Do Jornal do Brasil

 

Uma vez instaurado o processo disciplinar pelo Conselho de Ética, a tramitação tem prazo máximo de 45 dias

CAROLINA LINHARES, redacao@jb.com.br

O pedido de expulsão do deputado Aécio Neves (PSDB-MG) deve chegar ao Conselho de Ética do partido nesta quarta-feira (21). Está prevista uma reunião da executiva nacional do PSDB, que enviará ao conselho o pedido feito pelo diretório municipal de São Paulo. A aproximação da data elevou a pressão interna para que Aécio peça afastamento, mas o ex-governador, ex-senador e ex-presidenciável resiste à ideia. 

Macaque in the trees
Aécio Neves (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil )

Aécio é investigado em uma série de inquéritos e se tornou réu, em abril do ano passado, sob acusação de corrupção passiva e obstrução da Justiça. O deputado ainda não foi julgado.

Para tucanos ouvidos pela reportagem, a expulsão é o resultado mais provável após a tramitação do caso no Conselho de Ética. Apenas aliados próximos de Aécio creem que o partido não chegará a tanto. 

Líderes do PSDB, contudo, apostam que uma solução política, ou seja, algum entendimento com Aécio, será alcançada antes de uma medida extrema como a expulsão.

Segundo as normas do partido, a executiva nacional é responsável por reconhecer a admissibilidade do pedido de expulsão. Essa primeira análise será feita pelo deputado federal Celso Sabino (PSDB-PA), que é aliado de Aécio. Admitido o pedido, ele é encaminhado ao Conselho de Ética.

Uma vez instaurado o processo disciplinar pelo Conselho de Ética, a tramitação tem prazo máximo de 45 dias. Mas existe a possibilidade de a questão ser levada à Justiça, o que alongaria o processo. 

No caso de se afastar de forma voluntária, Aécio manteria seu mandato, mas seria desligado do partido até que suas acusações de corrupção fossem julgadas pela Justiça. Se absolvido, poderia retornar ao PSDB.

Aécio é réu no processo relativo ao episódio em que foi gravado, em março de 2017, pedindo R$ 2 milhões a Joesley Batista, da JBS. O valor foi entregue em parcelas a pessoas próximas ao tucano, segundo a acusação. A Polícia Federal chegou a filmar a entrega de dinheiro vivo a um primo dele.

O deputado nega a prática de crimes e diz que o dinheiro era um empréstimo pedido a Joesley.

O código de ética do PSDB, aprovado em maio, prevê expulsão em caso de condenação por corrupção transitada em julgado, o que não é o caso de Aécio. Mas tucanos veem brechas para que ele seja enquadrado por outras infrações. 

O texto também prevê a expulsão, por exemplo, daquele que “usar os poderes e prerrogativas do cargo de direção partidária para constranger ou aliciar filiado, colega ou qualquer pessoa sobre a qual exerça ascendência hierárquica, com o fim de obter qualquer espécie de favorecimento ou vantagem”.

Parlamentares próximos a Aécio dizem que, como o deputado não foi condenado, é improvável que seja expulso.

Além disso, a ala mineira do PSDB é contra uma eventual expulsão sumária, feita por decisão do presidente do partido, como defendem alguns paulistas –mesmo que isso gere desgaste por ser algo antidemocrático. 

“Creio sinceramente que o partido terá a responsabilidade de seguir o que está previsto no seu código de ética […], que prevê sanção a qualquer membro do partido somente após condenação judicial, o que não aconteceu em relação ao deputado Aécio e confiamos que não acontecerá”,  diz o deputado Paulo Abi-Ackel, presidente do PSDB em Minas. Abi-Ackel disse que o partido deve se ocupar de temas realmente relevantes.

“O tempo mostrará que Aécio atuou em defesa dos interesses do partido conforme previa a legislação à época. E não é demais lembrar que qualquer arbitrariedade cometida contra um membro do partido obrigatoriamente alcançará todos aqueles que estiverem na mesma situação jurídica. É hora de mais sensatez e menos oportunismo.”

O presidente do PSDB, Bruno Araújo (PE), tem dito que o código de ética será seguido, com prazos e direito de defesa respeitados. A análise do caso pelo conselho, porém, pode se tornar um imbróglio -algo que o afastamento voluntário de Aécio procuraria evitar. 

Os meandros jurídicos do caso ficarão a cargo de César Colnago (ES), que presidirá o conselho. O colegiado também é composto pelo deputado federal Marco Tebaldi (SC), pela deputada federal Bia Cavassa (MS), pelo ex-deputado federal Raimundo Gomes de Matos (CE) e pelo deputado estadual Paulo José Araújo Corrêa (MS).

A ofensiva do diretório municipal de São Paulo contra Aécio tem o aval do governador paulista, João Doria (PSDB). O tucano, que quer ser candidato à Presidência em 2022 e hoje é o principal líder nacional do PSDB, já defendeu inúmeras vezes que o mineiro se afaste da sigla. 

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), que busca a reeleição no ano que vem, foi além e disse “ou eu ou ele” para defender a expulsão de Aécio.

