Resultado de imagem para Florisvaldo Mattos e a Revolução dos Alfaiates Tribuna da Bahia
Da Tribuna da Bahia, reproduzido pelo site blob Bahia em Pauta, da página do jornalista, professor e poeta Florisvaldo Mattos, em sua página no Facebook.

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SALVE, SALVE, POVO BAHIENSE!

Jornal “Tribuna da Bahia”, hoje caderno CIDADE, página 10, publica matéria cujo conteúdo realça o lançamento no próximo dia 24, às 18 horas, no IGHB (Piedade), de meu livro intitulado “A Comunicação Social na Revolução dos Alfaiates” sobre episódio famoso da história da Bahia, também chamado de Revolta dos Búzios, cujos 220 anos transcorreram precisamente no último domingo, dia 12.
Abaixo, o texto, o poema “Décimas da Liberdade e Igualdade”, declamado pelos revoltosos de 1798, a reprodução da página da TB, ilustração do enforcamento de revoltosos, capa do livro e cópia do convite distribuído pela ALBA para o lançamento do livro.

Texto do jornal:

Pelos 220 anos da também chamada Revolta dos Búzios, que abalou o morno cenário colonial-urbano da então Cidade da Bahia, em agosto de 1798, a Assembleia Legislativa da Bahia lançará no próximo dia 24, às 18 horas, em segunda edição, no Instituto Geográfico da Bahia, o livro intitulado A comunicação social na Revolução dos Alfaiates, de Florisvaldo Mattos, em que, deixando aos historiadores a parte essencialmente histórica, o autor aborda o que considerou ponto crucial, o papel da comunicação social na dita insurreição, que visava libertar o Brasil-Colônia do jugo colonizador de Portugal sob o primado de múltiplas bandeiras, tais como independência da Capitania, implantação da república, abolição da escravatura, igualdade para todos, livre comércio com as nações do mundo, interrupção de vínculo com a Igreja do Vaticano, instituição do trabalho remunerado, melhoria do soldo militar e garantias para os plantadores de cana, fumo e mandioca, assim como para comerciantes.
Calcula-se que centenas de pessoas estivessem engajadas no pretendido levante, todos em sua maioria pertencentes à mais reduzida condição social, mas, segundo os estudiosos, apenas 33 deles foram processados, sendo 11 escravos, seis soldados da tropa paga, cinco alfaiates, três oficiais militares, dois ourives, um pequeno negociante, um bordador, um pedreiro, um professor, um cirurgião e um carpinteiro, e, desses, desbaratado o movimento, como exemplo máximo de sofrimento, crueldade e tragédia, somente sobre quatro recaíram as penas de enforcamento, seguido de esquartejamento e exposição de despojos fixados em postes e espalhados por vários pontos da cidade, dois deles soldados (Luiz Gonzaga das Virgens e Lucas Dantas do Amorim Torres) e dois artesãos (João de Deus do Nascimento, mestre alfaiate, e Manoel Faustino dos Santos Lira, então oficial alfaiate, mas ex-escravo), livrando-se da punição severa um quinto personagem, Luiz Pires, também artesão, porque desaparecera, sem deixar rastros, numa Bahia colonial, cuja estrutura social se assentava no patriarcalismo e na economia escrava, com uma população estimada em menos de 200 mil habitantes, sendo 50 mil para o Recôncavo, menos de 60 mil para a Capital e menos de 100 mil para o resto da Capitania.
Baseado em fontes primárias e secundárias, em seu livro, o autor preferiu focar as suas lentes nas relações de comunicação que permitiram, seja no nível interpessoal, pela via oral, com predominância da conversa e do recado, seja no da comunicação manuscrita, com cartas, bilhetes e avisos, os revoltosos atuarem em dois planos: o da formação da consciência política e revolucionária e o da preparação para o levante, praticamente se esgotando nelas toda a engrenagem conspiratória, havendo, no entanto, um momento determinante que levou à frustração e ao fim trágico do movimento.
Foi quando, superando repentinamente as limitações da comunicação em círculo privado, na madrugada de 12 de agosto de 1798, a população foi surpreendida com uma série de textos manuscritos, em número de dez, afixados em locais públicos, para onde convergia grande número de pessoas, tais como portas de igreja, os chamados cantos do peixe, açougues, feiras de frutas e legumes, cais do porto, portas de quartéis, tendas de alfaiates e oficinas de artesãos, veiculando mensagens de conteúdo basicamente político-ideológico, em prol de uma reforma social. Deveu-se ao uso de um búzio de Angola, às vezes até preso na lapela, como uma das formas de identificação de conjurados, no trânsito diário por esses pontos, a opção posterior de se dar ao movimento a designação de Revolta dos Búzios, a preferida na atualidade.
A partir daí, deflagrada a perseguição, instalaram-se dois processos regidos por dois desembargadores fiéis à Corte de Portugal, um para investigação do que se passou a chamar “boletins sediciosos”, espalhados pela cidade, e outro voltado para a reunião de preparação para o levante, que fora convocada para o dia 25 seguinte, no então chamado Dique do Desterro, naquele tempo um lugar afastado e ermo.
Foi sobre tal nova forma de comunicação que Florisvaldo Mattos centrou a sua análise, considerando que esses dez “boletins sediciosos”, apesar de manuscritos, foram para os revolucionários e para o movimento “o seu jornal, seu instrumento de divulgação de ideias e definições para um público mais amplo, que extrapolava o circuito da conspiração até aquele momento” e assim, tendo em vista esse aspecto, tomou-os como a mais expressiva e inovadora forma de comunicação indireta utilizada pelos participantes da conjuração, desempenhando, para a época, o legítimo papel de jornal manuscrito, por meio do qual os conjurados difundiram as suas ideias e projetos de reforma social, com sublevação da ordem constituída, para um público indeterminado – chamado por eles de Povo Bahiense -, com características de comunicação pública, unilateral e indeterminada, como seriam alguns anos depois – no Brasil e na Bahia – os jornais impressos, a Gazeta do Rio de Janeiro, em 1908, autorizada por carta-régia de dom João VI, e Idade D´Ouro do Brazil, em 1811, na Bahia.
Motivos de uma das devassas que apuraram a conspiração, segundo ele, esses dez boletins sediciosos visavam, em essência, alcançar um público, uma coletividade de pessoas, em apoio do movimento. Dirigidos ao Povo Bahiense, cinco eram encabeçados como Aviso, um como Nota e quatro como Prelo, palavra que sintomaticamente fazia ressoar a técnica de impressão inaugurada por Gutenberg, que deu origem a toda a uma consagrada cultura editorial e gráfica no Ocidente. Sob o título de Aviso ao Povo Bahiense, eis uma dessas conclamações:

