nov
09
Posted on 09-11-2009
Filed Under (Artigos, Rosane) by vitor on 09-11-2009

Soldados em Fort Hood:mistérios
Stringer

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ROSANE SANTANA

BOSTON (EUA) – A prestigiosa National Public Radio (NPR), dos Estados Unidos, divulgou na noite de domingo, 8 de novembro, que investigadores estão procurando pistas que levem a uma explicacão sobre a atitude do major Nidal Hasan, 39, que matou 13 e feriu 30 pessoas, na última semana, na maior base militar do país, Fort Hood, Texas. Até a hipótese de terrorismo está sendo considerada, após denúncia de que o militar teria gritado “Allahu Akbar”, “Deus é grande”, em árabe, antes do tiroteio.

Obama, que vai visitar o posto militar do Texas, nesta terça-feira, para homenagear as vitimas, usou seu programa de rádio do fim de semana para caracterizar o tiroteio como “um crime contra a nossa nação”. O presidente ordenou que as bandeiras na Casa Branca e outros edifícios federais fossem hasteadas a meio mastro até quarta-feira, Dia dos Veteranos.

O médico militar Val Finnell, que fez pós-graduacão em saúde pública com Hasan, na Virgínia, diz que ele possuia sentimentos anti-americanos e queixava-se de sentimento anti-mulcumano na tropa.”Eu tinha verdadeiras dúvidas sobre suas prioridades e suas crenças”, disse Finnell.

No entanto, um irmão de Hasan afirmou que a família está “em estado de choque” e que ele é um homem “pacífico, amoroso e compassivo”.

Comentário: Tudo leva a crer que as tropas americanas andam mesmo exauridas com as guerras do Iraque e Afeganistão, deflagradas para combater o terrorismo, destruir a Al Qaeda e matar Osama Bin Laden, sem êxito. Tanto que o tiroteio de Fort Hood não foi isolado. Outras bases teriam se rebelado e chegaram a ser cercadas, permanecendo sob forte vigilância. Obama que prometeu por fim aos conflitos, mas escalou a elite da Era Bush, para a área de segurança, temendo novos atentados terroristas, terá que dar explicações ao povo americano.

Rosane Santana, jornalista e mestre em História pela UFBA, mora em Boston e estuda na Universidade de Harvard.

nov
08
Posted on 08-11-2009
Filed Under (Artigos, Claudio) by vitor on 08-11-2009

“Seu” Magno:”prazer da política verbal”
Magno
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PERFIL

ORA, MAGNO BURGOS

Claudio Leal

Nunca vi Magno Burgos pela primeira vez. O personagem se enroscou à primeira infância como o amigo de meu avô Luiz, ambos enredados em confabulações políticas na sala de visita. Havia na casa do Bonfim o uísque de “seu Magno”, sagrado e lacrado. No carrinho de bebidas, ninguém ousava sorvê-lo. E até se defenderia a inviolabilidade do gelo.

Esse tratamento antigo, “seu”, ressoava as docilidades da Santo Amaro dos maculelês e dos canaviais, transferidas aos modos urbanos da Bahia. Vitor Hugo Soares sorria ao ouvir “seu Magno”. Talvez lhe remetesse às cerimônias da pequena Glória, nas barrancas do São Francisco, onde a civilidade era também diversa.

No Bonfim, se o tempo me refluísse, surpreenderia Magno inteiramente “seu”: a camisa mal abotoada, a fumaça serpejante do cigarro, o uísque na mesa de folhas de tabaco. Sentado na ponta do sofá – evitava o recosto –, iniciaria a argumentação com um questionamento: “Mas, rapaz, o que esses cabras pensam?”. O tom pausado e veemente desenovelaria os fatos da semana ou da última executiva do partido. “Não é não, Magno”, ouviria o avô na contradita.

Às vezes interrompia os meus deveres escolares para assistir aos dois no teatro da grande política, a que ainda se praticava ao lado de Antonio Guerra Lima, Chico Pinto, Fernando Sant’Anna, Inácio Gomes, Jorge Medauar, Rômulo Almeida, Sérgio Gaudenzi, Ulysses Guimarães, Virgildásio Senna, Waldir Pires, tantos homens.

Entrevistar os políticos contemporâneos, por imposições do jornalismo, magoa as heranças dessa arquitetura de vozes, que me impunha o compromisso com o homem, a vida e os calores de um debate, e bem pouco com os delírios do poder. Penso na letra de uma música de Chico Buarque, “Trapaças”, composta para Ulysses Guimarães na campanha de 1989. Ela recupera o sentido dessa arte da conversa entre os egressos do MDB (mais lá atrás, PSD e PTB), com mil intenções escamoteadas por gentilezas mútuas, regada a idealismos passionais, mas nada ingênuos: “Contigo aprendi/ A perder e achar graça/ Pagar e não dar importância/ Contigo a trapaça/ Por trás da trapaça/ É pura elegância”.

Como era elegante esse jogo de acenos. Magno Burgos transmitia o prazer da política verbal, do manejo adequado do humor, da língua, nas situações mais tensas. Suas tribunas: os cafés e os bares. Havia a lenda do terceiro uísque. Depois dessa dose, ele elevava a polêmica às alturas, fazia provocações sarcásticas. Pude comprovar que isso não passava de uma lenda. Magno polemizava somente a partir do primeiro copo. Nos últimos anos, nem precisaria beber. Balançava a cabeça, como quem abatia a estupidez no ar, dava um riso nervoso e indagava: “Você não está vendo que não sou nenhum idiota? Ora, senhor”. Irredutível em suas teses para ser generoso em todas as coisas vãs.

A quem acompanhou a paixão diária pelos destinos brasileiros, ouvindo-o cantarolar Ary Barroso depois de um debate ferrenho, a insinuar o valor da amizade acima das opiniões, a morte de Magno Burgos enternece, num desconsolo. Nele transparecia o mais próximo amigo dos filhos Daniel, Cristiano e Leonardo, pela jovialidade da interlocução, sempre sábia e repleta de lugares-incomuns. Ao contrário de Mallarmé, leu todos os livros e não tinha a carne triste. “Melhor andar à toa do que ficar parado à toa”, dizia, lembrando a frase do pai, antes de propor uma água de coco.

