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Chega a 31 número de mortos em incêndios na Califórnia

Chega a 31 número de mortos em incêndios na Califórnia

O incêndio que atinge o norte da Califórnia desde a última quinta-feira, o Camp Fire, se igualou em número de vítimas ao mais letal já registrado na história do estado americano, depois que as autoridades anunciaram que recuperaram mais seis corpos.

Até esta segunda-feira (12), 29 pessoas morreram neste incêndio. Mas a Califórnia tem mais de um foco de chamas no momento, e outras duas vítimas foram registradas pelo Woolsey Fire, que atinge a região sul do estado. Por isso, o total de mortos nos incêndios ativos chega a 31.

 Bombeiros lutam contra o incêndio de Woolsey enquanto continua a queimar em Malibu, na Califórnia, no domingo (11) — Foto: Eric Thayer/ Reuters

Bombeiros lutam contra o incêndio de Woolsey enquanto continua a queimar em Malibu, na Califórnia, no domingo (11) — Foto: Eric Thayer/ Reuters

Até então, o incêndio que atingiu o Griffith Park, em Los Angeles, ocorrido em 1933, era o incêndio com o maior número de mortos na história da região, de acordo com o Departamento de Bombeiros da Califórnia (Cal Fire).

O Camp Fire, que afeta uma ampla região do condado de Butte, na cordilheira Sierra Nevada, ao norte da capital do estado, Sacramento, é o maior e mais devastador dos três que estão ativos no estado. Também é o mais devatsador da história do estado.

 

Mapa mostra incêndios ativos na Califórnia — Foto: Juliane Monteiro/G1 Mapa mostra incêndios ativos na Califórnia — Foto: Juliane Monteiro/G1

Mapa mostra incêndios ativos na Califórnia — Foto: Juliane Monteiro/G1

Destruiu 67 mil imóveis, incluindo um hospital em Paradise, cidade de 27 mil habitantes. As chamas destruíram 45 mil hectares e foram contidas em apenas 25%, de acordo com o Cal Fire, que calcula que precisará de três semanas para controlar totalmente a situação.

Segundo o chefe de polícia local, Kory Honea, os novos corpos foram recuperados em Paradise e seus arredores ao final do quarto dia de combate às chamas. Cerca de 228 pessoas ainda estão desaparecidas, enquanto 137 foram localizadas após amigos ou familiares terem afirmado que não tinham conseguido entrar em contato com elas.

 

Aeronave ajuda no combate a incêndio Woolsey, que atinge o sul da Califórnia, no domingo (11) — Foto: Eric Thayer/ Reuters Aeronave ajuda no combate a incêndio Woolsey, que atinge o sul da Califórnia, no domingo (11) — Foto: Eric Thayer/ Reuters

Aeronave ajuda no combate a incêndio Woolsey, que atinge o sul da Califórnia, no domingo (11) — Foto: Eric Thayer/ Reuters

A causa ainda não foi oficialmente determinada, mas autoridades do setor elétrico informaram que aconteceu um corte de energia perto do local de origem das chamas, noticiou o jornal “Sacramento Bee”.

No total, os incêndios provocaram a fuga de mais de 250 mil pessoas.

‘Woolsey Fire’

Já o Woolsey Fire afeta os condados de Ventura – onde fica a cidade de Malibu, residência de várias estrelas de Hollywood – e de Los Angeles, ao sul do estado. No último sábado, famosos como Lady Gaga, Kim Kardashian e Guillermo del Toro tiveram que abandonar suas casas.

O ator Gerard Butler postou que sua casa em Malibu ficou completamente destruída pelas chamas.

 

Gerard Butler tem casa destruída em incêndio na Califórnia — Foto: Reprodução/Instagram Gerard Butler tem casa destruída em incêndio na Califórnia — Foto: Reprodução/Instagram

Gerard Butler tem casa destruída em incêndio na Califórnia — Foto: Reprodução/Instagram

“Retornei para minha casa em Malibu após a evacuação. Momento doloroso em toda a Califórnia. Inspirado como sempre pela coragem, espírito e sacrifício dos bombeiros”, escreveu o ator, que agradeceu aos profissionais da corporação. “Se você puder, apoie esses homens e mulheres corajosos”, escreveu Butler, compartilhando a página para doações aos bombeiros.

No domingo, as autoridades anunciaram que encontraram duas pessoas mortas em um veículo. Agora os bombeiros que lutam na região se preparam para a chegada dos perigosos ventos de Santa Ana (secos e quentes), que poderiam alastrar as chamas, segundo as autoridades.

 

Lady Gaga postou imagem no Instagram com fumaça de incêndio ao fundo: 'Saindo cedo nesta manhã' — Foto: Reprodução/Instagram/Lady Gaga Lady Gaga postou imagem no Instagram com fumaça de incêndio ao fundo: 'Saindo cedo nesta manhã' — Foto: Reprodução/Instagram/Lady Gaga

Lady Gaga postou imagem no Instagram com fumaça de incêndio ao fundo: ‘Saindo cedo nesta manhã’ — Foto: Reprodução/Instagram/Lady Gaga

“Hoje temos mais de 8.000 bombeiros federais, estaduais e locais nas linhas de frente”, afirmou Scott Jalbert, comandante do Cal Fire. “Infelizmente, com estes ventos, não terminou. Tenham cuidado”, completou.

Críticas de Trump

“Não há motivos para estes incêndios grandes e mortais na Califórnia, exceto que a gestão florestal é muito ruim”, escreveu Trump no Twitter no sábado.

 
 
“Bilhões de dólares são dados a cada ano, com tantas vidas perdidas, tudo por causa da má administração das florestas. Consertem agora ou não acontecerão mais pagamentos do Fed”.
— Donald Trump

Brian Rice, diretor dos Bombeiros Profissionais da Califórnia, classificou os comentários de “desinformados, inoportunos e humilhantes para aqueles que estão sofrendo”.

Também disse que as afirmações do presidente sobre má gestão florestal “são perigosamente equivocadas”.

Declaração de desastre

O governador da Califórnia, Jerry Brown, prestou condolências aos familiares e amigos das vítimas e disse que o estado fará o possível, com fundos próprios e os que pedirá ao governo federal, para combater a tragédia. Brown afirmou que pediu a Trump que declare a área de desastre, para facilitar a chegada de ajuda.

Também comentou que o cenário poderá se intesificar nos próximos 10 a 20 anos: “Infelizmente, os melhores cientistas nos estão dizendo que o calor, a seca, todas estas coisas, ficarão mais intensos”.

O governador eleito Gavin Newson pediu que fosse declarado estado de emergência para levar ajuda às zonas mais afetadas.

Resultado de imagem para Paulo Fabio Dantas debate sobre fascismo e democracia na UFBA

ARTIGO

A GRAMÁTICA DA POLITICA CONTRA O PATHOS PROFÉTICO [1]

Paulo Fábio Dantas Neto

O atual momento político propicia que, em ambientes universitários, se exercite uma atividade daquelas que melhor demonstram a razão de ser de instituições universitárias. Travar um debate de sentido político, portanto, opinativo, a partir de esforços intelectuais que adotem a isenção (embora não a neutralidade) como método para que debatedores se entendam sobre uma base factual comum, dando-se, a partir dela, a livre discussão das opiniões.

Em momentos críticos, essa situação amigável, em que possam fluir simultaneamente e sem peias a dignidade da ciência e da política, não se estabelece naturalmente apenas porque se está numa universidade. Elas, como todos os ambientes sociais, expõem-se a azares de uma situação em que a regra é assassinar fatos para promover narrativas. Essa prática, se prevalece, pode ser letal à vida universitária pelo seu potencial de converter aquela situação amigável em impossibilidade prática. Nessa hipótese torna-se duvidosa a própria razão de ser dessas instituições, pois fazer política às custas da ciência é algo tão obscurantista quanto querer anular a política através da ciência.

A natureza dos recursos intelectuais que, por ofício, se maneja nas universidades públicas, em condições de autonomia política e administrativa e de estabilidade funcional, faz com que ali as possibilidades extremas de se fazer de um dissenso fator de obscurantismo ou de iluminação sejam uma escolha. Em conjunturas críticas é prerrogativa de poucos. Componentes dessas instituições que escolhem buscar interlocução que ilumine o ambiente interno e contribua ao esclarecimento do ambiente social estão desafiados a praticar a tolerância desde a fixação de um tema para discussão. Podem ter de ir ao debate sem consenso inicial sobre uma base factual comum, tendo mesmo que discutir em público sobre realidades virtuais, havendo um virtual para cada qual. Isso porque o acesso da razão a alguma base factual comum encontra-se interditado por uma não razoabilidade, fera solta na conjuntura.

