maio
12
Posted on 12-05-2010
Filed Under (Artigos, Janio) by vitor on 12-05-2010

Dunga: “aqui pra vocês!”

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CRÔNICA/DRIBLES

Dunga, Temer, Dorneles e Zinho

Janio Ferreira Soares

Agora que finalmente saiu a tão esperada lista dos jogadores que irão disputar a Copa de 2010, começarão os animados debates sobre as injustiças que geralmente acontecem nessas ocasiões. Sempre foi (e será) assim desde que o lado mulato do nosso DNA, inzoneiro como ele só, conseguiu driblar os genes europeus de nossas células e nos deu uma infinita geração de gênios da bola, que passa por Garrincha, Pelé, Tostão, Zico e companhia e, de lambuja, ainda nos dá Neymar, Ganso e a meninada da Vila, verdadeiros colírios para os que acham que o futebol foi feito para divertir e não necessariamente para ser campeão.

A propósito, pelo método adotado por Dunga até agora – e até por ele ter feito parte daquela história -, prevejo uma seleção bastante parecida com a de 1994, cujo meio campo era simplesmente formado por ele, Mauro Silva, Mazinho e Zinho. E você há de convir que, se nós conseguimos o tetra com esse quarteto no miolo, tudo pode ser possível. A diferença era que, na época, Romário e Bebeto voavam lá na frente feito dois anjos serelepes, certamente guiados por um arrependido Deus amante do futebol arte, que cochilou feio naquela tarde de 1982 no estádio Sarriá, quando a genial seleção de Telê perdeu para a Itália de Paolo Rossi, dando a munição necessária aos defensores do futebol de resultado. Uma pena.

Mas se a coisa promete ser sofrida nos estádios africanos (Dunga rejeitou as pressões por Ganso e Neymar), por aqui, mais precisamente nos bastidores da sucessão, outra lista de convocados é aguardada com grande expectativa. Trata-se dos nomes dos vices de Dilma e Serra que, pelos pretendentes anunciados, pode causar certa decepção, principalmente no lado estético.

Enquanto a petista vai de Michel Temer, o tucano ameaça com Francisco Dornelles, tio de Aécio Neves, o seu preferido. Guardada as proporções, é mais ou menos como a saída do galã Raí (que chegou a Copa de 94 como titular absoluto) para a entrada de Mazinho. Mas, como para esse pessoal o que vale é o resultado, vamos aguardar a bola rolar. Com a palavra, o torcedor. Em seguida, o eleitor.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Turismo e Cultura de Paulo Afonso (BA), na região do Vale do São Francisco.)

Plácido (com Adriana): volta do homem-bomba?

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Em sua coluna desta quarta-feira o jornalista político Ivan de Carvalho analisa o significado da posse de Plácido Fárias, PSL, na Câmara de Vereadores de Salvador. Com casa cheia, o chamado homem-bomba no caso da denúncia dos grampos telefônicos na Bahia, tomou posse ontem no mandato de vereador da capital – em substituição a Alan Castro, do PTN, que pediu licença, alegando “motivos pessoais” .============================================
OPINIÃO POLÍTICA

Impossível não é, mas é bem improvável que Plácido Farias, Procurador da República, atue na Câmara como homem-bomba nesse caso polêmico, avilia Ivan no texto que Bahia em Pauta reproduz.

(VHS)

O plácido homem-bomba

Ivan de Carvalho

Com casa cheia, tomou posse ontem no mandato de vereador da capital – em substituição a Alan Castro, do PTN, que pediu licença, alegando “motivos pessoais” – o suplente e procurador da República Plácido Farias, do PSL.

Farias tem o propósito de engrenar uma carreira política, mas não está fácil. O começo de muitas carreiras políticas é assim mesmo. Lula foi candidato a presidente da República três vezes e só na quarta venceu.

Farias estaria se preparando para fazer a terceira tentativa. Uma interpretação corrente nos meios políticos é a de que ele entendeu-se com o vereador Alan Castro para este licenciar-se por “motivos pessoais”, explicados pelo próprio Castro como uma maneira de ficar mais disponível para trabalhar na campanha eleitoral. Explicação disparatada essa. Nesse entendimento, é óbvio, nem todas as cláusulas foram proclamadas.

Mas não é Alan Castro a figura principal a ser considerada no caso. Esta é o novo vereador Plácido Farias. Ele ganhou notoriedade com o caso dos grampos, quando a Polícia Civil da Bahia pediu a uma autoridade judicial e obteve autorização para escutas telefônicas de muitas pessoas e, entre elas, sem mais aquela, Plácido Farias, que mantinha um romance com uma ex-namorada do senador Antonio Carlos Magalhães. Embora Farias haja, ontem, afirmado que não quer ser lembrado como vítima do grampo promovido por uma pessoa que já não está entre nós (queria dizer ACM), mas por suas próprias ações e méritos que tenha ou venha a ter, isso não impediu especulações políticas envolvendo o grampo.

Uma delas seria a de que, sendo Farias uma espécie de “afilhado” político do deputado federal Jonga Bacelar, do PR (Farias disse que Jonga é o responsável principal por sua atividade política), seria a arma para o senador César Borges, candidato à reeleição na coligação liderada pelo PMDB, atacar, se preciso, Otto Alencar, candidato a vice-governador pela coligação liderada pelo PT.

