Uma grande biografia inacabada

Joaci Góes

Ao eminente amigo e jurista Antônio Luiz Calmon Teixeira!

Na última sexta-feira, dia 04/10, o empresário Ângelo Calmon de Sá falou na Academia de Letras da Bahia, no programa Trajetória de uma vida, que tem o propósito pedagógico de conhecer os fatores que tornaram, no que são, personalidades que construíram nosso tempo, nos mais diferentes domínios da ação humana. Ângelo Sá foi convidado por ser considerado um dos mais experientes brasileiros, de todos os tempos, no campo operacional da administração pública e privada. Ao seu histórico depoimento deu o sugestivo título Como vencer na vida e como enfrentar o desastre. A diversidade e qualidade da audiência que lotou o auditório Magalhães Neto, da mais antiga Academia de Letras do Continente Americano, guardaram estreita sintonia com a importância do memorável depoimento.

A biografia de Ângelo Sá, nascido em 01/11/1935, impressiona. Começando pelas mais modestas funções na Construtora Norberto Odebrecht, na década de 1950, nela cresceu até tornar-se, dez anos mais tarde, seu diretor financeiro, quando, aos trinta anos, foi convidado, no fim do Governo Lomanto Júnior, para implantar, nas atribuições de Superintendente, o Centro Industrial de Aratu, iniciativa governamental destinada a decifrar o enigma baiano, como o estadista Otávio Mangabeira diagnosticou a histórica imobilidade da Bahia, apesar de suas riquezas, não ter sido capaz de industrializar-se.

Na fase inicial, na Odebrecht, Ângelo registrou como de grande importância para o seu crescimento a marcação que sofreu do seu chefe imediato, um mestre de obras, que lhe atribuía tarefas abundantes e de crescentes dificuldades, com o propósito de levar ao fracasso “o filhinho do papai”, por ser ele originário de família de grande tradição, no território nacional. Para superar aquele bullying operacional, deu início à prática que o acompanha desde sempre a ser o primeiro a comparecer e o último a sair do trabalho.

Seu desempenho chegou ao conhecimento dos altos escalões da empresa, inclusive do líder maior, o legendário Norberto Odebrecht, que começou a vida com a responsabilidade de pagar o passivo deixado pelo pai, o engenheiro pernambucano Emílio Odebrecht. A obstinada dedicação de Mamede Paes Mendonça, ao trabalho, homem de poucas letras e grande amigo, foi uma de suas inspirações para carregar o atributo que lhe pespegam: workaholic.

Do Centro Industrial de Aratu, Ângelo passou, sucessivamente, a Secretário da Indústria e Comércio e da Fazenda, no Governo Luís Viana Filho. Já de volta ao setor privado, no Banco Econômico da Bahia, de que sua família era acionista, foi convidado para presidir o Banco do Brasil, uma das maiores instituições de crédito do Mundo, como o seu mais jovem presidente, aos trinta e oito anos. Finda a missão, retoma as atividades particulares, para ocupar, logo depois, o Ministério da Indústria e Comércio, no Governo Geisel. Mais tarde, Ângelo voltaria a ocupar posição ministerial no Governo Collor, de onde retornou para presidir o Grupo Econômico, alavancando-o da 43ª posição para a 6ª, no ranking nacional das organizações de crédito, quando, a 11 de agosto de 1995, dois meses e vinte dias antes de completar 60 anos, o Grupo Econômico sofreu intervenção do Banco Central. Curiosa coincidência: o mais experiente administrador brasileiro sentiu o gosto amargo da queda quando se encontrava com a mesma idade do Barão de Mauá (1813-1889), o maior empreendedor da América Latina, de todos os tempos, quando foi à bancarrota.

Sob o crivo da audiência mesmerizada, Ângelo discorreu sobre os atributos que nortearam sua vida: a) Clareza de objetivos; b) Desenvolvimento do gosto pelo trabalho assumido; c) Chegar primeiro e sair por último do trabalho; d) Seguir o conselho da poeta chilena Gabriela Mistral: incumbir-se de tarefas necessárias que os outros recusam; e) Trabalhar mais do que o contratado; f) Determinação; g) Disciplina; h) Aprendizado permanente.

Acreditando que devemos fazer como as águas que ganham força na queda, Ângelo superou, emocionalmente, o desastre apoiado em Deus, na família, na sua aliança histórica com Irmã Dulce que o fez legatário de sua obra imortal, ao lado de Maria Rita. Sob o aplauso geral, anunciou ousados e inovadores projetos.

Um exemplo edificante para um varão que completará 84 anos a primeiro de novembro próximo, ao lado de sua irrepreensível Ana Maria, filhos e netos, unidos em torno desse notável patriarca moderno.

Joaci Góes  é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Texto publicado originalmente na TB.