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Posted on 11-07-2009
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 11-07-2009

Protógenes na Bahia: andar com fé
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ARTIGO DA SEMANA

SANTOS FORTES DO DELEGADO PROTÓGENES

Vitor Hugo Soares

No Dois de Julho o delegado da Polícia Federal, Protógenes Queiroz, foi a sensação do grande desfile cívico e popular realizado em Salvador, na data magna da Bahia. Ele deixou no chinelo o governador Jaques Wagner (PT), o ministro Geddel Vieira Lima (PMDB), prefeito João Henrique (PMDB) e o ex-governador carlista Paulo Souto(DEM), entre outros políticos renomados da terra – do governo e da oposição.

Protógenes percorreu quilômetros a pé sob aplausos e gestos efusivos da multidão nas ruas e das famílias nas sacadas dos casarões históricos durante o cortejo aos heróis simbólicos da batalha da independência nos cerros de Pirajá, em 1823. A consagração veio no Pelourinho, onde o delegado recebeu, de joelhos, a saudação dos integrantes do Olodum, que tocaram tambores para ele em formação especial, algo raro de ver.

Desde então é difícil encontrar no País alguém mais contente que Protógenes. Ele próprio atribui esse estado de felicidade pessoal a motivos de fé: religiosa, moral e cívica. O homem que há um ano conduziu a Operação Satiagraha e prendeu, entre outros, o conterrâneo Dantas Dantas – banqueiro-mor do Grupo Opoortunity – é católico praticante, devoto de São Bento e do Senhor do Bonfim, cujas medidas não tira do braço por nada.

Sincrético, nascido no seio de família com um pé nas sacristias e outro nos terreiros, Protogenes foi recebido também em um dos templos mais sagrados do candomblé de sua terra. Ali teve a confirmação de que é protegido de Xangô, guerreiro poderoso do reino dos orixás que adora desafios.

Saiu da visita quase em estado de levitação, segundo testemunhas confiáveis. Esta seria uma das principais razões do atual estado de espírito e do moral elevado exibido por Protógenes ultimamente. Mas não é o único, podem apostar. Basta ler a entrevista do delegado na revista virtual Terra Magazine, postada na quarta-feira (8/7) na passagem do primeiro ano da Operação Satiagraha, para tirar essa conclusão.

O devastador evento político-policial que virou o país de cabeça para baixo segue emblemático em seus desdobramentos, como se vê pela denúncia criminal apresentada pelo Procurador da República Rodrigo de Grandis, na sexta-feira, 03, contra o banqueiro Daniel Dantas e mais 13 pessoas envolvidas. Eis aí causa mais concreta e explícita para explicar a euforia destes dias de Protógenes Queiroz.

Isso se revela a cada resposta do delegado à repórter Marcela Rocha, na conversa em que o delgado avalia os desdobramentos das investigações que ele conduziu na fase mais crucial, até ser abruta e injustificadamente afastado pelo novo comando da corporação a que pertence. Os motivos estão ainda submersos, mas provavelmente ainda virão à tona, como outras estranhas trasações (para dizer o mínimo) deste caso.

Os fatos mais recentes revelam que o filho de Xangô não só é bom de briga e sabe nadar bem, como parece ter a proteção atenta de santos e orixás poderosíssimos. Assim, no primeiro aniversário da Satiagraha, ele pode afirmar na TM, que não teria feito nada diferente do que fez. Para Protógenes a denúncia do procurador De Grandis, esta semana, não é diferente da primeira, como alguns afirmam. Ao contrário, confirma integralmente os crimes antes apontados por ele.

“Inclusive o procurador foi muito feliz ao requisitar, com urgência, a instauração de três novos procedimentos, em especial o da BrOi, que já era para ter sido instaurado no ano passado, porque eu requisitei que a PF prosseguisse, mas isso não foi feito. O MP, segundo o delegado, teve grande lucidez em razão das provas levantadas, que apontam a autoria de fraude e participação de várias pessoas no esquema da BrOi”, entre elas e advogado e ex-deputado petista, Luis Eduardo Greenhaalg e o advogado e ex-ministro Mangabeira Unger, que inesperadamente deixou o governo Lula e voou de volta para a sua cadeira mais tranqüila e segura,na Faculdade de Direito de Harvard.

Quanto ao fato de ter aberto um novo capítulo sobre a mídia na operação Satiagraha, o delegado também não se arrepender de nada. Ao contrário, afirma estar cada vez mais convencido de que a relação do banqueiro Daniel Dantas e do grupo dele com setores da mídia “é uma relação espúria e criminosa, como foi desde o início apontado na investigação. Foi mostrada a relação que ele (DD) tinha com determinados jornalistas… Entendo que tem que aprofundar essa questão”, conclui o delegado.

Neste domingo (12), à meia noite (que pena o horário tão tarde), na católica Rede Vida de Televisão, o feliz delegado Protógenes Queiroz dará entrevista também no programa de Kennedy Alencar. Mais “chumbo grosso” a caminho, pois munição o delegado não esconde que ainda tem de sobra Que o Senhor do Bonfim, São Bento e Xangô reforcem a guarda de seu protegido.