No último dia 9 de novembro aconteceu na UFBa uma mesa de discussão em torno de um tema – fascismo e democracia – que à maioria dos promotores e participantes parecia imperativo discutir nesse momento. O texto a seguir foi uma contribuição de alguém que não compartilha essa opinião, por achar que fascismo é um tema excêntrico para o entendimento do que se passa no Brasil atual. Mas reconhece que valeu a pena a discussão. O grande interesse que temas políticos felizmente despertam nesse momento permitiram um auditório lotado por um público mais diversificado do que professores e estudantes. Aliás, eram poucos os professores presentes e os estudantes muitos e atentos na escuta, alguns se arriscando a interpelar as falas. O resultado motiva congratulações aos promotores e homenagens a quem até ali se deslocou. Tornar mais público o texto que serviu de roteiro à fala é um modo de agradecer a oportunidade de ter participado daquele momento. Esse preâmbulo, ausente na apresentação oral, foi um esforço de descrição do contexto para leitores extra universitários. Segue agora o texto.

 

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FASCISMO, UM TEMA FORA DO LUGAR

Fala-se de fascismo há semanas e resolveu-se falar hoje com mais vagar. Difícil considerar que seja tema pertinente a algo que sucede ou está em vias de suceder no Brasil. Mas tudo bem, a percepção contrária existe em nosso meio, daí porque, em vez de argumentar através de interpretação da conjuntura, encara-se aqui a discussão conceitual, avisando que fascismo é o assunto inicial, sem ser o centro da fala. O centro será uma reflexão sobre nossa democracia e as possibilidades abertas, no seu âmbito – agora com ainda mais sentido – ao exercício da política.

A referência usada aqui para tratar do tema fascismo e depois opinar sobre sua impertinência ao nosso momento é um livro do professor Robert Paxton, cujo título é “Anatomia do fascismo”.  Trata-se de um estudo comparativo de processos transcorridos em muitos países, envolvendo movimentos políticos, estratégias eleitorais e institucionais, governos e regimes que, afinal, podem ser, de algum modo, associados a fascismo. A diversidade de situações leva o autor a se contrapor a boa parte da literatura especializada, que se concentra na ideologia para tentar definir o fenômeno fascista. Paxton examina a trajetória histórica do fascismo como “uma série de processos que se desenrolam ao longo do tempo, e não como expressões de uma essência fixa”. Resultam daí dois alertas.

Cuidado com imagens sintetizadoras: em vez de síntese, o fascismo pede análise. Em vez de se ater ao “demagogo chauvinista discursando bombasticamente para uma multidão em êxtase”; “fileiras disciplinadas de jovens desfilando em paradas militares”; “militantes vestindo camisas coloridas e espancando membros de alguma minoria demonizada”, ou – poderíamos dizer hoje e aqui – a homens brancos, machistas, homofóbicos, rascistas, sejam “coxinhas” arrogantes ou “gorilas” ameaçadores, é preciso verificar as relações entre líder e Nação; entre o partido e a sociedade civil. O exame dessas relações pelo método empírico e analítico é que pode nos dizer se está presente o ovo da serpente ou ela mesma, em pessoa. Ou se fatos concretos que se atribui ideologicamente a fascismo devem ser vistos como situações genéricas de autoritarismo, discriminação e violência praticados, reacionariamente, por pessoas e grupos insatisfeitos com a realidade da democracia numa sociedade que a valoriza mais que no passado.  

O que os fascistas fizeram é no mínimo tão informativo do que o que eles disseram: é preciso considerar ambas as dimensões, pois são bastante ambíguas as relações entre:

  1. a) fascismo e modernidade, cabendo duvidar da oposição binária entre fascismo como reação anti modernista e fascismo como ditadura da modernização. Promotor em vários casos de racionalização tecnológica, difusão propagandística de uma estética hi tec e forte desenvolvimento industrial, não obstante cultiva uma utopia agrária e a crítica ao desenraizamento, conflitos e imoralidade da vida urbana;
  2. b) fascismo e capitalismo: cabendo evitar as simplificações de considerá-lo ditadura reacionária anti capitalista ou uma estratégia do capitalismo. Sua retórica anti capitalista é seletiva, contra o apego a valores materiais, eventualmente contra a especulação, mas não contra a exploração; do mesmo modo demoniza e mimetiza o socialismo, sem que se saiba até onde compete com partidos socialistas pela simpatia das massas trabalhadoras ou até onde pretende antagonizá-las a partir da direita;
  3. c) Fascismo, esquerda e direita: Negando em geral o sentido dessa oposição e flertando ambiguamente com signos de ambos os polos enquanto, na política, extrapola pela direita, o que é certo no fascismo é a recusa do centro. Nas palavras de Paxton, desprezo absoluto pela suavidade, pela complacência e por soluções de compromisso; desdém pelo parlamentarismo liberal e seu individualismo cosmopolita e displicente, assumindo um tom radical ao preconizar remédios contra a desunião nacional que atribui ao liberalismo, como ao socialismo. Tudo isso contrasta com a facilidade com que, sendo arauto de uma violência que considera revolucionária, celebra alianças pragmáticas com conservadores. Como também as celebra com nostálgicos, embora vendam-se também como demiurgos de uma nova ordem;
  4. d) fascismo e democracia: Para Paxton, fascismo é, sobretudo, movimento político, inconcebível sem a precondição da política de massas. Assim, é fenômeno tardio, que desfere um ataque a esquerdas integradas à democracia, como a esquerda que Engels via crescendo no terreno eleitoral europeu no final do século XIX. Uma ditadura que provoca entusiasmo popular de modo inédito, imprevisto, apenas intuído por poucos, como Tocqueville, citado pelo autor: “o tipo de opressão com o qual são ameaçados os povos democráticos não se parecerá com nada antes visto no mundo…busco em vão uma expressão que reproduza com exatidão a ideia que formo dele e que o contenha. As velhas palavras despotismo e tirania não são adequadas”

Paxton não parte de uma definição, mínima que seja, de fascismo. Por outro lado não cede a uma indeterminação que faça a ideia parecer “o que ocorrer” para permitir acionar o termo contra quem se quer desqualificar. Descreve e analisa o fascismo, do ponto de vista histórico, como uma estratégia cumprida em cinco estágios: 1) a criação dos movimentos fascistas; 2) seu enraizamento no sistema político; 3) a tomada do poder; 4) o exercício do poder; 5) a radicalização do regime.  O fascismo é a resultante do processo que cumpre essas etapas em dinâmica cumulativa. 

Argumenta o autor que não é possível, em meio à variedade de situações nacionais, encontrar-se o fascismo pronto no primeiro estágio, da sua criação e organização como movimento: “A compreensão dos primeiros movimentos nos fornece apenas uma visão parcial e incompleta do fenômeno como um todo”. Por assim dizer, a anatomia do macaco não permitiria ver o homem. Mas a criação dos movimentos é o ponto de partida. Se o primeiro estágio não pode revelar, sem ele não haverá o que ser revelado depois. A pergunta agora é: a empiria brasileira atualmente serve para um teste de validação de uma hipótese de fascismo, em curso, ou mesmo em gestação?

Claro que se pode responder a isso pelos caminhos da ideologia, da fé, da adivinhação ou do desejo. Ainda no campo das premissas não demonstráveis, pode-se também supor que o fascismo resulte do DNA nacional presente nesse ou naquele país ou, num polo de convicção oposto, achar que esse ou aquele DNA nacional esteja vacinado desde sempre contra a incidência do fenômeno. Mas nem a análise histórica e política, se considerada a dinâmica cumulativa do fascismo – estudada por Paxton em dezenas de casos nacionais – nem uma eventual “sociologia do bolsonarismo” nos deixará ir longe nessa conjectura. O fato de ser ele um cavaleiro solitário, até ontem folclórico, que monta um cavalo selado por uma crise não basta para que se veja nele caso exemplar de fascismo. O fato de não ter havido entre nós a formação prévia de um movimento político dotado de ideologia específica, organização disciplinada e programa objetivo, do qual o líder é produto e expressão, deve ser considerado a sério. A menos que se imagine ser o “bolso-fascismo” uma jabuticaba, ou o Brasil um caso pioneiro que nega a dimensão cumulativa, caso em que o fascismo adentra o sistema político e chega a posição de maior destaque antes de se constituir em movimento político digno desse nome. O bom senso manda percorrer outras trilhas para entender o que está ocorrendo. Proponho revisitar o tema do autoritarismo no Brasil. Por aí talvez haja pistas mais transitáveis.