Se você tivesse o jornalismo por ofício, como este escrevinhador, Magno encarnaria o vulto do poema de João Cabral de Melo Neto, “A Willy Lewin morto”, dedicado ao intelectual pernambucano, decisivo em sua formação (apresentou-lhe os poetas surrealistas): “Se escrevemos pensando/ como nos está julgando/ alguém que em nosso ombro/ dobrado, imaginamos…”. Ele materializava esse fantasma da escrita, o homem que prelê o que fazemos, pairando sobre nosso ombro, de quem buscamos “o sim e o desagrado”.

E havia a indicação de livros, de artigos, de revistas. Seus duelos livrescos com Guerrinha: Eça e Machado, estilo e conteúdo, Balzac e Flaubert. Lembro-me de ouvi-lo aconselhar meu pai: “Chegou a hora de você ler Heródoto”. Indicou-me “A curva da estrada”, do romancista português Ferreira de Castro. A curva do livro era a que se insinua ao político em fim de carreira, tentado a trair os princípios. A sabedoria da renúncia ao poder – o que o estimulava a comparar o personagem Soriano a Chico Pinto, precocemente afastado da política. Corri os alfarrábios da Praça Tiradentes, no Rio, em 2005. Lá estava o volume de Ferreira de Castro, em edição portuguesa, com a aquarela difusa na capa: braços levantados, homens engalanados, a bandeira vermelha. Meti o livro na mala e fui ali perto ao lançamento de José Saramago, “As intermitências da morte”. Vendo-me sobraçar o romance do outro português, pedi-lhe a opinião. Folheou “A curva da estrada”, risonho.

– Líamos muito há uns anos. Mas hoje está um tanto superado.

Ferreira de Castro antecipou um desencanto com o socialismo quando Saramago ainda estava investido de ilusões ideológicas. Magno divertiu-se com a reação do Nobel de Literatura, mas reafirmou o valor do livro para qualquer homem público.

O comportamento que mais o irritava era ver alguém se declarar “sem lado” (Olívia Soares lembrou esse aspecto no necrológio). Uma tarde presenciei seu ataque a um desconhecido contrário à tríade MST-Lula-Esquerda, mas disposto a pairar sobre o PT e o PFL. “Pare de dizer que você não tem um lado”, reagiu Magno. “Um fascista e um comunista se conhecem de longe. Você é um fascista, eu sou um comunista, nunca vamos nos entender!”. Pegou os jornais, “boa tarde, meu filho”, e foi embora. Minutos depois, espreitou a mesa e me surpreendeu novamente sozinho. “Era só pra me livrar daquele chato. Eu não agüento, não…”.

Agora que a morte nos impõe um sentimento uniforme, elaboro mil teorias para explicar essa existência tão original, firme na subversão do cotidiano pelas leituras de contracorrente, inversas às dos jornais. Apesar de ele ter sido vereador em Londrina, vislumbro em Magno um daqueles personagens de Balzac, prenhe da História e ocupado nos desvios da corte, entretanto mais interessado nos bastidores, certo de que o poder absoluto lhe valeria menos do que a observação livre da comédia humana. Preferiria freqüentar as tertúlias da marquesa de Listomère do que integrar o governo de Napoleão. Não serei incompleto: Magno desejaria a companhia de Napoleão num jantar da marquesa. Era um afinado conhecedor do corso, de Balzac e dos pais fundadores dos Estados Unidos.

Quem lhe saboreou as frases? “Há uma grande diferença entre os homens da minha geração e a garotada que foi para a luta armada. Quando nós acordamos para a política, caímos numa democracia, a de 1946. Os garotos da guerrilha, quando despertaram para política, caíram numa ditadura, a de 1964. É bem diferente.” Numa crítica ao caudilho gaúcho: “Brizola é aquele tio que conquistou o direito de mijar na sala”. Antecipando-se ao desconcerto de um amigo quase obrigado a aplaudir o discurso de uma adversária: “Não precisa aplaudir essa não. Deixa comigo. De palmas eu sou ótimo!”. E mais: “Se ele for candidato ao Senado, votarei no suplente”. Meu irmão, Luís, outro interlocutor contumaz, testemunhou sua proeza de preservar, durante décadas, a primeira e a última página de “Thais”, romance de Anatole France: “Naquele tempo o deserto era povoado de anacoretas”, desatou a ler de dentro.

O escrever tem as danações de apaziguar Magno, trancafiá-lo em julgamentos lineares, em sentenças sobre sua ausência nos cafés. Somos trezentos, trezentos e cinqüenta, e nada alcançáveis por palavras. Bem mais inglório o desafio da escrita quando o ausente é uma presença em nós refletida, na incerteza do sim, do desagrado e do silêncio. Ora, senhor.

Claudio Leal, jornalista , mora em São Paulo e trabalha na revista digital Terra Magazine.

nov
07
Posted on 07-11-2009
Filed Under (Artigos, Ivan) by vitor on 07-11-2009

Deu na Tribuna da Bahia

E porque hoje é sábado o jornalista Ivan de Carvalho aproveita o conselho do poeta Vinícius de Moraes para deixar de lado a política e entrar brevemente na área da medicina para abordar em sua coluna diária na Tribuna da Bahia dois assuntos cujo conhecimento está se disseminando na sociedade, graças principalmente à Internet. O Bahia em Pauta reproduz o texto de Ivan, cuja coluna política pode ser lida todos os dias na edição impressa da TB. Confira.
(VHS)

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Dr. Luiz Moura: auto-hemoterapia
moura

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Redescobrindo a medicina

Ivan de Carvalho

Como hoje é sábado, tomo a liberdade de por a política de lado e entrar na área da medicina para abordar brevemente dois assuntos cujo conhecimento está se disseminando ultimamente na sociedade, principalmente graças à Internet e apesar do descrédito e desinteresse da imensa maioria dos profissionais (mas não de todos) da área médica, ao que se soma a viva (vivíssima) reação da indústria farmacêutica.

