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Benjamin Moser publica nos Estados Unidos uma biografia da autora de ‘Diante da Dor dos Outros’ em que a acusa tanto de esconder sua homossexualidade como de não ser firme em seu compromisso feminista

Susan Sontag vista por Sciammarella.
Susan Sontag vista por Sciammarella.

Poucos intelectuais (os escritores que intervêm e influenciam na vida pública) foram objeto de tão insistente inquisição bibliográfica como Susan Sontag. Esse novo relato de sua vida, que pretende se apresentar como mais ou menos definitivo, é precedido, para citar somente algumas obras, da inteligente entrevista feita por Cott em 1978, das modestas memórias da romancista Sigrid Nunez, da recente biografia do alemão Schreiber e da vulgar obra de Rollyson e Paddock, a primeira de todas elas, publicada ainda em vida da autora de Sobre Fotografia. Para não mencionar em língua inglesa a avalanche, sempre após sua morte em 2004, mas seguindo os passos da última citada, dos depoimentos marginais dos que falaram sobre ela em diversos graus e que pretendiam com isso se destacar em meio ao arrivismo da contiguidade e da infidelidade como pagamento por supostas ofensas.

Benjamin Moser é conhecido por sua biografia de Clarice Lispector, cuja publicação não foi isenta de graves objeções importantes entre os especialistas brasileiros. O leitor infelizmente não deve esperar desse novo livro descobertas relevantes que não são oferecidas em biografias anteriores e entrevistas, e que não se encontram presentes na importante edição sob os cuidados de David Rieff dos cadernos e diários de Susan Sontag. Moser também teve a sua disposição os arquivos da autora depositados na Universidade da Califórnia em Los Angeles; essa não se trata, entretanto, de uma biografia intelectual, e menos ainda de uma nova contribuição de julgamentos argumentados que permitam ponderar o legado literário e intelectual de Sontag enquadrados na trajetória de suas influentes e debatidas intervenções públicas (da guerra do Vietnã à da Bósnia, de sua defesa de Heberto Padilla à de Salman Rushdie em momentos cruciais, de sua afirmação de que “o comunismo é um fascismo com rosto humano” às suas declarações sobre o intervencionismo norte-americano após os atentados de 11 de setembro de 2001).

Ao falar de um escritor, o essencial é a obra, pois essa constitui, justifica e ilumina a própria vida, e não ao contrário

O que o surpreso leitor perceberá é que Moser brande, outra vez, com certa inépcia intelectual levando em consideração a grande quantidade de material a sua disposição, um ampliado rol de acusações contra a ensaísta de Diante da Dor dos Outros, e que alguns proclamam desde os anos setenta. Entre elas três se destacam, às quais dedica muitas páginas ao longo do livro. A primeira acusa Sontag de não ter colocado sua obra a serviço da militância feminista; a segunda, não ser “honrada” e “sincera” quando Moser tenta cegamente conciliar os fatos vividos pela pessoa privada (e íntima) com a obra narrativa, e a terceira, não ter falado publicamente de sua homossexualidade. Ou seja, Moser pretende, entre outros aspectos refutáveis desse livro, dar o merecido castigo a sua biografada.

A primeira das acusações é antiga. Em uma célebre refutação de 1975 a Adrienne Rich, que a culpava puerilmente de não integrar a militância feminista às suas recentes obras (acusação repetida anos depois por Camille Paglia), Sontag escreveu que sem dúvida não é uma traição afirmar que existem “outros objetivos além da despolarização dos dois sexos, outras feridas além das de gênero, outras identidades além da sexual, outra política além da política dos sexos; e outros ‘valores anti-humanos’ além dos ‘misóginos”, como se a razão e a autoridade também devessem ser lançadas ao lixo da “história patriarcal”. Moser, após adotar a posição de Rich, também comete esse engano porque os artigos sobre feminismo de Sontag, publicados em revistas de enorme difusão em inglês, não foram reunidos em livro, quando justamente em um deles escreveu celebremente que “a opressão das mulheres significa o tipo fundamental de opressão nas sociedades organizadas”, sejam elas comunistas e capitalistas; como resposta a um questionário feito a ela originalmente em 1972 pela Libre, a revista parisiense de Juan Goytisolo.

