Do Jornal do Brasil

 

EDUARDO MOURA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “Onde queres comício, flipper-vídeo”. Naquele ano de 1984, quando Caetano Veloso lançava “O Quereres”, política e videogame pareciam ocupar espaços opostos.

“‘Flíper’ era como se chamava pinball, fliperama. Eu via pessoas jogando em frente à TV. Isso contrastava com interesse em comícios, falas políticas em espaço público”, explica Caetano.

Trinta e cinco anos depois, o cenário mudou.

Neste momento em que o termo guerra cultural bate e quica nos discursos tanto de esquerdistas quanto de direitistas, o governo se digladia abertamente com setores como os de cinema e teatro. 

Mas há um tipo de produto cultural específico que, em vez pedradas, ganha afagos: os jogos eletrônicos.

“Um forte abraço gamers!”, postou Jair Bolsonaro, sem se preocupar com a vírgula.

Em falas recentes, o presidente tem feito acenos para a indústria de videogames.

Na última quinta-feira (15), publicou decreto que reduz alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), “incidentes sobre jogos de vídeo e suas partes e acessórios”. Bolsonaro também mencionou, em postagem nas redes sociais, taxas de importação para eletrônicos. 

No Twitter, como que para justificar a preocupação com os games, o presidente disse que “o Brasil é o segundo mercado no mundo nesse setor”. 

Sim, o mercado consumidor brasileiro é grande. Mas, não, não é o segundo. De acordo com a Newzoo, empresa de análise especializada no setor, o país é na verdade o 13°, com 75,7 milhões de jogadores, que gastaram ao todo US$ 1,5 bilhões em 2018.

“O setor de games surgiu como software e, no imaginário, ele ainda está muito próximo do setor de software. Enquanto nas ‘culturas clássicas’ a parte de negócios é uma consequência, o setor de games já nasceu voltado para o mercado. Quase não existe [o debate] ‘mercado versus cultura'”, diz o pesquisador Pedro Zambon, que mapeou o ecossistema brasileiro de jogos digitais.

“O governo encara o produto [game] como bem de entretenimento, diferente de cultura. Isso não é exatamente bom”, diz Luiggi Reffatti, programador e designer da Fira Soft, empresa brasiliense de games.

O decreto em favor dos consoles vem seis anos depois da frase “é um crime o videogame, tá ok? Você tem que coibir o máximo possível”, dita em 2013 por um Jair Bolsonaro ainda distante da faixa presidencial, no programa Mulheres, da TV Gazeta.

Em 2019, já presidente, Bolsonaro ligou pessoalmente para o jogador profissional de Counter-Strike Gabriel Toledo, conhecido como FalleN. A pauta da conversa era redução de impostos sobre games.

Para o jornalista João Varella, autor do livro ainda inédito “Videogame – A Evolução da Arte” (Ed. Lote 42), essa inflexão está ligada ao imaginário criado pelos jogos AAA (ou “triple A”), como são conhecidos os games blockbuster –para usar outro estrangeirismo, são os mais mainstream e nos quais, segundo Varella, a “competitividade exacerbada” impera.

“Esses jogos costumam tocar em questões que são parte dessa cultura branca, heterossexual e conservadora. Uma das franquias de maior sucesso desse mercadão é ‘Call of Duty’, que tem uma clara pauta de exaltação militar”, afirma o jornalista. 

Se o conceito de guerra cultural tem como epicentro temas como raça, sexualidade e comportamento, então essa idealização dos games é terreno menos hostil para a direita. “Nos games de maior expressão, existe uma cultura de violência para resolução de problemas que encaixa com uma ideia bolsonarística. E aí clica uma coisa com a outra”, diz Varella.

Porém, esse universo é mais complexo do que o senso comum faz parecer. As mulheres são a maioria dos jogadores casuais: 58,8%, de acordo com pesquisa Game Brasil de 2019. Nesse grupo, joga-se até três vezes por semana, em sessões de até três horas, e a plataforma principal são os smartphones. 

