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Arena Fonte Nova: futebol e política na inauguração

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ARTIGO DA SEMANA

Metrô de Salvador:o abacaxi transferido

Vitor Hugo Soares

Com o novo ministro dos Transportes, Cesar Borges (um ex-carlista de raiz) a tiracolo, na sua reduzida comitiva, a presidente Dilma Rousseff desembarcou na manhã de sexta-feira (5) em Salvador. Veio participar do ato restrito (mas nem tanto) de entrega da Arena Fonte Nova – um dos palcos mais suntuosos dos vários que estão sendo construídos no País para a Copa das Confederações, este ano, e a Copa do Mundo, em 2014, ano de referência para o futebol e a política no Brasil.

Desta vez, a estada presidencial produziu consequências administrativas e políticas de alguma relevância. Ao contrário da passagem pela capital baiana no mês de fevereiro, em pleno carnaval, para descansar na Base Naval de Aratu.

Então, o único fato de destaque produzido foi a topada que fissurou um dedo do pé da presidente da República e a obrigou a maneirar por um tempo na agenda (principalmente a de viagens) e exibir uma nada elegante (embora reconhecidamente confortável) sandália “Croc” nas cerimônias oficiais.

Vamos a exemplos concretos, sempre aconselháveis, e mesmo indispensáveis, na contextualização de fatos jornalísticos.

Ontem, cedinho, começou uma correria marcada por tensão flutuante. Visíveis não apenas no nervosismo das equipes de segurança e de organização da “mobilização urbana”, que antes se chamava de “trânsito caótico” e estressante, quase enlouquecedor, da cidade da Bahia.

Poucas horas antes (quase minutos) da presidente descer na Base Aérea de Salvador para cumprir de carro o largo percurso que separa o aeroporto da capital do Dique do Tororó – cenário de cartão-postal, em cujas margens fica a “arena” (antigo Estádio Octávio Mangabeira)-, o governador da Bahia, Jaques Wagner, do PT, promoveu uma reunião de emergência com o prefeito de Salvador, ACM Neto, do DEM.

Na agenda, o tema principal não foi a entrega da “arena”, obra majestosa e cara, mas pronta em menos de três anos para ser mostrada à presidente, e inaugurada “para a massa” dois dias depois, em histórico BAxVI pelo campeonato baiano, neste domingo (7).

O assunto foi outro, bem mais complicado e polêmico: o Metrô de Salvador, construção vergonhosamente interminável de apenas seis quilômetros na primeira etapa, que já consumiu quase R$ 1 bilhão, em 13 anos de denúncias cavernosas de desvios e equívocos, sem conduzir até agora um único passageiro.

Na verdade, um problemão a ser ainda resolvido. Algo que se pode denominar em simples e bom “baianês” soteropolitano, de autêntico “abacaxi de caroço”.

Vamos aos fatos, para encurtar esta história estranha, atrapalhada e que parece sem fim na Bahia. A ponto de causar incômodos constrangimentos na presidente Dilma, apesar das aparentemente descontraídas imagens de marketing produzidas ontem na Arena Fonte Nova. A começar pelo ponta-pé inicial na bola efetuado por Dilma, passe inaugural dado ao companheiro de time petista, Jaques Wagner.

O gol político quase de placa, no entanto, diga-se a bem da verdade, foi marcado pelo prefeito de Salvador, do DEM, ACM Neto. Adversário que se revelou duro de roer desde a última campanha municipal. Mesmo em fase “de amor e flor” com o governador e a presidente, o prefeito Netinho (como denomina um site de sucesso nas redes sociais) deu dribles de craque e terminou jogando o abacaxi do metrô no fundo das redes do governador Wagner. Por extensão, também no gol do governo federal, defendido por Dilma.

Sob pressão do iminente desembarque de Dilma na cidade, no encontro de Jaques com ACM Neto ficou enfim decidido: A administração da Linha 1 do metrô, já construída – liga a Estação da Lapa-Estação Acesso Norte/Rótula do Abacaxi, quanta ironia!) será transferida para o governo do Estado. A informação, confirmada pelas duas assessorias, também foi divulgada através do perfil do governador, no Twitter.

Uma aparente vitória da “proposta do governador Wagner”, segundo propagam aos quatro ventos os integrantes e aliados mais fiéis do governo petista. Na realidade, riem os seguidores do prefeito do DEM, tudo (ou quase) que ACM Neto queria.

A começar por se livrar da gestão de um dos mais caros e escandalosos abacaxis da administração pública do Brasil nestes tempos temerários. De quebra, o Estado assume também um antigo pepino municipal: o sistema ferroviário que serve à sofrida população do subúrbio de Salvador.

O acordo de transferência pactuado ontem, antes da chegada da presidente Dilma, será assinado por Wagner e ACM Neto na segunda-feira, 8, um dia depois do BA x VI de inauguração da Arena Fonte Nova.

“Eia, estamos na Bahia!”, diria, se vivo estivesse, o poeta satírico Gregório de Mattos, que conhecia e falava da terrinha como ninguém. Ou não? Responda quem souber.

Vitor Hugo Soares, jornalista, edita o blog Bahia em Pauta, em Salvador. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br.


Yoani com o senador Suplicy e…
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..com a câmera: aliados contra a intolerância

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ARTIGO DA SEMANA

UMA SEMANA DE ALMANAQUE

Vitor Hugo Soares

No computador, ligado para produzir estas linhas semanais de opinião, escuto cantar o artista cearense Belchior, um de meus preferidos do primeiro time da música popular brasileira. O rapaz latino americano que anda outra vez sumido no mundo, interpreta uma famosa música de Chico Buarque de Holanda, gravada no álbum Vício Elegante (1996), no qual empresta seu jeito especial de cantar na regravação de grandes sucessos de compositores da MPB.

A canção que escuto é Almanaque.

Nos versos precisos e bem humorados, um rosário de perguntas incômodas e preocupações inusitadas em “sambas de namoro e amor”. Questões levantadas em tempos temerários (a expressão é do grande Nestor Duarte, no título de seu romance fabuloso), pontuados de loucuras, inquietações e dúvidas, mas que os dias correntes na Bahia, em Brasília, em São Paulo, no País e lá fora, revelam que continuam à espera de respostas até agora.

Os fatos, palavras e imagens tristemente produzidos na passagem em Recife, Feira de Santana, Salvador, Brasília e São Paulo, da blogueira Yoani Sanches, combativa e combatida dissidente do regime dos irmão Castro, em Cuba, são atestados contundentes de atualidade das questões que a música levantava há tantas décadas.

Um triste espetáculo de intolerância e burrice com exposição planetária. Daqueles que o conceberam nos desvãos de palácios, gabinetes e embaixada, e dos que os executaram como “paus mandados” ou inocentes inúteis. É difícil entender – e mais difícil ainda explicar -, um espetáculo assim em Recife: a capital pernambucana de tantos heróicos resistentes em longos combates pela democracia e contra a repressão nos anos da canção de Chico, ou em passado mais remoto.

