jul
26
Posted on 26-07-2009
Filed Under (Artigos, Gilson) by vitor on 26-07-2009

farol
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Salvador, onde está sua ternura?

A paisagem espanta
O tempo todo
O horizonte sumiu!
O azul agora é vertical
Onde havia horizonte
Cimento
Cal
Minha cidade deixou de ser?
Já foi?
Ou não?
Um edifício alto e feio invade o céu
O vertical é mais que o horizontal
O caos
Do grito do guri que não fui eu
Do não roubei o leite seu fiscal vira atração
A paz sem endereço
A mentira nos palanques
Há gente com medo
Sorrindo
Ser normal
A rua escura
O vento frio
uma vontade de chorar
Um pedido de socorro sem resposta
E um jovem deitado na calçada da avenida principal
O crack roubou-lhe sonho
Seu travesseiro é de pedra
Salvador, reaja, volte a cantar sua ternura antiga!

Gilson Nogueira, jornalista (e poeta) da Bahia

jul
25
Posted on 25-07-2009
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 25-07-2009

UNE dissolvida em Ibiuna (SP)…
ibiuna
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…E reconstruída em Salvador(BA)
salvador
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ARTIGO DA SEMANA

A UNE e a memória

Vitor Hugo Soares

“Ninguém me contou… Eu vi”…

Peço licença a Sebastião Nery para começar estas linhas sobre a União Nacional dos Estudantes – e toda polêmica levantada em relação ao recente 51º congresso da entidade, em Brasília – com as mesmas palavras do jornalista baiano na apresentação do livro “Rompendo o Cerco”, a coletânea de discursos mais importantes e frases políticas marcantes do deputado Ulysses Guimarães, de saudosa memória. Mais ainda, nesses tempos de vergonha (ou falta de) no parlamento do país.

Peço desculpas também por não ir direto ao ponto, como recomendam os manuais de jornalismo. Ora bolas! Isso também parece perdeu o sentido, depois da célebre sessão do Supremo Tribunal Federal na qual foi jogado na lata do lixo o diploma profissional de nível superior, comparado a uma habilitação de cozinheiro pelo presidente do Supremo. Mendes, por sinal, nesses dias de nuvens pesadas sobre o céu de Brasília, andava pela Rússia, que, como se sabe, é modelo mundial de liberdade política, jurídica e de imprensa.

Assim, lembro antes a imagem comovida de Nery no cemitério Jardim da Saudade, em Salvador, debruçado sobre o caixão do ex-deputado Mario Lima, pioneiro do sindicalismo brasileiro na área do petróleo (fundador do SINDIPETRO). Parceiro também do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes, na prisão militar da ilha de Fernando de Noronha em 64; resistente e competente aliado a quem Ulysses confiaria, anos mais tarde, comissões cruciais na feitura da Constituição de 88, na parte que trata do trabalho e do trabalhador. Até o presidente Lula mandou mensagem à família do morto: “Mário Lima destacou-se pela combatividade durante toda a vida, tanto na trincheira do sindicalismo quanto na do Parlamento”, realçou o presidente.

Os grandes jornais, no entanto, a exemplo do que já acontecera dois anos antes, na morte do ex-deputado e ex-prefeito cassado de Feira de Santana, Chico Pinto, – símbolo do parlamento de seu tempo – passaram ao largo ou viraram as costas, descartando até mesmo, em alguns casos, o simples registro factual em suas colunas de Falecimento. “Que país é esse?”, poderia perguntar algum leitor mais curioso e interessado em motivos. A resposta, além da falta de memória congênita, pode ser encontrada também na letra contundente da famosa música da banda Legião Urbana: “Nas favelas, no Senado/ Sujeira pra todo lado/ Ninguém respeita a Constituição/ Mas todos acreditam no futuro da Nação/ Que país é esse?/ Que país é esse? …

E chegamos à UNE, finalmente.

Do mais recente congresso da entidade o que sei é de leitura ou de ouvir dizer. E não são coisas agradáveis nem edificantes; tanto do lado dos defensores quanto dos críticos da UNE e de suas atuais lideranças. Com ideologias e emoção em demasia, fatos e argumentações sólidas de menos, o resultado é um registro factual nebuloso e análises meio mancas, que o tempo, senhor da razão, haverá de filtrar, até deixar escorrer a água límpida e verdadeira dos fatos e seus signos.

