nov
21
Posted on 21-11-2009
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 21-11-2009

Mario conversa com…
Mario
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…Lygia (e seu gato): que domingo!
Lygia

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ARTIGO DA SEMANA

FUTUCANDO A MEMÓRIA

Vitor Hugo Soares

Ligo o rádio na manhã de domingo, dia que sempre pediu cachimbo. Ultimamente esta idéia tornou-se subversiva e perigosa para além dos riscos à saúde. São dias de implacável perseguição administrativa, econômica e policial aos fumantes. Não há trégua nem territórios inteiramente livres para uma tragada sem protestos e discursos “politicamente corretos”, embora os cariocas sigam resistindo aos radicalismos das proibições – por bravura para uns, ou pura insanidade para outros.

Em São Paulo do governador e ex-ministro da Saúde José Serra, anti-tabagista inflexível da primeira hora, ou em Salvador do evangélico prefeito João Henrique Carneiro, dá no mesmo, ou quase – porque na capital baiana a cultura do larga-isso-pra-lá segue imbatível e sempre é possível um jeitinho. “Até em Paris!”, reclama uma querida amiga baiana, fumante e combatente, assustada com os rigores das proibições em um dos templos mundiais do respeito às liberdades individuais e do livre arbítrio.

“Para mim a França perdeu o encanto, não volto mais lá”, reclama a amiga enquanto levanta irritada da mesa do bar da Pituba, para pitar na rua, sob um sol de mais de 30 graus. Se estivesse no apartamento, com o chato do filho do vizinho de cima reclamando da fumaça, colocaria para tocar a pleno volume o manifesto musical anarquista de Caetano Veloso, “É Proibido Proibir”.

Mesmo sem nunca ter fumado um cigarro na vida – nem no colégio, nem na universidade, nem nas redações de jornais e revista por onde passei – esta nova querela do Brasil mexe comigo. Até a atenção voar para a conversa surpreendente que vem do rádio ligado, de onde não esperava muita coisa no domingo de solitárias meditações caseiras.

Ficaria contente com uma música de Aznavour, ou com uma notícia amena que me afastasse um pouco do surrealismo das falas e debates sobre o apagão; dos longos e previsíveis arrazoados jurídicos e (principalmente) políticos do ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, sobre o refugiado italiano; da cara manhosa e suspeita de Sarney no Senado; dos labirintos afetivos de FHC; da lengalenga em torno do filme “Lula, o filho do Brasil”.

Bom mesmo seria ouvir algo que lembrasse Londres, Lisboa, Madri, Praga, Olinda. Ou mesmo Maceió da farinha boa de Djavan e das deliciosas crônicas do escritor Carlito Lima, o velho Capita, Duque de Jaraguá . Ele acaba de lançar seu mais novo livro, “As Mariposas Também Amam”, e recebeu esta semana na Assembleia Legislativa de Alagoas a comenda Ledo Ivo, com a presença do próprio poeta e escritor, imortal da Academia Brasileira de Letras, que empresta seu nome à honraria destinada aos homens e mulheres de letras, cultura e valor das Alagoas.

Surpresa! Do aparelho sintonizado na Radio Metrópole FM-Salvador, chegam as vozes do diálogo entre o apresentador Mario Kertész , que conversa por telefone da Bahia com a escritora Lygia Fagundes Teles, em São Paulo, ela também, como Ledo Ivo, imortal da ABL. É uma reprise do programa “Na Linha”, que Mario apresenta. Dá gosto ver o jogo do hábil entrevistador no diálogo inteligente com sua tímida, mas sábia entrevistada.

O radialista sabe que encontrou um veio de diamante, mas tem a plena noção de que precisa garimpar com cuidado e delicadeza para não haver rupturas, desabamentos que podem pôr toda mineração a perder..

“Escrever é futucar a memória”, diz a autora de “As Meninas” para explicar suas reticências ao falar. Principalmente quando a conversa se aproxima de revelações mais dolorosas sobre a vida e os despenhadeiros da alma, que ela como poucos retrata em seus livros. Mário dá um empurrãozinho discreto e respeitoso. O suficiente para Lygia seguir “futucando as lembranças”.

Ela fala da morte prematura do primeiro marido e destacado jurista Gofredo Telles, e mais prematura e dolorosa ainda morte do filho, Gofredo da Silva Telles Neto, o brilhante e promissor documentarista paulista. O jovem com profundas ligações com a Bahia, que amava Salvador com a devoção dos iniciados no axé, nos terreiros de candomblé, da gente que vive no casario do bairro de Santo Antonio, do Além do Carmo e do Pelourinho. Espaços que o filho resgatou “em um dos mais bonitos e comoventes filmes que realizou antes de partir”, recorda a mãe comovida.

A escritora lembra também do segundo marido, o saudoso Paulo Emílio Salles Gomes, professor da USP, estudioso e mestre insuperável das coisas ligadas à história e à cultura do cinema brasileiro. Pioneiro das Jornadas de Cinema da Bahia nos anos 60/70, evento hoje internacional, criado e mantido sempre por Guido Araújo.

