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OPINIÃO PLÍTICA

Uma pouca vergonha

Ivan de Carvalho

Depois de passar pela Câmara dos Deputados, também o Senado Federal aprovou medida provisória, editada pela presidente Dilma Rousseff, que proíbe o fumo em ambientes fechados de acesso público em todo o país, ampliando assim medida legislativa inicialmente adotada em São Paulo por proposta do então governador José Serra, do PSDB.
Essa legislação, uma vez sancionada pela presidente da República e entrando em vigor, trará alguns um progresso notório quanto às restrições ao exercício do vício do tabagismo. O fundamento aí é sempre o de que o fumante não pode impor danos, efeitos e incômodos do seu vício a outras pessoas. A nova legislação extingue os fumódromos. Não dá mais para fumar em bares, restaurantes, boates e até as tabacarias estão livres da fumaça.
A proibição não chega a ser uma coisa absoluta, porque o Estado havia que respeitar a privacidade das pessoas. Por causa disto, ainda será possível fumar dentro de ambientes privativos (basicamente, residências, onde ainda será possível envenenar lentamente pais, filhos, cônjuges, irmãos, netos, empregados, visitas). Não é impossível encontrar mais algum outro lugar privado (por exemplo, um escritório ou oficina a que só uma pessoa tem acesso) em que o tabagismo possa ser praticado – ou perpetrado.
Ficam isentos da proibição, além desses lugares de acesso privado, os lugares ao ar livre – ruas, praças, estradas, praias e no campo ou na água, durante a natação (desde que não em piscina com acesso ao público), mas neste último caso haverá uma certa dificuldade de manter o cigarro (ou cigarrilha, charuto ou cachimbo) aceso. Talvez nadando de costas…

Se quanto ao ato de fumar a nova legislação representa um avanço, ela trouxe um contrabando no que diz respeito à propaganda do tabagismo. Por legislação federal anterior, ela já estava proibida em estádios, pistas, palcos ou locais similares, bem como vedado o patrocínio de “eventos esportivos nacionais e culturais”.

A lei aprovada agora pelo Congresso (por último, pelo Senado) dá um espantoso passo atrás, ao permitir a propaganda em eventos esportivos e artísticos. Assim, fica ela sendo permitida, se houve interesse comercial, nas Olimpíadas de 2016, na Copa do Mundo de 2014, no campeonato brasileiro, nos campeonatos estaduais, nos jogos de futebol, de basquete, de vôlei que se realizarem no país a qualquer título, nas corridas de carros, nas atividades de palco (teatrais, musicais, nos trios elétricos – a apresentação de suas bandas são eventos artísticos, como quer a lei).

Não se vai poder fumar em um teatro, mas o cartaz pode estar lá exposto, recomendando o tabagismo e o ator pode até apelar aos espectadores para que se matem com os cigarros da empresa que está ajudando a financiar o espetáculo. A camisa da seleção brasileira poderá desmoralizar-se a ponto de ostentar o nome de uma marca de cigarros. Mas o que importa mesmo é que os brasileiros, incluindo crianças e adolescentes, estarão com extrema freqüência sob bombardeio da propaganda tabagista, se a presidente Dilma Rousseff não vetar esse dispositivo contrabandeado na Câmara para sua Medida Provisória e acolhido pelo Senado.

Esse rombo aberto na legislação contra o tabagismo é uma pouca vergonha. Praticamente anula os efeitos de todo o esforço político e legislativo feito anteriormente para evitar a propaganda do tabagismo, o que vinha produzindo excelentes resultados, que seriam ainda mais expressivos com a nova lei, se os não inserissem essa safadeza da propaganda em eventos “esportivos e artísticos”.


Mario Lago
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Hoje (26/11/2012) Mário Lago faria 100 anos. O Bola Preta e o Cordão do Boitatá fazem um carnaval em homenagem ao eterno boêmio. http://t.co/XqADOZps
(Maria Olívia Soares)

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Fazendo jus ao ânimo festivo do boêmio Mário Lago, as comemorações pelo seu centenário parecem não ter fim. Hoje é a vez da Fundação Casa de Rui Barbosa brindar os fãs do ator e compositor de sucessos como “Ai, que saudade da Amélia” com uma programação especial com todas as faces de Mário Lago. Mas a festa não para por aí: o dia de seu centenário, em 26 de novembro, cai justamente num sábado – data perfeita para exaltar o bom e velho boêmio com vários shows pelo Rio de Janeiro.

