out
04
Posted on 04-10-2009
Filed Under (Artigos, Multimídia, Newsletter, Vitor) by vitor on 04-10-2009

Despedida de Mercedes: fila e lágrimas em Buenos Aires
despedida

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No dia 11 de novembro de 2007 (o Bahia em Pauta ainda não estava nem em gestação), escrevi para publicação no espaço que disponho há anos, todos os sábados, no Blog do Noblat, um artigo intitulado “Ela (Mercedes Sosa) e elas”, que foi publicado tanbém no Ponto de Vista, espaço de Opinião do jornal Tribuna da Bahia.O texto fala de um momento político na América Latina marcado pela intensificação da participação feminina na política e no poder , que coincidia com o retorno aos palcos, no México, depois de longa ausência por motivos de saúde,da grande cantora argentina que morreu na madrugada deste domingo.

Quase dois anos depois o texto vai republicado. Agora no Bahia em Pauta, no dia da partida de Mercedes. Vai a título de informação deste site-blog, mas igualmente de tributo deste editor a uma das artistas que mais contribuiram para o amor do jornalista pela música e paixão pela América Latina.

Com um beijo de saudades no coração de La Negra. (VHS)

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ELA(MERCEDES SOSA) E ELAS

Vitor Hugo Soares (24/11/2007)

Miro a Cordilheira dos Andes e os altiplanos do México, enquanto no Atlântico Sul o tucano Fernando Henrique Cardoso sai do silêncio temporário e abre o bico em nova arrelia contra o seu sucessor no Palácio do Planalto, Luiz Inácio Lula da Silva, ao sugerir que o governante petista detesta a educação, “a começar pela própria”. O novo bafafá já se propaga pelos blogs – a começar por este do Noblat -, com a dura resposta do ministro petista Tarso Genro, e a briga, nem sempre em tons exemplares, promete ser das boas.

Acontece que ando meio saturado dos freqüentes ataques de ciumeira dessa relação tumultuada de amor e ódio entre FHC e Lula. Desvio a atenção para o suplemento cultural da edição “on-line” do jornal chileno “La Tercera”. Ali encontro uma notícia que espero há quase 10 anos: a cantora argentina Mercedes Sosa superou finalmente a enfermidade que a obrigou a um longo afastamento dos palcos e volta a espalhar pela América Latina, o seu canto inimitável, na série de apresentações pelo continente iniciada ontem na Cidade do México.

Em seu giro , Mercedes apresenta o espetáculo “Gracias a la Vida”, considerado pela crítica como um canto de louvor e entusiasmo renovado de quem sai de depressivo e prolongado fundo de poço. A amiga de Milton Nascimento e dos estudantes pode soltar o vozeirão outra vez em “Como la cigarra”, para mim uma de suas mais emblemáticas e comoventes canções.

“Tantas veces me mataron, tantas veces me mori,/ Sin embargo estoy aqui, resucitando”. Imagino à distância essa música se espalhando pela noite da capital mexicana neste final de semana, como tantas vezes vi os garotos e adultos de Buenos Aires fazerem na saída de teatros e casas de discos, quando a artista estava no auge. E como eu próprio me vi fazendo nos anos 70, em meu primeiro show com a argentina de Tucuman, em histórica noite no Teatro Castro Alves, em Salvador.

“Cantando al sol, como la cigarra/ después de um año bajo la tierra/ igual que sobreviviente/ Que vuelve de la guerra”. Desta vez, o mergulho de Mercedes foi mais longo do que uma simples estação. Aparentemente também, muito mais dolorido para a sua alma sensível.

Nos últimas décadas ouvi muito e vi de perto algumas vezes está que é uma das minhas cantoras preferidas. A última vez que estive próximo dela foi há cerca de dois anos, em Buenos Aires, quando Mercedes compareceu a uma apresentação do espetáculo em que o cantor e compositor Victor Heredia celebrava 30 anos de carreira em um teatro de Corrientes, no coração da capital portenha. Foi uma noite inesquecível, até mesmo pelo que deixou de acontecer, como a prevista canja da cantora.

Na platéia, Mercedes demonstrava profundo abatimento físico e parecia extremamente deprimida. Não subiu ao palco. Heredia pediu desculpas ao público e explicou que ela estava “muito gripada e afônica”, impedida de cantar. Agradeceu a presença da cantora no teatro, mesmo doente, e a casa quase vem abaixo de aplausos. Guardei comigo a impressão de que, no corpo e na mente da artista, se escondiam bem mais que um simples resfriado. E conservei a esperança de que, fosse o que fosse, seria passageiro.

Em sua ressurreição, constato agora com alegria que Mercedes Sosa não só voltou à superfície como manteve o prumo. De longe, a impressão é de que ela segue íntegra e fiel ao que sempre foi ao longo de toda a carreira. Quinta-feira, na véspera da primeira das três apresentações que fará no México – a última será neste domingo em Guadalajara –, convocou jornalistas para uma entrevista coletiva e aproveitou para fazer uma convocação política às conterrâneas da revolucionária Fryda Kallo: “As mulheres deste país devem sair a ganhar eleições, porque sabem o que custa manter a casa e manter o trabalho”.

Aos 72 anos, a intérprete que fez de “Coração de Estudante” um hino também da América Latina, chama a atenção para o bom momento das mulheres na política atual. Citou fenômenos como as mandatárias do Chile, Michelle Bachelet; da Alemanha, Ângela Merkel, e de sua conterrânea Cristina Kirchner, que tomará posse na Argentina nos próximos dias. Até ontem, pelo menos, Mercedes Sosa parecia desconhecer que o presidente Lula começa a colocar na fila dos nomes fortes à sua sucessão – o da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef.

Em sua passagem pela Cidade do México, a caminho de Santiago do Chile e de outras cidades da América Latina onde levará o show Gracias a la Vida, Mercedes Sosa rende um tributo especial aos estudantes mortos em 1968, no trágico massacre na Praça das Três Culturas de Tlatelolco, ocorrido em 2 de outubro de 1968, dias antes do início dos Jogos Olímpicos do México. Segundo grupos de direito humanos, o massacre deixou uns 300 mortos, a maioria estudantes, como registrou na época a premiada repórter Oriana Falacci nas reportagens que produziu dentro do olho do terremoto.