BRASIL: AUTORITARISMO E DEMOCRACIA (COOPTAÇÃO E REPRESENTAÇÃO) 

É farta a literatura sobre o assunto. Impossível, mesmo minimamente, dar conta dela aqui. A escolha é de um autor e de uma obra que gozam de reconhecimento na ciência política brasileira, ainda que estejam longe de obter também o assentimento que se dedica a autores e obras canônicos. Trata-se de Simon Schwartzman e o livro é “Bases do autoritarismo brasileiro”. São escolhidos até pelo potencial de controvérsia. A apropriação do repertório teórico metodológico de Max Weber é feita de modo a conjugá-lo e fazê-lo alimentar um horizonte normativo social democrático, numa versão conectada, não com o campo socialista, mas com o campo liberal. Desnecessário concordar com suas premissas normativas e/ou com sua interpretação do Brasil para reconhecer a acuidade da sua análise e o diálogo vivo que ela mantém com a empiria brasileira.

O cenário a que o autor se reporta, no sexto capítulo do livro, é o da democracia da Constituição de 1946, que de muitos recebe o adjetivo de populista. A remissão àquele contexto nessa exposição não é uma escolha. Se dependesse do expositor ele já seria tratado só como história. Mas discursos vigentes na cena pública atual, à direita e à esquerda, tem insistido no viés anacrônico e encontrado audiência. De modo que para dialogar, assim como foi aceito o tema fascismo, aceita-se aqui também revisitar o passado. Para isso recorrendo a Schwartzman, pois de sua obra surgem pontes para se chegar à bem diversa realidade, que é o nosso presente.

Pedindo desculpas a quem já o conhece, será brevemente apresentado o argumento geral de Schwartzman, com base num resumo que dele faz Bolivar Lamounier. Recurso, portanto, a um liberal que, no campo ideológico, afina-se, mais que o expositor, com o texto comentado. Isso diminui o risco de uma interpretação distorcer o argumento.

Pelas lentes de Lamounier, lemos em Schwartzman que no Brasil uma polaridade estado x sociedade ganhou vida numa “macro estrutura patrimonialista” contraposta a uma “base social pobre e amorfa na maior parte do país”. Já em São Paulo teria germinado um subsistema político nitidamente diferenciado. O contraste justifica, ainda conforme Lamounier, a chave analítica de Schwartzman, centrada na contraposição entre as noções de cooptação e representação, as quais expressam e nomeiam dois subsistemas diferenciados, coetâneos durante a democracia vigente de 1946 a 1964, com dominância do primeiro.  A partir daqui prossegue-se já sem a guia de Lamounier.

O livro de Schwartzman é de 1975, atualizado no final da transição democrática. O autor assinala a excepcionalidade do regime de 46 a 64 em termos de participação política de massas. Essa excepcionalidade, em alguns momentos aparece de modo a que o período possa ser encarado como parênteses numa história cujo fio condutor é o autoritarismo. O autor não salienta ter o Brasil uma experiência histórica de construção do Estado através não só de uma monarquia em linha de continuidade com Portugal mas também através, como salienta José Murilo de Carvalho, de poder civil e governo representativo, em contraste com o militarismo e o caudilhismo de nosso vizinhos colonizados pela Espanha. Mas de todo o modo ele reconhece que a memória do período 46/64 fez da participação um tema central: apesar da excepcionalidade, a experiência deixou marcas e não pode ser esquecida.

O argumento do autor é que a participação política não deriva de forma simples do processo da transformação social. Condições para que de um processo de mobilização social derive demanda por participação da vida pública dependeriam de duas variáveis: A primeira é a natureza do processo de modernização e de desenvolvimento. Situações como a de vários países do ocidente em que desenvolvimento econômico precede a modernização tendem a gerar demandas específicas de classes e grupos sociais, com ampliação progressiva da autonomia e da participação. Já onde a modernização avança sem ser acompanhada no mesmo ritmo pelo desenvolvimento econômico, a permanência de entraves de desigualdade faz com que a ação política tenda a se fixar nos fins mais que nos meios e assim a encorpar o nível simbólico e principista da vida política. Esse segundo seria o nosso caso.

A segunda variável seriam as características mais próprias do sistema político. Maior ou menor institucionalização podem provocar permeabilidade ou rigidez perante novas demandas de participação. E nesse ponto a formação e a configuração das instituições brasileiras não favoreceria. Começando pela origem estatal de um sistema partidário hegemônico em que a coalizão PSD/PTB ancora-se centralmente na cooptação e não na representação. Essa coalizão sofria quatro tipos de oposição:  a) oposição liberal a Vargas (UDN, setores médios urbanos, intelectuais, lideranças arredadas); b) setores militares impacientes com a ineficiência e o clientelismo, preços do sistema de cooptação; c) setores operários que pressionavam lideranças sindicais por mais militância e ideologia; d) setores militares, operários e intelectuais nacionalistas, críticos da política externa. Para o autor, todos eles, mesmo os mais inquietos, mantinham-se, até a crise terminal do regime, à portas de 1964, nos marcos do que está descrito, na literatura sobre o período, como um estado de compromisso, em que mudanças e avanços sociais eram possíveis desde que não ultrapassassem certos limites para além dos quais a democracia poderia abrir brechas à subversão da ordem. 

A política de cooptação transitava, conforme Schwartzman, num continuum esquerda/direita, entre situação e oposições e focava em demandas voltadas ao Estado. Nova dimensão se mostra à medida em que se aproximam os anos de 1960. É a intensidade de processos de urbanização, educação, etc…, levando a mais demandas, maior clareza de objetivos e busca de representação de interesses por parte de movimentos de emergentes grupos sociais.

A política de cooptação, segue Schwartzman, centrada nessa nova dimensão, volta-se ao controle/manipulação das formas emergentes, em oposição a uma política de representação. O que se impõe não é um processo desde baixo, via demandas crescentes de participação, mas uma radicalização a partir de cima, fomentada por lideranças e partidos que já cogitavam a possibilidade de se desamarrarem do estado de compromisso e usavam as massas para manobrarem nessa direção. Conforme o autor, era possível vislumbrar ali, dentre outras possibilidades, também o espectro de fascismo. Ele derivaria, por hipótese, da conjunção, conjuntural e sem solução à vista, de uma mobilização induzida por cooptação e uma participação espontânea. Jogadores pressionavam por representação mas no jogo predominavam habilidades e recursos do sistema de cooptação sobre a capacidade de organização autônoma. A disputa intra elites teria assim transbordado os limites do compromisso dentro do sistema político, que entra em paralisia. A solução seria dada por quem detinha o controle do sistema de cooptação, ou por quem o pudesse desmontar pela coerção, como ocorreu. E não seria mais possível apenas repetir 37.  Para reprimir a sociedade que se movimentava, a opção autoritária teria de ir mais longe, contingência que dava lugar ao espectro. 

Mas São Paulo, como já dito, seria exceção. Ali a germinação limitada de uma política de representação assumia três formas: ideologias liberais intransigentes; movimentos sindicais de cunho “trade unionista”; movimentos populistas carismáticos com pouca estrutura e autonomia nas bases e pouco controle e manipulação de cima, como o janismo. Era limitada a experiência pela ausência de partidos representativos bem estruturados, capazes de mediar interesses regionalmente e estender/ampliar o processo até o nível nacional.

Então a “normalidade política” em São Paulo significava, no caso dos setores mais privilegiados, representação fraca, apatia e marginalidade política. No dos setores de baixo, radicalismo carismático ou esquerdismo independente. Em contextos de instabilidade do arranjo político nacional (como em 64) aumentava a participação via ideologias da lei e da ordem e/ou de um liberalismo anti político que via como corrupta e ineficiente a interferência governamental na sociedade. Era esse o caldo de cultura do janismo e foi o do golpe. O autoritarismo cortara o caminho da democracia para conter as massas, não se podendo saber se elas, uma vez não fossem contidas e estando submetidas ao rigor da crise econômica, iriam à rebelião ou adeririam a alguma forma de fascismo. 

PERGUNTAS SOBRE ONTEM E SOBRE HOJE, A PARTIR DO TEXTO DE SCHWARTZMAN:

O janismo, derivação da área paulista, foi uma refração eleitoral à pressão exercida pelo espectro do fascismo? Ou o populismo de direita vitorioso era só um biombo? Se era, não se sabe, nem se saberá. Sabemos é que houve muito mais que isso, depois. E o muito mais que houve teve a ver com escolhas políticas. Jânio ganhou com folga a eleição de 60 em aliança com os liberais. Sua renúncia foi o marco inicial da crise que levou ao golpe. A rápida saída de cena daquele populista “inorgânico” levou a um pacto parlamentarista. Durou um ano e meio.  Sua revogação por plebiscito colocou frente a frente, a partir do fracasso – politicamente promovido, por governo e oposição – do Plano Trienal de San Tiago Dantas e Celso Furtado, dois campos indispostos ao entendimento político. Eram liberais cada vez mais descrentes em eleições como meio de “civilizar” a democracia populista e um populismo oficialista, “orgânico”, cada vez mais disposto a usar, até as últimas consequências, os meios de cooptação de que dispunha para fazer, com ou contra o Congresso, as reformas de base, pelas quais mobilizara, a partir de cima, massas urbanas e rurais. Tudo isso não ocorreu só porque Jânio renunciou. Mas sem a renúncia, os fatos (ignotos) seriam outros.