Ele precisa, e merece.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

jul
08
Posted on 08-07-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by Dimas Fonseca on 08-07-2009

UTI hospitalar
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CRÕNICA/COMPORTAMENTO

SADISMO OU PARANÓIA?

Dimas Fonseca

Tive que enfrentar esta semana um dos meus maiores medos: uma UTI – pois a idéia de ficar em uma UTI hospitalar é apavorante para quem sofre de “descontrolefobia”. Não se assustem com o palavrão que eu explico.

Ainda criança, por volta dos 12 anos, durante uma “brigadeira” (simulação da luta livre então na moda na TV) com meu saudoso irmão -quase gêmeo- Saulo, ao entrar em pânico por ser imobilizado com a cabeça embaixo da cama, descobri que tinha medo de lugares fechados, logo diagnosticado como claustrofobia por minha culta irmã mais velha.

Doença da qual me declarei livre um ano depois, após passar horas trancado na minúscula dispensa da casa, em um processo de exposição progressiva, somente para descobrir, anos mais tarde, que podia ficar dias trancado, desde que com a chave na mão, porém, um minuto sem a chave me levava ao pânico. Tanto faz ficar preso em um cubículo ou acorrentado a um poste no meio da rua, a falta de controle da situação me leva ao pânico. Batizei minha doença de “descontrolefobia”.

Após uma única noite de diarréia, vitima de um ROTAVIRUS que está passeando por Salvador neste inverno, tive uma violenta desidratação. Atendido na Emergência do Hospital Português, neste fim de semana, fui considerado candidato prioritário a uma vaga na UTI, na qual tive o desprazer de passar três noites. Estou escrevendo de um apartamento do hospital, me perguntando como sobrevivi em hospitalizações anteriores, sem notebook e internet móvel.

Nas duas primeiras noites estava muito debilitado para compreender minha situação, o que junto com a presteza do atendimento e gentileza da equipe médica / enfermagem, impediu minha fobia de se manifestar. Minha única queixa deste período foi a insônia causada pelos intermitentes apitos dos equipamentos.

Na terceira noite a coisa foi totalmente diferente: uma noite digna de qualquer filme de suspense e terror. Já plenamente consciente, comecei a ficar incomodado por depender de terceiros para urinar, e principalmente defecar (incluindo a limpeza posterior), o que infelizmente fazia em intervalos máximos de 2 a 3 horas.

Comecei a notar que “Everaldo”, atendente que entre outras coisas era responsável por meu leito nesta noite, era sádico (claro que mudei o nome, não vou crucificar um possível inocente), e aproveitava todas as chances de aumentar meu desconforto.

Após resistir o maior tempo possível (quanto menor a freqüência, mais cedo me liberariam da UTI, era meu pensamento), quando as cólicas estavam insuportáveis, pedia ao Everaldo para me colocar o famigerado APARADOR, neste momento, mesmo ele estando bem a minha frente precisava chamar duas a três vezes para ser ouvido, pedia-me para esperar um minuto, e até então desocupado, passava a andar de um lado para o outro, a meu ver sem fazer absolutamente nada, a não ser procurar uma desculpa para me fazer esperar.

Após mais dois ou três chamados e outro tantos “já estou indo”, colocava-me o aparador, e dizia para chamar quando acabasse. Após gastar a garganta em inúmeros chamados, lembrava-me que as equipes anteriores aguardavam do outro lado do anteparo que isolava meu leito, enquanto ele saía e ia aguardar meu chamado a distância segura (segura de que não ouviria). Somente após pavorosos minutos de dores na coluna (a posição deitado com o aparador não é confortável para ninguém, mas é terrível para quem sofre da coluna como eu), ele aparecia para tirar o aparador, e (para minha) humilhação suprema, limpar minha bunda.

Quando acabava este suplício, pedia para deixar o anteparo aberto, para que pudesse ver o relógio na parede em frente, única forma de controle que ainda tinha, da lenta passagem do tempo. Descobri que para me “sacanear”, assim que eu fechava os olhos por cinco minutos, ele fechava novamente o anteparo.

Depois de algumas apavorantes repetições, tentando chamar o Everaldo para me tirar o aparador, descobri que bater na grade, ao lado da maca, fazia barulho suficiente para ser ouvido em toda UTI, e o Everaldo chegou assustado, “para que isto, basta chamar meu nome que estou ao lado”, ao que respondi que chamava há meia-hora, e ele pediu para chamar um pouco mais alto, passamos a nos entender: sabíamos que se ele demorasse mais de um minuto para me atender toda a equipe da UTI ficaria sabendo quanto ele era ineficiente, e ele parou de me atormentar.

Paranóia ou sadismo: passei metade da noite na UTI sendo atormentado por um funcionário sádico ou passei a outra metade tiranizando um inocente e prestativo funcionário. Esta é uma dúvida que levarei para o túmulo, inocente ou culpado. Só Everaldo sabe a resposta.