Ó vós Homens Cidadãos, ó vós Povos curvados e abandonados pelo Rei, pelos seus ministros.
Ó vós Povos que estais para serdes Livres, e para gozardes dos bons efeitos da Liberdade; Ó vós Povos que viveis flagelados com o pleno poder do Indigno coroado, esse mesmo Rei que vós criastes; esse mesmo rei tirano é quem se firma no trono para vos vexar, para vos roubar e para vos maltratar.
Homens, o tempo é chegado para a vossa Ressurreição, sim para ressuscitardes do abismo da escravidão, para levantardes a Sagrada Bandeira da Liberdade.
A liberdade consiste no estado feliz, no estado livre do abatimento; a liberdade é a doçura da vida, o descanso do homem com igual paralelo de uns para outros, finalmente a liberdade é o repouso, e bem-aventurança do mundo.
A França está cada vez mais exaltada, a Alemanha já lhe dobrou o joelho, Castela só aspira a sua aliança, Roma já vive anexa, o Pontífice já está abandonado, e desterrado; o rei da Prússia está preso pelo seu próprio povo: as nações do mundo todas têm seus olhos fixos na França, a liberdade é agradável para vós defenderdes a vossa Liberdade, o dia da nossa revolução, da nossa Liberdade e da nossa felicidade está para chegar, animai-vos que sereis felizes para sempre.

Na verdade, para o autor, esses boletins constituíram-se no mais vigoroso instrumento de divulgação dos revolucionários de 1798, como nítida compensação à inexistência de meios impressos, sustentando que, em face das precariedades técnicas da época, devem ser comemorados, senão como ato legítimo de imprensa, como seu alvissareiro embrião e prova coletiva de vontade redentora e modernizadora da Colônia do Brasil, 220 anos depois.