Entretanto, são os consoles e computadores que atraem a preferência dos jogadores “harcore”, que representam 30% do total mapeados, uma minoria ruidosa, composta majoritariamente por homens (58,9%).

Sob o ponto de vista das produções, começam a ganhar expressão jogos que vão na contramão da hegemonia temática dos AAA.

Longe dos protagonistas machões de franquias como “God of War” ou “Red Dead Redemption”, o game independente brasileiro “Dandara”, listado como um dos melhores de 2018 pela revista Time, tem como personagem principal uma mulher negra inspirada na esposa de Zumbi dos Palmares. Já o australiano “Florence”, eleito o melhor jogo para celular pelo Game Awards (espécie de Oscar do setor), define-se como “uma história de amor interativa”.

Mesmo dentro do âmbito dos AAA, ecos feministas se fazem presente. A protagonista da franquia “Tomb Raider”, Lara Croft, tem uma representação menos sexualizada na versão de 2018, se comparada com sua versão peituda de 1996.

A violência como solução de problemas, o machismo e a competitividade não são exclusividade dos videogames e têm forte presença nas alas mais comerciais de outras linguagens artísticas –de Hollywood a best-sellers juvenis. A diferença é que, como os jogos eletrônicos já nasceram mais voltados ao mercado, a supremacia dos AAA foi mais natural.

“Estamos em um momento de ver o videogame como expressão artística. Não dá para ficar só no ‘Call of Duty’ e achar que é tudo tiro, porrada e bomba”, diz Varella.

Os jogos ainda não se sagraram no Olimpo das artes. Caso chegue esse momento, resta saber se os afagos do conservadorismo permanecerão.

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Posted on 19-08-2019
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S. Salvador, NO JORNAL

 

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 DO EL PAÍS

Ele acaba de estrear o último filme de Tarantino, é um dos atores mais bem pagos do mundo e provoca fascinação embora suas entrevistas sejam sem graça. Qual é o truque para manter seu status de enigma?

Leonardo DiCaprio é o ator mais famoso do planeta, mas ninguém sabe nada sobre ele. Na imagem, o astro retratado em Nova York em 1995.
Leonardo DiCaprio é o ator mais famoso do planeta, mas ninguém sabe nada sobre ele. Na imagem, o astro retratado em Nova York em 1995. (Foto: Getty)

Em 1998, Leonado DiCaprio (Los Angeles, 1974) era o rei do mundo. Enquanto se decidia entre os 100 roteiros que lhe propuseram depois de Titanic, caía na farra diariamente com seus colegas entrando sem convite em festas da Victoria’s Secret, jogando lixo de uma ponte em cima dos carros da estrada e fechando boates de strip-tease sem deixar gorjeta. O grupo se autoproclamava Pussy Posse (“o bando da xoxota”), e gente como Donald Trump, Susan Sarandon e Mariah Carey fazia fila para cumprimentá-los no camarote.

Hoje Leonardo DiCaprio é o ator mais famoso do planeta, mas ninguém sabe nada sobre ele. Só sai com modelos (oito em duas décadas, nunca com mais de 25 anos; a última, a atriz Camila Morrone, tem 21). Esvaziou a zona VIP de uma boate de Miami levando 20 garotas à sua mansão e organizou uma festa em seu iate de Ibiza para Tobey Maguire, seu recém-divorciado companheiro do Pussy Posse, repleta de modelos.

O ator e seus colegas se faziam chamar Pussy Posse (“o bando da xoxota”), e pessoas como Donald Trump, Susan Sarandon e Mariah Carey faziam fila para cumprimentá-los no camarote

Mas sua imagem pública é a de um artista íntegro, discreto e comprometido com o meio ambiente. Seu ativismo ecológico o ajudou a desviar a atenção em relação à sua vida privada, que continua sendo uma perpétua farra adolescente, em uma estratégia que ele já explicou em 2000. “Finjo que sou um enigma complexo, mas o certo é que não quero que ninguém saiba quem sou. Quero parecer o mais seco, cinzento e sem graça possível”, afirmou, antes de enumerar 20 espécies em perigo de extinção.