Quem quiser detalhes sobre esses assuntos pode pesquisar no Google, escrevendo, por exemplo, Cloreto de magnésio Dr. Luiz Moura. Isto será suficiente para o site de pesquisa lhe indicar diversos vídeos com explicações do médico Dr. Luiz Moura a respeito das utilidades do cloreto de magnésio como preventivo para evitar doenças e como meio de remover problemas de saúde já instalados, além, claro, de poderoso e barato desinfetante.

Junto com isso, você encontrará uma antiga técnica médica, a auto-hemoterapia, abandonada a partir da descoberta dos antibióticos, que supostamente a substituem. Mas o Dr. Moura explica que não é bem assim. Diz ele que a ação básica dos antibióticos é de impedir a multiplicação dos microorganismos nocivos, dando a chance para que o sistema imunitário do paciente elimine esses microorganismos. Já a auto-hemoterapia tem função totalmente diversa dos antibióticos – essa técnica combate as infecções reforçando extraordinariamente o sistema imunitário, multiplicando por quatro o número de macrófagos, que são as células do sangue que devoram as bactérias e vírus. Antibióticos e auto-hemoterapia são complementares.

A auto-hemoterapia consiste em retirar sangue de uma veia (10 ml, normalmente) e ato contínuo injetá-lo nos bíceps dos dois braços (5 ml em cada) ou no músculo glúteo (que suporta os 10 ml).

Lugar de sangue é nas artérias, veias e nas quatro cavidades do coração. No músculo o sangue é reconhecido como “corpo estranho” pelo sistema imunitário, que parte para o ataque e num período de oito horas multiplica por quatro o número de macrófagos – de 5 para 20 a 22, permanecendo neste nível mais alto durante cinco dias, voltando gradualmente ao normal nos dois dias seguintes. Pode-se repetir tudo de sete em sete e até de cinco em cinco dias, se necessário. Extremamente reforçado para “comer” o sangue que foi posto no músculo, lugar “errado”, o sistema imunitário torna-se muito mais eficaz contra bactérias, vírus, células pré-neoplásicas ou mesmo neoplásicas e atua com sucesso nas doenças auto-imunes, a exemplo do lúpus, asma e numerosas outras. A auto-hemoterapia e os antibióticos são, evidentemente, complementares. Quanto ao cloreto de magnésio é um regulador do cálcio. Fixa-o onde ele deve estar (nos ossos, por exemplo, combatendo a osteoporose) e retira-o de onde não deve estar – dissolve calcificações nas artérias e veias, cálculos de oxalato de cálcio nos rins e custa uma pechincha nas farmácias.

Há mais. Ainda pretendo voltar ao assunto.

nov
06
Posted on 06-11-2009
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 06-11-2009

Memórias de Nery: política e polêmica
SNery
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ARTIGO DA SEMANA

“O QUE FICOU DO QUE PASSOU”

Vitor Hugo Soares

Na apresentação do livro “Dias Idos e Vividos”, a antologia do escritor José Lins do Rego (publicada in memoriam), uma citação de Goethe veste com perfeição e elegância a figura do escritor nordestino de obra universal: “Eu não tenho feito outra coisa, na vida, que tirar proveito das coisas vividas”.

Difícil achar palavras mais apropriadas para iniciar este artigo sobre dois assuntos vinculados entre si e que calam fundo na formação e nos sentimentos do autor destas linhas: o aniversário do “Diário de Pernambuco”, o mais antigo jornal da América Latina, neste sábado, 07; e o lançamento nacional de “A Nuvem – O que ficou do que passou” , livro de memórias do jornalista baiano Sebastião Nery, na segunda-feira, 9, em Recife – um explosivo e denso depoimento político e pessoal. “Espremi minha vida”, confessou Nery esta semana, em reveladora e polêmica entrevista à revista digital Terra Magazine.

“Os dois eventos fazem Recife ferver nestes dias quentes de pré-verão”, informam amigos queridos que conservo na Veneza Brasileira, em telefonemas generosamente convidativos. É quase certo que o aniversário do DP e o livro de Nery farão ferver também a política nacional nestes e nos próximos dias: de Salvador a Brasília e Minas, e do Rio a São Paulo.

Desde o começo desta semana, quando li a entrevista do veterano jornalista Sebastião Nery ao jovem repórter Claudio Leal (baiano de Itapagipe), bateu uma vontade danada de voltar e estar na capital pernambucana. Vontade tão intensa quanto a que experimenta nos tempos de infância e juventude. Então viajava léguas para brincar nos carnavais de Capiba e Nelson Ferreira.

O fato é que conservo marcas profundas de quem nasceu em uma cidade da margem baiana do Rio São Francisco (Abaré), a poucos quilômetros da pernambucana Cabrobó, marco zero das obras de engenharia do faraônico, bilionário e polêmico projeto de transposição das águas do rio, tocada pelo governo Lula, que há poucos dias andou por lá “fiscalizando”, com a ministra Dilma Rousseff debaixo do braço..

Bem perto fica também a cidade de Santo Antonio da Glória, pertinho dos rugidos da cachoeira de Paulo Afonso. Em Glória, no tempo da construção da primeira grande hidrelétrica da CHESF no Nordeste, passei os melhores anos da infância, olhando para Pernambuco, na outra beira do rio. Acordava diariamente com a casa da família sintonizada na Rádio Jornal do Comércio “falando para o mundo”. Notícias de Miguel Arraes, de Agamenon Magalhães, de Francisco Julião, de Cid Sampaio, das grandes pelejas eleitorais para governador do Estado ou presidente da República.

