ago
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Posted on 01-08-2010
Filed Under (Artigos, Ivan) by vitor on 01-08-2010

Pinheiro: primeirão a governador

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Bahia em Pauta reproduz neste domingo o artigo do jornalista político Ivan de Carvalho, publicado na Tribuna da Bahia na edição da última sexta-feira, dia em que Bahia em Pauta esteve fora do ar por problemas técnicos. O tema é o jogo político baiano e seus operadores atuais, como o deputado federal Walter Pinheiro (PT), candidato a senador na chapa governista de Jaques Wagner, que assim como quem não quer nada acaba de admitir que poderá ser candidato a governador em 2014. “Pinheiro certamente está sendo sincero quanto ao seu desejo, mas não só isto,”comenta Ivan no texto que segue atual. Confira.
(VHS)

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OPINIÃO POLÍTICA

Pinheiro e eleições de 2014

Ivan de Carvalho

Era só o que faltava, ou talvez nem faltasse, apenas agora se apresentou o fenômeno de forma mais pública e ostensiva. Já temos pelo menos um candidato – ou, vá lá, aspirante – a prefeito de Salvador em 2012 e a governador em 2014. O que der – ou as duas coisas, se der.

Vale aqui uma brevíssima memória. O governador Jaques Wagner foi fundamental para que o deputado e candidato a senador Walter Pinheiro conseguisse vencer dentro do PT o deputado Nelson Pelegrino e se firmasse como candidato a prefeito de Salvador em 2008.

Pinheiro tem recebido do governador um tratamento político e partidário privilegiadíssimo, pelo menos desde a escolha do candidato petista a prefeito da capital no ano citado. Derrotado pelo peemedebista João Henrique nas eleições de 2008, Pinheiro, embora mantivesse seu mandato de deputado federal, foi nomeado secretário estadual do Planejamento.
Logo se levantou a hipótese de que isto significaria uma preparação para que Pinheiro integrasse a chapa majoritária liderada por Wagner neste ano de 2010. Como um dos candidatos a senador. Mas o governador, na ocasião, fez pouco caso da hipótese, pois tinha a idéia de que compor uma base partidário-eleitoral de uma maneira em que o único petista na chapa de candidatos às eleições majoritárias seria ele próprio, Jaques Wagner, buscando a reeleição.

E, para completar, Wagner comentou ter a impressão – ou coisa semelhante – de que “o projeto” de Walter Pinheiro passaria “por 2012”, vale dizer, por uma nova candidatura a prefeito da capital. Isto nunca foi desdito pelo governador nem descartado pelo deputado Walter Pinheiro. Mas este já deixou claro que pretende mais. Admitiu, há poucos dias, ser candidato à eleição de governador em 2014. De preferência, claro, se for eleito senador, pois, se perder agora, a candidatura ao governo não se torna impossível, mas será bem difícil, já que seriam duas derrotas seguidas a superar politicamente – uma para a prefeitura, em 2008 e outra para o Senado, em 2010.

Ao admitir que poderá ser candidato a governador em 2014, Pinheiro certamente está sendo sincero quanto ao seu desejo, mas não só isto. Ao proclamar a possibilidade, ganha peso político na campanha para o Senado, atraindo gente que aposta no futuro. Nesta linha, estará reforçando agora sua candidatura a senador com o, por enquanto, digamos, factóide, da candidatura a governador. O que é factóide hoje pode até ser fato amanhã, vale ressalvar.

No entanto, quando lança a hipótese da candidatura às eleições de 2014 para governador, Pinheiro também atrai um ônus para sua atual campanha. Todos os que têm pretensões a conquistar o governo em 2014 passam a considerá-lo um adversário desde já e isso pode acarretar influência negativa na campanha para senador.

Ademais, cria uma situação algo incômoda para o governador Wagner. Outros aspirantes na sua área de influência – a governista – podem não se sentir motivados a “vestir a camisa” do concorrente interno, na atual campanha. E ciumeiras também podem surgir. Creio ter sido levando em conta essas coisas que Wagner apressou-se a dizer que sua agenda atual não inclui 2012 nem 2014, mas apenas as eleições de 2010.
Mas terá Walter Pinheiro avançado tanto o sinal por conta própria? Pode ser. Mas nada impede que ele e o governador estejam executando uma manobra política conjunta, da qual fariam parte as declarações de ambos. Cada um no seu papel.

jul
31
Posted on 31-07-2010
Filed Under (Artigos, Rosane) by vitor on 31-07-2010

Nas urnas sem saber ler

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DEU NO TERRA (ELEIÇÕES 2O1O)

Rosane Soares Santana

Direto de São Paulo

A maioria dos eleitores brasileiros no Império era analfabeta. “Não lê, nem pode ler jornais”, descreveu Francisco Belisário (O Sistema Eleitoral do Império, Senado Federal). “Incapazes de ler um jornal, um decreto do governo, um alvará da justiça, uma postura municipal”, completou José Murilo de Carvalho (Cidadania no Brasil, Civilização Brasileira). Também não podiam assinar a cédula de votação, como estabeleceu a legislação entre 1824 e 1842. Mas, num processo eleitoral marcado pela fraude e pela violência, havia sempre quem o fizesse em lugar do eleitor na hora de depositar o seu voto.