Ou aquele show grotesco de violência e subserviência misturadas, encenado na noite vergonhosa de quarta-feira passada em Feira de Santana. A gloriosa e honrada cidade na entrada do sertão da Bahia, de tantas jornadas históricas lideradas por um de seus filhos mais ilustres, o saudoso prefeito afastado pelo regime militar-civil em 64, Francisco Pinto.

Mais tarde, o deputado Chico Pinto, que se transformaria em um dos mais dignos e emblemáticos parlamentares da história do País em qualquer tempo. Ao lado do colega e amigo pernambucano Fernando Lyra (que morreu dias antes dos episódios deprimentes nas duas cidades que ele tanto amou e exaltou), Chico Pinto é uma referência nacional do bom combate na política e na vida pública e privada, inimigo ferrenho de todas as ditaduras, até a morte.

Escuto a voz cortante de Belchior emprestada à interpretação da música de Buarque :

“Ó menina vai ver nesse almanaque como é que isso tudo começou / Diz quem é que marcava o tic-tac e a ampulheta do tempo disparou / Se mamava se sabe lá em que teta o primeiro bezerro que berrou”.

Penso: O que e quem teria movido os cordéis daqueles mansos cordeiros do poder, que agora, com olhos inflamados e veias do pescoço quase explodindo de ira, acenam com notas falsificadas de dólares nas mãos. Militantes femininas de presumíveis “partidos de esquerda e ONGs”, que puxam os cabelos e tentam intimidar com gestos vis e palavras grosseiras a jovem blogueira cubana. Recebida em sua primeira viagem permitida fora de seu país aos gritos de “vendida ao capitalismo americano”, no Aeroporto dos Guararapes, na capital de Pernambuco.

Quanta ironia na cena inacreditável!

Belchior segue com as incômodas perguntas de “Almanaque”: Quem penava no sol a vida inteira/ como é que a moleira não rachou?/ Me diz, me diz/ Quem tapava esse sol com a peneira e quem foi que a peneira esfuracou / Me diz, me diz, me responde por favor/ Quem pintou a bandeira brasileira/ Que tinha tanto lápis de cor?”

E a imagem pula para Feira de Santana : A horda ululante impede a exibição do documentário “Conexão Cuba-Honduras”, do cineasta baiano Duda Galvão, um dos motivos principais da visita de Yoani ao Brasil. No meio do caos, um momento de luz e lucidez. Na Feira de Chico Pinto, a digna e corajosa figura do senador paulista, Eduardo Suplicy enfrenta a turba enfurecida com uma convocação à reflexão e ao debate. Assim evita o pior, mesmo sem impedir o desastre que já estava consumado.

O resto é o que se viu e se vê no rastro da passagem da blogueira por Brasília, São Paulo e onde quer que vá a dissidente cubana em sua luta, armada com uma câmera e um computador, contra a intolerância e a favor da liberdade de expressão. Ah, e um ar sereno e o riso irônico ao encarar os que a ofendem, parecendo dizer com os olhos: ”Senhor, perdoai-os. Eles não sabem o que fazem!”

Ao fundo, antes do ponto final, Belchior segue com as perguntas da canção de Chico Buarque:

…”Quem é que sabe o signo do capeta/ E o ascendente de Deus Nosso Senhor /Quem não fez a patente da espoleta/ Explodir na gaveta do inventor/ Me diz, me diz, me responde por favor/ Quem tava no volante do planeta/ Quando o meu continente capotou? / Vê se tem no almanaque, essa menina/ Como é que termina um grande amor. Me diz, me diz, me responde por favor/ Se adianta tomar uma aspirina, ou se bate na quina aquela dor?”.

Responda quem souber!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Dilma e Déda: “brincadeira” do governador
de Sergipe azedou festa política no NE

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ARTIGO DA SEMANA

Déda e Dilma: Cajazeiras em Sergipe

Vitor Hugo Soares

“Palanque político é bicho perigoso em qualquer tempo. Comício fora de época, então, pode ser mais perigoso ainda, e geralmente dá bolo: Mexe com quem está quieto e pode queimar a língua de quem fala além da conta”.

Isso aprendi menino, na cidade de Santo Antonio da Glória, à beira da Cachoeira de Paulo Afonso, no lado baiano do São Francisco, palco de grandes comícios e de notáveis palanqueiros entre Bahia e Pernambuco: Antonio Balbino, Miguel Arraes, Waldir Pires, Cid Sampaio, Josafá Marinho, Agamenon Magalhães e Vieira de Melo, para citar apenas alguns dos maiores e melhores que já vi em ação nas barrancas do rio da minha aldeia.

Esta semana, dia 29/1, a verdade do ensinamento popular se reproduziu mais uma vez. Agora, na inauguração, em Sergipe, da Ponte Gilberto Amado, politizada pelo governador petista Marcelo Déda, em”ato público administrativo” com a presença da presidente da República, Dilma Rousseff.

De novo, entre discursos, foguetório, conversas e arranjos ao pé de ouvido no confessionário do poder, ficam os ciúmes, as mágoas, os problemas previsíveis de uma campanha eleitoral antecipada demais. Seqüelas e fraturas que custam a cicatrizar, apesar dos ungüentos e panos quentes aplicados, esta semana, nas feridas provocadas pela festa na beira da ponte entre Sergipe e Bahia.

Vamos aos fatos, para contextualizar melhor o que alguns já batizaram – dentro e fora dos governos petistas da República, da Bahia e de Sergipe – de “Cajazeiras sergipana”. Irônica referência ao desastroso comício, com a participação da presidente, no famoso bairro popular de Salvador,na recente campanha municipal.

O ato baiano, marcado por equívocos e agressivas “piadas de palanque” sobre o tamanho do candidato oposicionista a prefeito, praticamente selou a derrota do deputado Nelson Pelegrino, na disputa do comando da terceira capital do País, contra o “baixinho” vencedor ACM Neto, do DEM.

Desta vez, “na terra do Condor”, faltando ainda quase dois anos para as eleições de 2014, o que estava programado para ser uma “calorosa festa de confraternização e união nordestina”, acabou virando um complicado bafafá de vizinhos.

Isso, apesar da imediata entrada em campo da turma do deixa disso e do silêncio obsequioso da imprensa regional, ou do pouco caso da mídia nacional diante do episódio. Tratado como “pinimba local”, bem ao contrário da ampla repercussão nacional alcançada pelo comício de Pelegrino, com a presença explosiva da presidente da República, em Cajazeiras, periferia de Salvador.

O governador sergipano Marcelo Déda, reconhecidamente um político competente e eficiente administrador público, “gente boa”, como muitos o definem, tem lá suas manias. À exemplo dos ex-presidentes Lula, entre os petistas, e FHC, entre os tucanos, Déda é do tipo que, em reunião ou no palanque, prefere perder um amigo (ou vários) a perder a piada.

Foi assim na inauguração da bela ponte que reduz a distância entre os dois estados vizinhos do Nordeste pela estrada litorânea, de simbolismos evidentes. Ao lado da presidente Dilma, o governador de Sergipe afirmou que a obra seria bem iluminada para que os baianos não se perdessem no caminho de ida ou de volta.

