nov
03

Cochannel

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CRÔNICA / CINEMA E COMPORTAMENTO

COCO CHANEL:GARRA DE VIVER E VENCER

Aparecida Torneros

Ela nasceu no final do século XIX.
Atravessou o século |XX, com galhardia.
Foi pioneira, da vida, em seu estilo próprio, e da moda, com sua arrojada disposição de inovar. Ficou famosa, faleceu em 1971, mas seu trabalho permanece, sua lendária griffe se perpetua, e seus conceitos de liberdade de vestir para as mulheres, vieram para reinar. No filme, “Coco antes de Chanel”, o que vi, pareceu-me ainda muito pouco, em face da sua longa e produtiva vida. Entretanto, o que se vê relatado é o eixo básico que formatou sua garra para viver e vencer, num mundo competitivo e masculino, que ela tão bem enfrentou para ousar ser quem foi e continua sendo, como personagem ímpar da história feminina dos últimos tempos.

Coco Chanel, a Gabrielle aguerrida, afoita, talentosa e perspicaz, tão bem interpretada por Audrey Tautou, nos é trazida com a performance das criaturas que não se acomodam e que se entregam aos desafios do cotidiano, inclusive do amor, com sua paixão ou seu final trágico.

As imagens mostram a vida bucólica de uma França emergente para a indústria, os primeiros automóveis, a sociedade que se diverte em torno dos cavalos, o teatro com suas mulheres enchapeladas, os costumes dos espartilhos, dos excessos de flores, jóias, coisas que Chanel soube neutralizar e impor com seu estilo mais sóbrio, elegante, devastadoramente capaz de despertar a curiosidade masculina.

Através de roupas pudicas, fechadas, ela provou, muitas vezes, que o desejo se esconde onde se escondem as curvas, e também soube revelar as facetas da sensualidade feminina no jogo de luz e sombra, no pretinho básico, nas pérolas misteriosas, nos complementos charmosos, em bolsas, sapatos, chapéus e até perfumes.

O filme deixa no ar o longo tempo da sua caminhada enquanto estilista que se tornou referência mundial. O maior enfoque dessa obra da telinha, se dá à sua descoberta como pessoa, mulher, profissional e sua sede de vencer em Paris.
Há uma aura de paixão pelo desconhecido e pelo sucesso, coisas que Chanel não só perseguiu, como se apropriou com apetite voraz, sem voltar atrás, seguindo um caminho de trabalho, dedicação, sensibilidade e senso de oportunidade.
Uma mulher à frente do seu tempo, não resta dúvida, Coco Chanel, ainda pode ser contada, de mil maneiras e em todas, será sempre uma figura lendária, nos suscitando admiração e respeito. Senão, vejamos.

Chanel, quem não sonhou com ela, nos últimos 80 anos, em sã consciência, sendo mulher e habitando o Ocidente? Devo ter sido uma menina suburbana que a teve como referência distante e inatingível, enquanto a admirei de longe, acompanhei sua moda pelas revistas, notícias, ufanei com seus delirantes desfilhes e só fui usar uma gota de Chanel número 5, lá pelos meus 30 anos, quando ousei comprá-lo e submeter-me ao seu teor mágico.

Chanel, a lenda da moda, a dama do tailler, dos colares, dos sapatos semi abertos e bicolores, aquela das bolsas de matelassê, com alças em correntes, a mesma da feitiçaria francesa de mulheres magras, leves e deslizantes, ditando normas para atrizes, rainhas, primeiras damas, famosas que tinham acesso livre ao seu criativo dom de encantar.

Chanel, a menina pobre que se tornou estilista famosa. A doce mulher de negócios, uma experta cidadã antenada com a indústria da beleza e a sede capitalista do consumo de sonhos, ela mesma aparece agora em cinema, em mais de uma produção, assim como já apareceu em teatro, livros, seriados e ainda vai se superar em novas histórias que dela não cansarão nunca de falar.

Chanel, a mulher que revolucionou a mulher no século XX, trazendo-a para um lugar onde sua feminilidade flui diante de olhos amantes de pérolas, de paixões baseadas em imagens românticas e clássicas, apesar dos tempos modernos, um adocicado século antigo permanece no semblante de uma mulher que eterniza o amor em seu coração sedento de verdadeira paixão. Aí, nesse lugarzinho especial, se instala o estilo Chanel, entre um suspiro de prazer e um profundo respirar capaz de renovar a auto-estima feminina ou sua esperança diante da vida.