Fato dado é que o confronto terminou em duas décadas de ditadura. Custo não apenas para a esquerda negativa, mas para todo o país. Compareciam antes do golpe – e depois dele, ainda mais – práticas similares ao fascismo, mas não se chegou nem ao primeiro estágio do fascismo. Não houve movimento fascista, penetração fascista, governo fascista, nem regime fascista e a política não morreu. Mas perdemos uma democracia e isso não foi pouco.

Tanto o exercício conceitual, quanto a visita à história devem nos fazer pensar no atual momento. Entender, pela análise, a vitória eleitoral e política de Jair Bolsonaro nos marcos do regime democrático em que vivemos é mais útil do que saber como é, será ou seria um fascismo, ou um “neo fascismo”, à brasileira. Em artigo recente, Werneck Vianna afirmou que a hora é dos intelectuais. Vamos aproveitá-la para indagar ao Brasil real de hoje se ele tem mais ou menos condições e instrumentos para refratar o espectro que se tenta, mais uma vez, incluir na nossa pauta.

UMA RESPOSTA PRUDENTE E UMA CONFIÁVEL GRAMÁTICA

Olhar para a Constituição de 88 e compará-la com a de 46 ajuda a espantar fantasmas. Mais do que para a Carta, olhar para as instituições que ela deu à luz. Temos hoje um Poder Executivo que é bem maior que o Presidente, de modo diferente do que era, então, o Poder Executivo vis a vis o poder pessoal do Presidente. Mais que esse Executivo institucionalizado, no Brasil de hoje há, por via da representação política e também da participação social, mais poderes governantes além dos do Executivo, mais do que houve em outros tempos, de modo que freios e contrapesos são reais e mais efetivos dentro da própria atividade governamental. Além de exercício limitado de governo, temos hoje, mais do que em qualquer outro tempo da nossa República, mais Estado e instituições republicanas além das que diretamente governam. E não só governo e instituições políticas. Temos uma sociedade civil mais democrática, plural e secularizada do que em qualquer outro momento da nossa história. Não é razoável perder de vista que a explicitação agressiva do mal estar de quem não está contente com isso é o que é: um mal estar com uma dinâmica política, social e cultural que desfavorece delírios autoritários e/ ou nostálgicos. 

O otimismo cede quando se vê que instituições e sociedade não operam no automático. Pessoas e grupos as operam e a experiência recente não anima. Reagindo à imperícia e à imprudência dos condutores habituais, o eleitorado colocou na Presidência um político sem compromisso anterior com o patrimônio político que acumulamos e mesmo adversário declarado de boa parte dele. Elegeu também mais autoritários e nostálgicos. Temos razões para ficar alertas, vigilantes e ativos, mas não inconformados, como ficam os ressentidos. A recusa ou mesmo resistência aos resultados das urnas, assim como a desqualificação das razões da maioria, não são atitudes democráticas. No mínimo são elitistas. E não ajudará o medo do espectro, a apatia ou o desespero que ele pode causar. É preciso bloquear com firmeza o caminho mental que faz a consciência de riscos converter-se em profecia e daí em paranoia.

Além da serenidade e prudência no diagnóstico sobre um período de governo que ainda não começou; além de preferir a paciência da análise ao efeito retórico das sínteses apressadas, é preciso ressuscitar a gramática que construiu a democracia que temos, que trouxe vantagens democráticas ao nosso tempo em comparação a qualquer outro tempo histórico e que anda esquecida até nas melhores famílias, como é a nossa, da universidade pública. Os avanços que alcançamos não foram “naturais”, não derivam de uma lei inexorável da história. Resultam de escolhas políticas acertadas, adequadas aos momentos vividos. É evidente que se está aqui a valorizar e não a minimizar ou condenar a opção feita entre os anos de 70 e de 80, pela estratégia da ampla frente democrática para derrotar a ditadura e criar uma democracia moderna e pluralista e um estado democrático de direito, sob paciente combinação de conflito e negociação, construindo, durante o caminho, consensos possíveis entres as várias partes da sociedade e dos partidos que queriam a democracia. Consensos que balizavam a negociação com o adversário.

Essa gramática orienta a não desdenhar a democracia política. A valorizar a representação como meio de participação crescentemente ampliada, em vez de dar de ombros a ela, depositando expectativas de participação imediata em simulações mentais de democracia direta, cujo potencial opressivo fica claro agora, quando um demagogo de direita a aciona, no real, para manter seu eleitorado no ar. O legado político do mundo ao qual estamos historicamente ligados são instituições políticas representativas que nasceram aristocráticas, tornaram-se liberais (sem deixar de ser aristocráticas) e hoje são democráticas, mantendo-se liberais, porém não mais aristocraticamente. Elas têm sido no Brasil o terreno mais efetivo e, na atual conjuntura, são talvez o único em que uma ação política reformadora tem poder de iniciativa. No momento em que a mobilização de rua, as ações diretas e pautas identitárias específicas de grupos sociais discriminados entram, por força das circunstâncias, num andamento mais defensivo que afirmativo, articulá-los ao repertório do conjunto da sociedade civil progressista e pluralista, em sintonia com a política institucional, é um caminho para preservar e manter ativos os espaços civis de participação. A constituição de uma ampla oposição democrática não é questão de resistência. É questão de ocupar espaço político, moderar o governo eleito e unir democratas, pela reconstrução paciente do centro político do país.

Entra em terreno pantanoso quem se manifesta, num auditório como esse, em analogia e sintonia com recentes palavras de Fernando Henrique Cardoso. Mas o intuito de coerência com o que se acabou de afirmar manda ir além e recomendar leitura do seu artigo de domingo último no Estadão, no qual ele propõe a reconstrução de um centro democrático na política brasileira, tendo como mote a ideia de um “radicalismo de centro”. Ao fazer essa indicação não se espera aplauso do público, só se quer propor reflexão. Sem ilusões quanto à persistência inibidora, em nosso ambiente, da polarização tucano-petista, não mais existente, ao menos no entender do eleitorado, que introduziu uma nova polarização que estamos desafiados a aceitar, em respeito à maioria. Aceitação que é condição para que se exija mais adiante, do governo que essa maioria elegeu, o respeito às oposições, tanto àquela que corresponde à polarização consagrada nas urnas, quanto a terceiras possibilidades, que também estão no horizonte do soberano.

Assim como ocorreu ao trazer o Simon Schwartzman de 1975 para viajar do passado ao presente, Fernando Henrique em tempos pre Bolsonaro será comentado adiante para entender o presente com olhos no futuro. Mas antes vem um parênteses, que formaliza algumas razões para plenas sintonias e para aproximações cuidadosas das reflexões desses dois intelectuais com o que aqui se busca acolher como carta de navegação para o momento atual.

PARÊNTESES PARA ELUCIDAR O PENSAMENTO

Quem ainda não visita (ou quem, por opção intelectual legítima, não quer visitar) o pensamento político sobre o Brasil pode pular esse parênteses. Certamente ele não fará falta ao entendimento geral da mensagem. Trata-se de uma satisfação dada de bom grado aos viciados nesse bom vinho e também de um registro escrito contra eventuais investidas de patrulhas ideológicas ainda fixadas em polaridades mortas.

Uma das sintonias – certamente a mais sólida – com ambos os autores comentados, é a negação do autoritarismo, em suas variadas formas, por uma ética de convicção democrática. Outra sintonia, evidente no Fernando Henrique que escreve e no que faz política, é o manejo, em sentido positivo (e também por convicção), da dialética da ambiguidade. O possível recurso, como práxis, a essa chave de Guerreiro Ramos, usada com felicidade por José Murilo de Carvalho para retratar uma gramática política que se fez nossa tradição, é uma boa diagonal para reconectar tradição e projeto, nesse tempo presente de tantos elos partidos.

