jul
17
Posted on 17-07-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos, Multimídia) by vitor on 17-07-2009


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CRÔNICA/ MÚSICA

COISAS DE MENINAS REBELDES

Cida Torneros

O pequeno disco de vinil, compacto simples, era como o chamavam, rodava manso sobre a vitrolinha portátil num quarto de meninas, em Copacabana, devia ser 1969 ou 70, e a música melodiosa e triste era sussurrada pelas vozes de três jovenzinhas rebeldes, eu e minhas duas primas. A música que nos embalou, variava de gosto e estilo, mas nas horas de desilusão, minha prima Regina, que faleceu há pouco tempo, aos 53 anos, sapecava a voz do Antonio Marcos, cantando “eu hoje estou tão triste, eu precisava tanto conversar com Deus”.

Tínhamos entre 17 ou 19 anos, nos vestíamos para sair na noite, escondidas, é claro, esperando que meus padrinhos, pais delas, pegassem no sono. Queríamos ir a alguma “boite”, com vestidos de mini saia, sapatos salto agulha, bem perto, na Fernando Mendes,onde, nos deslumbrávamos como os artistas que iam dar canja, e nossa bebida de praxe era mesmo a cuba libre. O que queríamos mesmo era aprender a amar.

Tínhamos a meninice brejeira, a pele bronzeada pela frequencia habitual às areias de Copa, o encantamento pela novidade, a sensação da transgressão, e, ao mesmo tempo, o medo de alguma aventura mais arrojada, nada fazíamos a não ser trocar beijinhos com namoradinhos tão jovens quanto nós, e corríamos pra casa, onde entrávamos, com os sapatos na mão, rezando para que a Lady,cadelinha de estimação não desse nem um latido, denunciando nossa chegada no apê, onde ainda viraríamos o resto da madrugada, fofocando sobre pequenos delitos, ou fumando um cigarrinho comum, cujo cheiro íamos disfarçar com perfume em spray.

O disco ia chegando ao final, a tecnologia era mesmo manual, e uma das tres esticava o dedinho para que a agulha voltasse ao princípio da música, e lá íamos nós, envolvidas pelo questionamento sobre a tristeza que começávamos a descobrir ser tão comum nos amores desfeitos pela traição, quando pegávamos as mentiras mal contadas dos tais namoradinhos aprendizes de conviver as emoções da ternura e do prazer. Havia também o fato de que muitas vezes nos entusiasmávos por homens que não nos davam bola por acharem que éramos bobinhas demais e não tínhamos a malicia necessária para um “verdadeiro affair”.

A canção do jovem autor, entre muitas outras, era sucesso, e, ao mesmo tempo, era um libelo inocente para o futuro que teríamos que enfrentar. Ele mesmo, que foi prisioneiro do alcoolismo e morreu em consequencia disso, nos transmitiu, além do talento, uma amargura suficiente para que nos identificássemos com uma das mais cruéis rotinas dos relacionamentos, seus finais dolorosos, as decepções amorosas, os finais onde um dos parceiros teria mesmo que chorar. Então, nos diálogos das três, quantas ocasiões não nos perguntamos: Então o amor era isso? Traiçoes, desilusões e sofrimentos?

Acho que foi nessa época que aprendemos também a saber chorar pelos amores perdidos, pelos amores sonhados, pelos amores mal sucedidos, sem entretanto termos desistido de voltar a buscar qualque tipo de amor, pelo resto de nossas vidas.

Já se passaram quase 40 anos, e hoje, ao ouvir a tal interpretação do saudoso cantor, me vi, exatamente como aquela menina-moça ( como éramos chamadas), sentindo um frio na alma, um aperto no peito, a saudade da esperança daqueles dias de juventude, o cansaço de tantas tentativas de encontrar amor sincero, e aí, desabei num pranto sofrido, doído, inteiramente descontrolado, resgatando um momento que dentro de mim, se repete, como um presságio.

A vida rolou, e ainda rola, Regina deixou filhos adultos e sua irmã Lena hoje é viúva com filhos e netos, ainda trabalha e gosta de dançar. Pouco nos vemos, mas quando nos encontramos, é possivel relembrar as artimanhas quase infantis que ousamos viver, como por exemplo, fugir num fusca de algum amigo para tomar sol na Barra, que era um deserto e o fim do mundo, mas nos dava a dimensão de que esse mesmo mundo cresceria mais. Ainda iríamos ultrapassar fronteiras maiores e nos aventurarmos em caronas de avião indo buscar o amor em lugares e países distantes. Talvez o amor seja mesmo essa coisa impossível, na concepção da tal felicidade fantasiosa, e nem adianta fugirmos para praias desertas ou cidades apinhadas, porque onde houver um coração humano sedento de paixão, sempre haverá a possibilidade de amar alguém que nunca soube o que é o amor, como revela a letra da tal musiquinha.

