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OPINIÃO POLÍTICA

Um povo envenenado

Ivan de Carvalho

Nos Estados Unidos, o povo está envenenado pela alimentação fast-food, que surgiu com o objetivo de ser uma comida rápida, mas atualmente já é por muitos degustada com toda a calma e em quantidades ilimitadas. Daí que, por causa disto, da grande quantidade de refrigerantes que ingere (frequentemente puxados pela alimentação fast-food), o norte-americano é o povo mais obeso do planeta.

Nos EUA, a obesidade tornou-se uma avassaladora epidemia, uma doença-mãe geradora de várias outras e responsável pela queda na qualidade de vida de muita gente, grande parte desta com alto padrão econômico. No Brasil, nós que sempre fomos afeitos a assimilar culturas alheias, estamos no limiar de uma epidemia de obesidade semelhante à americana.

Aderimos amplamente ao fast-food e vale notar que as crianças e adolescentes lideram a marcha para essa alimentação, os hamburgers, chesburgers, hot-dogs e afins, complementados pela contribuição italiana das pizzas, que leva a resultados parecidos, embora não iguais.

Assim, do veneno que eles, norte-americanos, comeram, estamos nós, brasileiros, cada vez mais comendo. Como se isto não bastasse, estamos acrescentando ao veneno fast-food (vamos chamá-lo assim, para simplificar) outro tipo de veneno que não é encontrado apenas nessa espécie de alimentação, mas em muitas outras que, de outro modo, poderiam ser consideradas saudáveis.

O Brasil tem menos de 200 milhões de habitantes. Estamos aí na casa dos 190 milhões. Os Estados Unidos passaram dos 300 milhões, aproximam-se dos 310 milhões. E, na média, um americano come mais, por dia, do que um brasileiro. É verdade que eles exportam grande quantidade do alimento que produzem, mas também é verdade que nós, brasileiros, também fazemos isso.

Dentro desta conjuntura, é razoável que os americanos usem mais agrotóxicos (que a linguagem comercialmente correta chamaria de defensivos agrícolas), em termos absolutos, do que os brasileiros. E que o lucro desse comércio de agrotóxicos seja bem maior lá do que aqui.

Mas parece que o nosso país tem mania de grandeza. Quer ultrapassar o vizinho do norte. De acordo com reportagem distribuída pela Agência Pulsar, “o Brasil deve ultrapassar os EUA na arrecadação com vendas de defensivos agrícolas”. A estimativa é de que haverá um crescimento de 10 por cento no mercado brasileiro de agrotóxicos, com vendas no valor aproximado de R$ 12,4 bilhões.

Mas anotem. Segundo estudo elaborado pela consultoria alemã Kleffmann, o consumo de agrotóxicos pelos produtores americanos teve uma queda de seis por cento entre 2004 e 2009. No Brasil, no mesmo período, houve um crescimento de 1,5 por cento. O que, feitas as contas, dá uma diferença de 7,5 por cento a favor da saúde dos americanos. É claro que nem todos os agrotóxicos, aqui ou nos EUA, são usados em lavouras de comestíveis. No Brasil, por exemplo, o uso desses venenos se concentra muito na soja, comestível, com 44 por cento, e no algodão, com 11 por cento (depois podemos plantar feijão na terra envenenada onde esteve o algodão com agrotóxicos).

Mas agora saímos do território do erro para ingressar no da irresponsabilidade e no crime consciente contra a saúde pública.

O Brasil é o principal destino de agrotóxicos proibidos no exterior. De acordo com dados da ONU, diz a Agência Pulsar, pelo menos dez variedades vendidas livremente aos agricultores brasileiros não são mais usadas na Europa e nos Estados Unidos.

Mas isso não deve deixar ninguém surpreso. Todo mundo que quis saber já sabe que o Bisfenol A é uma substância cancerígena. Ela é usada, no Brasil, nas latas de refrigerantes e cervejas e nas garrafas plásticas tipo pet. Em outros países, a exemplo dos Estados Unidos e dos países europeus, já foi proibida. No Brasil continua permitida. Explicação extremamente fajuta e inaceitável dessa incrível Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária): não podemos proibir sem mais aquela porque os acordos do Mercosul nos impedem fazer isso sem que haja um consenso.

