out
22
Posted on 22-10-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 22-10-2009

Leon: Senhor Revivendo / TM
leonrevivendo

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Em qualquer lugar onde esteja instalado com o seu laboratório de alta precisão -em sua janéla de Salvador que dá para a Baia de Todos os Santos ou no meio do maior tumulto da pauliceia desvairada e adjacências, como agora – o músico e produtor Paquito tem sempre um telescópio especial para enxergar o que passa despercebido para muita gente, mesmo no meio jornalístico que não é exatamente a sua praia, mas onde ele sabe nadar como poucos.

É o que fica evidente, por exemplo, desde o primeiro parágrafo do artigo que ele assina nesta quinta-feira, 22, na revista virtual Terra Magazine ( http:/terramagazine.terra.com.br ) , para falar sobre a morte de Leon Barg, o cabeça da gravadora Reviverndo, que partiu domingo passado. Barg foi também o criador de um selo de disco que “pôs à disposição do público em geral – não só os especialistas -gravações em CD raras e antigas da canção popular”, registra Paquito.

Quem, no país inteiro, sendo amante da música, não guarda pelo menos um disco da Reviverndo em sua discoteca?, pergunta Bahia em Pauta, que reproduz a seguir a íntegra do artigo de Paquito publicado na TM. Bravo!
(Vitor Hugo Soares)
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CRÔNICA OPINATIVA / MÚSICA

LEON

Paquito
De São Paulo (SP)

Leon Barg, da Revivendo, morreu domingo retrasado. A notícia, nesses termos, parece contraditória, e me chegou, num susto, através de Robinson Roberto, que nos apresentou. A Revivendo, criada por ele, é um selo de discos que pôs à disposição do público em geral – não só os especialistas – gravações em Cd raras e antigas da canção popular.

Com sua coleção de discos de 78 rotações, que corresponde a, aproximadamente, dois terços do que foi lançado no Brasil desde o início do século XX, Leon lançou Cds, com encartes detalhados, de Carmem Miranda, Noel Rosa, Francisco Alves – seu ídolo maior – Mário Reis, Lamartine Babo, Anjos do Inferno, Quatro Ases e Um Coringa, Geraldo Pereira, Lupicínio Rodrigues, Braguinha, Almirante, etc, só pra falar dos anos 30 e 40, a chamada fase de ouro da nossa música.

Dos anos 50, ele disponibilizou a obra de Luis Gonzaga em uma série de cerca de 15 Cds – assunto que já tratei nesta coluna – coisas que a RCA, gravadora do Rei do Baião nunca havia relançado, como a primeira gravação do clássico Asa branca. Gregório Barrios, Libertad Lamarque e Carlos Gardel, da América Latina, são outros nomes que me vêm à mente, e que tiveram títulos lançados por Leon, pois, a despeito de ter uma equipe, que incluía seus filhos, a Revivendo era ele.

Mais do que arqueologia ou nostalgia, os lançamentos da Revivendo mostravam que muitas das gravações que foram revividas, ainda em Lp, nos primórdios do selo, e em Cd, são encantadoras. Não se tinha ainda uma tecnologia como a de hoje, mas o charme sobra. Como em todas as épocas, há coisas boas e ruins, mas, sem dúvida, o século XX foi o século da canção. E, no Brasil dos anos 30, 40, e 50 é criatividade por todos os lados, que foi desembocar na música moderna brasileira, de bossa-novistas a pós-tropicalistas. E, artisticamente, Carmem Miranda e Noel Rosa não ficam nada a dever a Chico Buarque ou Gal Gosta. São equânimes.

Leon era pessoalmente encantador, um judeu baixinho do Recife, de olhos pequenos muito vivos – cujos ancestrais vieram da antiga Bessarábia – a procurar sempre por discos antigos pra sua coleção. Na defesa das idéias, era firme e exaltado, o que lhe dava força pra manter a Revivendo sem nenhum tipo de apoio, oficial, ou não.

Aos amigos que fazia pelo Brasil, entre os quais eu me incluía, ele presenteava com discos em suas viagens periódicas para o Recife, Salvador, Rio, etc. Reunia sempre uma turma grande pra almoçar e não nos deixava pagar a conta. Mas sempre nos dizia que a Revivendo andava com dificuldades, pois, apesar de ter uma coleção invejável, com fonogramas que as gravadoras nem possuíam mais, os direitos sobre as gravações ainda eram das multinacionais do disco, a quem ele tinha de pagar pelo que lançava. Com a crise na indústria do disco, a situação se complicou. E ele mantinha uma relação ótima com todas as gravadoras. Quando a EMI, por exemplo, preparou a caixa com todo material de Carmem Miranda na gravadora, levou Leon com a esposa pra Londres, para acompanhar a remasterização na Abbey Road. Claro, os discos usados como matriz eram de Leon.