LIVRO
A Comunicação na Revolução dos Alfaiates
Florisvaldo Mattos
2ª Edição. Salvador: ALBA, 2018, 208, p.

FLORISVALDO MATTOS – Dados biográficos
Nascido em Uruçuca, antiga Água Preta do Mocambo, na Região do Cacau da Bahia, quando ainda distrito de Ilhéus, residindo depois em Itabuna, onde cursou no Ginásio da Divina Providência, e transferindo-se depois para Salvador, Florisvaldo Mattos diplomou-se em Direito, em 1958, mas optou pelo exercício do jornalismo, no mesmo ano, integrando inicialmente a equipe fundadora do Jornal da Bahia, como extensão da militância cultural de parcela do grupo nuclear da Geração Mapa, atuante, nos anos 1960, sob a liderança do cineasta Glauber Rocha. Foi professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde ministrou disciplinas e ocupou cargos na Faculdade de Comunicação, e foi presidente da Fundação Cultural do Estado da Bahia, de 1987 a 1989; jornalista, escritor e poeta, desde 1995 ocupa a Cadeira 31, da Academia de Letras da Bahia. Atuação em jornais: Jornal da Bahia, Estado da Bahia, Diário de Notícias, Jornal do Brasil (RJ); afastou-se do jornalismo em 2011, no cargo de Diretor de Redação do jornal A Tarde, de Salvador, onde antes editou por quase 14 anos o caderno “A Tarde Cultural”, premiado em 1995 pela Associação Paulista de Críticos de Arte – APCA, na categoria de Divulgação Cultural. É autor dos seguintes livros: Reverdor, 1965, Fábula Civil, 1975, A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior, 1996 (Prêmio Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores), Mares Anoitecidos, 2000, Galope Amarelo e outros poemas, 2001, Poesia Reunida e Inéditos, 2011, Sonetos elementais, 2012, Estuário dos dias e outros poemas, 2016, e Antologia Poética e Inéditos, 2017 (todos de poesia); Estação de Prosa & Diversos, (coletânea de ensaios, ficção e teatro, 1997); A Comunicação Social na Revolução dos Alfaiates, 1998 (1ª edição), e Travessia de oásis – A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa, 2004, ambos de ensaio.

DÉCIMAS SOBRE A LIBERDADE E IGUALDADE

Mote

Igualdade e Liberdade
No Sacrário da Razão
Ao lado da sã Justiça
Preenchem meu coração.

Décimas

Se a causa motriz dos entes
Tem as mesmas sensações
Mesmos órgãos, e precisões,
Dados a todos os viventes,
Se a qualquer suficientes
Meios da necessidade
Remir com equidade;
Logo são imperecíveis
E de Deus Leis infalíveis,
Igualdade e Liberdade.

Se este dogma for seguido,
E de todos respeitado,
Fará bem aventurado
Ao povo rude, e polido,
E assim que florescido
Tem da América a Nação
Assim flutue o Pendão
Dos franceses que a imitaram
Depois que afoitas entraram
No Sacrário da Razão.

Estes povos venturosos
Levantando soltos os braços
Desfeitos em mil pedaços
Feros grilhões vergonhosos,
Juraram viver ditosos,
Isentos da vil cobiça,
Da impostura, e da preguiça,
Respeitando os seus Direitos,
Alegres, e satisfeitos,
Ao lado da sã Justiça.

Quando os olhos dos Baianos
Estes quadros divisarem,
E longe de si lançarem
Mil despóticos Tiranos
Quão felizes, e soberanos,
Nas suas terras serão!
Oh! Que doce comoção
Experimentam estas venturas,
Só elas, bem que futuras,
Preenchem o meu coração.

ago
16
Posted on 16-08-2018
Filed Under (Artigos) by vitor on 16-08-2018


 

Clayton, no jornal (CE)

 

ago
16

DO PORTAL DE NOTÍCIAS TERRA BRASIL

Depois de integrar a comitiva que entregou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o pedido de registro de candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência pelo PT, o ex-prefeito Fernando Haddad, que por enquanto integra a chapa petista como vice-presidente, começou a ler, do alto de um trio elétrico, uma carta do ex-presidente. Lula cumpre, na carceragem da Polícia Federal, em Curitiba, pena de prisão de 12 anos e um mês por corrupção e lavagem de dinheiro.