O segundo pretende detectar a incipiente falta de probidade da autora no conto Peregrinação, o inicial dos diversos exemplos mencionados por Moser, pois os fatos da visita juvenil de Susan Sontag a Thomas Mann anotados nos cadernos dela não coincidem com os do relato dessa mesma visita à casa do romancista alemão exilado na Califórnia. Ou seja, é criticada pelo conto não ser a reportagem dos fatos. Moser também atribui a origem dessa suposta proclividade à tergiversação ao fato de Sontag ser a primogênita de uma mãe alcoólatra, e acredita descobrir na leitura reducionista de suas obras narrativas, de The Benefactor a Na América, meras recônditas peças psicológicas e biográficas que supostamente explicam as discrepâncias entre a pessoa pública e a privada, mas quase nada dizem da narradora e ensaísta. Da influência intelectual e moral de Arendt, Taubes, Barthes e Cioran, por exemplo, Moser fala muito pouco. É relevante acrescentar que em anos recentes algumas obras narrativas de Sontag foram reconsideradas principalmente a partir do estudo feito sobre ela por Jerome Maunsell em 2014, obra muito suspeitosamente ausente da extensa biografia citada por Moser.

A terceira acusação, a mais insidiosa de todas elas, foi formulada com mais afinco a partir dos anos oitenta e da epidemia de AIDS que assolou a vida de milhões de pessoas: a ocultação de sua homossexualidade. Moser omite as repetidas declarações de Sontag com as quais se recusou categoricamente a falar em público sobre sua vida privada (e até mesmo da “espiritual”). E como se não bastasse, Moser parece incapaz de reconhecer ao longo de todo o livro, em flagrante contradição à informação disponível que ele mesmo apresenta e com os escritos privados da autora, que Sontag foi na verdade bissexual toda a sua vida (o leitor curioso pode ir aos seus diários). Ou seja, para Moser, o bissexual é um traidor de uma causa. A posição de Sontag sobre isso, se sua trajetória fosse considerada com rigor e seriedade, poderia ser formulada com uma frase própria, pronunciada ao receber o Prêmio Príncipe de Astúrias: “Aversão a fazer uso principalmente instrumental dos escritores”. A essa altura, deveria ser uma obviedade afirmar que, ao se falar de um escritor, o essencial é a obra, pois essa constitui, justifica e ilumina a própria vida, e não ao contrário.

Ao final dessa biografia falaciosamente moralista, Moser inclui uma longa lista dos que colaboraram com sua redação, mas sem discriminar de maneira alguma as contribuições de cada um, de modo que estão misturados os parentes do autor com, por exemplo, Jasper Johns. A quase nula colaboração de interlocutores como Edgardo Cozarinsky e Paolo Dilonardo (especialmente esse para falar sobre o último decênio da vida de Sontag), e a ausência de informantes como Juan Cruz, Patti Smith e Ed Vulliamy (esse, essencial para documentar a presença de Sontag na Bósnia), explicam que a biografia de Moser se torne paulatinamente mais rasa na última de suas quatro partes, apesar de se tratar do período em que deveríamos esperar maior abundância de materiais por ser o mais recente.

Os procedimentos dessa biografia são, portanto, sintoma cabal da maneira em que alguns vivem agora: entre notícias que não são notícias, amigos que não são amigos, nações que não são nações e livros que não o são nessa, a era de Trump.

Por Claudio Dantas

Numa das atas da Camex, tornada pública pelo BNDES, estão registradas as condições excepcionais do empréstimo do BNDES para a construção do Porto de Mariel, pela Odebrecht.

Mantidos em sigilo até hoje, os parâmetros do financiamento incluem prazo de 25 anos, sendo quatro de carência, a taxa Libor de 60 meses mais spread de 3,5 % a.a. – com parcela à vista de apenas 15% do valor total.