“Toda a ponte será iluminada com olhos de gato para os baianos não se perderem. Não é que eles sejam menos inteligentes, só não enxergam bem”, frisou Déda na coletiva que concedeu em seguida. Estava assim consumada a piada infeliz que azedaria o humor dos baianos na “festa de união nordestina”.

O site Bahia 247 (sucursal do Brasil 247) tratou de jogar mais pimenta no assunto: “Governador de Sergipe afirma que baiano não é burro, apenas não enxerga bem”, disse no título da cobertura da festa.

Estava consumado o desastre.

Marcelo Déda tratou de pedir desculpas, via Twitter: “Fiz brincadeira com a sinalização da rodovia dizendo que os baianos enxergariam mal. Foi de extremo mau gosto. Peço desculpas pelo mau gosto da brincadeira com os irmãos baianos. Sou filho e neto de baianos e respeito a Bahia”; postou o governador em seu perfil no micro blog, quando o bafafá já se alastrava descontrolado nas redes sociais, estrada afora. Nordeste e país adentro .

Fica demonstrado de novo: Palanque fora de época é mesmo o diabo. Desta vez arruinou a “festa da unidade nordestina” ao lado da presidente Dilma em Aracaju. Resta agora saber a extensão da queimadura na língua do governador Déda, de Sergipe. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Dilma “costura” com Campos em Inema …
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… e com Wagner, de lancha na Baia de Todos os Santos

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ARTIGO DA SEMANA

DILMA: LEITURA E COSTURA NA BAHIA

Vitor Hugo Soares

Às vésperas da presidente Dilma Rousseff desembarcar na Base Aérea de Salvador, no habitual período do“descanso de fim de ano”, dos ocupantes do Palácio do Planalto (desde Fernando Henrique Cardoso ), na incrível e privativa praia de Inema, assessores em Brasília informaram ao distinto público: além de estar ao lado dos familiares que a acompanhariam na viagem, a presidente iria dedicar-se apenas à leitura de alguns livros levados na bagagem.

Não é fácil enxergar o que acontece de fato em Aratu. Nem mesmo ao ar livre na praia de areias cristalinas entre o mar de água azul turquesa, como as destes dias ensolarados do verão baiano, e o pedaço do que ainda resta preservado da luxuriante Mata Atlântica. Esta, a mata em sua flora e fauna, vítima nos últimos anos de um dos mais predatórios ataques de sua existência de atentados históricos desde o Descobrimento em 1500.

Desta vez, fruto principalmente da selvageria da ocupação imobiliária consentida (ou pretensamente legalizada) até os últimos dias da administração do prefeito João Henrique. Com vistas grossas e complacência dos órgãos ambientais do Estado e da União, diga-se a bem da verdade.

O novo prefeito, ACM Neto (DEM), assumiu prometendo “um basta ao abuso” e a revisão de parágrafos e itens malandros do PDDU, o código de desenvolvimento urbano reformulado e aprovado altas horas da madrugada pala Câmara de Vereadores da terceira capital do País, no último dia do governo JH.

Agora é esperar uns dias ou um tempo, e conferir. É preciso verificar se a fala de Neto é “pra valer”, ou mais um desses exercícios retóricos tão comuns em começo de governo na terra de Gregório de Matos e Rui Barbosa, que se atira na lata do lixo da primeira esquina que aparece, depois da posse.

Mas o tema principal destas linhas é a mais recente passagem de Dilma Rousseff pela Base de Aratu. Visita encerrada abruptamente no começo desta semana, com um dia de antecedência em relação ao tempo inicialmente previsto, para que a presidente pudesse estar presente na reunião de cúpula anual do poder em Brasília.E, assim, ver bem de perto o estranho, misterioso e complicado bailado de seu governo na área de Minas e Energia, conduzida pelo imponderável ministro Edison Lobão.

Voltemos então ao pedaço de mar da Base Naval de Aratu, para não perder o rumo em meio aos caminhos intrincados (e intrigantes), cheios de desvios em Salvador, na Bahia e no Nordeste, destes dias iniciais de 2013. De saída, assinalo o que pode parecer indesculpável descuido jornalístico ou falta de informação. Mas a verdade é que desconheço registro ou depoimento de alguém ou de algum veículo de comunicação, com credibilidade, em que esteja demonstrado, factualmente, o contato da presidente da República com algum livro por estes dias. Um romance, um exemplar de não-ficção, uma publicação de poesia, uma biografia qualquer, que ela tenha lido, ou ao menos passado a vista na Bahia.

Nem mesmo o formidável exemplar de “Marighella, o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo”, narrativa primorosa do jornalista Mario Magalhães que, no País atualmente dividido em quase tudo, além do Fla x Flu, consegue uma impressionante quase unanimidade de aprovação e elogios de leitores e críticos para seu trabalho literário e de pesquisa. Merecidamente, acrescento.

O que é certo, porque vastamente documentado em relatos diversos (públicos e de bastidores) e em imagens sugestivas (por exemplo, o passeio de três horas em recantos de beleza rara da Baia de Todos os Santos, a bordo da portentosa lancha da Marinha, ao lado do governador e companheiro de partido Jaques Wagner), é que a presidente Dilma dedicou boa parte do tempo da sua estada em Inema à costura.

Esclareço, antes de algum eventual desmentido: A costura referida nestas linhas não é aquela prosaica atividade antes praticamente restrita às mulheres diante de suas vigorosas e duráveis máquinas “Singer” ou “Elgin”, presentes em tantos relatos históricos e romances brasileiros. Aqui se fala de “costura política”. Atividade que virou febre para mulheres e homens públicos ou da iniciativa privada no Brasil destes dias complicados e de rumos indefinidos. Nos governos, no Congresso, nos Tribunais de Justiça, nos corredores, nos escritórios públicos e privados, no mar, na praia ou nos ambientes mais restritos e fechados na área de segurança, a exemplo da base naval da Marinha, na zona suburbana de Salvador.

Foi nesse cenário de sonhos que a presidente Dilma realizou as “costuras” mais secretas e mais importantes em suas férias de fim de ano. Primeiro, revela o jornal A Tarde em texto assinado pela bem informada repórter e editora política, Patrícia França, a ocupante do Palácio do Planalto conversou a sós com Wagner, tentando convencer o dirigente petista a ser o coordenador na região Nordeste de sua provável campanha de reeleição presidencial em 2014.

Depois, em Aratu, onde passou estes dias com a mãe, a filha, o neto e o genro , Dilma recebeu para um almoço no sábado (5/1), os governadores da Bahia, Jaques Wagner (PT), e de Pernambuco, Eduardo Campos, do PSB. (os sussurros indicam ser o nome preferido de Wagner, que este sábado,12, embarca em nova viagem à China), para vice na chapa da reeleição

Neste caso, mais demorada, complexa e delicada “costura política” ( temperada com agrados e promessas de mimos administrativos ao líder pernambucano) cuja extensão e resultados só serão conhecidos mais tarde, em futuro próximo ou mais distante, quando a campanha que já se ensaia, começar pra valer. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail : vitor_soares1@terra.com.br


Neto,Wagner e Bacelar diante das ruinas…
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…Do Solar Boa Vista:joia arquitetônica da historia e da cultura da Bahia.