Na Casa Rui Barbosa, a primeira mesa, às 10h30m discute o compositor e sua relação com o Rio de Janeiro. Às 14h é a vez de um debate sobre seu lado político aguerrido (chegou a ser preso sete vezes no regime militar), e às 16h, a boa e velha boemia. Concluindo o dia, uma mesa debate os ”causos” e canções de Mário Lago. A programação completa você vê no site da Casa Rui Barbosa.

Centenário badalado

Na sexta-feira (dia 25), seu time do coração, o Fluminense, também faz um tributo ao artista, a partir das 16h. Uma solenidade no salão nobre do clube marca o lançamento de uma exposição, um selo e uma medalha comemorativas. A festa terá direito ainda ao relançamento do livro autobiográfico “Na rolança do tempo”, escrito por ele na década de 1970. Além, claro, de uma boa roda de samba, que vai culminar com o show “100% tricolor”, a partir das 21h, com vários artistas e amigos convidados.

Já no sábado, quando o artista completaria 100 anos, o bloco Cordão do Boitatá canta o carnaval de Mário Lago na sede do Cordão do Bola Preta, na Lapa. O baile marca o lançamento do CD “Folias do Lago”, só de marchinhas do compositor. Além deste, um outro disco está sendo gravado, com artistas como Frejat e Lenine, só com canções inéditas de Mário Lago. O disco será lançado no ano que vem, encerrando as comemorações do centenário, mas algumas letras você confere no site do projeto

(Deu no site Revista de História)


Danielle Miterrand: a mulher que abraçou o mundo

ARTIGO DA SEMANA

UMA ROSA PARA DANIELLE

Vitor Hugo Soares

A escritora Simone de Beauvoir abre seu livro referencial sobre o mito feminino, “O Segundo Sexo” (A Experiência Vivida), com uma frase lapidar: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher” .

A expressão da pensadora francesa pode servir para muitas outras figuras do gênero, em várias regiões do planeta. No entanto, se encaixa com perfeição máxima no perfil de duas grandes mulheres da França: no da própria autora, que partiu há décadas, e no de Danielle Mitterrand, a militante “gauche” das causas humanitárias – para alguns “das causas perdidas” -, que morreu esta semana em um hospital de Paris, aos 87 anos.

Uma existência exemplar e relevante sob qualquer aspecto. Na política, nas relações humanas, na resistência ou embates sociais. Na generosidade extrema com as pessoas e com os povos de tantos países. Com a América Latina em geral e com o Brasil em particular, onde ela esteve inúmeras vezes (com o marido François Mitterrand ou sozinha na maioria dos casos).

A morte da ex-primeira dama da França durante 15 anos (embora ela não gostasse nem um pouco de ser chamada assim), e principalmente a sua história como polêmica militante e mulher sempre presente e atuante, merecia na despedida mais atenção de defensores e adversários das suas ideias e práticas.

Danielle Mitterrand, ao ganhar outra dimensão como acreditam os espiritualistas, merecia as honrarias do governo da petista, mulher e ex-guerrilheira Dilma Rousseff; os discursos mais vibrantes dos políticos ditos “de esquerda”, “socialistas” ou “progressistas” no poder. Merecia igualmente espaços mais generosos da imprensa brasileira.

Salvo raríssimas exceções, o que se viu esta semana? Uma sonora indiferença diante deste fato que teve expressivo destaque informativo e honras póstumas governamentais e políticas na Europa, na maioria dos países latino-americanos e em outras regiões do resto do mundo. Uma pena de dar vergonha aos que ainda não perderam a memória!

Por dever de justiça vale assinalar nestas linhas escritas na Bahia a imagem quase solitária da deputada Janete Capiberibe (PSB/AP) na tribuna da Câmara dos Deputados, em Brasília. A parlamentar socialista elevou a voz para despertar o sonolento plenário em situações iguais a essa fora de pauta (que não envolvem polpudas verbas públicas ou espúrios “acordos de governabilidade”) para prestar homenagem a Danielle Mitterrand, morta na madrugada de terça-feira, 22.

Em seu nome e do senador João Capiberibe, seu marido, Janete dirigiu emocionada mensagem à Fundação France Libertés, dirigida por Danielle até a morte. “Ela dedicou sua vida à causa dos oprimidos, foi-nos apresentada pelo casal Alain e Francoise Ruellan em 1997 e, a partir daí, tornou-se nossa amiga e amiga do Amapá”, destacou a parlamentar.