No plano complexo das aproximações cuidadosas estão outros dois pontos de nossa tradição política, tal como ela se nos apresenta, como cultura política, em reflexões referenciais de Werneck Vianna, Maria Alice Rezende de Carvalho e Rubem Barboza Filho, lembradas pelo primeiro em artigo publicado no mesmo dia do de Fernando Henrique e no mesmo jornal. Um ponto é o que Faoro e Schwartzman, evocando Weber, batizaram de patrimonialismo. Outro, o que os outros citados viram, seguindo pistas de Richard Morse, como tempero comunitarista.

Vamos logo ao tempero. Suposto como capaz, ao contrário do individualismo “neo liberal”, de cadenciar o impacto da lógica de mercado de modo a acolhê-la como solução moderna, porém de modo atento a noções de bem comum reclamadas por nossa constituição mental e pela desigualdade social, ele não tem lugar na reflexão setentista de Schwartzman. Sua convicção ia na linha de proclamar a superação dessa tradição, o que o pôs em memorável controvérsia com Morse. Já com Fernando Henrique, por seu manejo politicamente responsável da dialética da ambiguidade, é mais fácil o diálogo, sobretudo no tempo de Bolsonaro, em que a busca de convergência social democrática volta a entrar em pauta. Em compensação, no campo do individualismo desponta, querendo também um espaço na pauta, a mensagem ainda enigmática do partido Novo e de tudo de novidade que ele traz consigo. Dentre elas a pergunta sobre se um “radicalismo de centro” acolhe um nova direita como parte ou interlocutora.

A pergunta se mantem no segundo ponto da pauta das aproximações cuidadosas, a crítica ao patrimonialismo e seus filhotes pleno (o clientelismo) e bastardos (o fisiologismo e a corrupção). É consenso merecerem crítica e combate por uma política democrática. Mas é controverso que seja possível, eficaz, ou mesmo conveniente, fazê-lo através de uma ética de convicção, como parece imaginar Schwartzman, em linha com uma longeva tradição do idealismo constitucional brasileiro. Essa conexão, como sabemos, está presente, ainda que não hegemonicamente, no DNA político do PSDB, especialmente do seu núcleo paulista e a essa influência não escapam o pensamento e ação de Fernando Henrique Cardoso, ainda que, outra vez, ele possa ir ao diálogo com o matiz da dialética da ambiguidade.

No caso do combate ao clientelismo, desde antes do precioso livro de Edson Nunes sabemos que essa gramática tradicional do Brasil não é resquício de uma sociedade tradicional mas uma tradição bem instalada em sociedades modernas. Depois do livro de Nunes ficamos lembrados de que sua combinação com (e não sua revogação por) gramáticas políticas modernas é sinônimo de êxito político e administrativo de governos e condição de sobrevivência da representação política, o recurso acessível ao cidadão comum. Os credos corporativos vigentes entre elites estatais – fossem burocráticas, técnicas ou de corporativismo societal – eram, até o regime militar, contra o sistema político, mormente o Congresso, menos pelo seu clientelismo (com o qual aqui a ali enlaçavam-se) e mais por seu caráter representativo. Na democracia o presidencialismo de coalizão equilibrou a contenda em favor do sistema político e da governabilidade também. Uma nova versão da fertilização cruzada das gramáticas a que Nunes se refere mostrou a superioridade da responsabilidade política sobre perspectivas de convicção. Até que a exorbitância na gramática tradicional mobilizou fortemente os filhos bastardos do patrimonialismo e o equilíbrio se foi.

Atualmente o problema repõe-se tendo como focos o fisiologismo e a corrupção, aos quais uma ética de convicção pretende destinar, após sua condenação e execução, uma vala comum. A contundência da ofensiva levou de roldão em direção à vala a própria prática da negociação política. Vencidas as eleições pela mensagem da faxina é chegada a hora da responsabilidade e do realismo. Que novo equilíbrio se estabelecerá?  É nesse quadro que a aproximação cuidadosa com o Fernando Henrique do tempo pre Bolsonaro tem amplo campo para avançar. Aproximação no presente, mirando o futuro e com cuidados postos em tempo pretérito, relacionados a possíveis dependências de trajetória que possam se fazer sentir. Embora distantes do pensamento de Fernando Henrique e neutralizados enquanto duraram os tempos do pragmatismo governamental tucano, laços políticos do PSDB com o campo do idealismo constitucional fortaleceram-se durante anos de aliança cada vez mais simbiótica com o campo liberal, na oposição ao PT.  E encontraram, nos tempos da Lava-Jato, um ponto de dispersão, mas também de ebulição, no qual evaporaram-se as chances do próprio partido reagir, enquanto parte da elite política, à operação de extermínio a ela dirigida pela reencarnação judiciária daquela histórica corrente do pensamento liberal brasileiro. Muitos políticos atuais que, conscientemente ou não, nela se referenciam, confiam a uma guardiania de procuradores e juízes a faxina que um dia a UDN confiou a militares. É intuitivo imaginar em que tipo de dilema enreda-se o PSDB, já em estado gasoso, quando se depara, entre outras realidades, com a integração de Sergio Moro ao governo eleito.

É sob esse enquadramento, a um só tempo prudente e esperançoso, que se retorna agora ao artigo de FHC.

UMA TRILHA POSSÍVEL

O radicalismo de centro pregado no artigo não converte em centristas todos os que concordarem com o autor sobre a urgência de que esse centro se constitua. A ideia de um radicalismo de centro é certamente um achado capaz de orientar a formação de uma oposição democrática e moderada ao governo que se instalará em janeiro. O texto diferencia muito lucidamente essa ideia de centro radical das de um centro amorfo e um “centrão”. A essa distinção poder-se-ia acrescentar outra: radicalismo de centro que não se imagina ser sinônimo de extremismo de centro, o qual, como todo extremismo, pretenderia a neutralização dos seus “outros”, as esquerdas e as direitas, dando à posição de centro a pretensão de se tornar um pensamento único. Tal como, aliás, discursou Getúlio Vargas, em 1937, ao instituir uma ditadura em nome desse tipo de centro, quer dizer, do que ele afirmava ser um “projeto nacional”, remetendo ao exílio político ideologias por ele proclamadas como “exóticas”.

A razoabilidade do argumento do artigo é justamente propor radicalidade como algo diferente e até oposto a extremismos, inclusive os de centro. Demarca, pela crítica, diferenças em relação à direita que venceu as eleições e à esquerda que recebeu um mandato de oposição. Não nega esses polos, reconhece sua legitimidade mas cuida de construir um discurso nítido e positivo do que seja um centro despolarizador. Assim começa a dar substância à ideia genérica, que dias antes ele mesmo manifestara, de se conduzir diante do novo governo “sem adesismos nem negativismos”. A vagueza dessa fórmula insinuava uma neutralidade, o que não seria útil nesse momento em que a construção de uma firme oposição democrática é artigo de primeira necessidade, política e social.

Por isso a proposta pode ser recebida com interesse também por reformistas teimosos que acreditam na possibilidade de uma outra esquerda vir a existir no Brasil e, ao mesmo tempo, têm o realismo de assumir isso só como um desejo, sem se verem no direito de fixar prazos para sua concretização, nem mesmo os mais longos.  Teimosos assim não se sentirão plenamente satisfeitos com a eventual formação de um centro radical, mas reconhecem nele uma necessidade não transitória, permanente. Lugar de diálogo preferível a uma mera frente de esquerda, que ficará presa a uma metodologia política negativa, prorrogando uma polarização nociva, ademais terreno propício, hoje em dia, ao avanço da direita extrema, como acaba de mostrar o resultado eleitoral.

No diálogo com um centro radicalmente democrático será mais possível garimpar elementos para uma esquerda renovada e renovadora, missão para gente de uma faixa etária cuja maturidade provavelmente as pessoas que já são maduras hoje não testemunharão. Então nada a fazer senão esquecer o medo de, mais uma vez, trilhar caminhos longos, gravitando em torno desse centro. Sim, pois foi radical o centro tecido na transição democrática sob a liderança de Ulisses Guimarães, com suas imprescindíveis parcerias à direita e à esquerda. E valeu a pena.

Dessa vez a trilha não é necessária, como foi há 30 anos, para fundar uma democracia, posto que a democracia que temos vive com saúde bastante para refratar pressões que buscam enfraquecê-la. Tampouco ela persegue o signo puramente negativo da resistência em nome do já conquistado. A trilha pode ter, inclusive, o sentido – se for permitido aqui um lugar comum – de “democratizar a democracia”. Sentido que é uma boa tradução política do valor da palavra paciência, um bem que se faz escasso nesses anos de crise e que precisamos reaver. 

O nome desse contra espectro não é otimismo. São três os seus nomes: simpatia (pela obra já construída), confiança (em seu alicerce) e paciência, para retomar, na contramão do pathos profético, a construção permanente.