Quero falar mesmo é de quando tudo isso começou. Nos dias 29 e 30 de maio de 1979, no 31º Congresso da UNE, em Salvador, no “Congresso da Reconstrução” da entidade despedaçada pela ditadura e jogada na ilegalidade durante 13 anos. No Centro de Convenções da Bahia, ainda em obras, cedido pelo governador Antonio Carlos Magalhães em meio a grande polêmica nacional, 10 mil estudantes presentes. 3.304 deles delegados eleitos “nas bases”. Juntos no mesmo espaço, esquerdistas, direitistas, comunistas, anarquistas, “estudantes profissionais e inocentes úteis”, como alguns jornais definiam na época.

Na mesa, entre muitos outros destacados líderes estudantis de então, o atual governador de São Paulo, José Serra (PSDB) e o hoje deputado petista José Genoino. Como esquecer a grande faixa dos anarquistas “Inimigos do Rei”, aberta de repente?, e o alvoroço da platéia surpreendida? E a hora em que faltou energia, em plena cerimônia de encerramento do Congresso, quando, ato contínuo, o baiano Ruy César Costa e Silva, o primeiro presidente da UNE reconstruída, pediu a todos que acendessem velas ou isqueiros, enquanto ele lia a mensagem de encerramento. Sem alto falante, cada palavra do estudante de Comunicação da UFBA (que mais tarde se transformaria em ator e educador), era reproduzida pelo coro de mais de 10 mil vozes na noite escura da Bahia. Indescritível!

Repórter da sucursal do Jornal do Brasil em Salvador, na época, ninguém me contou… Eu vi. Difícil aceitar que algo tão bonito e significativo, possa ter-se transformado, 30 anos depois, em algo tão feio – maligno até – como a histórica entidade estudantil e seus dirigentes aparecem em alguns retratos do evento da semana passada, em Brasília. Depois do que vi na Bahia, porém, creio que a UNE resistirá mais uma vez.

Vida longa à histórica entidade dos estudantes brasileiros. E curta aos maus dirigentes, da UNE ou de qualquer outra instituição do País.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

jul
24
Posted on 24-07-2009
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A santa que vela por Serrinha
sanfa
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CRÔNICA/VIVÊNCIAS

Em nome da Santa

Gilson Nogueira

O Governo do Estado da Bahia vai proporcionar ao povo da cidade de Serrinha ( 173 km de Salvador ) maior quantidade de água nas suas torneiras. Por conta disso, lembro-me das primeiras trovoadas vividas, ali, nas férias escolares. Era época do deslizar no barro molhado por tempestades raras, no início dos anos 50 do século passado, como se o desejo fugaz de velocidade tivesse, também, o de comemoração, ao sentir o frescor da chuva a nos lambuzar a cara pintada de terra e manga.

As tempestades serrinhenses caiam para fazer “sangrar” o açude da Bomba e o riacho da Bela Vista, hoje mortos, no início dos anos 50 do século passado. Alagavam, de quebra, o desejo de jogar bola, na Baixa. Não era problema. Entre as opções de lazer dos meninos, além do baba, ver passar boi de careta constituía-se em espetáculo gratuito e imperdível. Tangido por vaqueiro encourado, torcíamos pela fuga do boi, a caminho do matadouro. Perdíamos o jogo.

Com uma venda de couro sobre olhos, parecendo chifrar a própria sombra, a caminho da morte, o bicho era um perigo só. Parado, nos olhava, de lado, furioso, até o momento exato de “resolver” sair correndo, pular cercas e muros, invadir quintais, colocar assustados moradores da Avenida Antonio Rodrigues Nogueira, grande e bonita via que liga o centro da hospitaleira Serrinha ao município de Barrocas.

Desde sua fundação, Serrinha é a casa de Nossa Senhora Santana, sua padroeira. A estátua, esculpida em cimento e ferro, foi erigida pelo saudoso fazendeiro Samuel Nogueira, no alto da colina que leva o seu nome, em atenção ao pedido de seu pai, Antonio Rodrigues Nogueira, devoto da Santa e um dos pioneiros da cidade, antiga morada dos índios Cariris. Comenta-se que o belo monumento, doado pela família Nogueira ao Clero de Serrinha, está a merecer cuidados especiais da Diocese local, em vez da idéia, que muitos consideram absurda, de vir a ser trocada por uma estátua de madeira, conforme anunciado, recentemente, por um padre, em sermão de missa por ele celebrada.

Volto ao boi de careta. Como não sou adepto do “ atletismo” da Corrida de São Firmino, na Espanha, jamais desafiei touro algum, mesmo porque, considero-me, desde as touradas que os circos inventavam, hoje, no patamar de meus bem vividos anos, entre idas a vindas a Serrinha, defensor intransigente do aconselhamento naturalista de quanto menos carne verde comer, melhor para a saúde humana.