Através de sua organização não-governamental ela financiou inúmeros projetos de desenvolvimento na África, na Ásia, na América Latina . No Brasil, dentre outros lugares (como a Bahia), o Amapá, recordou Janete Capiberibe.

Lembro da visita de Danielle a Recife em 1989, na companhia do marido François Mitterrand. Então, Miguel Arraes governava Pernambuco pela segunda vez, depois de retornar de largo exílio. Foi marcante a honrosa, afetuosa e agradecida recepção que o casal recebeu na capital pernambucana. De seus governantes, de seus políticos e de seu povo.

Mais recentemente, Danielle esteve duas vezes na Bahia, em 2008 e no ano passado, respectivamente. Em uma das vezes foi homenageada pela Universidade Federal da Bahia, onde recebeu o título de Doutor Honoris Causa, por sua contribuição através da France Libertés à ciência e às pesquisas no Estado, principalmente na área do cacau. E aplausos de professores e alunos da UFBA por sua luta em defesa da justiça e dos direitos humanos.

Palmas merecidas, bem merecidas de verdade. Nascida em Verdun, em 1924, de pais professores de escola pública, começaria a atuar aos 16 anos na resistência contra a ocupação nazista ao seu país. “Eu tive que sair da minha indiferença para medir a minha capacidade de revolta contra a injustiça, a que sofreram os meninos judeus meus colegas de escola, e a que sofreu meu pai, afastado do magistério por não entregar a lista com seus nomes pedida pelos nazis”, contou Danielle Mitterrand em entrevista ao Le Monde.

Era o começo apenas da longa e aguerrida militância “daquela jovem garota, formosa e com uns olhos de gata admiráveis, fixos além dos limites e acidentes os quais ignoro”, como descreveu um apaixonado François Mitterrand.

O mais este espaço é pequeno para caber. Mas está tudo registrado na história da França, da Ásia, da África, da América Latina, nos inumeráveis relatos sobre a vida desta mulher extraordinária chamada Danielle Mitterrand.

Ou nas imagens poderosamente tocantes do momento em que ela acolhe com altivez e doce generosidade na hora do sepultamento do marido, a filha de Mitterrand fora do casamento, que ela não conhecia e nem sabia da existência.

Agora, na despedida, só resta a exemplo “das flores dos anônimos” depositadas na calçada da residência do casal quando da morte de François, deixar também minha rosa vermelha no tumulo de Danielle Mitterrand.

Que mulher!

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

nov
26
Posted on 26-11-2011
Filed Under (Artigos) by vitor on 26-11-2011


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BOA NOITE!!!

nov
25


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Desde a manhã desta sexta-feira o samba corre solto no centro histórico de Salvador.A festa começou no Pelourinho neste 25 de novembo, Dia do Samba de Roda e da Baiana de Acarajé. O cortejo saiu às 10 da manhã, da Igreja do Carmo e seguiu até a Praça da Cruz Caída, na Praça da Sé. O samba de roda segue tarde a dentro e deve entrar pela noite. Ainda dá tempo!!!

(Maria Olívia e Vitor Hugo)

“Toda sexta-feira toda roupa é branca Toda pele é preta Todo mundo canta Todo céu magenta Toda sexta-feira todo canto é? santo E toda conta Toda gota Toda onda Toda moça Toda renda Toda sexta-feira Todo o mundo é baiano junto”.

BOM DIA!!!

(A garimpagem e sugestão das música do dia é de Maria Olívia Soares)


Ministra Miriam Belchior: fogo amigo
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OPINIÃO POLÍTICA

O PAC e o espírito de porco

Ivan de Carvalho

O Ministério da Fazenda dispara fogo amigo contra o ministério do Planejamento, atingindo em cheio a ministra Miriam Belchior e o PAC – Programa de Aceleração do Crescimento. Seria engraçado e até ridículo se não fosse uma coisa importante, mas é triste, porque mostra como o governo busca enganar as pessoas sobre a suposta eficiência e o propagandeado êxito de sua atuação.

A notícia surgiu ontem, foi divulgada na Internet e por emissoras e, por sua relevância, deve ser replicada hoje nos jornais impressos. Não é o caso de repeti-la neste espaço, mas, no máximo, de fazer referência para lembrar o leitor do que se trata.

A ministra Miriam Belchior desfilava, em cerimônia oficial, a catarata de cifras, gráficos e vídeos publicitários com que numerosos governos – inclusive o do Brasil – cuidam de obliterar a visão dos cidadãos que os sustentam e sobre os quais eles exercem o poder que lhes foi concedido pela sociedade e o que delas frequentemente usurpam.