O período em que o selo esteve bem coincidiu com a ascensão comercial do compact-disc. Com Leon, morre aos poucos um jeito de pensar a música comercialmente. Agora, as pessoas simplesmente baixam no computador as gravações. No entanto, com respeito aos fonogramas antigos, pouca coisa foi digitalizada. Ficamos, portanto, a ver navios. Há menos de um mês, ele esteve na Bahia e Robinson me procurou para que nos encontrássemos. Como eu não estava bem de saúde – uma gastrite – não pude ir ao almoço entre amigos. Leon, no entanto, disse a Robinson: “quero ver o Paquito!”

Eles chegaram lá em casa perto da hora do almoço e saímos a procurar um restaurante que atendesse a nossas idiossincrasias alimentares: eu não podia comer nada pesado, Robinson não comia carne, e Leon não gostava de restaurantes naturais, mas nunca ingeria nada que tivesse alho, que ele detestava. Ficamos rodando meio tontos sem objetividade, até encontrar um lugar. Assim que nos sentimos mais confortáveis e saciados, fiquei descobrindo coisas que não sabia como, por exemplo: a música Vou me casar no Uruguai, de Gadé, do repertório de Moreira da Silva, foi gravada originalmente por Almirante. Leon ainda me disse que ia lançar um disco com a faixa, e me enviaria pelo correio.

Esses e outros discos não mais virão, independente do que for acontecer à Revivendo. Não receberemos mais suas ligações nem teremos o prazer da sua companhia. E, a despeito do lugar-comum da frase, Leon Barg era uma pessoa cheia de vida, não combinava com a morte. Vai fazer falta. Ficarão, no entanto, as revivências.

out
21
Posted on 21-10-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 21-10-2009

Idosos: a questão inevitável
idosos
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OPINIÃO / IDOSOS

QUEM VAI CUIDAR DE NÓS?

Milton Dallari

Às 17h da segunda-feira, 19 de outubro, o Estado de São Paulo tinha exatamente 41.783.677 habitantes. A contagem, atualizada minuto a minuto, é da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados. Desse total, cerca de 4,5 milhões são pessoas com mais de 60 anos. O Seade estima que, até 2020, o Estado terá 7,1 milhões idosos. Em todo o Brasil, atualmente, eles somam 21 milhões de brasileiros, de acordo com o IBGE. Os índices de natalidade caem em ritmo impressionante e o crescimento já é negativo em algumas regiões, ou seja, em torno de 1,6 filho por casal. Quem quiser acompanhar os números da Seade, basta acessar o site http://www.seade.gov.br/produtos/projpop/index.php.

A pergunta é inevitável: quem vai cuidar de nós (desculpem os leitores que tiverem menos de 60 anos)? Com menos nascimentos, menos crianças, menos jovens, menos casamentos estáveis, o cenário é preocupante. Poucas serão as famílias que terão estrutura para cuidar de seus “velhinhos”. E será muito difícil que em lares de apenas um filho, ou mesmo dois, haja condições de um deles estar ao lado do pai ou mãe o tempo todo. Justamente na hora de receber um “obrigado” e uma boa dose de “carinho” por tudo o que fizeram ao longo da vida, pais e mães correm o risco de ficar sem o mínimo de assistência ou então de serem enviados a um asilo (nos casos em que as condições econômicas permitirem).

O conselho para os que hoje ainda estão trabalhando é óbvio: façam uma poupança especial para garantir o próprio sustento e bem-estar na velhice, em condições de pagar um bom plano de saúde, um bom asilo ou de contratar acompanhantes e enfermeiras no caso de permanência na própria casa. Fica cada vez mais difícil deixar essa tarefa para os filhos (ou filho único), às voltas com seus próprios compromissos de trabalho e familiares.