Cida Torneros, escritora e jornalista, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária. (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com)

nov
01

O editor de Bahia em Pauta recebeu inúmeras mensagens por e-mails, a propósito do Artigo da Semana, ”Na Bahia de olho no Uruguai”. O texto foi publicado na revista digital Terra Magazine (de Bob Fernandes), no Blog do Noblat e no site da Rádio Metrópole (Salvador) além, evidentemente, deste site-blog Bahia em Pauta.

A vontade , meio vaidosa confesso, era trazer todas essas mensagens para publicar no espaço principal deste Blog baiano, de coração latino-americano e sentimentos do mundo inteiro. Mas como isso é querer impossível, tecnicamente inviável, a saída é publicar a mensagem de um leitor que, para este editor, sintetiza as demais.

São palavras calorosas, informativas e bem escritas de um uruguaio que vive no Brasil e ensina há décadas em São Paulo: Dr. Fernando M. Araujo-Moreira, Professor Associado do
Departamento de Física e Engenharia Física – UFSCar (a conceituada Universidade de São Carlos)., onde ele coordena o Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia; a Rede Nacional de Nanobiotecnologia Aplicada a Medicina e a Defesa, e o Projeto UNIBRAL (Capes/DAAD)

Professor Fernando Araújo com a palavra:

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Encantos de Montevidéu
montevideu
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Caro Vitor,

Foi um prazer imenso, mais do que ler, “sentir” as suas palavras falando
da terra onde nasci, na sua matéria “Na Bahia de olho no Uruguai”.

Contrariamente ao que observo na maioria das reportagens sobre o Uruguai,o seu texto mostra claramente que “el paisito”, como carinhosamente nós o chamamos, entrou na sua alma e no seu coração. Acredito que são poucos os que, para mim, detém esse privilégio.

Há 26 anos, eu fiz o caminho inverso desses tantos nomes ilustres da
história recente que você menciona e adotei esta terra maravilhosa como a minha própria Pátria. Mas nunca deixei de ser uruguaio, nem de me emocionar até as lagrimas ouvindo o hino nacional do Uruguay, esse
pedacinho de terra tão sofrido mas também tão cheio de glórias.

O Brasil, de uma ou outra maneira, sempre tem estado ligado a todos nós … Crescí ouvindo a minha mãe comentar as obras de Jorge Amado, seu escritor predileto… Ou o meu pai ouvindo e se deleitando com as músicas do Villalobos. E, trazendo a tona uma das personagens que você menciona no seu texto.

O meu pai teve a honra de conhecer pessoalmente o presidente
João Goulart, vizinho da minha cidade natal, San Carlos, onde minha
família está desde a sua fundação em 1763! Na década de 60, quando o Jango ja estava no exilio, ele se dirigiu ao banco onde meu pai trabalhava (Banco Comercial, agencia Punta del ESte).

Lá, meu pai o reconheceu e, seguindo a típica educação “oriental” (como somos chamados os uruguaios) o chamou de “senhor Presidente”…. Até hoje meu pai conta a emoção que esse gesto causou no Jango, que não soltava a mão do meu pai num comprimento para lá de significativo.

Parabéns novamente pela sua matéria!

Um grande abraço,

Fernando
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E para fechar esta nota: Viva o Uruguai e sua gente especial! (Vitor Hugo Soares)

out
31
Posted on 31-10-2009
Filed Under (Artigos, Janio, Multimídia) by vitor on 31-10-2009

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CRÔNICA / LUGARES

Enquanto não chegar ao Leblon…

Janio Ferreira Soares

Recentemente estive no Rio de Janeiro, e a cidade continua linda e aparentemente tranquila. Pelo menos naquele pedaço que liga Copacabana, Ipanema e Leblon, sempre cheio de gente bonita e de dezenas de botequins frequentados por ubaldos e carusos, que tanto pode nos remeter a um fim de tarde em Itaparica ou a uma charge na primeira página de O Globo, quanto a uma novela de Manoel Carlos, aí dependendo do gosto do freguês.

O problema é o que rola no lado B da cidade depois que o Hotel Marina acende suas luzes e a Rocinha, Vidigal e adjacências também começam a piscar as suas num belo e assustador sincronismo, cujo resultado a gente só fica sabendo pelos jornais do dia seguinte. Aliás, a violência que acontece quase diariamente nas favelas do Rio me lembra aquelas chuvas de verão que inundam os fins de tarde de São Paulo.

Quem as vê pela televisão tem a impressão de que toda a cidade está um caos. Mas, para quem está na região dos Jardins ou na Av. Paulista, a realidade é outra.