Vou esticar o dedinho e desta vez, já não existe mais o vinilzinho pequeno, nem gira melancolicamente na noite da minha saudade, mas posso teclar no yutube, ouvir muitas vezes a voz dos meus 18 anos, e, aos 60, ainda vou chorar mais um pouquinho por que o tempo não apagou minha tristeza diante de amores desfeitos, de amores que não me deram diploma, por ser ainda uma aluna que não aprendeu direito como amar e ser aprovada com a medalha da felicidade.

Cida Torneros , jornalista e escritora, autora do livro “A Mulher Necessária”, mora no Rio de Janeiro.

jul
17
Posted on 17-07-2009
Filed Under (Artigos, Gilson) by vitor on 17-07-2009

Fonte Nova, adeus!
fonte
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CRÔNICA/MEMÓRIA DE UMA CIDADE

Tributo aos torcedores mortos

Gilson Nogueira

A Tribuna da Bahia divulgou que a Fonte Nova será demolida. Antes que alguém aperte o botão iniciando a detonação das bananas de dinamite que irão transformar aquele templo de glórias do futebol da Bahia em uma montanha de escombros, vai, aqui, uma sugestão à Federação Bahiana de Futebol (FBF): Decrete luto oficial no futebol estadual, assim que a morte do Estádio Octávio Mangabeira, a Fonte Nova, for definitivamente confirmada.

Um minuto de silêncio, ao início de qualquer partida a ser disputada nos campos de futebol do estado, a partir da próxima semana, seria, também, de pronto, outra providência bem-vinda da entidade máxima do futebol da Terra dos Absurdos. Pelo que a Fonte Nova representou para os clubes, a ela filiados, esse um minuto de silêncio valeria mais que uma eternidade. De quebra, nos jogos do campeonato baiano, de todas as suas divisões, o uso de tarja preta nos uniformes dos árbitros e jogadores, em campo, como sinal de pesar pela morte anunciada da Fonte Nova.

Prestes a se transformar em uma arena (argh), à beira do Dique do Tororó, a nova Fonte Nova deveria abrigar a derradeira homenagem póstuma da Bahia Esportiva às sete pessoas que morreram, no dia 25 de novembro de 2007, em conseqüência da queda da arquibancada do anel superior do estádio, que cedeu, aos 42 minutos do segundo tempo da partida entre Bahia x Vila Nova, de Goiás, pela Série C do Brasileirão.

Construa-se, ali, na entrada do novo Estádio Octávio Mangabeira, um memorial em homenagem às vítimas daquela tragédia. Um marco imponente, em mármore, capaz de desafiar o tempo, para perpetuar-se na lembrança do povo que faz do futebol sua maior paixão. O memorial, no formato de um grande coração, símbolo do amor, seria mais uma prova concreta de saudade de todas as torcidas brasileiras daqueles torcedores que foram colhidos pela fatalidade no momento em que vibravam com seu time.

Faça-se justiça. Escreva-se, em letras garrafais, no monumento, em tributo, os nomes de Márcia Santos Cruz, Jadson Celestino Araújo Silva, Milena Vasquez Palmeira, Djalma Lima Santos, Anísio Marques Neto, Nidia Andrade Santos e Joselito Lima Jr, vítimas fatais de uma das maiores tragédias em estádios de futebol de todo o mundo.

A Copa do Mundo de 2014, razão pela qual as dinamites serão detonadas, não impedirá que a antiga Fonte Nova possa reerguer-se das cinzas e, no meio da multidão, vir a soltar o grito: “Não me esqueçam, eu tenho histórias para contar!”

Gilson Nogueira é joralista

Quando chegou de Brasília para morar na fazenda do ex-deputado federal Chico Pinto, em 2006, no município de Feira de Santana, a assistente social paranaense, Thais Alencar, trazia com ela a idéia de que poderia fazer algo pela comunidade no campo social e educacional, pois há muito era este o seu desejo.