A Santa, graças a Deus, continua, lá, firme e forte, como o maior cartão-postal de Serrinha!. Os bois de careta? Bem, esses, sumiram, como os carros puxados por aqueles que não usavam máscara. “Ôa, Turmiada!; Meia-volta, Canário; Volta, Passo Preto! Na lembrança, os sons de um tempo do gemido de pau na roda e da toada dos que não imaginavam, um dia, na esteira das impiedosas agressões à história de um povo e às suas tradições religiosas e culturais, que se cogitasse transformar um símbolo de fé em pó.

Gilson Nogueira é jornalista

jul
23
Posted on 23-07-2009
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Hipólito da Costa: história na lixeira
hopolito
Deu no OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

OPINIÃO/ DIPLOMA DE JORNALISMO

A história jogada no lixo

Alberto Dines

O Estado brasileiro judicializou-se, transferiu-se para os tribunais. A inoperância e desqualificação do Legislativo somada ao caráter circunstancial e casuísta das ações do Executivo levam o Judiciário a assumir uma série de atribuições indevidas.

Atrás desta grave disfunção estrutural está o velho mandonismo e a incapacidade dos agentes políticos para buscar algum tipo de consenso e conciliação. Preferem os impasses logo encaminhados às diferentes instâncias judiciais mesmo quando as divergências são de ordem conceitual, não envolvendo ilícitos ou ameaças.

O STF tem sido a instituição mais procurada para dirimir controvérsias, digamos impertinentes, porque a Constituição de 1988, apesar da fama progressista e cidadã, apresenta enormes lacunas e imprecisões. A pressa em promulgá-la permitiu a sobrevivência de estatutos produzidos durante o regime militar designados aleatoriamente como “entulho autoritário”.

Nem a Lei de Imprensa nem a discussão sobre a obrigatoriedade do diploma específico para o exercício de jornalismo deveriam ter sido encaminhadas à suprema corte. Foi um equívoco – ou leviandade – submetê-las à apreciação de um ministro-relator, e em seguida aos seus dez pares, nenhum deles disposto a e suficientemente preparado para mergulhar numa questão complexa e multifacetada.

Tanto o ministro-relator Gilmar Mendes como aqueles que o acompanharam na decisão não conseguiram convencer a sociedade de que haviam entendido a chamada Questão do Diploma de Jornalismo. Deixaram-se iludir pelos autores da representação. É incrível, mas é imperioso e penoso registrar que Suas Excelências, Meritíssimos e Meritíssimas, foram ingênuos. Ao invés de convocar peritos, contentaram-se com constatações simplistas, produzidas pelo senso comum e lugares-comuns.

Reconhecimento da profissão

As entidades patronais que direta ou indiretamente patrocinaram a causa fixaram-se na questão do certificado e menosprezaram o ponto crucial: a existência de uma profissão multi-secular, na verdade bi-milenar, reconhecida em todo Ocidente.

Era mais fácil e mais conveniente eliminar a obrigatoriedade do certificado sob o pífio pretexto de universalizar o acesso à informação do que reconhecer que os precursores dos jornalistas contemporâneos foram os funcionários romanos chamados de diurnarii (daí giornalisti e journalistes). Também chamados de actuarii porque se encarregavam de preparar as atas ou Actas informativas que circulavam na capital do império a partir do século II a.C.

A profissão de jornalista, reconhecida e legalizada, começou com a produção das Actae Diurnae (Atas Diurnas), também conhecidas como Atas Públicas, Atas Urbanas ou ainda Diurnálias. Mas também circulava uma Acta Populi e, para comprovar que nada se cria, tudo se copia, havia até uma Acta Senatus, secreta, que certamente inspirou o senador José Sarney a produzir seus boletins confidenciais.

Os proto-jornalistas foram estudados pelo historiador-jornalista Carlos Rizzini em O Jornalismo antes da Tipografia (Cia. Editora Nacional, S. Paulo, 1968, pp. 4-10). Mais recentemente, o historiador português Jorge Pedro Souza ofereceu preciosas informações sobre uma atividade exercida há dois milênios que o espirituoso presidente do STF, Gilmar Mendes, considera equivalente à dos mestres-cuca (Uma Breve Historia do Jornalismo no Ocidente in Jornalismo: Historia, Teoria e Metodologia, pp 34-44, Edições Universidade Fernando Pessoa, Porto, 2008).

Hipólito e os redactores

Na apresentação da primeira edição do Correio Braziliense, o primeiro periódico a circular sem censura no Brasil e em Portugal, seu autor, o gaúcho Hipólito da Costa, escreveu com data de 1º de Junho de 1808 uma profissão de fé sobre a nobre missão dos jornalistas aos quais designa como redactores das folhas públicas.