Para o valor de US$ 176,5 milhões, o governo brasileiro aceitou como garantia “fluxos internos de recebíveis da indústria cubana de tabaco”.

Também ampliou de dez para 25 anos o prazo de equalização de juros – espécie de subsídio de juros em que o Banco do Brasil paga ao BNDES a diferença entre o juro do banco e o internacional, se este for menor. Essa alteração causou um prejuízo de R$ 68 milhões, segundo o TCU.

É muito charuto, não?

O presidente Jair Bolsonaro sancionou nesta terça-feira projeto de lei aprovado pelo Congresso que permite a proprietários de imóveis rurais a posse de armas de fogo em toda extensão da propriedade. A lei alterou legislação anterior que determinava a posse apenas dentro da residência.

Macaque in the trees
Jair Bolsonaro faz arminhas com as mãos (Foto: Reuters/Paulo Whitaker/30/11/2018)

De acordo com o Palácio do Planalto, a mudança na lei traz segurança jurídica e impede “divergências interpretativas” em relação aos limites da posse de arma na área rural.

Bolsonaro já havia anunciado na tarde de segunda-feira, ao chegar de volta a Brasília depois de passar 10 dias internado em São Paulo para uma cirurgia, que sancionaria a lei. O presidente afirmou que não iria mais “tolher ninguém de bem a ter sua posse ou porte de arma de fogo”.

Ampliar a posse e o porte de armas de fogo é uma das promessas de campanha de Bolsonaro. O presidente chegou a editar um decreto ampliando as possibilidades de posse, mas terminou por retirá-lo ao ser avisado de que seria derrubado pelo Congresso.

Parlamentares consideraram que o decreto extrapolava as prerrogativas presidenciais e alterava medidas que deveriam passar pelo Parlamento. (Reuters)

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Posted on 18-09-2019
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Adnael, no portal

 

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Bispos debaterão questões como celibato, ordenação das mulheres e homossexualidade apesar das advertências da Santa Sé

As tensões entre os bispos alemães e o Vaticano ameaçam causar uma grave crise na Igreja Católica. A Conferência Episcopal decidiu levar adiante o incipiente debate reformista, nascido no calor da investigação sobre abusos sexuais na Alemanha, apesar da oposição vaticana. No final de semana passado, os bispos se reuniram com representantes de organizações católicas para preparar o chamado “caminho sinodal”, um fórum em que se prevê o debate de assuntos como o papel da mulher na Igreja, a homossexualidade e o celibato. O Vaticano alertou que tais questões cabem exclusivamente à Igreja universal e não a uma espécie de sínodo nacional. Mas a Alemanha, apesar das advertências por escrito, seguirá em frente.

O presidente de sua Conferência Episcopal, Reinhard Marx, membro do reduzido conselho que assessora o Papa nas reformas da Igreja e homem teoricamente próximo a Francisco, viajará nessa semana a Roma para defender o diálogo reformista. Mas os problemas vêm de longe e a necessidade da Alemanha de imprimir maior velocidade à transformação e abertura da Igreja começa a abrir fendas importantes entre a Santa Sé e a Igreja mais rica do mundo.

Uma investigação encarregada pela Conferência Episcopal alemã (DBK) documentou há um ano 3.677 casos de abusos sexuais cometidos por membros da Igreja a menores. Desde então cresce a pressão para debater e reformar as estruturas que permitiram esses abusos, a questão do celibato e o papel da mulher na hierarquia eclesiástica, por parte de bases que veem como sua Igreja perde membros rapidamente. Marx, um homem direto e brilhante, lidera essa espécie de corrente de oposição progressista.

Os bispos alemães se reuniram no final de semana passado com representantes do Comitê Central dos Católicos Alemães (ZdK, na sigla em alemão), a organização que representa 140 organizações, assim como personalidades da política e do mundo acadêmico. Após a conferência, os bispos indicaram em um comunicado que escreveram uma reposta a uma carta enviada pelo Papa em junho, em que afirmam “ter em mente a unidade de toda a Igreja, assim como a situação na região”.