Para esticar a própria independência, é fundamental cuidar da saúde desde a juventude. Felizes os casais que podem desfrutar de um período de 10, 15 ou 20 anos de sobrevida após a aposentadoria, sem depender de assistência direta e médica em tempo integral. E o cuidado com a saúde depende mais de boa vontade, de esforço próprio, do que de condições econômicas. Não é preciso ter dinheiro para deixar de beber, de fumar e para praticar exercícios físicos, incluindo as caminhadas matinais e do final da tarde.

O bem-estar na velhice é um desafio constante, que se constrói ao longo da vida profissional, muito antes da aposentadoria. E não adianta ficar à espera de benesses do governo, como assistência médica de qualidade e uma aposentadoria digna (privilégios de uma parcela ínfima de nossos idosos).

As autoridades públicas, nas três esferas de governo, pouco estão fazendo para construir uma infraestrutura capaz de absorver essa população acima de 60 anos. Aqui e ali pipocam algumas iniciativas, como o Futuridade, programa paulista que inclui campanhas educativas sobre envelhecimento, ampliação de ações e serviços e formação de profissionais para lidar com os idosos. A capital, pelo menos, conta com dois centros de Referência do Idoso, onde são feitos 12 mil atendimentos por mês. Outras iniciativas pipocam em igrejas e entidades assistenciais, em especial com a organização de grupos de voluntários para fazer visitas e companhia a idosos doentes e solitários.

No Congresso, tramitam projetos que visam a aumentar o valor das aposentadorias, seja para quem vai se aposentar como para quem luta para manter o poder de compra de seus benefícios. Aí se encaixam os projetos sobre o fim do malfadado “fator previdenciário” (mecanismo que achata mais a aposentadoria na medida em que aumenta a expectativa de vida) e sobre a obrigatoriedade de reajuste do salário de aposentados e pensionistas pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor, mais o percentual de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).

Para os que não pensaram em fazer seu “pé de meia” ou não tiveram condições para isso, a aposentadoria é a única fonte de renda. Que ela seja cada vez mais “justa” e capaz de proporcionar uma vida digna à terceira idade.

Milton Dallari é conselheiro da Associação dos Aposentados da Fundação Cesp e diretor administrativo e financeiro do Sebrae-SP.

TB: um jornal com história
TB
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DEU NA TRIBUNA DA BAHIA

Em sua edição histórica desta quarta-feira, 21, data em que o jornal comemora 40 anos, a Tribuna da Bahia publica o artigo diário do jornalista Ivan de Carvalho. Hoje, o primeiro editor político do diário que mexeu com o jornalismo baiano fala de dois temas que o apaixonam: a política opinativa no pensar e fazer jornalístico, e a própria Tribuna da Bahia.

Bahia em Pauta reproduz o texto e , através de seu editor (também um colaborador semanal da TB), parabeniza e agradece a Ivan e a todos que fazem a TB.

Mais 40, pelo menos!

(Vitor Hugo Soares)

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OPINIÃO POLÍTICA / TB, 40 Anos

A TRIBUNA E A POLÍTICA

Ivan de Carvalho (21/10/2009)

Da primeira edição da Tribuna da Bahia e nos 14 anos seguintes fui editor de Política deste jornal. Mais adiante, exerci a mesma função por mais cinco anos e atualmente – desde 1997 – sou seu colaborador como articulista político. Isto me põe em situação privilegiada para fazer uma avaliação da influência do jornal, que hoje completa seus 40 anos, na política da Bahia.

Esta situação privilegiada só é limitada, creio, pelo espaço restrito que tenho para abrigar este artigo e que será o mesmo dos próximos, numa tendência mundial da imprensa para a síntese e a abordagem do essencial, o que atende ao interesse dos leitores, cada vez mais atarefados com o fazer e o viver e determinados a disputar cada momento do seu tempo. Então, vamos ao tema, antes imposto pela feliz ocasião do que escolhido pelo autor. Quando foi inaugurada, nestes dia e mês de 1969, a Tribuna da Bahia encontrou-se ante uma situação bastante lamentável na imprensa baiana. Não que esta não tivesse méritos. Mas era inegavelmente uma imprensa do passado, que entre outras coisas vivia de modo mais ou menos intenso, de acordo com cada um dos seus veículos (falo dos veículos impressos), uma espécie de concubinato com o poder estatal e, de um modo mais amplo, com a política. Isto porque se um jornal não estava comprometido com os interesses políticos oficiais, ele praticamente se aliava à oposição, podendo-se dizer, com uma certa ironia e só um pouco de exagero, que faltava apenas adotar o nome de partido para integrá-la formalmente.