Hipólito delineava de forma inequívoca uma função social e um ofício. Sua convocação dirigia-se primeiramente aos que vivem em sociedade e, em seguida, àqueles que deveriam servi-la. O patriarca do jornalismo estabelecia uma clara diferenciação entre o cidadão e aqueles que devem informá-lo. Não regulamentou a profissão, concedeu-lhe um status especial. Distinguiu-a com a missão de levar a colônia a superar os 308 anos de trevas e silêncio e preparar a sua emancipação.

Dois séculos depois, a conjugação de um Estado capenga e uma corte desnorteada – ou mal informada – jogam nossa história no lixo.

Alberto Dines, jornalista, é editor chefe do portal Observatório da Imprensa, onde este texto reproduzido pelo Bahia em Pauta saiu originalmente.

jul
22
Posted on 22-07-2009
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CRÔNICA/TEMPO

Essa moça tá diferente… uauuuuuuuuuuuuuuu

Aparecida Torneros

Ela era eu, e eu era ela, em 69, vendo o astronauta descer na lua, saindo em 70, pra dançar na rua, em Copacabana, quando o Brasil ganhou a copa. Tanto copo, tanto samba, tanta lua, tanta rua, a moça era eu, magricela, saltitante, cercada de gente, na areia, na maré cheia, em noite de lua branca, éramos um bando de meninos e meninas caminhando na madrugada, o Chico saltando de banda, soletrávamos a banda, que passava, víamos o mundo passar e virar de cabeça pra baixo, o país se escondia no subterrêneo da torturada juventude, da torturante ditadura, nós éramos eles e eles eram todos os que nos perseguiam, dedos em riste, a praia vazia nos dias de chuva, os ventos soprando nos dias de agosto, o amor disposto, aquele que crê, amor de gente nova, de moços e moços, pobres criaturas sonhadoras, com direito a se encantar pra desencantar depois, dando guinadas no futuro, deixando de ficar na janela, descendo para o asfalto, ganhando as calçadas, desfilando de minis, fazendo parte da história, na passeata, no ato, no protesto, no sexo, no envolvimento, no engajamento, da tomada de lugar, marcando posição, defendendo a liberdade, gritando questões de ordem, desordenando tudo, uma geração inteira, de hyppies e guerrilheiros, de gente esfusiante, desafiante, corajosa, em verso e prosa, eles eram elas e elas eram eles, os barcos embarcando canções, festivais, composições, prêmios, viagens, novos rumos, novos baianos invadindo os templos boêmios cariocas, os meninos do Rio, os morros que nao tinham vez, e que buscaram voz, que se favelizaram, as comunidades somos nós e os instintos são de todos…as fotos e os filmes em preto e branco, a revelação, o processo, no escuro, a imagem de um tempo, ela era eu, eu era ela, ele nem sabia se era o meu bem, eu nem sabia lhe dar o meu amor, éramos assim, a medida de um momento em que o mundo parecia simples de ser encarado e resolvido, e ela era prá-frente, e ele estava prá-lá-de-marraqueshi, baseando-se na previsão do tempo, em Woodstok, sem destino, sem lenço , sem documento,ela nem se importava com o cílio postiço, tinha blindagem e maquiagem, usava a pílula, era moderna, misturava os hálitos, os hábitos, os duas peças, os monoquinis, biquini cavadão, o asa delta, o puro sangue de trote vencedor, lá ia ela , e eu era a própria alegria de ser, naqueles anos de 69 e 70, por sentir o amor, enquanto ela era a própria tristeza de ver, naqueles anos de 69 e 70, por ver a dor dos presos políticos, ela e eu nos confundíamos, nos alternávamos, nos desentendíamos, nos questionávamos, nos enturmávamos, nos acostumávamos a ser ora ela e ora eu…
agora ela tá diferente de mim e eu tó diferente dela, só no tempo, porque na carinha de hoje, ambas, reproduzimos a de anteontem, ainda bem…

Cida Torneros é jornalista , poeta e escritora, autora do livro ” A Mulher Necessária”, mora no Rio de Janeiro.

jul
21
Posted on 21-07-2009
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Deu na Folha de S. Paulo

OPINIÃO
O LABIRINTO DA INTERNET

JOÃO SANTANA

Um paradoxo da cultura contemporânea é a incapacidade da maioria dos políticos de entender a comunicação política. Essa disfunção provoca, muitas vezes, resultados trágicos.