E fiquem de câncer os brasileiros à espera do consenso que um dia virá para, talvez, curá-los.


Uma das paisagens urbanas mais famosas do Brasil, o Pelourinho, em Salvador (BA), pode ganhar um palco milionário para shows; opositores do projeto veem risco de mutilação do centro antigo/TM
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CLAUDIO LEAL

O Ministério Público Federal (MPF) da Bahia vai investigar o projeto de um “palco articulado” milionário no Pelourinho, no centro histórico de Salvador, a partir da denúncia feita pelo ex-diretor regional do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) Fernando da Rocha Peres, em entrevista publicada por Terra Magazine. Peres expôs o risco do projeto para o conjunto arquitetônico considerado patrimônio da humanidade pela Unesco.

Nesta quinta-feira (28), o caso foi distribuído para a procuradora Bartira de Araújo Góes, no ofício de meio ambiente e cultura. No final da tarde, ela decidiu abrir um procedimento administrativo e, como primeira iniciativa, pedir informações ao Iphan.

Em 19 de julho, o Diário Oficial da União abriu a licitação do palco – projetado em formato de gaveta -, de autoria do arquiteto Pasqualino Magnavita, com valor de R$ 4.719.649,93 e avalizado pelo Ipac (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural).

O chefe de gabinete do Iphan na Bahia, Mateus Morbeck, diz que o órgão fez pequenas exigências ao projeto, aprovado em sua versão prévia. O Escritório Técnico (Etelf), composto por representantes do Iphan, da Prefeitura de Salvador e do governo do Estado, avaliará a formatação final da obra.

“O estudo preliminar foi aprovado. O Iphan fez as avaliações e foram feitas algumas exigências que estão sendo cumpridas. Conceitualmente, o Iphan não tem o que se opor”, diz Morbeck. Procurado por Terra Magazine, o superintendente regional do órgão de proteção ao patrimônio, Carlos Amorim, não concedeu entrevista.

Na quinta-feira, 21 de julho, a assessoria do Ipac afirmou que as obras tinham a aprovação do Iphan. O diretor do organismo estadual, Frederico Mendonça, também evitou dar entrevista. Esperava-se o pronunciamento em conjunto dos secretários de Turismo e de Cultura, além da chefia de gabinete do governador Jaques Wagner (PT). A coletiva estava prevista para esta semana. Em 2010, uma versão preliminar do projeto foi divulgada no YouTube e indicava a construção de um prédio moderno em meio às construções seculares.

Projeção do palco no Pelourinho, divulgada em 2010 pelo governo da Bahia

“Gavetão”

Reformado no governo de Antonio Carlos Magalhães, na década de 1990, o Pelourinho vive uma crise de violência, crescimento do crack e decadência do comércio. O governo de Jaques Wagner criou um escritório para conduzir as intervenções no centro da primeira capital do Brasil. Até agora, a iniciativa de maior vulto é o projeto milionário do palco “gavetão”, projetado para abrigar shows e espetáculos no Largo do Pelourinho, onde estão a Igreja do Rosário dos Pretos e a Fundação Casa de Jorge Amado.

Especialista em patrimônio e professor emérito da Universidade Federal da Bahia, Fernando da Rocha Peres se indigna com o risco de mutilação de uma das mais importantes paisagens urbanas do País. “A vibração é tão intensa que vai detonar o casario e a igreja. Esse palco é para iludir a população, mais uma vez, com festas populares”, ataca. Peres critica o comportamento dos jornais baianos, que se omitem na polêmica sobre o Pelourinho. “Os jornais locais preferem ignorar esse assunto”, lamenta. Ele afirma que o palco agravará a “destruição da velha Salvador”.

Numa reunião na Academia de Letras da Bahia, o abade do Mosteiro de São Bento, Dom Emanuel D’Able, relatou que os beneditinos retiram as obras-de-arte do museu, na semana do Carnaval, para evitar a destruição das peças durante a passagem dos trios elétricos, no circuito da avenida Sete de Setembro. Os críticos do palco milionário evocam essa ameaça ao Pelourinho e questionam a prioridade da obra, pois o processo de arruinamento se acelerou em centenas de casarões da cidade histórica.