A Tribuna da Bahia nasceu com outro conceito. O veículo buscava independência e identidade próprias, uma objetividade que a imprensa baiana, na época, tinha dificuldade em impor ao seu noticiário, especialmente ao político, buscava a humanamente possível imparcialidade e isenção. Conseguir estas coisas foi bastante facilitado pelo fato de o fundador do jornal, Elmano Silveira Castro, ser um empresário idealista que, inclusive, renunciou a outros empreendimentos para dar prioridade total à empresa-jornal.

O outro elemento facilitador na fase inicial foi a aquisição, para o projeto do jornal e sua execução, do idealista, abnegado e talentoso jornalista Quintino de Carvalho, vindo de um centro de imprensa muito mais avançado na época, o Rio de Janeiro, e que quis formar uma equipe nova, evitando ao máximo o recrutamento de profissionais entre os que já atuavam na Bahia. Com isto, conseguiu facilitar muito a implantação dos novos modelo e estilo de imprensa que pretendia. A semente germinou e tivemos a colheita. Jornais do velho estilo morreram. Outros foram inteligentes e se renovaram. Isto mudou muito – precisa ainda mudar mais – a relação entre poder e política, de um lado, e imprensa, de outro. E esta foi uma das grandes contribuições da Tribuna da Bahia à sociedade baiana.

out
20
Posted on 20-10-2009
Filed Under (Artigos, Janio) by vitor on 20-10-2009

Paulo Afonso recebe príncipe
principe

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CRÔNICA / MONARCAS

A NOVA ROTA DE DOM LULA

Janio Ferreira Soares

No dia 16 de Outubro de 1859, o jovem imperador Dom Pedro ll e a imperatriz Teresa Cristina, pegaram um barco em Piaçabuçu, no baixo São Francisco alagoano, pernoitaram nas cidades de Penedo, Pão de Açucar e Piranhas, e finalmente chegaram ao objetivo principal da viagem que era conhecer as magníficas cachoeiras de Paulo Afonso, num passeio que ficou conhecido como Rota do Imperador. Exatos 150 anos depois, outro monarca, também barbudo e igualmente acompanhado por sua imperatriz de estimação, navega pelas mesmas águas, só que dessa vez por outras paragens e com finalidades bem diferentes do que faz crer a programação divulgada.

Segundo a mesma, trata-se de uma visita oficial para inspecionar as obras de transposição do Rio São Francisco. Mas até os mandins e surubins que ainda insistem em perpetuar a espécie sob suas águas sabem que a história não é bem essa. A principal intenção de Dom Lula é apresentar a imperatriz Dilma, a escolhida, a um povo que só a conhece através da TV.  Ao mesmo tempo, usando toda a experiência adquirida em anos e anos de megafone em punho, gerar factóides ribeirinhos para a imprensa que está acompanhando a Coluna Lula, bela sacada dos jornalistas Claudio Leal e Bob Fernandes, cujas reportagens da missão foram reproduzidas pelo Bahia em Pauta, blog do mestre Vitor Hugo, que a propósito foi criado comendo piaba assada com pirão de farinha nas margens do rio em questão.

Para comemorar os 150 anos da chegada de D. Pedro por essas bandas, o governo de Alagoas está refazendo a sua rota. Saída 16/10, de Piaçabuçu e chegando aqui em Paulo Afonso ontem, Segunda Feira, dia 19.  Na comitiva, o principe Dom João de Orleans e Bragança e mais alguns representantes da família real, além de políticos e jornalistas. Infelizmente eles não vão poder ter a visão das cachoeiras. Em seu lugar, verão os belos paredões de granito ainda marcados pelo limbo das águas que tanto encantaram o imperador.

Semana passada, lá pra cima do mesmo rio, seguiu o baile. De um lado, Geddel e sua claque, fazendo um barulho danado. Do outro, Jaques Wagner e sua torcida, entoando gritos de guerra.  No meio, Lula, conduzindo a moça e comandando a massa. Só faltou Serra, de chapéu de palha e calça arregaçada (qual Russo), no meio do picadeiro. “Alô, alô, seu Chacrinha, velho guerreiro! Alô, alô, Terezinha! Roda, roda, roda e avisa um minuto de comercial….”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso (BA), no Vale do São Francisco.

out
20

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CRÔNICA / CLAMOR

CREIO NO RIO DE JANEIRO

Aparecida Torneros

Amplio minha sensação e vou adiante, alguns meses mais, aí está o nosso verão… Visão comprometida, ultimamente, sinto um clamor geral em torno do meu lugar, tanto a cidade, como o bairro onde moro, Vila Isabel, me põe à mercê de um mundo brabo, violento, discriminatório, injusto e desigual, com mortes rondando cada esquina desavisada e o caos instalando-se nos desvãos das comunidades que sobrevivem à custa de lutas insanas.