Perdas e danos que fizeram a autora de “Ciranda de Pedras” e “Antes do Baile” ficar “sozinha, reclusa, solitária”. Lygia conta que foi salva das profundezas da depressão pelos livros e personagens de sua obra com os quais segue convivendo, “inclusive o gato”, um de seus personagens recorrentes. Salva também, confessa, pela entrada na ABL, onde se sente à vontade na hora do chá e das conversas com os seus iguais.

Ligia confessa no ar, ao final da conversa com Mário, que só fica preocupada quando eventualmente dá um espirro na Academia e sempre aparece alguém cheio de expectativas com a pergunta:

“É pneumonia?”

Se fumasse teria enfrentado a turma politicamente correta e pedido um legítimo charuto cubano para completar o prazer do domingo em casa. O que se pode pedir mais depois de saborear uma entrevista tão densa e tão rica, mesmo em reprise, com Lygia Fagundes Teles?

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

nov
19
Posted on 19-11-2009
Filed Under (Artigos, Gilson, Multimídia) by vitor on 19-11-2009

Oceania: bar e templo

Oceania

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CRÔNICA/ UM LUGAR

BEIJO NO CHÃO

Gilson Nogueira

O tampo de madeira escura da mesa vazia à minha frente nivelava-se com o alto da balaustrada e com a linha do horizonte feito de azul de céu e mar. Era um sábado de chuvisco e sol. E de uma lágrima invisível a escorrer sobre a mesa para cair no chão. Não havia notado a coincidência das linhas da mesa, da balaustrada e do horizonte, enquanto atirava-me nas ondas das lembranças da juventude, na perspectiva de sair dali depressa para não ter que ficar abraçando quem não via.

Na última vez que estive naquele bar, o mais bem localizado do Farol da Barra, deixei um abraço de despedida preso ao guardanapo como parte da gorjeta. A felicidade continua lá, ainda que solitária, nas vozes da última farra que ficou no ar.

Por aquelas bandas balneárias do Farol, o Privé, que não existe mais ( foi lá que tomei meu último uísque de solteiro e que surgiu-me a idéia de fundar o Vat 69, o primeiro bloco de carnaval a deitar, em plena folia, na Avenida Sete de Setembro), era o mais forte concorrente do Bar Oceania.

Ah, o Privé, pedaço de Búzios, em Salvador, lugar tão gostoso de beber o pôr-do-sol, devidamente acompanhado, com gelo no copo, quanto seu filé au poivre, superado, mais tarde, pelo do Berro D`Água! Ah, o Berro, outro ponto maravilhoso da boemia soteropolitana, de vida mundana na totalidade dos seus prazeres!

A vida era o suspense da tanga, o debruçar-se no balcão até a última gota de poesia, a certeza do não morrer tão fácil. Na escuridão, havia estrelas, ainda, a nos fazer caminhar sem medo. O Clube Cabana da Barra, que conserva sua classe, desde que foi construído pela Marinha do Brasil, fica no meio do caminho do ontem Privé e do hoje Boteco do Farol, que, especula-se, deverá voltar a ser chamado pelo antigo nome, Bar Oceania, localizado embaixo do edifício que leva o batismo continental e que funciona, na minha imaginação, ali, como sentinela monolítico em defesa dos encantos da Cidade de Salvador da Bahia.

Metrópole que, infelizmente, tornou-se, por inércia dos seus governantes, vítima da brutal transformação de hábitos e costumes imposta pela violência urbana. Salvador que vê seus espaços de amizade, de confraternização, de festa sem patrocínios, de aconchego, levado na base dos dengos todos que emanam do coração da sua gente, do melhor samba de roda do mundo, serem fechados por falta de público, de pessoas que gostariam de cantar até o sol raiar , mas que são obrigadas a ficar trancafiadas, em casa, com medo de morrer na rua.

É grande a vontade de cantar, de novo, aquela música deixada no Oceania.

Gilson Nogueira é jornalista

nov
19
Posted on 19-11-2009
Filed Under (Artigos, Olivia) by vitor on 19-11-2009

Fernando Moraes e delegado..

foto fernando moraes

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…Protógenes:encontro em SP

protogenes

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Maria Olívia

Na próxima segunda-feira,  23, o dramaturgo e novelista Lauro Cesar Muniz pilota encontro entre o Delegado da Polícia Federal, Protógenes Queiroz e artistas brasileiros. O evento será no Teatro Parlapatões, espaço que se firmou na vida noturna de São Paulo, na Praça Roosevelt, às 20h30min.

Na pauta da noite, Teatro e poder é o tema da palestra de Queiroz, responsável pela Operação Satiagraha, que levou para a cadeia, entre outros, o banqueiro Daniel Dantas, e uma sessão de autógrafos do escritor e jornalista Fernando Moraes, autor de Olga, Chatô, o Rei do Brasil, Corações Sujos, Na Toca dos Leões, O Mago, entre outras biografias e reportagens que venderam mais de dois milhões de exemplares no país.

Aos 61 anos, Fernando Moraes tem consolidada sua carreira de jornalista e escritor. Trabalhou em grandes jornais e revistas, recebeu três vezes o Prêmios Esso e quatro vezes o Prêmio Abril. Na política, foi deputado estadual em São Paulo por dois mandatos, além de Secretário Estadual de Cultura (1988-1991) e de Educação (1991-1993).