Decoração

A montagem da nova sede nacional do Iphan, no Edifício Lucio Costa, em Brasília, expôs outro foco de polêmica na Bahia, apesar de desmentidos do instituto. Terra Magazine apurou que uma parte do mobiliário da Casa dos Sete Candeeiros, um palacete do século XVIII, em Salvador, foi preparada para ser conduzida à sede nacional. O Iphan da Bahia, responsável pela guarda dos móveis e da imaginária do prédio, onde funciona o setor de restauração e arqueologia, negou ter definido o envio das peças, mas admitiu a existência de uma demanda.

A assessoria de comunicação do Iphan, na capital federal, desmente a existência do pedido de transferência e de qualquer documento. O presidente do instituto, Luiz Fernando de Almeida, teria conduzido apenas “uma conversa quase que informal” com superintendências estaduais, para averiguar a “representatividade” das peças históricas de diversas regiões do País, com levantamentos fotográficos.

“Tomei até um susto. A gente não tem conhecimento dessa transferência do mobiliário. Recebemos uma consulta da presidência do Iphan, que está montando a nova sede em Brasília. Eles estão consultando o Brasil todo, para que a nova sede do Iphan tenha peças que sejam representativas de todo o patrimônio cultural do Brasil. Mas ainda não foram definidas quais peças serão”, garante Mateus Morbeck, o chefe de gabinete do Iphan-BA.

Segundo o técnico, não é “verídico” que os móveis estejam embalados. “Não foi fechado que material vai, quanto tempo vai ficar. Por isso, achei estranha essa informação de que estejam embalados pra levar. Me causa surpresa”, acrescenta Morbeck.

O historiador Fernando da Rocha Peres identifica uma ameaça ao patrimônio baiano nas movimentações do Iphan. “É estranho porque, anteriormente, isso seria inconcebível. Nem no período da ditadura militar aconteceu algo desta natureza. Quando ocorria a saída de uma peça, era por empréstimo, por pouco tempo. Uma ou duas peças para uma eventual exposição. Se as peças, que vão sair da Bahia, são para decorar a nova sede do Iphan em Brasília, me parece estranho e indevido, porque vão retirar objetos que pertencem à cultura e à história da Bahia. Isso pode significar, quem sabe, até um desaparecimento desses objetos, como tem acontecido. É inadmissível que este governo federal, que se diz tão sério e correto, permita uma coisa desta natureza”, Peres contesta.
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Projeto do Gavetão do Pelô/Img.TM

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Leitores e ouvintes do Bahia em Pauta:

Desculpem a ausência do editor do BP de suas funções esta tarde de quinta-feira, mas posso garantir que a parada foi por motivo justo e razões de sentimentos impossíveis de fugir, ainda mais tratando-se de românticos à moda antiga.

Bem, este é o nariz de cera do jargão jornalístico. O fato é que depois do almoço liguei a TV exatamente no momento em que o canal privado Cult começava a representar um dos meus filmes mais apreciados desde sempre: “Os Yankees estão Chegando” (Soldier), co-produção anglo-americana, dirigida por John Schelsinger, com super elenco de notáveis atores e atrizes dos dois países, a exemplo de Vanessa Redgraves e que marca o início da carreira de Richard Gere.

O tema é simples assim: Durante a Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos estabeleceram bases militares na Grã-Bretanha como parte do esforço de guerra. Muitos britânicos não gostaram muito da chegada dos ianques impetuosos em seu território, mesmo como aliados, especialmente quando os soldados faziam avanços sobre as “meninas solitárias” da Grã Bretanha, algumas cujos namorados também estavam longe,combatendo.

Bem, mais não conto para não estragar o prazer de quem ainda não viu este belissimo filme e pode fazê-lo. Se achar uma cópia em boa locadora, não perca. Este editor recomenda, fervorosamente!

A trilha sonora é uma maravilha à parte. Para provar, aí vão duas versões da música-tema “I’ll Be Seeing You”: uma original do filme, com a orquestra de Tommy Dorsey e Frank Sinatra como crooner. A outra, com letra, interpretada pela insuperável Billie Holiday. Confira.

(Vitor Hugo Soares)


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BOM DIA!!!

João Durval: batalha em Feira de Santana

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OPINIÃO POLÍTICA

Durval e a sucessão em Feira

Ivan de Carvalho

O prefeito de Feira de Santana, Tarcízio Pimenta – eleito pelo Democratas, cujo líder mais popular no município é o ex-prefeito José Ronaldo, cujo apoio foi decisivo para que Pimenta chegasse, e com facilidade, ao seu atual cargo – quer repetir o mandato.