Já o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso reagiu a favor do mineiro: “Jogar filiados às feras, principalmente quem dele foi presidente, sem esperar decisão da Justiça, é oportunismo sem grandeza”.

Tucanos afirmam, no entanto, que FHC defendia uma solução política e respeitosa, e não que o caso fosse empurrado para debaixo do tapete.

Alguns líderes do PSDB entendem que o jogo ainda não começou para valer e que, se não houver entendimento político, a briga jurídica no Conselho de Ética será fratricida. Por isso, acham que a elevação da temperatura pode convencer Aécio a ceder. 

Apesar de ter respeito e admiração de muitos tucanos, a leitura é a de que Aécio é quem perde ao se manter exposto na mídia enquanto o conselho analisa seu caso.

Todas as pesquisas internas do PSDB hoje, em nível municipal, estadual e federal, mostram desgaste por causa de Aécio.

O partido amargou grande derrota eleitoral em 2018, com redução de sua bancada na Câmara e o pior resultado em disputas presidenciais: Geraldo Alckmin terminou com menos de 5% dos votos. Nesse contexto, tucanos veem o caso do mineiro como determinante para o sucesso eleitoral da sigla em 2022. 

O caso de Aécio também tem levado preocupação a outros tucanos que respondem a acusações de corrupção. Eles temem que Aécio abra precedentes para que sejam levados ao Conselho de Ética ou até expulsos. 

A avaliação da maior parte dos líderes ouvidos pela reportagem, no entanto, é a de que o caso de Aécio não tem igual e não serve de precedente a outros.

Isso porque Aécio quase alcançou a Presidência da República, é figura conhecida em todo o país e foi o único a ser gravado falando em “tem que ser um que a gente mate antes de fazer delação”.

 DO JORNAL NACIONAL(TV GLOBO)

Por Juliana Lima, Filipe Matoso e Guilherme Mazui, TV Globo e G1 — Brasília

Bolsonaro assina MP que transfere Coaf da Economia para o Banco Central

 

O Banco Central divulgou uma nota nesta segunda-feira (19) na qual informou que o presidente Jair Bolsonaro editou a medida provisória (MP) que transfere o Coaf do Ministério da Economia para o BC.

De acordo com a nota, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras passará a se chamar Unidade de Inteligência Financeira e terá “autonomia técnica e operacional”.

Mais cedo, nesta segunda, a colunista do G1 e da GloboNews Julia Duailibi informou que o texto da MP deve ser publicado nesta terça (20) no “Diário Oficial da União”.

Medidas provisórias têm força de lei assim que publicadas. A partir daí, o Congresso Nacional tem até 120 dias para votar a MP, aprovando o texto como o governo o enviou ou modificando o conteúdo. Se nesse prazo a medida não for aprovada, perderá validade.

Quando assumiu o mandato, em janeiro, Bolsonaro transferiu o Coaf do extinto Ministério da Fazenda para o Ministério da Justiça. Ao analisar a MP que reestruturou o governo, em maio, o Congresso desfez a mudança, levando o Coaf para o Ministério da Economia.

Na semana passada, porém, Bolsonaro informou que iria transferir o Coaf para o Banco Central para tirar o órgão do “jogo político”.

 
‘Transferência do Coaf para o BC enfraquece o ministro Moro’, diz Natuza

‘Transferência do Coaf para o BC enfraquece o ministro Moro’, diz Natuza

A polêmica

De acordo com o colunista do G1 e da GloboNews Valdo Cruz, aliados de Bolsonaro vinham pressionando o presidente a demitir o chefe do Coaf, Roberto Leonel.

Isso porque Leonel, indicado para o cargo pelo ministro da Justiça, Sergio Moro, criticou uma decisão do ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal.

Em julho, Toffoli suspendeu investigações baseadas em dados compartilhados pelo Coaf sem autorização judicial. A decisão foi tomada atendendo a um pedido dos advogados do senador Flavio Bolsonaro (PSL-RJ), um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro.

Segundo o Coaf, foram encontradas movimentações financeiras atípicas de Fabrício Queiroz, motorista de Flavio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro quando o senador era deputado estadual. Conforme o órgão, Queiroz movimentou de maneira atípica R$ 1,2 milhão entre 2016 e 2017.

Como será o funcionamento do novo Coaf?

De acordo com a Subchefia de Assuntos Jurídicos:

  • a Unidade de Inteligência Financeira responderá à Diretoria Colegiada do Banco Central;
  • o Ministério da Economia e o Ministério da Justiça e Segurança Pública prestarão “apoio administrativo” à unidade durante o período de transição;
  • o Conselho Deliberativo continuará responsável por definir a diretrizes estratégicas do órgão e julgar processos administrativos sancionadores.

Íntegra

Leia a íntegra da nota divulgada pelo Banco Central:

MEDIDA PROVISÓRIA TRANSFORMA COAF NA UNIDADE DE INTELIGÊNCIA FINANCEIRA VINCULADA AO BANCO CENTRAL

Medida Provisória editada hoje (19/08) transformou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) na Unidade de Inteligência Financeira (UIF), órgão vinculado administrativamente ao Banco Central e dotado de autonomia técnica e operacional. Trata-se de medida proposta pelo Ministério da Economia e pelo Banco Central dentro de projeto amplo para o aperfeiçoamento institucional do sistema regulatório brasileiro.