Pela legislação eleitoral criada logo após a Independência, de acordo com o cientista político Jairo Nicolau (História do Voto no Brasil, Jorge Zahar), os votantes (eleitores de primeiro grau) eram obrigados a colocar na urna uma lista com a relação dos nomes dos candidatos. Mas esta já vinha pronta, não era feita diante da mesa eleitoral, donde supõe-se que alguém o fazia pelo eleitor, colocando nomes que nem mesmo ele podia identificar, já que era analfabeto.

“O votante é, por via de regra, analfabeto… de político só sabe o seu voto, que ou pertence ao Sr. Fulano de tal por dever de dependência (algumas vezes também por gratidão), ou a quem lho paga por melhor preço, ou lhe dá um cavalo, ou roupa de ir votar à freguesia…”, outra vez Belisário.

Minoria votava

Dos cerca de cinco milhões de habitantes do Brasil, à época da Independência, uma minoria ia às urnas. Havia mais de um milhão de escravos e 800 mil índios, que estavam excluídos do processo eleitoral, juntamente com as mulheres, além de outras categorias indicadas pela legislação.

No final do Império, em 1872, o número de habitantes saltou para 8,4 milhões. Mas, não obstante os esforços de liberais e conservadores no Governo Central e no Poder Legislativo para “civilizar” o Brasil, a partir da Independência, com a criação de escolas primárias, formação de professores, catequese de índios e construção de bibliotecas públicas, o índice de analfabetismo permaneceu praticamente inalterado, fruto do descaso da colonização portuguesa com a educação, ao contrário do que ocorrera nas colônias espanholas da América.

No período imperial, no Brasil, a educação possuía o maior orçamento, depois da Segurança Pública. Na Bahia, por exemplo, em 1839, com uma população de cerca de 500 mil habitantes (30% de escravos, sem qualquer direito civil ou político), já existam 171 escolas primárias, 43 escolas secundárias e uma Escola Normal. Os numeros são significativos, se considerarmos que a administração portuguesa sempre tratou com descaso a educação, inicialmente entregue aos jesuítas e, após a expulsão destes, no século XVIII, relegada a segundo plano pelo Estado.

Na Bahia, descartados os escravos, cujo estatuto jurídico não permitia o acesso à cidadania e, portanto, à educação, tínhamos uma escola secundária para cada 8.140 habitantes e uma escola primária para cada 2.047 habitantes, se forem verdadeiros os números apresentados pelo, então, presidente da província, Thomaz Xavier Garcia de Almeida, à Assembléia Legislativa Provincial da Bahia, em 2 de fevereiro 1839.

Exclusão dos analfabetos

A reforma eleitoral de 1881, aprovada pela Câmara dos Deputados, introduziu o voto direto, eliminando os dois turnos nas eleições, e proibiu a participação de analfabetos no pleito. A medida mereceu o protesto de parlamentares como Joaquim Nabuco, porque provocou uma redução drástica no número de eleitores, que perdurou até os anos 30 do século XX, ou seja, todo o período da República Velha.

Em 1872, havia mais de um milhão de votantes (eleitores de primeiro grau), o equivalente a 13% da população livre. Em 1886 pouco mais de 100 mil eleitores participaram das eleições para deputado, representando 0,8% da população geral – redução de 90% do eleitorado, num universo onde somente 15% dos habitantes eram alfabetizados, segundo José Murilo de Carvalho.

Em pleno século XXI, a baixa escolaridade e o analfabetismo ainda atingem a maioria do eleitorado. São permanências da nossa formação social e grande entrave para a nossa evolução política e econômica. Ainda somos uma país onde mais da metade do eleitorado (53,56%), avaliado em pouco mais de 133 milhões de pessoas, não possui nenhuma escolaridade ou são analfabetos funcionais, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, divulgados na semana passada.

Um desafio a ser vencido em plena Era do Capital Intelectual, apesar dos avanços com a introdução do voto digital, que torna o processo eleitoral brasileiro, neste aspecto, o mais moderno do mundo.

Rosane Soares Santana é jornalista, com mestrado em História pela UFBA. Estuda o Poder Legislativo, elites políticas e eleições no Brasil. Integra a cobertura de eleições do Terra.

Leia mai eleições na história no Terra

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4596114-EI6578,00-Maioria+dos+eleitores+era+analfabeta+no+Brasil+Imperio.html

jul
31


Um livro mágico de Saramago
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ARTIGO DA SEMANA

NA VÉSPERA DE AGOSTO

Vitor Hugo Soares

Acabo de ler “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, um dos primeiros e mais fabulosos romances de José Saramago. Agora entendo porque esta obra foi a razão inicial do encontro e da paixão da espanhola Pilar Del Rio pelo recém falecido escritor português, no cenário da incrível Lisboa dos anos 30 que o livro retrata, quando do retorno a Portugal logo depois da morte de Fernando Pessoa, do heterônimo mais clássico do grande poeta, que se auto exilara no Rio de Janeiro.

Ainda estonteado pela mágica e embriagadora atmosfera da história e de seus personagens, escuto um leve bater na porta do apartamento em Salvador. É agosto que pede licença para entrar neste domingo do ano eleitoral de 2010. Sétimo mês do calendário gregoriano, tão emblemático e sugestivo da vida do País, a começar por um dos fatos de maior impacto nas recordações do jornalista quando garoto: o suicídio de Getúlio Vargas, chefe da Nação e guia do antigo trabalhismo brasileiro – de fim tantas vezes decretado, e tantas vezes ressuscitado, principalmente quando o tempo é de pedir votos.