Aproveito o espaço para informar (e solicitar a adesão) aos blogueiros do Bahia em Pauta que está rolando um abaixo-assinado na rede – www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/5223 – subscrito por entidades de classe, personalidades e cidadãos brasileiros, endereçado ao Senhor Ministro da Justiça, Tarso Genro, solicitando adoção de providências legais e legítimas para por fim a perseguição implacável ao servidor público Protógenes Queiroz, que, desde abril de 2008 até hoje, vem sendo punido e constrangido publicamente, teve seu salário reduzido e é vitima de uma perseguição política sem precedentes na história recente deste país, que vem acarretando graves consequências à saúde de seus filhos e no seu círculo familiar.

Nos últimos 18 meses, o delegado já recebeu mais de 10 intimações – nunca na privacidade de seu domicílio e sempre em público, ação destinada a criar-lhe constrangimento moral, que afronta o Estado Democrático de Direito, enxovalha a imagem da Polícia Federal – que, até pouco tempo, desfrutava de excelente conceito junto à sociedade, e consterna a opinião pública.

Maria Olivia é jornalista

nov
18
Posted on 18-11-2009
Filed Under (Artigos, Claudio) by vitor on 18-11-2009

João Carlos: Pela honra do Bahia
Joca
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Deu em Terra Magazine

CLAUDIO LEAL

O presidente do Esporte Clube Bahia, Marcelo Guimarães Filho, move um processo contra o jornalista e escritor João Carlos Teixeira Gomes em razão de críticas à diretoria do clube, no artigo “Como salvar o Bahia”, publicado no jornal baiano “A Tarde”. Apresentado em 27 de outubro, o processo “2925365-2/2009” corre na 15ª Vara Crime de Salvador e será apreciado pelo juiz Antonio Silva Pereira.

“Em entrevista a Terra Magazine, Guimarães, cartola e deputado federal (PMDB), expõe o trecho que motivou a ação judicial:”
– Eu não tô aqui agora nem com a ação, nem com o texto, o que eu vou tentar reproduzir talvez não seja literalmente a mesma coisa, mas foi algo do tipo: o dinheiro do clube sai pelos ralos ou pelos bolsos de quem o dirige. Eu acho que aí, né… Já passa do limite.

No artigo editado no jornal “A Tarde”, em 17 de outubro de 2009, Teixeira Gomes lamentou “que o clube tenha chegado ao nível de humilhação a que foi atirado pelas administrações que o desmoralizam há tantos anos consecutivos”.

Filho do primeiro goleiro do Bahia, o escritor prosseguiu: “As últimas diretorias do Bahia conseguiram uma façanha esportiva realmente inédita: inventaram a crise ininterrupta, a decadência irreversível, a degradação permanente, portanto a mais injustificável e dolorosa.”

O trecho que irritou o presidente do clube traz uma crítica fundamentada em reportagens jornalísticas sobre o grupo de cartolas que comanda o Bahia há mais de 30 anos, aqui e ali renovado por herdeiros e políticos aliados: “Lançaram o Bahia em todas as divisões inferiores, não conseguem ganhar nem o campeonato baiano, fazem contratações desastrosas (como a de Paulo Carneiro, confissão de falência de comando), jamais conseguiram armar um time digno, estão alienando todo o patrimônio sem construir coisa alguma, as rendas dos jogos somem pelo ralo (ou pelos bolsos), as contas (irregulares) vivem sob suspeita, como o provou A TARDE em recente reportagem.”

Em entrevista a Terra Magazine, uma semana antes deste artigo, Teixeira Gomes havia conclamado a torcida tricolor a reagir, nas ruas, contra os cartolas do Bahia. “Que a torcida do Bahia incorpore o espírito revolucionário dos baianos do 2 de Julho e se una nas ruas, nas praças, pressionando nas rádios, na internet e nos jornais, os incompetentes que afundam um clube glorioso”.

Procurado na tarde desta quarta-feira, João Carlos Teixeira Gomes não foi encontrado. Joca, como é conhecido desde os tempos da Geração Mapa – protagonizada por Glauber Rocha – é ex-editor-chefe do Jornal da Bahia e autor, entre outros livros, de “Tempestade Engarrafada”, de “Glauber Rocha, esse vulcão” (melhor biografia sobre o cineasta), do best-seller “Memórias das Trevas” e do romance recém-lançado “Assassinos da Liberdade”.

Na década de 70, durante a ditadura militar, Joca foi perseguido pelo governador biônico Antonio Carlos Magalhães e enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Em 1972, numa decisão histórica, o Superior Tribunal Militar deu vitória ao jornalista, que continuou a se opor ao governador imposto pela ditadura.

O presidente do Bahia, que integrou o grupo político de ACM, afirma que não conhece a história do jornalista.
– Não, não o conheço e, sinceramente, eu fico bastante sentido por outro lado, porque não o conheço. Conheço a história dele de ouvir falar, mas nunca troquei palavra com ele, nunca apertei a mão dele. E ele não conhece as minhas intenções – diz o cartola.
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Leia a íntegra da entrevista do presidente do Bahia, Marcelo Guimarães,

em Terra Magazine  (  http://terramagazine.terra.com.br )

nov
18

Este editor do Bahia em Pauta recebeu da Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas um honroso convite para participar da Sessão Solene na qual se fará a entrega da Comenda Ledo Ivo aos escritores Leda Almeida e Carlito Lima. A solenidade ocorrerá com a presença do patrono, poeta Ledo Ivo. Haverá uma apresentação teatral de poemas e textos de Ledo Ivo pelo grupo dos atores Homero Cavalcanti e Ronaldo Andrade.