Aquele 1998 mudou sua vida em três âmbitos: a Leomania, uma obsessão coletiva do público que colocou 10 livros sobre ele entre os 15 mais vendidos nos Estados Unidos; as festas com o Pussy Posse; e uma reunião com Al Gore para conhecer a ameaça da mudança climática. Seu ídolo Marlon Brando o desprezava (“Parece uma menina”) e o senador John McCain também (“É um frágil afeminado”). Ele rebateu esclarecendo :“Só porque eu queria sair de festa com outros caras não significa que seja gay!”

James Cameron, diretor de Titanic, descreveu-o como um “metido malcriado” depois que o ator lhe explicou que não iria à entrega do Oscar através de um SMS que dizia: “É que não curto muito isso, cara”. A piada que dizia que “tudo de ‘Titanic’ foi indicado ao Oscar, menos DiCaprio e o iceberg” foi o primeiro meme sobre o ator na Internet. Chegariam muitos outros, frutos de uma obsessão do público em decifrar o bendito mistério. Quem afinal é Leonardo DiCaprio? Se ele se nega a mostrar sua verdadeira personalidade, a Internet parece decidida a construí-la: sua promiscuidade é percebida como uma extravagância simpática e inofensiva, seu silêncio como uma decência, sua disciplina profissional como um desespero por ganhar um Oscar. Mas ele jamais parece dar importância às narrativas que se formam em torno da sua imagem.

Brad Pitt e Leonardo DiCaprio em ‘Era Uma Vez em... Hollywood’, o último filme de Quentin Tarantino, que tem Margot Robbie no elenco.
Brad Pitt e Leonardo DiCaprio em ‘Era Uma Vez em… Hollywood’, o último filme de Quentin Tarantino, que tem Margot Robbie no elenco.

Quando Lady Gaga deu um esbarrão no cotovelo de DiCaprio enquanto caminhava até o palco para receber o Globo de Ouro, o GIF viralizou em questão de minutos. “É que eu não sabia que ela passaria por ali”, limitou-se a explicar o ator. Quando veio o rumor brincalhão de que a ursa de O Regresso havia tentado abusar dele, seu agente desmentiu com um comunicado: “Isso não é o que ocorreu.” Quando lhe perguntaram por que rejeitou os papéis de Robin em Batman Eternamente, de Anakin em Star Wars II: O Ataque dos Clones e de Peter Parker em Homem-Aranha, limitou-se a confirmar que “houve reuniões, mas no final não fiz esses papéis”. Desse modo, o ator obriga o público a especular sobre os verdadeiros motivos que o levaram a não protagonizar aquelas superproduções: é o ator de maior bilheteria que jamais rodou uma sequência, a única estrela que não fez filmes de super-heróis, e seu único megassucesso, A Origem (além de Titanic), era uma opulenta sessão de psicoterapia. DiCaprio parece empenhado em demonstrar que Titanic foi uma exceção na sua carreia, que não prosperou graças a esse filme, e sim apesar dele.

Uma modelo que dormiu com DiCaprio contou que é um preguiçoso na cama e que não deixou de fumar cigarro eletrônico e ouvir música com seu fone de ouvido durante o sexo

Há duas semanas, durante a promoção de Era Uma Vez em… Hollywood (que estreou no Brasil em 15 de agosto), perguntaram a ele sobre a teoria popular de que Jack – seu personagem em Titanic, que morreu afogado – caberia em cima da porta onde Rose subiu para se salvar. Enquanto seus colegas de elenco Brad Pitt e Margot Robbie faziam piada (DiCaprio só concede entrevistas sozinho, e desde 1998 só se prestou a cinco reportagens de fôlego), ele respondeu “sem comentários”, olhando para o chão. DiCaprio se resiste a ser o meme viral da semana e se leva tão a sério (“Mas trazer um ser humano a um mundo como este?”, responde, quando lhe perguntam se quer ser pai) que o público acabou tendo respeito por ele. Todo cinéfilo cita um filme diferente em que percebeu que DiCaprio é um dos melhores atores de sua geração.