É o caso da lei votada pela Câmara dos Deputados para regular o uso da internet nas eleições. Se aprovada sem mudanças pelo Senado, vai provocar um forte retrocesso numa área em que o Brasil, quase milagrosamente, se destaca no mundo – sua legislação de comunicação eleitoral. Sim, a despeito da má vontade de alguns e, a partir daí, de certos equívocos interpretativos, o Brasil tem uma das mais modernas legislações de comunicação eleitoral do mundo.

O nosso modelo de propaganda gratuita, via renúncia fiscal, é tão conceitualmente poderoso que se sobressai a alguns anacronismos da lei, como o excesso de propaganda partidária em anos não eleitorais ou a ridícula proibição de imagens externas em comerciais de TV.

Os deputados decidiram errar onde não poderiam. Mas era um erro previsível. A internet é o meio mais perturbador que já surgiu na comunicação.

Para nós da área, ela abre fronteiras tão imprevisíveis e desconcertantes como foram a Teoria da Relatividade para a física, a descoberta do código genético para a biologia, o inconsciente para a psicologia ou a atonalidade para a música.

Na comunicação política, a internet é rota ainda difícil de navegar. Somos neogrumetes de Sagres em mares bravios.

Não por acaso, o mundo está infestado de curandeiros internáuticos a apregoar milagres. E a mídia potencializa resultados reais ou imaginários (“Ah, a campanha do Obama!”, “Ah, as eleições no Irã”, “Ah, o twitter do Serra”, “Ah, vem aí o blog do Lula”) sem que se consiga aferir a real dimensão do fenômeno.

Se é perturbadora para nós do meio, por que não o seria para legisladores e juízes? Principalmente para os políticos, que, como se sabe, sofrem desconforto com a comunicação política desde o surgimento dos meios modernos.

Desde sua origem nas cavernas, o modo de expressão política tem dado pulos evolutivos sempre que surge um novo meio.

De Aristóteles, patrono dos marqueteiros, passando pelos áureos tempos da santa madre igreja, que já deteve a mais poderosa máquina de propaganda política – é a criadora do termo com sua “Congregatio de Propaganda Fide”-, até os dias de hoje, a comunicação politica é feita por meio de uma simbiose entre o que se diz – o conteúdo retórico -persuasivo – e seu suporte de expressão, as ferramentas comunicacionais. Um influenciando o outro e os dois influenciando, sem parar, as sociedades e instituições.
Foram enormes os pulos causados pela imprensa, pelo rádio, pelo cinema e pela TV na forma e no modo de fazer política. Mas nada perto dos efeitos que trará a internet.
Não só por ser uma multimídia de altíssima concentração, mas também porque sua capilaridade e interatividade planetária farão dela não apenas uma transformadora das técnicas de indução do voto mas o primeiro meio na história a mudar a maneira de votar. Ou seja, vai transformar o formato e a cara da democracia.

No futuro, o eleitor não vai ser apenas persuadido, por meio da internet, a votar naquele ou naquela candidata.
Ele simplesmente vai votar pela internet de forma contínua e constante.

Com as vantagens e desvantagens que isso pode trazer.
As cibervias não estão criando só “novas ágoras”. Criam também novas urnas. Do tamanho do mundo. Vão ajudar a produzir uma nova democracia tão radicalmente diferente que não poderá ser adjetivada ou definida com termos do nosso presente-passado, tipo “representativa” ou “direta”.

Sendo assim, creio que nossos legisladores não vão querer passar para a história como os que imprimiram um sinete medieval em ondas cibernéticas. Não é só o erro, como já se disse, de encarar um meio novo com modelos de regulação tradicional. É porque a internet, no caso da comunicação política, nasceu indomável. E sua força libertadora tem de ser estimulada, e não equivocadamente reprimida.

Já há um consenso do que deve ser modificado na proposta da Câmara. O Senado, que vive profunda crise de imagem, tem um bom tema de agenda positiva. Mas não é por oportunismo que urge corrigir os equívocos da Câmara. É simplesmente pelo prazer de estar conectado com o futuro.

JOÃO SANTANA, 56, é jornalista, publicitário e consultor político. Já coordenou o marketing de dezenas de campanhas estaduais e municipais (como a de Marta Suplicy em 2008), além de três campanhas presidenciais, no Brasil (Lula em 2006), na Argentina e em El Salvador.

jul
19
Posted on 19-07-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 19-07-2009

Cartel em Salvador: até quando?
cartel
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Um leitor escreve para Bahia em Pauta dizendo-se impressionado com a omissão das agências reguladoras da Bahia. No sábado(18) ele trafegava pela Av. Luiz Viana Filho e afirma ter tomado um susto ao parar nos postos de combustíveis para abastecer.