Depois vinham os frevos de Capiba, os baiões geniais de Luiz Gonzaga, o relato dos fatos do dia na polícia e na política, os casos da gente elegante e na “última moda do “Ricife”. Chegava também da margem oposta do Velho Chico, o Diário de Pernambuco, jornal aguardado na cidade com tanta expectativa quanto o exemplar semanal da revista O Cruzeiro, também dos Diários Associados de Assis Chateaubriand, como o DP, que vinha do Rio de Janeiro para a casa de Seu Mendes, o distribuidor local.

Neste sábado, o Diário de Pernambuco, idealizado pelo comendador Antonio José de Miranda Falcão, festeja 184 anos de vida e presença marcantes, com merecida pompa e circunstância. O mais antigo jornal da América Latina – foi fundado a 7 de novembro de 1825 -, é um exemplo raro de longevidade e coerência com a sua história e os princípios liberais que sempre defendeu.

O DP – constato agora – não parou no tempo nem dormiu enquanto os fatos e as mudanças no mundo e no Brasil passavam em sua porta, como fizeram grandes jornais do passado, hoje mortos e enterrados, ou quase moribundos. Atualizou-se sempre, “sendo esse constante empenho um dos trunfos de sua longa vida”, leio em sua edição on-line. Dispõe atualmente de um dos mais avançados parques gráficos do País e ostenta ainda outro importante título: é a mais antiga publicação do mundo editada em língua portuguesa, segundo informa o seu site na Web.

De ponta a ponta exibe uma história fascinante de lutas, erros e acertos na construção de um jornal que faz 184 anos, e caminha com passos firmes para festejar os 200. Pernambuco tem motivos de sobras para ferver e frevar neste aniversário de seu diário. E a Bahia vai estar bem representada na festa.

Na segunda-feira, 09, em Recife, Nery lançará como parte das comemorações, “A Nuvem – O que ficou do que passou” (Geração Editorial), o livro que – como assinala Terra Magazine na apresentação da entrevista de dos mais polêmicos jornalistas do País – condensa 50 anos de vida profissional e política. A aventura se inicia no internato de seminarista, na Bahia, e se estende até os anos 90.

“Nesse rastro de evocações”, surgem os presidentes Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, os ditadores do regime militar, Tancredo Neves, José Sarney e Fernando Collor. Além da drástica e dramática narrativa do rompimento com Leonel Brizola, quando o gaúcho o colocou diante de um dilema impensável para Nery, que acumulava sua atividade jornalística com a de combativo e combatido deputado federal: largar o jornalismo para permanecer em um dos cargos de comando nacional do PDT de Brizola, que o baiano então ocupava.

E mais não conto para não tirar a graça e quebrar o suspense. Quem desejar saber mais leia o livro ou vá à festa do Diário de Pernambuco, para beber diretamente da fonte. Agora o que faço é uma saudação comovida ao DP, “madeira que cupim não rói”, como o bloco do Recife cantado no frevo lendário de Capiba.

Bravo!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

nov
06

Burgos:”ânsia renovadora e libertária”
Burgos
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MEMÓRIAS, ESPANTOS E SAUDADES

Claudio Leal

Morre Magno Burgos. Memórias, espantos e saudades. Por ora, recupero uma lúcida análise do amigo, da época da transição democrática. Para aqueles que o conheceram e os que não saborearam sua lucidez derramada em uísques e cafés, mas nunca turvada pelo cigarro, segue o texto que talvez tenha sido o preferido do nosso guru. Escrito no calor dos revanchismos e das pazes finais (definitivas?) da ditadura militar.

Em 12 de agosto de 1979, o jornalista Tarso de Castro republicou esse artigo de Magno sobre a Anistia no lendário Folhetim, da Folha de S. Paulo. A pedido do romancista e ex-editor-chefe da Tribuna da Bahia, João Ubaldo Ribeiro, Tarso introduziu o texto na edição especial às vésperas da votação no Congresso.

No arquivo da Folha, em São Paulo, tirei uma cópia da página do caderno cultural, dividida por Ubaldo e Magno: “Um ato de coragem. De generosa coragem”. Belo desfile de erudição e equilíbrio, palavras que se projetam para o Brasil contemporâneo, quando se discute os limites da anistia a torturadores. A seguir, a apresentação de Tarso e o artigo de Magno. (Claudio Leal, jornalista, para Bahia em Pauta))

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“Na terça-feira, dia 7, o jornal ‘Tribuna da Bahia’ trazia um artigo do seu comentarista econômico Magno Burgos, em que ele surpreendia os leitores ao deixar de lado o emaranhado de temas que envolve a sua área para se debruçar sobre a questão da Anistia. Apesar de concluir, logo no início, que é ‘mais fácil lutar pela anistia ampla geral e irrestrita, do que escrever sobre ela, porque muitos já o fizeram, praticamente esgotando o assunto, com talento e muito amor’, Magno Burgos acrescenta em seu artigo ‘Conviveram em democracia’, uma contribuição lúcida e apaixonada à análise do tema. Comovido, João Ubaldo Ribeiro passou a mão na tesoura e enviou para o Folhetim, o artigo de Magno Burgos. E nós o transcrevemos aqui em seus principais tópicos. Tem razão o João Ubaldo. Nosso leitor deve tomar conhecimento dessa contribuição do Magno Burgos, justo no momento em que está nas mãos do Congresso a decisão de uma Anistia sem adjetivos, que ajude esta Nação a reencontrar-se com a sua história.”

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Conviveram em democracia

Por Magno Burgos

A luta pela anistia é incessante ao longo da História. Desde o seu etmo “Amnestia” (esquecimento) do fecundo gênio grego, no arcontado de Solon, às lutas do CBA no Brasil de hoje, o homem agitou-se movido pela ânsia renovadora e libertária, em face das idéias dominantes. Por isso, em todas as épocas e em todos os meios, os lutadores pela anistia dos vencidos desses embates, escreveram páginas de heroísmo e desenvolveram a teoria do esquecimento do delito político, deixando à História o julgamento dos acontecimentos e dos personagens.

