do discurso patético do amigo e colega Raúl”.

Volto à voz de Celia Cruz, em “Nostalgia Habanera”: “Havana, quanto desejo voltar e ver tuas praias/ Havana, e voltar a ver tuas ruas a sorrir/ Havana, apesar da distância não te esqueço/ Havana, por ti sinto a nostalgia de voltar”. E o soluço saudoso, melancólico e emblemático do final: “Havana!”.

O cisco no olho volta a incomodar e desligo o computador.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

fev
20

Cardeal Magela: entre a ponte…

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…e o lema da Campanha da Fraternidade

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ARTIGO DA SEMANA

DEUS E O DINHEIRO NA TERRA DE MAMON

Vitor Hugo Soares

À medida que se distancia o barulho dos tambores e das guitarras elétricas nas ruas e avenidas dos muitos circuitos do carnaval baiano, fica mais fácil observar e escutar o que se passa em volta nestes dias de retirada da fantasia e dos santos cobertos de pano roxo, na Bahia e no País. Desde já, é possível dizer: muitos fatos e ruídos merecem atenção e reflexão, além do drama político que abala o Distrito Federal de Arruda, Paulo Octávio e a turma do chamado “Mensalão do DEM”.

A mudez dos sinos nos campanários da mística Salvador, imposto pelos ritos da Quaresma, facilitam também verificar: partem dos templos religiosos (católicos ou não) os sinais mais contundentes. O principal deles é bem nítido já nos preparativos do lançamento neste domingo, 21, da Campanha da Fraternidade, cujo tema este ano é “Dinheiro e Vida”.

Isso ficou visível nos cuidados e nas oscilações na entrevista coletiva do mineiro arcebispo de Salvador, Primaz do Brasil, Dom Geraldo Magela, para falar da parte prática da CF, de caráter ecumênico. O simples comunicado foi suficiente para levantar sinais de fumaça e de polêmica em muitos setores. Na política, nos governos, nas empresas. Dúvidas e suspeitas se levantam, aqui e ali, a começar pelo real significado de algumas palavras e indicações do Primaz do Brasil, ex-presidente da CNBB, em sua conversa com a imprensa na Quarta-feira de Cinzas.

Até a construção da controvertida ponte Salvador-Itaparica, empreendimento bilionário de projeto incerto e não debatido, veio à baila, e mereceu o apoio explícito do cardeal. Pelo tema em si, não é difícil prever o fuá que está a caminho, a partir deste domingo. No material da campanha, que será distribuído e debatido pelos fiéis nas paróquias de todas as dioceses do País, há motivos de sobra tanto para concordâncias, quanto para desavenças. Mais, provavelmente, para desavenças.

“Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”. Eis um desses motivos, escrito como lema em destaque no cartaz de promoção da CF-2010. O próprio cartaz não poderia ser mais emblemático e provocativo, em se tratando de campanha de cunho religioso e social. Nele, velas acesas sobre uma mesa aparecem cercadas de moedas.

Mais direto, impossível, principalmente porque a CF-2010 passou pelo crivo da Santa Sé desde setembro do ano passado. É sabido que o Vaticano não costuma ser tão direto em suas mensagens e palavras de ordem na maioria das vezes. A não ser em questões como o aborto ou a obrigatoriedade do celibato. Neste último caso, como se sabe, com inegáveis motivações do dinheiro desde as origens do impedimento do casamento dos padres católicos.

No lançamento da CF deste ano, na Bahia, quem lucrou de saída foi Wagner e seu governo. Como assinalou o jornal A Tarde, o governo baiano ganhou um aliado de peso na sua empreitada pela construção da ponte entre Salvador e Itaparica.

“Eu acho que vai ser bom. Temos muitas pessoas que usam a passagem pela ilha para ir mais para o sul do nosso Estado. Se tivermos uma ponte, o tempo e os custos da viagem vão ser abreviados”, argumentou o arcebispo primaz do Brasil em favor da ponte.

A obra, como destaca o jornal baiano, tem gerado um debate acirrado entre políticos, empresários e sociedade civil. A polêmica se aprofundou após o escritor João Ubaldo Ribeiro, natural de Itaparica, produzir um manifesto desferindo críticas ao projeto. O protesto ganhou projeção nacional e recebeu o apoio de artistas e intelectuais que também se posicionaram contra a ponte.

No mesmo dia da entrevista de Dom Geraldo, a discussão chegou (à noite), ao plenário da Assembleia Legislativa da Bahia, a bordo da mensagem do governo, levada pessoalmente por Jaques Wagner, que abriu generoso espaço em seu discurso na abertura do ano legislativo no Estado, para fazer veemente defesa da ponte de 13 km sobre a Baía de Todos os Santos.

Ah, é preciso ressaltar, a bem da verdade, que o Primaz do Brasil colocou o tema do dinheiro e da corrupção no País, no centro da sua entrevista de lançamento da CF. Deu destaque especial ao escândalo mais recente e ainda em andamento, que culminou na prisão do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, e no processo para o afastamento do vice, Paulo Octávio. “É o bendito dinheiro de quem o põe no bolso, põe na barriga, em não sei mais onde. São interesses partidários e de grupos que estão em jogo”, disse o arcebispo.