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ARTIGO DA SEMANA

Fogo na chegada de ACM Neto

Vitor Hugo Soares

O ano do glorioso Santo Antonio para os católicos – ou de Ogum, poderoso orixá dos adeptos dos cultos de Candomblé dos terreiros baianos -, começa pegando fogo na Cidade da Bahia. Real e metaforicamente falando, como se verá nas linhas seguintes deste artigo semanal, que incluem fatos e murmúrios sobre o incêndio – no primeiro dia da gestão do novo prefeito ACM Neto – do histórico prédio do Solar Boa Vista, antiga morada do poeta Castro Alves na infância, sede atual da Secretaria Municipal de Educação.

Cidade da Bahia: sempre foi assim que Jorge Amado preferiu denominar Salvador em seus romances e outros escritos geniais. A linda, complexa e complicada (e bota complicação nisso!) capital do estado governado pelo petista Jaques Wagner, mas cuja Prefeitura foi conquistada nas urnas do ano passado – e assumida no primeiro dia deste novo ano – por Antonio Carlos Magalhães Neto, o ACM Neto, rara figura de expressão política nacional daquilo que restou do DEM, mas cuja vitória eleitoral impediu o quase total desmoronamento no País do partido de oposição aos governos estadual e federal.

ACM Neto é jovem político baiano, de linhagem notória expressa no nome em forma de sigla e signo copiados do avô, que enfrenta seu primeiro e crucial desafio na administração pública. Pisa em terreno praticamente devastado pela gestão predatória do ex-prefeito João Henrique de Barradas Carneiro, que sai do poder com as contas recusadas e cercado de denúncias de “malfeitos” por todo lado.

Ainda assim, o ex-ocupante do palácio Tomé de Souza conseguiu, sabe-se lá por quais acordos, razões ou caprichos da sorte, deixar plantados no primeiro escalão do novo governo da capital, herdeiros de um inquilinato em ruínas, fruto da gestão de má fama ética e de flagrante incompetência administrativa.

Mais quentura que esta é impossível, pensarão ou dirão alguns. No terreno das metáforas, talvez sim. No campo da realidade, no entanto, nada é tão ruim que não possa piorar ainda mais um pouco, repetem há décadas sábios políticos e filósofos mineiros, gregos e baianos. Foi exatamente isso o que aconteceu na quinta-feira, 03/01, antes da meia-noite do primeiro dia de fato da gestão de ACM Neto.

Tudo corria “às mil maravilhas” desde as primeiras horas da manhã do “dia seguinte” à confusa, mas consagradora festa da posse na Praça Tomé de Souza.

Simbiose quase perfeita entre a firmeza e decisão nos atos assinados pelo novo prefeito ( “alguns bem amargos”, ele próprio admitiu), aparentemente decidido “a dar um jeito na Cidade da Bahia” (como pede Caetano Veloso em sua famosa canção), e a ação seguinte: O prefeito nas ruas seguido por animada caravana de seus principais auxiliares em visita ao bairro suburbano de Nova Constituinte, para abraçar moradores e adotar providências “in loco”, e assim começar a cumprir promessas recentes de palanques.

Por volta das 10 horas da noite, quando o novo governo municipal já comemorava “um começo perfeito e exemplar de gestão”, tocaram as sirenas dos carros do Corpo de Bombeiros de Salvador. ACM Neto e seu secretário de Educação, João Carlos Bacelar (umas das heranças mais polêmicas deixadas pelo prefeito João Henrique no governo de seu sucessor) foram avisados de que as labaredas de um grande incêndio, avistadas a quilômetros de distância em vário pontos da capital, consumiam o soberbo prédio principal do Parque Solar Boa Vista.

A notícia, nas circunstâncias, não podia ser pior. Salvo um improvável( mas não impossível na terra dos maiores absurdos, segundo Octávio Mangabeira) desabamento do Elevador Lacerda, mundialmente reconhecido cartão postal da capital baiana. O Solar Boa Vista, monumento arquitetônico tombado pelo IPHAN como patrimônio nacional, é o lugar onde em 1858 residia a família do então garoto Castro Alves, que viria a se transformar no maior poeta da Bahia.Já abrigou também, por um período, a prefeitura da capital baiana, na administração de Mario Kertész, durante a construção da nova sede municipal, ao lado do elevador famoso.

Diante das chamas, ACM Neto mandou seu secretário dar queixa imediatamente na Polícia Técnica do Estado, para apurar causas do desastre, que começou na coordenação da administração escolar e praticamente destruiu o prédio, uma jóia preciosa da historia cultural, política e da arquitetura da Bahia.O prédio que pegou fogo pertence ao governo estadual e estava cedido à prefeitura de João Henrique. Ontem de manhã, o governador Wagner visitou o local arrasado pelo fogo, para levar um abraço de conforto e solidariede a um ACM Neto desconsolado, com a garantia do petista ao adversário do DEM de que a edificação histórica está no seguro, será reformada e devolvida para continuar abrigando a secretária municipal de Educação, na nova administração.

Sim, a Bahia ainda preserva essas gentilezas democráticas e republicanas (ou mero jogo de aparências, como alguns desconfiam)!

“Um acidente lastimável”, tem pressa em qualificar o polêmico secretário municipal de Educação deixado por João Henrique, antes de terminar o rescaldo do fogo e da polícia técnica começar o seu trabalho para descobrir as causas do incêndio. Nas redes sociais multiplicam-se as comparações – das “más línguas adversárias”, mas inevitáveis na Bahia dividida além das aparências entre DEM e PT – com o incêndio do Mercado Modelo, na primeira administração de Antonio Carlos Magalhães como prefeito nomeado de Salvador pelo regime militar…

ACM Neto começou a primeira sexta-feira de 2013 com um “gabinete de crise” instalado na Prefeitura e uma “reunião de emergência” convocada por ele “para avaliar prejuízos e tomar providências”. As caravanas aos bairros estão suspensas “até segunda ordem”.

O resto, para quem tem fé, é com Santo Antonio ou Ogum.

A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Arquivo: Lula e Joaquim Barbosa, dois personagens
da semana em foto de outra temporada

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ARTIGO DA SEMANA

CERCADO, LULA ATACA

Vitor Hugo Soares

“Ataquei Paraíba e Pernambuco /Alagoas, Sergipe e Bahia/Dominei e fiz tudo o que queria /Dei trabalho aos soldados de Nabuco./O governo de lá perdeu o suco/ Procurei um lugar de mais reforço/Para atacar Mossoró eu fiz esforço/A viagem foi errada e foi perdida/ Fui feliz escapar com minha vida/ Que o chumbo de lá é muito grosso”.
(José Saldanha de Menezes Sobrinho, o Zé Saldanha, inspirado e saudoso poeta popular do Nordeste, em cordel sobre o cerco a Virgulino Ferreira, o Lampião, em Mossoró, no tempo do cangaço no sertão).