É o que ocorre no Rio. Enquanto o couro come nos morros e favelas, as praias e bares da zona sul continuam lotados, nem aí pras balas traçantes que cortam os céus da Guanabara. E para a grande maioria que entorna um chope atrás do outro como se não houvesse amanhã, aqueles morros nada mais são do que uma espécie de mantenedores oficiais, cuja função é fazer chegar a eles o pó que inspira certos discursos repletos de sociologia barata e adornados por dialetos cheios de gírias e outros babados.

A propósito, Fernanda Torres escreveu uma genial peça que está em cartaz por lá, cujo título é Deus é Química. Conta a história de um casal (ela e Luiz Fernando Guimarães) que enquanto espera uma pizza acompanhada de 200 gramas de pó, assiste de um apartamento em Ipanema a uma guerra entre policiais e bandidos.

De uma forma bem humorada, Fernanda (ela mesma uma ex-viciada em cocaína) consegue chamar a atenção para esse tema tão polêmico, e ainda faz uma profecia. A de que, em breve, essa guerra pode finalmente chegar à zona sul. Aí, essa gente bronzeada que faz de conta que não tem nada a ver com isso, talvez acorde pro mundo. Ou continue pedindo uma pizza. Com a borda bem branquinha, faz favor.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso (BA), na região do Vale do São Francisco )


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COMENTÁRIO/THIS IS IT

MICHAEL VIVE

Regina Soares

Dia 28 de Outubro, somos os primeiros da fila do cinema da nossa cidade, esperando com ansiedade para tirar nossas dúvidas sobre o estado fisico, mental e musical de Michael Jackson, enquanto se preparava para o grande show da sua volta aos palcos durante um longo recesso.

Eu e meu filho, Pablo, somos fãs fieis e acompanhamos a carreira e vida de MJ por várias decadas. Esperavamos ver os ensaios do tão badalado show e conheciamos algumas estorias envolvendo personagens por traz das câmeras, estórias que vieram a tona com o trágico desaparecimento do personagem central. Mas não sabiamos ao certo o que conseguiram salvar ou se o que foi salvo deveria ser apresentado ao público.

Ficamos pasmos diante do que nos foi presenteado. Michael parecia estar em um dos seus melhores momentos. Vibrante, elétrico, no comando do espetáculo, como sempre, projetando uma figura física esbelta e firme, em plena consciência e soltando a sua voz com perfeição. Simplesmente deslumbrante!

O show que iria ser apresentado em Londres, seria um espetaculo que ficaria na história: muito bem produzido, com um grupo de dancarinos e musicos de primeira categoria, liderados pelo magnifico Rei do Pop, em sua melhor forma.

Gracas as filmagens durantes os ensaios, podemos sentir mais de perto a dedicação e o amor que MJ desejava transmitir aos seus fãs, familiares, principalmente seus filhos, para quem o filme é dedicado e ao mundo que lamentará para sempre a sua partido tão prematura.

Nao percam se aparecer a oportunidade de ver o que poderia ter sido.

Regina Soares é advogada, mora em Belmont, área da baia de San Francisco, Califórnia (EUA).

out
31
Posted on 31-10-2009
Filed Under (Artigos, Ivan) by vitor on 31-10-2009

Deu na Tribuna da Bahia

Sempre atento na denúncia de medidas de poder do Estado que atentam contra o direito fundamental do individuo à privacidade, o jornalista político aponta bateria certeira em sua coluna deste sábado, 31, na Tribuna da Bahia, na direção da Resolução do Contran. Os objetivos declarados da medida são tributário, de ordenação do trânsito e de recuperação de veículos em caso de furto, roubo ou sequestro. “O problema são as lacunas da medida”, suspeita o jornalista. Confira os motivos no texto do artigo de Ivan de Carvalho, que o Bahia em Pauta reproduz a seguir. (VHS).

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Chips em humanos:Em breve será assim?
futuro
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ARTIGO / DE OLHO

Um dia vão por chips nas pessoas

Ivan de Carvalho

Não está na Constituição. O que está na Constituição, como cláusula pétrea, é o direito fundamental do indivíduo à privacidade.

Não está em lei ordinária. Nenhuma foi aprovada pelo Congresso para instituir e regular o assunto. Nenhuma faz referência a ele.

Não está em medida provisória em tramitação no Congresso. Nunca o presidente da República assinou uma MP sobre o assunto e a enviou ao Congresso para apreciação.