Dom Geraldo destacou a prisão do governador, mas ainda assim o o arcebispo mostrou-se descrente frente à impunidade em crimes de corrupção: “Vemos este mensalão e nos parece que não aconteceu nada. Eles sempre têm dinheiro para ter um habeas corpus, para sair da cadeia”.

Mesmo em relação à construção da ponte multibilionária, que ele abençoa, o cardeal pede vigilância. Admitiu que o empreendimento pode ser alvo de desvios e superfaturamento. “Essa obra vai ser muito valorizada, até acima mesmo do seu valor objetivo. Há o perigo de que certas empresas possam ser beneficiadas. Um benefício que vem em troca de corrupção”, alertou.

A Campanha da Fraternidade deste ano promete muito mais, no Brasil das metrópoles, mas sem tirar as vistas também da dinheirama que corre no País dos grotões.

A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail:vitor_soares1@terra.com.br

fev
13
Posted on 13-02-2010
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 13-02-2010

Cid Teixeira: Bahia passada a limpo

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CRÔNICA DA SEMANA


BRASIL, BAHIA E BAIANOS

Vitor Hugo Soares

Antes do desembarque no Carnaval de Salvador,  para circular em campanhas mal disfarçadas pelos camarotes e blocos mais fechados – e bem frequentados por políticos, empresários, governantes e celebridades da Bahia e do país, –  o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), e a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (ela já passa este sábado na folia baiana), presenças anunciadas nos circuitos da festa, deviam reservar um tempo para leitura atenta da entrevista do historiador Cid Teixeira à revista digital Terra Magazine esta semana.

Não se imagine um exercício intelectual e informativo recomendável apenas para candidatos à presidência e seus assessores políticos ou marqueteiros. A conversa do professor Cid com o repórter de TM, Cláudio Leal, com a participação especial do antropólogo da UFBA, Roberto Albergaria, é aconselhável para muito mais gente. Aula primorosa sobre poder no Brasil, política, Bahia e baianos para qualquer pessoa, essencial a quaisquer candidatos – o socialista Ciro Gomes (PSB) e a verde Marina Silva, inclusive.

Começa na apresentação do entrevistado aos leitores: achado digno de referência em termos de concepção de texto jornalístico, com contextualização perfeita e de imediato entendimento ( fora das divisas baianas), do perfil e da dimensão de Cid Teixeira em sua província e o elevado conceito que o intelectual desfruta no meio de seu povo.

Abre aspas:

“Um homem avista o casarão arruinado, no Centro de Salvador, e decide parar o carro, para contemplar os adornos.  Ao lado, um mestre de obras. Malemolente, encostado no tapume, ele vê o estranho sondar os desvãos do prédio em caquinhos.

– O que era isso aí?

E o operário responde:

– Não sei. Por que o senhor não pergunta ao professor Cid Teixeira?”

Fecha aspas e pausa para breve recordação:

Houve um tempo na Bahia – e não faz tanto tempo assim – em que qualquer dúvida mais intricada sobre religião, cultura, história, arte, política, futebol ou governo, ia bater nas portas de dois endereços: o Palácio Arquiepiscopal do Campo Grande (vendido e transformado em prédio de alto luxo chamado agora de “Solar dos Cardeais”), onde morava o cardeal Primaz do Brasil, Dom Avelar Brandão Vilela; ou na porta da casa do professor Cid Teixeira.

Nas redações dos jornais locais e sucursais dos grandes diários do país – incluindo o Jornal do Brasil, onde eu então trabalhava -, nas reuniões de governos, nas associações empresarias e até nas discussões de rua era comum ouvir-se, quando a dúvida insuperável se estabelecia: “Liga para esclarecer com Dom Avelar”. Ou o mais comum ainda hoje : “Liga e tira a dúvida com o professor Cid.”

Para saber mais sobre este homem, voltemos a Terra Magazine:

“Oitenta e cinco anos, a picardia dos séculos nos olhos em losango, o historiador Cid Teixeira ganhou o reconhecimento dos anônimos no programa radiofônico “Pergunte ao José”, no qual respondia a dúvidas sobre a história de Salvador e da Bahia. A simplicidade de seus relatos, sem espezinhar o vernáculo, revelava um humanista, um leitor de crônicas históricas e da literatura universal.

“O folclorista Câmara Cascudo se definia como ‘erudito de província’. E talvez Cid José Teixeira Cavalcante, nascido em 11 de novembro de 1924, seja também uma ave dessa espécie, pela despretensão da conversa e pela autoridade de intelectual à margem das vaidades acadêmicas. O romancista Jorge Amado o descreveu em “Bahia de Todos os Santos” com essa roupagem de historiador a serviço do povo, da divulgação da história ao homem comum.”

Perfeito, é a cara do entrevistado!