Um Rio de Janeiro, em chamas, literalmente perplexo ao combater o crime, a injustiça social, o crescimento desordenado, em plena guerra do tráfico, praça de combates físicos e emocionais. Como boa carioca, aposto na salvação não da lavoura, mas da minha cidade maravilhosa. Creio, a partir de tantas iniciativas, que algo pode, deve e está sendo feito, no sentido de reorganizar minha gente humilde e lhes oferecer paz e esperança. Não é nosso privilégio esse estado de coisas extremamente revoltante, causando mal-estar e um sentido inglório da vida em sociedade, nos tais tempos modernos, onde há um grito que ecoa, intensamente, nos corações dos habitantes de lugares assim, densamente povoados, entranhados de competição e falta de oportunidades, uma selva de sonhos puros ou um cemitério de desejos profanos, quando alguém nasce já trazendo o estigma do medo da vida que virá.

Pois é, não dá pra ser totalmente feliz, diriam os filósofos ou os observadores sociais, há um certo temor pairando além do horizonte dos morros cariocas. Mas o mesmo temor não terá pairado além das Torres Gêmeas? ou dos destroços de Beirute ensanguentada? ou ainda não será este o semelhante sentimento que a humanidade identifica a cada tentativa de compreender os subterrâneos de um mundo cujo calor corresponde não só à estação do verão escaldante, em regiões assim tão tropicais, mas inclusive, e sobretudo, à combustão provocada pelas bombas, pelos tiros, pelas explosões cinematográficas que ocupam manchetes e redimem pensamentos cansados de assistir a barbárie em pleno século XXI.

Amplio mesmo meu conteúdo esperançoso, embora sofrido, patético e até certo ponto infantil. O Rio tem jeito, o mundo também. Olho o verão que vem aí. Sei que o Sol nasce para todos e lembro do Chico Buarque, em algum lugar onde li que ele disse o “Rio tá ferrado”, mas aqui até engarrafamento é bonito, pois é só observar a paisagem e esperar.

Pois esperemos, confiemos, pois, como das guerras oficiais e também das “oficiosas”, tem sempre um sem número de lições para se aprender, por em prática soluções e conclusões, refazer o chão, replantar o trigo, as flores, reconstruir cidades como depois dos terremotos, aliás, a humanidade é mestra nessa coisa de renascer das cinzas…

Vamos lá, minha gente, “Olha o Rio de Janeiro , aí!” dirá o puxador da Escola, no carnaval de 2010, depois que fizermos um minuto de silêncio, chorado , sentido, curtido e apascentado, pelas vítimas, que nas últimas décadas, deram suas vidas, a serviço do combate à violência, ou foram atingidas por balas de trajetória perdida.

Os que integram do chamado mundo do crime, com suas histórias pesadas, muitas vezes também enredados em horrores e circunstâncias, quantas vidas desperdiçadas de jovens incautos, mal orientados, prisioneiros de um mundo estranho , detentores de valores confusos, corações de pedra, além da imaginação.

É possível detectar, engrossando as fileiras dos combatentes em batalhas absurdamente fomentadas por armamentos cuja tecnologia lembra a ficção, fuzis e escopetas, granadas e lançadores de chamas, tornando meninos magricelas em kamikases oriundos da miséria humana, ou mesmo do desconforto sub desenvolvido de um status social abaixo do desejável e aceitável.

Mas o verão vem aí, ninguém duvida. O sol brilhará, de novo, as praias ficarão lotadas, a beira mar nos brindará com paisagem digna de quadro pintado exposto nas paredes de museus internacionais, alguém vai compor um samba-canção melodioso e nostálgico, ainda vamos chorar nossos mortos mais um pouco, e apesar disso, brincaremos o carnaval, ressurgiremos das cinzas, continuaremos as lutas, e vamos amar uns aos outros, como for possível, tomando um chope pra distrair…

Legiões vestidas de branco farão novas passeatas, bradando gritos de Paz, enfeitando a orla carioca, de esperança, e esse povo sofrido, mas com vocação para ser feliz, não vai deixar cair a peteca. Vai dar a volta por cima, vai recuperar a auto-estima, vai cantar com Noel, Vinícius, Chico, Martinho, Zeca, e tantos outros, a melhor música da virada. O amor vai impregnar as almas dos amantes, que como eu, transbordarão carinho, na terra prometida, num janeiro de reencontro com a essência de cada casal que se busca e se quer bem.