Impossível não é, mas é bem improvável que Plácido Farias atue como homem-bomba nesse caso do grampo. Embora Plácido Farias fosse emblemático como acusador, ele já reconheceu o que estava evidente – a ação incontrastável de ACM para que o grampo ocorresse. O caso dos grampos desdobrou-se nos governos de César Borges e Otto Alencar, de modo que dificilmente haverá interesse de qualquer deles ou das forças que os apóiam de debater esse assunto. E até porque o grampo deve ter passado por cima dos dois, direto do senador ACM para a secretária de Segurança Pública da época, Kátia Alves.

Se eu tivesse que apostar, cravaria no palpite de que Plácido Farias assumiu o mandato de vereador para ganhar visibilidade – para o que já se esforçou desde ontem, ao atacar as secretarias municipais de Educação e de Saúde – e cimentar uma eventual eleição para deputado estadual. Mas os ataques a setores da administração municipal logo provocaram especulações de que Plácido Farias poderia ser usado pelo ex-ministro Geddel para bombardear o prefeito, caso este não se empenhe na campanha eleitoral majoritária como ele deseja.

A “imaginação política criadora” – expressão criada pelo ex-presidente Geisel – não tem limites.

maio
11

Luiz Bassuma: “uma honra”

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DEU NO TERRA-ELEIÇÕES 2010

Davi Lemos
Direto de Salvador

O deputado federal Luiz Bassuma (PV), pré-candidato ao governo do Estado da Bahia, não fugiu de questões polêmicas e, dentre outras declarações (AO TERRA), afirmou que foi para ele uma honra ser punido pelo PT por não defender a legalização do aborto.

“O aborto é um crime”, enfatizou ele, que não dispensou críticas ao antigo partido, do qual vem se afastando desde o episódio do mensalão que, dentre outras consequências, custou o mandato do ex-deputado José Dirceu, então ministro da Casa Civil.

Bassuma também cobrou coerência do ministro da Cultura, Juca Ferreira, acusado de utilizar o cargo de ministro para impedir a candidatura dos verdes à presidência e nos estados. “Queriam que o PV fosse uma sublegenda do PT”, disparou. Ele também barrou a possibilidade de lançamento do presidente do Olodum, João Jorge, ao Senado. Afirmou que o PV terá apenas um candidato, o deputado federal Edson Duarte.

A ENTREVISTA DE BASSUMA

Terra – Dentro deste quadro sucessório, o que representa a candidatura do PV?
Bassuma – Neste momento em que a conjuntura, nacional que, lógico, reverbera na Bahia, em nosso estado, o Partido Verde se apresentar como alternativa de poder, para desenhar e construir um novo modelo econômico, que não mais degrade a natureza, não mais destrua os recursos naturais e que faça inserção social com melhor distribuição de renda, é da maior relevância. Seria muito triste se não tivéssemos a candidatura da (senadora) Marina (Silva, pré-candidata à presidência pelo PV) e, também na Bahia, para que a sociedade pudesse dialogar e pudéssemos oferecer este modelo que é diferente daquilo que é proposto pelo PT e pelos outros partidos que estão, com legitimidade, disputando as eleições, mas que estão com um pensamento ultrapassado e que não atende aos anseios da nossa contemporaneidade.

Terra – As candidaturas que são colocadas como principais no estado pretendem reproduzir na Bahia uma espécie de eleição plebiscitária que já se configura no plano nacional. Como o PV se organiza para se apresentar como opção viável?

Bassuma – Não há mais risco nenhum (da eleição plebiscitária), graças a Deus. Se o partido não estivesse nacionalmente na disputa com Marina, o plebiscito certamente já se teria sido feito, pois Ciro (Gomes, deputado federal pelo PSB/CE) foi eliminado; não teria outra alternativa. Já na Bahia, não há risco nenhum de plebiscito, até porque nós temos quatro forças, em tese, disputando estas eleições. A primeira é a eleição do PT, com (o governador Jaques) Wagner; a segunda, o Democratas, com Paulo Souto a governador; e a terceira com Geddel (Vieira Lima) do PMDB e nós do Partido Verde, que não tem ligação com nenhuma das três e que temos outra candidatura presidencial. Portanto o plebiscito na Bahia está praticamente impossível, bem como é garantido na Bahia não há condições de as eleições serem vencidas no primeiro turno por nenhum dos concorrentes. Teremos ainda o segundo turno e isso é bom para a democracia. Costumo dizer que, no primeiro turno, seria ideal que os partidos organizados, que têm ideal, alguma formulação de poder para organizar a sociedade, fizerem o máximo de candidaturas. Escolhido os dois que vão para o segundo turno, aí sim, seria o momento de fazer as alianças. Aí a pessoa escolhe o menos pior, aquele que se aproxima mais daquele que votei no primeiro turno.

Terra – Como o senhor avalia os critérios para firmar alianças aqui no estado e no Brasil? Parece que hoje as questões de princípio, de ideais, são o que menos importa.