Na verdade, sua carreira pós-Titanic só fez prosseguir as inquietudes de seu início (o adolescente maltratado em O Despertar de Um Homem, o deficiente mental em Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador, o viciado em drogas em Diário de Um Adolescente) com personagens encurralados, teimosos ou doentes mentais. O projeto escolhido entre aquelas 100 ofertas de 1998, A Praia, espantou os adolescentes que pagaram o ingresso buscando uma aventura em tons de turquesa e deram de cara com um mergulho na loucura mediante conversas existencialistas. DiCaprio, por sua vez, levou todos os seus colegas de férias à Tailândia durante a filmagem, com despesas pagas pelo orçamento do filme.

“Sua cara é um campo de batalha de conflitos morais”, admira-se Martin Scorsese. “Gosto do fato de que ele não faça dois filmes por ano”, aplaude Quentin Tarantino, “como Al Pacino e De Niro nos anos setenta, faz só o que quer; portanto, se escolhe um filme, o público sabe que será bom.” Graças a ele, projetos impossíveis de vender nas grandes cadeias de cinema, como O Lobo de Wall Street e O Regresso, conseguiram financiamento e arrasaram na bilheteria se opondo aos típicos campeões de público: DiCaprio é o último sobrevivente daquela estirpe de estrelas que levavam as pessoas ao cinema. Por isso, seu Oscar é o único Oscar que importou ao grande público nos últimos 20 anos.

“Pessoalmente é educado, encantador, brincalhão e te olha nos olhos. E consegue não te dar nenhuma pista sobre sua verdadeira personalidade”, lamentou uma jornalista de The Guardian em 2007, após entrevistá-lo durante cinco horas. “Ao terminar, Leo foi para uma farra de nove horas em que gastou 10.000 euros (44.000 reais). É irritante porque esse DiCaprio é muito mais divertido do que o que bebeu água com gás comigo durante cinco horas.” Ele não esconde sua estratégia para manter o controle nas entrevistas. “Só falo sobre o que quero falar, não importa a pergunta”, diz. Em 2016, durante a campanha de promoção mais intensa de sua carreira antes do Oscar que acabaria ganhando por O Regresso, perguntaram a ele sobre a época da Leomania. “Época de quê?”, respondeu, fingindo não conhecer o nome que a imprensa deu ao fenômeno de sua fama global.

Leonardo DiCaprio usou essa fama para conscientizar a sociedade sobre a urgência de agir o quanto antes para mitigar a mudança climática. Reuniu-se com Barack Obama, com o papa Francisco e com Vladimir Putin (que disse que Leo é um homem de verdade”), foi porta-voz da ONU e produziu sete documentários. Mas sua preocupação, embora genuína, também lhe serviu para desativar perguntas que não deseja responder. Entre elas, qualquer uma relacionada com Don’s Plum, o filme amador que rodou com os Pussy Posse em meados dos anos noventa, em que ele improvisava frases como “deixa de me olhar assim ou te jogarei uma garrafa na porra da cara, sua vagabunda”, ante uma menina com lágrima nos olhos. DiCaprio e Maguire usaram seus contatos para impedir a estreia após se tornarem famosos. Mas o filme está hoje disponível no YouTube graças ao seu diretor, que decidiu publicá-lo após ser expulso do Pussy Posse.