Em junho, o papa Francisco escreveu uma carta dirigida aos fiéis alemães, na qual disse “compartilhar a preocupação sobre o futuro da Igreja na Alemanha” e constatou “a erosão da fé”. Mas também alertou sobre o perigo de se colocar em andamento processos que podem afastar a Igreja alemã. “A Igreja universal vive em e das Igrejas particulares, assim como as Igrejas particulares vivem e florescem em e da Igreja universal, e se encontrarem-se separadas do corpo eclesial por inteiro, se enfraquecem, secam e morrem”. Por isso, alguns setores da Santa Sé consideram que o embate está sendo dirigido diretamente a Francisco.

“A investigação dos abusos demonstrou que ocorreram crimes individuais, mas também causas estruturais dentro da Igreja que os permitiram”, diz Theodor Nolzenius, porta-voz do ZdK. O debate se divide em quatro grandes grupos de trabalho, sobre o poder e a participação na Igreja, o estilo de vida dos padres, a moral sexual e o papel das mulheres na instituição. Nolzenius diz que o caminho sinodal lançará somente recomendações e que Roma não pode se opor a um simples diálogo, mas reconhece que o processo “aumentará a pressão” tendo em vista um processo de renovação, em um momento em que a Igreja alemã perdeu mais de 200.000 membros no ano passado.

Marx recebeu no começo de setembro uma carta do chefe para a Congregação dos Bispos, Marc Ouellet, que incluía uma análise jurídica do rascunho dos estatutos do caminho sinodal fechado em junho. A missiva considerava a terceira via aberta pelo caminho sinodal contrária ao direito canônico. No Vaticano, de fato, receberam com espanto e certo mal humor a ideia original e as explicações posteriores. A Santa Sé continua considerando que o problema não foi corrigido, tal como afirmou a Conferência Episcopal dizendo que a análise se referia a uma versão antiga do texto e que sofreu modificações desde então.

Perguntada pelo EL PAÍS sobre as mudanças concretas as que se refere, a Conferência Episcopal não quer por enquanto dar detalhes do processo, mas a imprensa alemã especula com mudanças no sistema de votação do fórum. “O erro principal é que estão lidando em nível nacional com uma questão que afeta a Igreja universal. São 70 bispos, e na Igreja há 70.000. Estão forçando, atribuindo-se uma série de competências que não têm. É um assunto que afeta diretamente a unidade da fé. Não é verdade que isso mudou no novo documento”, diz um membro do alto escalão do Vaticano.

Adaptar-se ao mundo atual

No entorno do cardeal Marx considera-se que a velocidade com a qual as mudanças ocorrem não corresponde às necessidades da Igreja para se adaptar ao mundo atual. Os atritos com a Santa Sé, nesse sentido, não são novos. No ano passado a primeira bomba explodiu. Um grupo de bispos, apoiado pelo presidente da Conferência Episcopal, o cardeal Marx, abriu o caminho da intercomunicação com um documento intitulado Caminhar com Cristo sobre a pista da Unidade: Casamentos interconfessionais e participação comum na Eucaristia, um subsídio pastoral da Conferência Episcopal Alemã. Ou seja, se colocou que os companheiros e companheiras protestantes de católicos que os acompanhassem à missa também pudessem tomar a comunhão. Um passo a mais na tentativa da Igreja alemã de facilitar a convivência entre religiões e de abrir a sociedade atual para não perder a sensibilidade social.

A proposta, que chegou 500 anos depois do repúdio de Martinho Lutero à teologia sacramental católica, causou um terremoto em alguns setores da Igreja. O chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, o espanhol Luis Ladaria, desautorizou seu conteúdo. Mas o mal-estar também chegou aos EUA, a única Igreja capaz de rivalizar com a alemã em poderio econômico. “A proposta alemã atinge o próprio coração da verdade do sacramento da eucaristia, porque por sua própria natureza, a eucaristia é o corpo de Cristo”, criticou o arcebispo da Filadélfia Charles Chaput. Apesar do pedido do Papa para que fosse detida, alguns bispos levaram a iniciativa adiante.