Pouco tempo depois, a morte do ex-deputado do MDB autêntico, Chico Pinto, poderia ter significado também um golpe fatal nos planos da esposa do bravo parlamentar, filha de outro bravo deputado da resistência no tempo da ditadura no país, Alencar Furtado. Thais, no entanto, também resistente como o pai e o marido, seguiu adiante. Esta semana ela mandou uma mensagem a uma amiga em Salvador, na qual relata o andamento de seu projeto exemplar na região de Feira de Santana.

Bahia em Pauta teve acesso a uma cópia do relato de Thais Furtado, e o reproduz parcialmente a seguir, pelo seu conteúdo relevante de interesse público, pelo valor social do proprio projeto e pela sensibilidade humana do depoimento de Thais. Confira:
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“INICIEI CHAMANDO AS CRIANÇAS DA ALFABETIZAÇÃO PARA DAR REFORÇO ESCOLAR. MAS, PERCEBI QUE NÃO SÓ AS DA ALFABETIZAÇÃO, MAS AS QUE ESTAVAM CURSANDO AS SÉRIES SEGUINTES NÃO SABIAM LER NEM ESCREVER. E COMECEI A ACEITÁ-LAS, TAMBÉM. EM SEGUIDA VIERAM CHEGANDO OS DE 5ª. A 8ª. SÉRIE PEDINDO AJUDA PARA FAZER OS DEVERES DE CASA E OS TRABALHOS ESCOLARES E FORAM FICANDO. CADA DIA FICAVA MAIS HORRORIZADA, COMO FICO ATÉ HOJE, COM O DESCASO COM QUE SE TRATA A EDUCAÇÃO.
CHICO SEPAROU UMA ÁREA DE TERRA E ME DEU PARA QUE EU CONSTRUISSE UMA ESCOLA, POIS ATÉ ENTÃO AS AULAS ERAM DADAS NUMA GARAGEM PROXIMA A CASA DA FAZENDA.
PASSAMOS TRÊS ANOS CONSTRUINDO A ESCOLA QUE FOI INAUGURADA AGORA EM ABRIL.
LÁ, ALÉM DO REFORÇO ESCOLAR E DA REALIZAÇÃO DAS ATIVIDADES LIGADAS A ESCOLA FORMAL QUE FREQUENTAM, FAZEM AULA DE CAPOEIRA, TEMOS OFICINA DE ARTE E SOBRETUDO UMA BIBLIOTECA.
HOJE TRABALHAMOS COM 70 CRIANÇAS.
NOSSA PRIORIDADE É MOSTRAR A ELAS QUE HÁ UM MUNDO ONDE ELAS PODEM SER CONTEXTUALIZADAS. ABRIR PERSPECTIVAS NOVAS. E O INCENTIVO À LEITURA TEM- NOS MOSTRADO QUE ELAS COMEÇAM A ENTENDER A PROPOSTA. HOJE, POR INICIATIVA PRÓPRIA, LEVAM OS LIVROS DA BIBLIOTECA PARA CASA NO FINAL DE SEMANA E VOLTAM PEDINDO QUE HAJA RENOVAÇÃO DOS EXEMPLARES EXISTENTES.
NOSSO PROJETO AINDA ABARCA A ÁREA ESPORTIVA QUE ESTÁ EM CONSTRUÇÃO. SÃO DUAS QUADRAS DE ESPORTE E UMA PISCINA SEMI-OLÍMPICA, ONDE PENSO PODER DESCOBRIR ALGUM ATLETA E COLOCÁ-LO NO PODIUM.
O MAIS INTERESSANTE, AMIGA, É QUE SÃO CRIANÇAS DE 3 A 16 ANOS E POSSO AFIRMAR QUE DIFEREM DO QUE TEMOS VISTO NOS NOTICIÁRIOS SOBRE AS ESCOLAS DO PAÍS. NÃO POSSUEM A AGRESSIVIDADE NEM O DESRESPEITO DAQUELES. E ISSO É MUITO BOM PORQUE NOS AJUDA A TRABALHAR COM ELES E FORTALECER VALORES PARA QUE CRESÇAM COM UMA VISÃO MELHORADA DA VIDA.
MONTAMOS UMA ESCOLA DE INFORMÁTICA. ENTRETANTO, FOMOS VISITADOS POR ASSALTANTES QUE NOS LEVARAM OS CINCO COMPUTADORES EXISTENTES, TODOS NOVOS EM FOLHA. NÃO DEU TEMPO NEM DE LIGAR. ISSO ATRASOU A PROPOSTA DE INICIÁ-LOS NESTA ATIVIDADE.
ESTE TRABALHO ME DEIXA MUITO FELIZ. VOU CRESCENDO COM ELES. VOU APRENDENDO COM ELES. E VENDO QUE HÁ MUITO QUE SER FEITO POR CADA UM DE NÓS SE QUISERMOS VER UM OUTRO PAÍS.
SE TIVER OPORTUNIDADE FAÇA-NOS UMA VISITA.
VOU PEDIR A THAISINHA (A FILHA DE THAIS E CHICO PINTO) PARA MANDAR UMAS FOTOS QUE ELA TIROU NO DIA DA INAUGURAÇÃO.
BEIJOS
THAIS ALENCAR
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BAHIA EM PAUTA COMENTA: BELISSIMO EXEMPLO,THAIS.MESMO DIANTE DE OBSTÁCULOS COMO ESSA VIOLENCIA INAUDITA DO ROUBO DOS COMPUTADORES, ESPERAMOS QUE VOCÊ E OS QUE COMPARTILHAM DESSA EXPERIÊNCIA MAGNÍFICA SIGAM ADIANTE.PODE CONTAR COM O BAHIA EM PAUTA E OS AMIGOS DE VERDADE DE CHICO PINTO, GUERREIRO COMO VOCÊ E SEU PAI.