Ocorre que José Ronaldo pretende disputar a prefeitura nas eleições do ano que vem e ele tem o controle do Democratas, que não pode ter dois candidatos a prefeito. Como Tarcízio não se conforma em devolver o cargo a José Ronaldo, salvo se por eventual e bem possível imposição do eleitorado, ele precisa sair do DEM.

Então, para onde ir? Tarcízio sempre foi políticamente ambicioso e ousado, estas são duas qualidades que ninguém lhe pode negar. Atua como sugere seu nome, pimenta. Assim, decidiu futucar o cão com vara curta. Ou, numa linguagem mais amena, decidiu ingressar no PDT, exatamente o partido ao qual está filiado o senador João Durval, cuja origem e grande parte da história política estão sediadas em Feira de Santana.

O senador, embora já em idade avançada e provavelmente sem planos de disputar futuras eleições, não estará feliz com a circunstância de cair de pára-quedas na seção municipal feirense de sua legenda uma liderança que com toda a certeza vai dividir com a dele a influência na sessão municipal e, mais do que isto, acabará influindo mais.
Outro motivo de irritação do senador João Durval deve estar ligado aos planos políticos do filho e deputado federal Sérgio Carneiro, do PT. Sérgio admite que, se as circunstâncias forem favoráveis, seu nome estará aí à disposição para candidato a prefeito de Feira. Acontece que o PT tem um outro nome em campo, o do deputado estadual Zé Neto, líder do governo na Assembléia Legislativa.

Mas a eventual candidatura de Sérgio Carneiro a prefeito talvez seja apenas uma estratégia. O plano para valer seria o de ser indicado pela bancada federal do PT para ministro do Tribunal de Contas da União, para o que currículo e méritos não lhe faltam. Se ele quer isso, alguma movimentação em torno de uma eventual candidatura a prefeito de Feira pode ter algum peso a favor do verdadeiro objetivo – abrir mão do objetivo eleitoral para ganhar apoios à pretensão de ir para o TCU.
Nesse caso, a irritação do senador com a maneira como o ingresso de Tarcízio Pimenta no PDT foi tratado, sem que ele, senador, fosse consultado ou tivesse suas opiniões levadas em conta, pode ter algo a ver com os planos do filho Sérgio. Algo, mas não tudo.

É evidente que, como ex-prefeito de Feira de Santana duas vezes, ex-governador, um dos três senadores pela Bahia – como os outros dois, integrado à base do governo Jaques Wagner –, João Durval, com a forte simpatia de que ainda desfruta junto ao eleitorado de toda a região do sisal e de boa parte dos funcionários públicos da Bahia, considera-se com direito a influir nas decisões de seu partido, o PDT, bem como a ser tratado com deferência.

Pelo conteúdo e termos da extremamente incômoda nota que emitiu ontem, não lhe foram dados, na sua opinião, nem o direito nem a deferência. Quanto à saída a curto ou médio prazo do PDT, não pode, ainda que queira, sob pena de perda do mandato de senador, do qual ainda tem pela frente três anos e meio. A não ser que o partido se comprometa formalmente, por documento irretratável, a não reivindicar judicialmente sua cadeira. Mas não há este compromisso.

jul
28
Posted on 28-07-2011
Filed Under (Artigos) by vitor on 28-07-2011


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Simanca, hoje, no jornal A Tarde (BA)

jul
27

Amy: liberta do circo

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CRÔNICA / AMY

O que eu gostaria de dizer sobre a rainha de Camden

Laura Tonhá

Queridos leitores do Bahia em Pauta, estou desde domingo com um nó na garganta pela morte de Amy, desde então tento traduzir em palavras o que ela significou e significa para mim, mas ainda não tinha conseguido chegar no cerne da questão.