Bassuma – Se houve um ponto comum que fez a Marina Silva e eu sairmos do PT e ingressarmos no Partido Verde – na minha questão teve o fato de eu também não querer abrir mão de minha liberdade de expressão, contra a legalização do aborto -, também teve um fator que foi o seguinte: o partido que nós trabalhamos a vida toda, que é o PT, ele foi se transformando numa máquina de ganhar eleições. E como para os grandes partidos do Brasil no período eleitoral vale tudo, bota tudo, vai por terra o ideal, a ideologia e as utopias. O que interessa é o seguinte: dá voto, tem peso na eleição? Então vamos nos aliar. Eu sou contra isso. Toda aliança tem que ter o mínimo de consistência e de coerência programática, senão vira aliança puramente eleitoral para se vencer. Prova disso foi o esforço violento feito pelo Wagner e o PT para trazer César Borges (PR) como candidato a senador, ele que era uma das expressões mais cristalizadas daquilo que o PT tentou romper com o passado, que era o que não funcionava no carlismo e perdeu para o Geddel na reta final, o que mostra que ali era uma aliança puramente pragmática no sentido de trazer mais alguns votos para ganhar as eleições. Disso nós discordamos.

LEIA TODA ENTREVISTA DE BASSUMA EM TERRA ( http://noticias.terra.com.br/eleicoes/2010/noticias )

maio
11
Posted on 11-05-2010
Filed Under (Artigos, Ivan) by vitor on 11-05-2010

Collor:o recomeço

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Nesta terça-feira,11, na Tribuna da Bahia, o jornalista político Ivan de Carvalho analisa os movimentos do senador Fernando Collor de Mello, hoje filiado ao PTB, que confirmou sua candidatura ao governo de Alagoas.
O colunista destaca: Foi assim que tudo começou, na década de 80 do século passado, quando ele chegou ao governo desse Estado e ainda nele espichou os olhares para o Palácio do Planalto, concorrendo à sucessão do enfraquecido José Sarney nas eleições presidências de 1989 e tendo como principal base de apoio político as Organizações Globo e principal instrumento de propaganda a Rede Globo de televisão. Ele fez ontem de manhã o anúncio formal numa emissora de rádio.
Agora, como tem apoiado Lula no Senado, apoiará, como já avisou, a candidatura de Dilma Rousseff, do PT, a presidente, assinala Ivan no texto que Bahia em Pauta reproduz.
(VHS)

OPINIÃO POLÍTICA

O PALANQUE DE COLLOR

Ivan de Carvalho

O senador Fernando Collor de Mello, hoje filiado ao PTB, confirmou sua candidatura ao governo de Alagoas. Foi assim que tudo começou, na década de 80 do século passado, quando ele chegou ao governo desse Estado e ainda nele espichou os olhares para o Palácio do Planalto, concorrendo à sucessão do enfraquecido José Sarney nas eleições presidências de 1989 e tendo como principal base de apoio político as Organizações Globo e principal instrumento de propaganda a Rede Globo de televisão. Ele fez ontem de manhã o anúncio formal numa emissora de rádio.

Eleito presidente, empossado, Collor governou, mas explodiu um grande escândalo de corrupção – para a época – em seu governo e foi instaurado, depois de uma CPI, um processo de impeachment. O presidente tinha uma base política muito frágil no Congresso Nacional e não conseguiu evitar ser acusado pela Câmara dos Deputados, o que levou à instalação de julgamento no Senado, como determinava a Constituição.

Uma grande parcela da opinião pública aderiu ao movimento chamado “fora Collor”, capitaneado pelo PT e PC do B e depois endossado por outras legendas, com os “caras pintadas” – que não pintaram as caras durante o bem maior escândalo do Mensalão, anos depois. A mídia entrou em peso na campanha contra o presidente e a sinergia criada pela aliança entre essas forças selou o destino de Collor.

Ele foi obrigado a renunciar ao mandato de presidente da República no momento em que o Senado Federal realizava a sessão de julgamento. A renúncia, ato unilateral de vontade, foi lida no plenário e punha fim ao processo, mas aí o Senado decidiu (deve-se dar às coisas os seus verdadeiros nomes) dar um golpe na Constituição e fez o que já não podia fazer, porque houvera a renúncia e Collor já não era presidente, mas um cidadão comum, e já não havia mais um processo de impeachment em curso – coisas que o então senador e jurista baiano Josaphat Marinho explicou ao plenário (que já sabia disso muito bem, não havia inocência ali) e à nação, em memorável discurso constitucionalista.

O Senado, obviamente com medo de uma milagrosa futura volta eleitoral de Collor (como ocorrera com Getúlio Vargas), suspendeu-lhe os direitos políticos por oito anos. Passado esse tempo, Collor começou a voltar. Por Alagoas, como senador. Agora, tentará chegar a governador. Collor está na base do governo comandado pelo PT que derrotou nas eleições presidenciais de 89 e que tanto fez para tirá-lo da presidência. E, como tem apoiado Lula no Senado, apoiará, como já disse, a candidatura de Dilma Rousseff, do PT, a presidente. Logo saberemos se ela subirá no palanque dele.