A cantora argentina fala da enfermidade, que a obrigou a recolher-se por longa temporada: “Cheguei a estar muito grave, em 97 os médicos entravam e saiam de minha casa sem saber o que eu tinha”. Mas aproveita para desmentir a quem anda espalhando por aí que este seja o seu giro de retirada dos palcos: “Nada disso”, reage. Bemvinda, Mercedes! Siempre.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitors.h@uol.com.br

out
04
Posted on 04-10-2009
Filed Under (Artigos, Janio, Municípios) by vitor on 04-10-2009

Paulo Afonso: “mil vivas aos Franciscos”
cachoeira
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CRÔNICA / FRANCISCOS

Flores para o rio que clareia a noite

Janio Ferreira Soares

Neste Domingo, 04 de outubro, comemora-se o dia de São Francisco, padroeiro de Paulo Afonso (BA) e rio do mesmo nome que, sabe-se lá como e quando, partiu das Gerais se arrastando feito cobra pelo chão até chegar aqui e se jogar por entre pedras, mandacarus e portais, isso bem antes de suas águas serem desviadas pra dentro de ferozes turbinas, que girando pás e eixos finalmente ampliaram a profecia do faça-se a luz – só que, dessa vez, em vez do Sol, iluminaram-se as noites nordestinas.

Os poucos que me lêem devem saber que eu o conheci ainda menino na velha cidade de Glória (BA), levado que fui por mãos fortes e carinhosas para molhar meus pés nas suas correntezas, numa espécie de apresentação a que muitas crianças ribeirinhas são submetidas quando se dão por gente. “Janio, São Francisco; São Francisco, Janio.” Começava ali a nossa história, apesar de só o descobrir de verdade mais adiante, quando subi numa goiabeira no quintal da casa de minha avó e o vi por inteiro passando em direção a Paulo Afonso, levando consigo toda a imponência e quietude daqueles que sabem a força que tem.

Esse é o São Francisco, rio com nome de santo (ou vice-versa), que os forasteiros adoram chamar de Velho Chico, enquanto nós, catingueiros de guerra e dependentes de suas águas, simplesmente o olhamos e o louvamos, assim como se olha e se louva um fim de tarde no sertão.

E para homenageá-los (o rio e o santo), vamos realizar uma procissão fluvial que passará por baixo da ponte que dá acesso a Paulo Afonso e que depois seguirá em carreata até a igreja de São Francisco, uma belíssima construção da arquitetura gótica datada de 1950, localizada no ponto mais alto da cidade. Inclusive, quando a procissão estiver passando, algumas pessoas planejam jogar pétalas de flores para amenizar um pouco as toneladas de lixo que diariamente são derramadas nas suas águas.

Justa e merecida homenagem, principalmente vinda de humanos. É que a velha e sábia natureza de há muito já faz a sua, matizando com suas cores a sua longa Via Crucis, que, apesar de todas as agressões, continua tendo forças para iluminar nossas vidas e, de quebra, ainda consegue adoçar um pedaço do mar das alagoas. Mil vivas aos Franciscos.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso (BA)

out
03

riodej

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Cida Torneros

Do senso de humor carioca, ninguém duvida, e logo que foi anunciada a vitória do Rio de Janeiro na disputa para sediar as Olimpíadas de 2016, começou a circular na internet, com notoriedade nas bandas dos usuários do twitter, uma frase brincalhona, parodiando o mote da campanha do presidente americano Obama.
– Yes, we “créu”!
Divulgada junto de uma imagem caricaturada que lembra o homem mais poderoso do mundo, mas com as feições modificadas para o saudoso Mussum, humorista carioca que fez parte da turma dos trapalhões.
A frase, galhofeira e oportuna, pelo teor de alegria que invade o povo brasileiro pela vitória em Copenhagem, é reflexo também da utilização pelo próprio presidente Lula, que se referiu ao fato de que agora nós podemos sim realizar a sonhada competição, pela primeira vez na América do Sul, no Brasil e no Rio de Janeiro, ao defender a candidatura emocionada da capital conhecida internacionalmente por suas belezas naturais.

humor

Mas o espirito brincalhão do carioca prevaleceu, e a imagem disseminada no mundo cibernético, lembra também o nosso Pelé, tem um pouco de cada mestiço brasileiro, traz um sorriso feliz e um certo ar de quem teve malandragem suficiente para esperar a sua hora… Afinal, o Brasil ganha o status de país capaz de capitanear um sonho de atletas, empresários, torcedores, governantes, jovens, crianças e idosos que gritam pelas ruas : Sim , nós podemos!

(Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro e edita o Blog da Mulher Necessária, onde o texto foi publicado originalmente: (www.blogdamulhermecessaria.blogspot.com)

out
03
Posted on 03-10-2009
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 03-10-2009

Lula e Pelé: emoção à flor da pele…
pelula
…que invadiu o Rio
BRAZIL-OLY2016-RIO DE JANEIRO
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ARTIGO DA SEMANA

AS FACES DA VITÓRIA DO RIO

Vitor Hugo Soares

Semana passada, no plenário da ONU, o presidente Lula reeditou o antigo “sapo barbudo” das lutas sindicais e políticas na região do ABC paulista nos anos 70. De cara amarrada e palavras duras, ele atacou os golpistas de Honduras, garantiu abrigo a Manuel Zelaya na embaixada brasileira em Tegucigalpa, defendeu o direito de retomada do posto de governo pelo presidente eleito, usurpado pelas armas. Em seguida, retomou as vestimentas franciscanas, que lhe têm caído como luva nesta década, para ajudar a produzir , ontem, uma vitória histórica para a América do Sul.