Não está em um decreto presidencial. Nenhum presidente da República assinou qualquer decreto criando e regulando esse instrumento de espionagem.

Está numa simples Resolução do Conselho Nacional de Trânsito, que a fez publicar em 22 de novembro de 2006, com prazo de cinco anos para sua implantação completa, pela indústria e pelos Estados, na frota nacional de veículos automotores, incluindo desde carretas a ônibus, automóveis, utilitários e motocicletas.

Parece que, por não serem automotores, mas semoventes, escaparam os cavalos, burros, jumentos e similares que não constam da frota nacional, a exemplo de camelos e elefantes. Também o homem escapou, estou certo de que apenas provisoriamente. Ele é um semovente, mas não é considerado automotor, nem veículo, ainda que frequentemente se comporte como tal, ao carregar outra pessoa, ou se é, por exemplo, um estivador com um saco nas costas.

Creio que a Resolução do Contran deixa lacunas. Carroças, charretes, carruagens são veículos de tração animal, não automotores, e riquixá é de tração humana. Devem receber o chip de fábrica, como os veículos automotores, ou estão dispensados do chip bisbilhoteiro?

Bem, segundo a resolução do Contran, todo o sistema deveria estar funcionando – implantado e operado pelos Estados – em 2011. Mas somente na última quinta-feira o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) definiu a tecnologia a ser usada. Então, adiou o funcionamento integral do sistema para 2014.

Ganhamos algum tempo para lutar contra essa invasão de privacidade, esse monitoramento das pessoas pelo Estado, mas pouca gente parece interessada em travar essa batalha. A quase totalidade das pessoas não consegue entender seu alcance, não vê o que está em jogo, além de estar profundamente desinformada sobre o avanço do Big Brother – não a besteirada da Rede Globo, mas o verdadeiro, o representado pelo monitoramento e controle estatal do indivíduo, com uma imensa sofisticação tecnológica em relação ao que foi descrito no romance 1984, de George Orwell.

O chip será instalado no pára-brisa dos carros, cujos dados terá. Antenas vão captar e transmitir as informações para uma central que identificará a localização e a situação do veículo. Os objetivos declarados são tributário, de ordenação do trânsito e de recuperação em caso de furto, roubo ou sequestro. O chip permitirá o rastreamento do veículo. Se entrar em um motel ou parar no estacionamento de uma igreja, o Estado saberá. Se uma dessas coisas for eventualmente proibida, o chip garantirá o êxito da perseguição policial. Um dia vão por chips nas pessoas. E a maioria vai gostar.

out
30
Posted on 30-10-2009
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 30-10-2009

Nos comícios do tupamaro Mujica…
festpolitica
…e do liberal Lacalle: festa democrática
Lacalle
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ARTIGO DA SEMANA

NA BAHIA DE OLHO NO URUGUAI

Vitor Hugo Soares

Dos lugares por onde já passei no mundo, um dos que mais gosto fica bem ali, minúsculo geograficamente mas imponente em sua presença marcante na história política e social da América do Sul. Sim, estou falando do Uruguai, que chamo sempre pelo nome completo – República Oriental do Uruguai. Assim como seus cidadãos de origem o fazem, com o justo orgulho cívico desta gente firme e participativa, principalmente em tempos de campanhas políticas como agora, quando se decide a escolha do sucessor do presidente Tabaré Vasquez.

Sejam partidários da Frente Ampla, de esquerda, do candidato José Mujica (ex-tupamaro amigo pessoal de Lula); sejam os adeptos do Partido Nacional, do liberal Luis Lacalle (admirador de FHC ), dá gosto ver a intensidade dos comícios e a maciça presença popular nas urnas. Assim, recomendo a quem gosta do bom combate político e debate de programas e ideias, dar uma olhada mais atenta na casa do vizinho a partir deste fim de semana, quando recomeçam os eletrizantes comícios da fase decisiva.

No primeiro turno o Uruguai já foi uma festa democrática de dar inveja, como sempre. O índice de comparecimento às urnas beirou os 90% do eleitorado apto a votar. Fato digno de admiração até mesmo naqueles países tidos como os mais civilizados e democráticos do planeta. Os Estados Unidos ou a França, inclusive.

Para muita gente, no entanto, aquele bravo pedaço do continente não passa de um prosaico balneário para repouso e lazer de aposentadas celebridades de Hollywood, com palacetes construídos em Punta Del Este. Ou belo recanto de novos ricos paulistas, gregos e baianos que ultimamente se esbaldam entre Montevidéu e Punta Del Este. Há ainda também quem veja o país como mais um desses paraísos fiscais espalhados pelo planeta. Lugar onde governantes, políticos e empresários corruptos costumam esconder do Fisco e das CPIs suas fortunas construídas da noite para o dia nas estranhas transações realizadas em seus respectivos e assaltados países.