Dimas Fonseca é auditor fiscal e faz parte da equipe de colaboradores do Bahia em Pauta. Email: dimas.fonseca@gmail.com

jul
07
Posted on 07-07-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais, Multimídia) by vitor on 07-07-2009


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O texto que o Bahia em Pauta publica a seguir nesta sua área de conteúdo principal, no dia do sepultamento de Michael Jackson, em Los Ângeles, saiu originalmente como simples comentario a uma crônica sobre a morte do megaastro do pop, assinada pela jornalista e escritora carioca Maria Aparecida Torneros, cidadã do mundo colaboradora de primeira hora deste BP.

É um texto saído das entranhas de um jovem, nascido na Califónia nos loucos anos 70, Pablo Nicholas Vallejos. Amante de Rock desde a infância, ainda atualmente costuma cruzar o seu enorme país de ponta a ponta, viajando de carro, ônibus e trem para assistir a todos os shows da temporada de uma banda, ou de um artista (como Michael Jackson ou os brasileiros do Sepultura), desde que ele efetivamente goste e ache que o sacrifício vale a pena.

Com o passar dos dias, ficou cada vez mais evidente para nós, que o texto de Pablo merecia mais luz e atenção. Pela simplicidade, pelo sentimento verdadeiro, pela pungência das recordações, mas também pela real qualidade de uma escrita densa, crítica, amarga as vezes, mas enxuta ao mesmo tempo, e que vai direto ao ponto: corações e mentes.

Decidimos que esta terça-feira, dia do enterro de Jackson, é a oportunidade que faltava para republicar o texto de Pablo Vallejos. É também a mensagem de despedida do Bahia em Pauta ao incomparável artista que partiu

Em tempo: a tradução do texto de Pablo, publicado originalmente em inglês, é de Laura Tonhá, outra jovem cidadã do mundo, e uma das razões de ser deste Bahia em Pauta.

(Vitor Hugo Soares, editor)

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Paris, a filha: lágrimas no adeus
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CRÔNICA/DESPEDIDA

CONTINUAMOS DANÇANDO

Pablo Nicholas Vallejos

“Os anos 80 foram os dias de rei do Michael, e uma visao apurada da década mostrará um tempo de maior simplicidade.

O jornalismo de celebridade ainda não tinha se transformado na pouco inteligente “caça ao peru” dos dias de hoje.

Rumores sobre as excentricidades de Jackson – chimpazé de estimação, camara de gás, homem dos ossos de elefante – eram espalhados jocosamente pelo próprio Jackson.

Durante este período, o pop estava em seu apogeu e Jackson seguramente era o Rei.

Não foi evidenciado o fato de que sua música era, sem nenhum esforço, progressiva: do disco pop duplo “Não pare até você conseguir o suficiente” para o rock pesado da guitarra de Eddie Van Halen (guitarrista holandes) em “Beat it = Cai fora” para a electro-gofh – gênero musical que combina diversos estilos de música eletrônica, com a atitude e o espírito do rock gótico – de “Thriller” – para o astro da musica Soul (musica afro-americana) de “Smooth Criminal” (canção do album “BAD” de 1987). Hoje cruzadas com o mais importante do gênero pop, essas musicas são facilmente percebidas como extremamente inovadoras para o seu período de tempo clássico.

Apesar de Jackson ainda produzir grandes musicas, videos e performances em shows na década de 90, Jackson nunca se recuperou completamente das acusações de molestar crianças em 1993. Ele se sentiu traído pelo público- seu público – e o crescimento da exposição, acelerava sua reclusão.

A musica mudou nos anos 90: o rock alternativo alterou as percepções do que era o pensamento geral sobre sucesso, e Gangsta Rap – termo cunhado pela mídia para descrever um certo gênero do rap, que tem por característica a descrição do dia-a-dia violento dos jovens de algumas cidades – oferecia criminalidade como entretenimento. Cultura em geral mudou, e nós, como consumidores, mudamos com isto.

Na época do segundo julgamento por molestação de crianças de Jackson, em 2005 – no qual o cantor foi inocentado – ele tinha começado a usar palavras de “brincadeira” para se defender, que causavam estranhamento. Ultra-saturados, simpatia em baixa, cínicos, nós fomos induzidos por sensacionalistas e não-provadas alegações. Não prestamos atenção na verdade. Nós queríamos a história dos tabloides, principalmente porque isto era o que todos ofereciam. Se nós dançávamos a sua música, isto era com uma piscada de olho irônica.

Mas nós continuamos dançando.”

Pablo Nicholas Vallejos

jul
06
Posted on 06-07-2009
Filed Under (Artigos, Claudio) by vitor on 06-07-2009

Lobo Antunes: feijoadas de Ubaldo
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O repórter Claudio Leal passou o fim de semana no Rio de Janeiro recolhendo pérolas entre os participantes (escritores e público) da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Generoso, como sempre, o jornalista baiano oferece algumas preciosidades aos leitores do Bahia em Pauta, a exemplo das recordações do escritor português, Antonio Lobo Antunes, das feijoadas que o baiano João Ubaldo preparava na cozinha, com pés descalços, nas frias madrugadas de Lisboa. Confira.