João Candido: justo tributo

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MARIA OLÍVIA

Emocionante ver o nome de João Cândido Felisberto, o Navegante Negro – como prefere a dupla João Bosco/Aldir Blanc na belíssima canção – homenagem – não mais ligado a chibatadas, mas inscrito no primeiro navio feito pelo Estaleiro Atlântico Sul, encomendado pela Transpetro.

O presidente Lula esteve em Ipojuca (PE), na última sexta-feira, 7, para o lançamento do João Cândido, no Porto de Suape. Poucas matérias veiculadas em nossos meios de comunicação registraram que 92% dos funcionários do Atlântico Sul são de pernambucanos e que Suape é um porto e um distrito industrial de 14 mil hectares (o maior da Europa, Roterdã, tem 5 mil).

Ademais, o almirante – navegante negro já deu sua contribuição à história deste país, além da sua coragem, valentia e profundo senso de justiça e solidariedade humana. Hoje (com muito atraso) seu nome está lá, escrito em caixa alta na proa do primeiro petroleiro que marca a revitalização da indústria naval brasileira.

O nome do próximo navio será ‘Celso Furtado’, outra grande e merecida homenagem. Sim amigos, nós temos muitos heróis que estão adormecidos, nada mais justo do que resgatá-los, pelo bem da nossa História e do Brasil, sem ufanismos e nem partidarismos.

Maria Olívia é jornalista

maio
10
Posted on 10-05-2010
Filed Under (Artigos, Ivan) by vitor on 10-05-2010


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OPINIÃO POLÍTICA

A lei e a justiça

Ivan de Carvalho

É proibido por adesivos de propaganda eleitoral em veículos nesta fase, que oficialmente não existe, mas na prática está aí, da campanha eleitoral. Até foi inventada uma expressão para denominar essa campanha que, não existindo, existe, ou, se quiserem, existindo, não existe. É a “pré-campanha”, uma invenção esperta dos políticos na qual a mídia tolamente embarcou. Pelo menos, prefiro crer que embarcou tolamente, pois, se assim não fosse, estaria sendo também a mídia esperta, de uma esperteza não recomendável, por estar disfarçando a realidade ante seu público.
Com base na legislação eleitoral, que tem sido feita, digamos, com alguma licença, a quatro mãos – as duas do Congresso e as duas do Tribunal Superior Eleitoral –, o TRE da Bahia, por uma medida liminar (na qual não é apreciado o mérito da questão), determinou que o presidente estadual do Democratas, Paulo Souto (que vai ser candidato do DEM a governador), providencie a retirada de adesivos em veículos com a mensagem “Paulo Souto. Nesse eu confio.”
O descumprimento da ordem, que o TRE determinou fosse cumprida em 48 horas, implicaria em pena de multa diária de R$ 1 mil. A liminar resulta de ação ajuizada pela Procuradoria Regional Eleitoral. E se no julgamento do mérito a sentença for contra os réus, a multa deverá subir, podendo variar de R$ 5 mil a R$ 25 mil.
Sou a favor do império da lei e concordo com Ruy Barbosa quando disse que fora da lei não há salvação.

Assim como Jesus recomendou que se pagassem os tributos (e eram injustos aqueles sobre os quais foi questionado, cobrados pela força do Império Romano sobre o povo militarmente dominado de Israel).

Mas existem aí duas questões. Uma é que, mesmo cumprindo o dever de obediência à lei, é legítima e pode ser necessária a luta política para mudar uma lei injusta ou simplesmente inadequada. Outra é que, ainda que a lei seja injusta ou inadequada, é preciso que ela seja aplicada do mesmo modo a casos semelhantes. E que as punições sejam dosadas segundo a gravidade do caso.

Um (digamos, alguns, mas a representação do procurador contemplou apenas um) adesivo de propaganda de um candidato a governador, em um veículo, é uma coisa. E coisa muito mais grave é a propaganda supostamente disfarçada, mas óbvia, que um presidente da República faz, em palanque oficial – usando, assim, a máquina estatal – em favor de sua candidata a presidente.

“Não é possível resolver o problema de 500 anos em oito. É preciso um sequenciamento. Dilma, você ouviu o que eu disse? Sequenciamento…”, disse o presidente Lula. Nosso idioma tem possibilidades quase inacreditáveis. Eis aí uma estranha situação em que adesivo e sequenciamento são sinônimos.

Mas a procuradoria geral eleitoral não entrou com representação junto ao TSE contra o presidente Lula por usar em ato oficial aquele “sinônimo” de adesivo, o tal de “sequenciamento”. O ex-presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, observou o fenômeno do tratamento diferenciado que a Justiça Eleitoral (e, por extensão, a procuradoria eleitoral) tem dado ao presidente e seu entorno e acusou a Justiça Eleitoral de ter um tratamento “compreensivo” com altas autoridades, acrescentando que o tratamento a ser dado deve ser igual, de presidente a vereador.

maio
09


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De São Paulo vem o e-mail do jornalista Claudio Leal com o aviso ao editor do Bahia em Pauta: “Caetano estreou hoje como colunista de O Globo. Está muito boa a coluna. Você já leu?”
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Resposta: Li e também gostei. Tanto que o texto de Caetano Veloso em O Globo deste domingo vai reproduzido no BP. Com agradecimentos a Claudio e viva a Caetano.