“Venho de longe, sempre escutando isso”, dizia o ex-governador Leonel Brizola, que conheci pessoalmente por lá em uma das fases de seu longo e sempre polêmico exílio e retorno, como mais uma vez se verá no livro de memórias que o jornalista baiano Sebastião Nery irá lançar em Recife, na festa de aniversário do histórico Diário de Pernambuco, mês que vem.

O Uruguai acolheu brasileiros notáveis no começo de seus exílios: Jango (que morreu sem conseguir retornar), Brizola, Darcy Ribeiro e Waldir Pires. Lá convivi com outras figuras expulsas daqui e acolhidas do outro lado da fronteira. Foi através de algumas delas que aprendi a gostar de Montevidéu, batendo pernas nas Ramblas de Pocitos, freqüentando o Café Copacabana, no Centro Histórico, os restaurantes populares de assados imbatíveis, ou os bares dos hotéis da Calle Yi, ou Calle Cuaréim.

Papos intermináveis que abarcavam o Uruguai, o Brasil, o mundo. Conversas de política, de saudades ou de conspirações fracassadas. Ali, em períodos diversos, testemunhei fatos – como a chegada da ditadura nas “orillas” do Rio da Prata e a feroz Operação Condor – e aprendi história com uma das figuras mais dignas e generosas que já conheci: o coronel Dagoberto Rodrigues, diretor geral dos Correios na época do golpe contra o governo de Jango. O homem digno e corajoso que botou o poderoso Henry Kissinger para fora de seu gabinete, em Brasília, no governo JK, quando o americano insinuou negociata em nome de empresa americana no setor da telefonia, no período da construção de Brasília.

Mas é preciso citar dados sobre o Uruguai de hoje, às vésperas da escolha de seu novo presidente. Mesmo distante de sua fase de Suíça do continente, consegue ainda exibir índices de dar inveja em muita gente. Por exemplo: uma renda per capita anual de 7.090 dólares americanos, uma das maiores do mundo, ao lado de uma das menores taxas de pobreza da América Latina. O índice de analfabetismo também é dos mais baixos do continente, perto de zero.

Tem mais: com população de 3,3 milhões de habitantes, o país é pioneiro na América do Sul na adoção de políticas sociais e foi o primeiro da região a criar um sistema de previdência. Além de seu elevado Índice de Desenvolvimento Humano frente aos demais países do continente, o Uruguai também é um modelo no setor de assistência aos idosos, que formam parte significativa da população. Sobre isso, lembro um episódio emblemático para terminar.

No exílio, o jornalista alagoano Paulo Cavalcante Valente teve problemas de saúde e precisou ser submetido a uma cirurgia urgente e delicada. Foi internado em um hospital público de Montevidéu. De passagem pela cidade, fui com Margarida visita-lo ainda internado mas às vésperas de ter alta, firme e forte outra vez. Ouvi então depoimento insuspeito:

“Baiano, embora internado como quase indigente, aqui recebi um tratamento de magnata. Equipe de cirurgiões de primeira linha, medicamentos a tempo e a hora de graça, sem falar nessas enfermeiras daqui que nunca vi igual. Até talquinho em minhas costas elas passam toda hora, para não sentir incômodo por ficar deitado tanto tempo. Já pensastes?”, perguntava Valente, sem perder o sotaque nordestino, mesmo depois de quase 20 anos de exílio em terras castelhanas, ante de poder voltar ao Rio.

Qualquer que seja o resultado, com o tupamaro Mujica ou o liberal-conservador Lacalle no poder, espero rever em breve a querida, culta e sempre generosa Montevidéu. “Já pensastes?”.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

out
30
Posted on 30-10-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 30-10-2009

Em noite de insônia à véspera do feriadão brasileiro, como ele próprio assinala por e-mail ao editor, o jornalista Patrick Brock produziu o segundo e excelente artigo para o Bahia em Pauta. Desta vez mexe com economia, uma de suas especialidades no jornalismo, com texto de gente grande e refinado humor baiano misturado com sangue anglo-saxônico, ou vice-versa. Fala dos medos americanos pós-crise das moradias e diante de outra que parece próxima, às vésperas do Halloween, “festival de origem pagã em que os americanos tentam exorcizar seus temores”. Um primor, de texto e de análise. Confira(VHS)