Em Copenhague ele jogou mais um papel tão crucial quanto arriscado. Desta vez, porém, optou estrategicamente pela face do “Lulinha paz e amor”. Assim o presidente do Brasil desfilou esta semana sob o céu da Dinamarca. Cenário sheakespeariano cheio de paixões trágicas e desencontradas; manobras muitas vezes desleais e mal-encobertas; conspirações e traições sem fim de todo lado. Neste cenário Lula entrou de corpo, alma e convicção, mas vestido de modéstia , na defesa vitoriosa do Rio de Janeiro para sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

Nesta refrega internacional entre Rio, Madri, Chicago e Tókyo, dá gosto e comove ver a imagem de Luiz Inácio Lula da Silva que a televisão transmite de Copenhague para o Brasil e para o planeta inteiro interessado no desfecho da disputa encarniçada. Com o auditório repleto de celebridades mundiais de todos os esportes, das artes, dos negócios e da política, é praticamente impossível – a não ser por cegueira ideológica ou preconceitos inqualificáveis -, não ser contagiado pela emoção do ex-operário metalúrgico no seu terno azul e elegante gravata nas cores da bandeira nacional, que está na tribuna.

“Essa candidatura não é só nossa, é também da América do Sul, um continente com quase 450 milhões de homens, mulheres e cerca de 180 milhões de jovens, um continente que nunca realizou os Jogos Olímpicos. Está na hora de corrigir esse desequilíbrio. É hora de acender a pira olímpica em um país tropical, na mais linda e maravilhosa cidade: o Rio de Janeiro”, dispara Lula, com pontaria política e diplomática de um campeão olímpico de tiro.

Apesar dos argumentos convincentes e irrespondíveis, esta não foi uma missão fácil. O presidente, Pelé, o governador, o prefeito do Rio, o cineasta Fernando Meirelles com seu filme de beleza e apelo irrecusáveis, além de todos os mais diretamente envolvidos nesta batalha da Dinamarca – e não são poucos – seguramente sabiam disso. E se não sabiam, basta ver a reportagem que o jornal espanhol El Mundo publicou ontem, assinada pelo repórter Fernando Mas.

O texto mostra primorosamente como o Hotel Marriot, nas margens de um dos principais canais de Copenhague, se transformou nesses últimos quatro dias, no centro das conspirações olímpicas. A caça e conquista do voto definitivo era a missão de todas as delegações que buscavam até a tarde de ontem, converter-se na sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Assinala o jornal de Madri:

“O rei Juan Carlos de Espanha em uma suíte. A rainha Sofia em outra. Zapatero em uma terceira. Todos no sétimo andar do Marriot. O sexto andar está reservado para os negociadores brasileiros, com Lula da Silva à frente. Os delegados que visitavam as suítes do sétimo andar eram reclamados em seguida num piso mais abaixo. O terceiro, onde atuava Michelle Obama, a desenvolta primeira-dama dos Estados Unidos”, conta o texto de El Mundo.

Michelle comandou as negociações em favor de sua cidade, até o presidente Obama desembarcar na Dinamarca, na undécima hora, para as manobras do inútil esforço final em favor de Chicago, cuja população parece não chorar muito a derrota, assim como os habitantes de Tókyo, cidade do oriente que já abrigou uma Olimpíada.

O Rio venceu! Viva o Rio! Nenhum lugar de mundo merecia mais este triunfo magnífico. A vitória não será em vão, mas cobra, a partir de agora, o cumprimento das emocionadas e, seguramente, decisivas palavras do presidente brasileiro em Copenhague: “Os que nos derem essa chance não se arrependerão. Os jogos no Rio serão inesquecíveis (…). Para o movimento olímpico será a chance de sentir o nosso sol. Será a chance de falar para o mundo que a Olimpíada é de todos”.

Bravo! “Viva a sua paixão”, como recomenda o maravilhoso e também decisivo filme de Fernando Meireles mostrado ontem em Copenhague para o mundo. Viva o Rio, com sua gente tão maravilhosa quanto a cidade.

E viva a América do Sul, outra grande vitoriosa de ontem na Dinamarca.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

out
02

joca
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João Carlos Teixeira Gomes, jornalista e escritor, filho do primeiro goleiro do Bahia, solta chispas e verbos contra os cartolas do clube baiano, numa entrevista carregada de atávica paixão tricolor, publicada pela revista digital, Terra Magazine, com assinatura do repórter baiano Claudio Leal (rubronegro dos bons). O tricolor de aço está ameaçado de voltar à Série C e vive colapso administrativo. Isso, para Joca, é um fenômeno social que requer reação cívica dos baianos como no 2 de Julho. Bahia em Pauta reproduz a entrevista, na íntegra, para seus leitores. Confira. (VHS)

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Claudio Leal
De Salvador (BA)

Alcançava todas as bolas. No jargão futebolístico dos anos 30, o primeiro goleiro do Esporte Clube Bahia, Teixeira Gomes, era “uma antena”. Pegava tudo. Naquela tarde do Campo da Graça, mítico e extinto gramado de Salvador, a antena tricolor contrariou o epíteto e sofreu um frango. Ora vá, torcida. O corpulento goleiro passou a reagir às vaias com bananas e ofensas. No campo em que, anos mais tarde, o cronista Antonio Maria irradiaria outras pelotas, ele seria capaz de irromper uma batalha para honrar sua fama de arqueiro. Revoltados, os torcedores avançaram contra Teixeira Gomes e suas bananas.

Hora do folhetim: à beira do gramado, num carro, o dono do cinema Jandaia, João Oliveira, acompanhava o jogo com suas filhas, como num corso carnavalesco. Em solidariedade, ofereceu abrigo ao fugitivo no automóvel, ao lado de suas pequenas. Desse frango nasceria um casamento: entre respirações sobressaltadas, Teixeira Gomes se enamorou por Célia, uma das filhas de Oliveira.

O escritor e jornalista João Carlos Teixeira Gomes nasceu dessa fuga e desse encontro improvisado. Nascido em 1936, filho de um dos primeiros ídolos do Bahia, Joca, como é conhecido desde os tempos da Geração Mapa – protagonizada pelo cineasta Glauber Rocha -, deve ao tricolor baiano o primeiro respiro de vida. Agora que o clube esboça um retorno à Série C, depois de perder em casa para o Duque de Caxias (2×1), e vive uma decadência sem precedentes, Joca se integra atemporalmente ao Batalhão dos Periquitos, grupo de baianos que atuou no expurgo das tropas portuguesas em 1823, para conclamar:

– Que a torcida do Bahia incorpore o espírito revolucionário dos baianos do 2 de Julho e se una nas ruas, nas praças, pressionando nas rádios, na internet e nos jornais, os incompetentes que afundam um clube glorioso, para estabelecer a grande e definitiva reação, pois o Bahia hoje depende, exclusivamente, do amor e do poder da sua torcida.