Aparentemente eu adorava a genial cantora e não poderia ser diferente. Além de considerá-la a mais autêntica e talentosa artista da atualidade, morei em Londres em 2007 – ano que Amy se tornou um sucesso mundial. Seu rosto estampava freqüentemente os tablóides ingleses e eu me acostumei a cruzar com a exótica artista nas ruas de Camden, sempre cheia de estilo: sapatilhas de bailarina, muita maquiagem, cabelo arrumado em seu topete, caminhando no famoso bairro alternativo, acompanhada de seu marido: Blake. Acho que ela estava no auge: feliz, apaixonada, seu álbum lançado no ano anterior (2006) – Back to Black – estourado, ela se tornava um sucesso mundial. Eu estava vivendo a vida em uma das cidades mais fascinantes do mundo e todos ouvíamos a diva local. Desconfio que apenas Londres poderia ter “produzido” Amy Winehouse.

Desde então, acompanho como fã as notícias sobre ela: a tumultuada relação com Blake – começaram a namorar em 2005, em 2007 se casaram, em 2009 se divorciaram, em 2010 se reconciliaram e prometeram que iam se casar novamente, romperam novamente; mais recentemente o novo namorado “almofadinha” Reg Travis que não estava com ela nos últimos meses porque, de acordo com ele, ela continuava a beber (faça-me o favor…) ainda mais recente, agora em julho as notícias de que ela ligava de madrugada desesperada para Blake, que por sinal está para ser pai de um filho com outra mulher (isso deve ter sido duro para Amy, o sonho dela era ser mãe). Além disso, reabilitações, prisões, drogas, brigas em família etc. Ainda assim, aguardávamos o próximo álbum, o retorno da diva.

Pois bem, com a notícia da morte da cantora, fiquei com isso tudo na cabeça, o talento absurdo, as drogas, a vida louca, a paixão por Blake, tudo foi Amy, mas ela foi muito mais. O nó continuava.

Felizmente, lendo Guilherme Fiuza, em sua coluna semanal, entendo o que eu já sabia, mas não tinha tido o insight. Amy, veio ao mundo para bagunçar a fronteira entre o bem e o mal, o certo e o errado. A voz sublime, das mais belas que o mundo já ouviu, em contraste com a vida sem limites. Deus e o diabo são uma coisa só. Os olhos míopes não conseguiram enxerga-lá. O senso comum tornou a mais conhecida pelos escândalos do que pelo talento e ela seguiu dando comida aos abutres: destruição e canções maravilhosamente desconcertantes.

Como uma “atração no zoológico”, tornou-se um prato cheio para imprensa sensacionalista. Em sua vinda ao Brasil muito mais se falou do seu seio de fora do que do seu talento. Brinde à miopia.

Amy era pura arte, do estilo, a música, aos trejeitos pouco lhe foi feito justiça, sobre isso Fiuza comenta:

“frequentemente, Amy era descrita como uma mulher desajeitada, que não sabia o que fazer com o próprio corpo em cima de um palco. Outro brinde à miopia. Poucas cantoras tiveram tanto estilo em cena. O charme de Amy só era visível aos olhos nus – aqueles não adestrados para enxergar na cantora uma caricatura humana. Aos demais, restava esperar pelo clímax de um gole a mais e um tombo no palco. Mórbido clímax.”

O jornalista em suas conclusões faz o arremate final:

“Amy Winehouse tinha Deus e o diabo dentro de si. A prova está em cada instante da intérprete potente, possessa, possuída. Em cada melodia magistral com que enchia de doçura um verso amargo. O senso comum não gosta de ver Deus e o diabo em comunhão.

Eleita para o lugar da estranha (aquela que serve para os outros se sentirem normais), Amy foi ficando a sós com seus conflitos – que eram letais, como ela própria inscreveu em sua obra. Dissolveu-se ao vivo.

Agora o público do circo está a sós com sua curiosidade mórbida. Deus deu a Amy a libertação. O diabo lhe deu a vingança.”

A matéria completa de Guilherme Fiuza esta no site da Época.

Com o meu nó desfeito e feliz por entender Amy liberta do circo, permaneço com a alegria de ser fã inconteste da sublime cantora, feliz e grata por saber que ela será para sempre trilha sonora do meu período londrino. Feliz pelos momentos vividos na Camden de Amy, que eu apresentei com tanto entusiasmo para pais, irmã, tios e amigos que me visitaram. Grata a Fiuza que desfez meu nó e a Tia Margarida que, com seus dons premonitórios, me brindou há 2 semanas atrás com uma boa dose de Amy e bom vinho em sua casa.

Sem Amy sigamos atentos ao circo.