Muitas vezes, no rolar do tempo, o julgado, o penalizado, o bandido torna-se o herói perante a História. Outras tantas, as idéias que produziram mártires, quando triunfantes, produzem vítimas.

Ser cristão era crime hediondo no tempo dos césares e pagava-se na arena com a vida. Já na Idade Média, não ser cristão era crime igualmente hediondo e pagava-se com a vida nos tribunais da Inquisição.

Esta tem sido a dolorosa contingência da vida em sociedade.

No Brasil, não tem sido diferente. Somos herdeiros de uma história pontilhada de lutas fratricidas pela disputa do poder político, culminando todas, passada a refrega, pela anistia ampla, geral e irrestrita.

Assim, no Império, foram anistiados os Cabanos, os Balaios, os Farrapos, os Praieiros etc. Na república sucedem-se as anistias desde 1892, que completam uma série de dez ou doze, incluindo Aragarças e Jacareacanga.

Destaque-se para glória do homem brasileiro, que todas foram amplas, gerais e irrestritas, porque alcançavam todos os delitos políticos, todos os condenados, procurados e exilados, sem qualquer restrição ao exercício e às vantagens da atividade anterior, quer militar quer civil.

Tanto assim que exercitando a anistia, esta Pátria levou à Câmara, ao Senado, ao Ministério do Exército, aos Governos de Estados e até à Presidência da República, cidadãos anistiados como: Euclides Figueiredo (2 vezes), Filinto Muller, Estilac Leal, Octávio Mangabeira e Gaspar Dutra.

Isto demonstra, que na melhor tradição brasileira, os caminhos do poder político passam pelos cárceres, pelo exílio e pela anistia.

Vai daí, a anistia agora proposta pelo general Figueiredo é indigna da tradição que por duas vezes anistiou o seu pai. É mesquinha e covarde porque nem tudo esquece e nada repara. Por ela seu pai não seria deputado, nem Gaspar Dutra presidente da República.

Os jovens que empunharam armas, assaltaram bancos e mataram e morreram, o fizeram contra um Governo violento e ilegítimo, que seqüestrou, torturou e negou o habeas-corpus.

Tanto é crime seqüestrar um embaixador quanto um cidadão comum, não importa se o autor foi um jovem desesperado ou um Governo arbitrário.

A guerrilha urbana, que deixou um saldo de mortos e feridos, foi uma resposta à violência institucionalizada. Talvez ingênua, talvez intempestiva, mas sem dúvida heróica e essencialmente política.

O conceito universal de terrorismo que se aplica às Brigadas Vermelhas, não é o mesmo para a OLP nem seria meses atrás para os sandinistas hoje juízes dos seus algozes.

Com efeito, as Brigadas Vermelhas atuam numa sociedade livre, sem qualquer restrição ao pensamento ou à atividade política, ao contrário do que ocorria no Brasil onde tudo era proibido pela repressão, inclusive pensar e discordar.

Mais do que pragmático, hipócrita e frágil, o regime político que reconhece a OLP e nega anistia aos jovens que a ele resistiram a pretexto de haverem cometido crime de sangue. Não que seja incorreto o reconhecimento da OLP mas, enquanto não for concedida internamente a anistia ampla, geral e irrestrita, o gesto não será mais do que uma barganha imoral, indigna do povo brasileiro e dos combatentes palestinos.

Rui Barbosa, combatendo uma proposta de anistia restritiva, do alto do seu saber jurídico chamou-a de “anistia inversa e penal”.

Isto quer dizer que em anistia não há meio termo. Ou é ampla, geral e irrestrita ou é um instrumento punitivo.

A anistia, como reclama a Nação brasileira, jamais será uma dádiva. Em qualquer circunstância será sempre um ato de coragem. De generosa coragem.

Se o Congresso assim o entender e num gesto de grandeza transformá-la em ampla, geral e irrestrita, dele poderemos dizer como Tucídides, o grande historiador grego, escreveu sobre os estadistas de sua pátria: “Eles esqueceram e daí avante conviveram em democracia”.

(Magno Burgos – Transcrito da “Tribuna da Bahia” de 7/08/79).


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Lima: sucesso no You Tube e Angola
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A música para começar o dia nesta sexta-feira, 6, no Bahia em Pauta, é “Canto à Alfabetização” , sucesso em Luanda e que está bombando entre os clips do You Tube, com cotação de cinco estrelas. A canção vem de Angola, na África. O autor, porém, é de um baiano da gema, Raimundo Lima ( que os angolanos chama de Raimondo), nascido em Feira de de Santana, mas que Salvador inteira conhece e admira, em especial a gente ligada ao jornalismo, à música , à cultura e à educação.

Do jornalista Raimundo Mazzei, que está em Luanda, recebemos uma cópia do clip e informações preciosas sobre o sucesso, que já foi apresentado, recebeu elogios e aplausos até em paris. Diz Mazzei:

” Primeiro, a música estourou em Angola, onde praticamente todos os adultos e crianças a conhecem, em função de uma campanha que o governo angolano fez, no ano passado, em rádio e TV. O “Canto à Alfabetização”, composto pelo jornalista baiano Raimondo Lima, foi até motivo de elogio escrito do presidente da República, José Eduardo dos Santos, ao Ministério da Educação de Angola pelo lançamento da música em clip.

Depois, este ano, o sucesso foi tão grande no Encontro de Educação de África, no Quênia, que, em função da ovação que a canção recebeu, o governo decidiu levar para exibir em Paris, no encontro da Unesco, aí já com traduções para Inglês e Francês. Lá, o hino contra a analfabetismo foi exibido em 6 de outubro, tendo empolgado a plateia, segundo o ministro António Burity da Silva.

No YouTube, a música está cotada como 5 estrelas e já foi acessada por mais de 3 mil pessoas. Vale ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=jFSfMv2K-iE

O autor está em Angola há oito anos e é presidente do Grupo Empresarial Aldeia. O canto e o videoclip foram gravados por dez famosos cantores angolanos e oferecido ao PAAE – Programa de Alfabetização e Aceleração Escolar pela empresa Aldeia Global, que assessora o Ministério da Educação, através da Direcção Nacional para o Ensino Geral. A directora da área, Luísa Grilo, é outra entusiasta da música e de sua função no processo, “como aglutinador de mentes nessa luta sem tréguas contra o analfabetismo”.