Dia: 18 de novembro de 2009.

Hora: 16:00 hs.

Local: Plenário da Assembléia

Praça Pedro II – Centro – Maceió
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Comentário: Deus e todos os orixas da Bahia sabem como gostaria de estar presente na festa da tarde desta quarta-feira, na capital alagoana, para levar pessoalmente o meu abraço mais forte e aplaudir o escritor, cronista e blogueiro Carlito Lima, na hora da colocação no peito do velho Capita, este alagoano fora de série – como escritor e figura humana – da comenda tão merecida.

Como, infelizmente, não será possível , guardo o abraço pessoal e a generosa promessa de farra em Maceió ao lado de Carlito, Duque de Jaraguá – que acaba de lançar “As Mariposas Também Amam”, inperdível livro de crônicas – para outra vez.

De Salvador, onde Carlito Lima viveu, terra que ele ama intensamente, baterei palmas , e sei que não o farei sozinho. O jornalista e blogueiro Chico Bruno e o artista plástico Angelo Roberto – o da “Bahia de Todos os Ângelos”, belo capítulo de seu fantástico livro de memórias, que recomendo a todo mundo que ama a boa leitura -, seguramente farão o mesmo esta tarde.

Mando, além disso, as palavra do artigo que no Carnaval de 2008, tão contente e emocionado quanto hoje, escrevi sobre Carlito Lima

(Vitor Hugo Soares, editor)

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Carlito Lima em Maceió
Calima
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Para Carlito Lima

VIA NORDESTE

Vitor Hugo Soares

Antes da cantora Ivete Sangalo pespegar aquele beijo de faz-de-conta na boca do atoleimado apresentador da TV Bandeirantes, para um Brasil inteiro de audiência, eu já estava a quilômetros de distância da folia de Salvador. Cortava estradas e braços de rios no Nordeste, a caminho de Maceió, a capital alagoana onde o carnaval se resume a um ou dois mascarados, extraviados provavelmente dos desfiles do Galo da Madrugada, ou do Madeira do Rosarinho, em Recife e Olinda.

Quando entrei na Linha Verde, rumo a Aracaju, primeira etapa na rota de fuga, nem desconfiava da presença na “cidade da Bahia” – como dizia Jorge Amado – da bela Naomi Campbell. Segredo bem guardado, ela desembarcou no Curuzu a convite bem remunerado do publicitário Nizan Guanaes, para fazer marketing e emprestar charme internacional ao desfile do bloco afro, Ilê Aiyê, “o mais belo dos belos”.

À noite, vi de longe, pela TV, as lágrimas que escorriam dos olhos comovidos da “top” britânica. Senti uma pontada de quase arrependimento pela ausência, arrefecida em seguida com a explicação da modelo: “estou muito feliz no meio da minha gente”. Recuperado do rápido ataque de nostalgia, lembrei: estava nas alagoas de Graciliano Ramos, de “Caetés”, de Djavan, da “farinha boa”, e de Cacá Diegues, de “Bye, Bye, Brasil” e de “Deus é Brasileiro”.

Portanto, tinha muito para ver e aprender. Não poderia me deixar impressionar por tão pouco. Ainda assim, devo esclarecer: deixar Salvador nesta época é coisa que faço raramente, a não ser por cansaço ou tédio. Amo o carnaval da Bahia na receita original de sua fantástica mistura, embora reclame do excesso de botox e de cirurgias plásticas que têm alterado a face de uma das mais extraordinárias festas populares do País, a título de “profissionalização” e “autofinanciamento”.

É como se a folia baiana, famosa exatamente por sua fabulosa mistura de componentes culturais, nascida da espontaneidade participativa das ruas e das raças, se resumisse agora a um mero espetáculo de celebridades de fama duvidosa. Ou, pior ainda: simples questão de comércio, indústria e política, a que tudo parece se resumir, infelizmente, no Brasil dos dias correntes.

Desta vez, não resisti aos apelos do coração e da fadiga. Viajei para matar saudades nordestinas, principalmente do Rio São Francisco da minha meninice e adolescência. Navegar de balsa em sua foz, antes da anunciada transposição das águas já escassas – sabe-se lá para onde e para quem.

Rever Penedo, a incomparável localidade que extasiou Pedro II, na histórica passagem do Imperado por Alagoas, cujas marcas ainda se preservam nas ruas e pontos indispensáveis de visitação da cidade, neste período de celebração dos 200 anos do desembarque da Família Real no Brasil.

Até a placa da estrada de acesso a Palmeiras dos Índios, a cidade que um dia teve a felicidade de ter Graciliano Ramos – alagoano de Quebrânculo e maior referência estadual – como prefeito, é motivo de emoção renovada. Mais adiante, recordação do escritor e do seu conselho de que se deve escrever como as lavadeiras lá de Alagoas praticam o seu ofício. Vi algumas lavadeiras na beira do rio, nessa viagem. Elas executam seu trabalho ainda hoje, quase do mesmo jeito descrito por Graça.

“Começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem o pano, uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”, ensina o autor de “Infância”, em entrevista dada em 1948, que abre o site oficial do escritor.

] Os escritores nem sempre seguem as lições do mestre tão bem quanto as lavadeiras. Salvo algumas exceções, como Carlito Lima, que escuto com prazer e emoção no quarto do hotel, domingo de Carnaval, em uma entrevista à TV Assembléia, de Maceió. Ex-prefeito como Graciliano, criador, “com orgulho”, do carnaval de São Miguel, uma das únicas cidades onde se sente presença da folia de Momo na terra dos marechais, Lima é uma dessas figuras humanas surpreendentes e raras, a quem é fácil querer bem no primeiro contato.

Ex-capitão do Exército, engenheiro, boêmio, ambientalista, virou escritor e dos bons – aos 60 anos de idade. É o autor do livro “Confissões de um Capitão”, sucesso no país inteiro, com referências internacionais, considerado um dos melhores escritos sobre o golpe militar de 64. É um livro que todo mundo procura ansioso para ler, como fez o ator Antonio Fagundes, no Pontal do Peba, numa tarde de folga das filmagens de “Deus é Brasileiro”.

“Fagundes ficou encantado”, revela o diretor Cacá Diegues, com justo orgulho alagoano. O encantamento de que fala o cineasta se espelha nas histórias que Carlito Lima conta na entrevista à TV alagoana e escreve em suas crônicas.

Enquanto isso, as grandes emissoras do País se derramam em loas ao desfile do Galo da Madrugada, em Recife, às lagrimas de Naomi, no Ilê e às badalações dos camarotes. Na orla de Maceió como em todo percurso da via nordestina o que se escuta a todo momento é o sucesso “Beber, cair e levantar”, do baiano Marcelo Marrone, gravado por conjunto de forró em ritmo carnavalesco, que se eleva na contramão dos conselhos do Detran e do Jornal Nacional sobre a incompatibilidade da bebida com a direção.

Não adianta fugir: o carnaval resiste.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail:vitors.h@ig.com.br

nov
17
Posted on 17-11-2009
Filed Under (Artigos, Multimídia, Vitor) by vitor on 17-11-2009


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A canção para atravessar a madrugada e começar o dia nesta terça-feira, 17 de novembro, é “Laura”. Música tema do clássico filme do cinema americano com o mesmo título, na interpretação única e personalissima de Johnny Mathis. O vídeo lembra o filme e Gene Tierney, a lindissima e inesquecível atriz protagonista dessa joia ciematográfica que a canção ajudou muito a imortalizar.

Hoje a música vai especialmente para Laura Tonhá, também linda. Capaz de atrair olhares até em plena 5ª Avenida , Nova York, onde quase ninguém vira a cabeça para olhar ninguém. Ou em Londres mais recentemente, andando por Nothing Hill, Candem Town ou Oxford Street, com passos firmes e elegantes. Mas Laura Dourado Cardoso Tonhá é, acima de tudo, uma doçura de pessoa e talentosa publicitária baiana, cosmopolita dona de um dos textos mais modernos, sensíveis e inteligentes deste site-blog.

Laurita é a aniversariante desta data. Bahia em Pauta festeja uma de suas integrantes mais fundamentais desde a origem, diretora executiva e responsável pelo marketing do BP, além de figura mais que querida e admirada por todos os que pensam e fazem o Bahia em Pauta, a começar pelo editor que assina estas linhas em nome dos demais. Beijos, sucesso e toda felicidade que Laura merece.

(Vitor Hugo Soares, pela equipe do BP)

nov
16
Posted on 16-11-2009
Filed Under (Artigos, Ivan) by vitor on 16-11-2009

Desagravo a Iansã
Iansã
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Deu na Tribuna da Bahia

Revoltado em razão do feriado da Proclamação da República ter caído em um Domingo, o jornalista Ivan de Carvalho, que não acredita em coincidências, diz em sua coluna desta segunda-feira, 16, na Tribuna da Bahia,que só pode entender esta simultaneidade como uma escolha mal intencionada do Marechal Deodoro. Em protesto, Ivan substitui seu artigo politico habitual por uma nota sobre o apagão publicada no Blog Gama Livre, que lhe permite fazer um ato de desagravo a Iansã, a poderosa rainha dos raios dos cultos de Candomblé. Confira. (VHS)

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OPINIÃO /RAIOS E FERIADO

SOBROU PARA IANSÃ

Ivan de Carvalho

Estou revoltado. O aniversário da Proclamação da República caiu em um domingo. Perdemos um feriadão. Deveria cair na segunda-feira, ainda que fosse necessária proclamá-la novamente. Além disso, acho uma falta de respeito, o domingo é o Dia do Senhor para os cristãos e este é um país de imensa predominância cristã. E, ainda mais, com as reconhecidas inclinações a Dorival Caymmi, especialmente na Bahia e com a única exceção do povo do Estado de São Paulo, não se deveria dedicar o domingo a nada que não fosse ao Senhor e ao descanso. Como não acredito em coincidências, convicção já aqui afirmada várias vezes, só posso entender essa simultaneidade como uma escolha mal intencionada do Marechal Deodoro.