De volta a São Paulo e ao País, depois de périplo pela Europa (onde fez palestras ao lado de figuras de proa da política e dos governos, recebeu títulos e honrarias de instituições acatadas por lá e cá, além de conversar bastante para combinar discursos e acertar ponteiros com a presidente Dilma Rousseff), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva emite, para aliados e adversários, sinais claros de mudança de rumo e de ações.

Pelo que informou, disse e fez esta semana do começo da temporada de Verão, o ex-presidente quer começar 2013 de um jeito que surpreenda aos dois lados do cabo-de-guerra, se algo ainda pode causar surpresa por aqui, além do fim do mundo.

Esta semana, para ser exato, em seu território preferencial, a região do ABC paulista, Lula fez os primeiros testes de sua nova conduta. Na verdade, uma antiga tática de guerrilha que deu fama e sobrevida a Lampião no tempo do cangaço no Nordeste: “Se estou cercado e acuado, vou para cima, e ataco”.

No plano jornalístico, factual, isso ficou evidente principalmente no anúncio feito pelo palanqueiro ex-presidente de que vai “voltar a andar por este País em 2013”.

Ou seja, para contextualizar melhor e tentar dar maior objetividade à parte meio submersa nesta história: estaria a ponto de ser ressuscitada, quase dois anos antes das eleições presidenciais, em 2014, as chamadas Caravanas da Cidadania. “O contato para conversa cara a cara com o povo”, como tem proclamado tantas vezes o ex-presidente.

Lula sempre considerou esses longos (e custosos física e financeiramente) percursos pelas entranhas do país, cruciais e decisivos para suas “viradas pessoais e políticas, depois de seguidas derrotas eleitorais ou de inferno astral inclemente e demorado.

À exemplo deste que ele enfrenta atualmente: tudo agravado desde o começo do julgamento dos réus no processo do Mensalão. Muitos deles petistas do primeiro time, parlamentares ou ex-aliados importantes de seu governo, agora já condenados e com futuro incerto. Entregues ao pulso e à decisão do firme e correto relator do Mensalão, atual presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa. Isso ficou demonstrado mais uma vez, na tarde desta sexta-feira (21), na decisão de recusar o pedido de prisão dos réus condenados no julgamento do processo do Mensalão, antes do feito ter transitado em julgado. Com sabedoria, desarmou mais uma bomba deixada em seu colo.

Foi em tempos de crise como este (embora com traços essenciais de diferença no espaço e no tempo) , por exemplo, que Lula apelou para a suas caravanas. Nasceu assim (só para refrescar a memória) a travessia das nascentes, em Minas Gerais, à foz, em Alagoas, do Rio São Francisco. Da viagem, de barranca em barranca dos dois lados do rio da minha aldeia, nasceram imagens fantásticas utilizadas pelos marqueteiros na campanha eleitoral, além de entrevistas e discursos –muitos discursos -, projetos de governo: uns factíveis, outros mirabolantes e claramente eleitoreiros, a exemplo da Transposição das águas do São Francisco.

Para citar apenas este produto emblemático das caravanas pelo interior do Brasil, cuja reabilitação Lula anunciou esta semana em seus “encontros de solidariedade” com governadores (incluindo o tucano de Alagoas, Teotônio Vilela Filho) e principalmente com os sindicalistas da CUT em festa de posse no ABC, vale lembrar:

A transposição das águas do São Francisco (o rio da minha aldeia baiana, repito) já é o mais caro entre os projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Só no atual governo da presidente Dilma Rousseff, os preços da obra monumental aumentaram 71% e saltaram para R$ 8,2 bilhões.

A obra se transformou em imenso canal escoadouro de recursos públicos. A primeira etapa da transposição, quando anunciada com pompas e circunstâncias, deveria ser inaugurada em 2012. O ano acaba, com o Nordeste mergulhado em uma das maiores secas de sua longa história de estiagens devastadoras, e tudo que a transposição produz até aqui são escândalos e mais cobiça.

“Amaldiçoado quem tiver pensamentos maus sobre estas coisas”, como dizem os franceses, na terra por onde o ex-presidente passou antes de anunciar a sua nova cruzada. Ou tática de guerrilha? Responda quem souber.

BOM NATAL PARA TODOS!!!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Última edição do JT: toque de filme “noir”
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ARTIGO DA SEMANA

A MORTE DO JT ( E O JB )

Vitor Hugo Soares

Na quarta-feira desta semana (31/10/2012), chegou às bancas de São Paulo a última edição do Jornal da Tarde. Na manchete um agradecimento óbvio, previsível e restrito demais: “Obrigado, São Paulo”. Na ilustração, uma fotografia que dizia mais, muito mais: o centro da capital paulista na semi-escuridão, dividida em pequenas partes visíves e grandes espaços encobertos.

Na imagem, um toque de tensão e melancolia de filme “noir”. Faz lembrar o diário brasileiro criativo e inovador nascido na segunda metade da década de 60. Morto e sepultado aos 46 anos de idade, na quinta-feira (1/11/2012), irônica e simbolicamente uma véspera de Dia de Finados.

Dói no peito do jornalista que escreve estas linhas de Salvador, como um corte de “peixeira de baiano” mal amolada. E tudo isso junto remete a uma das sensações mais amargas e pungentes de que me recordo em minha vida pessoal e profissional.

O caso tem relação com a morte de outro diário, este de circulação nacional e peso informativo e de opinião bem mais profundo e amplo: o Jornal do Brasil, onde trabalhei durante 17 anos, atuando na sucursal da Bahia. Aconteceu no Rio de Janeiro, onde eu acabara de desembarcar em glorioso e ensolarado dia de domingo, para participar dos trabalhos da comissão de seleção dos melhores trabalhos jornalísticos da edição histórica dos 50 anos do Prêmio Esso.

Era janeiro de 2006, quando eu respondia pela Editoria de Opinião de A Tarde, jornal baiano que comemorou 100 anos mês passado

Então o JB – a exemplo do JT nestes seus últimos dias – sangrava em prolongada e sofrida agonia, antes do amargo fim e do sepultamento da inigualável edição impressa de um dos mais extraordinários e importantes jornais na história da imprensa brasileira e da América Latina em qualquer tempo.

No táxi que tomei naquele dia no Aeroporto do Galeão (Tom Jobim) para atravessar a Linha Amarela a caminho do hotel em Ipanema, onde se reuniria a Comissão do Esso, tive um susto sem tamanho ao passar – depois de vários anos de ausência da Cidade Maravilhosa e já fora da empresa – bem na frente do quase totalmente arruinado prédio da sede do JB, na Avenida Brasil 500.

A casa do grande JB, abandonada, acabara de ser invadida por grupos de sem-teto de comunidades pobres de áreas próximas. Fotos de outros jornais cariocas e imagens em movimento na televisão mostraram pessoas carregando na cabeça o que conseguiram arrancar da casa do moribundo antes do último suspiro: portas, armários, mesas, cadeiras, divisórias, luminárias. Levaram junto, pedaços da cultura, da história e da memória de um País.