Lembro nitidamente do momento em que a notícia chegou, no meio do formigueiro humano da construção da primeira usina da Companhia Hidroelétrica do São Francisco, (CHESF), em Paulo Afonso, que iluminaria o Nordeste nos anos seguintes e tornaria Getúlio um mito ainda maior na região. Veio através de um potente serviço da auto-falante instalado no centro da praça principal da Vila Poty, coração da cidade operária, que naquele instante parecia atingida por fragmentos do disparo no Palácio do Catete, no Rio tumultuado dos 50. Ontem como hoje, já se vê.

Impossível esquecer. Mas fiquem tranqüilos, que não contarei de novo a historia do impacto daquele dia na vila baiana, como já o fiz tantas vezes em outros artigos. Este, por enquanto, é só um breve registro para não deixar passar em branco a chegado do novo mês, que na pauta do jornalismo nacional tem peso inescapável. Comparável ao do preço do quiabo, do camarão e do dendê na época do caruru de Cosme e Damião, nas pautas dos jornais baianos, no mês de setembro.

Na verdade, três assuntos me ocuparam a atenção nesta semana de pré-agosto: O clima de conversa de comadres no “ti ti ti” que invade, praticamente, todos os espaços da cobertura da campanha presidencial – e para os governos estaduais também – de nossos mais lidos diários e revistas semanais; a torcida pelo Esporte Clube Vitoria, o rubro-negro baiano que enfrenta os “santásticos” meninos da Vila Belmiro, na decisão da Copa do Brasil de futebol; e como já informei no começo, a leitura de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.

A campanha política é esse disse me disse inconseqüente e enganador que se sabe. O sexo dos anjos é o tema que mais se discute até aqui. Ultimamente substituído pela polêmica em que se engalfinham os petistas de Dilma Rousseff e os tucanos de José Serra, para tirar a limpo quem é de esquerda e quem é de direita na geléia geral da campanha, o que no final das contas se resume na mesma cantilena e só reforça as suspeitas levantadas pela verde Marina Silva, de que petistas e tucanos não passam de duas faces da mesma moeda.

O Vitória perdeu o primeiro jogo na Vila. Foi baleado duas vezes, mas os “santásticos” comandados por Neymar deixaram vivo o time baiano, mesmo que respirando “por aparelhos”, como insinua o comentarista Milton Neves na Band News. Os 90 minutos decisivos do jogo serão quarta-feira que vem em Salvador, na fogueira rubro-negra do estádio do Barradão, onde o Leão da Barra não tomou um gol sequer nesta Copa do Brasil. Quem sabe o troco, apesar de toda beleza e perigo do gingado do Santos?…

Por enquanto, o conforto vem mesmo é das páginas do livro de Saramago, inclusive no que concerne ao jornalismo, como diria Janio Quadros. No romance “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, uma passagem marcante neste particular é quando, de volta do Brasil para Portugal, em seguida à morte de Fernando Pessoa, o médico heterônimo do grande poeta luso pega os jornais para ler, depois de passar um tempo na ignorância do que se passava no mundo.
Não que por inclinação Ricardo Reis fosse leitor assíduo, pelo contrário, fatigavam-no as páginas grandes e as prosas derramadas, mas por simples falta do que fazer, revela Saramago sobre o personagem. “Demissão do governo espanhol, aprovada a dissolução das cortes, é uma das notícias do jornal que o médico tem nas mãos naquele 1936. O Negus num telegrama à Sociedade das Nações diz que os italianos empregam gases asfixiantes, é outra notícia.

O personagem constata: “São assim os periódicos, só sabem falar do que aconteceu, quase sempre quando já é tarde demais para emendar os erros, os perigos e as faltas”. Bom jornal, reflete o personagem do romance, seria aquele que no ano de 1914, tivesse anunciado o rebentar da guerra para o dia 24 de Julho. Disporíamos então de quase sete meses para conjurar a ameaça, quem sabe se não iríamos a tempo, e melhor seria ainda se aparecesse publicada a lista dos que iriam morrer.
Saramago com a palavra final para quem quiser escutar ainda: “Milhões de homens e mulheres a ler no jornal da manhã, ao café com leite, a notícia de sua própria morte, destino marcado e a cumprir, dia, hora e lugar, o nome por inteiro, que fariam eles sabendo que os iam matar, que faria Fernando Pessoa se pudesse ler, dois meses antes, o autor da Mensagem morrerá no dia trinta de novembro próximo de cólica hepática, talvez fosse ao médico e deixasse de beber, talvez desmarcasse a consulta e passasse a beber o dobro, para poder morrer antes.”
Magnífico romance! Magnífico Saramago!!!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

jul
29
Posted on 29-07-2010
Filed Under (Artigos, Ivan) by vitor on 29-07-2010

Lídice: bem na foto do Senado, mas…

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Em seu artigo desta quinta-feira, na Tribuna da Bahia, o colunista político Ivan de Carvalho analisa o resultado da mais recente pesquisa Datafolha para o Senado em relação aos candidatos baianos. Os números desta primeira pesquisa, segundo o articulista, até que funcionaram como uma dose moderada de calmante no PSB e mais especialmente na campanha da deputada e candidata a senadora Lídice da Mata. Mas…

Bahia em Pauta reproduz o texto de Ivan. Confira.

(VHS)

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OPINIÃO POLÍTICA

Senado e discrepância no Datafolha

Ivan de Carvalho

A primeira divulgação da mais recente pesquisa Datafolha sobre o Senado na Bahia até que funcionou como uma dose moderada de calmante no PSB e mais especialmente na campanha da deputada e candidata a senadora Lídice da Mata.

