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Posted on 23-11-2020
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CULTURA NACIONAL

Quase ninguém lembra, mas há exatos cinquenta e quatro anos, numa quarta-feira, a Bossa Nova apresentava-se ao mundo.

Por Mendes Júnior*

Bossa Nova Carnegie Hall – Reprodução

Era 21 de novembro de 1962, às 20:30hs, Carnegie Hall, Nova York, quando uns meninos subiam ao palco para mostrar um tal balançado da New Brazilian Jazz, como os americanos gostavam de dizer. Quem eram estes meninos? Ninguém menos do que Oscar Castro Neves, Sérgio Mendes, Roberto Menescal, Carlinhos Lyra, Chico Feitosa, Milton Banana, Caetano Zama, Sérgio Ricardo, Normando Santos, Dom Um Romão, Luiz Bonfá, Agostinho dos Santos, João Gilberto e Antonio Carlos Jobim, que à época já era famoso nos Estados Unidos como o compositor de “Desafinado”; enfim, o fino da bossa tinha a missão de provar que o Brasil era capaz de produzir música sem pandeiro.

É claro, reunir tantas estrelas principiantes geraria muita desconfiança até nos próprios músicos. O concerto só foi possível diante de uma parceria entre a gravadora americana Audio-Fidelity e o Itamaraty. Mas foi justamente na escolha do elenco que começou a confusão. Muita gente boa ficou de fora, como João Donato (e sua “Rã”) e Johnny Alf, que em 61 já havia gravado seu sucesso “Rapaz de bem”. Alguns que se achavam bambas no violão não foram convidados pela induvidosa ausência de qualidade. Inclusive, apareceu gente ressentida que bateu o pé, alegando que Bossa Nova não se misturava com passistas e ritmistas.

Por sua vez, a imprensa brasileira fez pouco caso e foi muito cruel na cobertura, exagerando nas piadas. O fato é que era esperado um verdadeiro desastre na apresentação dos brasileiros, coisa que preocupava principalmente Tom Jobim, João Gilberto e Luiz Bonfá, nomes que já corriam por ouvidos estrangeiras. Tanto é verdade que Tom Jobim só embarcou depois de ser enfiado à força dentro de um avião pelo amigo e escritor Fernando Sabino: “Você vai vencer, Tom”.

Muitos deslizes aconteceram de verdade, como Normando Santos cantando com o microfone desligado, Roberto Menescal escorregando na letra de “O barquinho” e o próprio Tom pedindo um minutinho para recomeçar “Corcovado”. Por uma razão apenas as suspeitas de Tom não se transformaram em sua tragédia pessoal: quando “Corcovado” entrou nos eixos, e ele cantou a letra toda, em português e inglês, a plateia só faltou se jogar aos seus pés. E é válido ressaltar que no distinto recinto estavam Tony Bennett, Dizzy Gillespie, Miles Davis, Gerry Mulligan, Herbie Mann, entre outros que também queriam escutar de perto o violão de João Gilberto. Por esta razão, este foi o escolhido para encerrar o concerto, deixando Sérgio Mendes responsável pela abertura. Com certeza, ficaram bastante impressionados com “Samba da minha terra”, “Desafinado” e “Outra vez”.

Alguns só voltaram para casa muito tempo depois, como foi o caso de João Gilberto, Tom Jobim, Sérgio Ricardo e Oscar Castro Neves, para citar alguns. A partir desta noite, a vida da Bossa Nova mudou completamente. A música “Desafinado”, por exemplo, foi gravada onze vezes nos Estados Unidos no mesmo ano, sendo uma delas com tiragem de um milhão de discos. Durante anos, o áudio do espetáculo (fita-pirata) permaneceu como moeda rara nas mãos de colecionadores. Hoje em dia já é possível ser encontrado em versões modernas de gravação, com o charme dos aplausos e todo o resto de um show ao vivo, mas a dificuldade de encontrar é a mesma. Qualquer esforço neste sentido vale, pois estará lá parte da história da música brasileira, pérolas, por assim dizer, como “Manhã de Carnaval” (com Agostinho dos Santos, Luiz Bonfá e Oscar Castro-Neves), “Zelão” (com Sérgio Ricardo e Milton Banana), “Passarinho” (com Chico Feitosa), “Amor no samba” (com Normando Santos e Oscar Castro-Neves) e “Influência do Jazz” (com Carlinhos Lyra e Oscar Castro-Neves. Como disse Vinicius de Moraes, “a Bossa Nova voltou mais uma vez para ficar por toda a vida”. Que assim seja, poetinha.