(Vitor Hugo Soares )

Política: o Largo da Ordem

Caetano Veloso (O Globo, 8/05/2010 )

Quando disse a Leminski, no começo dos anos 70, que me encantava a recuperação do Largo da Ordem, no centro de Curitiba, ele riu: “Você adora enganações feitas para a classe média.” Respondi que adorava mesmo. Sempre à esquerda, Leminski via limpeza, iluminação, policiamento e restauração de prédios como maquiagem – e olhava com desconfiança meu interesse por Jaime Lerner, o então prefeito da cidade que fora indicado pelo governo militar. Eu odiava o regime – e desprezava os que chegavam ao poder em acordo com ele. Mas não via o Largo da Ordem como enganação. Bem, talvez se pudesse dizer que aquilo se dirigia à classe média. Mas eu ri ao dizer diante da cara do poeta: “Eu sou classe média.” O que de fato pensei foi: se se fizesse algo assim com o Pelourinho, o Brasil decolaria – ou estaria mostrando que já decolara. Era sonhar demais.

Ainda nos 70, os sobrados da área estrita do Largo do Pelourinho foram restaurados. Lembro duas reações negativas: Candice Bergen e Décio Pignatari. Em ocasiões diferentes, ouvi de ambos: “Parece a Disneylândia.” Eu próprio, diante das tintas plásticas usadas, apelidei o novo Pelourinho de Giovanna Baby. Mas a verdade é que, tendo crescido em Santo Amaro, eu não achava artificial uma rua com casas antigas pintadas com tintas novas: era o que acontecia ali a cada fevereiro, mês de Nossa Senhora da Purificação. Achei que Candice e Décio pensavam que casa velha tem que ter limo e reboco caindo. Décio, de Sampa, queria velharia mais “autêntica”. Candice, de Los Angeles, reviu o que expõe a artificialidade de sua terra natal: Disneylândia. Já eu só via o esboço de realização da promessa do Largo da Ordem.

Nos anos 90, toda a região do Pelourinho ganhou o tratamento que eu imaginara utópico em 1972. Há queixas contra os métodos usados para a retirada dos moradores. Há a frase bonita de Verger: “Devia se erguer no Pelourinho um monumento às putas.” Elas é que mantiveram de pé esse pedaço da cidade. Em 1960, vendo a harmonia de formas exibida em matéria deteriorada, eu me sentia fascinado também pela degradação dos habitantes. A prostituição mais anti-higiênica manteve os sobrados de pé. Casas sem moradores caem. As do Pelô exibiam as marcas da decadência da humanidade que as povoava e as mantinha erguidas.

ACM é um nome que se evita – a não ser que se queira xingá-lo ou adulá-lo. Medir objetivamente seu legado é anátema. Tou fora. Truculento, vingativo, populista, Antônio Carlos Magalhães era o tipo de político de que desejei ver a Bahia e o Brasil livres. Fiz-lhe sempre oposição. Cantei nos comícios de Waldir Pires, que se elegeu governador. Mas Waldir uniu-se com parte da oligarquia rural que odiava ACM desde sempre. O vice de Waldir era um representante dessa oligarquia. Waldir mal esquentou a cadeira: saiu para tentar ser vice na candidatura furada de dr. Ulysses. ACM voltou em glória nas eleições seguintes.

A essa altura, ele já tinha feito as avenidas de vale (um projeto de 1942), ligando entre si partes distantes da cidade (outrora com tráfego apenas nas cumeadas). E atraído quadros de alto nível técnico. Na sua volta, retomou os trabalhos do Pelourinho, que floresceu. O escolhido para dirigir o projeto foi o antropólogo Vivaldo da Costa Lima. Vivaldo, cujo amor pela cultura do povo baiano não pode ser superestimado, não acolheria decisões malévolas. Seja como for, a restauração, com os atrativos para quem quisesse estabelecer negócios ali, mudou a cara da cidade. Jovens que até os anos 80 nunca tinham ido ao centro histórico lotavam os bares do Pelourinho. Isso deu ao baiano uma nova auto-imagem.

O atual governo do PT precisaria se posicionar de forma clara face ao legado de ACM. Sentir que talvez haja desprezo pelo Pelourinho deprime. A explicação dada é que as facilitações oferecidas aos negociantes que ali se estabeleceram são artificiosas. O secretário de Cultura, meu amigo Márcio Meirelles, é o responsável pelo destino da área. Diretor do Bando de Teatro Olodum, Márcio nos deu “Ó paí, ó!”. O elenco que ele reuniu é um espanto de vitalidade. Mas, nesse e em outros espetáculos do grupo, o sarcasmo relativo à reforma do Pelourinho vinha colorir o ódio a ACM. Eu adorava a peça assim mesmo. Arte é coisa séria. Aquelas pessoas falando e se movendo daquela maneira estão, na verdade, mais sintonizadas com as forças que fizeram possível a recuperação do Pelourinho do que com a demagogia que por vezes se comprazem em veicular contra ela.

