ARTIGO

A padroeira da Bahia
Joaci Góes

Ao eminente Confrade Dom Emanoel D’Able do Amaral!

A proposta do vereador Sérgio Nogueira – PSDB – para tornar Irmã Dulce (Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes -1914-1992) a padroeira da Bahia, ao lado de São Francisco Xavier, conta com nosso incondicional apoio, e penso que deveria receber o patrocínio da sociedade baiana, por razões que prescindem de maiores explicações.
Afinal de contas, o Anjo Bom da Bahia é a maior expressão do cristianismo, no plano da caridade, em todos os tempos, no continente americano. Tamanha era a sua devoção à causa dos despossuídos e dos miseráveis que sua canonização já fora prevista, praticamente à unanimidade, pelo menos trinta anos antes de sua morte, a partir de quando sua saúde começou a declinar. As duas visitas que lhe fez o papa João Paulo II e o modo como se exprimiu a respeito dela foram interpretados como sinais de que o Brasil, o maior país católico do mundo, teria nela sua primeira santa.

O nome Dulce adotou-o, aos vinte anos, em homenagem à sua mãe, desaparecida no verdor dos 27, quando ela tinha apenas sete anos de idade, ao lado de cinco irmãos, tão pequenos ou menores do que ela. Irmã Dulce deixou o magistério a que se dedicou nos dois primeiros anos para se entregar às comunidades pobres e miseráveis do bairro de Itapagipe e da vizinha favela, edificada em palafitas, mundialmente conhecida como Alagados, área em cuja vizinhança viria a instalar os principais centros de sua notável obra social, hoje aclamada como modelar do gênero, conhecida pela sigla OSID, abreviatura de Obras Sociais Irmã Dulce, dirigida por um colegiado que tem na presidência o empresário Ângelo Calmon de Sá e na superintendência sua amada sobrinha que lhe herdou o nome, Maria Rita Pontes, autora de primorosa biografia do Anjo Bom da Bahia. Registre-se que essas pessoas e suas funções foram definidas por Irmã Dulce, que nelas sempre encontrou decidido apoio e em quem depositava ilimitada confiança. Os anos decorridos de sua morte têm chancelado o acerto da escolha.

Aos 22 anos, Irmã Dulce fundou a União Operária São Francisco, primeiro movimento operário-cristão na Bahia. No ano seguinte, implantou o Círculo Operário da Bahia. Em maio de 1939, quando completava 25 anos de idade, inaugurou o Colégio Santo Antônio, destinado ao ensino de operários e de seus filhos, no bairro de Massaranduba. Nesse mesmo ano, dá os primeiros passos na direção do que viria a ser o famoso Hospital Santo Antônio, ao abrigar miseráveis enfermos em casas abandonadas no antigo Mercado dos Peixes e nos arcos da Colina do Bonfim, espaço público, para quem providenciava remédios, comida e o concurso de humanitários médicos, sem qualquer remuneração, cujo voluntariado não parou de crescer, acompanhando o aumento das necessidades, fato que a levou a concluir que “Às vezes nos defrontamos com problemas à primeira vista insolúveis.

A fé em Deus, porém, resolve tudo. Se tivermos uma fé firme em Deus, então, por mais difícil que seja o problema, sempre se encontra uma solução”. Pressionada pela autoridade policial para sair da casa abandonada no Mercado dos Peixes, cuja porta mandara pôr abaixo para abrigar uma criança e um velhinho, que encontrara à beira da morte, dormindo numa calçada, irmã Dulce conseguiu a autorização de sua própria ordem religiosa para transformar em albergue um antigo galinheiro, para receber setenta enfermos. Aí mesmo, em 1960, foi inaugurado o Albergue Santo Antônio, com 150 leitos, embrião da enorme obra social que construiu e que hoje atende mais de um milhão de pessoas a cada ano, nas áreas de saúde, educação e assistência social, tudo em caráter gratuito, consoante seu desejo.

Ficaram famosos os episódios que aconteceram sob seus olhos, caracterizadores da intervenção de forças ocultas que escapavam à percepção humana.
Quando o presidente João Batista de Figueirêdo foi visitá-la, ficou tão impressionado ao ver pacientes instalados na câmara que no seu rompante típico declarou: “Vou arranjar recursos para suas obras, nem que eu tenha que assaltar um banco”, ao que a santa freira lhe respondeu: “Me avise que eu vou com o senhor”. A inquebrantável fé de Irmã Dulce na infalível intervenção da Divina Providência levou-a a reagir, anos a fio, à ideia de submeter suas obras ao regime fundacional, como meio de habilitá-las ao recebimento regular de recursos oficiais. A muito custo, terminou cedendo ao conselho de experientes colaboradores, como Norberto Odebrecht e Ângelo Sá, que a convenceram de que, em sua ausência, ninguém mais seria capaz de realizar diariamente o milagre de obter recursos, à undécima hora, oriundos das esporádicas e incertas doações privadas. O papel desempenhado por esses dois grandes empresários, em favor da OSID, conforme ostensiva e publicamente reconhecido por Irmã Dulce, constitui episódio enriquecedor de suas biografias.

A querida sobrinha, Maria Rita, é a grande herdeira da tia Santa, na ingente tarefa de dar continuidade à obra desta que deve ser instituída Padroeira da Bahia, cujo nome é sinônimo de caridade onde quer que seja proferido.

Joaci Góes é escrito, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Artigo originalmente nesta quarta-feira, 4, na TB.