Afinal, Lídice e sua campanha sabem dos riscos de serem eleitos para as duas cadeiras baianas a vagar no Senado o já senador César Borges, presidente do PR da Bahia e coligado com o PMDB e vários outros partidos, e o petista Walter Pinheiro, pessoa que vem sendo prestigiada fortemente pelo governador, objetivamente, desde a escolha do candidato petista a prefeito de Salvador, em 2008.

Um fator da conjuntura é a suposta, mas de modo nenhum descartável e até natural tendência petista de, ficando a coisa ruça, priorizar, na campanha, o candidato do PT ao Senado, deixando mais ou menos por conta própria a candidata socialista e ex-prefeita de Salvador.

Outro é a dificuldade, identificada por muitos políticos e analistas, da eleição de dois candidatos “esquerdistas” para as duas vagas em disputa no Senado. A idéia subjacente, aí, é a de que a chamada “esquerda” não seria tão forte assim na Bahia.

Finalmente, um terceiro fator da conjuntura considerada é a liderança isolada do senador César Borges nas pesquisas eleitorais, inclusive na última sondagem do Datafolha. Claro que a campanha está apenas começando, mas isso já é outra história. Na fotografia do momento, César Borges tem 34 por cento das intenções de voto e é seguido de longe por Lídice e Pinheiro, nesta ordem.

Mas a primeira publicação dos resultados da pesquisa Datafolha (não confundir com os do Vox Populi, que até estão sofrendo contestações ostensivas no meio político) pelo jornal Folha de S. Paulo atribuía 26 por cento das intenções de voto a Lídice e 20 por cento a Pinheiro. Bons índices, especialmente para Lídice, porque não muito distante de Borges e seis pontos à frente de Pinheiro.

No entanto, verificou-se (o primeiro alerta foi dado pelo site Política Livre) que o relatório do Datafolha continha números diferentes dos publicados pelo jornal paulista do mesmo grupo. O Datafolha já explicou satisfatoriamente a discrepância, historiando como e porque ela ocorreu e certificando como corretos os números do seu relatório e não os inicialmente publicados pelo jornal (já houve uma republicação corretiva).

Nos números verdadeiramente apurados pela pesquisa, César Borges obtivera os mesmos 34 por cento das intenções de voto, mas Lídice da Mata não tinha 26 e sim 22. Assim, fica mais distante de Borges e Pinheiro, com 18 por cento, já lhe pisa os calcanhares.
Lídice da Mata tem novos motivos para estar eleitoralmente aflita, ela que recentemente esteve extremamente descontente com a montagem da chapa majoritária em que está inserida (e na qual esperava que só houvesse um candidato de “esquerda” ao Senado, ela própria, o que levaria o PT, em termos de Senado, a necessariamente apostar tudo em sua candidatura).

Recomenda-se um novo e caprichado “sacudimento” no comitê central da campanha, em reforço ao antes já realizado por poderosa Mãe de Santo e que, parece, aliviou, mas não chegou a resolver o problema.

Aposentados e pensionistas: mais malvadeza

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Começa a contaminar o ar do país uma crescente e grave suspeita de que está em armação, em alguns socavões do governo, mais um golpe contra aposentados e pensionistas. É este o tema do artigo que o jornalista político Ivan de Carvalho publica nesta quarta-feira na Tribuna da Bahia .

“Ora, vários foram os golpes já desferidos contra os aposentados e, consequentemente, os que “herdam” essas aposentadorias, vale dizer, os pensionistas. O golpe maior e contínuo é o dos reajustes que não repõem, ano a ano, efetivamente, o poder aquisitivo das aposentadorias e pensões, reduzido a cada um desses períodos pelo aumento dos preços de produtos e serviços em grau maior que o dos reajustes dos “benefícios”, diz o articulista em um dos trechos do texto que Bahia em Pauta reproduz.  Confira.
(VHS)

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OPINIÃO POLÍTICA
Tratamento cruel e degradante
Ivan de Carvalho

A Declaração Universal dos Direitos Humanos diz, entre várias outras coisas, que “ninguém será submetido a tratamento cruel ou degradante”.
Bem sei que a Assembléia Geral da ONU, ao aprovar a declaração que inclui o trecho posto acima entre aspas, não estava pensando nas pensões que, no Brasil, os titulares de direitos (ditos benefícios) deixam, quando morrem, para seus cônjuges e eventualmente para outras pessoas. Mas a citação do trecho da Declaração Universal dos Direitos Humanos é, mesmo assim, adequada.

As pensões correspondem a 100 por cento das aposentadorias que os titulares recebiam. Como quase invariavelmente se trata de pessoas idosas, isso é uma regra humanitária, de vez que, à medida que envelhece, a pessoa, geralmente, tem aumentadas, em muito, despesas relacionadas com a saúde, e, não raro, precisa de pessoa que remuneradamente ajude a cuidar do pensionista ou, na maioria dos casos, da pensionista.

Ora, vários foram os golpes já desferidos contra os aposentados e, consequentemente, os que “herdam” essas aposentadorias, vale dizer, os pensionistas. O golpe maior e contínuo é o dos reajustes que não repõem, ano a ano, efetivamente, o poder aquisitivo das aposentadorias e pensões, reduzido a cada um desses períodos pelo aumento dos preços de produtos e serviços em grau maior que o dos reajustes dos “benefícios”.