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>maodollar.
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ARTIGO / AMERICANOS

O declínio do dólar e o sorriso de Mao

Patrick Brock, de Nova Iorque

Um dos filmes assistidos nos EUA ultimamente se chama “Atividade Paranormal”. Produzido em 2007, conta a história de um casal que se muda para uma casa nos subúrbios de San Diego, na Califórnia, um dos estados que mais simbolizaram o sonho americano de prosperidade material. A esposa se diz perseguida desde pequena por uma entidade e logo depois da mudança coisas estranham começam a acontecer. O marido faz pouco do terror dela, mas os dois acabam chamando um especialista em demônios para estudar a casa. Há um espírito maligno que se alimenta de energia negativa na casa, diz o homem. No estilo falso-documentário de “A Bruxa de Blair”, o filme custou apenas US$ 15.000 e já rendeu mais de US$ 60 milhões à Paramount, subsidiária do conglomerado americano Viacom, também dono da rede de televisão CBS.

Além da conveniente proximidade com o Halloween, festival de origem pagã em que os americanos tentam exorcizar seus inúmeros medos, o sucesso do filme parece ecoar também o trauma nacional da recente crise imobiliária. Estimulado por incentivos tributários para os interessados na compra da primeira casa própria, e também pela magnitude do declínio no próprio valor dos imóveis, o mercado imobiliário voltou a dar sinais de vida, com leve alta no valor médio das residências.

Em vez de enfrentarem o terror em suas próprias casas, os americanos podem se dar ao luxo de ver seus medos refletidos metaforicamente no casal cujo sonho de prosperidade é transformado em pesadelo. Enquanto isso, já se avizinha uma nova crise, desta vez com os imóveis comerciais, muitos deles vitimados pelas falências de empresas e surgimento de shoppings fantasmagoricamente vazios.

Desde a Grande Depressão, nos anos 30, os americanos viveram um grande período de expansão econômica irregular, mas impressionante. Mesmo com as esporádicas recessões, o padrão de vida da população continua refletindo sua renda per capita de US$ 40.000, a sexta maior do mundo. Homens como Warren Buffett, o presidente do conglomerado Berkshire Hathaway, fizeram fortunas durante esse período. Para o americano médio, essa pujança se traduziu em fácil acesso a credito, carros e casas espantosamente grandes e baixo desemprego.

Mas agora a situação mudou e o desemprego está perto de 10%. Se estudarem os efeitos negativos da globalização na economia americana, talvez os manifestantes que costumam inundar as ruas contra o imperialismo ianque aplaudissem seus efeitos niveladores sobre a economia mundial.

Cada vez menos industrializados, os EUA cedem à China o papel de fábrica do mundo e se transformam numa economia predominantemente de serviços; nesse meio tempo, os salários foram pressionados pela concorrência em nível mundial, tornando difícil sobreviver com os empregos que antes permitiam um padrão de vida confortável. Os pais estão assistindo ao mundo em que cresceram desmoronar com o desemprego dos filhos recém-formados nas faculdades, que cobram preços exorbitantes mas não servem mais para garantir o emprego. Antes forte, a moeda nacional é corroída cada vez mais pela inflação.

Sessenta e quatro anos atrás, os EUA emergiram vitoriosos do maior conflito militar da humanidade. Na cidadezinha de Bretton Woods, no Estado de New Hampshire, ditaram o modelo econômico do pós-guerra. Desde então, o combalido dólar ainda reina absoluto. É a moeda número um dos mercados de câmbio de Mogadisu a Londres. O governo americano sabe disso e tem aproveitado o peso das verdinhas para operar em US$ 1,3 trilhão no vermelho e sem qualquer lastro físico desde os anos 70, quando Richard Nixon acabou com o padrão ouro. Diferentemente do império britânico, a “paz americana” usou o poder do capital, das ideias, das armas e principalmente da moeda para se manter por cima da carne seca.

No fim do século 19, se popularizavam no Reino Unido os romances de invasão, como Drácula (1897), do irlandês Bram Stoker, em que uma estrangeiro sinistro se dirige a Londres para sugar na fonte o sangue da civilização mais próspera de então. Esse e outros livros refletiam o temor dos britânicos de que se avizinhava a decadência de sua dominância. Cinquenta anos depois, com o império dissolvido e o país devastado pela Segunda Guerra, o Reino Unido teve que pedir um empréstimo camarada de US$ 45 bilhões da ex-colônia para se reconstruir. Só terminou de pagá-lo em 2006. Hoje em dia a China é que assumiu o papel dos EUA nessa equação – segundo o Departamento do Tesouro dos EUA, a República Popular da China é maior detentora de títulos do Tesouro, com US$ 800 bilhões em agosto. Até o Brasil está nessa brincadeira: é o sexto maior detentor de Treasuries no mundo, com US$ 137 bilhões.