Ainda sob impacto da leitura do editorial do grupo Estado, comunicando aos leitores o fim do paulistano JT, sinto necessidade de reproduzir, como desabafo, trechos do que disse “a sangue quente” no artigo que escrevi na época, sobre o que sentí naquele começo de tarde no Rio, diante das ruínas do JB:

“O prédio abrigou o jornal durante 29 anos, tempo suficiente para, praticamente, servir de sepultura a uma mais que centenária legenda da imprensa brasileira. Obrigada a pagar as milionárias dívidas contraídas em tempo de baixa irreal do dólar (na época do “milagre econômico” da ditadura), a empresa se descapitalizou.

Veio então a asfixia financeira, sofregamente enfrentada com a venda das rádios AM e FM. A queda no precipício começou em 2002, no arrendamento por 60 anos do que restava do grupo, com o jornal incluído no pacote, e o abandono do prédio. O JB retornou, agora como inquilino, à antiga sede da Avenida Rio Branco, onde purga o restante dos seus pecados.

Inúmeras vezes andei na sede da Avenida Brasil 500 como ovelha desgarrada de Salvador. Ia participar de reuniões de planejamento de coberturas com alcance nacional: da Política, da Geral, da Economia, do Esporte. Sou testemunha ocular do vigor e euforia – às vezes, tensão à flor da pele – que percorriam todas as editorias do jornal como fagulha elétrica. O entusiasmo começava na proprietária do JB, a Condessa Pereira Carneiro.

Como esquecer? Das reuniões de pauta, das idéias e debates da cobertura estimulados´, em diferentes fases, por profissionais como Carlos Castelo Branco (Castelinho), João Saldanha, Sandro Moreira, Juarez Bahia, Zózimo Barroso do Amaral , Félix de Athayde, Carlos Drummond de Andrade, entre tantos que se foram. Ou por Alberto Dines, que o reformulou, Paulo Henrique Amorim, Ziraldo, Zuenir Ventura, Artur Xexéo, Ricardo Noblat, Rosental Calmon Alves, Marcos Sá Correia, Élio Gáspari, Walder de Góes, Carlos Lemos, Hedyl Vale, Renato Machado, Xico Vargas, Beatriz Bonfim, Miriam Leitão, entre tantos que ainda aí estão, espalhados por outras redações, ou no próprio JB, como Evandro Teixeira e Rogério Reis, que revejo nesta viagem (també m naquela comissão do Esso). Sem falar da Rádio JB: Ana Maria Machado – hoje imortal da ABL – e o incansável Procópio Mineiro à frente.
Na passagem, a visão do estrago, mesmo à distancia, dói fundo. O prédio do JB virou um edifício-fantasma de nove andares na entrada da cidade. Abandonado, várias vezes saqueado e depredado, os sem-teto levaram móveis, divisórias, portas e janelas. Os objetos de cobre, mais valiosos, foram vendidos como sucata por R$ 8 o quilo e o alumínio a R$ 6.

Atento, o motorista do táxi percebe as lágrimas e se espanta. “O ar do Rio continua com essa poluição insuportável!”, minto. O educado taxista finge acreditar na desculpa, mesmo diante do límpido e ensolarado dia que faz”. Encerro aqui a transcrição (o texto completo anda pela Internet) para não precisar inventar outra desculpa qualquer, se algum curioso perguntar por que estou enxugando os olhos, agora, na frente do teclado do computador, enquanto escrevo estas linhas semanais.

Diante do fechamento do Jornal da Tarde, nascido em 4 de janeiro de 1966, por onde transitaram profissionais como Mino Carta, seu idealizador, Rogério Sganzerla, Fernando Morais, Maurice Capovilla, Sábato Magaldi, Fernando Portella, Leo Gilson Ribeiro, Jota Jota de Moraes, Mauricio Kubrusly, Olney Kruse, Eric Nepomuceno, Luiz Nassif, entre tantos outros, mortos e vivos da arte, cultura e talento do jornalismo brasileiro, eu possa responder com a verdade, como é dever na profissão: “Choro na véspera de Finados pelo JT , pelo JB e pelo País”

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Dilma em Maragojipe: outra roupa, outras armas, outro discurso

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OPINIÃO POLÍTICA

Dilma balança entre Lula e Brizola

Vitor Hugo Soares

Oito anos depois da morte de Leonel Brizola, completados mês passado (24 de junho) e menos de um mês depois do encontro com apertos de mãos reconciliatórios de Lula-Maluf – e direito a foto tão histórica quanto polêmica colhida nos jardins da mansão do ex-governador de São Paulo -, o coração e a mente da presidente Dilma Rousseff parecem balançar “entre dois amores”, como no filme famoso.

De um lado, o ex-governador nascido na gaúcha cidade de Carazinho, que a acolheu afetuosamente no PDT do Rio Grande do Sul, quando a ex-guerrilheira das lutas contra a ditadura dava os primeiros passos na política fora da clandestinidade. Do outro, o pernambucano ex-dirigente sindical do ABC paulista, fundador do PT e ex-presidente da República que a levou nos braços (e no muque) ao Palácio do Planalto na eleição em que praticamente ninguém acreditava quando a campanha começou.

O balanço de Dilma, que vem de longe (como Brizola gostava de dizer) ficou esta semana mais evidente do que nunca na historia deste país (como prefere Lula) em pelo menos duas cerimônias emblemáticas com a participação da presidente da República.

A primeira, em Brasília, na quinta-feira, 12. A segunda em Maragogipe – cidade do Recôncavo Baiano com prefeito petista em campanha de reeleição (e o governador Jaques Wagner, também do PT, em fase de inferno astral desde a greve da PM) – visitada ontem, sexta-feira, 13, pela presidente, depois de dois adiamentos.
A Dilma brizolista, cujos sinais mais efusivos no período de governo haviam se manifestado na posse do ministro do Trabalho, Brizola Neto, reapareceu com força anteontem, durante a abertura da Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente.
Para espiritualistas ou ateus que acreditam em milagres (como o jornalista que assina estas linhas), a petista presidente da República parecia tomada pelo espírito e pelas palavras do falecido líder trabalhista, ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, Leonel de Moura Brizola.

No discurso surpreendente, uma Dilma veemente afirmou que uma Nação de verdade deve ser medida pela atenção que os seus governantes dão às novas gerações, e não pelo crescimento da economia representada pelos saltos do PIB (soma de todas as riquezas de um país). Vale a pena reproduzir aqui, literalmente, as palavras da presidente, pois até ontem, quando Dilma desembarcou na Bahia, muita gente dentro e fora de seu governo seguia atônita, ou fazendo de conta de que nada de diferente havia acontecido na solenidade de Brasília. Mesmo que a forte, ampla e imediata repercussão do discurso presidencial na mídia revelasse o contrário.