Em conformidade com a Medida Provisória, compete ao Presidente do Banco Central indicar o Presidente e os Conselheiros da UIF. O Banco Central será responsável pela aprovação da estrutura de governança do novo órgão, observando-se o alinhamento às recomendações e melhores práticas internacionais.

 

A autonomia do Banco Central, que se encontra em discussão no Congresso Nacional, confere respaldo à autonomia técnica e operacional da UIF, assegurando o foco de sua atuação na capacidade para a produção de inteligência financeira, com base em critérios técnicos e objetivos.

Assessoria de Imprensa do Banco Central

ago
20
Posted on 20-08-2019
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Duke, no jornal mineiro O Tempo

ago
20
DO EL PAÍS

Os protestos em favor da democracia na antiga colônia refletem a transformação da identidade honconguesa, que deseja manter seus direitos e liberdades frente ao controle ditatorial de Pequim

Manifestantes no protesto em Hong Kong neste domingo
Manifestantes no protesto em Hong Kong neste domingoGregor Fischer/dpa (Gregor Fischer/dpa)

Hong Kong é uma anomalia histórica. Não só por causa de suas ruas dedicadas à monarquia britânica, povoadas de rostos asiáticos, ou suas famosas construções verticais; mas porque Hong Kong é uma cidade livre, aberta e moderna, apesar de ser controlada pelo regime chinês, a ditadura mais poderosa do mundo. As 11 semanas de protestos pró-democracia ilustram o choque entre dois sistemas políticos, um confronto que cresce sob a ameaça de uma intervenção militar de Pequim.

A semente do conflito remonta ao momento em que Hong Kong se tornou o que é. Em 1997, 156 anos depois, a colônia britânica voltou a fazer parte da China. No acordo assinado por Zhao Ziyang e Margaret Thatcher em 1984 havia apenas uma condição, que foi redigida da seguinte forma: “Os atuais sistemas sociais e econômicos permanecerão inalterados, assim como seu estilo de vida”. Esta cláusula tomou forma no princípio yiguo liangzhi, um país, dois sistemas, segundo o qual Hong Kong, ao contrário do continente, desfrutaria de um regime de “direitos e liberdades (…) garantido por lei” e equiparáveis a qualquer democracia ocidental. Mas essa exceção tinha um horizonte: 2047, apenas 50 anos. Desta forma, o futuro irremediável do modelo chinês pairava como uma forca sobre esse pequeno território de modos ocidentais. A primeira colisão entre esses sistemas políticos teria lugar nesta ilha: hoje.

A China respeitou o acordo durante a primeira década, mas logo depois iniciou um processo de erosão de direitos e liberdades explicitado em um livro branco publicado em junho de 2014. “Nesse documento estratégico, o Partido Comunista da China expressava seu ponto de vista sobre o funcionamento de um país, dois sistemas”, explica a este jornal Antony Dapiran, um advogado residente no território e autor do livro City of Protest: A Recent History of Dissent in Hong Kong (Cidade de protestos: uma história recente sobre a dissidência em Hong Kong). “A linguagem empregada era bem estrita e priorizava um país acima dos dois sistemas. Naquele momento, ficou claro que Pequim estava começando a apertar o controle.” Em setembro do mesmo ano, desencadeou-se a chamada revolução dos guarda-chuvas, uma mobilização que por mais de dois meses bloqueou o centro da cidade para exigir a instauração de um sufrágio universal efetivo, em vez de o chefe de Governo ser escolhido pelo Partido Comunista da China.

“A partir daí, vimos nos últimos cinco anos muitos passos adiante neste caminho, como o sequestro de livreiros, a desqualificação de parlamentares pró-democracia, o veto de candidatos às eleições e a prisão dos líderes da revolução dos guarda-chuvas”, acrescenta Dapiran. Esse é o pano de fundo dos atuais protestos, que alcançaram marcos históricos, como levar quase dois milhões de pessoas à rua em um território de pouco mais de sete milhões de habitantes, a ocupação do Parlamento, a primeira greve geral em cinco décadas ou transformar o centro da cidade em palco de uma batalha campal.

O gatilho nesta ocasião foi a proposta de uma lei de extradição que permitiria que cidadãos de Hong Kong fossem julgados em solo continental, onde o mandato do Partido se sobrepõe ao domínio da lei, como a tudo mais. “Para os manifestantes, é uma batalha pela liberdade; para o Governo chinês, é uma batalha pelo controle ”, sentencia Willy Lam, professor de História e Economia da Universidade Chinesa de Hong Kong, em entrevista a EL PAÍS.