Depois vieram o Recife Velho, o Centro de São Luís, algo do Centro de São Paulo – e sobretudo veio vindo a Lapa. A iniciativa privada se achegou, a Sala Cecília Meireles dera a largada, o Estado entrou com o trato dos arcos, iluminação, policiamento – e temos uma mostra de como nos vemos nestes anos FH-Lula. O governo petista da Bahia deveria tomar o Pelourinho como uma joia a ser cuidada. Aproveitar o aproveitável de ACM — e fazer melhor. Não é saudável fazer com os benefícios aos negociantes aderentes o que Ipojuca Pontes fez com o cinema ao acabar com a Embrafilme. Esse privatismo repentino soa suspeito. O abandono do centro histórico tem parte no aumento da criminalidade. Política para mim é isso. Capturar as forças regenerativas da sociedade e trabalhar a partir delas. Não se atar a facções ideológicas como a torcidas de futebol – nem, muito menos, a grupos de interesses inescrupulosos.

maio
09
Posted on 09-05-2010
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 09-05-2010


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CRÔNICA/MÃES

Mulheres-mães

Aparecida Torneros

Dia de mulheres-mães. Será que todas, mães biológicas ou não, já nascem com o gen especial da tal maternidade?

Sempre achei que tem mãe de verdade, de brincadeira, de mentira, de coração, de hora do recreio, de cama de hospital, de carteira da escola, de fila do cinema, de beira de estrada, de cama vazia, de peito aberto, de peito farto, de peito seco, de sonho incompleto, de sonho desfeito, de sonho realizado, de sorte na vida, de perda e superação, de saudade e história, tem até mãe de guerra sem paz e de praça de maio, ou melhor, tem avó, tem mãe duas, três vezes, se precisar, tem mãe multiplicada, multifacetada, aquela capaz de aparecer na imaginação do menino abandonado na rua, ou na mente da criança que vive no abrigo mas que nunca esqueceu do seu cheiro antigo.

Mãe tem enredo e tem memória, no coração de qualquer um, e tem muita mãe na porta do presídio para levar comidinha gostosa na visita de domingo. Não importa o erro de um filho ou filha, o que fica é o instinto de proteção, esse vale uma vida inteira, e mãe de sangue ou de criação, de barriga ou de afinidade, carrega a bravura de defender a cria, tem mãe que morre se pondo na frente da bala dirigida ao rebento. Algumas se lançam no mundo pra ganhar dinheiro, sustentar, dar o pão e a casa, prover a família, nem sobra tempo pra elas mesmas. Mas tem as que nem conseguem viver o sacrifício e doam seus bebês, com a certeza de que serão melhor cuidados por outras mães e pais. Essas, naturalmente sofrem a vida toda, nos instantes de auto-resignação e se consolam com a lembrança de algum pequeno instante em que suas crianças estiveram nos seus braços ou sugando seus seios.

Vida bandida, vida perdida, vida dura e traiçoeira, quando afasta mães e filhos, por necessidade, por maldade, por guerra, por viagem, por doença, por morte, por tanto senão, e tanta razão que nem tem porquê.

Mulher-mãe é toda mulher, mesmo sem ter tido filhos, tem sempre crianças que cruzam seu caminho e pedem colo. Um bebê pode ser até um homem de 40 anos, quando ele deita e pede chamego, freudianamente querendo colo de mãe, já crescido e criado, precisando crescer depois de crescido…

Histórias de mães são todas sentimentais, quase sempre. Mas tem as de finais felizes e bons resultados de criação dedicada, assim como há os relatos de superação pra tantas asperezas do mundo cruel, e lá se vê a figurinha de alguma delas, as tais mães postiças ou reais, as que tem palavras doces nas horinhas certas, e que emitem conselhos ásperos nas vezes necessárias. Elas esbanjam carinho e força, e escondem fraqueza e medo, dentro da geladeira, no fundo das suas cozinhas, ou na beira dos tanques, ou debaixo dos chuveiros, lá estão as taizinhas, se permitindo chorar, nunca na frente dos filhotes que precisam amadurecer, apesar de tudo.

Mães são mulheres especiais, aliás, as mulheres é que se fazem mães em ocasiões especiais. Mães que são médicas e adotam pacientes em leitos de hospitais, num pacto sigiloso. Mães que são garotas de programa e embalam marmanjos chorões em segredos que ficarão guardados pro resto da vida. Mães que são professoras confessoras que ouvem os conflitos de alunos sem rumo. Mães que são policiais encarregadas de corrigir detentas, mães que são psicólogas, jornalistas, costureiras, manicures, cabeleireiras, taxistas, e no seu ofício diário, têm sempre uma palavra amiga, um ouvido atento, um jeito maternal de acolher súplicas e lamúrias ou dividir alegrias e contentamentos.

Mulheres se confundem enquanto mães ou criaturas predestinadas a abraçar carinhosamente qualquer um de nós. Seus olhares são tão especiais e suas presenças tão ansiadas. Mãe é mãe, claro, ela sobrevive intensa e internamente em cada fêmea de qualquer idade, em cada cultura, ao seu modo, com peculiar desempenho e eterna doação de vida.

Cida Torneros, jornalista , escritora, mãe e colaboradora e amiga de primeira hora do Bahia em Pauta , mora no Rio de Janeiro onde edita o Blog da Mulher Necessária.