O Estado brasileiro, por intermédio do INSS, comete furtos legais, que poderiam ser chamados também de roubos, considerando-se que a imposição legal da malandragem corresponde ao uso da força para a prática do ato. Ato que não é ilícito apenas porque o Estado o estabeleceu em lei, mas configura o que, na esfera privada, seria enriquecimento ilícito, porque sem causa legítima.

Refiro-me ao fato de que, se uma pessoa se aposenta pelo INSS e continua trabalhando – porque precisa – no mesmo ou em outro emprego, ela tem que continuar pagando o INSS, descontado na fonte, ônus ao qual não corresponde qualquer bônus, uma vez que tal pagamento não gera direito algum para o aposentado, gerando portanto uma receita imotivada para o INSS, malandragem esta supostamente justificada por um, no caso, fantasmagórico “princípio de solidariedade”. O aposentado paga sem qualquer contrapartida presente ou futura.

As políticas do governo acima descritas já são cruéis e degradantes, mas parece o governo estar achando que convém intensificar o mal. Ou o maltrato. E então vem o ministro da Previdência, Carlos Gabas, dizer que “em face do bom desempenho da economia brasileira, devem ser reestudadas as pensões herdadas dos cônjuges”. Como o governo Lula não fará isto neste ano de eleições e o Congresso também não, a tarefa estará sendo deferida a Dilma Rousseff, a candidata presidencial governista, caso ela seja eleita.

Por enquanto, o ministro falou apenas em alguns casos. Um deles, acabar com a hipótese de acumular a própria aposentadoria com uma pensão deixada, por exemplo, pelo cônjuge. A pessoa teria de optar entre uma e outra coisa. Já se tentou isso antes, mas o Judiciário derrubou a tentativa. Digamos que alguém tenha uma aposentadoria de um salário mínimo e uma pensão de um salário mínimo. Aí, tem que optar e ficará recebendo apenas um salário mínimo, ao invés de dois.

Malvadeza.

Haroldo lima: na alça de mira

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deu no site de CHICO BRUNO

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Miriam Leitão

O mico e a pressa

Um plano nacional de contingência para conter vazamento de petróleo é o que o Brasil deve fazer diante das novas circunstâncias criadas pelo desastre do Golfo do México. O que deve ser abandonada é a atitude de que os estrangeiros não sabem nada, e nós sabemos tudo, que está em cada declaração do governo. A postura é arrogante, e mostra desconhecimento de como funciona o setor.

“Esse pessoal da Europa não tem a experiência que nós temos”, como disse ontem o diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo (ANP), Haroldo Lima, na entrevista a Ramona Ordoñez, publicada no jornal O Globo.

A British Petroleum foi a primeira empresa a sair da sua região para explorar o petróleo. Antes desse desastre, a BP usou a mesma sonda para perfurar outro poço a mais de 10 mil metros, no campo de Tiber, onde a Petrobras participa. A Petrobras é sócia desse “pessoal da Europa”, para usar a expressão de Haroldo Lima. No poço que deu o problema, o de Macondo (a obra-prima de Gabriel García Márquez não merecia isso), a BP está associada à Anadarko que é a única empresa que no Brasil encontrou petróleo no pré-sal sem estar associada à Petrobras. Ninguém está sozinho ou detém uma tecnologia só sua nesse setor.

– A indústria de petróleo se desenvolve pela interação que existe entre empresas especializadas em serviços e as grandes companhias de petróleo – diz Wagner Freire, ex-diretor de Exploração e Produçãoda Petrobras.

O professor Helder Queiroz, do Grupo de Economia da Energia da UFRJ, confirma:- As tecnologias das empresas são as mesmas, as empresas parapetrolíferas fornecem serviços que são contratados por todas as companhias. A competição e a cooperação entre as firmas é que faz avançar a tecnologia. E isso ficou confirmado na reunião de Houston, quando estiveram 200 empresas do setor discutindo o problema do Golfo do México.

A Petrobras teve quatro acidentes, dois em Enchova, um em Roncador e o da Refinaria Duque de Caxias. Todos com pouco impacto ambiental exceto o vazamento na Baía de Guarabara. Esse histórico já deveria dar à empresa, ao governo brasileiro e à ANP um pouco de humildade. Essa é uma atividade de risco, a nova fronteira de exploração de petróleo é offshore, mesmo que dois terços da produção ainda sejam em terra, a produção de petróleo no mar do Golfo é maior do que a do Brasil. Enfim, há vários motivos para redobrar os cuidados e nenhum para a atitude de superioridade que o governo brasileiro tem demonstrado em seus atos e palavras.

Um fato de pouca repercussão, mas da maior gravidade, é o acidente que acabou de acontecer no Libra, poço que a Petrobras estava perfurando para a ANP na Bacia de Santos. Na visão de Wagner Freire, a situação é toda estranha:

– A perfuração acontece à margem da legislação e das disposições legais porque não é concessão, apesar de ser esse o regime vigente. E como é um poço para a agência reguladora fica mais estranho. A ANP não tem condição de ser operadora e não se sabe a que título a Petrobras está perfurando, se é terceirizada da agência ou não. Não fica claro também a responsabilidade de cada um.

jul
27
Posted on 27-07-2010
Filed Under (Artigos, Ivan) by vitor on 27-07-2010


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A questão do aborto é o tema do artigo do colunista político Ivan de Carvalho na Tribuna da Bahia, que Bahia em Pauta reproduz. Os três principais candidatos a presidente da República – José Serra, Dilma Rousseff e Marina Silva – têm afinal fixada posição clara sobre o aborto, um dos temas que mais estão sobressaindo no debate desse início de campanha eleitoral e, mais do que isto, um dos temas sobre os quais o governo, o Congresso e a sociedade poderão ter que se posicionar no próximo quatriênio. Confira.