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Claudio Leal

PARATY-RJ – Na mesa mais elogiada da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), sábado (4/7), o escritor português António Lobo Antunes contou ao jornalista Humberto Werneck sua amizade com os baianos Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, depois de confessar admiração pelo poeta e cronista mineiro Paulo Mendes Campos.

Lobo Antunes guarda o sabor de uma temporada gastronômica “portuguesa” de Ubaldo. Quando residia em Portugal, o autor de “Sargento Getúlio” chamava o amigo para pernoitar uma feijoada. “Ele fazia a feijoada às duas horas da manhã, de chinelo, no inverno, como se estivesse no verão da Bahia…”. O prato era servido às 4h.

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O romancista português, que lançou recentemente “O Meu Nome é Legião”, lembrou outra boutade ubaldiana. João Ubaldo não escrevia nenhuma obra, em Portugal, mas respondeu à cobrança de um jornalista: “Tenho escrito, sim. Meu pseudônimo é António Lobo Antunes”.

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“Era um homem maior que sua obra”: Jorge Amado, “um homem sem inveja”, pelos olhos de Lobo Antunes, o que tanto soa como um elogio quanto um drible em avaliações críticas sobre os romances do baiano que o consideva um “filhote”.

“Por que você vive me beijando, Jorge?”.

“Porque gosto de lamber os meus filhotes…”

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No sábado, o craque do jornalismo Gay Talese autografou seus livros, lançados no Brasil pela Cia. das Letras, no espaço dos autores da Flip. Por fora da festa, uma mulher puxava a filha pelo braço. “Mãe, quem é?”. Depois de olhar o alinhado Talese, metido num impecável terno de filho de alfaite, a mãe deu o parecer: “Ah! É o (Ariano) Suassuna…”

jul
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Posted on 06-07-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais, Multimídia) by vitor on 06-07-2009


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OPINIÃO/IMPUNIDADE

POLITICAMENTE INCORRETA

Graça Azevedo

Que me perdoem os amigos dos anos 67-70 se este desabafo parecer politicamente incorreto. É que não suporto mais ver os poderosos infringindo as leis e acobertando-se sob o manto do politicamente correto.

É muito fácil para os que estão no poder repetirem a frase: são excluídos sociais, não tiveram a oportunidade de se tornarem pessoas melhores. E em nome destes excluídos fazerem leis que beneficiam aos maiores infratores deste País.

São pessoas que se beneficiaram no tempo da ditadura e que, por si ou por seus descendentes, continuam representando o que a elite brasileira tem de pior. E pensar que eu, como muitos da minha geração, lutamos, de formas diversas, para mudar o “status quo”… Eles continuam!

Que privação passaram os senadores e deputados deste Brasil? Todos pertencem a uma classe privilegiada, inclusive de trabalhadores. É através do discurso do politicamente correto que se negam a fazer as leis punitivas tão necessárias à moralização deste País.

Enquanto estes legisladores estiverem no poder, nenhuma lei permitirá a tranqüilidade que almejamos. Eles jamais criarão algo capaz de uma autopunição. E ainda fazem o discurso bonito contra a miséria. Que fique claro que, como socióloga, vi e estudei os fatos sociais que definem a exclusão social do Brasil. O que não aceito é que, usando a miséria social, os verdadeiros construtores desta realidade, miseráveis morais, se protejam da punição que lhes seria imposta.

Os ditos “representantes do povo” , com raras e honrosas exceções, possuem em seus gabinetes funcionários que buscam consultas e internamentos para a população excluída e com este ato “generoso” conseguem a fidelidade de eleitores pelo seu favor. Por isso nunca um projeto de saúde eficiente será efetivamente montado para atender a todos. Isso ocorre em todos os segmentos: estradas, poços, caminhões de água na seca… Tudo tem que ter o carimbo de quem conseguiu, como se isso não fosse sua obrigação. Aos pobres eleitores parecerá sempre um favor, um presente.

Vejo em todas as esferas do Poder um esquema de autoproteção. Começa no Legislativo que, em tese, deveria fazer leis que beneficiassem toda a população e não o fazem, passa pelo Executivo que não as cumpre e termina no Judiciário que absolve a todos.

Quando vejo a sucessão de escândalos que abala o País me vejo sem saber a quem recorrer.

Perdi há três anos um filho assassinado. Até hoje os criminosos não foram julgados e ainda possuem protetores “importantes”. Eu me pergunto se, diante de toda a impunidade que campeia neste país, os meliantes não se sentirão com direito às benesses que uma corja instalada no Poder reivindica em seu próprio favor.

E é em nome das mães das vítimas, já que as mães dos infratores recebem toda a ajuda dos poderes constituídos e paralelos, que suplico aos que, como eu, se revoltam com o atual estado das coisas, que se rebelem contra os ditos “direitos humanos” e exijam uma sociedade que comporte os Humanos Direitos.