Autor da melhor biografia de Glauber e de competente ensaio sobre a obra de João Ubaldo Ribeiro, Teixeira Gomes promove disparos telefônicos aos amigos a cada derrota humilhante. Fundado em 1931, o Esporte Clube Bahia caiu para a Terceira Divisão em 2005 e neste outubro beira outra vez o rebaixamento para o quinto círculo do inferno. O escritor ressalta: a crise do tricolor é um “fenômeno social”.

– O Bahia não é apenas um clube esportivo, mas uma força social no Estado da Bahia.

Presidido pelo deputado federal Marcelo Guimarães Filho (PMDB) – primogênito do empresário e ex-deputado preso pela Polícia Federal em 2007, Marcelo “pai” -, o clube é dominado há décadas pelo mesmo grupo, que não esboça afastamento e até absorve os opositores. Patrimônio alienado, trocas frenéticas de técnicos, atrasos no pagamento dos jogadores, humilhações sucessivas, constelação medíocre e continuísmo de cartolas. Teixeira Gomes diagnostica:

– São notoriamente pessoas absolutamente incompetentes para soerguer um clube que vem sofrendo uma desmoralização continuada e intolerável para sua imensa torcida. Basta vermos que as sucessivas diretorias incompetentes, dentro dessa linha de continuísmo, não foram sequer capazes de fazer do Bahia uma equipe de competência média para disputar os torneios locais e nacionais.

Leia a íntegra da entrevista com o tricolor João Carlos Teixeira Gomes, ex-editor-chefe do Jornal da Bahia e autor, entre outros livros, de “Tempestade Engarrafada”, de “Glauber Rocha, esse vulcão”, do best-seller “Memórias das Trevas” e do romance recém-lançado “Assassinos da Liberdade”.

Terra Magazine Em colapso administrativo, o Esporte Clube Bahia perdeu em casa para o Duque de Caxias e agora corre o risco de voltar para a Terceira Divisão. Filho do primeiro goleiro do clube e torcedor extremado do tricolor baiano, como o senhor analisa a derrocada do Bahia?

João Carlos Teixeira Gomes – É preciso notar, em primeiro lugar, que o Bahia não é apenas um clube esportivo, mas uma força social no Estado da Bahia. Basta que se dimensione a grandeza da torcida de um clube que, por si só, é capaz de encher um estádio das dimensões da Fonte Nova, como ficou patente para todo o Brasil, mais uma vez, no episódio da queda da arquibancada da Fonte Nova em 2007 (no jogo contra o Vila Nova). Ora, diante de um fenômeno dessa envergadura, é inconcebível que sucessivas diretorias incompetentes, notoriamente vinculadas aos interesses e às ambições do senhor Paulo Maracajá (ex-presidente do clube e atual conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios), venham levando em progressão ininterrupta um clube dessa força popular à completa desmoralização e à decepção profunda da sua torcida. O sofrimento hoje da grande massa que se identifica com o Bahia, pelas cores do clube e pelas suas tradições de vitórias, inclusive com dois campeonatos brasileiros, no rol de suas conquistas, é um fato que transcende a esfera puramente esportiva para se transformar num verdadeiro trauma da sociedade baiana.

Terra Magazine – O senhor fala em “trauma da sociedade baiana” e isso me leva a perguntar se a decadência do tricolor não está vinculada à própria mediocridade cultural e econômica da Bahia, que vive uma estagnação cultural profunda?

Não vejo não. Vejo no plano esportivo. Como jornalista, mais do que como torcedor, vejo a decadência do Bahia como consequência de uma espantosa incapacidade administrativa, que foi acentuada a partir dos 7 x 0 que o clube tomou na Fonte Nova em jogo contra o Cruzeiro, na gestão de Marcelo Guimarães, o pai (em 2003). Dali começou o Bahia a despencar para as divisões inferiores, sem capacidade de organizar sequer um time de futebol que mantivesse ao menos as tradições locais, de conquistas de campeonatos na Bahia.

Terra Magazine – O atual presidente do clube, que contou com muitas simpatias políticas, é filho do ex-presidente Marcelo Guimarães, que foi preso numa operação da Polícia Federal, a Jaleco Branco. A crise se origina também dessa incapacidade de se renovar?

Exatamente. Não tem havido renovação. A incapacidade de renovação administrativa se deve à permanência do grupo que, sob a chefia hoje dissimulada de Paulo Maracajá, incluiu depois uma figura sem a menor tradição no clube que foi o senhor Petrônio Barradas, sequenciando a desastrosa gestão do ex-deputado estadual Marcelo Guimarães e hoje continuada por seu filho. São notoriamente pessoas absolutamente incompetentes para soerguer um clube que vem sofrendo uma desmoralização continuada e intolerável para sua imensa torcida. Basta vermos que as sucessivas diretorias incompetentes, dentro dessa linha de continuísmo, não foram sequer capazes de fazer do Bahia uma equipe de competência média para disputar os torneios locais e nacionais. Há um dispêndio enorme de contratações de jogadores sem condições de vestir a camisa do Bahia, distanciados das tradições do clube, técnicos improvisados e, sobretudo, dispersando os recursos imensos que o clube angaria pela fidelidade da sua torcida. Medianamente administrado, com políticas realísticas em relação ao novo estágio do futebol brasileiro, o Bahia seria um clube auto-suficiente e com um substancial patrimônio físico.