Por isto, não escrevi o costumeiro artigo para hoje, salvando assim os meus poucos e teimosos leitores do costumeiro aborrecimento. Além disso, o risco de um novo apagão um pouco mais amplo, que à noite atingisse as linhas de transmissão e durante o dia, o Sol (na segunda-feira, houve um apagão na estrela Eta Carinae), me desestimulou. Quem poderia ler? Vou, pois, apenas transcrever o que li no blog Gama Livre, cujo editor, um dileto irmão, mora no Gama, cidade satélite de Brasília e não sofreu pessoalmente com o apagão, o que lhe terá permitido tratar do assunto com o bom humor dos brasileiros que tiveram a mesma sorte ou graça. Porque sorte ou ajuda divina terão sido fundamentais para não estar entre os 60 milhões de pessoas (segundo alguns observadores) ou 100 milhões (segundo outros) que em 18 Estados (64,28% das 27 unidades da Federação – 26 Estados mais o Distrito Federal) que conheceram as trevas sem culpa. Eis o que disse na sexta-feira o blog Gama Livre, sob o título “Sobrou para Iansã”:

“Dilma Roussef, a toda poderosa ministra-chefe da Casa Civil da Presidência, considerou o apagão em 18 estados brasileiros como um “caso encerrado”. Mas, ainda ontem (quinta), afirmou que pode haver novo apagão. Uma coisa é certa, o governo jogou para a Rainha dos Raios toda a culpa pelo apagão geral, mesmo depois dos especialistas do Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) informarem que no horário do apagão as “descargas mais próximas do sistema elétrico estavam a aproximadamente 30 quilômetros da subestação e cerca de 10 quilômetros de uma das quatro linhas de Furnas de 750 KV e a dois quilômetros de uma das outras linhas de 600 KV, que saem de Itaipu em direção a São Paulo”.

E mais. Segundo aqueles especialistas, a baixa intensidade da descarga registrada, menor que 20 KA, não seria capaz de produzir um desligamento da linha, mesmo que a descarga incidisse diretamente sobre ela. Apenas descargas com intensidade maiores que 100 KA, atingindo diretamente uma linha é que poderiam desligar a transmissão de energia.
Como desagravo, coloco adiante a prece à Iansã: “Oiá… Oiá… nossos passos. Iansã, Deusa máxima do Cacurucaia… Bamburucena, Rainha, Mãe e Protetora. Eparrei nossa mãe Divina. Deusa divina dos ventos e das tempestades. Deixa-nos sentir também a tua bonança. Iansã dos relâmpagos, dá-nos uma faísca da tua graça divina. Eparrei, Eparrei… Oiá!”.

nov
14
Posted on 14-11-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos, Multimídia) by vitor on 14-11-2009


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Vasco campeão no Maracanã
vasco
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CRÕNICA/ CRUZ DE MALTA

VASCO, vASCO,VASCO!

Aparecida Torneros

São 23 horas e 50 minutos de uma noite de sexta feira, 13, dia de superstição, noite de bruxas, azar ou sorte, mas o fato é que há um barulho ensurdecedor de buzinas à minha volta, que moro nas imediações do Maracanã, estádio que acaba de testemunhar a vitória vascaína, time carioca recuperado à primeira divisão, e agora campeão da rodada.

Vem à minha cabeça a noite do “Apagão”, dias atrás, recente ainda na memória de todos nós, quando vários estados brasileiros sofreram o colapso do fornecimento de energia e praticamente a força-motriz brasileira representada pela região sudeste esteve à mercê de um contraditório e inexplicado ainda episódio que nos fez sentir quase nos tempos das cavernas, não fosse a prestimosa comunicação do veículo rádio, via satélite, e equipado com modernos retransmissores movidos a geradodes potentes, que exerceram o papel fundamental de nos informar o que estava acontecendo.

Nosso povo é ordeiro em sua maioria. Quando tudo parecia à beira do caos, o volume de acidentes, na verdade, foi menor do que o esperado, e a manhã do dia seguinte trouxe a retomada da vida nacional, embora com prejuízos que ainda estão sendo avaliados além de investigação em curso que se faz necessária para elucidar as causas pífias ou naturais de tamanho desconforto a que nos vimos submetidos.

Mas não é do “Apagão” que quero falar. Quero é saudar o “Clarão”, a luz no fim do túnel, a recuperação do prestígio do futebol carioca, este esporte que movimenta massas de torcedores, gente efusiva, um povo capaz de tanta comemoração e alegria, e , enquanto escrevo, o som dos fogos invade meus ouvidos, gritos de euforia, festa da torcida, a força de uma população ciosa de direitos, deveres e com direito à festas como esta.

Um movimento inusitado se faz por aqui, as camisas em preto e branco, as bandeiras, os abraços, os gritos de “Viva o Vascão”, gente rindo, gente chorando de emoção, o Rio de Janeiro em festa, até os times adversários, através de seus fiéis escudeiros, reconhecem o esforço e a merecida vitória do Clube de Regatas Vasco da Gama.

Imagino a felicidade da minha amiga Penha, agora, com quem só devo conseguir falar amanhã, já que ela deve estar saindo do Maracanã e se dirigindo para São Januário, onde haverá, com certeza, festa a noite inteira. Penha, advogada, com quem trabalhei por muitos anos, é chefe da torcida que leva o nome de “Tulipas Vascaínas”. Senhora respeitada pela profissão e conduta, mãe de filho já homem feito, ela tem paixão pelo seu Vasco, o acompanha em jogos nacionais e internacionais, comanda seu grupo de torcedores, não falta às partidas, levando no peito a medalhinha com a Cruz de Malta, e vibrando com cada conquista do seu clube do coração.