(VHS)

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OPINIÃO POLÍTICA

Aborto:candidatos fixam posições

Ivan de Carvalho

Os três principais candidatos a presidente da República – José Serra, Dilma Rousseff e Marina Silva – têm afinal fixada posição clara sobre o aborto, um dos temas que mais estão sobressaindo no debate desse início de campanha eleitoral e, mais do que isto, um dos temas sobre os quais o governo, o Congresso e a sociedade poderão ter que se posicionar no próximo quatriênio.

Importa – para que o eleitorado possa considerar esse tema essencial com o necessário conhecimento de causa quando for dar seu voto, em outubro – registrar aqui, bem como em todos os lugares possíveis, as posições de cada um dos três principais candidatos a respeito.

Começando por Marina Silva, do PV, evangélica sem contestação. Ela declarou que é contrária ao aborto. Sofreu então ataque intenso no sentido de que é conservadora (?!). Não sei se os atacantes queriam acusá-la de conservadora por ser a favor da conservação da vida humana. Mas Marina sentiu o ataque, manteve a posição pessoal, mas acrescentou uma concessão: admite, se o Congresso assim decidir, a realização de um plebiscito, no qual o eleitorado do país decidiria se o aborto deve ser descriminalizado (liberado) ou não.

Nesse plebiscito, evidentemente, ela poderá, querendo, fazer campanha para que os eleitores digam não à liberação do aborto. Se estiver na presidência da República, sua posição terá grande influência. Mas aborto é, na prática, homicídio cruel de ser humano inocente e indefeso. Será que Marina admitiria um plebiscito para o eleitorado decidir se os homicídios em geral serão liberados ou não?

Dilma Rousseff. Eu a vejo como totalmente favorável à liberação do aborto. Prova: em sabatina no jornal Folha de S. Paulo, em 2007, Dilma defendeu a descriminalização do aborto. “Acho que tem de haver descriminalização do aborto. No Brasil, é um absurdo que não haja, até porque nós sabemos em que condições as mulheres recorrem ao aborto. Não as de classe média, mas as de classe mais pobres deste país”, disse. Mais claro do que isso, só a luz de uma bomba nuclear ou a palavra de Deus – “Não matarás”. E ela agora (antes não) diz que é cristã e católica.

Mas depois de declarar isso, Dilma Rousseff foi lançada por Lula candidata do PT a presidente da República. O governo Lula tem um ministro da Saúde, José Carlos Temporão, que defende a liberação do aborto, considerando-o uma “questão de saúde pública”, mesma tese do presidente Lula, segundo revelou Dilma. E o programa do PT, por decisão do 3º Congresso do partido, defende a descriminalização do aborto.

Em 2007, Dilma alinhou sua posição pessoal com a do governo do qual participava e a posição oficial do PT. Depois disso, foi lançada candidata a presidente. Seu programa de governo, registrado no TSE, era claramente favorável à descriminalização do aborto, provocando forte reação da Igreja Católica e de muitos evangélicos. Ela então tratou de esconder o que é ruim, isto é, camuflar o que lhe ameaçava criar problemas eleitorais. Mudou o programa. E disse: “Eu sou a favor da vida em todas as suas dimensões e todos os seus sentidos. Sou a favor da preservação da vida”, declarou na semana passada. Parece claro, mas não é. A vida do ser humano no ventre materno, a vida da mãe, arriscada nos abortos clandestinos? Claro seria se ela dissesse: “Sou contra a descriminalização do aborto”. Mas isto ela não disse.

A clareza total ficou com o tucano José Serra. No dia 21, eliminou qualquer dúvida. Serra disse que a legalização do aborto prejudicaria programas de prevenção à gravidez indesejada. “Dificultaria o trabalho de prevenção, como no caso da gravidez na adolescência, que é um assunto muito grave. Vai (ter) gravidez para todo o lado porque (a mulher) vai para o SUS e faz o aborto”, disse.

O candidato José Serra acrescentou que a liberação do aborto promoveria uma “carnificina” no país. “Considero o aborto uma coisa terrível”, afirmou, em sabatina promovida pelo jornal Folha de S. Paulo e pelo portal UOL.

jul
26

Pesquisas: além dos aviões

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O conflito de resultados nas pesquisas eleitorais dos principais institutos do País, flagrantemente verificado nos mais recentes levantamentos divulgados por VOX POPULI e DATAFOLHA, é o tema do artigo desta segunda-feira do colunista político Ivan de Carvalho na Tribuna da Bahia, que Bahia em Pauta reproduz.As discrepâncias nos números recolhidos pelos dois destacados institutos especializados são tão gritantes e estranhas que dá para desconfiar de que, neste quesito crucial das campanhas eleitorais, existe algo no ar além dos aviões de carreira.

(VHS)

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OPINIÃO POLÍTICA

Números federais e estaduais

Ivan de Carvalho

1. A pesquisa Datafolha divulgada no fim de semana entra em conflito total com a sondagem de opinião eleitoral realizada pelo Instituto Vox Populi. Este acabara de atribuir, na sexta-feira, 41 por cento das intenções de voto a Dilma Rousseff, do PT e a candidata governista, 33 por cento a José Serra, do PSDB e oposicionista e oito por cento a Marina Silva, do PV e também oposicionista. Dilma teria oito pontos percentuais de vantagem sobre Serra nas intenções de voto.