Maria das Graças Azevedo é socióloga e servidora pública, mãe do economista e ex-consultor da ONU para políticas de agricultura familiar e alimentação, Vitor Athayde Couto Filho, assassinado em Salvador em 2006.

jul
05
Posted on 05-07-2009
Filed Under (Artigos, Laura) by Laura on 05-07-2009

Saiu do forno o Portal Scramble empreitada de Daniel Cruz. Quem conhece sabe da persistência desse baiano, criado em São Paulo, que recentemente voltou às origens – reside em Salvador – de onde dirige o seu mega portal.

O site foi lançado na última quarta-feira, dia 1.° de julho, com o objetivo de oferecer o mais completo conteúdo de diversão e serviços de todo país, para um público exigente que prima pelo lazer. De acordo com Cruz, “Existia uma carência na Internet de um site de notícias que reunisse em um mesmo lugar dicas de lazer de todas as capitais”.

O portal Scramble já entra na rede antenado com as principais novidades tecnológicas. A mais nova delas é o fenômeno Twitter, as reportagens e notas atualizadas no site são também automaticamente atualizadas no Twitter  através do endereço: http://twitter.com/scramblebrasil

Daniel é amigo e parceiro da equipe do Bahia em Pauta, mas é pela sua competência que nós o parabenizamos e desejamos SUCESSO. Confiram www.scramble.com.br

Por Laura Tonhá

jul
05
Posted on 05-07-2009
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 05-07-2009

Deu nos blogs e jornal

Em maio de 2008, na semana em que foram suspensas as buscas no extrmo-sul da Bahia pelo avião Cessna desaparecido quando fazia o percurso entre Salvador e Ilhéus, levando “empresários britãnicos”, o editor deste Bahia em Pauta escreveu sobre o assunto o seguinte artigo publicado na época no Blog do Noblat, Site da Radio Metrópole e Jornal Tribuna da Bahia, reproduzido em vários outros sites nacionais: O texto vai republicado a seguir, como memória jornalística deste estranho e obscuro caso á espera de esclarecimento. Confira.

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SEGREDOS NO PARAÍSO

Vitor Hugo Soares

Foram suspensas ontem, pela Marinha e Aeronáutica, as operações de buscas pelo avião Cessna desaparecido na semana passada, quando fazia o percurso entre Salvador e Ilhéus e sobrevoava a costa sul da Bahia. A bordo do bimotor de uma empresa de táxi-aéreo, dois tripulantes locais, quatro empresários britânicos e muitos segredos, submersos no pedaço de paraíso no Atlântico cuja orla abriga alguns dos mais exclusivos empreendimentos turísticos e imobiliários do País.

Familiares dos ingleses agradeceram às autoridades, em nota sintética, pelos esforços na procura dos desaparecidos, que seguem agora a cargo da PM e voluntários na região. Os empresários foram identificados como AlanKempson, Ricky Every, Nigel Hodges e Sean Woodhall, este último, presidente da World Wide Destinations (WWD), cujo projeto de maior visibilidade no Brasil é o “Barra Nova Pearl Eco-Nature Resort”, entre Ilhéus e Itacaré. Busca mais refinada na Internet, porém, conduz a revelações surpreendentes sobre viagens e transações de Woodhall antes do acidente.

As primeiras suspeitas sobre a movimentação do empresário britânico por paraísos turísticos da Espanha, Caribe e América do Sul foram levantadas em março de 2006, quando o jornal “El Mundo” publicou reportagem sobre achamada “Operação Malaya”. O tradicional diário de Madri teve acesso a um informe detalhado depois da detenção, por ordem judicial, de 28 pessoas acusadas de envolvimento no “Escândalo de Marbella” – rumoroso caso de desvio de verbas públicas e suborno de autoridade que abalou a cidade consagrada como um dos mais sonhados destinos de férias e badalação de gente rica e celebridades do mundo inteiro até pouco tempo.

A Unidade Central de Inteligência da Polícia (UCI) e o Serviço Executivoda Comissão de Prevenção da Lavagem de Capitais (Sepblac), encarregados deinvestigar um dos maiores escândalos na Europa naquele ano, entraram em campo com vontade. Mas ainda tentam descobrir onde estão as centenas de milhões de euros conseguidos por alguns dos principais imputados pelo juiz Miguel Angel Torres neste assalto aos cofres públicos, entre eles Carlos Sanchez, Juan Antonio Roca e Andrés Lietor, peixes grandes espanhóis fisgados no caso.

Anexo de um informe do Sepblac, em poder do “El Mundo”, falava de “outras pessoas” envolvidas nas tenebrosas transações e traçava o caminho percorridona época pela maior parte do dinheiro, que em grande parte ia parar em “lavanderias” de edens turísticos da República Dominicana. Sepblac indicou que a sociedade anônima “Punta Perla Caribbean Ltda”, por exemplo, remeteu mais de 11 milhões de dólares à empresa “Paraíso Tropical”, controlada diretamente por Carlos Sanchez e seus sócios espanhóis.

A partir daí, as suspeitas apontam também na direção do empresário britânico que consta da lista dos desaparecidos no desastre da semana passada na Bahia. O informe da polícia espanhola destaca que Sean Woodhall é, também, diretor na sociedade “Paraíso Tropical”. O empresário inglês passou a ser considerado o “eslabon necessário” (elo necessário) entre os investidores espanhóis e os projetos dominicanos.