Na carta, o ex-presidente insiste em classificar sua prisão como um “ato político” do juiz Sérgio Moro, a quem acusa de uso de “fake news” para condená-lo e tirá-lo da campanha eleitoral. “Sou vítima de uma caçada judicial que já está registrada na história”, diz Lula.

Presidente do PT, Gleisi Hoffmann protocolou candidatura de Lula ao lado de Haddad e Manuela D'Ávila

 
Presidente do PT, Gleisi Hoffmann protocolou candidatura de Lula ao lado de Haddad e Manuela D’Ávila

Foto: Walterson Rosa / Framephoto / Estadão Conteúdo

A seguir, a íntegra da carta do ex-presidente: 

“Registrei hoje a minha candidatura à Presidência da República, após meu nome ter sido aprovado na convenção do PT e com a certeza de que posso fazer muito para tirar o Brasil de uma das piores crises da história.

A partir dessa aprovação do meu nome pelas companheiras e companheiros do PT, do PCdoB e do Pros, passei a ter o direito de disputar as eleições.

Há um ano, um mês e três dias, Sérgio Moro usou do seu cargo de juiz para cometer um ato político: ele me condenou pela prática de ‘atos indeterminados’ para tentar me tirar da eleição. Usou de uma “fake News” produzida pelo jornal O Globo sobre um apartamento no Guarujá.

Desde então o povo brasileiro aguarda, em vão, que Moro e os demais juízes que confirmaram a minha condenação em segunda instância apresentem alguma prova material de que sou o proprietário daquele imóvel. Que digam qual foi o ato que eu cometi para justificar uma condenação. Mas o que vemos, dia após dia, é a revelação de fatos que apenas reforçam uma atuação ilegítima de agentes do Sistema de Justiça para me condenar e me manterem na prisão.

Chegou-se ao ponto em que uma decisão de um desembargador que restabelecia a minha liberdade não foi cumprida por orientação telefônica dada por Moro, pelo presidente do TRF4 e pela procuradora Geral da República ao Diretor-Geral da Polícia Federal.

Como defender a legitimidade de um processo em que conspiram contra a minha liberdade desde o juiz de primeira instância até a Procuradora-Geral da República?

Sou vítima de uma caçada judicial que já está registrada na história.

Tenho certeza de que se a Constituição Federal e as leis desse país ainda tiverem algum valor serei absolvido pelas Cortes Superiores.

A expectativa de que os recursos apresentados pelos meus advogados resultem na minha absolvição no STJ ou no STF é o que basta, segundo a legislação brasileira, para afastar qualquer impedimento para que eu possa concorrer.

Não estou pedindo nenhum favor. Quero apenas que os direitos que vem sendo reconhecidos pelos tribunais em favor de centenas de outros candidatos há anos também sejam reconhecidos para mim. Não posso admitir casuísmo e o juízo de exceção.

O Comitê de Direitos Humanos da ONU já emitiu uma decisão que impede o Estado brasileiro de causar danos irreversíveis aos meus direitos políticos – o que reforça a impossibilidade de impedirem que eu dispute as eleições de 2018.

Quero que o povo brasileiro possa decidir se me dará a oportunidade de, junto com ele, consertar este país.

A partir de amanhã, vamos nos espalhar pelo Brasil para nas ruas no trabalho, nas redes sociais, mas principalmente olhando nos olhos das pessoas, lembrar que esse país um dia já foi feliz e que os mais pobres estavam contemplados no orçamento da União como investimento, e não como despesa.

Cada um de vocês terá que ser Lula fazendo campanha pelo Brasil, lembrando ao povo brasileiro que nos governos do PT o povo trabalhador teve mais emprego, maiores salários e melhores condições de vida.

Que um nordestino que mora no Sul podia visitar sua família de avião e não somente de ônibus.

Que um pobre, um negro, ou um índio podia ingressar na universidade.

Que o pobre podia ter casa própria e comer três vezes ao dia.

Que a luz elétrica era acessível a todos.

Que o salário mínimo foi aumentado sem causar inflação.

Que foi posto em prática aquele que a ONU considerou o melhor programa de transferência de renda do mundo, beneficiando 14 milhões de famílias e tirando o Brasil do mapa da fome.

Que foram criadas novas universidades e novos cursos técnicos.