Talvez surja mesmo um coro, tipo “We are the world”, onde cada um vai soletrar um verso em prol do renascimento de uma cidade especial, a cidade do verão tórrido, que apaga suas dores com a água fria do mar, e deixa que as lágrimas salgadas se confundam com o gosto do oceano imenso, onde tudo se dilui, inclusive o medo de seguir em frente. Salve Rio de Janeiro, salve “geral”!

Aparecida Torneros, escritora e jornalista, apaixonada pelo Rio de Janeiro, cidade onde mora e edita o Blog da Mulherr Necessária. (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com)

out
20


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O editor deste site-blog andou fora do ar por quatro dias, por motivos técnicos e emocionais. O computado pifou de vez no momento em que partia figura muito próxima, de larga convivência e leal, que se foi mansamente na madrugada da sexta-feira passada, 16 de outubro. Saudades, Antônia.

Os sentimentos de perda e ausência sempre demoram um pouco mais a passar, mas estou certo de que tudo se recomporá com o tempo, este magnífico e eficiente senhor da razão.

Quanto aos problemas técnicos, estes são curados com mais brevidade quando um site-blog pode contar com um moderador que reune em uma só pessoa a entrega, talento e a competência de um mestre como Dimas Fonseca.

É a ele que este editor agradece a alegria de poder voltar nesta terça-feira, 20, ao convívio instigante e sempre generoso dos leitores do Bahia em Pauta. E à Márcia, sua amada, companheira cem por cento e atenta leitora deste BP, que também aniversariou ontem, dia 19, os que fazem Bahia em Pauta dedicam “April in Paris”, música que ela adora, com Ella Fitzgerald, cantora que Márcia e este editor agradecido tanto admiram.

(Vitor Hugo Soares).

out
19
Posted on 19-10-2009
Filed Under (Artigos, Laura) by Laura on 19-10-2009

19 de outubro é uma data muito especial neste Bahia em Pauta, aniversário de Vitor Hugo Soares. A minha missão é difícil, homenagear este capitão, um dos grandes mestres do jornalismo na Bahia, companheiro de tantas lutas de tantos leitores deste espaço, familiar querido, figura brilhante, sensível, jornalista, homem único, referência em delicadeza e elegância para todos que o conhecem, editor deste blog, que tanto nos entretém e informa.

Vitor Hugo, formado em Jornalismo e Direito pela Universidade Federal da Bahia, é reconhecido pelo talento, integridade e comportamento ético em toda sua trajetória profissional – movimento estudantil; atuação em assessoria de imprensa nos poderes legislativo e executivo da Bahia e do município de Salvador; editor e/ou redator em grandes veículos da imprensa nacional, Jornal do Brasil, Veja, Jornal A Tarde entre outros.

Hoje, atualizado com as tendências mundiais, que cada vez mais personalizam o jornalismo, ao passo que o unem a internet, comanda este jovem blog que nasceu em fevereiro deste ano e já se consagra como um espaço instigante, conduzido pelo talento deste mestre baiano. 

A música para começar o dia em data tão especial é “Te Recuerdo Amanda” de Victor Jara, sugestão de Gracinha, grande admiradora do jornalista e amiga de muitos anos, por isso conhecedora de alguns de seus gostos musicais mais pessoais. Jara tem mais do que o nome em comum com nosso editor.    

Víctor Lidio Jara Martínez, músico, tornou-se referência internacional da música de protesto; lecionava Jornalismo na Universidade do Chile quando foi  detido junto com outros alunos e professores nos primeiros dias de repressão que se seguiram ao golpe de estado de Augusto Pinochet, contra o presidente Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973. Membro do Partido Comunista do Chile, Jara, teve suas mãos cortadas como parte do “castigo” dos militares a seu trabalho de conscientização social aos setores mais desfavorecidos do povo chileno.  Foi assassinado em 16 de setembro de 1973, em Santiago.  