As investigações citadas na reportagem de “El Mundo”, depois aprofundadasem jornais dominicanos, denunciam ainda o empresário britânico como beneficiário dos fundos remetidos pela “Sungolf Desarollo Inmobiliário”, outra das sociedades que participam do projeto Punta Perla no paraíso caribenho. O site noticioso dominicano, Clave Digital, acrescenta: em seu país, a Inglaterra, o empresário foi acusado e julgado por envolvimento em uma fraude escandalosa no ramo de venda de automóveis. Woodhall teria admitido a sua responsabilidade e foi sentenciado a 18 meses de prisão. Cumprida a pena, mudou-se para a Espanha, e ingressou em negócios ligados ao setor imobiliário.

Ultimamente a WWD, presidida por Woodhall, tocava importante empreendimento turístico-imobiliário no Sul da Bahia: o “Barra Nova PearlEco-nature Resort”. Complexo de luxo, com investimentos avaliados na casados R$ 500 milhões, o complexo “Barra Nova Pearl” prevê a construção de um hotel de luxo, um condomínio de 1,3 mil apartamentos e um seletissimo campode golfe.

Tudo isso em “bela área da Bahia, de clima político seguro, praias deslumbrantes, habitat tropical, comida exótica, cultura colorida e vibrantes localidades, perfeitas como destino”, segundo exalta o site da empresa. Na fase de pré-lançamento, um apartamento de dois quartos no Resort estaria sendo anunciado por imobiliárias inglesas por 67 mil libras esterlinas e por americanas ao preço de 130 mil dólares, segundo o jornal Correio da Bahia em informação creditada a Agência Estado (AE).

“Histórias como esta vão longe de carro ou avião, se pegam boa estrada ou céu de brigadeiro”, diria certamente se vivo estivesse o grande cronista baiano Raimundo Reis. No caso de Sean Woodhall, a viagem foi interrompida tragicamente na costa sul baiana. Na nota em que agradecem os esforços de buscas aos desaparecidos no desastre do bimotor, familiares dos empresários ingleses pedem à imprensa que “continue e respeitar nossa privacidade neste momento difícil” . Seguem os segredos no paraíso tropical da Bahia.

* Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitors.h@ig.com.br

jul
05
Posted on 05-07-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos, Multimídia) by vitor on 05-07-2009


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Nelson: “tantos anos depois”
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CRÔNICA/VIDA E ARTE

TODOS NÓS,MUITOS ANOS DEPOIS…

Aparecida Torneros

Terminei minha sexta-feira, tomando chope na Lapa carioca, já noite alta, aliás, no sábado entrante, passava da meia noite, e eu estava ali, com duas outras “cinderelas”, amigas de profissão, ambas ex-alunas minhas, nos tempos, mais de 20 anos atrás, em que dava aulas de jornalismo, na universidade,e me tornava referência para meninas como elas, cheias de ideais e sonhos.

Vínhamos de uma palestra, dada pelo escritor moçambicano Mia Couto, num festival que se realiza no Rio, sobre o teatro da língua portuguesa. Ela própria, a afiada “flor do Lácio, inculta e bela”, mais uma vez, a pátria de nós todos, os escribas e falantes felizes de um idioma tão sensibilizante.

Na única pergunta que formulei ao poeta e palestrante do evento, incitei-o a discorrer sobre a sensação de ver textos seus traduzidos em mais de 20 idiomas e do quanto isso o agradava ou não. Ele foi humilde e direto: “Estou condenado a ser mesmo um escritor da língua portuguesa, não sei se as traduções são bem feitas, acho mesmo é que não, mas só consigo conferir em duas ou três línguas, e o que sinto é comum a todos os escritores, na verdade”. E seguiu nos impressionando com seu jeito bem humorado de falar dos anos da sua infância, da sua juventude engajada na revolução em Moçambique, na sua tarefa simples de escrever e dizer coisas da sua alma, no faz de conta que lhe atravessa a vida e faz dele um autor teatralizado e um poeta revisitado, tempos afora.

Antes, pela tarde, em trabalho de assessoria,eu tinha acompanhado meu chefe num debate sobre as favelas e bairros do Rio de Janeiro. Na mesa principal, encontrava-se o cineasta Nelson Pereira dos Santos e foi exibido trecho do seu antológico filme Rio 40 graus, de 1955. O sábio intelectual, do alto dos seus 81 anos, digno imortal que é da Academia Brasileira de Letras, contou sobre a realização daquela produção em preto e branco e se declarou emocionado ali, diante de uma platéia cheia de estudantes, professores e técnicos para discutir a realidade urbanísitica e social da cidade maravilhosa, sob o tema abordado no seu projeto de jovem que observou o comportamento do morador da favela dos anos 50, e o levou para o cinema com maestria e sensibilidade.