Então vem o Datafolha e estabelece o conflito dos números: confere a José Serra 37 por cento das intenções de voto e a Dilma Rousseff, 36. Um ponto a favor de Serra, ou, para quem preferir, o chamado “empate técnico”. Na pesquisa anterior do Datafolha, no mês passado, Serra e Dilma também empataram, na ocasião, ambos com 37 por cento das intenções de voto, enquanto o Vox Populi, também em sua pesquisa anterior, divulgada no dia 29 de junho, dava 40 por cento a Dilma Rousseff e 35 por cento a José Serra.
Em relação a Marina Silva, a última pesquisa Vox Populi atribui oito por cento, exatamente como na pesquisa anterior do mesmo instituto, coisa bastante diferente dos 12 por cento de intenções de voto que o último Datafolha atribui a Marina.

2. O Datafolha (do grupo Folha de S. Paulo e em parceria com a TV Globo) pesquisou a Bahia e atribuiu 44 por cento das intenções de voto ao governador Jaques Wagner, do PT, 23 por cento ao ex-governador democrata Paulo Souto e 12 por cento ao ex-ministro Geddel Vieira Lima, do PMDB. Luiz Bassuma, do PV e Professor Carlos, do PSTU, apareceram com um por cento, cada. Cinco por cento dos eleitores disseram que votarão nulo ou em branco e 14 por cento não quiseram responder.

Por esses números, o governador Jaques Wagner tem a possibilidade de vencer sem necessidade de disputar um segundo turno. Os candidatos de oposição podem alegar, no entanto, que tais números tendem a sofrer grande mudança e que as posições atuais se devem a um período de muitos meses em que as oposições estiveram quase sem voz, com exposição modesta na mídia, enquanto o governador, sob este aspecto, foi beneficiário de intensa propaganda de seu governo.

Este fenômeno estaria encerrado por força da lei eleitoral, que não permite a propaganda oficial no período eleitoral, mas somente a propaganda eleitoral, regulada por lei, e na qual o governador e os dois principais candidatos da oposição têm condições similares de comunicação com o público pelo rádio e televisão, bem como por outros meios de propaganda. Quanto a Luiz Bassuma, pode conquistar pontos junto ao eleitorado à medida que a campanha de Marina Silva cresça, apesar do pouco tempo que ambos terão nos programas gratuitos de rádio e televisão. Um crescimento apreciável de Bassuma é considerado por alguns políticos como importante para assegurar a realização de segundo turno na Bahia.

jul
24
Posted on 24-07-2010
Filed Under (Aparecida, Crônica) by vitor on 24-07-2010

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Vó Maria, viúva de Donga chefe da Polícia, no abraço de Fernando Pamplona do Salgueiro. De vermelho, o agora saudoso Fausto Wolf, o lobo do uísque. De blazer, o escritor Arthur José Poerner entre o chargista Chico Caruso e ao fundo o sorridente anfitrião João Sérgio Abreu, que é produtor cultural. De dedo em riste, o poeta Tavinho Paes. A foto é mais uma de uma documentação antropológica das bivandas da vida, na Plataforma, Leblon…
(DEU NO CORREIO DA LAPA)
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CRÔNICA/ MULHER-RIO

VÓ MARIA E AS MULHERES FORTES

Maria Aparecida Torneros

A noite da Lapa, uma quinta-feira, a voz entusiasmada da “coleguinha” que nos emociona sempre: Tania Malheiros. O samba corre solto, de Carmen Miranda a Donga, quando Vó Maria sobe ao palco e canta junto com a Tania, o primeiro samba gravado oficialmente, “Pelo telefone”. Ela é uma mulher forte, tem 99 anos, viúva de Donga, plena de bênçãos, aplaudidíssima, nos comove, intensamente.

Um momento memorável, claro, um presente de Deus, como declarou Tania, enquanto sambávamos e curtíamos mais uma noite na Lapa carioca. Aí, cerca de meia-noite, cedo ainda, voltei pra casa, como uma Cinderela, pensei antes de que meu táxi virasse “abóbora”, que faço parte do elenco dessas mulheres fortes.

Durante o show, comemoramos o aniversário da Eliane, jornalista e fotógrafa, a que escala pedras e montanhas, nas horas vagas, mãe da Maria Clara, adolescente que vi pequenininha, e que já começa a trilhar os caminhos femininos da independência. Reencontrei muitas outras amigas de profissão e de vida, o momento era de confraternização, algumas eu conheço há 40 anos, como a Sandra Chaves, intensa e presente, ou a Gloria, que me avaliou com lucidez o fim do Jornal do Brasil, ali, no calor da música, com a consciência de uma profissional responsável. Sonia, uma ex-aluna de faculdade e colega de tantos momentos de trabalho, Beth, antiga companheira de muitos percursos na estrada do jornalismo, Sandra Peleias, outra que dividiu comigo diversas incursões no mundo tanto da comunicação como da política.

E na berlinda, nos coroando com sua Luz, Vó Maria, ao lado de Tânia Mallheiros, cantando: O chefe da polícia pelo telefone manda me avisar!

Já em casa, lembrei mais, de uma outra mulher forte que me cantava essa música quando eu era menina e me contava que nos idos de 1911 e 12, ela ia dançar junto aos brasileiros, na praça XI, exatamente esse samba.