Conta o leitor:

“Até quinze dias atrás estavam cobrando o alcool R$ 1,39 aumentou para 1, 66 e depois para 1, 77. O curioso que esse aumento só foi observado em todos os postos da Paralela, nos demais bairros o álcool continua a ser comercializado pelos mesmos 1, 66, variando no máximo dois centavos de um posto para outro”.

Pergunta e comenta a seguir o leitor na mensagem, identificada, mas cujo nome este site-blog mantém preservado por motivos óbvios. Afinal, mexe com gente graúda que, em geral se considera acima da lei e dos controles do poder público, este quase sempre omisso e, não raramente, complacente.

“Será que o cartel agora tá atuando por bairro? Eu acho que a preocupação é inútil, pois o diretor da Agência Nacional do Petróleo – ANP, senhor Francisco Nelson, disse numa emissora de TV que na Bahia não existe cartel. Então podem continuar atuando sem medo. Nesta terra ainda somos obrigados a conviver com essas prevaricações”, encerra o caro leitor suas observações pelos abusos sofridos na pele e no bolso.

Aguardando explicações e, principalmente, ações para conter os abusos e punir os infratores, Bahia em Pauta assina em baixo.

(Vitor Hugo Soares, editor)

jul
18
Posted on 18-07-2009
Filed Under (Artigos, Gilson, Multimídia) by vitor on 18-07-2009


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Tom Jobim, de óculos, com um puro Havana entre os dedos da mão esquerda, está na foto. Lê uma partitura. Parece vivo. Na parede, tem sentido estético. Faz parte do meu acervo de jornais, revistas, livros, CD e DVD sobre o maestro soberano.

Anos Dourados está disponibilizada no site-blog-blog-site Bahia em Pauta. A Bossa Nova, estado de espírito, estética do processo, silêncio que encanta, divisor de águas da música brasileira, tem mais vez, na Bahia. Viva, Vitor!!!

Dia e noite, em constante estado de oração, ou melhor, de BN, estou a cantar e a ouvir canções do gênero, a recordar momentos vividos com quem fez e faz a Bossa ser eterna. Por isso, vou providenciar, já, reprodução de foto do saudoso Luizinho Eça, para ficar ao lado da foto de Tom, aqui, no gabinete do meu computador.

Luizinho, o maior pianista de todos os tempos da Bossa Nova, com quem compartilhei gargalhadas à moda carioca-baiana, não morreu. Em algum lugar do Cèu, ele se movimenta, cria, toca magistralmente, sorri, como faz ao executar Na Baixa do Sapateiro, de Ary Barroso, com Lilian Carmona, à bateria, e Luiz Alves, no baixo, nesse vídeo. Ouça, curta, sonhe e diga que a Bossa Nova vai arrasar!!!

Vai, amigo, solta o pau, como disse, a Luizinho Eça, no dia em que o conheci, em uma das viagens do lendário Tamba Trio, a Salvador, no início da década de 70 do século passado, a caminho do Teatro Castro Alves, onde o Tamba iria fazer show memorável!

Eu estava lá, na primeira fila, embasbacado com o som do Tamba, o melhor trio que o Brasil conheceu. Havia ganho o passaporte que faltava. Tom e Luizinho permanecem vivos, em nossos corações. A Bossa continua linda, gente boa!

(Gilson Nogueira é jornalista)

jul
18

Luzia em Xambioá/arquivo pessoal
guerrilheira
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ARTIGO DA SEMANA

RETRATO DE LUZIA

Vitor Hugo Soares

Foi na primeira página do jornal O Globo, em uma reportagem sobre a Guerrilha do Araguaia, que vi pela primeira vez o impressionante retrato da guerrilheira Luzia Ribeiro, que acabara de ser presa em Xambioá, na selva amazônica. Ela aparecia marcada fisicamente pelas agruras da vida na região, mas principalmente pelas dores das torturas a que havia sido submetida pelos comandados do major Sebastião Curió, que a haviam prendido. Luzia mantinha intocada na face de prisioneira, porém, os traços de beleza indefinível da jovem militante dos anos 60, que conheci ainda uma estudante secundarista. A “moça de olhos firmes” de Jequié, marca inconfundível da integridade jamais perdida, como fica claro na entrevista que ela deu ao jornal A Tarde esta semana.