Para recuperar o direito de fazer tudo isso e muito mais é que sou candidato a Presidente da República.

Vamos dialogar com aqueles que viram que o Brasil saiu do rumo, estão sem esperança mas sabem que o país precisa resolver o seu destino nas urnas, não em golpes ou no tapetão.

Lembrar que com democracia, com nosso trabalho, o Brasil vai voltar a ser feliz.

Enquanto eu estiver preso, cada um de vocês será a minha perna e a minha voz. Vamos retomar a esperança, a soberania e a alegria desse nosso grande país.

Companheiras e companheiros, o Moro tinha até hoje para mostrar uma prova contra mim. Não apresentou nenhuma! Fato indeterminado não é prova! Por isso sou candidato.

Repito: com meu nome aprovado na convenção, a Lei Eleitoral garante que só não serei candidato se eu morrer, renunciar ou for arrancado pelo Justiça Eleitoral. Não pretendo morrer, não cogito renunciar e vou brigar pelo meu registro até o final.

Não quero favor, quero Justiça. Não troco minha dignidade por minha liberdade.

Um forte abraço,

Lula”

ago
15
Posted on 15-08-2018
Filed Under (Artigos) by vitor on 15-08-2018
Resultado de imagem para Duarte Pereira jornalista

 

 

Texto escrito pelo professor da UFBA, Romélio Aquino, em novembro de 2o15, encaminhado ao homenageado Duarte Lago Pacheco, permaneceu inédito. Recuperado pelo autor, se mantém ainda, relato relevante e precioso (histórica, política e culturalmente, para a Bahia e para o País)). Bahia em Pauta, honrosamente, o publica nesta quarta-feira, 14 de agosto. Boa leitura.

Com saudação a Duarte e agradecimentos a Romélio.

(Vitor Hugo Soares, editor do BP) 

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ARTIGO

PEQUENA HOMENAGEM A UM GRANDE HOMEM

 

Romélio Aquino

 

Houvesse uma história contrafactual do indivíduo, como refazer os passos do jovem ex-seminarista que início dos anos 60 assombrou nossa reputada Direito federal da Bahia, quando professores rastreavam parentesco distante com Duarte Pacheco (subproduto indisputado: maior aluno de todos os tempos)?

Como retraçar o curso do noviço e já respeitado docente da PUC, do membro singular da equipe que imprimiu um Antes e um Depois à imprensa brasileira?

Contrafactual, porque a luta contra a Besta de quepe e coturno leva à decisão da AP remetendo à ascese obreirista de eletricitário em Osasco o orientador de alunos, interlocutor de bispos e potencial favorito à presidência do estratégico Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.

The rest is silence, literalmente: é a mordaça da clandestinidade banindo do debate público o mais bem equipado persuasor de minha geração – impossível esquecer o cristal das teses, e o crescendo da argumentação a um só tempo poderosa e honesta a ponto até de subsidiar divergência exercível quase a contragosto.

Doze tristes anos se passam, e a anistia devolve-nos Duarte adentrando os 40, frente a mercado de trabalho amesquinhado. Retomar o magistério é inviável numa Universidade que agora sotopõe talento a título; as querelas do jornalismo diplomado limitarão Duarte à condição de frila.

Tempos já difíceis, e se abate sobre o amigo o desfavor dos deuses: primeiro, a grave cardiopatia que num episódio quase o leva à morte; depois, o câncer que progressivamente apanha o tempo de Duarte. Que enfrenta o sofrimento com a soma de coragem, determinação, serenidade: a técnica de si estóica, por certo, mas algo mais sustenta-lhe o ânimo – um modo de ser, uma potência.

Escaldado por tanto aggiornamento (para dizer pouco), provoco amigos com aparente paradoxo: “Mudar é fácil, difícil é permanecer o mesmo”. E acontece me dar conta que Duarte é, simultaneamente, o revolucionário mais verdadeiro e a pessoa mais idêntica a si mesma que jamais conheci.

Eis que deparo, em renomada obra coletiva, trabalho pioneiro sobre A Identidade Moral e a Pessoa, questão de “interesse espantosamente difundido numa diversidade de teóricos políticos e sociais e de públicos leigos”. Essa noção de identidade traz necessariamente à cena a de integridade moral, em conclusão:

“Uma pessoa íntegra é uma pessoa coesa, que é responsável no duplo sentido de que podemos confiar nela e de que está pronta a responder pelo que faz ou fez, uma pessoa que não trapaceia com aquilo que ela defende fundamentalmente”.