DiCaprio é o ator de maior bilheteria que nunca rodou uma sequência, a única estrela que não fez filme de super-heróis, e ‘A Origem’, seu único megassucesso (além de ‘Titanic’), era uma opulenta sessão de psicoterapia

Enquanto isso, as histórias do outro DiCaprio, o animal da festa, continuam penetrando pelas gretas de sua recatada imagem pública: após ganhar o Oscar, foi para a farra com o Pussy Posse uivando e gritando “alcateia de lobos!” sem parar (o ator nega ter usado para o grupo o nome Pussy Posse, que considera “degradante para as mulheres”); uma modelo contou que dormiu com ele, que é um preguiçoso na cama e que não deixou de fumar cigarro eletrônico e escutar música eletrônica durante o sexo; e, num programa de TV, Jennifer Lopez lhe enviou uma mensagem (“Olá, querido. Estou com vontade de dar uma relaxada. Alguma sugestão?) e ele respondeu (“Hoje, querida, balada?”).

No Globo de Ouro de 2014, Tina Fey o apresentou dizendo: “E agora, como a vagina de uma top model, vamos dar as boas-vindas a Leonardo DiCaprio”. Ele entrou no palco e entregou o prêmio sem se alterar. “Sempre peço aos meus amigos que me imitem, e nunca são capazes”, queixava-se ele na época, “o que me faz sentir muito pouco interessante. Meus amigos me consideram insípido.” Um senhor insípido que coleciona caveiras de dinossauros, uma das quais vendeu a Russell Crowe por 30.000 euros (132.000 reais) durante uma bebedeira.

Essa estratégia prudente o protegeu a tal ponto que, em 2016, a Internet se reuniu em um clamor para que dessem o Oscar de uma vez por todas ao pobre Leonardo DiCaprio. A narrativa de que ele desejava ganhá-lo (só baseada no fato de que escolhe papéis lúcidos, porque ele certamente respondia sempre com um inócuo “seria uma honra ganhar, mas não depende de mim) levou o público a sentir pena dele cada vez que perdia. Uma lástima para um sujeito que trabalhou com os melhores diretores de Hollywood, que recebe no mínimo 20 milhões de euros (88 milhões de reais) por cada filme de arte e ensaio que roda e que, durante aquela festa em seu iate de Ibiza, orgulhou-se de comparecer a castings do canal adolescente CW para conquistar aspirantes a atrizes de 20 anos. Talvez conseguir ser percebido como um homem sem graça, formal e desinteressante seja a melhor interpretação de sua carreira. E sua cruzada pelo meio ambiente, tão nobre quanto conveniente, tenha mais sentido nele do que em qualquer outra pessoa: este planeta é seu; natural que queira protegê-lo.

 

Resultado de imagem para Janio Ferreira Soares no jornal A Tarde

CRÔNICA

 Será que ainda sou o herói dos meus filhos?

Janio Ferreira Soares

 

Apesar de soar meio clichê, nunca liguei para datas que o calendário define como apropriadas pra exaltar nascimentos, mortes, mães, pais e que tais, embora não tenha nada contra quem adora celebrá-las. Só que, aqui pra nós, qual o sentido de levar alguém para almoçar somente quando a folhinha diz que aquele é o seu dia? De que adianta acender uma vela para alguém que partiu, apenas no último dos 365 sóis que cruzam sua lápide? Qual o propósito de se desejar uma nova era só em 31 de dezembro, se um novo ciclo se inicia todo dia?

Pois muito bem, domingo passado foi a vez dos pais. E, como tal, fui alvo de várias mensagens de lojas onde comprei, de empresas aéreas em que voei, de operadoras de cartões que ainda não paguei, e até de estabelecimentos onde nunca pisei. Na sequência, recebi alguns telefonemas das queridas tias que me restam, e respondi aos “eu te amo” dos meus filhos, com um: “eu também”.

Mas, na boa, agora que eles estão com a idade que eu tinha quando os tive – e que eu já estou com mais do dobro de quando os ninei -, o que me interessa saber de verdade é se continuo fazendo jus às mensagens que os três, ainda crianças, me escreviam – e que até hoje estão coladas no meu armário -, do tipo: “pai, você é o meu herói!”. E aí, diante do espelho, miro minhas rugas e me pergunto se, hoje, no lugar da exclamação escrita com o hidrocor do orgulho, não estaria uma seca vírgula da decepção antecipando um “mas…”, cujas reticências abrigariam mágoas que prefiro desconhecê-las.