Sua mensagem continua a ser ouvida, se não em suas músicas, na inspiração de grandes homens como o homenageado de hoje. Começamos o dia então com “Te recuerdo Amanda” na voz de Victor Jara.

Parabéns a Vitor Hugo Soares!

(Postado por Laura Tonhá)

out
17
Posted on 17-10-2009
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 17-10-2009

Igreja da Barra: sinos e silêncio
Ibarra

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ARTIGO DA SEMANA

ÁGUAS QUE SALVAM E QUE AFOGAM

Vitor Hugo Soares

Uma vez, navegando pelas barrancas do Rio São Francisco a trabalho do Jornal do Brasil, vi escrito na parede em Juazeiro da Bahia: “Seca e enchente, meio de vida de muita gente”. Não sei explicar direito a razão, mas o fato é que lembrei desses dizeres a semana toda, durante os três dias da passagem do presidente Lula e numerosa comitiva belas barrancas do rio, ao longo de três estados.

Mesmo replantado na beira do litoral da mui formosa cidade do Salvador, nas décadas seguintes, não consigo desligar os olhos e ouvidos quando o assunto é o Velho Chico. Assim, passei quase todo o tempo ligado em cada passo da caravana, Lula carregando debaixo de suas asas atraentes como as de uma ave dos campos gerais de Guimarães Rosa, sua trupe de acompanhantes.

G0vernadores, ministros, parlamentares, assessores, jornalistas, marqueteiros, além de três postulantes à sua sucessão em 2010 (Dilma Rousseff, Aécio Neves e Ciro Gomes). Gente de linguagens diversas e projetos nem sempre comuns, a falar para uma gente nem sempre disponível a acreditar em santos, promessas e milagres.

Mesmo não sendo candidato direto agora, Lula levou o tempo inteiro debaixo do braço nessa travessia a ministra Dilma Rousseff, apresentada aos ribeirinhos como principal guardiã do cumprimento de um dos projetos mais polêmicos , babilônicos e bilionários de seu governo: a transposição das águas do São Francisco. Nele o governo promete despejar mais de R$ 6 bilhões.

O Velho Chico transforma-se assim em retumbante bandeira eleitoral na terceira campanha presidencial consecutiva, como já sabe há um bom tempo o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), que engordou a comitiva presidencial no trecho mineiro. E como acaba de descobrir o governador de São Paulo, José Serra, que também pousou esta semana em Petrolina, na beirada pernambucana do rio, ao lado de fieis companheiros tucanos, para tentar reduzir os efeitos da inundação.

Entendo o vôo de todas essas aves de arribação. Da região percorrida por elas nos últimos dias, guardo a primeira e mais poderosa lembrança que trago comigo até hoje: o rumor da correnteza do rio da minha aldeia passando quase por dentro do quintal da minha casa, a caminho dos cânions magníficos que espremiam suas águas antes de chegar à cachoeira de Paulo Afonso.

No capítulo “Infância e Poesia”, na abertura do livro de memórias “Confesso que Vivi”, o poeta Pablo Neruda ao recordar do seu Chile amado e sempre presente em sua obra, revela que nos anos de sua infância seu único personagem inesquecível foi a chuva. ‘a grande chuva austral que cai como uma catarata do Pólo, desde os céus do Cabo de Hornos até a fronteira. Nessa fronteira, o faroeste de minha pátria, nasci à vida, à terra, à poesia e à chuva”, conta Neruda.

Sem conhecer outra melhores, me socorro das palavras do poeta da América Latina para descrever essa sensação de presença permanente do rio dos quintais de Abaré. Minha cidade, do lado baiano, que fica a menos de oito quilômetros navegando em canoa, até chegar a Cabrobó, cidade pernambucana onde o governo Lula fincou o Marco Zero do seu “projeto redentor de combate à seca e a fome no Nordeste”.

Lem de redentor, como proclamam as vozes oficiais em discursos nas margens do rio, uma frondosa árvore político-eleitoral que já deu frutos a granel na campanha que levou Lula ao Palácio do Planalto em 2002 – quando a idéia de transposição que vem do tempo do Império virou plataforma de campanha do primeiro governo petista. Serviu depois na reeleição de Lula, e os melhores sonhos governistas é de que sirva também nos comícios de sua candidata em 2010.