nov
23

“Bossa Nova At Carnegie Hall-1962 (Álbum Completo):Assista a “Bossa Nova At Carnegie Hall – 1962 – Full Album” no YouTube

BOA SEMANA

(Gilson Nogueira)

 

Correio Braziliense

Site que computa referências científicas ao redor do mundo destaca os profissionais mais mencionados em pesquisas no ano. Mercedes Bustamante é o único nome do Centro-oeste

CB
Correio Braziliense
 

 (crédito: Secom Unb/Divulgação)

(crédito: Secom Unb/Divulgação)

Referência no quesito de citações científicas, o portal Web of Science divulga, todos os anos, os nomes dos pesquisadores mais citados em trabalhos científicos no mundo. Este ano, a lista traz 19 brasileiros – um deles, a professora da Universidade de Brasília (Unb), Marcela Bustamante, chilena radicada no Brasil e uma das maiores autoridades em ecologia no país.

A plataforma computou menções da 6.389 pesquisadores, de 60 países, nas áreas de ciências, ciências sociais, artes e humanidades. Entre os citados, a produção de 3.896 deles teve impacto em áreas específicas, enquanto o conhecimento de 2.493 outros foram utilizados em campos de pesquisa diferentes dos que lhe são de origem, o que é chamado de cross field.

“É uma satisfação para qualquer pesquisador ter seu árduo trabalhado reconhecido por citações de colegas. Isso quer dizer que muitos cientistas leram seus trabalhos e reconheceram a importância”, afirmou Paulo Artaxo, um dos brasileiros nessa lista. Artaxo falou ao site da A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A fundação apoia o trabalho de Artaxo e de outros dez citados pela Web of Science.

Profª Lucia de Noronha

Profª Lucia de Noronha (foto: 17/09/2020/Gian Galani Fotografias/PUCPR)

Brasileiros mais citados no mundo em 2019:

Paulo Artaxo (Geociências), do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP);
Álvaro Avezum (cross-field), do Instituto de Cardiologia Dante Pazzanese;
Andre Brunoni (cross-field), da Faculdade de Medicina (FM) da USP;
Geoffrey Cannon (Ciências Sociais), da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP;
Henriette Azeredo (Ciências Agrícolas), da Embrapa Agroindústria Tropical em São Carlos;
Mauro Galetti (Meio Ambiente e Ecologia), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro;
Renata Bertazzi Levy (Ciências Sociais), da FM-USP;
Maria Laura C. Louzada (Ciências Sociais), do Instituto de Saúde e Sociedade da Universidade Federal de São Paulo (ISS-Unifesp);
Carlos Augusto Monteiro (Ciências Sociais), da FSP-USP;
Helder Nakaya (Imunologia), da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP;
Anderson S. Sant’Ana (Ciências Agrícolas), da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp);
Fernando C. Barros (cross-field), da Universidade Federal de Pelotas (UFPel);
Mercedes Bustamante (cross-field), da Universidade de Brasília (UnB);
Adriano Gomes da Cruz (Ciências Agrícolas), do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ);
Mônica Queiroz de Freitas (Ciências Agrícolas), do Departamento de Tecnologia dos Alimentos da Universidade Federal Fluminense (UFF);
Pedro Hallal (Ciências Sociais), da UFPel;
Luis Augusto P. Rohde (Psiquiatria e Psicologia), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS);
Felipe Schuch (Psiquiatria e Psicologia), da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM);
Cesar Gomes Victora (Ciências Sociais), da UFPel.