Um acrescimo final do BP: Raimundo Lima, o Raimondo dos angolanos, é jornalista de primeira linha e já foi considerado um dos melhores jornalistas econômicos do país, antes de mudar-se para Angola. Ex-presidente do Sindicato dos jornalistas da Bahia, trabalho nas sucursais de O Globo, do Jornal do Brasil, e foi editor-chefe da Tribuna da Bahia.Agora Raimundo é revelação na música. Confira.

(Vitor Hugo Soares, com informações do jornalista Raimundo Mazzei, de Luanda)

nov
05

Mata do Corcovado: sem medo de bala perdida
matcorcovado
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CRÕNICA / LUGARES

UM SONHO VERDE

Gilson Nogueira

A mata do Morro do Corcovado parece querer invadir meus sonhos na noite morna do Rio. O Cristo Redentor entra pela janela. E um silêncio sem medo de balas perdidas me faz beber a paz que esta cidade precisa. Sinto-me pronto ao repouso do dia que termina com ressaca de saudade do Porto da Barra. Por ter sido mais uma vez abençoado pelo Verde Deus das florestas cariocas, acho-me o índio que um dia devo ter sido. Antes do sono, cubro-me das certezas que reforçam-me a fé em Deus. Suspiro estrelas.

Pela manhã, no Jardim Botânico, com minha mulher e minha primeira netinha, ouvi a natureza cantando através dos pássaros com quem Tom Jobim conversava. Exatamente, ali, no JB, passeando por seus canteiros e caminhos exalando beleza e história, recolhi outros silêncios no meu cesto de esperanças. Rezei, enquanto andava, para o planeta encontrar saídas, a fim de não se transformar em uma bola de fogo. E guardei na escuridão das minhas novas utopias a possibilidade de ver minha netinha poder respirar um mundo melhor, de mais amor, sem violência. Entre desejos, êxtases e preocupações, a agonia silenciosa de não poder responder a pergunta: Como fazer para colar as duas partes antagônicas da Cidade Maravilhosa? Sorri, sem ironias de canto de boca, acreditando que a grande solução está no resgate da fé no Todo Poderoso.

Ao meio dia, voltando para casa, fotografei pés de Andiroba, que significa “ gosto amargo”, em tupi-guarani. Antes, apanhei, no chão, algumas de suas amêndoas, para deixar secar, ao sol do sertão de Serrinha, na Bahia de Todos Nós. Continuarei rezando, esperando vê-las brotar amazônias entre mandacarus.

Gilson Nogueira , jornalista baiano, está no Rio de Janeiro

nov
05
Posted on 05-11-2009
Filed Under (Artigos, Rosane) by vitor on 05-11-2009

Eli Parisier: “mensagem direta”
71145466SP011_Senate_Candid
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OPINIÃO / INTERNET E POLÍTICA

OBAMA, WEB E BRASIL II

Rosane Santana

A discussão sobre o uso da Internet na política, no Brasil, envolta em uma onda de mal entendidos e muita desinformação, ao que parece, passa ao largo do fenômeno globalização, ainda reduzido a questões de ordem econômica por muitos observadores que não se detêm em suas implicações tecnológicas, políticas e culturais, como ressalta o sociólogo inglês Anthony Giddens. Prova disso, é a mistificação em torno dos resultados eleitorais obtidos nas últimas eleições presidenciais americanas, através da Web, e os benefícios que o uso da Internet poderia trazer ao processo eleitoral brasileiro, já no próximo ano. À propósito, volto ao tema a pedido de leitores.

Em primeiro lugar, é preciso deixar claro: antes mesmo de Barack Obama ingressar no Partido Democrata, eleger-se presidente dos Estados Unidos e Ben Self fundar a Blue State Digital, milhões de ativistas americanos e europeus insatisfeitos com a política externa dos EUA, especialmente após o 11 de Setembro, navegavam, tramavam e arrecadavam cifras milionárias no espaço cibernético, a partir de pequenas contribuições individuais, para apoiar candidatos contrários às guerras no Oriente Médio, especialmente a “Guerra contra o Terror”, de George W. Bush.

Entre os militantes, muitos herdeiros ou ex-ativistas do Vietnã, cérebros em informática e tecnologia da informação, tribos de todas as idades e credos, formando um verdadeiro tsunami, da Europa a América do Norte, que mostrou sua força nas eleições presidenciais norte-americanas de 2008 -uma disputa globalizada-, através da Internet. O tsunami responde pelo nome de Moveon.Org Politic Action e possui hoje, segundo seus líderes, cinco milhões de membros, supostamente com alto grau de politização e familiaridade com as novas tecnologias, é preciso ressaltar, para dar uma dimensão do fenômeno.

Por acaso, o candidato que, naquela conjuntura, mais se identificava com as aspirações dos ativistas internautas, simpatizantes do Partido Democrata, era um afro-americano chamado Barack Obama, que prometeu – e está sendo cobrado -, mas não cumpriu até agora, por um fim aos conflitos da Era Bush. Não por acaso, Hillary Clinton, que apoiou a invasão do Iraque e continua favorável ao endurecimento contra o Irã e a Coréia do Norte, foi descartada como representante do Moveon, que prossegue dando o que falar na política americana e é objeto de estudo em prestigiosos centros acadêmicos como a Universidade de Harvard.

Ressalte-se que mais de 50% dos quase 800 milhões de dólares arrecadados pela campanha do candidato democrata Barack Obama originaram-se de pequenas contribuições de pessoas físicas, de até 200 dólares. Por trás dessa tática de arrecadação, a estratégia adotada há quase 10 anos pela onda gigante e revelada pelo seu diretor executivo, Eli Pariser, em entrevista ao jornal The New York Times (Março, 2003) e à Revista Rolling Stones, fonte já citada (Nov.de 2007): combater a crescente influência de grandes companhias sobre governos, em nível internacional, o que ele considera a maior ameaça à democracia.