Aproveitei o intervalo do café e fui até ele. Conversamos aquele tipo de conversa que une pessoas de várias gerações em torno de um só tema…o tempo… tantos anos depois… eu fora aluna dele, nos anos 70, na Universidade Federal Fluminense, quando ele rodou com a participação dos alunos, “Como era gostoso o meu francês”.

Nos poucos minutos do nosso papo informal, Nelson me contou que foi à França em maio último para festejar seus 60 anos de Paris, pois lá chegou em 1949, às vésperas de completar os 21 anos para estudar, com bolsa do governo francês.

Trocamos algumas confidências sobre o encantamento da cidade francesa, eu lhe falei dos mistérios que quero ainda desvendar por lá, e que acabei de ter meu primeiro contato com o lugar dos sonhos de tantas gerações, mas vou voltar, com calma e descobrir um a um, segundo meu coração indica e minha alma clama.

Contei-lhe que já me matriculei num curso de francês, para preparar-me melhor e viver algum tempo a partir da minha próxima aposentadoria, bem ali, no ponto de encontro da minha juventude com a minha maturidade. Não lhe revelei, entretanto, que vou viver também o que estiver ao meu alcance, em termos de amor entre homem e mulher, já que tenho um namorado novo e ele vive por lá.

Mas, na manhã do dia seguinte, deparo-me com um texto que relembra o filme “Um homem , uma mulher”, obra que me emocionou tanto, nos anos 60. Volto mais um pouco a fita e me recordo que assisti também à produção do mesmo Claude Lelouch, que se atreveu a filmar, 20 anos depois , a continuação da história, e em 1986, fez “Um homem, uma mulher 20 anos depois”.

Como os mesmos atores protagonizando o enredo que trouxe a sequencia das suas vidas para o tempo do amanhã, em doce e reconfortante final feliz, acompanhei, a tal nova versão, para meu gáudio e de tantos sonhadores, contemporâneos da minha adolescência.

Encontro-me agora, exatamente, na manhã do dia seguinte, na manhã do tempo de todos nós, tantos anos depois.

Pergunto-me sobre a razão pela qual o tempo ao correr nos deixa assim tão à mercê de si, envolvidos com lembranças extremamente frágeis e num piscar de olhos, ali estamos todos, embalados por histórias que permanecem vivas no imaginário do escritor moçambicano, na alma do cineasta brasileiro, na criação do diretor francês de cinema, na saudade da cronista carioca e até no reencontro das meninas alunas que atingiram os 40 anos com a carinha dos 20, e me resgataram a deliciosa condição de amiga do tempo, tantos anos depois…a rodagem do filme continua…ainda somos os melhores protagonistas dos nossos roteiros.

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro

jul
04
Posted on 04-07-2009
Filed Under (Artigos, Regina) by vitor on 04-07-2009

Michael: ataques antes do enterro
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OPINIÃO

OS CORVOS E MICHAEL JACKSON

Regina Soares

Seu corpo franzino, batido, descolorido, ainda não baixou a sepultura e os corvos já o rodeiam para devora-lo com insaciável fome. Não faltam acusações, insinuações, toda classe de deplorável irreverência com um ser que acreditava na possibilidade de um mundo melhor e mais humano.

Enquanto advogados se apressam a assegurar a fortuna, real ou fictícia; a proteção dos seus filhos, paternidade questionada; seu legado musical, inestimável a esse ponto; abuso de drogas, quantidade letal; os fãs, fieis seguidores da carreira e vida, do seu adorado ídolo, agrupam-se em qualquer rua desse planeta, porta de casa habitada por ele, sua estrela em Hollywood e no Apollo no Harlem de New York, onde tudo começou, para cantar suas musicas e imitar seus passos, afinal foi ele, Michael Jackson, que nos ensinou a dançar.

Durante os atormentados anos anos que lhe tocou viver, Michael sofreu humilhação vinda diretamente do próprio pai, que na frente do teatro onde seus colegas se reuniam para uma homenagem póstuma, tentava vender sua imagem e anunciar novos negócios da sua odiosa agenda. Foi ridicularizado pela media, que não entendia sua necessidade de reinventar-se numa constante destruição da matéria que lhe lembrava os primeiros anos de vida e que ele desesperadamente buscava esquecer ou entender. Inumeras demandas legais, uma roda viva que não parecia ter fim.

Michael Jackson clamava por PAZ, para si e para o Mundo. Essa procura, acredito, o levou ao desespero e a morte, pois nem toda droga do mundo pode acalmar os monstros que nos consomem na escuridão da noite. Dizem que a gente vai para um lugar melhor depois de pagar nossos pecados aqui na terra, prefiro acreditar que sim.