Duarte, dos pés à cabeça. Vasculho significações de “íntegro”, de inteiro a incorruptível, escolho uma: nosso amigo é inquebrantável – integridade moral é o nome de sua fortaleza na adversidade.*

Participamos ou temos notícia da trajetória de Duarte nos últimos anos. Resumidamente, e em respeito à sua discrição: estudioso infatigável; tradutor bissexto; jornalista acatado entre os pares; autor de concorridas análises da nossa realidade; divulgador solidário de produção alheia; ministrante de cursos de iniciação política… Invariavelmente, um lutador: em sua autodefinição, “um quadro sem partido”.

E contudo, mais que hipocrisia esconder, é omissão não protestar que algo lhe faltou. Da documentação que progressivamente se avoluma, do depoimento de companheiros da Resistência, dos estudos que despontam sobre aquela saga, resulta óbvia a ilação de uma ingrata desproporção entre o tamanho de Duarte e o lugar que ele ocupa na vida pública do país.

Preservada a capacidade pessoal (malgrado perdas da clandestinidade e a doença), o que faltou a Duarte está na ordem dos fatos: oportunidade. Não no sentido comum, mas oportunidade histórica, ou antes, faltou-lhe a história como oportunidade. Tivesse-a, daria conta da tarefa como até aqui deu conta das tarefas todas que a vida lhe incumbiu. E escaparíamos ilesos de uma falta em segundo grau: esta que ele, involuntariamente, nos faz.*

Companheiros amigos de Duarte, demo-nos as mãos: proponho um malrauxiano Memorial Imaginário, a preencher-se com as peças do nosso testemunho. Conhecida é a fugacidade da memória dos homens. E sabemos como a história é escrita: a dos vencedores, mas também a dos vencidos, a “deles”, mas também a “nossa”, verdade é que o relato histórico é sensível às luzes – ­e ribalta é tudo o que nosso amigo nunca procurou. Já tarda, mas é tempo de narrar Duarte, com os recursos ao nosso alcance. Afinal de contas, coube-nos a sorte e a alegria de partilhar esta vida intensa, de conviver com este grande homem.

(Ocorre-me o Petrarca epigrafado por um então resgatado Schopenhauer, e que juntos traduzimos: “Siquis toto die currens, pervenit ad vesperam, satis est”, “Se quem vem para ficar, chega mais tarde, basta”.)

*

Tardará mucho tiempo en nacer, si es que nace, um baiano tão íntegro, tão rico de sabedoria.  Colega, companheiro, amigo, mil vezes amigo Duarte Brasil Lago Pacheco Pereira,

Sei que está difícil, mas insisto:

VIDA LONGA E BOA, DUARTE! FEZ E FAZ POR MERECER.

 

Romelio, nov/2015

 

 

  1. S. – Abraço-a, brava Rejane, com estima e admiração. E gratidão.

“No dejes que te olvide”:Monumental e imorredouro Bola de Nieve. Tão grandioso quanto a própria música cubana. Confira!!!

B OM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

ago
15
jose mujica Ampliar foto
O ex-presidente uruguaio José Mujica, em 10 de agosto de 2018 em Buenos Aires. EFE

O ex-presidente do Uruguai José Mujica, de 83 anos, renunciou nesta terça-feira a seu cargo de senador por motivos pessoais. “Os motivos são pessoais, diria que é pelo cansaço de uma longa viagem”, explica o ex-mandátario em uma carta enviada à própria mulher, Luzia Topolansky, que é vice-presidenta do Uruguai e presidente do Senado.

Mujica, que foi eleito senador após ser presidente do país entre 2010 e 2015, anunciou que terá sua aposentadoria e não a acumulará com qualquer benefício por ter sido senador. “O caráter de renúncia voluntária e a legislação vigente assinalam que não corresponde o benefício do subsídio estabelecido”, sustenta no texto.

Apesar de abandonar seu cargo de senador, Mujica ressaltou que, enquanto sua mente funcionar, não renunciará “à solidariedade e à luta de ideias”. Além disso, aproveitou a carta para pedir “desculpas muito sinceras” se em alguma ocasião, “no calor dos debates”, feriu “no pessoal” algum de seus colegas.