[1] Com exceção do preâmbulo, o texto corresponde a uma exposição oral num debate no CRH/FFCH/UFBA, realizado em 09.11.2018

Paulo Fabio Dantas é Cientista político e professor da UFBa

 

“Quixabeira”, Emílio Dantas (Beto Falcão) e Cheiro de Amor (Vina Calmon e Mariene de Castro. Um destaque especial da trilha sonora da “Segundo Sol” para começar a semana de novembro. O Folhetim das 9 da Globo prometia mais valeu! O resto fica para a próxima.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

 

 

 

nov
12
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo
 
 

 

“Segundo Sol” foi a pior novela de João Emanuel Carneiro, autor de “A Favorita”, “Cobras e Lagartos”, “Avenida Brasil” e “A Regra do Jogo”. Poderíamos dizer que em se tratando de João Emanuel, foco de altas expectativas, mesmo o pior pode ser melhor que a melhor novela de outros autores. Mas, ainda assim, há um gosto de decepção ao fim do enredo que a Globo encerrou na noite desta sexta.

Com relação à sua antecessora, “O Outro Lado do Paraíso”, de Walcyr Carrasco, tivemos um claro avanço na construção de diálogos, o que não seria muito difícil – o texto anterior era comezinho, primário, abastecido de lugares comuns. Mas a edificação do enredo da vez se mostrou tão frágil, que o saldo final é de uma história repleta de reviravoltas sem conexão, inverossímeis, tão dignas de um dramalhão mexicano quanto “O Outro Lado do Paraíso”.

Ao fim do primeiro mês e pouco de “Segundo Sol”, vibrei aqui neste espaço com a capacidade de João Emanuel em conduzir sua narrativa adiante, sem rodar em círculos, queimando cartuchos diários em cena. Enganei-me profundamente. Ao cabo da revelação pública de que o ídolo morto estava vivo, tudo começou a girar em looping, tornando a novela enfadonha em seus últimos dois meses.

A fraqueza de Rosa, no momento em que Letícia Colin parecia se tornar a grande protagonista da novela, foi um ato de coragem do autor. Quando toda a plateia via nela a heroína que salvaria Luzia (Giovanna Antonelli) das maldades de Laureta (Adriana Esteves) e Karola (Deborah Secco), a menina se vendeu para o lado mau da força e sua torcida se esvaziou. Naturalmente, era preciso que ela não esgotasse os recursos de uma história que ainda tinha tantos capítulos a honrar, ou então, acabaríamos ali mesmo com a novela.

Desafiar o público, sem entregar-lhe o prato pronto, como pede a preguiça do ser humano, seria o mais fácil a fazer, mas João Emanuel escapou disso no caso de Rosa, e apenas de Rosa. A condução dada à personagem, a partir dali, no entanto, não valorizou essa dualidade na medida aceitável, permitindo que ela usufruísse da boa vida e enganasse o pobre Valentim (Danilo Mesquita) à vontade. Faltou oscilação nessa índole. De um minuto para o outro, a consciência da moça despertou, como se houvesse passado boa parte do folhetim em transe, e retomasse o caráter inicial que conhecemos.

A dualidade, aliás, item que norteou a última novela de João, “A Regra do Jogo”, com nuances geniais nos personagens, está em baixa nas novelas. Todo aquele discurso dos autores do gênero, de que ninguém é completamente bom ou completamente mau o tempo todo, e que isso torna os personagens mais humanos, blá-blá-bá, é balela hoje nos folhetins. Isso vem perdendo força desde que as tramas bíblicas da Record estabeleceram bons patamares de audiência, de “Os Dez Mandamentos” para cá. “A Regra do Jogo” só teve chance de quebrar esses códigos porque já estava em andamento naquele momento, mas é preciso dizer que Glória Perez se saiu muito melhor que Walcyr e João nas tintas emprestadas aos personagens de “A Força do Querer”, com destaque para Eugênio (Dan Stulbach) e Bibi (Juliana Paes), personagens muito bem construídos em seus paradoxos.

De modo geral, a verdade é que o maniqueísmo voltou a dar as caras nas novelas sem vergonha de sua condição e de uma maneira que trabalha com muito mais eficiência a sedução imediata da plateia. Com exceção de fenômenos, assim chamados por aliarem qualidade e quantidade de audiência, isso tem se expressado nos bons índices de audiência das últimas novelas. Mas “Segundo Sol”, com todo o empenho por isso, fecha seu balanço com saldo inferior a “Outro lado” e “A Força do Querer”.

Até por isso, a Globo tem reservado às séries, exibidas mais tarde, com público mais seleto, a arte de fazer o telespectador pensar e se inquietar na poltrona, até descobrir quem de fato presta e quem não presta, quem merece perdão e quem vai para o purgatório, quem é digno ou não de uma segunda chance, o chamado “Segundo Sol”, como prometia o título da produção agora finita.

Do ponto de vista comercial, esse recuo é perfeitamente compreensível. Já no quesito artístico, só resta lamentar ou buscar outras opções de entretenimento.

O beijo gay também retrocedeu. Ao longo da trama, Selma (Carol Fazu) e Maura (Nanda Costa) trocaram um ou outro selinho, quase num flash. No último capítulo, o beijo que prometia parecer mais que um tocar de lábios foi bruscamente cortado para outra cena. Após tanta demonstração de afeto quase assexuado entre as duas, a imagem passou longe da libido que tomou Félix (Mateus Solano) e Nicolas (Tiago Fragoso) em “Amor à Vida” (2014).

A direção, sob o comando de Dennis Carvalho como chefe maior, e Maria de Médicis na direção geral, também ficou aquém das novelas que Carneiro fez para a faixa nobre. O vazamento da imagem daquele contrarregras num barco no primeiro capítulo não seria um descuido excepcional.

As sequências de perseguição, de modo geral, foram risíveis. Lembro aqui da cilada em que Manu (Luísa Arraes) caiu, quando foi entregar um carregamento de drogas em local ermo, sem saber que a polícia estava avisada e o delegado do mal, escalado para matá-la. A locação já foi de uma infelicidade latente. A mata era suficientemente aberta para que os algozes da menina a avistassem e a atingissem sem dificuldade. Quando a edição mostrava o plano da perseguição, fugitiva e policiais eram vistos a poucos metros de distância, num plano que nem desenho animado faria de modo tão primário.

Outras cenas de perseguição, a partir da casa de Januária, a curandeira que fez o parto de Luzia, foram pelo mesmo caminho. Num casebre perdido no meio do nada, cercado de mata e água, policiais chegavam pela frente do terreno, enquanto fugitivos corriam pelo outro lado. Se fosse pega pega entre crianças, a brincadeira acabaria em dois minutos.

A malemolência baiana, bem como suas cores, trilha sonora, alegria e alegoria (aliás, deliciosamente bem representados nas vinhetas e na abertura), regado ao bom sotaque local, tudo isso deu a “Segundo Sol” uma moldura altamente sedutora. O elenco endossou esse conjunto, sempre disposto a acreditar, mais que o público, em cada linha de um enredo que após o capítulo 100, ficou a correr atrás do próprio rabo, como cachorro perturbado.

A exceção foi justamente a mocinha-mor, Giovanna Antonelli, que por várias vezes pareceu jogar a cena fora, sem o devido entusiasmo. Chegou uma altura em que Luzia proferia o seu texto já sem surpresa sobre a sucessão de acontecimentos de que fora vítima, como se a atriz tivesse se cansado daquela odisseia bem antes que o texto destinado à personagem a autorizasse.

Emílio Dantas, que se repetiu no elenco central de horário nobre com apenas uma novela de diferença (lembrando de Rubinho, de “A Força do Querer”), sai de “Segundo Sol” maior do que entrou.

Adriana Esteves sagrou de novo sua grandeza, ao se distanciar de Carminha, mesmo sendo má muito má. Seu desfecho, desde a prisão, igualou-a a alguns políticos da vida real, a começar pelas regalias usufruídas no cárcere, bem ao modo Sérgio Cabral, e endossou o destino parlamentar ao livrá-la das grades para se candidatar a cargo eletivo, sob a plataforma do prazer, seu grande negócio.

Letícia Colin, aqui já mencionada, é outra que salta para novo patamar, com merecimento de sobra.

E viva Fabíula Nascimento, que sempre me fazia crer que todos ali estavam de fato em Salvador o tempo todo, e não nos estúdios de Curicica, no Rio, onde a maioria dos capítulos foi gravada. Cacau, é bom que se diga, nos remete ainda a uma salva de palmas à turma do figurino, impecável no bom gosto de quem aposta na simplicidade, com absoluta elegância.