Continuam as reuniões, mas diferentemente de Bretton Woods, não surgem soluções; no máximo algum líder mundial pede a fundação de uma nova ordem. Mas essa ordem ainda não apareceu em definitivo; o sistema de bancos centrais iniciado após a Grande Depressão parece ter freado o ímpeto devastador da crise. Talvez a solução surja de um camponês da China que abandona a fome do povoado e, tal qual retirante, vai buscar um emprego nas fábricas do litoral. Ou talvez de uma vila africana, como Wangari Maathai, queniana ganhadora do Nobel da Paz de 2004 que inspirou um movimento responsável por plantar mais de 20 milhões de árvores.

O total de reservas chinesas em Treasuries aumentou quase US$ 230 bilhões desde agosto do ano passado. Até agora no ano, a China já cresceu 7,7%. Na nota de 100 iuanes, Mao até parece sorrir.
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Links:

Reino Unido quita dívida da Segunda Guerra com os EUA:
http://www.independent.co.uk/news/business/news/britain-pays-off-final-instalment-of-us-loan–after-61-years-430118.html

Maiores detentores de títulos do Tesouro, segundo dados do governo americano:
http://www.treas.gov/tic/mfh.txt

China ultrapassa o Japão em investimento nos Treasuries:
http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2008/11/18/AR2008111803558.html

Biografia de Wangari Maathai, no site do Prêmio Nobel:

http://nobelprize.org/nobel_prizes/peace/laureates/2004/maathai-bio.html

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Patrick Brock é jornalista, tradutor e faz mestrado na universidade de Nova York

out
30

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CRÔNICA / MONUMENTO

BROCHE NELES!

Gilson Nogueira

Uma réplica da imagem do Cristo Redentor forma o broche da campanha “Eu Sou de Cristo” que a Igreja lançou terça-feira (27), no Alto do Corcovado, visando arrecadar dinheiro para a manutenção do monumento que está necessitando de reforma na sua estrutura interna e no seu revestimento externo.

Os entendidos dizem que o Cristo sofre com os desgastes do tempo e com fenômenos climáticos, como ventos, chuvas, raios, e a incidência do sol. A Igreja venderá o broche, a R$ 7,00 nas 252 paróquias da Arquidiocese do Rio. Bela iniciativa, para recuperar a imagem, eleita, há dois anos, uma das sete maravilhas do mundo moderno e que, segundo versão atualizada do Guinness World Records, é a maior estátua de Jesus Cristo no mundo.

Com a eleição da capital do Estado do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 2016, um dos mais notáveis cartões-postais do país jamais necessitou tanto de cuidados especiais, como esses que, a partir de agora, serão tomados, pela Igreja. Resta, contudo, rezar, a fim de que a venda dos broches renda a importância capaz de garantir a manutenção do Cristo.

Ah, ia esquecendo da pergunta que não quer calar! Quantos broches da campanha os governos municipal, estadual e federal pretendem adquirir? Respostas para o Bahia em Pauta. Obrigado.

Gilson Nogueira, jornalista ( Direto de Botafogo, no Rio de Janeiro)

out
28
Posted on 28-10-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 28-10-2009

Búzios: presença de BB
Buzios
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CRÔNICA / LUGARES

BÚZIOS…OUTUBRO, 2009

Aparecida Torneros

Uma brisa sopra, a água tá morna, Geribá espreita os turistas e as minhocas da terra se dissolvem em cânticos de bel prazer. Estou, mais uma vez, agradeço aos Deuses, em Búzios, na casa da minha amiga-irmã, Cristina Márcia, a CM, uma criaturinha do Bem, de muito encantamento e que a mim passa ternura sempre. Pois nesse recanto abençoado , de natureza exuberante, ponto turístico internacional, vivendo à sombra de uma Brigitte Bardot que por aqui passou no auge da fama e transformou esse lugar em point para os prazeres da vida de todos nós. Vila de pescadores, balneário de crescimento mal controlado, berço de um mar azul esverdeado, adensadamente aconchegante, a paz vem me encontrar no fim de tarde, olho os barcos, tomo um chope avistando , desde o restaurante, os transatlânticos que trazem sonhadores para um encontro com suas verdades e magias interiores.