Em 6 de agosto, o ex-presidente já havia explicado que pensava em deixar sua cadeira no Parlamento. “Vejo que tenho 83 anos e vou me aproximando da morte. Quero tirar licença antes de morrer, simplesmente, porque estou velho. Há um tempo para vir e outro para ir e assim como caem as folhas das árvores também caímos nós. A vida continua, não é tão importante”, afirmou.

ago
15

Gilmar com a corda toda

 

Hoje, durante discussão na Segunda Turma do STF, Gilmar Mendes soltou os cachorros contra Rodrigo Janot e os responsáveis pela Operação Carne Fraca, informa o site jurídico Jota.

O tema da discussão era o habeas corpus concedido por Dias Toffoli a Juarez José de Santana, auditor fiscal do Ministério da Agricultura investigado na operação, que com isso teve sua prisão preventiva revogada.

“Uma falha setorial, em um dado setor da economia, se magnificou de uma forma absolutamente irresponsável! Constrangedora! Fala mal das instituições, aponta para um delírio coletivo”, afirmou Gilmar sobre a Carne Fraca.

“Todos querem virar um [Sergio] Moro, ganhar um minuto de celebridade. Não precisamos de corregedores, mas de psiquiatras. Porque é um problema sério. Quer dizer, os estrupícios se juntam e produzem uma tragédia!”, prosseguiu o ministro do Supremo.

Gilmar aproveitou para atacar, mais uma vez, o ex-PGR, seu notório desafeto. Disse que as “mãos bêbadas” de Janot nas colaborações premiadas induziram o STF a erro e o chamou de “inimputável”.

O Antagonista lembra aos leitores que o filho de Gilmar já ofereceu à BRF “aperfeiçoamentos legislativos” –o que está nos autos da Carne Fraca.

E que a BRF, um dos alvos da operação, também contratou o escritório do qual a mulher de Gilmar é sócia.

ago
15
Posted on 15-08-2018
Filed Under (Artigos) by vitor on 15-08-2018


 

Miguel Paiva, no Jornal do Brasil (RJ)

 

ago
15
 DO EL PAIS
 
Acidente em Gênova
Um caminhão prestes a cair no abismo. ANDREA LEONI AFP
Roma

Pelo menos 26 pessoas (entre elas um bebê) morreram e cinco ficaram gravemente feridas nesta terça-feira, quando um trecho de um viaduto na cidade italiana de Gênova desmoronou, segundo fontes oficiais. O vice-ministro de Infraestrutura da Itália, Edoardo Rixi, disse que “infelizmente aumentará” o número de vítimas com o passar das horas. No momento do desmoronamento, por volta do meio-dia (às 8h no horário de Brasília), havia cerca de 30 carros naquele trecho da rodovia A-10.

Trata-se da ponte Morandi, que atravessa o rio Polcevera e passa por uma área densamente habitada e por uma ferrovia. Nas primeiras imagens divulgadas pela imprensa local é possível ver veículos caídos no abismo e que a ponte perdeu dezenas de metros. As imagens mostram como parte do entulho também atinge pelo menos duas estradas que passam sob a ponte.

Desde a primeira hora da manhã, toda a região da Ligúria está em alerta laranja devido às fortes chuvas que caem hoje em toda a Itália. As precipitações e o intenso trânsito destes dias, às véspera do feriado nacional de 15 de agosto, complicam as tarefas de resgate. O ministro italiano dos Transportes, Danilo Toninelli, afirmou no Twitter que está acompanhando o caso “com a maior preocupação” diante do que poderia ser “uma imensa tragédia”.

Piero Fraterrigo, de 56 anos, trabalhador da fábrica da Ansaldo Energia, localizada a poucos metros de distância do local, conta por telefone que ouviu um grande ruído de ferro caindo, informa Francesco Rodella. “No começo, eu pensei que era material da fábrica que havia caído de algum lugar”, diz ele. Quando olhou para o pátio do prédio industrial, percebeu que um trecho inteiro do viaduto havia desmoronado. “Foi incrível. Você poderia ver a ponte no meio do nevoeiro sem um pedaço. Parecia uma ilusão de ótica”, conta. “Por poucos metros os escombros não atingiram nossa fábrica”, acrescenta. A testemunha conta ainda que viu algum relâmpago perto do ponto em que a infraestrutura caiu, embora ele não saiba se o local foi diretamente atingido por um raio.