Afastado dos jornais, das salas de aula e dos estúdios das rádios (chegou a ser editor-chefe da Tribuna da Bahia), o professor Cid Teixeira, como revela TM, vive “a tragédia de ficar viúvo”, com todo mundo querendo indicar uma nova companhia feminina para ele. Mas segue firme: mantém seu vozeirão inconfundível, “suas leituras e a memória do cotidiano minúsculo, porém essencial para compreender a formação do povo baiano – e, claro, o brasileiro, já que as desordens nacionais nasceram na cidade do poeta Gregório de Mattos”.

Um exemplo emblemático? Voltemos a TM e á entrevista do professor Cid.

“Doce e maledicente, como o bom baiano deve ser, Cid Teixeira identifica a vocação regional para o vira-casaquismo (fenômeni que também horrorizava o o falecido deputado autentico Chico Pinto), uma arte derivada do chaleirismo, hoje disseminada de Brasília à Cidade da Bahia, com ganhos para todos os lados”.

– Não havia revolucionários em 1930. Quando a Revolução ganhou, acabou-se o estoque de pano vermelho nas lojas. Porque todo mundo estava de lenço vermelho nos pescoços, todos viraram revolucionários – conta Cid Teixeira.

E mais não digo para não tirar o prazer da leitura integral da ótima conversa do repórter de TM e do antropólogo da UFBA, com o magnífico professor Cid Teixeira, mestre em Brasil, Bahia e baianos.

Alegre carnaval a todos.


Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor-soares1@terra.com.br

fev
10
Posted on 10-02-2010
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 10-02-2010

DEU NA COLUNA


Ao inaugurar um campus universitário em Teófilo Otoni (MG) esta semana, o presidente Lula foi mais enfático do que costuma ser ao falar de sua sucessão: “Nós vamos fazer a sucessão (?) neste país para dar continuidade ao que nós estamos fazendo, porque este país não pode retroceder. Este país não pode voltar para trás como se fosse caranguejo”, disse o presidente. Segundo o colunista, há outras pessoas que, pensando um pouco diferentes do presidente Lula, mas também um pouco à sua semelhança, julgam que o caranguejo anda para trás. A partir daí, Ivan tece a abordagem do tema em sua coluna desta quarta-feira, na Tribuna da bahia, que BP reproduz (VHS)

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Carangueijo: para o lado

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OPINIÃO POLÍTICA

DE CARANGUEIJOS E LULAS

Ivan de Carvalho

Bem, ter um “diploma de presidente da República”, como é o auto proclamado e verdadeiro caso de Luiz Inácio Lula da Silva, é o máximo que um cidadão brasileiro pode almejar, com exceção do Reino Céus, porque, afinal, como disse Jesus, “de que vale a um homem conquistar o mundo inteiro, se perder a sua alma?”.

Mas é claro que um diploma universitário pode ajudar um pouco o feliz possuidor de um diploma presidencial. Se, por exemplo, o presidente Lula tivesse um diploma de biólogo, e nem precisaria ter pós-graduação em biologia aquática ou doutorado em crustáceos (essas coisas de doutorado e mestrado, ele deixa para a candidata do PT a sua sucessão, Dilma Roussef, enriquecer o currículo dela) com ênfase na infra-ordem Brachyura, não teria dito ontem o “besteirol” com que brindou a nação brasileira.

A mídia registra (li na Folha online):O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender na tarde desta terça-feira (ontem) a continuidade de seu governo. Ele também disse estar certo de que conseguirá fazer seu sucessor na Presidência da República.

“Nós vamos fazer a sucessão (?) neste país para dar continuidade ao que nós estamos fazendo, porque este país não pode retroceder. Este país não pode voltar para trás como se fosse caranguejo”, disse Lula ao inaugurar um campus universitário em Teófilo Otoni, Minas Gerais.

Bem, pelo que disse o presidente da República, e ante as óbvias dificuldades para o que quer que seja, inclusive o caranguejo, voltar para a frente, é evidente que o presidente pensa que caranguejo “volta para trás”. Há outras pessoas que, pensando um pouco diferentes do presidente Lula, mas também um pouco à sua semelhança, julgam que o caranguejo anda para trás.

Ambos estão errados e as pessoas que se deram ao trabalho de observar os caranguejos andando na areia das praias, nos mangues, nas margens de rios (todos esses habitats são freqüentados por caranguejos, que os há de várias espécies) terão notado que eles não se deslocam para trás, mas para os lados. E o fazem com notável habilidade, sem atropelarem ou embaraçarem os seus cinco pares de patas – um par deles, mais poderoso, que funciona como pinças – pois essa habilidade é de sua natureza, adquirida em longa evolução, se dermos crédito a Charles Darwin. Aliás, as lulas, – com uma única exceção, talvez, até para confirmar a regra – também têm oito braços e dois tentáculos e a capacidade de não os embaraçarem nem se embaraçarem com eles, enquanto a lula da exceção tem reconhecidamente língua afiada, mas frequentemente inclinada a um besteirol.

Mas por que falar de lulas, se são moluscos e o tema era caranguejo, um crustáceo? Não tem nada a ver. Assim, ponto final.

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