Na semana que vem, de 23 a 26 de setembro, o “caminho sinodal” deverá receber um exame formal por parte dos bispos na reunião de conferência episcopal de Fulda, no centro da Alemanha. Mais tarde, no final de novembro, a ZdK deverá aprová-lo. Diversas fontes consultadas dizem que, se não ocorrerem mudanças nos estatutos acordados, o processo será aprovado sem problemas.

Liberdade para discutir

Matthias Katsch, membro do conselho de vítimas de abusos sexuais, que assessora o Governo alemão sobre esses assuntos e um dos primeiros prejudicados a erguer a voz, diz que o caminho sinodal é a forma que os bispos têm de evitar a figura do sínodo e, portanto, a imposição de normas vindas de Roma. “Dessa forma, existirá mais liberdade para discutir e para incluir os representantes da sociedade civil”, afirma.

“A Conferência Episcopal levou a sério as palavras do Papa de ouvir a sociedade civil e agora encontra a rigidez jurídica da hierarquia. Uma sociedade democrática não pode permitir que não exista o direito à discussão”, diz Katsch, que na semana que vem apresentará em Fulda aos bispos as recomendações dos especialistas sobre as indenizações às vítimas de abusos. “Os bispos perceberam que há uma profunda crise na Igreja, mas em Roma não entendem a urgência”, conclui.

Documentário de Petra Costa, que estreou no Netflix, traz um retrato para além do impeachment. E já nasce incompleto porque o equilíbrio ainda é distante

Primeira posse de Dilma Rousseff, que recebe a faixa de Lula ao lado do vice, Michel Temer.
Primeira posse de Dilma Rousseff, que recebe a faixa de Lula ao lado do vice, Michel Temer.Reprodução

31 de agosto de 2016. Dilma Rousseff desce pelo tapete vermelho do Palácio da Alvorada, sua residência oficial, cercada por um séquito de apoiadores. Estava preparada para fazer seu último discurso público como mandatária do Brasil. Chegava ao fim, dois anos antes da hora prevista, a presidência da primeira mulher eleita pelo país. Era o ato final de um período de turbulência que se arrastava havia anos. E também a despedida do Partido dos Trabalhadores (PT) do poder, lugar que a sigla de Luiz Inácio Lula da Silva ocupava havia 13 anos entre apoio apaixonado e rechaço fustigante de uma população dividida. Um poema de Maiakovski foi o desabafo final de Rousseff.

“Não estamos alegres, é certo,

Mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?

O mar da história é agitado

As ameaças e as guerras, haveremos de atravessá-las,

Rompê-las ao meio,

Cortando-as como uma quilha corta as ondas

A metáfora do escritor russo também cabe ao reconto do Brasil recente feito por Petra Costa (Belo Horizonte, 35 anos). A jovem cineasta retraça em seu documentário Democracia em Vertigem o agitado mar dos últimos anos da pós-redemocratização brasileira, que culminou na eleição do ultradireitista Jair Bolsonaro, em outubro de 2018. Uma sequência de fatos, que organizados para além dos fragmentos dos jornais, tem todos os elementos que caberiam a uma boa ficção: vilões, mocinhos, traidores, as reviravoltas de uma trama bem amarrada. Um material que sustentaria, pra entusiasmo dos seriéfilos, muitas temporadas no Netflix, a plataforma que produziu e comporta o filme de Costa. Mas a realidade tem raízes muito mais profundas que o maniqueísmo da ficção. A história não se isola no tempo, mostra Costa.