Brasília no radar da Ciência

Doutora em geobotânica pela Universitaet Trier, na Alemanha, e mestre em ciências agrágrias, Mercedes Bustamante é referência no estudo do cerrado no Brasil. Nascida no Chile, a professora do departamento de ecologia completa 27 anos na Universidade de Brasília em dezembro desse ano. Pesquisadora do Instituto de Biologia do centro de ensino, ela já recebeu prêmios como o Verde das Américas e Cláudia, na categoria Ciência.

Suas pesquisas se dedicam especialmente a temas ligados a mudanças no uso da terra, biogeoquímica e mudanças ambientais globais. A professora foi membro do Comitê Científico responsável pela revisão do relatório sobre emissões de óxido nitroso (N2O) do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), além de representar Brasil e América latina em diversas iniciativas ambientais de esforço internacional.

*com informações da Agência Brasil

nov
23
Posted on 23-11-2020
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Clayton, NO JORNAL

 

nov
23
Posted on 23-11-2020
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João Alberto Silveira Freitas, homem negro de 40 anos, foi espancado e morto por dois homens brancos em uma unidade do supermercado Carrefour, em Porto Alegre (RS)

ST
Sarah Teófilo
 

 (crédito: Arquivo Pessoal)

(crédito: Arquivo Pessoal)

O automobilista britânico Lewis Hamilton, sete vezes campeão mundial de Fórmula 1, lamentou neste sábado (21/11), a morte de João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos. Beto, como era conhecido, foi espancado e morto por dois homens brancos em uma unidade do supermercado Carrefour em Porto Alegre (RS), na noite do dia 19.

“Devastado ao ouvir essa notícia, outra vida preta perdida mais uma vez. Ainda está acontecendo e nós temos que lutar para impedir que isso continue. Estou enviando todos os meus pensamentos e orações para você, Brasil. Descanse em paz João Alberto Silveira Freitas“, escreveu Hamilton em uma publicação no Instagram, junto com a foto de um protesto.

A morte de João Alberto gerou muita revolta e protestos não só em Porto Alegre, mas também em outras capitais, como São Paulo. O caso também está gerando uma série de manifestações pelas redes sociais.

“The Shadow Of Your Smile”, Leny Andrade: com a bossa que encanta o mundo!

BOM  DOMINGO!!!

(Gilson Nogueira)

 

nov
22
Posted on 22-11-2020
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DO CORREIO BRAZILIENSE

Depois de exaltar Marta Suplicy no programa no horário eleitoral na TV, o candidato a reeleição Bruno Covas (PSDB) foi às ruas da zona sul de São Paulo, neste sábado

AE
Agência Estado
 

 (crédito: AFP / Nelson ALMEIDA)

(crédito: AFP / Nelson ALMEIDA)
Depois de exaltar Marta Suplicy no primeiro programa no horário eleitoral na TV do segundo turno, o prefeito e candidato a reeleição Bruno Covas (PSDB) foi às ruas neste sábado, 21, pela primeira vez ao lado da ex-prefeita. Covas aposta no apoio de Marta para conquistar votos na periferia, que também é disputada pelo candidato do PSOL, Guilherme Boulos.
Por medida de segurança em virtude da pandemia do novo coronavírus, Marta, 75 anos, circulou pelas ruas dentro de uma caminhonete com paredes de acrílico, nos moldes do ‘papamóvel’. Ao lado do marido, Márcio Toledo, a ex-prefeita dançou, acenou para eleitores e fez um discurso, sempre dentro do veículo.
Quem também lança mão da estratégia de usar um veículo protegido para ir às ruas na campanha é a ex-prefeita Luiza Erundina (PSOL), vice na chapa de Boulos, que, aos 85, faz parte do grupo de risco para a covid-19.
 