Minha avó Carmen Torneros, que chegou da Espanha em 1910, se reunia aos imigrantes para aprender sobre a cultura brasileira e o tal lugar era reduto dos afro-descendentes, que iniciavam um movimento chamado oficialmente de “samba”, o qual atraía portugueses, espanhóis, italianos, etc, para miscigenar histórias e sentimentos, num Rio de Janeiro que era a capital do Brasil, no início do século XX.

Prazer inenarrável participar do show da Tania na noite da Lapa, exatamente, numa quinta-feira, 22 de julho, com a presença de Vó Maria e tantas outras mulheres fortes…

Cida Torneros é jornalista e escritora. Mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária.

 

jul
24
Posted on 24-07-2010
Filed Under (Artigos, Rosane) by vitor on 24-07-2010

Salvador, Sec. XIX: área portuária (Comércio)

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DEU NO TERRA (ELEIÇÕES 2010)

ELEIÇÕES NA HISTÓRIA

Rosane Soares Santana

Violência e fraude nas eleições e “partidos oficiais” foram fenômenos políticos típicos do século XIX, no Brasil, que podem explicar a falta de compromisso dos parlamentares com os eleitores. Com o processo eleitoral controlado pelos chefes locais, delegados de polícia, juízes de paz eleitos pelo voto popular – geralmente grandes proprietários de terra – e pelo presidente da Província, nomeado pelo Governo Central, as eleições eram um “produto meramente oficial”, segundo o deputado carioca Francisco Belisário Soares de Souza, testemunha da época.

“Os candidatos não se preocupam com os eleitores, mas com o governo, cujas boas graças solicitam e imploram”, escreveu Belisário (“O Sistema Eleitoral do Império”), para explicar um fato observado posteriormente por vários estudiosos, como a historiadora Katia Mattoso, no livro “Bahia Século XIX – uma província no Império”, em que analisa, entre outros aspectos, a elite baiana, a mais importante elite política do Brasil oitocentista.

O Diário da Bahia, porta-voz dos líderes rebeldes da Sabinada – movimento de reação à política tributária da Corte, no Rio de Janeiro, e à deterioração das condições materiais da população baiana na época -, em sua edição de 23 de novembro de 1837 investia contra os impostos, denunciava as precárias condições do comércio e da agricultura e apontava “a administração dos baxás” (bacharéis) – maioria dos deputados da Assembleia Provincial da Bahia – como a “facção governista”.

“(…) Vejam-se as sanguinárias leis de impostos, os saques, e ressaques da corte sobre o nosso tesouro, a perseguição da nossa lavoura, e comércio, o desprezo insultante para a briosa classe militar, as nossas fortificações, os meios de defesa todos perdidos, as fortalezas de propósito arruinadas, os empregos de nomeação central postos em público mercado, a prostituição nos tribunais, nas repartições de fazenda, tudo finalmente desbaratado e entregue à administração dos baxás, à imoralidade, à traição, à facção governista (…)”.

Assembleia Governista

Na Assembleia Provincial da Bahia, durante a Regência (1831-1840), período em que ocorreu a Sabinada, 55,5% das 108 cadeiras do novo Poder Legislativo foram ocupadas por deputados bacharéis. Eles estavam estreitamente vinculados à burocracia governamental, inclusive compunham seus quadros como estratégia para controlar a máquina administrativa, da qual dependiam para o enfrentamento das pressões inglesas contra o tráfico, sendo favoráveis à maior centralização, à manutenção da velha ordem monárquica e suas estruturas, a exemplo do Senado vitalício e o Conselho de Estado.

Entre os bacharéis estava Miguel Calmon, ministro da Fazenda do Império, que comandou a ofensiva contra os sabinos, mandando cortar a arrecadação de rendas aos rebeldes e fechar o cerco ao governo provisório instalado em Salvador. Os sabinos identificavam os interesses da maioria dos deputados da Assembleia Provincial da Bahia como vinculados ao Governo Central.

Entre os revoltosos, entretanto, estavam alguns deputados vinculados à corrente liberal, defensora da nacionalização do comércio e insatisfeita com os ingleses, como ocorrera na Revolução Pernambucana de 1817.

Entre eles, o deputado João Carneiro da Silva Rego, negociante de gado em Feira de Santana, segunda vila mais importante da Província. Os deputados João Gonçalves Cezimbra, ex-presidente da Província e grande comerciante de Salvador; os médicos João Antunes de Azevedo Chaves e José de Aragão e Ataliba, professores da Faculdade de Medicina da Bahia. O deputado João Carneiro foi indicado presidente da República independente de Francisco Sabino Vieira, líder da revolução.

À exceção do grupo liberal, minoritário, a atuação da Assembleia Legislativa da Bahia, especialmente dos deputados bacharéis, confirma a tese de que, depois de eleitos, os parlamentares davam as costas para os eleitores. O Legislativo baiano era dominado por conservadores voltados para a sustentação da política centralizadora do Governo Central encabeçada pelos barões do café, quando a economia açucareira entrava em declínio.

Relações econômicas, sobretudo, ligavam a Bahia ao Rio de Janeiro, principais regiões agroexportadoras do Brasil, cujas capitais possuíam uma função portuária e administrativa para dar suporte aos negócios de importação e exportação e ao tráfico de escravos. Desde a Independência, proprietários baianos vinculados a grupos conservadores, muitos deles investidos de mandados provinciais, alinhavam-se com os interesses da Corte.

Rosane Soares Santana é jornalista, com mestrado em História pela UFBA. Estuda o Poder Legislativo, elites políticas e eleições no Brasil. Integra a cobertura de eleições do Terra.
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