Mas a passagem do tempo joga contra Hong Kong: quanto mais a China cresce, maior a sombra que paira sobre a ex-colônia. Nos anos da transferência, a China era um país pobre. Em 1993, Hong Kong representava 27% do seu PIB. A partir daí começou uma queda livre que reduziu essa cifra para menos de 3% no ano passado. “Hoje, a cidade ganha dinheiro graças aos turistas chineses, aos investimentos chineses e às empresas chinesas. Ao mesmo tempo, os centros urbanos chineses se transformaram: Pequim, Xangai, Shenzhen e Cantão (Guangzhou) não têm nada a lhe invejar”, diz Dapiran. Em paralelo a esse processo, a identidade de Hong Kong se transformou: não é mais construída em torno de sua modernidade e prosperidade, mas do fato de ser um povo livre. “O que os torna especiais agora são seus direitos e liberdades, algo que não só a China não possui, mas tampouco maioria dos lugares na Ásia; o que para Hong Kong é uma fonte de orgulho e personalidade.”

Os dados sociológicos corroboram essa teoria. O Programa de Opinião Pública da Universidade de Hong Kong periodicamente prepara uma pesquisa que contrasta a identificação popular entre as identidades “chinesa” e “honconguesa”. A série histórica reflete como nos anos após a transferência de soberania, durante os quais a China respeitou o princípio de um país dois sistemas, a primeira foi se impondo até alcançar 38% em 2008, em comparação com 18% da honconguesa. Naquele ano, os Jogos Olímpicos com os quais Pequim se apresentou ao mundo foram vividos com furor em todo o país, e também na ilha. Mas depois disso a relação se inverteu. Os dados mais recentes, publicados no final de junho deste ano, mostravam que o número de cidadãos que se identificam como honcongueses está em um máximo histórico, 53%. O índice chinês, por sua vez, é menor do que nunca: 11%. “Por causa dessa evolução identitária, a interferência da China foi recebida como um ataque direto ao núcleo social”, acrescenta Dapiran. Ao protestar, os manifestantes conferem a essa identidade uma dimensão performativa, uma dupla reafirmação do que são e que os torna ainda mais relutantes em aceitar o que o Partido Comunista lhes oferece.

O contrato social do Partido Comunista se baseia na troca de prosperidade econômica por liberdade individual. Erradicar a pobreza absoluta até 2020 frente a um milhão de uigures em campos de concentração: estes são os dois extremos do Zhongguomeng, o “sonho chinês” capitaneado por Xi Jinping. Seu modus operandi começa por rejeitar o universalismo de “valores ocidentais”: democracia, pluralismo, direitos humanos. Hong Kong desempenha um papel fundamental neste processo. Não só porque é parte da China, mas porque é uma sociedade estruturada de acordo com esses princípios. O Governo não consegue seduzir os honcongueses, e o Partido lembrou em repetidas ocasiões nas últimas semanas que a alternativa é a força.

O artigo 14 da Lei Básica que rege a ex-colônia estabelece que, em caso de emergência, o Governo central pode mobilizar o Exército Popular de Libertação, se isso for pedido pelo Executivo local. Uma intervenção militar é algo que todas as partes –Pequim, Hong Kong e manifestantes– querem evitar, mas o bloqueio parece inquebrável e a cada dia que passa o uso da força ganha em probabilidade. Na semana passada, Carrie Lam, a chefa do Executivo de Hong Kong, se recusou a responder a uma jornalista que questionava sua capacidade de retirar a lei de extradição, uma das cinco exigências dos manifestantes –as outras são a anistia para todos os detidos, uma investigação independente sobre a ação policial, a revogação do termo “revoltas” e a instauração de um sufrágio universal efetivo. Sua evasiva reafirma a ideia de que Lam se tornou uma intermediária sem margem para ação, e que do outro lado da mesa, diante dos manifestantes, se senta o Governo chinês. E o Governo chinês não negocia.

Na semana passada, Pequim começou a sentar a base retórica para uma ação direta ao se referir aos protestos como “terrorismo”. A repressão aos protestos da Praça Tiananmen em 1989, o último desafio social que o Partido Comunista Chinês enfrentou, e seus milhares de mortos estão muito presentes na memória coletiva. “A intervenção do Exército seria muito traumática, os honcongueses a veriam como uma invasão”, diz Willy Lam.

O terremoto também seria econômico: apesar de seu pequeno percentual, Hong Kong ainda é o enclave onde a China encontra o mundo. Mais de 60% de seu investimento estrangeiro direto, por exemplo, chega ao continente através da ilha. Isto é possível, em parte, graças a ata política promulgada pelo Congresso dos EUA em 1992, pela qual Hong Kong é reconhecida como um território formalmente independente, com todos os direitos de uma economia aberta. A retirada desta normativa representaria um movimento de grande profundidade, pois forçaria o sistema chinês a se reformar. “Portanto, não acredito que a China vá empregar as forças armadas, mas optará por mobilizar a polícia paramilitar da província vizinha de Guangdong: esses agentes falam cantonês e usarão o uniforme da polícia de Hong Kong para passar despercebidos.”