Já Bruno Covas, na agenda com Marta, foi caminhando pelas ruas de bairros na zona sul da capital. A decisão de colocar Marta Suplicy em evidência no 2° turno faz parte de uma estratégia do PSDB de consolidar o eleitorado de Covas nas regiões da periferia, onde a ex-prefeita ainda é popular.
Em 2016, o então candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo, João Doria, só perdeu em duas das 58 zonas eleitorais da cidade: Grajaú e Parelheiros. Em ambas a derrota foi para Marta Suplicy, que disputou a eleição municipal daquele ano.
Esses foram os dois bairros escolhidos para as agendas de hoje com o atual prefeito e a ex- prefeita, que aderiu à campanha de Covas no 1° turno e coordena um movimento suprapartidário de apoio ao tucano. A presença dos dois causou aglomeração nas ruas do comércio dos dois bairros.
Em uma breve entrevista coletiva em Parelheiros, o prefeito evitou se comprometer a integrar o movimento, liderado por Marta, de criação de uma frente ampla contra o presidente Jair Bolsonaro.
“Cada momento sua aflição, 2022 vamos discutir no ano que vem”, afirmou. O tucano também desconversou quando questionado se Marta terá espaço em um eventual 2° mandato. “Nenhum apoio no 1° ou 2° turno foi negociado em troca de espaço na administração”

 

Bahia em Pauta » Blog Archive » Janio Ferreira Soares: “Angelo, percebendo  que não voltaria mais pra casa, pediu pra fazer o que mais gostava na vida:  soltar uma pipa”
 ARTIGO

                                             Mais uma eleição nas quebradas do sertão

                                            Janio Ferreira Soares

Comecinho da manhã de domingo, 15 de novembro e bombas explodem nas imediações da minha aldeia, não para anunciar as novenas que sobejam por aqui. O motivo do foguetório é uma espécie de “se ligue que a eleição começa já”, fato que, pensando bem, também tem algo de religioso, pois a maioria dos eleitores digita o número de seu candidato como se pagasse antecipadamente uma graça que só será alcançada se seu “santo” vencer e tiver caráter suficiente para cumprir a promessa.

A primeira eleição que tenho na memória ocorreu em outubro de 1962, em Glória (BA), quando seu Zé Casimiro (PSD) e meu querido tio Lindemar (UDN), disputaram voto a voto a honra de ocupar a cadeira situada sobre o piso de um casarão próximo a uma das muitas curvas que o São Francisco fazia antes de se jogar nas cachoeiras de Paulo Afonso. Naquele tempo a eleição era um acontecimento, onde as pessoas vestiam as melhores roupas e se dirigiam às seções como se estivessem indo ao baile do clube municipal na noite de Santo Reis.

Pois bem, encerrado o primeiro dia de apuração (devido ao atraso do Juiz Eleitoral houve a necessidade de interromper a contagem) e faltando apenas abrir a urna do povoado Brejo do Burgo, a comemoração em frente à casa de seu Zé Casimiro, então com sete votos de frente, varou a madrugada, contrastando com o ambiente fúnebre na casa de minha avó Aristéia, onde rostos abatidos e velas acesas pra Santo Antônio reforçavam o clima de velório.

Com apenas quatro anos de idade e ainda sem entender quase nada dessas coisas, conta minha tia Aldinha que eu estava meio desolado num canto do quarto, quando ela me pegou no colo e disse: “Não se importe não, meu filho, mas parece que o seu Dadá vai perder”, no que eu, entre o sono chegando e o beicinho antecipando o pranto, respondi, no pronome característico da infância: “Eu se importo, sim!”.

Manhã seguinte, por ser outubro, o dia amanheceu como só o décimo mês tem a capacidade de deixá-lo, com as cores das folhas novas dos tamarineiros e umbuzeiros verdejando de uma forma tal, que a rua mais parecia um final feliz de um conto dos Irmãos Grimm.

E foi assim, com apenas 24 votos válidos na última urna – e com poucos e desanimados udenistas acompanhando a quase impossível virada -, que o nome “Lindemar” foi gritado pelo escrutinador por 18 vezes, enquanto “Zé Casimiro” repetiu-se por apenas 6, o que levou o “meu” Dadá a vencer por 5 votos, provocando em Valdemarzinho o grito de: “Ô negro de sorte!”, que se atualmente soa inconcebível, à época refletia unicamente uma expressão de carinho entre amigos de uma terra que hoje jaz.

Em tempo: tia Aldinha fez 94 anos este mês. Em dezembro será a vez de Dadá soprar o mesmo número de velinhas. A eles, o meu mais terno amor.