Como a Penha, milhares de vascaínos espalhados pelo Brasil e pelo mundo, a essa hora, exultam com o título, e eu conheço um que se encontra agora no interior da França, Antonio Flores, que acompanha tudo a respeito do time que ele idolatra, mesmo morando naquele país há mais de 30 anos. A torcida esportiva é mesmo assim, vai além das fronteiras, ultrapassa a razão, carrega de emoção e afeto, ilumina a alma de quem torce, é motivo de respeito por quem acompanha, une criaturas de raças e credos diversos, junta em torno de uma bandeira , um time, uma jogada, um lance, um gol, muitos corações, como neste instante, vejo e acompanho a torcida vascaína que deixa o estádio, com seu carnaval improvisado.

Futebol e vitória representam luz e energia para o povo brasileiro, esse mesmo povo que merece respeito, porque é formado de grande massa trabalhadora, e tem nas partidas de futebol um grande alento, uma intensa válvula de escape, fazendo com que nos orgulhemos do nosso esporte nacional, o mesmo que já nos deu tantas Copas do Mundo e agora, nos faz esquecer as mazelas do “Apagão”, porque nos faz cantar com os vascaínos o seu hino de Glória.

Parabéns ao Vasco da Gama, aos seus jogadores e à sua contagiante torcida! Viva o “Clarão” da alegria futebolísitica e abaixo o “Apagão” amadorístico”!

Cida Torneros, jornalista e escritora ( torcedora do América do Rio) mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária. (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com)

Aparecida Torneros

nov
13
Posted on 13-11-2009
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 13-11-2009

Adoniran…
adonirran
…Zé Alencar e…
zealencar
…Buñuel: luzes na escuridão
lbunuel
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ARTIGO DA SEMANA

ADONIRAN, ZÉ ALENCAR, BUÑUEL E O APAGÃO

Vitor Hugo Soares

Petardos passam zunindo sobre cabeças no meio do azucrinante tiroteio marcado pela hipocrisia política típica dos comícios pré-eleitorais. É o que se vê por todo lado desde o apagão que deixou no escuro 18 estados do País. Governantes, políticos, gente de jornal, notórios cientistas, mas, principalmente candidatos, falam, se contradizem e se desentendem como no tempo de babel. No bafafá de Itaipu, todos, ou quase, falam de torres e usinas com olhos e idéias fixas não no desastre elétrico, mas na eleição que vem aí em 2010.

O blecaute do começo da semana deflagrou este clima meio surreal, na política e na administração publica. Verdadeira guerra de torcidas onde se diz e se inventa qualquer coisa e ninguém se entende, nem se importa com fatos ou cobra verdade científica e histórica das coisas e das pessoas, nem mesmo dos técnicos e especialistas no assunto. Verdadeiro Fla x Flu ou Ba x Vi dos bons tempos do futebol do Rio de Janeiro e da Bahia, transformados em vale-tudo político-eleitoral.

Em Salvador não faltou luz desta vez. Graças à velha e boa usina da CHESF, em Paulo Afonso, construída no governo de Getúlio Vargas e que vi ser inaugurada pelo presidente Café Filho em dia inesquecível da vida de um garoto nascido na beira do Rio São Francisco. Parece lugar seguro para não perder lances eletrizantes (sem trocadilho) deste tumulto nacional.

Ainda assim, sinto-me, outra vez, como aquele personagem no bar do bairro paulistano do Bixiga, no samba de Adoniran Barbosa. Protegido debaixo de uma mesa, ele observa o malandro Nicola fazer misérias no meio da pancadaria generalizada em que voavam pizzas e bracholas para todo lado. Terminada a briga, no fim de “Um samba no Bixiga”, gente ferida para todo lado e o breque genial de Rubinato: “A situação está cínica. Os mais pió vai pras Crínicas”.

Grande Adoniran! Que bom poderia ser para o país, se políticos, governantes, ministros, gerentes, cientistas e jornalistas parassem um pouco com esta zoada para escutar a letra e a melodia do samba da briga na cantina do Bixiga.

Não sendo possível, que ao menos escutem com a atenção devida os conselhos oferecidos ontem por um sábio mineiro da atualidade, cada dia mais profético e essencial: o vice-presidente da República José Alencar. Enfim, alguém que olha em perspectiva, e vê muito além do próprio umbigo ou da eleição presidencial do próximo ano.

Para Alencar, o apagão pode ter sido uma “topada que ajuda a caminhar”. Bom mineiro que não nega a origem, bem sucedido empresário e político clarividente, ele sabe como poucos que o Brasil está amarrado e sujeito aos muitos riscos de seu tradicional modelo dependente da energia hidrelétrica de usinas monumentais como Itaipu e Paulo Afonso. Precisa diversificar sua matriz energética e investir em fontes alternativas – nuclear, térmica, eólica e a gás. “Há topadas que ajudam a caminhar. Então esperamos que essa nos ajude a ter uma energia com segurança absoluta para que isso não se repita”, ensinou o vice-presidente durante inauguração de um centro de inclusão social do Senai, no Rio de Janeiro.