Na época, o retrato produziu sentimentos contraditórios no também jovem militante da UFBA. Primeiro, o contentamento de rever, viva, a querida amiga e companheira das lutas estudantis contra a ditadura nas ruas de Salvador, desaparecida de repente depois do último encontro em uma mesa cheia de outros amigos e companheiros que pareciam felizes como na canção “Anos Dourados”, de Chico e Tom. Todos sentados ou de pé em volta de uma mesa da “Barraca Botafogo”, ao pé do histórico Relógio de São Pedro, à espera da passagem do trio elétrico de Dodô e Osmar, ou do bloco sem cordas do Jacu, de Waltinho Queiroz, com o travesti Valéria , destaque no carnaval soteropolitano naqueles anos temerários.

A segunda sensação foi de melancolia. Na impressão do retrato em O Globo, Luzia se assemelhava muito com uma das atrizes preferidas da geração 60/70: Jane Fonda. Principalmente no papel da pungente personagem central do filme de Sidney Pollack, “A noite dos desesperados”. Uma película, como se dizia então, sobre a depressão da década de 1930, nos Estados Unidos, que levava as pessoas a decisões drásticas para sobreviver em um tempo marcado pela fome e o desespero.

Esta semana revi no jornal baiano o antigo retrato de Luzia, ao lado de uma fotografia atual quando se aproxima de completar 60 anos. Ilustram a entrevista concedida à repórter Patrícia França – depois de anos de silêncio público. Luzia fala na condição de única sobrevivente entre participantes da Bahia na guerrilha do PC do B, que ainda tem 11 nomes de ex-militantes na relação de desaparecidos. A ex-combatente faz o contraponto essencial ao recente depoimento de Curió, no relevante trabalho jornalístico produzido pelo Estadão.

Atualmente aposentada do extinto Baneb, formada em Economia, vivendo com um companheiro chileno, mãe de um filho, afastada do PC do B, mas militante de um grupo social que “luta em defesa da justiça e da paz”, Luzia faz na conversa com Patrícia um relato comovedor de suas experiências pessoais na guerrilha.

É inflexível em relação a Curió: “Foi muito triste quando li o que Curió está relatando e mostrando em documentação. Claro que o jornal (Estadão) só mostrou um pouco, mas demasiadamente forte… Esse homem que eu não considero isso, considero um bicho, foi quem comandou a Marajoara, a terceira e última operação, que exterminou os 41 combatentes da guerrilha. Ele diz que estava do lado contrário, que obedecia ordens e que por isso é inocente. Mas ele tinha que ser julgado como criminoso de guerra. Em vários países existe isso, e aqui no Brasil este homem fica impune. Isso é que dói mais”, diz a ex-guerrilheira. Curió “ganhou muito com o extermínio. Enriqueceu, ganhou prestígio, é dono de muitos hectares de terras em Serra Pelada, tem uma cidade com seu nome”, denuncia Luzia.

Mas a ex-combatente de Xambioá reserva críticas duras também para “setores de esquerda”, ex-aliados, em especial do PT, que ela acusa de ter feito acordos com militares, que resultam na impunidade de torturadores até aqui e na falta de vontade política do governo petista de tocar adiante as investigações cruciais: “Lula está aí há quantos anos? No início ele tinha um compromisso com os familiares da guerrilha do Araguaia. Inclusive o PC do B participa do governo, mas não tem a força suficiente para fazer com que o governo Lula abrace isso. Tudo que está acontecendo agora é em função de pressões nacional e internacional, de reportagens investigativas e de familiares dos desaparecidos’.

“Entre esses familiares – lembra a ex-combatente – existem mães como a de Dinaelza Santana Coqueiro, com quase 90 anos, que não quer morrer antes de enterrar sua filha”. Tantas décadas depois, a mesma integridade nas palavras e ações de Luzia, a moça generosa dos olhos firmes de Jequié, mostrada no antigo retrato de O Globo.

Que bom revê-la assim!

Vitor Hugo Soares é jornalista.
E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

jul
17
Posted on 17-07-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos, Multimídia) by vitor on 17-07-2009


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CRÔNICA/ MÚSICA

COISAS DE MENINAS REBELDES

Cida Torneros

O pequeno disco de vinil, compacto simples, era como o chamavam, rodava manso sobre a vitrolinha portátil num quarto de meninas, em Copacabana, devia ser 1969 ou 70, e a música melodiosa e triste era sussurrada pelas vozes de três jovenzinhas rebeldes, eu e minhas duas primas. A música que nos embalou, variava de gosto e estilo, mas nas horas de desilusão, minha prima Regina, que faleceu há pouco tempo, aos 53 anos, sapecava a voz do Antonio Marcos, cantando “eu hoje estou tão triste, eu precisava tanto conversar com Deus”.