As explicações do impeachment de Rousseff e da eleição de Bolsonaro necessitam de um mergulho mais profundo. Para antes até da vida da própria cineasta —Costa, que nasce neste novo Brasil em abrupta mudança, é também protagonista do filme, assim como havia feito com o premiado Elena—. Os porquês começam na transformação de um país que na década de 70 ainda lutava para deixar para trás uma ditadura militar sangrenta, enquanto alça à liderança política um metalúrgico sindicalista, Lula, que 30 anos mais tarde se tornaria presidente. Passam por recontar os acertos do PT na área social. E os graves —e criminosos— erros na relação do partido com o Congresso. Chegam na eleição de Rousseff, uma candidata por acaso: “Ê, presidente, o senhor inventou essa”, diz Dilma a Lula em imagem recolhida pelo filme, quando celebram a primeira vitória dela, em 2010. Mais à frente, uma Dilma humana desabafa sobre os tempos de poder, em uma das muitas entrevistas reveladoras captadas pela cineasta, desta vez com a ajuda da própria mãe, também ex-militante contra a ditadura: “Tem coisas que são dificílimas pra mim. O que acontece é que nunca mais se pode ser inteiramente anônima e ter a imensa liberdade que a gente tem quando está na clandestinidade”.

As explicações sobre os novos erros do PT com o Congresso e com as suas bases nas ruas surgem em uma ótima entrevista de balanço do ex-ministro Gilberto Carvalho. Aparece também a inabilidade econômica de Rousseff diante de mudanças no cenário global. Ressoam nas traições de personagens a essa altura já quase esquecidos, como Eduardo Cunha, o presidente da Câmara que autorizou o processo de impeachment e, meses depois, acabou preso por corrupção, e Michel Temer. Pelos protestos nas ruas, que começaram em 2013 e se prolongaram até 2016 sem que se entendesse muito bem os motivos iniciais, pelas investigações da Lava Jato (e suas operações por vezes questionáveis) com o protagonismo do então juiz Sergio Moro. É só aí que se chega ao impeachment. E a um Power Point desastrado que coloca Lula como chefe de um esquema de “propinocracia”. E, então, Lula é preso. E Aécio Neves, o líder da oposição, é flagrado em um telefonema revelador que vaza à imprensa.

É assim que o fenômeno Bolsonaro se forma. Com as vias livres, o capitão reformado chega ao poder, numa conciliação que atendeu a uma direita defensora da democracia e a extremistas que rogavam pela volta dos militares. A história é cíclica e, no Brasil dos últimos anos, bastante revolta. Mas, para além dos capítulos da história, o filme de Costa é o retrato de um país que se forjou sobre uma base mambembe, que nunca se reconstruiu. “Fundada no esquecimento”.

Nos filmes, porém, toda história precisa ter um fim e Democracia em Vertigem nasce incompleto. Não por culpa do trabalho delicado da cineasta, que foi ovacionada em festivais como o Sundance, mas porque os balanços que começaram agitar os brasileiros com os protestos de 2013 ainda prosseguem como o fio de um novelo infinito. No exato dia em que o filme chegou à Netflix, o ex-juiz Sergio Moro, que aceitou a vaga de ministro da Justiça de Bolsonaro, prestava esclarecimentos no Senado sobre mensagens privadas, fora do processo, que trocou com os procuradores da Lava Jato responsáveis por condenações como a de Lula. A vertigem, essa sensação de que tudo gira tão rápido que o organismo social não consegue acompanhar, permanece. O equilíbrio ainda parece distante.

“Saudade”, Nana Caymmi: Um samba canção que atravessa o tempo como modelo da pujança na arte de compor de seu Dorival, e parece sob medida para a grandiosidade da voz e da insuperável força interpretativa de Nana, a filha querida do autor e xodó de todos que amam e reconhecem  o que a música brasileira produziu e tem de melhor. Viva!!!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

 

 

Saudade
Dorival Caymmi

Saudade
Tudo acontece na vida
Tudo acontece a todos nós
Sempre uma dor, um ai de amor
E, de um infeliz, se ouve a voz
Sinto saudades, tristezas
Bem dentro de mim
Coisas passadas, já mortas
Que tiveram fim
Tenho meus olhos parados
Perdidos, distantes
Como se a vida lhe fora
O que era antes
Cartas, palavras, notícias
Não vêem sequer
E a certeza me diz
Que ela era o meu bem
O que dói profundamente
É saber que felizmente
A vida é aquilo que a gente não quer

set
17
Posted on 17-09-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 17-09-2019
 Rodrigo Maia disse a O Antagonista que, pelo regimento da Câmara, não pode aceitar os pedidos de retirada de apoio à CPI das Mensagens Roubadas.