E, no entanto…
Não tem nem mais acomodações dignas para seus jogadores, vai perdendo progressivamente o pequeno patrimônio que construiu ao longo dos anos, sem direito a nunca ter tido um grandioso estádio que suas tradições impunham. O conjunto desses fatos aponta para o absoluto despreparo da camarilha que ao longo de todos esses anos vem desgovernando o Esporte Clube Bahia, tendo chegado ao cúmulo de contratar um ex-dirigente do Esporte Clube Vitória (Paulo Carneiro), já expulso das fileiras do clube rival para comandar o setor de futebol do Bahia. Esqueceram-se de que esse mesmo dirigente, quando presidente do Vitória, humilhava a diretoria do Bahia nos jogos do estádio Barradão, não mencionando no letreiro sequer o nome do Bahia, que era simplesmente “o visitante”.

Paulo Carneiro, que agora foi defenestrado também do Bahia, afirmou que o tricolor tinha uma torcida de “suburbanos”. (risos) Essa eu não sabia! Ele punha “visitante” no letreiro…

Terra Magazine – Apesar da crise evidente, há uma movimentação de velhos opositores para aderir ao grupo de Marcelo Guimarães Filho. Alguns eram até raivosos. Como definir esse ensaio de adesão?

Uma coisa espantosa! Essa aproximação é uma coisa espantosa e infunde a desesperança entre a sofrida torcida do Bahia. Creio mesmo que, ao lado dos interesses permanentes de retorno do senhor Paulo Maracajá, apostando no caos para aparecer como salvador da pátria, está a ausência de uma oposição unida e capaz de trabalhar contra a atual diretoria para o soerguimento do clube. É um dos fatores que respondem pela permanência de longo tempo dos coveiros, porque não há uma proposta concreta de reação capaz de empolgar a torcida e levá-la outra vez para as ruas como em 2006. O torcedor do Bahia é hoje um desesperançado.

Terra Magazine – Você aceitaria ver um jogo do Bahia?
Para mim, ver o Bahia jogar sempre foi uma alegria imensa, pois me acostumei desde criança a ver o uniforme glorioso que meu pai vestiu como goleiro e fundador. Mas eu sou, sobretudo, amante do bom futebol, do futebol bem jogado, e os times que essas sucessivas diretorias incompetentes têm organizado nos últimos anos é de uma mediocridade de campos de interior atrasado.

Terra Magazine – Como se diz na Bahia, times pra “um baba”?
De babas, ou para o público do Sul do País, de peladeiros desastrosos.

Terra Magazine – Houve passeata de torcedores, protestos, mas há apenas, neste momento, uma apatia, um desalento. Qual o último recurso dos torcedores?

Uma boa pergunta. Em 1823, os baianos se uniram para expulsar os portugueses recalcitrantes, que permaneciam em Salvador e tentavam desunir o País. Que a torcida do Bahia incorpore o espírito revolucionário dos baianos do 2 de Julho e se una nas ruas, nas praças, pressionando nas rádios, na internet e nos jornais, os incompetentes que afundam um clube glorioso, para estabelecer a grande e definitiva reação, pois o Bahia hoje depende, exclusivamente, do amor e do poder da sua torcida, porque da sua diretoria há longo tempo só tem encontrado traição. Pois é isso exatamente o que são os diretores, a partir de Marcelo Guimarães pai e filho, Petrônio Barradas e todos os demais maracajistas (seguidores de Paulo Maracajá): traidores das glórias e de toda a rica trajetória do Esporte Clube Bahia.

out
01
Posted on 01-10-2009
Filed Under (Artigos, Ivan) by vitor on 01-10-2009

Deu na coluna

Em sua coluna diária na Tribuna da Bahia o jornalista publica na edição desta quinta-feira, 1 de outubro, uma análise política que dá sequência ao tema do artigo de ontem:o aborto e o debate político nacional. Hoje, Ivan focaliza o tema sob a perspectivas dos debates na campanha presidencial de 2010. Confira no Bahia em Pauta, que republica o texto, com autorização do autor. (VHS)
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OPINIÃO / ABORTO

Embrião no ventre da mãe…
embrião

…e o feto na 16ª semana de gravidez
feto

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Aborto e sucessão presidencial

Ivan de Carvalho

O presidente da “Frente Parlamentar em Defesa da Vida – contra o aborto”, Luiz Bassuma, que se desligou formalmente esta semana do PT, partido que o suspendeu por um ano devido a sua luta contra a descriminalização do aborto, fez a este repórter, na terça-feira, uma afirmação que merece ser examinada por toda a sociedade e especialmente por todos os eleitores brasileiros.
Esta afirmação do deputado baiano (que já não iria disputar as eleições de 2010, mesmo se não houvesse sido suspenso pelo diretório nacional do PT) já foi incluída no artigo publicado ontem neste espaço, mas merece e precisa ter abordagem mais ampla e profunda. Entendo, aliás, que a mídia não somente baiana, mas toda a mídia brasileira tem com seus leitores, ouvintes, telespectadores e internautas o compromisso de informar clara e intensamente sobre o assunto, pois ele pode ser para muitos um fator de grande relevância na avaliação do voto que cada eleitor vai dar para presidente da República nas eleições do ano que vem.
O que disse, então, o presidente da “Frente Parlamentar em Defesa da Vida – contra o aborto” e que aqui foi divulgado ontem? Disse que entre as razões pelas quais optou em ingressar no PV e pelas quais sua mulher, Rose Santana, que também deixou o PT, optou pelo PV para concorrer a uma cadeira de deputada federal foi que este partido é o único, até agora, a ter como aspirante à presidência da República uma pessoa contrária à liberação do aborto, a senadora Marina Silva, que, como Bassuma e Rose, também abandonou o PT para ser “mantenedora de sonhos”.
Não conheço partido brasileiro relevante (entre os irrelevantes, e são tantos, se há algum, não sei, mas não importa, pela irrelevância política) que seja oficialmente a favor da descriminalização do aborto, a não ser o PT. É o único. E puniu Bassuma porque este é contra. PMDB, PSDB, DEM, PSB, PR, PP, PTB, PDT, pelo menos que eu saiba, não têm posição formal pela liberação do aborto. Mas, e os candidatos a presidente? Aí é que está o nó.
Conforme o presidente da Frente Parlamentar em Defesa da Vida – contra o aborto”, dos quatro candidatos a presidente mais importantes, José Serra (PSDB), Dilma Roussef (PT), Ciro Gomes (PSB) e Marina Silva (PV), somente esta é contra a liberação do aborto. Luiz Bassuma afirmou saber que, “pessoalmente”, Dilma Rousseff, José Serra e Ciro Gomes são favoráveis à descriminalização.
Bem, isto poderia ser “pessoalmente” apenas se estivéssemos tratando de simples indivíduos, uma florista, um motorista de ônibus, um gari. Mas são três pré-candidatos importantes a presidente da República em plena pré-campanha para conquistar a mente do eleitor. A mídia não deve permitir, sob pena de traição a seu público, que continuem sem dar um piu a respeito do assunto, na mais costurada e colada boca de siri.
Isto é enganar o eleitor. Rousseff, Serra e Ciro Gomes – assim como Marina declara numa boa – devem ser intensamente cobrados a declarar publicamente, sem tergiversações, sua posição “pessoal” sobre o aborto, já que a posição pessoal de um eventual presidente da República, ainda que ele se omita, que nada declare ao público ou fale nos bastidores e ainda se abstenha de toda ação (comportamento extremamente improvável), pode ter influência relevante numa decisão, por exemplo, do Congresso Nacional a respeito. Pelo simples fato de saberem, os que vão decidir, que o presidente é “pessoalmente” a favor da liberação do aborto.
Vou adiante. O candidato a presidente pode, por esperteza, não revelar publicamente sua posição favorável, escondê-la para não se indispor com parcelas do eleitorado, para não ter a candidatura abortadamas após eleito e no poder, sair da sombra para trabalhar pela liberação do aborto, mais ou menos intensamente. Terá, assim, enganado o eleitorado. E a mídia será cúmplice, se não puser esses candidatos contra a parede para que digam a verdade.