Na cerimônia, realizada no Palácio Itamaraty (que chique!) fazia-se o segundo balanço oficial do PAC 2, a etapa desse programa iniciada no governo Dilma Rousseff. Um calhamaço de 180 páginas (o que, a um tempo, “mostra serviço” e desestimula a perigosa leitura analítica, salvo pelos mais pacientes e determinados estudiosos) começava afirmando que o PAC 2 “tem sido determinante para a continuidade do crescimento sustentável da economia brasileira”.

E caprichava o calhamaço: “Em 2011, o PAC 2 também alcançou volume de pagamento do Orçamento Geral da União 22% superior em comparação com o mesmo período de 2010, ano de melhor desempenho do programa”, afirmava o material.

Tudo uma maravilha. Mas o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, segunda pessoa na hierarquia da pasta, estava junto da ministra do Planejamento e assumiu a desagradável (para ela) função de espírito de porco. “Houve vários ajustes e reprogramações nos programas do governo, no PAC, no Minha Casa, Minha Vida, e essas reprogramações proporcionaram investimento relativamente estável em relação a 2010”.

Quer dizer: os investimentos do PAC em 2011 equivalem aos feitos no mesmo programa em 2010 (já computando a previsão para o restante do ano atual, naturalmente). Isso já deixou a ministra Belchior com a cara mexendo, segundo se pode presumir com bastante margem de segurança.

Mas o problema da ministra – e através dela, do governo – não acabara. O espírito de porco ainda animava o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, que aguardou ansioso ser questionado pelos jornalistas para expressar de forma mais objetiva sua avaliação do PAC 2. Os jornalistas não o decepcionaram, questionaram-no. E ele não se fez de rogado: “A manutenção do investimento do PAC no mesmo nível do ano passado significa que o PAC neste ano não contribuiu para acelerar o crescimento”.

Bem, neste ano da graça de 2011 após o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Programa de Aceleração do Crescimento não acelerou o crescimento, segundo o Ministério da Fazenda, ressalvado algum choro do ministro Guido Mantega ao pé da presidente Dilma para obter o perdão ante a bobagem dita por seu principal auxiliar ou uma exoneração do secretário executivo da Fazenda, Nelson Barbosa, por ter dito uma barbaridade dessas.

Qualquer das duas hipóteses nos permitirá acreditar na ministra Belchior e em seu calhamaço.

nov
24
Posted on 24-11-2011
Filed Under (Artigos) by vitor on 24-11-2011


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Vai para Jandira Soares, onde ela estiver, o samba de que ela tanto gostava na voz de Jorge Aragão. Se viva estivesse ela estaria festejando 89 anos neste 24 de novembro de 2011. Saudade.

BOA NOITE A TODOS!

(Vitor Hugo Soares )

nov
24
Posted on 24-11-2011
Filed Under (Artigos) by vitor on 24-11-2011


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No vídeo original de 1987 um registro da eternidade de um grande artista que partiu em 24 de novembro de 1991. Confira.
BOM DIA!!!

(VHS)


Barradão:especulação imobiliaria cerca estádio do Vitória
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Texto do jornalista baiano Franciel Cruz publicado esta quinta-feira na revista digital Terra Magazine (http://terramagazine.terra.com.br)

ARTIGO/ MANOBRAS

A VILANIZAÇÃO DO ARTILHEIRO

Franciel Cruz -De Salvador (BA)

Conforme ensinam os especialistas em platitudes, nesta reta final dos campeonatos “não há mais espaços para erros”. Assim, de prima, abandono as banais e erráticas prosopopéias de praxe, saco do coldre minha falsa erudição e desfilo nesta tribuna com o auxílio luxuoso e infalível do menino Machado de Assis, que, no final de Dom Casmurro, ordenou o seguinte: “Vamos à história dos subúrbios”.
Então, sem mais delongas, sigo logo o conselho do epilético do Cosme Velho, furto outro gênio da cultura nacional, o Goulart de Andrade do Comando da Madrugada, e conclamo a nação: “Vem comigo para a periferia”.

Seguinte é este. Ou melhor, foi este. No início da década de 70 do século passado, o brioso bairro de Canabrava, na zona periférica de Salvador, era uma espécie de Ilha das Flores sem Jorge Furtado por perto. Mas, não pense que isso era ruim. Ao contrário. O inverso foi o verdadeiro. Afinal, em vez de virar apenas um curta-metragem, o local transformou-se no palco de transcendentais e redentores espetáculos com a chegada de algo muito mais importante do que um cineasta: um estádio.