“Não posso. Eu não posso retirar assinaturas.”

O regimento diz que assinaturas não podem ser retiradas após o pedido ser apresentado.

Lembramos ao presidente que, no ano passado, ele não retirou assinaturas, mas também não instalou uma outra tentativa de CPI para atacar a Lava Jato, depois que vários deputados recuaram.

“Nada a ver uma coisa com a outra”, afirmou Maia.

Por Bárbara Muniz Vieira, G1 SP

Presidente Jair Bolsonaro chega ao Aeroporto de Congonhas, na Zona Sul de São Paulo, na tarde desta segunda-feira (16) — Foto: Reprodução/TV Globo Presidente Jair Bolsonaro chega ao Aeroporto de Congonhas, na Zona Sul de São Paulo, na tarde desta segunda-feira (16) — Foto: Reprodução/TV Globo

Presidente Jair Bolsonaro chega ao Aeroporto de Congonhas, na Zona Sul de São Paulo, na tarde desta segunda-feira (16) — Foto: Reprodução/TV Globo

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) teve alta na tarde desta segunda-feira (16), e deixou o Hospital Vila Nova Star, na Zona Sul de São Paulo, pouco antes das 15h. Ele seguiu para o Aeroporto de Congonhas para viajar para a Brasília, onde seguirá se recuperando.

Bolsonaro estava internado no hospital desde sábado (7) para uma cirurgia de correção de uma hérnia (saliência de tecido) surgida no local das intervenções anteriores.

 
Bolsonaro tem alta hospitalar e volta para Brasília

Bolsonaro tem alta hospitalar e volta para Brasília

A primeira previsão era que o presidente retomasse o cargo na sexta-feira passada. Depois, isso foi adiado para terça –na manhã desta segunda, Mourão, que assumiu interinamente a presidência com a licençade Bolsonaro,  havia dito que ficaria no cargo apenas até esta segunda.

A viagem do presidente para Nova York, onde ocorrerá assembleia-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), foi adiada em um dia: em vez de ocorrer em 22, será no dia 23.

Segundo o porta-voz da Presidência, Otávio Rêgo Barros, a mudança na data da viagem não altera a participação de Bolsonaro no evento.

 

Avião presidencial decola em São Paulo para Brasília na tarde desta segunda-feira (16) — Foto: Reprodução/TV Globo Avião presidencial decola em São Paulo para Brasília na tarde desta segunda-feira (16) — Foto: Reprodução/TV Globo

Avião presidencial decola em São Paulo para Brasília na tarde desta segunda-feira (16) — Foto: Reprodução/TV Globo

O ministro entrou no hospital na Vila Nova Conceição, Zona Sul de São Paulo, sem ser visto e não falou com a imprensa. Acompanhado da sua mulher, Rosângela Moro, visitou o presidente por cerca de 20 minutos e, depois, postou em seu Twitter uma foto ao lado de Bolsonaro e a primeira-dama, Michele Bolsonaro. “Visita ao sr. Presidente e à Sera. Primeira-dama. Conversa agradável. Presidente recupera-se muito bem. O homem é forte”, diz o post. Pouco depois, Bolsonaro postou a mesma foto em sua conta no Twitter, mas sem nenhuma legenda.

Nos últimos meses, a relação entre Moro e Bolsonaro passou por altos e baixos. No final de agosto, contrariando o que dizia nas eleições do ano passado sobre Moro ter carta branca para conduzir ações do Ministério, Bolsonaro disse, mais de uma vez, que ele é o presidente e que pode vetar “qualquer coisa” que o ministro fizer.