Claro que, amáveis como são, eles continuarão dizendo que ainda sou o mesmo Super-Homem que transformava um simples lençol de lã numa poderosa capa que os protegia das trovoadas de dezembro, embora eu saiba que estou mais para o velhinho do desenho UP – Altas Aventuras –, já que a qualquer momento posso sair voando na minha cadeira de balanço, levado por coloridos balões.

Mudando de assunto, semana passada meu amigo Rogério Xavier, cordelista de primeira, esteve na Flipelô e filmou um papo com minha querida Mabel Velloso. E aí, quando ele disse que era de Paulo Afonso, ela se declarou minha leitora e completou dizendo que até recortou um dos meus textos (O Menino Que Libertava Pipas) para um trabalho com seus alunos. No final, falou: “não sei se ele vai se lembrar de mim”.

Poxa, dona Mabel, como eu poderia me esquecer de uma pessoa que transborda a doçura das primeiras águas do Subaé (onde sua Canô se banhou) e do São Francisco (onde minha Cecília nadou)? A propósito, guardo uma linda mensagem que você me mandou quando escrevi, em 2007, um texto sobre nossas duas rainhas e suas coroas em forma de coque, que foi fundamental para que eu botasse fé na leveza de meus dedos. Um grande e carinhoso beijo.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na ribeira baiana do Rio São Francisco.

“Nessuno al Mondo”, Peppino di Capri: na área de comentários deste vídeo no Youtube, a italiana Patrizia Zaniboni , escreveu há  4 anos: e se bailava, lentamente, com o rapaz de quem você gostava…Que tempo!!!.”

Se vivo estivesse, o notável colunista baiano, Silvio Lamenha, seguramente diria: “Discordar, quem há de?”.

BOM DOMINGO?

(Vitor Hugo Soares)

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Posted on 18-08-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 18-08-2019

Projeto sobre abuso de autoridade pode ser um ‘veneno’, diz Dodge

 

Em Porto Alegre para a inauguração da nova sede da Procuradoria da República, Raquel Dodge criticou o projeto da Lei de Abuso de Autoridade, registra Fausto Macedo.

Para a chefe da PGR, a decisão do Legislativo deve ser respeitada, mas a esfera jurídica já dispõe de modos de contenção de abusos de agentes de Estado.

“A boa lei fortalece as instituições, mas é preciso atentar para o fato de que a própria lei pode se tornar um abuso que deseja reprimir”, acrescentou.

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Do  Jornal do Brasil

O presidente Jair Bolsonaro afirmou na noite de sexta-feira que pretende promover algum tipo de veto ao projeto de lei de abuso de autoridade, aprovado pela Câmara dos Deputados na última quarta-feira.

“Não li ainda o projeto. Segunda-feira eu leio, mas que vai ter veto, vai”, afirmou o presidente ao ser questionado sobre o assunto durante viagem a Resende (RJ), segundo a Agência Brasil.

Macaque in the trees
Jair Bolsonaro (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Bolsonaro tem 15 dias para decidir se sanciona ou veta o texto, parcial ou integralmente. O projeto tem sido alvo de críticas de várias entidades que participam do sistema Judiciário.

Nota técnica do Ministério da Justiça e Segurança Pública avaliou que o projeto pode “inviabilizar” o trabalho da Polícia Federal e do Ministério Público.

“É possível identificar diversos elementos que podem, mesmo sem intenção, inviabilizar tanto a atividade jurisdicional, do MP e da polícia, quanto as investigações que lhe precedem”, diz a nota obtida pela Reuters.

A análise da área técnica do Ministério da Justiça cita que um dos artigos do projeto –que considera abuso de autoridade decretar prisão em “manifesta desconformidade com as hipóteses legais– limita o exercício do juiz e cria “uma zona cinzenta pela qual o magistrado deve caminhar para viabilizar a compatibilidade entre a norma e a sociedade”.