“O contrato social chinês não funcionará em Hong Kong”, conclui Lam, com pessimismo. “A absorção total chegará antes de 2047, no final dos anos 30. O primeiro passo será aumentar a imigração chinesa. Dos 7,5 milhões de habitantes de Hong Kong, 1,8 milhão é cidadão do continente. Esta cifra continuará a crescer nos próximos anos, até os 3,5 milhões, o que alterará o tecido social. É a mesma solução que o Governo adotou em Xinjiang, onde os uigures não são mais a maioria, e no Tibete. Ao mesmo tempo, haverá um êxodo em massa de cidadãos de Hong Kong para o exterior. As políticas serão cada vez mais repressivas. Hong Kong se tornará uma cidade chinesa a mais.”

ago
19
Posted on 19-08-2019
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Duke, no jornal mineiro

 

O regresso à Grécia

Um rapaz grego, há meio século, cansado da falta de trabalho e do caos que o rodeavam em seu país natal, conseguiu escapar para a Suécia. Enfrentou ali a difícil vida do imigrante. Sobrevivendo como podia, aprendeu o idioma – e tão bem que descobriu uma vocação de escritor e começou a escrever em sueco. Teve bastante sucesso. Tanto que pôde ganhar a vida escrevendo romances e ensaios. Casou-se com uma sueca, com quem teve filhos e netos. Comprou um apartamento, depois uma casinha de verão e um pequeno apartamento onde se encerrava de manhã e de tarde para ler e escrever.

Theodor já tinha feito 70 e tantos anos quando um dia, de repente, vivenciou algo que nunca até então havia conhecido: um bloqueio intelectual. Olhava o rolo de sua pequena máquina portátil e tinha a mente em branco, sem uma única ideia sobre a qual redigir. Saiu para caminhar à beira do oceano, algo que sempre o apaziguava. Mas desta vez não funcionou; dias, semanas, meses esteve assim, sem nada a dizer, oprimido pela paralisia e a constipação intelectuais. Gunilla, sua mulher, inquieta, propôs uma viagem. Por que não à Grécia, sua terra natal? Do fundo de sua desmoralização, ele aceitou.

Chegaram a Atenas de avião. Ali alugaram um carro e se lançaram à estrada, rumo ao Peloponeso, onde se encontrava aquele vilarejo diminuto, Molaoi, onde Theodor havia nascido. Lá estava, empoeirado, eterno e efusivo. Alguns parentes centenários continuavam ali, intangíveis, como as oliveiras, as amendoeiras, as cabras, os gatos e as trepadeiras. Reconheceram-no na rua. A escolinha foi alertada. Os professores lhe organizaram uma homenagem que aconteceu ao anoitecer, quando uma leve brisa substituía o calor sufocante do dia, sob uma lua redonda como um queijo. Quando as crianças cantaram para ele, Theodor sentiu que duas grandes lágrimas deslizavam por sua velha face.

Na manhã seguinte, na antiga pensão onde o casal se hospedava, Theodor se levantou logo cedo, como sempre havia feito na Suécia. Preparou sua maquininha portátil e, sentindo que todo o corpo tremia, começou a escrever. Com a mesma insegurança e o terror de se equivocar em cada palavra, como havia feito em cada manhã nesse meio século de vida sueca. Mas desta vez não escrevia em sua língua adotada, e sim em grego. Sem deixar de tremer, cada vez mais morto de medo, as palavras fluíam, enchiam as páginas e ele sentia uma excitação extraordinária, a mesma que vivenciou lá, no fundo dos tempos, quando escreveu sua primeira história sueca.

O livro escrito em grego por Theodor Kallifatides – o primeiro de sua história de escritor – acaba de ser traduzido ao espanhol por Selma Ancira (Galaxia Gutemberg) e se chama Otra Vida por Vivir (outra vida por viver). Comoveu-me profundamente. Pela história que conta e que acabo de resumir sucintamente, mas também pela naturalidade e a destreza que emprega ao contar, como se se tratasse de algo perfeitamente natural, e não o cataclismo psicológico que deve ter sido, para esse quase octogenário, redescobrir a língua de sua infância, a língua esquecida, substituída pela do imigrante, que, após aquele bloqueio traumático, redescobre o grego e ao mesmo tempo recupera uma vocação que acreditava estar perdendo. É um livro muito belo, o de uma verdadeira morte e ressurreição espiritual, um milagre contado com a tranquila naturalidade com que se descreve um fato trivial e cotidiano.

Talvez a tremenda impressão que tive lendo-o se deva a que, ao contrário de Theodor Kallifatides, não há na minha vida o que há na sua, essa aldeia, Molaoi, perdida nas entranhas do Peloponeso, onde tudo começou, o lugar de onde partem suas lembranças. Eu não sei onde começam as minhas. Certamente não em Arequipa, onde nasci, porque minha mãe e meus avós me tiraram de lá quando tinha apenas um ano, antes do início das minhas recordações. Estas foram de Cochabamba, mas no casarão da rua Ladislao Cabrera, lá na Bolívia, todas as memórias da minha família bíblica eram de Arequipa, e eu as herdei sem tê-las vivido. Em Cochabamba aprendi a ler, o melhor que me aconteceu, mas creio que só comecei a viver de verdade em Piura, que desapareceu sob uma modernidade que enterrou essa pequena cidade rodeada de areais, onde os burrinhos eram chamados de “piajenos” e as crianças, de “churres”, e onde aprendi que as cegonhas não traziam os bebês de Paris. Fui morar em Lima aos onze anos, e muitos anos se passaram antes que deixasse de detestar essa cidade que me distanciou de meus avós e meus tios.