No mais, convém destacar Caco Ciocler, Fabrício Boliveira, Armando Babaiof, Kelzy Ecard (a dona Nice), Roberto Bomfim, Nanda Costa, Cláudia di Mauro (a Zefa) e a própria Deborah Secco, que teve em Karola sua melhor performance como atriz até hoje – embora eu ainda aguarde por um diretor que consiga extrair tudo aquilo dela, sem que seus olhos estejam permanentemente arregalados, quase congelados na expressividade.

Ponto favorável ainda para a trama de dona Nice e Agenor, ao explorar um machismo que vai muito além da questão de costumes e causa mal ao seu redor.

Em suma, “Segundo Sol” valeu por elementos diversos, aqui e ali, mas decepcionou na coesão desses retalhos.

 

Joaquim Levy (GloboNews) — Foto: Reprodução GloboNews Joaquim Levy (GloboNews) — Foto: Reprodução GloboNews

Joaquim Levy (GloboNews) — Foto: Reprodução GloboNews

Ao final de uma semana em que tomou conhecimento mais detalhado da realidade das contas do governo, o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, também avançou na montagem de sua equipe. Ele acertou a presença de nomes já conhecidos na administração federal: Ivan Monteiro, Joaquim Levy e Mansueto Almeida vão participar do governo Jair Bolsonaro.

Ivan Monteiro deve continuar na presidência da Petrobras na gestão Jair Bolsonaro; Joaquim Levy, que está no Banco Mundial, deve ser o presidente do BNDES e Mansueto Almeida pode continuar na Secretaria do Tesouro ou ser o Secretário de Fazenda – cargo que corresponderia ao de ministro da Fazenda , mas que, com a nova estrutura administrativa, perde o status de ministro para ficar abaixo do ministro da Economia, que será de Paulo Guedes.

 

O secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida. — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil O secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida. — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida. — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Para dar resposta às tantas atribuições que terá a partir de janeiro do ano que vem, Guedes escolherá também o secretário de Planejamento e também o secretário de Indústria e Desenvolvimento, cargos correspondentes aos dos ministros de hoje.

A permanência de Ivan Monteiro na presidência da Petrobras já foi comunicada ao atual governo. Monteiro também fez uma apresentação sobre os números da companhia ao vice-presidente eleito Hamilton Mourao e foi elogiado pelos resultados obtidos; e também teve conversa com o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes.

 

Ivan Monteiro, presidente da Petrobras. — Foto: Daniel Silveira/G1 Ivan Monteiro, presidente da Petrobras. — Foto: Daniel Silveira/G1

Ivan Monteiro, presidente da Petrobras. — Foto: Daniel Silveira/G1

As conversas com Joaquim Levy evoluíram ao longo da semana e com Mansueto Almeida se tornaram mais frequentes. É com ele que Paulo Guedes tem tomado conhecimento da realidades dos números da economia brasileira.

Os nomes poderão ser oficialmente anunciados esta semana.

nov
12

Radicalização começou com PT, não com Bolsonaro, diz FHC

 

Em sua entrevista ao jornal Clarín, Fernando Henrique Cardoso disse que a radicalização no Brasil começou com o PT, não com Jair Bolsonaro.

“A radicalização começou durante os governos do PT. Eles [petistas] sentenciavam que eram os bons e os demais, os maus. A mim, me acusavam de neoliberal, algo que nunca fui, mas era um modo de dizer que eu não servia.”

Sobre se concorda com a afirmação do PT de que o presidente eleito é fascista, FHC respondeu:

“Não, o fascismo é algo organizado. Ele representa um autoritarismo que pode ter qualquer tipo de base ideológica.”

nov
12
Posted on 12-11-2018
Filed Under (Artigos) by vitor on 12-11-2018



 

Sinfrônio, no

 

nov
12
Posted on 12-11-2018
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Bob Woodward
Woodward, em sua casa, em Washington DC, após a entrevista. XAVIER DUSSAQ

Ao se entrar na casa de Bob Woodward, um lindo imóvel no bairro washingtoniano de Georgetown, topa-se com dezenas de exemplares de seu último livro amontoados em caixas. Na sala aparece, sentada de costas, uma mulher cuja compleição, cabelo e negra indumentária poderiam fazê-la passar por Annie Leibovitz. Ao se levantar e cumprimentar os recém-chegados, revela-se o mistério: trata-se, de fato, da famosa fotógrafa. É meados de outubro, e Woodward (Geneva, Illinois, 1943) se encontra imerso na promoção de Medo: Trump na Casa Branca (editora Todavia, 2018), um apanhado de entrevistas e aparições televisivas que não parece entusiasmar o repórter, transformado em lenda quando ainda era muito jovem, como resultado do furo do Watergate. Responde com pressa, corta secamente quando acha necessário, mas, ao contrário do que se poderia esperar, não se cansa de falar da batalha que causou a renúncia do presidente Richard Nixon. Ao jornalista a aborda sem ser perguntado. Duas vezes ganhador do Pulitzer, dissecou todos os mandatários norte-americanos de seu tempo, sendo o último deles um dos personagens mais inesperados da política norte-americana.

Capa do livro que será lançado no Brasil pela editora Todavia.
Capa do livro que será lançado no Brasil pela editora Todavia.

Pergunta. Você começa seu livro destacando uma frase de Trump: “O verdadeiro poder é o medo”. Ele tem razão?

Resposta. Sim, acho que parte do poder verdadeiro é o medo, embora não seja a parte principal. Ele disse isso no seu hotel, no final de março de 2016; foi um aparte, quase shakespeariano, disse-o praticamente num sussurro, mas foi muito claro: o poder real é o medo. Isso é o que ele pensava e estava disposto a divulgar abertamente. Eu estava procurando um título que capturasse sua forma, seu estilo na hora de operar, que tivesse saído de sua própria boca.

P. O livro desenha um cenário de loucura dentro do Governo do país mais poderoso do mundo. Acha que Trump é assim de maneira espontânea, ou isso é parte de uma estratégia?

R. Não é estratégico, ele age por impulsos. Não planeja. Uma vez pensei que se Melania lhe mandasse ao supermercado, iria sem a lista de compras. Chegaria lá e diria: “Isto é legal”, “Isto tem boa cara”, “vamos experimentar isto…”. E, claro, esse é um dos problemas, e é o que causa nervosismo entre os que estão perto dele, os que mais sabem.

P. Em política externa, fala-se da estratégia do louco. Você acha que Trump está jogando esse jogo na política doméstica?

R. Ele é assim. Passei dois anos olhando para ele, olhando o que ele faz. Você pode encarar o assunto Trump de três maneiras. Uma é com as coisas que ele diz e que não são verdade; outra é a investigação da trama russa de Robert Mueller; e outra, olhar o que faz como presidente. Esse é o meu enfoque. O que faz com a Coreia do Norte, com o Afeganistão, Oriente Médio, a área econômica… E, cena após cena, você pode ver que ele vai decidindo com o bonde andando. Não há uma estratégia global.

P. Você fala do nervosismo de quem o cerca e de como tentam evitar seus desmandos. Isto pode servir de trunfo para os republicanos para se dissociarem de Trump e evitar suas ações mais polêmicas?

R. Os republicanos vão na onda dele em tudo, Trump está no comando num grau incrível. Este foi o caso com Nixon no Watergate. Os republicanos estiveram com ele até o final, e todos o abandonaram quando perceberam que havia dito muitas mentiras.

P. Quanto aquele caso se parece com o do atual presidente?

R. Nixon era um delinquente, sabemos pelo testemunho das gravações secretas, milhares de horas de gravações. Não há nada equivalente com o Trump. Para abrir um processo, você precisa das provas mais sólidas possíveis, um ser humano próximo a ele que seja testemunha. Alguém que possa sentar e falar, como fez o assessor de Nixon John Dean em 1973, em um canal nacional de televisão, ao dizer: “Isto foi o que aconteceu, foi isto que o presidente ordenou…”. Não acredito que haja alguém no círculo de Trump que tenha esse nível de conhecimento ou implicação. Mas posso estar errado. Na última página do livro, o advogado de Trump, John Dowd, conclui que é um puta mentiroso.

P. Você usa múltiplas fontes que conhece, mas não revela. Qual é o limite para usá-las?

R. Isso não foi entendido. Quando eu digo “’17h15. Terça-feira. 18 de julho, no escritório do chefe de gabinete da Casa Branca. Entra esta gente. Dizem isto…”, o fato está descrito, não há nada de anônimo nisso. O que não revelo é de onde tirei. Mas não é anônimo. Não pode ser mais claro quando o assessor de segurança nacional nessa reunião diz ao secretário de Estado: “Você está solapando o processo de segurança nacional”.