 

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na magem baiana do Rio São Francisco

nov
22
Posted on 22-11-2020
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Brum, no jornal

 

Reuters/Ricardo Moraes
Credit…Reuters/Ricardo Moraes

Por Lisandra Paraguassu

No dia 24 de setembro, pouco depois do fim das convenções partidárias que definiram as chapas das eleições municipais, o candidato a vereador Cássio Remis (PSDB) foi morto em Patrocínio (MG) com cinco tiros, à luz do dia, filmado por câmeras de segurança.

O assassinato marcou a abertura da campanha eleitoral municipal de 2020 e intensificou a temporada de mortes, agressões e atentados.

No mesmo dia, com menos repercussão, morreu em São José da Coroa Grande (PE), Valter Rafael da Silva (DEM), o Valter do Conselho, também candidato a vereador.

Foram duas vítimas no mesmo dia de um período, entre julho e setembro de 2020, em que 123 políticos e associados foram alvo de homicídios, atentados, agressões, de acordo com levantamento feito pelo Grupo de Investigação Eleitoral (Giel) da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio).

Dados ainda não publicados pelo Giel mostram que a violência continuou crescendo à medida que a eleição se aproximava. Números repassados à Reuters com levantamento de outubro e até 9 de novembro, 6 dias antes da eleição, mostram, em cerca de 40 dias, 14 homicídios e 58 tentativas.

No próprio dia da eleição, o Ministério da Justiça registrou sete ameaças e sete tentativas de homicídio. Em Sumaré (SP), no início da noite de domingo, com as urnas fechadas, Edmar Santana (Patriotas), que acabara de ser eleito suplente para a Câmara de Vereadores, foi assassinado a tiros por um homem que passou por ele de moto, de acordo com a emissora EPTV, do interior de São Paulo.

A violência política no Brasil, que existe ao longo do ano –em um reflexo da própria violência que domina o país–, se acentua em anos eleitorais e cresce à medida que a eleição se aproxima.

No primeiro trimestre deste ano foram 88 casos de violência, no segundo, 86 e no terceiro, 123. Em 2019, ano sem eleições municipais ou estaduais, o total ficou em 148. Ou seja, só nos primeiros 9 meses de 2020 os casos de violência foram o dobro de todo ano passado.

Os assassinatos e atentados não escolhem partido. O levantamento do Giel mostra que foram mortos, agredidos e ameaçados políticos de praticamente todas as legendas, do PSOL ao PSL. São vereadores, prefeitos, candidatos a prefeito, lideranças locais. Em alguns casos, deputados estaduais e federais, mas em um número muito menor –nesses casos, ameaças é o mais comum.

Os casos estão espalhados por praticamente todos os Estados, mas raramente acontecem em capitais. É nos municípios menores onde a rivalidade eleitoral é mais violenta.

“O conflito político brasileiro não é nacional, é local”, diz Felipe Borba, coordenador do Giel. “Nos pequenos municípios é uma lógica de rivalidade local. Nesses pequenos é quase um jogo de soma zero: quem tem acesso ao cargo político tem acesso a muita coisa; perder o controle do poder público tem um custo político muito alto, é patronagem mesmo. Estar na oposição é não ter nada.”

Os dados de homicídios com motivações políticas levantados pelo Giel mostram, ainda, que a eleição municipal é muito mais violenta que os pleitos nacionais. Em 2018, ano de eleição presidencial –e apesar do atentado ao então candidato Jair Bolsonaro– aconteceram 26 mortes. Em 2019, com o final do ano já dando sinais das primeiras disputas locais, esse número chegou a 47. Em 2020, nos primeiros 9 meses do ano, foram 91 mortes.

A motivação, enraizada nas disputas locais, varia de acordo com os interesses, a criminalidade e o submundo local.

Em início de outubro, Adriano Sousa Magalhães, candidato a prefeito em Dom Eliseu (PA), foi assassinado com um tiro na cabeça enquanto jantava em uma lanchonete na cidade. O atirador estava em um carro e fugiu em seguida. Até agora ninguém foi preso.

Dom Eliseu, no nordeste do Pará, está no centro da extração de madeira ilegal na Amazônia, de acordo com a ONG Imazon, que acompanha o desmatamento na região.