Ficam conosco suas maravilhosas criações musicais, sua genialidade no palco, seus ensinamentos transmitidos através de exemplos ou da gentileza da sua voz enquanto você caminha pela lua…

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Regina Soares, advogada, mora em Belmont, área da Baia de San Francisco, Califórnia(EUA).

jul
03
Posted on 03-07-2009
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 03-07-2009

Honduras: ovo da serpente
imprensa

ARTIGO DA SEMANA
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O FANTASMA DE VOLTA

Vitor Hugo Soares

O fato assombra e preocupa, mesmo que alguns ainda se esforcem para escondê-lo ou negar: um ovo de serpente foi posto outra vez no útero da América Latina. Domingo passado, Manuel Zelaya, presidente eleito de Honduras, foi arrancado da cama altas horas da madrugada por militares encapuzados e levado para um quartel. Depois foi deposto e substituído no cargo em alta velocidade pelo Parlamento de seu país, com base em uma carta apócrifa de renúncia. Colocado à força dentro de um avião militar, Zelaya foi deportado em seguida para a Costa Rica.

Resta ver, agora, se o embrião maléfico será fecundado outra vez, o que se começará a saber já a partir deste sábado (4), quando termina o prazo da Organização dos Estados Americanos (OEA), para que a presidência de Honduras seja devolvida pelos golpistas – militares e civis -, ao seu dono legítimo e livremente eleito.

Leio e vejo o noticiário pobre e fragmentado da imprensa brasileira sobre o golpe na América Central, enquanto corre pelas ruas de Salvador o desfile cívico do 2 de Julho, data magna do Estado. Celebra a batalha dos cerros de Pirajá, na qual os baianos expulsaram de vez as tropas invasoras de Portugal, consolidando assim, com sangue, ferro e fogo, a independência “no grito”, proclamada pelo Imperador às margens do Ipiranga. No rádio toca o Hino ao Dois de Julho: “Nunca mais o despotismo, regerá nossas ações/Com tiranos não combinam, brasileiros corações”.

A letra faz pensar nos conflitos heróicos, mas débeis, de Tegucigalpa, enquanto o novo regime vai impondo-se pelos tanques e armas pesadas. Tenta “limpar” o terreno para fincar raízes mais fundas, ajudado por silêncios ou ações colaboracionistas no Congresso, na Justiça, na imprensa e no meio empresarial da pobre república hondurenha. O tempo é veloz e não pára. Já sabemos que, em casos assim, é preciso agir rápida, coordenada e firmemente para evitar o fato consumado.

Neste caso, o golpe já se prolonga por mais de 150 horas. Até sexta-feira (3) , nenhum país do planeta havia reconhecido o golpe que transferiu o governo de Honduras para um ditador de fachada, mal disfarçado de ex-presidente do Congresso. Condenações partem da OEA, da ONU, da ALBA, da SICA, do Grupo do Rio, do “escambáu”, como dizem os baianos. Mas até agora nada, ou quase. O presidente Lula, ao condenar o golpe na primeira hora, disse que “não há conversa” sobre qualquer outro tema, sem que antes o regime democrático seja restaurado em Honduras, com a volta de Zelaya ao comando do governo. Discurso repetido por Obama, dos Estados Unidos.

Nesta sexta-feira, no entanto, leio também que o representante da OEA estava sendo esperado em Tegucigalpa pelos golpistas, “para conversar”, mas com uma condicionante: “sem a presença de Zelaya”. A memória voa então, com melancolia, para uma mesa do Café na Avenida 18 de Julio, em Montevidéu, onde se reuniam habitualmente, mais de 10 anos depois do golpe que havia deposto o presidente João Goulart, no Brasil, inúmeros exilados brasileiros na então”suíça da América Latina”.

Na cabeceira da mesa, vejo ainda, com nitidez, apesar do desaparecimento há tantos anos, a figura humana digna e impressionante do coronel Dagoberto Rodrigues. Ele recorda com seu refinado bom humor carioca os primeiros dias de exílio. Com tinturas de realismo fantástico, conta uma história para ilustrar a esperança do breve retorno ao País e os radicalismo retóricos de alguns exilados de então, em especial os gaúchos.

“Um deles costumava sentar-se bem aí onde você está agora”, dizia o ex-diretor geral dos Correios e Telégrafos e das Comunicações no governo Goulart, dirigindo-se ao então repórter do Jornal do Brasil. “No começo ele batia com o dedo ‘fura-bolo’ na mesa, e gritava: “O golpe não vingará! O povo brasileiro e a comunidade internacional reagirão para acabar com a farra dos milicos. Retornaremos todos do exílio – com Jango e Brizola à frente – no mês que vem, no máximo. Pode anotar aí, tchê”, dizia .

O coronel fazia então uma pausa de suspense, antes de concluir a narrativa. “Perto do golpe completar o décimo aniverário, o gaúcho já havia perdido o dedo e a mão inteira de tanto bater na mesa, mas seguia firme martelando o móvel do Café uruguaio com o “cotôco” que lhe restava do braço direito: “De 10 anos o golpe não passa, podem arrumar as malas e as tralhas que vamos todos voltar para o Brasil na semana que vem, tchê”.

De passagem por Montevidéu , era difícil para o autor destas linhas e sua mulher (também jornalista), conter a emoção e o nó na garganta diante de tanta esperança vã, como se veria nos dias e anos seguinte da demorada ditadura. Diante do fantasma que volta a rondar o continente, resta esperar que a história e o destino sejam menos cruéis com os hondurenhos.
Vitor Hugo Soares. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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