Do Jornal do Brasil

 

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) lamentou, por nota, a negativa do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, em dar proteção ao jornalista e deputado David Miranda (PSOL) e seus familiares.

A ABI pede que Witzel reveja sua decisão e ressalta que é dever do Estado proteger qualquer cidadão.

A solicitação de escolta policial ocorreu após o deputado denunciar para a Câmara dos Deputados e para a Polícia Federal as ameaças vinha sofrendo. O parlamentar é casado com o também jornalista Glenn Greenwald, membro fundador do site “The Intercept”, que está publicando uma série de mensagens atribuídas a Sérgio Moro e ao procurador Deltan Dallagnol, indicando combinações nas atuações da operação Lava Jato.

O pedido feito pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, foi negado sobre o argumento que a legislação proíbe a proteção particular.

Nota oficial da ABI

Diante da negativa do governador Wilson Witzel em oferecer proteção ao jornalista e deputado federal David Miranda, companheiro de Glenn Greenwald, que vêm sofrendo ameaças de morte, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) vem a público afirmar o seguinte:
1) É direito de qualquer cidadão com a integridade física ameaçada receber proteção do Estado;
2) David Miranda é uma figura pública, detentor de um mandato de deputado, e comprovadamente tem recebido ameaças, assim como sua família;
3) Nos momentos em que David está em Brasília exercendo seu mandato de deputado federal, ele tem tido proteção da Polícia Federal, a pedido do presidente da Câmara, Rodrigo Maia;
4) Ao negar-se a dar proteção a David e seus parentes, apesar da solicitação de Maia nesse sentido, o governador Witzel automaticamente torna-se também responsável por qualquer atentado que eles sofram;
5)A ABI espera que o governador reveja sua posição e cumpra seu dever, protegendo David e sua família.

Paulo Jeronimo de Sousa
Presidente da ABI

Cid Benjamin
Vice-Presidente da ABI e presidente da Comissão de Direitos Humanos da entidade

ago
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Posted on 18-08-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 18-08-2019

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Sinovaldo, no jornal NH (RS)

 DO G1/O GLOBO
 

Por Victor Vidigal, G1 AP — Macapá

Pronunciamento da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados aconteceu neste sábado (17), em Macapá — Foto: Victor Vidigal/G1 Pronunciamento da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados aconteceu neste sábado (17), em Macapá — Foto: Victor Vidigal/G1

Pronunciamento da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados aconteceu neste sábado (17), em Macapá — Foto: Victor Vidigal/G1

Representantes da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados se pronunciaram neste sábado (17), em Macapá, contestando o laudo preliminar apresentado pela Polícia Federal (PF) que sugere como afogamento a causa da morte da liderança indígena Emyra Waiãpi, em julho no Amapá.

A posição contrária ao documento apresentado pela polícia, se baseia em um vídeo feito pelos indígenas logo após o corpo de Emyra ter sido encontrado, no dia 27 de julho. No registro é mostrado cortes no rosto, cabeça e região genital do cacique. A gravação está circulando nas redes sociais, mas ainda não foi divulgada oficialmente.

A perícia, realizada por dois médicos legistas Polícia Técnico-Científica (Politec) do Amapá, no dia 2 de agosto, indica que não houve “lesões de origem traumática” e nem “sulcos evidenciáveis de enforcamento” no pescoço do indígena. Ainda afirma que a lesão na cabeça da vítima foi considerada pelos médicos como superficial pois “não atingiu planos profundos, e que não houve fraturas”.

O corpo do indígena foi exumado, ao longo de duas horas, com autorização da família e de outros líderes indígenas, respeitando as tradições daquele povo.

A PF ainda aguarda o resultado do laudo toxicológico complementar, onde é examinado o que foi coletado dos órgãos internos de Emyra. As amostras estão sendo analisadas no Laboratório de Toxicologia Forense, com previsão de entrega em 30 dias.