“Uma grande nação deve ser medida por aquilo que faz a uma criança e a um adolescente. Não é o PIB, mas a capacidade do País, do governo e da sociedade de proteger o que é o seu presente e o seu futuro”, bradou a presidente na fala produzida sob medida para os tempos de dificuldades que se anunciam no Brasil pós-marolinha.
Uma indiscutível sacada política, de governo e marketing em tempo de crise. É preciso reconhecer: nem o próprio Brizola, um dos formadores da cabeça e do coração da Dilma pedetista, teria feito melhor se vivo ainda estivesse.

Apenas um dia depois, no entanto, na sexta-feira 13, a presidente Dilma Rousseff desembarcava bem cedo no Recôncavo , novamente vestida com as roupas e as armas do PT, seu partido atual. Chegava cercada do governador Jaques Wagner, do prefeito também petista de Magagogipe que tenta a reeleição, aliados políticos, empresários e militantes em campanha eleitoral. Uma festa multicolorida de gente que parece navegar indiferente em águas de “Brasil grande e imune às crises”.

Dilma veio batizar a nova plataforma de exploração de petróleo da Petrobras, a P-59, destinada a operar em águas profundas do Espírito Santo, área do pré-sal. Antes, a presidente participou do lançamento feérico da pedra fundamental do Estaleiro Enseada do Paraguaçu, para construção de mais plataformas off-shore de exploração de óleo em alto mar, com sede na Maragogipe tornada conhecida por um de seus filhos mais ilustres, o humorista Zé Trindade, hoje praticamente esquecido nas festas do lugar.

“Coisa de primeiro mundo, de país grande”, como faziam questão de acentuar executivos da Petrobras ao falar sobre as qualificações técnicas da monumental P-59, na qual os operários “ficarão numa sala automatizada, com controles por joysticks (como os de vídeo game”) e touch screen (na própria tela)”. Coisa de encher os olhos e o discurso do ex-presidente Lula, o grande ausente, mas não esquecido pelos políticos e ex-auxiliares presentes na festa em Maragogipe.

No meio de tudo, a Dilma brizolista das crianças, na antevéspera em Brasília, dividia sentimentos e palavras de paixão com a presidente lulista da festa petista de ontem em Maragogipe. É como assinalou um frequentador do Twitter esta semana, ao refletir sobre o confuso país deste dias: “No meio da confusão sempre se pode ganhar alguma coisa”.

A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


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Gabriela 2012: cenas de antologia na TV
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ARTIGO DA SEMANA

Ilhéus de Gabriela, Brasília dos caças

Vitor Hugo Soares

A Ilhéus povoada de quengas e coronéis da novela Gabriela, adaptação do famoso romance de Jorge Amado, que outra vez encanta e surpreende o País no horário das 11h, da TV Globo, produziu imagens emblemáticas nos últimos oito dias. Coisas bonitas de ver e que também fazem pensar como se verá nestas linhas.

Impressionantes mesmo quando comparadas com as cenas, incrivelmente reais, dos voos rasantes de caças da FAB sobre o espaço aéreo da Praça dos Três Poderes, em Brasília. Vidraças estilhaçadas do prédio do STF, e trincadas no Senado e no Palácio do Planalto. Tudo mostrado para o mundo em meio ao espanto de turistas e de moradores do lugar, que pontuam vídeos amadores produzidos e espalhados no YouTube e outros espaços de informação.

É ensurdecedor o “silêncio obsequioso”, cheio de dedos ou claramente complacente, diante deste episódio digno de figurar em filmes do tipo Teoria da Conspiração. Mais ainda, nas pautas e matérias jornalísticas de veículos de comunicação que deveriam investigar melhor fatos como este: carregados de dúvidas, elementos de polêmica, além de suspeitas, que, mais que reflexão, cobram esclarecimentos públicos e transparentes e punições exemplares .

Menos de uma semana depois do fato espantoso (ou simples trapalhada à luz do dia, temperada de incompetência e omissão?) na cidade do poder, o silêncio é ensurdecedor no Planalto Central. Mesmo no prédio do Supremo, o mais diretamente atingido, povoado de magistrados de ouvidos sensíveis aos ruídos, alguns deles notoriamente figuras esquentadas e que não costumam levar desaforos para casa.

Neste caso, é praticamente como se nada de incomum tivesse acontecido. Mal comparando, uma espécie de ensaio geral da cegueira (e da perda da voz), como no romance magistral de Saramago, transformado em filme apresentado esta semana em canal privado de TV.

Então sobrevoemos agora com atenção e respeito a cidade de Ilhéus de Gabriela, do turco Nacib, do coronel Ramiro Bastos e seu filho pusilânime e mulherengo, Tonico. Miremos o universo romântico e cruel, belo, contraditório e instigante da obra de Jorge Amado, mostrado em forma de folhetim com direção de Walcyr Carrasco. A Ilhéus dos padres fazendeiros e complacentes, dos jornalistas ambíguos nos embates da política e nas relações com o poder e com os poderosos. A cidade dos poéticos professores, das mulheres doces e aparentemente submissas, mas indomáveis em suas lutas existenciais e em suas paixões amorosas.

Das jovens revolucionárias do seu tempo, como Gerusa e Malvina. Das putas encantadoras e comoventes do Bataclan. Dos boêmios do Bar Vesúvio. Dos políticos da Bahia e do País em seus labirintos, contradições ou pura safadeza. De Gabriela, enfim, no centro de tudo e no pensamento de todos: a linda, doce e tentadora “filha do povo” banida, pela seca e pela miséria, de sua terra sertaneja, que aporta no litoral sul baiano para seduzir e conquistar Ilhéus portentosa na riqueza do cacau e de seus poderosos coroneis.

Estes ambientes e estes personagem brilharam intensamente, esta semana, na tela da Globo, em momentos marcantes de pelo menos dois capítulos, dignos de figurar em antologias das melhores novelas da televisão brasileira em todos os tempos: a procissão pedindo chuvas para salvar a esturricada lavoura do cacau; o tango comovente dançado pela quenga Zarolha com Nacib, ao se despedir de seu amado “turquinho”, caído de amores por Gabriela; a invasão do jornal de Ilhéus e o diálogo de arrepiar do coronel Ramiro Bastos com o jornalista Douglas sobre a relação imprensa e poder. Imagens e interpretações para não esquecer.

Quinta-feira(5), em Paraty, na décima edição da FLIP, Jorge Amado ressurgiu, também, do limbo nacional onde o notável romancista havia sido lançado, com a sua obra, desde a sua morte em Salvador. Foi trazido outra vez para o centro do palco e dos debates, no emocionante encontro do escritor João Ubaldo com o diretor da novela, Walcyr Carrasco, mediado pelo jornalista Edney Silvestre.

Por um tempo “Gabriela” figurou como o romance que marcaria o afastamento do autor da esquerda e do Partidão (PCB). Ubaldo não engole de todo a ideia.