Laura Tonhá, publicitária baiana, fundadora e diretora-executiva do Bahia em Pauta, está de férias em São Paulo, onde produziu o texto publicado no BP


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CAPINAN:ENCONTRO NO SHOPPING

Vitor Hugo Soares

Junto com o vídeo que o Bahia em Pauta divulga acima, o comentário postado por moisessilvabastos em 11/05/2011, no You Tube, sobre o poeta e compositor José Carlos Capinan. Vai reproduzdo na íntegra, pois diz quase tudo em poucas palavras:

“Ele tem um manancial de letras de sucesso imenso. Parcerias com muita gente famosa mas ele mesmo é pouco conhecido. Vamos fazer justiça e divulgar esse monstro sagrado que, por sua própria modéstia, permanece quietinho”.

Ponto.

Agora um exemplo ainda mais recente dessa verdade:

Sábado passado, em loja de eletrônicos de um dos mais movimentados shoppings de Salvador, enquanto Margarida conclui uma compra, vejo-o passar e parar bem ao meu lado.

Com a simplicidade tímida de sempre e a paciência de qualquer cliente anônimo, ele também espera para pagar uma compra. Inseguro pelo reencontro do querido amigo e companheiro de outras batalhas, admiração de sempre, peço baixinho a confirmação de Margarida, que responde na lata:”É ele, sim”

Então eu grito, para espanto geral, a começar do próprio:

-E aí, velho Capim, quanto tempo! Como vai?.

Então vem o abraço forte, a conversa rápida no meio da confusão, o pedido e anotação do novo número do celular, a promessa de conversa mais longa, a despedida até mais ver…

E o poeta Jose Carlos Capinan segura na mão da netinha que o acompanha, orgulhosa de suas bonitas e berm cuidadas tranças de estilo afro, e sai, simples e modestamente como entrou.

Fica o olhar espantado do vendedor, sem entender a cena. Antes de matar a sua curiosidade, pergunto: “Você já ouviu falar em Capinan?”. E o rapaz:”Não senhor”.

“Soy loco por ti, América”, você já ouviu?”. O rapaz sorri e balança a cabeça afirmativamente. “E Papel Maché, sabe de quem é?”. Ele vacila e eu canto alto dentro da loja uma palinha da linda canção. Aí o jovem vendedor de computadores de última geração vai em frente:

“Vida é fazer, todo sonho brilhar, ser feliz”…

Grande Capim!!!

(Vitor Hugo Soares, editor)

jul
27


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OPINIÃO POLÍTICA

Das coisas estranhas

Ivan de Carvalho

Há coisas aparentemente inexplicáveis ou estranhas. Talvez cavando fundo, pesquisando, estudando, elas acabem se tornando explicáveis ou perdendo a configuração estranha. Mas isso leva tempo. Quem estiver pensando que vou escrever sobre o quase certamente fajuto disco voador de Embu das Artes, errou.

Estranha, muito estranha, é por exemplo a quase invisível reação, o ensurdecedor silêncio do imenso segmento cristão da população brasileira – incluindo as instituições cristãs – à diatribe do ex-presidente Lula, alvejando as várias coisas que Jesus Cristo disse sobre os pobres. Parecem quase todos dispostos a deixar Jesus responder sozinho.

Como se recorda, Lula afirmou a um auditório de cerca de mil pequenos agricultores e com ampla cobertura midiática, que “inventaram” essas coisas que os Evangelhos atribuem, na Bíblia, a Jesus, sobre os pobres. Bem, mudemos de assunto, creio que já fiz a minha parte, é a segunda vez que abordo o tema. Se houver necessidade, faço mais.

Uma das coisas em curso no Brasil, mais inexplicáveis a curtíssimo prazo, é a declarada disposição do governo federal de fazer uma completa faxina no Ministério dos Transportes, inclusive do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, DNIT, que conforme Jorge Hage, o correto ministro da Controladoria Geral da República (órgão do Executivo), “tem o DNA da corrupção”.

Ora, faxina rigorosa no Ministério dos Transportes, determinada pela presidente Dilma Rousseff e executada não com muita, mas com aceitável rapidez. Mas já houve recentemente duas faxinas seletivas (porque realmente cabia que fossem seletivas) na Casa Civil da Presidência da República. Uma delas, ainda no final do governo Lula, pôs para fora da Casa a então ministra-chefe e ex-secretária executiva (para ambos os cargos escolhida por Dilma Rousseff) Erenice Guerra.