Cida Torneros

maio
08


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CRÔNICA DE CINEMA

OS SEGREDOS DE UM GRANDE FILME

 Aparecida Torneros

Custei a ver o filme premiado com o Oscar de melhor estrangeiro. Li algumas boas críticas, adiei, e finalmente, fui , incentivada pelo meu terapeuta, que me avisou sobre um personagem importante no enredo: uma porta.

Ao me envolver pela trama policial e pelo romance, percebi-me tensa e racional. A doutora Irene, que sempre deixava a porta da sua sala aberta, diante do olhar apaixonado do seu subalterno perito judicial, um obstinado que detecta o segredo de um criminoso, exatamente pelo olhar que está presente em várias fotos antigas da vítima, apresentadas pelo marido viúvo, inconformado pela violência do assassinato da linda mulher amada.

Durante toda a exibição prestei muita atenção aos personagens, seus olhares fortes, profundos, as mazelas emocionais que, injustamente, percolam as portas da justiça, os dramas pessoais, de quem exerce profissão de descobrir, prender, interrogar, perseguir ou julgar alguém que mata alguém, e, segundo as leis da Argentina, devia ser condenado à prisão perpétua.

Vi que a vida transcorrida nos 25 anos de história por que passam os protagonistas do enredo, muitas são as prisões em que se enclausuram, desde a rigidez de princípios ou da solidão de valores a defender, vi que o argumento mereceu o prêmio por interceptar as portas de almas e corações, algumas vezes tão fechadas em olhares que tentam abrir-se para revelar emoções, noutras tão abertas para que todos partilhem os segredos das conversas. Estas, nunca se permitem existir sinceras, camuflam-se, assumem versão conveniente, a vida segue, as pessoas envelhecem, nem sempre amadurecem, e muitas vezes se tornam mesmo prisioneiras das suas histórias, dos seus passados. Gastam seu tempo repetindo tramas ou revivendo episódios reproduzidos em maior ou menor escala.

Há pouco tempo, uma noite, dormi, por descuido, com a porta da minha casa, aberta, não lhe passei a chave. Na manhã seguinte, pus-me a conjecturar, com a viagem meio alucinada de escritora e contadora de histórias o que poderia ter-me acontecido. Um invasor, talvez um estuprador, um ladrão, sei lá, uma casa térrea, cuja porta se manteve destrancada toda uma madrugada, onde vive e dorme uma mulher solitária. Daria um roteiro para outro filme de suspense, imagino.

Mas, não se deve abrir porta por descuido. Abre-se a porta do coração para quem se pensa conhecer. Abre-se a porta da casa para quem é amigo e confiável. Abre-se as janelas da alma para que os bons ventos tragam felicidade, e é saudável fechá-las diante dos invernos rigorosos, das tempestades e dos vizinhos alcoviteiros.

Grande filme. Fez-me repensar sobre a infeliz necessidade de se usar cadeados, do medo da violação, da incerteza dos amores que vivem pelas ruas e que não sabem conviver em salas ou sobreviver em conversas nas mesas de jantar. Amores talvez que precisem somente de camas mal arrumadas, pequenos espaços de fuga, amores adolescentes, quase infantis, mas que também guardam lembranças de intensos e secretos olhares.

Saí do cinema imaginando que 25 anos não representam quase nada… Como diz o tango tradicional, vinte años no es nada… o que é e conta, realmente, é o momento em que um sobrevive e se liberta dos seus passados revividos, que se livra das suas próprias prisões perpétuas.

Aí, como no final do filme, o sorriso brilha e o olhar se enternece, a palavra solta o verbo preso na garganta, a declaração de algum amor sufocado explode na sala, que, embora de porta fechada, se transforma então no reduto mais liberado do sentimento que andou buscando espaço e ziguezagueou por muito tempo nos confins da dúvida, nos porões da doença emocional, na escuridão da vingança, na infelicidade de um dia-a-dia tirano ou mesmo, na tentativa de fuga de algum assassino confesso.

O que me deu intenso prazer ao assistir “o segredo dos seus Olhos” foi a sensação plena do quanto é importante estar-se atento para abrir ou fechar portas nesta vida, que nos impulsiona, inadivertidamente, a olhares cujo segredo pode ser desvendado, repentinamente, pela razão ou pela emoção, melhor que o seja por ambos, em sintonia com a magia do encontro humano verdadeiro.

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeio, onde edita o Blog da Mulher Necessária