Sempre pensei que ser um cidadão do mundo era o melhor que podia acontecer a uma pessoa, e continuo pensando assim. Que as fronteiras são a fonte dos piores preconceitos, que elas criam inimizades entre os povos e provocam as estúpidas guerras. E que, por isso, é preciso tentar afiná-las pouco a pouco, até que desapareçam totalmente. Isso está ocorrendo, sem dúvida, e essa é uma das boas coisas da globalização, embora haja também algumas ruins, como o aumento, até extremos vertiginosos, da desigualdade econômica entre as pessoas.

Mas é verdade que a língua primeira, aquela em que você aprende a dar nome à família e às coisas deste mundo, é uma verdadeira pátria, que depois, com a azáfama da vida moderna, às vezes vai se perdendo, confundindo-se com outras, e isso é provavelmente a prova mais difícil que os imigrantes têm de enfrentar, essa maré humana que cresce a cada dia, à medida que se amplia o abismo entre os países prósperos e os miseráveis, a de aprender a viver em outra língua, isto é, em outra maneira de entender o mundo e expressar a experiência, as crenças, as pequenas e grandes circunstâncias da vida cotidiana.

Theodor Kallifatides conta tudo isso como se fosse fácil, como se tal reconstrução linguística fosse alcançada de uma maneira natural, e não significasse algo dificílimo de conseguir, algo que está fora do alcance de uma enorme maioria de imigrantes, que jamais conseguem se integrar no seu novo país como ele conseguiu. Mas ele também conta como, ainda nos casos mais bem-sucedidos, como o seu, persiste sempre, sepultada possivelmente no recôndito mais profundo e secreto da personalidade, aquela raiz, aquele ponto de partida feito de paisagem, memória, língua, família, que, de repente, torna-se exigência peremptória, uma nostalgia que exige suas prerrogativas. Eu me lembro, em minha juventude em Miraflores, de um velhinho polonês que vendia peles e havia sobrevivido aos campos de extermínio nazistas. Dizia detestar a Polônia porque, segundo ele, os poloneses haviam cruzado os braços quando aquilo ocorria, mas, sempre que conversávamos, ele voltava à Polônia, à sua família, ao vilarejo onde passara a infância, à cidade onde seu pai e seu avô também tinham comercializado peles. Às vezes seus olhos marejavam recordando essa terra que dizia detestar.

Desde que o nacionalismo não erga sua horrível cabeça, não é ruim que uma pessoa tenha saudade da língua que perdeu, das cidades ou bairros das brincadeiras infantis, do colégio onde estudou e dos ritos familiares entre os quais cresceu. Esse é um sentimento saudável, cálido, necessário, e assim nos mostra Otra Vida por Vivir, um livro sem pretensões que é, no entanto, profundamente otimista e humano, pois descreve outra cara da imigração e apresenta o amor ao que nos é próprio sem uma gota de patriotismo em excesso nem sentimentalismo.

“Twilight Time”, The Platters: No fim dos Anos 50 e começo dos 60, enquanto João Gilberto, em Juazeiro(BA), dedilhava na calçada da casa de dona Patú, a nota só em seu violão revolucionário da Bossa Nova, e Geraldo Azevedo nem sonhava com suas primeiras serenatas no portão do internato do colégio Nossa Senhora Auxiliadora, das freiras salesianae em Petrolina(PE), do outro lado do São Francisco, era o canto romântico de The Platters que mandava nas duas cidades do coração deste editor do BP. Espalhado aos quatro cantos pela brisa que soprava do rio da minha aldeia. Pura emoção que não dá para esquecer. Nunca.

Vai dedicada ao leitor e ouvinte Vangelis, testemunha ocupar desta história. Viva!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

 
DO EL PAÍS

O grande favorito nas eleições presidenciais havia se retirado da vida pública até Cristina Kirchner o convencer de liderar o peronismo contra Macri

O candidato presidencial Alberto Fernández, em Buenos Aires.
O candidato presidencial Alberto Fernández, em Buenos Aires.R. Ceppi (Getty)

Alberto Fernández era, no início deste ano, um ex-ministro-chefe de Néstor e Cristina Kirchner, que se afastara do centro da política e dava aulas na Universidade de Buenos Aires. Há exatamente três meses, Cristina Fernández de Kirchner o convenceu a ser candidato à Presidência, com ela como vice-presidenta. O Governo de Mauricio Macri zombou da manobra, descreveu Alberto Fernández como um fantoche do Kirchnerismo e acreditou que tinha a reeleição praticamente assegurada. Hoje, depois de arrasar em uma eleição primária que não significava nada, mas acabou significando muito, Alberto Fernández se tornou um presidente virtual e o grande favorito na decisiva votação de outubro. Em cem dias, a Argentina e a vida de um homem discreto viraram de cabeça pra baixo.