O segredo para unir tanta gente em torno de uma causa é simples. Eli Pariser, que descende de judeus sionistas por parte de pai e de socialistas poloneses, por parte da mãe, ambos ex-ativistas do Vietnã, ensina que as mensagens políticas encaminhadas pela Internet devem ser sempre diretas, sem tecer análises ou comentários que possam suscitar divisões ideológicas. O Moveon abriga pessoas de diferentes nacionalidades e diversas organizações, envolvendo norte-americanos e europeus. E sua atuação não pára depois da eleição.

Os ativistas tiveram influência decisiva junto ao Congresso americano, nas recentes discussões sobre a reforma no sistema de saúde pública dos EUA, e articulam campanhas contra os senadores, inclusive democratas, que estão dificultando a aprovação da matéria, através de e-mails enviados aos seus membros, aos quais estão solicitando doações entre 25 e 200 dólares. A briga entre Obama e a FoxNews (pró-republicana), tem tido o apoio do movimento, que sugere boicote dos telespectadores à rede.

“A democracia através da Internet resolve o problema de como focar a atividade política em um extenso país onde a grande maioria dos cidadãos está extremamente ocupada e distraída, porque o que mantém tantos americanos ocupados e distraídos estes dias é a Internet”, diz Eli Pariser (The New York Times, Março de 2003).

É possível que, no futuro , o Brasil possa encabeçar um movimento dessa natureza, através do espaço cibernético, com bandeiras próprias, parece óbvio, em direção, por exemplo, à América Latina. A Web abre um leque inimaginável de possibilidades também na política. Não soa, portanto, tão estranho, o recente apelo de Hugo Chavez às venezuelanas, para apoiarem Dilma Roussef, a candidata de Lula. Mas para que a Internet favoreça essa unidade, dentro e fora do território, o Brasil e os outros países do continente terão que vencer o desafio de se modernizarem, combatendo a corrupção, distribuindo renda, democratizando a educação e a tecnologia.

Rosane Santana, jornalista, mestre em História pela Universidade Federal da Bahia, mora em Boston e estuda atualmente na Universidade de Harvard (EUA).

nov
04
Posted on 04-11-2009
Filed Under (Artigos, Olivia) by vitor on 04-11-2009

Bahia em Pauta reproduz a seguir, neste 4 de novembro de homenagens em Salvador e em várias partes do País, pela passagem dos 40 anos da morte de Carlos Marighella, o texto produzido pela repórter Patrícia França, publicado no jornal A TARDE, edição do último domingo. Passado, presente e futuro neste relato sobre a vida, lutas e legados (intelectual inclusive) de um revolucionário baiano do tamanho do Brasil.Colaborou Maria Olívia. Confira.

Túmulo de Marighella em Salvador
tumartighella
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MEMÓRIA

“Não tive tempo para ter medo”. A frase gravada na lápide de mármore desenhada pelo arquiteto Oscar Niemeyer e que está exposta no túmulo de Carlos Marighella, no Cemitério Quinta dos Lázaros, resume a trajetória de luta e ideal libertário do líder comunista baiano assassinado no dia 4 de novembro de 1969, em São Paulo, numa emboscada das forças repressoras do regime militar. A figura humana em posição de luta e cinco projéteis de escopeta cravados na altura do peito – formando a constelação Cruzeiro do Sul, que também consta no centro da bandeira brasileira – completam a criação que denuncia a perseguição aos que lutaram contra a ditadura militar em defesa da democracia.

O tombamento como patrimônio da municipalidade do túmulo concebido por Niemeyer é um dos muitos atos que estão sendo programados em Salvador, São Paulo e no Rio de Janeiro para relembrar a passagem dos 40 anos de morte de Carlos Marighella. As atividades serão abertas nesta quarta-feira, data em que o ex-deputado comunista tombou assassinado no centro de São Paulo, com a inauguração de uma placa na Alameda Casa Branca.

Foi neste local que Marighella foi surpreendido por uma operação comandada pelo então delegado do Dops (Departamento de Ordem e Política Social) Sérgio Paranhos Fleury – conhecido pela crueldade com que perseguia opositores do regime militar. Manifesto As pichações que hoje desfiguram a obra do arquiteto Oscar Niemeyer, comunista e igualmente perseguido pelos militares, reforçam a importância das homenagens que instituições como Tortura Nunca Mais, Memorial da Resistência, governos da Bahia, de São Paulo e Rio de janeiro e Secretaria Nacional de Direitos Humanos, além de camaradas de luta, como Luís Contreiras e Fernando Santana, prepararam para homenagear Marighella.

Um documento intitulado Manifesto em Memória de Carlos Marighella está circulando na internet e tem a adesão de nomes como Fábio Konder Comparato, jurista e professora da USP; o escritor Fernando Morais; Frei Betto e Leonardo Boff; cineasta Sílvio Tendler, Wagner Tiso e o crítico Antônio Cândido. As homenagens ao herói da resistência se estenderão até o dia 10 de dezembro.

O advogado e ex-deputado estadual Carlos Marighella Filho, que só aos 8 anos de idade conheceu o pai, forçado que foi a viver na clandestinidade, o define como uma pessoa “desassombrada” e de “ação”, características que o próprio Marighella revelou ao dizer, numa entrevista concedida em 1968, que não teve tempo para ter medo. Comunista como o pai e também vítima da repressão – foi torturado pelo coronel da reserva Carlos Alberto Brilhante Ustra e condenado com 14 comunistas baianos pela Lei de Segurança Nacional –, Marighella Filho revisita a memória e fala do pai, que se tornou militante do PC aos 18 anos e fez da poesia a arma de luta pela liberdade.
A primeira prisão de Marighella foi consequência de um poema tecendo críticas ao interventor da Bahia, general Juracy Magalhães, em 1932. Obrigado a interromper os estudos por conta da militância, vai para o Rio de Janeiro. Em 1936, é preso novamente, depois passa seis anos no presídio de Fernado de Noronha. Marighella Filho lembra que um jornal da época, estampando a foto do pai com um outro comunista, ambos com hematomas no rosto, trazia a seguinte manchete: “Em nome da boa profilaxia social, a polícia do Rio de Janeiro acaba de prender dois homens afetados de comunismo”. “Toda aquela violência contra um poeta era justificada, como se fosse uma doença contagiosa” , lamenta o filho sobre o pai.