out
01
Posted on 01-10-2009
Filed Under (Artigos, Laura, Multimídia) by Laura on 01-10-2009

O aguardado álbum “Break up”, da atriz Scarlett Johansson, lançado neste setembro último, já esta com seus vídeos circulando pelo You Tube. A atriz mais uma vez se sai bem na sua faceta de cantora, desta vez com canções originais compostas pelo músico Pete Yorn, cantor e compositor norte-americano.

Peter concebeu o álbum e convidou a atriz para os duetos. O CD foi gravado em 2006, e eles imitam um casal conversando sobre sua relação – Yorn já declarou que a temática é baseada em sentimentos e experiências pessoais.

Scarlett e Yorn somam seus vocais em composições de acento country e folk, caso de “Relator” que o Bahia em Pauta oferece neste primeiro dia de outubro. Com refrão que diz assim: “Você não pensa que a vida é algo para nós conversarmos?”

Penso que sim.

Laura Tonhá

set
30
Posted on 30-09-2009
Filed Under (Artigos, Multimídia, Vitor) by vitor on 30-09-2009


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Deborah Kerr
No dia 30 de setembro de 1921, na cidade escocesa de Helensburg, nascia aquela que será lembrada para sembre como uma das atrizes mais elegantes do cinema em todos os tempos: Deborah Jane Kerr-Trimmer , a diva Deborah Kerr, que estaria festejando hoje 88 anos.

Ela começou como bailarina, mas sempre de olho também no teatro, apresentando-se ainda na cidade sua Escocia natal em adaptações de Shakespeare. Mas seu destino, para deleite de milhões de admiradores espalhados no mundo inteiro, seria mesmo o cinema, onde fez sua estréia em 1940, no filme “Nas Sombras da Noite”, dirigido pelo mestre Michael Powell. Depois atuou numa série de produções inglesas e teve ainda a oportunidade de ser dirigida novamente por Michael Powell e Emeric Pressburger em “Narciso Negro” (1947) e “Coronel Blimp” (1943). Em 1947, a atriz faz seu primeiro filme americano, “Mercador de Ilusäes”, ao lado de Clark Gable.

Daí em diante, a bela e notável atriz participou de produções marcantes e em papéis inesquecíveis, a exemplo do musical, “O Rei e Eu”. No cultuado, “Tarde Demais Para Esquecer” (1957), de Leo McCarey, contracenando com outro s¡mbolo de elegância, Cary Grant. Em um dos melhores filmes de terror já realizados, “Os Inocentes” (1961), de Jack Clayton, inédito ainda em v¡deo no Brasil e ainda, “A Noite do Iguana” (1964), de John Huston, outro inédito. Quem não guarda na memória uma lembrança cinematográfica de Kerr?

Como tributo no aniversário da diva sempre lembrada, Bahia em Pauta escolheu uma um vídeo  com diferentes desempenhos de  Deborah durante  sua trajetória na fabulosa sétima arte, em qualquer tempo, com a música tema do filme  Tarde Demais para Esquecer, em primorosa execução com piano e orquestra. Um presente para o quem gosta de cinema e de Deborah Kerr. Confira.

(Postado por Vitor Hugo Soares )

set
29
Posted on 29-09-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 29-09-2009

Marilia: passividade da classe média…
marmuricy
…e imprensa sensacionalista na origem
visalvador
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Deu em Terra Magazine:

A revista digital Terra Magazine ( http://terramagazine.terra.com.br)  publica nesta terça-feira, 29, artigo assinado pela jurista baiana e professora de Direito, Marilia Muricy, ex-secretária estadual de Justiça. O título em sí, “Sentimentos Sociais e Segurança Publica”, já demonstra precupação muito além da trivialidade com que o tema da violência tem sido tratado ultimamente no país, de um modo geral, e na Bahia dos tumultos e incêndios mais recentes, em particular.
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Na chamada para o texto de Marília Muricy, uma referência na Bahia e no país nas questões relacionadas com a ética e a defesa dos direitos humanos, TM destaca que a autora vai direto ao ponto ao identificar na origem do problema a imprensa sensacionalista e a passividade da classe média diante da violência policial.

“Enquanto a polícia, sob a alegação irada e cada vez mais audaciosa de estar respondendo à agressão contra “os seus” vai ampliando sua sequência de extermínios, as “classes médias” fazem “vista grossa” e não negam seu aplauso às “tropas de elite”.