A partir de então, o local, que era apenas um monturo de lixo rodeado de gente por todos os lados, virou um monturo de gente rodeado de lixo por todos os lados com um campo de futebol no meio. O time, porém, que, como quase todos os clubes, foi forjado nos cafés aristocráticos – isto se existissem cafés aristocráticos na Bahia – não veio imediatamente junto com o Estádio.

Então, inicialmente a fórmula não se alterou muito. Era povo, lixo e um tantinho assim de circo, pois os jogos lá ocorriam muito esporadicamente. Nos cinco primeiros anos, foram apenas quatro partidas. E o bairro continuava esquecido e humilhado pelas grandezas da Bahia como tantos outros que não têm estádio, mas apenas campinhos de futebol de várzea.

No entanto, a partir de 1991, com a definitiva transferência da agremiação para o local, Canabrava deixou de ser invisível. E os políticos oportunistas (desculpem a boba redundância) logo trataram de levar alguns benefícios para a localidade. Assim, chegaram asfalto, iluminação e gols, muito gols. E o lixão virou Parque Sócio Ambiental. Já os badameiros, ganharam direitos de (quase) cidadãos. E viraram torcedores.
E nesta relação antropofágica, como não poderia deixar de ser, os moradores também comeram, digo, acolheram, a equipe. Assim, o Leão, nascido no rico bairro da Barra, transforma-se num time do povo. Aos que pensam que blefo, vejam a pesquisa mostrando que, atualmente, o Esporte Clube Vitória tem mais torcedores nos bairros periféricos do que nos (mal) ditos bairros nobres.

Outra consequência benéfica foi que o Clube, até então marcado por um histórico de minguadas conquistas, passou a ganhar títulos e mais títulos, tornando-se hegemônico no Estado. E eram povo e time felizes. A chibança foi tanta que, talqualmente nas mineiras canções românticas, a gente chegou um dia a acreditar que tudo era para sempre.

Acontece que a porra do futebol (não sei se alguém já falou isso) é uma caixinha de… pandora. E, seja lá que disgrama isto signifique na mitologia do Ludopédio, o fato é que a maldita caixa se abriu e fomos afligidos por todos os males. Assim, em 2006, em vez de estarmos em Tóquio ou Abu Dhabi como planejado, fomos parar em Coruripe, na Terceirona.

E foi neste quadro dantesco que (res) surgiu um mecenas, filho de um ex-presidente da familiocracia oficial rubro-negra, tirando dinheiro do próprio bolso e prometendo tirar o Clube do fundo o poço. E as promessas não pareciam vãs, já que em apenas três anos o Leão saiu do subsolo do futebol para figurar novamente na (mal) dita elite.
Aliás, por falar em elite, eles não dão ponto sem nó. Vejam vocês que tipo de gente perversa. Enquanto nos iludiam com efêmeros resultados, eles arquitetavam um plano maligno. Ao mesmo tempo em que levava o Vitória para a segunda divisão, perdia a decisão do Baianão em casa. E o nosso Santuário foi sendo conspurcado de modo contínuo e desavergonhado.

Ser eliminado em nosso estádio por potências do futebol como o Botafogo (da Paraíba) ou Baraúnas passou a ser uma rotina. Mas, não percebíamos, pois estávamos anestesiados pelo vil metal do mecenas e pelos ilusórios desempenhos, a exemplo de uma final de Copa do Brasil.

Porém, em 2010, a incompetência falou mais alto do que o dinheiro e voltamos a cair, novamente dentro de casa. E eles nos fizeram passar nova vergonha no primeiro campeonato do ano ao perdermos o título do Baianão em pleno Santuário para o Bahia… de Feira de Santana.

Então, tal e qual um Émile Zola lambuzado de dendê, J’accuse: esta nova tragédia contra o São Caetano no último sábado foi apenas mais um capítulo deste plano perverso de vilanizar nosso maior artilheiro, o Barradão. O fato é que a elite do Vitória não aguenta mais suportar o cheiro do povo e, por isso, quer entregar nosso estádio para a especulação imobiliária construir casinhas de pombo e assim pavimentar o caminho de volta para a velha fonte que tantas desgraças nos causou.

Franciel Cruz é jornalista e editor do blog Victoria Quae Sera Tamen (http://victoriaquaeseratamen.wordpress.com/).

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