Alencar considera fundamental descobrir o que provocou o apagão e, se tiver havido falha, que ela seja corrigida e os responsáveis punidos exemplarmente. Mas o principal, segundo ele, é que o episódio sirva para ser repensada a matriz energética. “O Brasil tem todas as condições de fazer o enriquecimento de urânio com fins pacíficos, mas não pode porque assinou o tratado de não-proliferação de armas. É preciso ver se isso está funcionando com outros signatários. A verdade é que não é bem assim”, afirmou, com a coragem dos que pregam idéias, princípios sem se importar se isso pode render ou tirar votos nas próximas eleições. Grande Zé Alencar!

E o espanhol Luis Buñuel, onde entra nessa história toda? Bem, leio na “Ilustrada” do jornal Folha de S. Paulo, que “Meu Último Suspiro”, seu mágico livro de memórias, acaba de ganhar reedição. Isto é pura luz no meio do breu. Na matéria assinada por Marcos Strecker e na entrevista de Jean-Claude Carrière, na Folha, recebo preciosas informações que desconhecia sobre a fundamental participação do cineasta francês na concepção e execução desta obra indispensável, a não ser pelas breves palavras de Buñuel na introdução do exemplar que tenho. Mas deixo ao leitor a tarefa de descobri-las também.

O que quero agora é recolher duas referências de “Meu Último Suspiro”, que considero perfeitas para este momento surreal do debate sobre o apagão brasileiro. A primeira é sobre a memória – a sua perda principalmente – um dos capítulos mais marcantes da obra: “Indispensável e toda poderosa, a memória é também frágil e ameaçada. Ela não é apenas ameaçada pelo esquecimento, seu velho inimigo, mas também pelas lembranças enganosas que dia após dia nos invade”, diz Buñuel.

A segunda é sobre proliferação da informação, no capítulo em que o cineasta enumera as coisas de que ele mais gostava e as que mais detestava; “A informação-espetáculo é uma vergonha. Os títulos enormes – no México atingem recordes – e as manchetes sensacionalistas me provocam náuseas. Todas essas exclamações sobre a miséria, para vender um pouco mais de papel! Para quê? Além disso, uma notícia destrói a outra.”

Grande Buñuel!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

nov
13
Posted on 13-11-2009
Filed Under (Artigos, Regina) by vitor on 13-11-2009

Malik: que é esse homem?
malihasan
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ARTIGO/ RETRATO

TERRORISTA OU ATERRORIZADO?

Regina Soares

O médico psiquiatra Maj. Nidal Malik Hasan, 39, acusado de disparar contra seus colegas em Fort Hood, Texas, foi oficialmente acusado no sistema legal militar dos Estados Unidos da América como responsável por 13 mortes premeditadas. Outras acusações podem ser acrescentadas, inclusive a 14ª vítima, o feto no ventre de uma oficial grávida.

Hasan é acusado de abrir fogo contra um grande grupo de soldados que estavam sendo avaliados fisicamente, sendo vacinados e processando documentações que os habilitavam a uma próxima partida para serviço militar nas guerras e bases militares fora do território americano. O acontecimento é considerado um dos piores e mais extraordinários assaltos a mão armada em uma base militar americana, principalmente se levarmos em consideração o local e os personagens da tragédia.

Consta dos seus registros que Hasan se mostrava agressivo, defensivo e argumentativo nas suas discussões sobre sua fé muçulmana e do fato de ser obrigado, por força das suas responsabilidades, como oficial da US ARMY, de ir servir na linha de combate no Afganistão, para onde deveria partir ainda nesse mês contra “seus irmãos”. Descendente de palestinos e devoto muçulmano, Hasan, repetidamente se referia à sua forte crença nas discussões com seus companheiros. Chegou a dizer que se considerava “Muslim first, than American”.

O serviço militar americano, embora voluntário, torna aqueles que se dispõem a servir seu país obrigados a cumprir certos compromissos, como é de se esperar. Em troca dos seus serviços, um dos benefícios recebidos é ter sua educação militar e profissional financiadas pelo governo. De acordo com registros oficiais, Hasan tinha quase 20 anos de serviço militar, inclusive 8 como soldado e concluiu rigorosos cursos de medicina. Apesar de seu conflito de consciência contra participar em combates onde poderia confrontar outros muçulmanos, era praticalmente impossível que fosse liberado de suas obrigações.

A familia informouáque ele desejava se afastar do Servico Militar e chegou a procurar advogado que o representasse na busca de uma maneira legal para evitar seu envio para o Afganistão.

A investigação será longa e profunda. O FBI já se manifestou dizendo que os contatos mantidos entre Hasan e o considerado radical clérigo muçulmano, Anwar al-Awlaki, que tem encorajado mulçumanos a matar soldados americanos no Iraque, não foram reportados aos seus superiores por não ter sido considerados de caráter terroristas.

Depois do falecimento dos seus pais, antes de concluir seus estudos de medicina, o solitário e gentil médico psiquiatra, atormentado entre Patria e Religião, chegou a um beco sem saida. Ou, pelo menos, ele não conseguia ver uma…

Regina Soares, advogada, mora em Belmont, na área da Baia de San Francisco, Califórnia (USA)

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