Com autorização de TM, o site-blog Bahia em Pauta reproduz a íntegra do texto que merece reflexão sobre cada parágrafo de informação e análise sobre o que é dito e o que se esconde sobre o tema. Confira.

(Vitor Hugo Soares)

SENTIMENTOS SOCIAIS E SEGURANÇA PÚBLICA

Marilia Muricy

Vivemos hoje, no Brasil, entre o medo e o ressentimento silencioso. Do medo se incumbe, com eficiência ímpar, o jornalismo sensacionalista que nos agride dia a dia com o retrato de nossa miséria, embora sistematicamente resista a divulgar exemplos de solidariedade, tão comuns na vida anônima do cotidiano. O mudo ressentimento é resultado da aviltante consciência da injustiça secular e da impunidade cada vez mais robusta, quer nos processos que atingem figuras notáveis da República, quer nos que afetam a população pobre, vítima das lutas internas do tráfico de drogas e da arrogância policial que estufa o peito e faz trejeitos risonhos de vitória para indicar o número de suas vítimas ou, conforme dizem, daqueles que os ameaçam, “justificando” o imediato aniquilamento.

Embora de feitio distinto, os dois processos convergem, em suas perversas consequências. Do ressentimento surge a indiferença pelos assuntos públicos que, afinal “não tem jeito”; é a descrença crônica no papel das instituições, que constitui uma das mais graves doenças da democracia. Isso, em um país, cujos órgãos legiferantes parecem padecer de um surto de “penalização” que se ocupa de pescar minúsculos problemas, deixando, na rede, espaços por onde podem circular os tubarões. Tem-se a impressão de que os nossos “experts” em penalização andam vistoriando a experiência internacional e, sem maior atenção às condições culturais de cada país, concluem: “onde há pena, que seja bem vinda entre nós”. Do medo surge o confinamento das camadas sociais em que se concentram, segundo os órgãos de inteligência policial, as ações do tráfico.

Até por ser recente o meu afastamento da Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do Governo da Bahia e, por isso, bem nítidas as lembranças positivas e negativas que tenho dessa enriquecedora experiência, vou limitar o espaço desse artigo, a partir desse ponto, a discutir os sentimentos sociais das nossas elites e do homem comum quanto a segurança pública, destaque quase unânime nas pesquisas de opinião, como flagelo social.

Em meio às elites, os comportamentos já se tornam mais ou menos padronizados; cinde-se o espaço público, esbraveja-se contra a ineficiência da polícia, mas não se hesita em estabelecer com ela acordos de “complementação salarial” que bem lembram as práticas mafiosas. E quando chega a “barbárie”, provocada por fato real ou suposto, a ambivalência se manifesta: para que o excesso, perguntam alguns? Afinal, foi merecido dizem outros! E é algo semelhante, que baseia as reações irracionais às chacinas que ocorrem na periferia e não poupam crianças nem adolescentes, corpos expostos nas primeiras páginas de jornal, imagens destacadas na TV, sem qualquer escrúpulo por parte dos editores.

Porém a ambivalência não é privilégio das elites. Acossados por uma forte sensação de impotência e frágeis vínculos de solidariedade, também os que são vítimas privilegiados da violência envolvem-se na cumplicidade do silêncio e o “salve-se quem puder” termina por ser a única saída, frente ao desamparo produzido pela escassez de instituições de proteção, que as lideranças e os militantes dos direitos humanos lutam, sem sucesso, para fortalecer.

Enquanto a polícia, sob a alegação irada e cada vez mais audaciosa de estar respondendo à agressão contra “os seus” vai ampliando sua sequência de extermínios, as “classes médias” fazem “vista grossa” e não negam seu aplauso às “tropas de elite”, vibrando com o sangue que escorre das telas, em filmes campeões de audiência.

Os direitos humanos, base do Estado Democrático de Direito parecem, com exclusão da militância que ainda resiste, terem sido postos em estado de letargia. Vez por outra, uma audiência pública reúne autoridades do Estado e lideranças comunitárias. Unidos na crítica e no protesto, órgãos do Estado e militantes, daí não resulta, como seria de se esperar, ações concretas de defesa social. Enquanto isso, o Programa de Segurança com Cidadania (Pronasci) um dos mais criativos do Governo Federal, voltado a desvincular o problema de segurança pública de sua versão policial, habilitando policiais e formando, para a paz, lideranças de territórios pré-selecionados, insiste, em alguns Estados, em privilegiar compra de armas e equipamentos, sendo tímidas e até inexistentes as ações que lhes são próprias.

Fui Secretária de Justiça do Estado da Bahia, durante dois anos e meses, o suficiente para aumentar a minha convicção de que a imprestável instituição das prisões, não se confunde com a humanidade que lá está: a humanidade a que pertenço, no bem e no mal, carregada de contradições e paradoxos, capaz de ser intensamente cruel e surpreendentemente terna. Sem descuidar da segurança, investi pesadamente em trabalho, saúde, educação, esporte, lazer, procurando reduzir os níveis de desumanização que a prisão acarreta, do início ao fim da pena. Presos e presas foram levados a assistir peças de teatro. Com a contribuição de um maestro que também acredita nas pessoas, formamos um coral de homens e mulheres presos, que terminou apresentando-se durante a solenidade de transmissão do cargo, na presença do Governador do Estado, que não fez questão de disfarçar a comoção que sentia e que seu rosto revelava, tal como a plateia, que, ao final da exibição, aplaudiu de pé o coral.

Ainda guardo no rosto a sensação das lágrimas. Mas houve outras, bem salgadas, de que não me arrependo ter derramado, já que com o sofrimento também se aprende, e muito.

E não posso deixar de lado um depoimento. Talvez por habituada, pela atividade docente, a falar a verdade pude, logo ao assumir a Secretaria, declarar que o crime organizado exercia forte poder dentro dos presídios. Não creio que a ninguém isso tenha soado como novidade. Novidade sim, era a declaração ter partido da própria Secretária, ainda que com a ressalva de que o combate aos acordos internos era um desafio a que o Estado não poderia fugir. Não é difícil imaginar o efeito dessas declarações sobre a aliança entre líderes prisionais e seus parceiros. Esse efeito, aliás, atingiu seu ponto máximo quando começaram as transferências das lideranças para presídios de segurança máxima, distantes de sua área de poder.