A grande mudança começou a ser costurada antes do último Natal. Cristina Fernández de Kirchner pôs pessoas de sua confiança para sondar nas águas obscuras do peronismo e calcular se seu retorno seria viável. Intermediários como o advogado Eduardo Valdés, ex-embaixador argentino na Santa Sé e especialista nos meandros do Partido Justicialista, transmitiram a uns e outros a mensagem de que Cristina lamentava os erros de seu segundo mandato, atribuindo-os à dor causada pela viuvez (Néstor Kirchner morreu repentinamente em 2010), e prometia se emendar.

Um dos contatados foi Alberto Fernández, ministro-chefe de Néstor durante todo o seu mandato e no de Cristina durante seu primeiro ano, de 2007 a 2008. Alberto rompeu com Cristina depois de um de seus grandes erros, a guerra aberta contra o patronato agrário e, desde então, longe do primeiro plano, a criticava com dureza. Alberto Fernández, 60 anos, estava desde 2014 casado com a jornalista e atriz Fabiola Yáñez, 38 anos. Morava em um luxuoso apartamento em Puerto Madero, lecionava Teoria do Crime e Sistema de Penalidades na Faculdade de Direito de Universidade de Buenos Aires. Tocava violão em seu tempo livre e saía diariamente para passear com seu cachorro Dylan. Não parecia ansioso para voltar à linha de frente da política.

Depois de manter inúmeras reuniões e retornar o contato com dezenas de pessoas que se haviam distanciado dela, a ex-presidenta entendeu que ainda continuava causando muita rejeição. Um terço do eleitorado a adorava, o restante não a queria. O que fazer? Surgiu o nome de Alberto Fernández, homem com toda a experiência possível: subdiretor-geral no ministério de Raúl Alfonsín, tesoureiro de campanha de Eduardo Duhalde, chefe de campanha de Néstor Kirchner e depois chefe de seus ministros e aliado do federalista Sérgio Massa após sua ruptura com Cristina. A ex-presidenta só precisou de dois dias para convencê-lo. Em 18 de maio, foi anunciada a candidatura dos Fernández. Alberto como presidente, Cristina como vice-presidenta.

“Não poderiam ter cometido um erro mais terrível, Alberto Fernández nunca ganhou uma eleição e não contribui com nenhum voto, é um títere de Cristina. Macri será reeleito com facilidade”, disse um alto dirigente do Governo na Casa Rosada. Não era o único a pensar em algo assim. Poucos compreenderam que a missão de Alberto (o uso de nomes próprios é comum na política argentina) não consistia em ganhar votos, mas em sufocar a acidez de Cristina e reunificar o peronismo. Era um homem em quem os governadores justicialistas, relutantes em relação à ex-presidenta, podiam confiar; em quem poderiam confiar líderes moderados como Sergio Massa; com quem até os grandes grupos financeiros e midiáticos, fortes inimigos do kirchnerismo, poderiam conversar.

O desenho da campanha foi peculiar. Nos poucos atos eleitorais que protagonizaram juntos, Alberto e Cristina falavam sentados em um sofá, na forma de uma conversa descontraída. Em geral, Alberto desempenhou o papel principal. No comício final, em Rosário, com as principais figuras do peronismo alinhadas no palco, Cristina foi a banda de apoio no ato de abertura de Alberto e pronunciou um discurso breve e moderado.

As pesquisas mostravam de forma consistente uma relativa igualdade entre as duas grandes candidaturas e um elevado número de indecisos. A suposta indecisão foi considerada uma camuflagem para o “voto envergonhado”. Eram pessoas, segundo analistas e o próprio Jaime Durán Barba, o guru eleitoral de Macri, que não queriam reconhecer sua intenção de apoiar de novo um presidente cuja gestão econômica tinha causado grande dificuldade aos argentinos. E acabou não sendo assim. Eram pessoas que silenciaram seu voto na candidatura de uma ex-presidenta multiprocessada por corrupção, propensa ao autoritarismo e mais divisionista do que qualquer outro.

Na hora da verdade, no último domingo quase metade do eleitorado considerou que com Alberto e com o peronismo unido as coisas seriam diferentes. Eram simples primárias, mas Alberto Fernández obteve 47% dos votos. Em 27 de outubro, 45% seriam suficientes para ser proclamado presidente eleito.

A grande surpresa causou pânico nos mercados financeiros e horrorizou milhões de eleitores que identificam o peronismo com o chavismo. Alberto Fernández se tornou a nova referência. Desde sua conversa com o presidente Macri, na quarta-feira, o vencedor das primárias se esforça para transmitir tranquilidade (embora sua briga verbal com o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, garanta futuras turbulências diplomáticas), mantém contatos discretos e indiretos com o Banco Central para contribuir para sustentar a surrada moeda nacional e parece seguir fielmente o prontuário distribuído à militância após o sucesso de domingo.