Em um dos relatos sobre a Coluna Lula no São Francisco – a definição perfeita é da revista digital Terra Magazine, cujos repórteres Bob Fernandes (editor-chefe) e Claudio Leal seguiram de perto o curso da caravana, leio o seguinte:

“No segundo turno das eleições presidenciais de 2006, Lula obteve 77% dos votos no Nordeste , contra 22% do tucano Geraldp Alckmin. Entre os estados nordestinos que integram a viagem desta semana, o presidente obteve 78% dos votos dos baianos em 2006 e 65% em 2002, quando se elegeu superando José Serra, também do PSDB.

Em Pernambuco, onde fica sua cidade natal, levou 57% dos votos em 2002 e na eleição seguinte ampliou a vantagem para 78,5%.” Mas Lula é Lula e, desta vez, ele poderá receber os votos do Velho Chico diretamente. Precisará fazer a transposição das vontades para alguém.

Se a caravana desta semana serviu para alguma coisa foi para demonstrar que esta não será uma tarefa fácil; O Rio São Francisco tem lá seus segredos insondáveis. Podem salvar, mas também afogam.
A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista.-mail: vitor_soares1@terra.com.br

out
16
Posted on 16-10-2009
Filed Under (Artigos, Laura) by Laura on 16-10-2009

family

Edição deste mês da revista Super Interessante traz descobertas sobre a formação do indivíduo. Entre elas a afirmação de que talvez outras pessoas, que não os pais, sejam mais importantes no desenvolvimento da criança. A defensora desta teoria “amigos são tudo” é a psicóloga americana Judith Harris.

O principal argumento é uma das maiores pesquisas já feita com filhos adotivos, os resultados mostraram que, quando adultas, as crianças adotadas eram muito mais parecidas com seus pais biológicos do que com seus pais adotivos -com quem tinham passado a vida toda. Em outras palavras a criação de casa tinha deixado poucas marcas permanentes. Judith afirma que a única marca indelével vem do ambiente. A justificativa é biológica. Durante milhões de anos de evolução, a nossa sobrevivência dependeu da capacidade de viver em grupo: aprendemos a agir, falar e nos comportar como as pessoas ao nosso redor.

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O ponto importante é que a criança reconhece o grupo nas pessoas da mesma idade e nicho que ela, ou seja, nos amigos – e não nos pais. Por isso, no final das contas a criança desenvolve personalidade parecida com a dos amiguinhos. De acordo com a psicológa os pais devem se contentar com o fator genético.

O estudo não incluiu crianças que sofreram abusos na infância. Pesquisas já comprovaram que crianças que sofrem maus tratos não produzem serotonina em níveis normais e, na maior parte dos casos, se tornam adultos deprimidos e/ou agressivos – que possivelmente também abusaram dos filhos. Nestes casos o fator criação se sobrepõe ao fator “amiguinhos”.

Viviane Feldens – doutora em psicologia de crianças – lembra ainda que é com a mãe que as crianças aprendem a socializar e são essas as referências que ela vai levar na hora de fazer as primeiras amizades. Em outras palavras, se o ambiente familiar mantiver as condições “normais”, os amiguinhos influenciarão bastante na formação da personalidade, mas na hora de escolher os amiguinhos as crianças optaram por  aqueles que tragam características de sua mãe.  

Como diria Freud no final é tudo “culpa” da mãe. Para o bem ou para mal.

Laura Tonhá

out
16
Posted on 16-10-2009
Filed Under (Artigos, Vitor) by Margarida on 16-10-2009


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“A todos o herói luso, um poeta. A toda uma revolução de cravos. Deixamos estas migalhas, para quem da bondade interpreta por burro , a quem do coração tranquilo interpreta por apatia. As diferenças induzem a erros, mas não são impossíveis de interiorizar… apreender… apreciar… admirar…quem sabe um dia…  Terra velha, com rosto moldado em sal, todos os sussurros que gemes pensamentos , trazem palhas simples demais aos olhos imaturos… Oxalá o teu Brasil Maitê , não se acanhe, não se aflija, mas sossegue confortado Proença” .

Trecho do comentário feito no Bahia em Pauta pelo leitor que assina Miguel C, a propósito do vídeo produzido pela atriz brasileira Maitê Proença e exibido no programa de televisão Saia Justa, que indignou os portugueses e segue causando polemica. A mensagem vem acompanhada de belissima e emblematica melodia portuguesa interpretada pelo conjunto Madredeus, que Bahia em Pauta escolheu para encantar esta madrugada de outubro.

(Postado por Vitor Hugo Soares)

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