“Gabriela não é um momento de ruptura, porque de fato isso não aconteceu de forma tão deliberada. O que houve foi que, ao escrever o romance, Jorge, que morava no Rio, estava se preparando para voltar a viver na Bahia. O que mudou naquele momento foi uma postura diante da vida e não uma concepção ideológica. A partir daí, ele engordou estilisticamente, foi tomando uma certa pachorra diante da vida. Inúmeras vezes eu o ouvi dizer “compadre, existe filho de puta tanto de direita quanto na equerda”, revelou o autor de “Viva o Povo Brasileiro” em Paraty.

A novela “Gabriela” mostra isso à perfeição. Vale a pena conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-maiI: vitor_soares1@terra.com.br

jun
16
Posted on 16-06-2012
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 16-06-2012


Desaparecidos no Araguaia: “Amigos sumindo assim,
pra nunca mais”.

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ARTIGO DA SEMANA

Bebida amarga na Comissão da Verdade

Vitor Hugo Soares

“Como beber dessa bebida amarga?/Tragar a dor engolir a labuta?/Mesmo calada a boca resta o peito/ Silêncio na cidade não se escuta/ De que me vale ser filho da santa?/ Melhor seria ser filho da outra /Outra realidade menos morta /Tanta mentira tanta força bruta”.

“Cálice”, Chico Buarque e Gilberto Gil

Foi uma semana de amargar: A complacência e a cumplicidade (de quase todo lado) andaram juntas e de mãos dadas em Brasília. Abriam caminho para a impunidade no barro fofo do jogo de cena mambembe das falsas aparências e meias verdades na CPI do Cachoeira. Coisas de estarrecer e fazer corar frade de pedra, principalmente durante os depoimentos dos governadores de Goiás, tucano Marconi Perillo, e do Distrito Federal, petista Agnelo Queiroz.

Enquanto isso, na Folha de S. Paulo, o Exército reconhecia formalmente, pela primeira vez, através de nota do Ministério da Defesa, que foram destruídos todos os documentos que estavam em poder da corporação militar sobre os mortos e desaparecidos na Guerrilha do Araguaia, movimento armado contra a ditadura na região amazônica brasileira, entre fins da década de 1960 e a primeira metade da década de 1970.

Neste caso é a “força bruta”, de que fala há tantos anos a letra da canção de Chico e Gil, consagrada na interpretação de Milton Nascimento, que volta a bater inclemente contra o concreto. Mal disfarçada tentativa de romper diques de resistências da lei e da democracia, e de impedir ou atrapalhar a investigação que pode lançar luz sobre as sombras de um dos mais macabros e vergonhosos episódios envolvendo responsabilidade do Estado brasileiro na história recente do País.

Não faltam alertas, de velhos e novos conselheiros, ao autor dessas linhas, que viu bem de perto essas coisas: “Amigo, deixa isso prá lá. É murro em ponta de faca. Você não vai ganhar nada com isso, a não ser mais porradas e dissabores. Esquece esse assunto triste. Escreva mais sobre suas viagens pelo mundo e as coisas mais amenas da vida. Experimenta! Faz bem ao leitor e é melhor também para você”.

Entendo – e agradeço – o conselho e o recado, mas não consigo seguir a recomendação. Principalmente ao ver pela TV, algumas cenas da CPI do Cachoeira transmitidas ao vivo para o País, ou abrir o site da Folha e ler o título: ”O Exército diz não ter papéis sobre Guerrilha do Araguaia”.

E no texto da matéria, assinada pelos repórteres Rubens Valente e Lucas Ferraz, a informação que confirma a suspeita levantada desde o ano passado, quando o então ministro da Defesa, Nelson Jobim, apenas admitira que os documentos sobre a guerrilha brasileira em poder do Exercito, “estavam todos desaparecidos”.

Duro de engolir. Mas o que foi confirmado oficialmente, esta semana, é ainda pior e mais indignante. “Os documentos do Exército sobre a Guerrilha do Araguaia – uma das principais promessas para a elucidação do conflito – foram todos destruídos, informou o Ministério da Defesa à Folha. Linhas mais adiante : A admissão foi encaminhada à reportagem como resposta a um pedido de consulta feito baseado na Lei de Acesso à Informação, que entrou em vigor mês passado.

A reportagem esclarece: foram solicitados materiais produzidos entre 1970 e 1985 sobre ações do Exército contra a guerrilha, “o maior foco armado contra a ditadura (1964-1985), no sul do Pará e hoje norte de Tocantins. O conflito, organizado pelo PC do B, ocorreu entre 1972 e 1974”.

Segundo o jornal paulista , “na resposta do Serviço de Informação ao Cidadão, do Exército, criado para atender as demandas da nova lei, a instituição diz que um decreto de 1977 “permitia a destruição de documentos sigilosos, bem como dos eventuais termos de destruição”.

Diante do exposto, a garganta trava. É melhor sair do site, desligar o computador para não arrebentar o peito. Antes, porém, decido buscar na Internet o cartaz com a foto dos desaparecidos na guerrilha amazônica, ritual dolorido que pratico de vez em quando, como testemunha distante desta trágica história, e imagino o mesmo – e ainda mais dolorido – dos familiares em busca da verdade sobre os que aparecem naquelas fotografias.

No cartaz revejo os rostos de alguns de meus mais queridos, generosos e leais colegas e amigos da juventude, na Universidade Federal da Bahia e nas ruas vibrantes e resistentes de Salvador. Uma cidade, então, ainda não domesticada, culturalmente rica e politicamente indomável. Lá estão, entre outros: Dermeval Pereira, o colega e amigo maior e inseparável da Faculdade de Direito da UFBA, beque central elegante e imbatível nas peladas no campus do Canela; parceiro das sessões do Clube de Cinema da Bahia, no tempo do professor e crítico Walter da Silveira, aos sábados, no Cine Guarani, na Praça Castro Alves, e dos shows no TCA e Teatro Vila Velha.

Vejo ainda: Antonio e Dinalva (a Dina) Monteiro, o casal mais bonito e unido que já vi. Capaz de causar frisson a cada passagem de mãos dadas a caminho do Restaurante Universitário, no corredor da Vitória. Rosalindo Souza, o líder e amigo da primeira hora e de sempre. Primeiro negro a vencer uma eleição para presidente do histórico Diretório Acadêmico Ruy Barbosa (CARB). O cartaz exibe também a fotografia do quase imberbe pernambucano, Duda Collier, “um pão de Recife na figura de anjo barroco da Bahia” (segundo definição de muitas de suas colegas e admiradoras na UFBA), que apareceu de repente na Faculdade de Direito, e tão de repente quanto surgiu, um dia sumiu, “para nunca mais”, como em outra canção de Gil.

Escrevi recentemente sobre ele neste espaço, depois de ler a notícia do livro “Memórias de uma guerra suja”, com a revelação de um ex-delegado do DOPS, de que o corpo de Duda foi incinerado no forno de uma usina de açúcar do Rio de Janeiro. Agora, depois da notícia na Folha sobre a destruição dos documentos da Guerrilha do Araguaia, só uma pergunta: “Como beber desta bebida amarga?”.

Responda quem souber.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor-soares1@terra.com.br

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