P. Há um certo amor-ódio de Trump com a imprensa. Insulta a mídia diariamente, mas é viciado nela, concede entrevistas coletivas de mais de uma hora, nas quais responde a tudo, transforma eventos sem perguntas em coletivas improvisadas…

R. Mordemos o anzol. Ele quer conflito e pôs os repórteres em modo de combate, então temos uma guerra entre Trump e a mídia. Minha postura é: ignore-o, faça seu trabalho, cheque o que está acontecendo, ponha em um livro que conte às pessoas. Acho que este livro vendeu um milhão de exemplares em uma semana, algo que não tinha ocorrido antes com o meu editor, e olha que ele publicou Hillary Clinton e Stephen King. A guerra entre o presidente e a imprensa só beneficia o presidente, deveríamos ser frios com isso. Em 1972, quando eu tinha 28 ou 29 anos, Carl Bernstein e eu fomos chamados de difamadores. E nos atacaram o tempo todo, tratando de transformar o tema em um problema de conduta da imprensa, não do presidente. E Ben Bradlee [então editor-executivo do The Washington Post] nos disse que reafirmássemos nossa informação, nossa investigação, e não nos metêssemos na briga. Isso é o que eu faço agora. Ele nos chama de inimigos do povo? Tudo bem, tem esse direito, essa é a primeira emenda [da Constituição, sobre a liberdade de expressão]. Não me sinto cômodo com isso, mas não vai me dar um ataque de nervos.

P. E como cobrir Trump? Se a imprensa noticiar cada coisa que diz, lhe permite pautar o debate, como ocorreu nas eleições presidenciais. Mas se um presidente insulta no Twitter e ninguém cobre, estaríamos normalizando esse comportamento.

R. Se eu fosse diretor de um jornal e tivesse 100 repórteres para cobrir Trump, colocaria 25 para cobrirem suas declarações, seus tuítes, a guerra, a linguagem… E os 75 restantes ficariam à margem e se dedicariam a estabelecer as relações de confiança necessárias para conseguir as anotações, os documentos, contar o que está acontecendo. Isso é o que mais me preocupa.

P. Também é um dilema na Europa e em outras partes da América Latina. Como cobrir o crescimento de líderes populistas? É preciso prestar atenção neles, mas, se for dada atenção demais, isso os ajuda a crescer.

R. Faça as duas coisas. Trump enlouqueceu os jornalistas, tornaram-se instáveis a favor ou contra ele. Quando desço para fazer exercício, vejo um pouco da MSNBC [um canal de viés liberal, muito crítico a Trump] e um pouco da Fox [a grande emissora conservadora norte-americana], e não estão descrevendo o mesmo mundo. Imagino as pessoas em suas casas se perguntando: o que aconteceu de verdade?

P. Você começou trabalhando como jornalista no Montgomery County Sentinel [um jornal local do Estado de Maryland]. O que aprendeu lá que ainda hoje prevalece?

R. O diretor me chamou um dia porque se dizia que os funcionários da administração do condado recebiam carros para trabalhar e se deslocar pelo condado durante o dia e que não os podiam levar para casa, mas os estavam levando. O diretor me disse se podia averiguar, então um dia, às nove ou dez da noite, fui ao estacionamento onde todos esses carros costumavam ser deixados, e não havia nenhum. Tiramos fotos do estacionamento vazio. Qual é a lição? Vá ao local e fique até tarde.

P. E o que aconteceu?

R. Houve um alvoroço. As pessoas perderam os carros, alguns o seu trabalho…

P. Foi seu primeiro Watergate.

R. Sim, a primeira vez de me perguntar: “Certo, as pessoas estão dizendo isto. Como verificamos?”.

P. E o que mudou na essência do ofício, além dos avanços tecnológicos?

R. Muito, e o grande problema é que, se você for falar com mil pessoas, como eu fiz outro dia, e lhes perguntar quanta gente desconfia da mídia, a maioria levantará a mão. Então você tem um ambiente no qual as pessoas não confiam em nós. Devemos recuperar a confiança, e a única maneira de fazer isso é recuperar a calma, produzir boas informações, apresentar os fatos às pessoas, e não ir a programas de televisão para dar soco na mesa.

P. Há opinião demais?

R. Sim, e armadilhas e petulância demais. Katharine Graham, a grande proprietária do Post, enviou a Carl Bernstein e a mim uma carta privada em que nos disse: “Tudo bem, Nixon renunciou e vocês escreveram algumas das reportagens, mas não comecem a pensar muito em vocês mesmos. Deixem que eu lhes dê um conselho: tomem cuidado com o demônio da pompa, dessa autocomplacência incapacitante”. Disse-nos que havia muita pompa na imprensa.

P. O ego do jornalista é mais um lastro ou um motor?

R. Os jornalistas precisam de calma, estar em calma e ter tempo.

P. Estamos vendo notícias horríveis, de mortes de jornalistas. Mas o que é mais perigoso para o jornalismo de investigação: isso ou a falta de um modelo de negócio?

R. Felizmente, Jeff Bezos é o dono do The Washington Post e o homem mais rico do mundo, e se precisarmos de dinheiro para 40 repórteres a mais para cobrir algo, ele nos dará.

P. Bom, a pergunta era geral, sobre o modelo, não especificamente sobre o Post.

R. Temos que fazer um produto melhor e mais útil para as pessoas. Simples assim. Você tem que pegar o jornal ou o seu aparelho e dizer: “Uau, olha isso. Que surpresa, não sabia”.

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CRÔNICA

                                                                                     Valeu, Correios da Pituba

                                                                                       Janio Ferreira Soares

Embora há mais de 30 anos sem nenhum contato com o prédio, confesso que me senti meio órfão ao ler no A TARDE da última quarta-feira, 07/11, que a principal agência dos Correios da Pituba, localizada na região da Avenida Paulo VI, encerrou as atividades e não mais abrirá suas portas para apaixonados remetentes de cartas como eu fui um dia, mesmo sabendo que, atualmente, ninguém diz “eu te amo” em folhas de papel cheirando a almíscar selvagem da Coty.

Ante surpresa tão rude – e certamente para me consolar -, só me restou clicar no Spotify à procura do samba-canção Mensagem (gravado primeiramente por Isaurinha Garcia e depois por Vanusa, Bethânia e tantas outras), cuja letra conta a história da chegada de um carteiro com um envelope na mão gritando o nome da destinatária que, ao aproximar-se do portão, imediatamente reconheceu no espaço reservado ao remetente a mesma caligrafia que lhe disse um dia: “estou farto de ti”. E aí, numa tremenda incerteza se o conteúdo da missiva estava recheado de alegria ou tristeza, optou por rasgá-la e queimá-la, simplesmente para não sofrer mais. “Garçom, traz logo a garrafa!”.

Corria 1980 quando, depois de quase 500 quilômetros cortando barro, asfalto e chuva, peguei a Avenida Manoel Dias, dobrei na esquina da Rua Goiás e ainda com a seta piscando à direita entrei na garagem do Edifício Márcia guiando uma enlameada Brasília cheia de vinis, livros e a velha Nikon F 3 – ainda carregando dentro dela vários slides tirados na noite anterior à viagem. E foi exatamente vendo um deles dias depois de revelado, que descobri um detalhe que mudaria minha vida e me faria íntimo dos carteiros da região e dos demais funcionários da agência dos Correios que ora jaz. Explico.

Algumas horas antes de minha partida para estudar na capital, tirei várias fotos da turma na pracinha em frente ao CPA (Clube Paulo Afonso) e aí, quando a saudade pegava o elevador, apertava o quarto andar e abria a porta com a chave mestra que toda saudade que se preza tem, eu colocava algum mineiro na vitrola, abria um vinho barato e projetava na parede do quarto a imagem daqueles velhos vagabundos e de uma certa menina que, sorrindo promessas de chuva, olhava pra lente como se querendo dizer: “veja o que tenho nas mãos, seu idiotinha!”. Foi aí que dei um zoom e vi meu rosto num retrato 3 X 4 entre seus dedos, profetizando assim o futuro que viríamos a ter.

A partir dali, cartas rasgaram céus e chãos no triângulo Paulo Afonso-Salvador-Recife, a maioria trazendo alegrias, poucas provocando tristeza. Em todo caso, nenhuma delas foi queimada ou rasgada e hoje repousam tranquilas numa caixa perto da Nikon, das fotos, dos discos e dos livros que, graças aos Correios da Pituba, regressaram ao lar.

 

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beira baiana do Rio São Francisco

“Fotografia 3 x 4”, Belchior: o canto sentido do rapaz de Oróz, para iluminar a trilha musical do rapaz de Paulo Afonso no domingo do Bahia em Pauta.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

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