A operadora de rodovias Autostrade assegurou, por meio de comunicado, que vinha realizando obras para reforçar a estrutura da rodovia no trecho do viaduto. “As causas do colapso serão investigadas minuciosamente assim que for seguro chegar ao local”.

O vice-presidente e ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, disse que exigirá responsabilidade. “Como italiano, farei tudo o que estiver ao meu alcance para ter os nomes e sobrenomes dos responsáveis, porque é inaceitável que a Itália morra assim”, declarou o ultra-conservador.

O ministro dos Transportes, Danilo Toninelli, escreveu no Twitter que está acompanhando de perto o que aconteceu e que o desmoronamento está transformando-se em uma “grande tragédia”. O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, transmitiu hoje as suas condolências ao povo italiano numa declaração: “Estou profundamente triste com a queda de uma viaduto em Génova, que ceifou muitas vidas. Em nome da Comissão Europeia, expresso minhas mais profundas e sinceras condolências às famílias e amigos das vítimas e a todo o povo italiano”.

Por G1

O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil) O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

 

O juiz federal Sergio Moro aceitou denúncia contra o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e outras nove pessoas nesta segunda-feira (13). É a primeira vez que Mantega vira réu na Lava Jato. Moro rejeitou a denúncia contra o ex-ministro Antonio Palocci.

“Ressalvo, segundo a denúncia, apesar de ele ter participado dos fatos (…), consta que teria sido Guido Mantega responsável específico pela solicitação e pela posterior utilização dos R$ 50 milhões”, escreveu Moro ao falar sobre Palocci.

A defesa de Antonio Palocci disse que ele continuará colaborando com a Justiça. O G1 tenta contato com a defesa de Mantega.

Os crimes apurados envolvem a edição das medidas provisórias 470 e 472 (MP da Crise), beneficiando diretamente empresas do grupo Odebrecht, entre estas a Braskem, de acordo com o MPF.

O objetivo da manobra, afirmam os procuradores, era permitir que a Braskem pagasse tributos federais de forma parcelada, com valor de multa reduzido.

Os denunciados vão responder pelos crimes de corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro.

Investigação

Segundo a investigação, o empresário Marcelo Odebrecht ofereceu propina aos ex-ministros com o objetivo de influenciá-los na edição das medidas provisórias.

O valor oferecido a Mantega foi de R$ 50 milhões. De acordo com os procuradores, o valor foi pago em conta específica mantida pelo setor de propinas de empreteira, sob o comando de Fernando Migliaccio e Hilberto da Silva.

O valor, diz a denúncia, só era utilizado mediante a autorização de Guido Mantega, sendo que parcela desse valor foi entregue aos publicitários Mônica Santana e João Santana, além de André Santana, para serem usados na campanha eleitoral de 2014.

A denúncia tem como base provas fornecidas pelas empresas Odebrecht e Braskem, no contexto do cumprimento das condições previstas nos acordos de leniência firmados pelas empresas.

Pagamentos

A propina para Mantega foi lançada na planilha da Odebrecht nomeada “Planilha Italiano”, na subconta “Pós-Itália”, de acordo com a força-tarefa.

O valor oferecido a Mantega foi de R$ 50 milhões. De acordo com os procuradores, o valor foi pago em conta específica mantida pelo setor de propinas de empreteira, sob o comando de Fernando Migliaccio e Hilberto da Silva.

O valor, diz a denúncia, só era utilizado mediante a autorização de Guido Mantega, sendo que parcela desse valor foi entregue aos publicitários Mônica Santana e João Santana, além de André Santana, para serem usados na campanha eleitoral de 2014.

Conforme a denúncia, o dinheiro ilegal teve origem em ativos da Braskem, mantidos ilicitamente no exterior pelo Setor de Operações Estruturadas.

Por sua vez, os publicitários Mônica Santana e João Santana receberam R$ 15.150.000,00 a partir do setor de propinas mediante 26 entregas, em pagamentos que se deram tanto em espécie no Brasil quanto fora do território nacional, em contas mantidas em paraísos fiscais.

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