“Que o eleitorado nos volte a escolher”, diz o manual, “depende de que o ódio que sente por Macri, a razão do mal-estar em sua economia doméstica, tenha mais peso em sua decisão do que o medo que possa ter em relação a nós”. Para conseguir isso, recomenda-se discrição e distância da imprensa, deixar que Macri se vire sozinho com os problemas econômicos, evitar sinais de euforia e de autoritarismo e não dizer nunca “voltaremos”, mas “vamos sair do poço”. E falar de reconciliação nacional, como Alberto Fernández faz insistentemente.

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Posted on 19-08-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 19-08-2019

Na avaliação de integrantes do governo ouvidos pelo Estadão, a demissão anunciada por Jair Bolsonaro do superintendente da PF no Rio, Ricardo Saadi, teve como pano de fundo as investigações envolvendo a família do presidente.

Segundo esses interlocutores, o sentimento no gabinete do presidente é de que Saadi fazia “corpo mole” ao não contestar as investigações, permitindo que buscas sobre a família fossem adiante.

Por pressão de Bolsonaro, a direção da PF teve que antecipar a troca de comando da superintendência da instituição no Rio. Mas não deu certo para o presidente.

Do Jornal do Brasil

Sem perícia, mensagens não têm sido usadas em investigações e processos

 

O teor das mensagens de Telegram obtidas pelo site The Intercept Brasil não é, até o momento, objeto de investigação de órgãos oficiais.

Em julho, a Polícia Federal prendeu quatro suspeitos de envolvimento no hackeamento das contas de Telegram de autoridades como os procuradores da Lava Jato e o ministro Sergio Moro (Justiça).

Um dos presos, Walter Delgatti Neto, 30, afirmou à PF que foi o responsável por entrar no aplicativo dos procuradores, capturar as mensagens e repassá-las ao jornalista Glenn Greenwald, do Intercept. Delgatti disse que agiu por conta própria e não recebeu dinheiro.

O inquérito da PF, ainda em curso, não analisa o conteúdo das mensagens da Lava Jato, que foram apreendidas com o suspeito. A investigação foca apenas nas circunstâncias da invasão, para tentar descobrir, por exemplo, se outras pessoas participaram do crime.

Neste domingo (18), reportagem da Folha de S.Paulo com base no material enviado ao site mostrou que procuradores contornaram limites legais para obter informalmente dados sigilosos da Receita Federal em diferentes ocasiões.

Os diálogos indicam que integrantes da força-tarefa buscaram informações da Receita sem requisição formal e sem que a Justiça tivesse autorizado a quebra do sigilo fiscal das pessoas que queriam investigar.

Eles contaram com a cooperação do auditor fiscal Roberto Leonel, que chefiou a área de inteligência da Receita em Curitiba até 2018 e assumiu a presidência do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) no governo Jair Bolsonaro (PSL).

Pela legislação brasileira, os dados podem ser compartilhados com o Ministério Público, mas para isso é preciso haver requerimentos formais e fundamentados.

No fim de junho, a Segunda Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) retomou um debate sobre suposta falta de imparcialidade de Moro na condução do processo que condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A defesa do petista e os ministros fizeram menção às mensagens que já tinham sido divulgadas pelo Intercept. A reportagem deste domingo mostrou também que procuradores se valeram do acesso ao chefe da Receita para obter informações sobre as reformas executadas por empreiteiras no sítio de Atibaia (SP) frequentado pelo ex-presidente.

Os ministros do STF afirmaram em junho que não poderiam considerar as mensagens como provas, naquele momento, porque elas não tinham passado por um exame de autenticidade.

A PGR (Procuradoria-Geral da República) manifestara-se ao STF contra o pedido de Lula para declarar a suspeição de Moro pelo mesmo motivo: as mensagens não tinham passado por exames que comprovassem sua autenticidade e não poderiam ser usadas como provas.

Do mesmo modo, o corregedor do CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público), Orlando Rochadel, arquivou em junho uma reclamação apresentada contra o procurador Deltan Dallagnol em decorrência das mensagens divulgadas pelo Intercept.

Na última terça (13), a pedido de outros dois conselheiros do CNMP, o colegiado desarquivou o caso, que voltará a tramitar. Ainda não há definição sobre o tratamento que o conteúdo das mensagens receberá nesse procedimento administrativo.

O material apreendido com um dos hackers presos pela PF foi encaminhado ao Supremo, em dois processos diferentes, por determinação dos ministros Alexandre de Moraes e Luiz Fux.

Moraes presidente um inquérito, aberto em março, que apura fake news e ameaças contra integrantes da corte. Depois que a Folha de S.Paulo, em parceria com o Intercept, noticiou que as mensagens mostram que Deltan incentivou colegas a investigar o ministro Dias Toffoli, Moraes determinou que uma cópia das conversas fosse enviada ao STF.

Já Fux é relator de uma ação ajuizada pelo PDT com o objetivo de preservar as mensagens apreendidas –Moro havia dito a autoridades que deveria destruí-las. O ministro também requisitou cópia das mensagens para ficarem sob a guarda do tribunal.

Não há definição sobre o destino das mensagens sob custódia do Supremo. Há certo consenso de que, para que seu teor possa ser utilizado em processos judiciais e administrativos, as conversas precisam ser periciadas.

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