 

O ministro Sérgio Moro em visita ao presidente Bolsonaro no hospital — Foto: Reprodução/ Twitter O ministro Sérgio Moro em visita ao presidente Bolsonaro no hospital — Foto: Reprodução/ Twitter

O ministro Sérgio Moro em visita ao presidente Bolsonaro no hospital — Foto: Reprodução/ Twitter

Quarta cirurgia

Esta foi a quarta operação desde a facada sofrida por Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018. Desta vez, o objetivo era corrigir uma hérnia (saliência de tecido) surgida no local das intervenções anteriores.

A alta vai ocorrer após sessão de fisioterapia no hospital. “A alta aconteceu em função da melhora dos exames, do trânsito intestinal, da melhora como um todo”, disse no fim da manhã o médico Antônio Luiz Macedo. Segundo o cirurgião, no domingo o presidente caminhou 3 km pelo hospital.

Durante o período de recuperação, o presidente deverá “seguir as orientações médicas relacionadas a dieta e atividade física”, segundo o boletim médico. “A gente prefere que ele fique em repouso em casa e que não faça esforço físico nem esforço de falar demais”, disse Macedo.

Alimentação

A dieta pela veia foi suspensa no sábado (14). Agora, o presidente segue com alimentação cremosa. Segundo o médico, isso ocorre porque “ainda tem um pouco de gás no intestino delgado”. “A dieta cremosa tem calorias suficientes para sustentar. Cerca de duas mil calorias por dia”, disse.

A próxima etapa será a ingestão de alimentos pastosos. “Ele veio com melhora progressiva, foi aceitando a alimentação oral, foi uma evolução que se esperava e os cuidados devem se manter“, disse o porta-voz Barros.

 

Nesta sexta (20), a equipe médica do Hospital Vila Nova Star irá a outro centro médico da rede D’Or em Brasília para avaliar a recuperação do presidente. “Ele fará exame de sangue e imagem. Se estiver como eu gosto o abdômen, aí eu libero a dieta normal para ele na sexta”, disse o médico Macedo.

 

Bolsonaro faz live no hospital em SP — Foto: Reprodução/Facebook Bolsonaro faz live no hospital em SP — Foto: Reprodução/Facebook

Bolsonaro faz live no hospital em SP — Foto: Reprodução/Facebook

ONU

Segundo o porta-voz, está mantida a programação para a participação do presidente na Assembleia da ONU, em Nova York, no dia 24 de setembro. A viagem para a cidade norte-americana, que estava prevista para o dia 22, foi adiada para o 23.

Como de costume, o presidente brasileiro é quem faz o discurso de abertura da assembleia. Segundo Barros, o texto “está sendo promovido a várias mãos”. “O senhor presidente da República tem já entendido ou sinalizado quais são as ideias, quais são os tópicos frasais que devem ser abordados. Mas efetivamente o discurso só estará encerrado um pouco mais adiante quando o senhor presidente, junto com a sua equipe de assessoramento, debruçar-se-á sobre ele e definirá a finalização.”

Após o evento, Bolsonaro e sua comitiva devem seguir para o Texas, onde haverá “uma reunião com industriais, com empresários –alguns deles, inclusive, oficiais generais das Forças Armadas americanas–, e do Texas retornamos ao Brasil”, disse Barros. “Ele retorna no dia 25. O encurtamento é por recomendação médica.”

 

O porta-voz acrescentou que, no final de outubro, o presidente viajará para Japão, China e Oriente Médio pelo período de 10 dias.

set
17
DO PORTAL TERRA
Francisco Carlos de Assis
 
 separatorO presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse nesta segunda-feira, 16, que o pacote anticrime do ministro da Segurança, Sergio Moro, será votado nas próximas semanas. No entanto, de acordo com o deputado, o pacote não é definitivo na questão da solução dos problemas relacionados à segurança porque “não é uma reforma do sistema penitenciário global, mas são pontos que vão ajudar o trabalho da investigação seja do ponto de vista penal, seja do ponto de vista da corrupção”, disse.

Maia participou nesta segunda-feira, 16, de evento realizado em São Paulo, pelo Brasil de ideias

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