Mas a batalha antecedeu as transferências. Aquela altura, eram aproximadamente oito mil internos no sistema da Secretaria de Justiça e seis mil amontoados nas delegacias de polícia, faltando-lhes tudo, inclusive espaço para dormir, sendo o revezamento uma prática comum, regulada pelo “mercado das cadeias”.

Embora o quadro que encontrei fosse de superpopulação em todos os lugares, uniram-se todos em uma cantoria única, que lembrava as antigas carpideiras, repetindo obviedades que o Brasil todo conhece, o mundo lamenta e não consegue resolver. Quando solicitei ao governador Jaques Wagner que me liberasse das funções de secretária, estava em paz e ainda estou. Mas fica no fundo a dor de uma pergunta. Terá o nosso trabalho contribuído de fato para levantar a auto-estima da população carcerária? Caso positivo, e daí? Menos me importaria se, alguns disséssemos que “gastamos velas com defunto ruim”, caso houvesse no horizonte, oportunidade, de que na saída, em vez da quase fatalidade da reincidência, a sociedade os acolheria, na família e com trabalho…

Felizmente, nesse quadro de frustrações e protestos, e esperanças tão poucas, um futuro melhor se anuncia no trabalho de educação para os direitos humanos, já deflagrado pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos do Governo Federal e cujo projeto tem como pressupostos radical mudança de paradigma para a segurança pública no Brasil.

Hans Jonas, em seu Princípio Responsabilidade, lembra que já é hora de deslocar o centro da solidariedade social, transferindo-o do individuo para fincá-lo em estâncias coletivas. Melhor ainda é dizer, com Ricoeur, que as nossas utopias, por designarem, apesar de sua força, “lugar nenhum”, devem ser substituídas pelo “futuro possível da esperança”. É com o que sonho, braços abertos para um mundo de paz.

Marilia Muricy Machado Pinto, mestre em Ciências Humanas, doutora em Filosofia do Direito, é ex-secretária da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do Estado da Bahia..

set
28

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CRÔNICA / MULHER

bbardot

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75 anos e sempre La Bardot

Aparecida Torneros

Acho que o ano era 1962. Não estou bem certa. Eu e minhas amigas pré-adolescentes copiávamos para costureira os modelos das calças saint-tropez, a la Brigitte, o que era a última moda e nos deixava com o umbiguinho de fora. Cintura baixa, a pernas em patas de elefante, blusinhas de organza leve, alguns babadinhos e frou-frou. Nossos cabelos, para seguir a musa sensual francesa que despontava como objeto sonhado nas telinhas, ainda nos atrevíamos a pintar mechas claras nos cabelos e usar grandes franjas que caíam selvagengente pelo rosto, emoldurando ares de menina em carinha de mulheres aprendizes.

A Brigitte era nossa ferinha indomável, dava gosto de ler nas revistas semanais as reportagens sobre seus amores , casamentos, rodagens de filmes. Seus ares quase infantis, de BB, literalmente passando aquele jeito de adolescente sapeca, usando por exemplo modelitos em xadrez cor de rosa com babadinhos de bordado inglês, quem não se lembra de vestidos com bolsos, mangas tres quartos, lacinhos e decotes audaciosos?

Ela ditava moda, induzia a comportamentos, incitava a desvendar mistérios de uma femea que Deus criara para seduzir através da sua arte e do seu encanto físico, a uma legião de fãs que se espalharam pelo mundo. Seu amor pela natureza, pelos animais, pelo planeta, é precursor das campanhas ecologicamente corretas dos tempos atuais. Ela se fazia natural por ser, intuitivamente, encantando-se com as praias agrestes da pequenina colônia de pescadores em Búzios, que hoje é reflexo do sua passagem por aquelas terras do Estado do Rio, para onde acorrem turistas ansiosos de conhecer a orla Bardot e tirar fotos com a estátua dela, que na beira do mar, acalenta os sonhos da mulher amante das praias.

Brigitte resistiu ao tempo, como defensora dos animais, como símbolo sexual, como artista polêmica em torno de posições assumidas e por muitas lutas que trava em prol da sobrevivência de muitas espécies.

Mas , o que me parece bem ao seu jeito e quase passa despercebido, é que ela é a própria defesa do seu exemplar humano, um espécime raro de fêmea livre, consciente, decidida, resolvida, amante do amor como entrega e realidade, criatura capaz de oferecer dádivas de prazeres em olhares perseguidores, aqueles que sempre a perseguiram na tentativa de descobrir seus banhos de sol em nudez tão natural quanto inocente, tão pura quanto sintonizada com a paisagem que a acolheu sempre nos esconderijos onde habita e ainda mora, com seus animais e seus amores.

Ela está casada desde os 58 anos de idade com o mesmo homem, segundo o noticiário, parece bem feliz no casamento longo, e , aos 75 anos, dá exemplo de vida bem vivida, continua sendo um sonho de mulher inalcançável para muitos fãs. Por sorte, não perdeu a sensualidade dos olhares e da boca, inconfundível, de lábios cujo coração desenhado mantém o convite ao prazer de viver a vida, com pouca roupa, pés descalços, cabelos ao vento, sorriso espontâneo, ela é a receita simples de vida ao ar livre ou de um estrelato que convive pacificamente com a bandeira da causa ecológica universal.

Brigitte continua a mesma menina, quem duvidar, que a acompanhe e constate, segue brigando para salvar bichinhos e preservar reservas ambientais, esbraveja contra poluição e matanças de espécies indefesas, abraça focas, beija cães e gatinhos, deita ao sol nas manhãs do verão francês e ressurge de vez em quando, em ocasiões especiais, quando sua aparição tem o dom de restituir ao público décadas de magia de uma deusa loura, tão senhora de si agora, como ousou ter sido antes, e como será sempre, confiante e intensa, como diria a propaganda de produtos de beleza.

Cida Torneros, escritora e jornalista, mora no Rio de Janeiro. Este texto foi postado originalmente no Blog da Mulher Necessária , que ela edita. (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com)

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