ARTIGO

Conselhos de Isócrates

Joaci  Góes

 

Ao amigo, confrade e helenista Ordep Serra!

O longevo pensador-moralista grego Isócrates (436 a.C. – 338 a.C.), imortalizado como o Pai da Oratória, foi, ao longo dos seus noventa e oito anos de vida, contemporâneo e amigo de Sócrates, Platão e Aristóteles. Sem dúvida, um recorde existencial inigualável. Ele foi o primeiro a escrever discursos para servir de modelo aos discípulos de retórica. Entre seus trabalhos, chegaram à posteridade os conselhos que deu a Nicoclés, jovem rei de Salamina, herdeiro do trono do pai, Evágoras, diante dos quais exercia, com plena liberdade, o papel de mestre e conselheiro, seja pelo consentimento dos monarcas, seja por sua inquebrantável independência de espírito.

Nos tempos temerários que atravessamos, vamos adocicar o transcurso da Semana Santa com a evocação de alguns dos seus conselhos que preservam gritante atualidade. Para maior proveito dos leitores, fizemos, por nossa conta e risco, a adaptação da linguagem e dos conceitos expendidos por Isócrates ao gosto contemporâneo:
1- Para se situar à altura de sua elevada missão, o rei deve tornar-se superior aos outros, cultivando o espírito e convivendo com pessoas de reconhecida sabedoria;
2- O maior dos erros é supor que o reinado é uma função sagrada, razão pela qual qualquer um poderia exercê-la, quando a verdade é que a tarefa de reinar, pelo conjunto de suas grandes dificuldades e desafios, é exigente de talento especial em distintas áreas, envolvendo competência, prudência, coragem e honradez em doses elevadas;
3- O primeiro dever dos reis é remediar sua pátria quando ela for infeliz; manter a felicidade existente e ou fazer forte sua pátria quando ela for fraca. Por isso, a prosperidade de um reino depende das habilidades do monarca;
4- Os reis devem amar o seu povo, protegê-lo, inspirá-lo no cumprimento do dever, honrar os virtuosos e defender de ofensas os cidadãos, criando justos regulamentos, institutos, leis, processos, juízos e regras de administração do Estado;
5- Os homens, os cavalos, os cães, os seres de toda natureza não podem ser dirigidos a contento se a afeição não preside aos cuidados de que são objeto. Por isso, dedique-se ao povo e, sobretudo, a fazê-lo gostar de sua autoridade, certo de que, entre todos os governos, sejam eles oligárquicos ou de outra natureza, os mais duradouros são os que melhor sabem resguardar os interesses do povo;
6- Os reis devem esmerar-se no zelo pela verdade, na escolha das pessoas a quem prestigiar, dos amigos, magistrados e ministros, atento para ouvir o que dizem uns dos outros, punir os caluniadores com a pena atribuível à falta falsamente imputada, e manter sobre si mesmo rigorosa cobrança de atitudes;
7- A moderação dos reis é exemplo para os cidadãos. Elegância no vestir, severidade nos hábitos, continência no que diz e faz são atributos indispensáveis a um bom governante que deve deixar para os filhos exemplos e glórias em lugar de riquezas;
8- A superioridade do espírito deve pairar acima da beleza física. Os reis devem apontar aqueles que são considerados sábios, deles se cercar, e praticar o que apregoam aos súditos e aos filhos;
9- O rei não tem que se consumir na busca de originalidades. Basta que observe o que a experiência histórica chancela como virtuoso e útil, atento à existência de conselhos que apesar de bons são rejeitados por serem desagradáveis aos ouvidos de quem os recebe, pessoas que preferem o que lhes faz mal ao que lhes eleva o corpo e o espírito. Por isso, para agradar a multidão (plebe ignara), deve-se seguir o conselho de Homero e dizer-lhe coisas do modo como querem ouvir;
10- O rei deve saber medir o valor das pessoas e das coisas, acima de tudo, por sua utilidade. Nada tão valioso quanto um conselheiro sábio. O que é verdadeiramente bom, ao invés de gastar-se, aumenta de valor com o uso;
11- Os que cumulam os reis com presentes caros não os estão presenteando, mas corrompendo-os e traficando com grande potencial de proveito pessoal, em prejuízo de todos os demais cidadãos. Por isso, nada há de mais valioso para o seu reinado do que os conselhos que ora lhe ministro. É uma grande ironia que os reis que tanto necessitam tenham mais dificuldades de acesso a bons conselhos do que o cidadão comum, de tal modo vivem circundados e assediados por aduladores, de olho no Erário e nos benefícios do poder.
Por esses poucos conselhos, pinçados à vol d´oiseaux da obra de Isócrates, escrita há 2.395 anos, vê-se que as aspirações de moralidade na administração pública são as mesmas em todas as épocas.

Joaci Góes  é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia,. Texto publicado originalmente na TB, 18/4.