Um canto de voz argentina, o cd desliza com a arte de uma jovem Mercedes ( faz-me lembrar da grande Sosa) que por cá passou, deixando a gravação que a Cris comprou para relembrá-la, tem uma voz que me lembra Nara Leão, canta bossa nova com sotaque portenho, demonstra sensibilidade naturalmente surgida em tempo de sentimentos aflorados, coisa que em Búzios, é mesmo tão forte e comum.

Não fujo à regra, deixo-me dominar por este estado latente de viver a vida com paz, harmonia, felicidade, alegria, encantamento e crença no amanhã. Pouco importa, se Búzios está na novela das oito ou nove, que a exporta para o mundo, pouco se me dá, pois o muito já o tenho agora, entre as lufadas de vento marinho e com tanto brilho de um sol dadivoso a me queimar a pele necessitada de carinho intenso, de um tipo de chamego especial, aquele que o amor proporciona, em dose tripla, em porções generosas, quando se tem a certeza do quanto é possível e necessário conviver e respeitar a natureza em festa onipresente.

Melhor que tudo isso é refletir na grandeza de possibilidades que há em ser conivente com a sobrevivência de tal paraíso, com a responsabilidade de preservar este tesouro, salvaguardar seu conteúdo, legá-lo ás próximas gerações. Ainda bem que há movimentos de pessoas atentas a esse caminho que podem fiscalizar o cumprimento das leis e lutar pelos direitos da natureza, ainda bem!

Volto os ouvidos aos sons que me chegam das praias repletas, e o barulho das ondas é plácido, permissivo, um convite ao sabor de novos arremedos e paixões. Queria o meu amor aqui, hoje, para que ele pudesse sentir o que sinto, e partilhasse, agora , deste paraíso comigo. Um dia, quem sabe, o trago e mostro tudo, ou melhor, não mostro nada, deixo apenas que ele descubra o que já descobri, ou talvez, um pouco mais, por
que sei que ele merece e é capaz.

Que tal passar o dia em Geribá, almoçar um dourado arretado de bom no Pit Bone, na companhia da Cris, da Vaninha e com a visita do amigo Carlos. Depois, vamos tomar um sorvete na rua das Pedras?
Dá pra esticar no Shami Chou, e encarar um crepe, que delícia, talvez passar em casa e descansar um pouco antes, com a classe de quem pode sair lá pelas 10 da noite e ir comprar um chapéu, com a Marli da Boutique, enquanto se ouve o rock pauleira que alguém apresenta no barzinho apinhado. A noite tá só começando, Búzios ferve no fim de semana, amanhã tem mais, a gente acorda e vai pra João Fernandes, aquele lugarzinho tão especial cercado de verde, com água deliciosa, repleto de hermanos argentinos, e o sol é um presente que nos enfeita as almas. É quase verão, mas ainda é outubro, 2009…

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro. É editora do Blog da Mulher Necessária, onde o texto foi publicado originalmente) (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com)

out
28
Posted on 28-10-2009
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 28-10-2009

Guiomar Mendes (e esposo): aposentadoria e novo emprego…
guiomar
…no escritório de Sergio Bermudes
bermudes
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A antenada jornalista da Folha de S. Paulo, Mônica Bergamo, informou na sua coluna de ontem, 27 de outubro, que a mulher do presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, Guiomar Feitosa Mendes, vai trabalhar como “gestora na área jurídica do escritório do advogado Sergio Bermudes, no Rio de Janeiro”. A senhora Mendes vai se aposentar, ela deixa o STF depois de 32 anos de serviços prestados ao órgão.

Diz-se, comumente, que brasileiro é gente de memória curta. Assim, nunca é demais lembrar: o advogado Sergio Bermudes é um dos advogados, entre uma legião de causídicos de primeira linha, que trabalham para Daniel Dantas!

E por falar em lembranças e saudades: onde anda o Conselho Nacional de Justiça, presidido pelo presidente do STF? E a OAB? Entre outros, que não se pronunciam ante tamanha aberração? E quando os processos de Daniel Dantas chegarem ao STF, será que o magistrado supremo vai se declarar impedido de apreciar porque sua esposa trabalha para o defensor do dono de Oportunity?

São algumas indagações, apenas, que ficam no ar depois da leitura da nota de Monica. No mais, é recordar o saudosíssimo Renato Russo e sua pergunta sempre pertinente:

” Que país é este?”

(Postado por Vitor Hugo Soares )

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