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Capa da revista no tempo da covardia
Vemarighella
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MEMÓRIA

POETA DESDE O GINÁSIO DA BAHIA

No Ginásio da Bahia ficaria notória a prova de Física que o estudante Carlos Marighella respondeu em 40 versos, cujo tema era “Catóptrica, leis de reflexão e sua demonstração, espelhos, construções de imagens e equações catóptricas”. Cursava, então, o 5º ano do Ginásio da Bahia, em 23 de agosto de 1929, aos dezoito anos. O tema da prova fora sorteado na sala de aula, antes do exame, um detalhe pouco conhecido. Marighella assim respondeu:


Doutor, a sério falo, me permita,
Em versos rabiscar a prova escrita.

Espelho é a superfície que produz, Quando polida, a reflexão da luz.
Há nos espelhos a considerar
Dois casos, quando a imagem se formar.

Caso primeiro: um ponto é que se tem;
Ao segundo um objeto é que convém.

Seja a figura abaixo que se vê,
o espelho seja a linha betacê.

O ponto P um ponto dado seja,
Como raio incidente R se veja.

O raio refletido vem depois
E o raio luminoso ao ponto 2.
Foi traçada em seguida uma normal
o ângulo I de incidência a R igual

Olhando em direção de R segundo,
A imagem vê-se nítida no fundo,
No prolongado, luminoso raio,
Que o refletido encontra de soslaio.

Dois triângulos então o espelho faz,
Retângulos os dois, ambos iguais.

Iguais porque um cateto têm comum,
Dois ângulos iguais formando um.

Iguais também, porque seus complementos
Iguais serão, conforme uns argumentos.

Quanto a graus, A+I possui noventa,
B+J outros tantos apresenta.

Por vértice opostos R e J
São iguas assim como R e I.

Mostrado e demonstrado o que é mister,
I é igual a J como se quer.
Os triângulos iguais viram-se acima,
L2, P2, iguais, isto se exprima.

IMAGEM DE UM PONTO

Atrás do espelho plano então se forma
A imagem, que é simétrica por norma.

IMAGEM DE UM OBJETO

Simétrica, direita e virtual,
E da mesma grandeza por final.

Melhor explicação ou mais segura
Encontra-se debaixo na figura.

A prova em versos rendeu a Marighella nota dez e ficou exposta no corredor do colégio até 1965, protegida por uma moldura envidraçada, como exemplo para os demais estudantes. O Ginásio da Bahia ficava no Bairro de Nazaré, hoje Colégio Central.

(Maria Olivia, jornalista)

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nov
04
Posted on 04-11-2009
Filed Under (Artigos, Olivia) by vitor on 04-11-2009

Marighella, um combatente
Cmarighella

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CARLOS

Maria Olívia

Hoje, 4 de novembro, completam-se 40 anos do assassinato de Carlos Marighella. Aguerrido militante político, deputado federal e um dos principais combatentes contra a ditadura militar no país, Marighella permaneceu por mais de 20 anos na clandestinidade, até sua morte, em São Paulo no ano de 1969.

Defensor das reformas de base – educação, agrária e manutenção das riquezas naturais, ele sabia da importância dessas premissas para nossa soberania e para o crescimento do Brasil. Se estivesse ainda entre nós, veria que sua luta não poderia ser mais atual, nos três pontos nada, ou quase nada, mudou.

Carlos, como era tratado carinhosamente pelos mais próximos, lutou em todas as frentes por um Nação livre e independente e para que nossas riquezas retornassem em benefícios para o povo brasileiro e não o contrário. Mais atual, impossível. Só a título de refrescar a memória: até nosso subsolo está comprometido e em mãos de pessoas sem nenhum compromisso pátrio, sem falar do cantado em prosas e versos Pré-Sal.

Estudante brilhante na Bahia, orador de primeira, Mariguella era de uma coragem admirável. Desde jovem defendeu com muita valentia seus princípios, foi uma referência para seus camaradas. Junto com Fernando Santana, Giocondo Dias, Luís Contreiras, Milton Cayres de Brito (foi meu professor na Faculdade de Comunicação da UFBA), entre tantos outros, escreveu com letra maiúscula a história do Partido Comunista Brasileiro.

-Não tive tempo de ter medo, esta frase está gravada na lápide de mármore desenhada pelo arquiteto Oscar Niemeyer no seu túmulo no Cemitério Quinta dos Lázaros, resume de forma definitiva a vida deste bravo cidadão baiano e do mundo Carlos Marighella. Em São Paulo, na Bahia, no Rio de Janeiro e em cada canto deste planeta onde haja sentimento de amor, solidariedade e justiça homenagens serão prestadas a este líder brasileiro nesta quarta-feira, data da sua morte.

As solenidades começam cedo, em São Paulo, com a inauguração de uma placa na Alameda Casa Branca, local em que Mariguella foi assassinado, numa operação comandada pelo nefasto delegado do Dops Sérgio Paranhos Fleury, e a concessão de título de Cidadão Paulistano/Medalha Anchieta. Em Salvador, acontece um ato político na Biblioteca dos Barris, às 18 horas. O ato vai contar com a participação do ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, Paulo Vannuchi e do governador Jaques Wagner. O deputado Emiliano José – autor da biografia de Carlos Marighella- representará sua família no evento.

Maria Olívia é jornalista, colaboradora do Bahia em Pauta

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