 

maio
07

Dom José Rodrigues: lembrado no Salitre

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ARTIGO DA SEMANA

RELIGIÃO E PALANQUES

Vitor Hugo Soares

Em março deste ano, quando o bafafá da disputa sucessória começava a ganhar pressão, o presidente Luis Inácio Lula da Silva segurou pelo braço sua candidata, a ainda ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e sem dar bola aparentemente para a justiça eleitoral, vôou com ela e comitiva para a Bahia. Cortou o caminho do litoral e pousou no aeroporto da pernambucana Petrolina. Em seguida, atravessou a ponte e logo estava na baiana cidade de Juazeiro, também na beira do Rio São Francisco, local escolhido a dedo para a lição de “como fazer política”, que ele queria ministrar a Dilma e aos coordenadores de sua campanha .
No município administrado por um prefeito comunista do PC do B, ladeado pelo governador Jaques Wagner e os ministros Geddel Vieira Lima e Franklin Martins, o presidente pressionou o botão que acionava as bombas de irrigação do projeto Salitre. Em seguida, dedicou as palavras mais candentes e afetuosas de seu discurso a uma figura religiosa marcante na região, mas ausente na cerimônia: o bispo diocesano aposentado Dom José Rodrigues, chamada do “o Bispo dos Excluídos”.
Diante de uma espantada Dilma, o presidente recordou o velho amigo e aliado de peso – apesar da aparente fragilidade física do bispo destacado no âmbito da chamada “igreja progressista” no Nordeste. Seguidor de palavras e exemplo do arcebispo de Olinda e Recife, D. Helder Câmara, para Dom Rodrigues até figuras com voz forte na igreja da Bahia e no Vaticano, como os cardeais Avelar Brandão Vilela e Lucas Moreira Neves, tiravam o gorro cardinalício.

Voltando ao leito do rio: No comício, a título de inauguração de obra do PAC que se seguiu, Lula registrou a luta do bispo, que não mereceu nenhum destaque nos noticiários do dia seguinte, quase todo tomado pelos esforços do presidente (e da ministra Dilma) para apartar a briga feroz entre o governador Wagner (PT) com o ex-ministro Geddel, com abalos evidentes para a campanha presidencial governista no Estado.
“Todos sabem o desejo que Dom José tinha do projeto Salitre. Ele organizou 72 mil pessoas desalojadas. Diria que foi quase um herói”, disse Lula sob aplausos de centenas de lavradores, vários deles representantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que o bispo ajudou a criar na época da construção da Barragem do Sobradinho, cujas águas do lago artificial, 20 vezes maior que a Baia de Guanabara, submergiu quatro cidades baianas .

De olho no ato político-eleitoral no Salitre, na beira do rio de sua aldeia e na cidade em que passou alguns de seus melhores momentos na adolescência, este jornalista recua no tempo, em busca de pistas e explicações para entender os caminhos intrincados e confusos desta campanha presidencial, esquentada bem antes do toque de bola inicial da Copa do Mundo na África do Sul. Ou o sentido da “lição política” de Lula à sua candidata e seguidores, como um pregador bíblico nas margens do Velho Chico.

Chefiava a sucursal da revista VEJA na Bahia e Sergipe e fui escalado para cobrir a última etapa da campanha do candidasto do PT à presidência da República, no primeiro turno das eleições de 1989. Aquela em que Lula superou a votação de Brizola que avançava, e foi disputar com Fernando Collor de Mello o turno decisivo, no qual foi derrotado.
Era o tempo em que o presidenciável petista não se preocupava com trajes e maneiras de se apresentar nas conversas e nos palanques. No périplo final da campanha, em Vitória da Conquista, depois de comer muita poeira na estrada, Lula apareceu no palanque vestido de jeans e camiseta, barbudo, cara de poucos amigos. O “visual despojado”, como registrou a Folha certa vez, ajudava a solidificar o preconceito de vastas camadas da população contra o líder operário.
Mas a “queimação”- na expressão dos petistas da época – não funcionava para os fiéis seguidores das “comunidades eclesiais de base”, da Igreja Católica, espalhadas por dioceses nordestinas, que atuavam pró-Lula a todo vapor e sem descanso. Em Conquista, no extremo-sul baiano, lá estavam eles, às centenas, quase meia noite, misturando cânticos religiosos com grito de “É Lula, É Lula”.
Na Juazeiro do bispo Dom José Rodrigues um dos episódios mais marcantes e reveladores:
Todas as camisas e camisetas do candidato petista estavam suadas, rasgadas ou imprestáveis para uso no comício final, marcado para Paulo Afonso, por mais “despojado” que fosse o candidato. E a solução emergencial veio do guarda roupa do franzino bispo, na forma de uma camisa de tricoline de mangas curtas, que mal cabia dentro seu novo e parrudo usuário. E assim Lula desembarcou em Paulo Afonso para seu último comício no primeiro turno daquela histórica campanha.
Lula bateu Brizola por pouco no primeiro turno, mas foi abatido por Collor na decisão. Agora, 2010 é outra história. Mas a mistura da questão religiosa com a campanha presidencial já permeia os palanques dos três principais concorrentes: da evangélica declarada e de primeira hora, Marina Silva (PV); do tucano José Serra, criado e formado nas sacristias e lutas da Juventude Universitária Católica (JUC), onde foi atraído para os quadros da Ação Popular (AP), que orientou seus primeiros passos da política. “Que todos estejam na paz do Senhor”, pregou o candidato do PSDB em recente ato evangélico em Santa Catarina.
Dilma Rousseff , nascida de família católica, diz acreditar em “uma força superior”, mas fez confissão de fé católica, recentemente, diante de pergunta mais direta de um repórter. Só não se sabe se aprendeu a “lição” pretendida por Lula, em março passado, ao levá-la às barrancas do São Francisco, na diocese de Dom José Rodrigues, que já não está mais por lá.
A conferir
Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail:vitor_soares1@terra.com.br

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