 
Comissão de Direitos Humanos da Câmara contesta laudo da morte do índio Emyrá Waiâpi

Comissão de Direitos Humanos da Câmara contesta laudo da morte do índio Emyrá Waiâpi

O deputado federal Camilo Capiberipe (PSB), integrante da CDHM, informou durante o encontro, ocorrido no Museu Sacaca, em Macapá, que os próximos passos dos parlamentares será fazer um pedido para que a investigação seja aprofundada.

“Não foi feito uma perícia do local onde o corpo foi encontrado, demorou um certo tempo para haver um deslocamento da perícia e o vídeo mostra que o corpo sofreu violência. O laudo diz que não é violência suficiente para caracterizar homicídio, mas nós entendemos que essa investigação precisa ser aprofundada”, disse o deputado.

O político, junto com a deputada federal Joênia Wapichana (Rede), coordenadora da Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Povos Indígenas, e representantes da Defensoria Pública da União e Ministério Público Federal estiveram reunidos com líderes de 93 comunidades Waiãpis na sexta-feira (16), no município de Pedra Branca do Amapari.

No encontro, os parlamentares puderam escutar a versão dos indígenas sobre a morte do cacique Emyra e a suposta invasão de garimpeiros. De acordo com Joênia, ainda é preciso que seja esclarecido todo o caso para evitar qualquer tipo de dúvida sobre o trabalho investigativo.

“O governo federal tem que cumprir as obrigações constitucionais que é justamente dar uma resposta a um procedimento de investigação, sem interferência política. A gente está aguardando que as autoridades policiais possam responder esse quesito. É nesse sentido que a gente está indo. Nós estamos confiando que eles respondam de imediato para que não restem dúvidas sobre as circunstâncias do crime”, declarou a deputada.

 

Deputada federal, Joênia Wapichana — Foto: Rede Amazônica/Reprodução Deputada federal, Joênia Wapichana — Foto: Rede Amazônica/Reprodução

Deputada federal, Joênia Wapichana — Foto: Rede Amazônica/Reprodução

O senador Randolfe Rodrigues, que visitou a aldeia e conversou com lideranças no dia 30 de julho, disse que já solicitou uma cópia do laudo pericial junto a PF, e indagou uma série de questões sobre o trabalho policial.

“Quem fez o laudo? Quem são os médicos legistas? Por que o corpo do Emyra não foi trazido para da TI para Macapá? Por que foi um helicóptero da capital para lá (TI) para fazer a necropsia lá, no meio da floresta? Quais as condições que tinham para essa necropsia ser feita lá no meio da floresta? É um conjunto de perguntas que precisam ser respondidas”, acrescentou Rodrigues.

As respostas para dúvidas é o que também espera Dalson Karipuna, coordenador da Associação Indígena do Povo Karipuna (Aika). Ele reforça a versão de que o ataque ao indígena Emyra Waiãpi foi causado por uma invasão de garimpeiros.

“A gente sabe que nós indígenas lutamos pela preservação do meio ambiente, então com certeza foi invasão dos garimpeiros que fizeram isso. Não é verdade o que eles [PF] estão divulgando, o povo que está lá viu o que aconteceu”, disse a liderança do povo indígena de Oiapoque.

Na tarde deste sábado, representantes da CDHM ainda irão ter uma reunião com policiais federais responsáveis pelo inquérito e um novo encontro com lideranças indígenas.

 

Aldeias Waiãpi no Amapá — Foto: Reprodução Aldeias Waiãpi no Amapá — Foto: Reprodução

Aldeias Waiãpi no Amapá — Foto: Reprodução

Investigação

A exumação foi acompanhada por servidores da Funai. Ao todo, 27 pessoas participaram do trabalho, entre agentes da PF, Polícia Civil e Politec.

Mesmo não encontrando indícios de invasão, o MPF, que também abriu investigação sobre o caso, declarou que “há várias linhas de investigação” e que “nenhuma foi descartada”.

 

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