Tínhamos entre 17 ou 19 anos, nos vestíamos para sair na noite, escondidas, é claro, esperando que meus padrinhos, pais delas, pegassem no sono. Queríamos ir a alguma “boite”, com vestidos de mini saia, sapatos salto agulha, bem perto, na Fernando Mendes,onde, nos deslumbrávamos como os artistas que iam dar canja, e nossa bebida de praxe era mesmo a cuba libre. O que queríamos mesmo era aprender a amar.

Tínhamos a meninice brejeira, a pele bronzeada pela frequencia habitual às areias de Copa, o encantamento pela novidade, a sensação da transgressão, e, ao mesmo tempo, o medo de alguma aventura mais arrojada, nada fazíamos a não ser trocar beijinhos com namoradinhos tão jovens quanto nós, e corríamos pra casa, onde entrávamos, com os sapatos na mão, rezando para que a Lady,cadelinha de estimação não desse nem um latido, denunciando nossa chegada no apê, onde ainda viraríamos o resto da madrugada, fofocando sobre pequenos delitos, ou fumando um cigarrinho comum, cujo cheiro íamos disfarçar com perfume em spray.

O disco ia chegando ao final, a tecnologia era mesmo manual, e uma das tres esticava o dedinho para que a agulha voltasse ao princípio da música, e lá íamos nós, envolvidas pelo questionamento sobre a tristeza que começávamos a descobrir ser tão comum nos amores desfeitos pela traição, quando pegávamos as mentiras mal contadas dos tais namoradinhos aprendizes de conviver as emoções da ternura e do prazer. Havia também o fato de que muitas vezes nos entusiasmávos por homens que não nos davam bola por acharem que éramos bobinhas demais e não tínhamos a malicia necessária para um “verdadeiro affair”.

A canção do jovem autor, entre muitas outras, era sucesso, e, ao mesmo tempo, era um libelo inocente para o futuro que teríamos que enfrentar. Ele mesmo, que foi prisioneiro do alcoolismo e morreu em consequencia disso, nos transmitiu, além do talento, uma amargura suficiente para que nos identificássemos com uma das mais cruéis rotinas dos relacionamentos, seus finais dolorosos, as decepções amorosas, os finais onde um dos parceiros teria mesmo que chorar. Então, nos diálogos das três, quantas ocasiões não nos perguntamos: Então o amor era isso? Traiçoes, desilusões e sofrimentos?

Acho que foi nessa época que aprendemos também a saber chorar pelos amores perdidos, pelos amores sonhados, pelos amores mal sucedidos, sem entretanto termos desistido de voltar a buscar qualque tipo de amor, pelo resto de nossas vidas.

Já se passaram quase 40 anos, e hoje, ao ouvir a tal interpretação do saudoso cantor, me vi, exatamente como aquela menina-moça ( como éramos chamadas), sentindo um frio na alma, um aperto no peito, a saudade da esperança daqueles dias de juventude, o cansaço de tantas tentativas de encontrar amor sincero, e aí, desabei num pranto sofrido, doído, inteiramente descontrolado, resgatando um momento que dentro de mim, se repete, como um presságio.

A vida rolou, e ainda rola, Regina deixou filhos adultos e sua irmã Lena hoje é viúva com filhos e netos, ainda trabalha e gosta de dançar. Pouco nos vemos, mas quando nos encontramos, é possivel relembrar as artimanhas quase infantis que ousamos viver, como por exemplo, fugir num fusca de algum amigo para tomar sol na Barra, que era um deserto e o fim do mundo, mas nos dava a dimensão de que esse mesmo mundo cresceria mais. Ainda iríamos ultrapassar fronteiras maiores e nos aventurarmos em caronas de avião indo buscar o amor em lugares e países distantes. Talvez o amor seja mesmo essa coisa impossível, na concepção da tal felicidade fantasiosa, e nem adianta fugirmos para praias desertas ou cidades apinhadas, porque onde houver um coração humano sedento de paixão, sempre haverá a possibilidade de amar alguém que nunca soube o que é o amor, como revela a letra da tal musiquinha.

Vou esticar o dedinho e desta vez, já não existe mais o vinilzinho pequeno, nem gira melancolicamente na noite da minha saudade, mas posso teclar no yutube, ouvir muitas vezes a voz dos meus 18 anos, e, aos 60, ainda vou chorar mais um pouquinho por que o tempo não apagou minha tristeza diante de amores desfeitos, de amores que não me deram diploma, por ser ainda uma aluna que não aprendeu direito como amar e ser aprovada com a medalha da felicidade.

Cida Torneros , jornalista e escritora, autora do livro “A Mulher Necessária”, mora no Rio de Janeiro.

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