Agora, parece que a faxina terá que ser ampliada para a ANP – Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Existe a presunção, principalmente depois da reportagem da revista Época sob o título Agência Nacional da Propina, que a presidente vai determinar uma investida dos faxineiros na ANP.

Se dependesse do tucano José Serra, que foi o principal adversário de Dilma nas eleições presidenciais, a presidente mandaria outra e bem disposta turma da faxina à Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, responsável pela licença para uso dos medicamentos no Brasil e também pela vigilância do setor de alimentos, entre outras importantes funções. Daí se pode inferir o imenso poder dessa agência federal.

Pois Serra afirmou que quando era ministro da Saúde (a Anvisa é uma agência autônoma, mas tem vinculação com o Ministério da Saúde) os processos de liberação dos medicamentos genéricos demoravam seis meses, do começo ao fim. Esse período passou a “doze e até dezoito meses”, disse Serra na campanha eleitoral, concluindo: “Criam dificuldades para vender facilidades”. Um ataque severo, feito de público, gravado e exibido, com áudio e imagem, por emissoras de televisão e registrado nos jornais. Isso obrigaria o governo a interpelar José Serra, política e judicialmente, para que se explique e, podendo, ofereça prova do que disse.

Mas o governo federal fez ouvidos de mercador. Estará com medo de Serra ou talvez convencido que só “o DNIT tem o DNA da corrupção”, que a Anvisa está imune ao contágio, bem como todos os ministérios que não estão sob controle do PR.

Fico me perguntando: nessa lambança toda, o PR é a ovelha negra ou o bode expiatório, um bode culpado, mas, ainda assim, apenas um bode expiatório? Ou talvez não seja bode, mas boi de piranha.

Ilustração: Gilson Migué

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CRÔNICA / CINEREALIDADE

FICHA LIMPA

Gilson Nogueira

Acabo de ler mais uma crônica de Arnaldo Jabor, um dos gênios do cinema brasileiro, que tem em Glauber Rocha seu principal autor. Jabor é nome sonoro, lembra aquelas badaladas, digamos, escuras, emocionantes, boooommm, boooommm, booommmmmmm, que precediam o começo do filme principal na tela branca da sala de projeção do Cinema Guarani da minha mocidade, na Praça Castro Alves, em Salvador, Bahia, Brasil.

Brasil varonil, cuja sonoridade neologística-silibal-final rima, agora, com o palavrão que seu povo parece estar ensaiando para mandar, de uma só vez, do meio da rua, aos políticos corruptos que destroem a imagem do país aos olhos da sua população e do mundo.

Glauber, como Jabor, é um nome sonoro e que, também, emociona. Glauber sugere suspense, algo, assim, como aquele toque de caixa ligeiro à entrada em cena de um trapezista maior em uma grande tarde de domingo de circo grande. Lembra, ainda, Glauber, acho eu, som gutural, desses que dão balão na língua de poeta ou de clarim anunciando, e conclamando, aplauso a eleitos e eleitas adentrando ao palco do teatro das ilusões concretizadas, como, por exemplo, o Brasil sério que todos os brasileiros almejam.

Baixo o pano da lembrança de Jabor e Glauber, dispo-me das fantasias que estimulavam idéias e recordações, para, de repente, encontrar-me em um túnel escuro, fétido, com ventilação precária, úmido e frio, onde ouço ecoar a voz da realidade a dizer-me: “ E aê, gente boa, sabe a lâmpada que, aqui, existia, e a sua função de acender-se, automaticamente, à possibilidade de uma salvação para este país? Pois é, já era! Roubaram a lâmpada, a única, disponível! Não há mais jeito a dar.”

“ Mas, e agora, como fazer, diante do caos que se anuncia, do apocalipse político que está por vir, com essa bandidagem tomando conta da nossa república?!

“ Sei não, amigo, sei não, acho que o melhor que os que estão com esperança em ver o Brasil progredir no quesito da moralidade na política deveriam fazer é não votar em quem não tenha ficha limpa. Se virem, rápido!”

“Falou, amiga, é isso aí, é isso aí!!! “
Gilson Nogueira é jornalista

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