O Estado do Rio de Janeiro registrou, nas últimas semanas antes da eleição, números crescentes de assassinatos e atentados. Em Nova Iguaçu, quatro dias antes da eleição, Domingos Cabral (DEM) foi morto por homens encapuzados enquanto estava em um bar. Um mês antes, na mesma cidade, Mauro da Rocha, também foi assassinato.

No início de novembro, um dos vereadores da capital, o ex-policial militar Zico Bacana (Podemos), foi baleado quando vazia campanha na zona norte. O vereador, que foi investigado por envolvimento com milícias, não foi reeleito.

Apesar da falta de resultados das investigações, Borba afirma que se pode ver alguns padrões nas motivações a partir das regiões.

“Tem alguns padrões. Aqui no Rio de Janeiro o principal é envolvimento com crime organizado, tráfico, milícia. No Pará há muitos crimes ligados à disputa por terra”, explica.

VISIBILIDADE
A morte de Cássio Remis foi filmada por câmeras de segurança em Patrocínio; Adriano Magalhães morreu na lanchonete mais movimentada de Dom Eliseu; há 10 dias, Ricardo Moura (PL), candidato a vereador em Guarulhos, fazia uma live em redes sociais quando foi baleado na perna e no ombro.

Ainda assim, em nenhum desses casos alguém foi preso. Em Patrocínio, o secretário de obras Jorge Marra –irmão do prefeito Deiró Marra (DEM), candidato à reeleição–, aparece atirando em Remis, mas está foragido há quase dois meses. Nos outros casos, a polícia ainda não conseguiu identificar autores ou mandantes.

A sensação de faroeste não é nova no país. Em 1963, os senadores rivais Arnon de Mello –pai do ex-presidente Fernando Collor– e Silvestre Péricles sacaram armas no plenário do Senado e Mello, ao tentar atingir Péricles, matou o senador pelo Acre José Kairalla.

Em 1993, Ronaldo Cunha Lima, então governador da Paraíba, deu dois tiros no ex-governador Tarcísio Burity, que acusara seu filho, Cássio Cunha Lima (PSDB) –ex-senador e ex-governador do Estado– de corrupção. Em 1998, Ceci Cunha (PSDB), primeira mulher eleita deputada federal por Alagoas, foi assassinada com outras três pessoas. Um deputado foi apontado como mandante, mas nunca julgado.

No interior do país, disputas políticas eram comumente resolvidas à bala sem chegar às manchetes dos jornais.

No século 21, capitais raramente são alvo de cenas de violência nesse nível, mas em 2018 a vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL) foi assassinada, junto com o motorista Anderson Gomes. Apesar da pressão no país e no exterior, a polícia conseguiu chegar ao ex-PM Ronie Lessa como executor do crime, mas até hoje não alcançou o mandante.

“São poucos políticos locais que têm visibilidade e geram comoção, como o caso da Marielle, que era uma liderança em ascensão e na capital. A maior parte dos casos acontece nos municípios pequenos, sem visibilidade, não gera essa comoção para investigar”, diz Borba.

Por mais chocante que seja um político sofrendo um atentado ao vivo, como aconteceu mais de uma vez neste ano, nada foi feito em relação a uma política para investigar ou prevenir isso. E essa violência, alerta Borba, não é apenas contra políticos, mas eleitores, que são coagidos, ameaçados e, muitas vezes –como nas áreas de milícias no Rio de Janeiro– vivem sob domínio de grupos violentos.

A cada eleição, a pedido do TSE, o governo federal envia a Força Nacional de Segurança ou tropas das Forças Armadas para locais considerados de maior risco –este ano cerca de 600. Esse reforço, no entanto, normalmente chega na véspera e vai embora no dia seguinte à eleição.

“É até lugar comum falar da impunidade, mas não tem uma política organizada de combate ao crime político. Deveria ter um núcleo especializado para investigar esse tipo de crime, não basta essas operações de mandar Força Nacional, Exército. Isso pode inibir naquele momento, mas o ciclo eleitoral é muito longo. Tem político morrendo desde o ano passado”, disse Borba. (com agência Reuters)

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