(Postado por: Vitor Hugo Soares)

jul
15
Posted on 15-07-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 15-07-2009

Nery: “era uma vez”…
nery
Capinam: também viveu na “mansarda paulista”
capimDeu no blog: (VHS)
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ADEUS A MARIO LIMA

O jornalista baiano Sebastião Nery, que veio a Salvador semana passada para o sepultamento do ex-deputado constituinte e líder petroleiro,Mario Lima, no Jardim dfa Saudade, publicou em seu blog (www.sebastiãonery.com.br) texto com relato sobre a vida e a partida do ex-presidente do SINDIPETRO. O Bahia em Pauta reproduz a seguir.

Sebastião Nery

SALVADOR – Era uma vez quatro amigos. Perseguidos pelo golpe de 64, fugiram de Salvador para São Paulo, onde passaram escondidos, na mais pobre clandestinidade , o ano de 1965. A eles logo se agregaram outros baianos foragidos e acabamos todos hóspedes da solidariedade franciscana do jornalista Adilson Augusto, da “Folha”, que morava em um minúsculo apartamento, no sótão de uma pensão na rua Major Sertório, entre o “João Sebastião Bar” e o “Ela Cravo e Canela”.

Os quatro vinhamos de duras lutas políticas. Um, presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Petróleo da Bahia e deputado. Outro, diretor do “Jornal da Semana”, em Salvador, e deputado. O terceiro, líder estudantil e jornalista. O quarto, líder estudantil e publicitário.

Na “Mansarda” cristã e generosa do “Brasinha”, os quatro esperamos o ano inteiro, comendo o pão que o diabo amassou, que o Superior Tribunal Militar nos absolvesse das acusações histéricas dos vitoriosos.

OS QUATRO

Cada um já havia pago o seu preço político. O primeiro, cassado, preso, depois de um mês numa suja solitária militar em Salvador, no Forte do Barbalho, passou o resto do ano confinado em Fernando de Noronha. O segundo, cassado, preso, jogado em um porão molhado, no Barbalho. O terceiro e o quarto perderam os cursos e os empregos e fugiram a tempo.

Anistiados, dezoito anos depois, os quatro da “Mansarda” voltamos nos braços do voto popular. Mário Lima deputado federal pelo PMDB da Bahia. Sebastião Nery deputado federal pelo PDT do Rio de Janeiro. Hélio Duque deputado federal pelo PMDB do Paraná. Domingos Leonelli deputado pelo PMDB da Bahia. Era a bancada da “Mansarda”.

Sábado, saudosos e doídos, Helio Duque, Leonelli e eu deixamos nosso irmão Mario Lima no “Jardim da Saudade”, aqui em Salvador.

BOM SAMARITANO

O Mario foi, a vida inteira, sobretudo o Bom Samaritano. Sempre se preocupou e cuidou mais dos outros do que dele. Daí sua liderança entre os petroleiros, fundador, presidente e conselheiro, ter durado meio século.

Até na cadeia era assim. Logo na chegada a Fernando de Noronha, em maio de 1964, o coronel Jaime Costa e Silva, que avisava não ser parente do então ministro da Guerra, reuniu o grupo:

– Sei que os senhores foram mandados para cá como castigo para serem punidos. Mas aqui os senhores são meus hóspedes. Ninguém vai sofrer constrangimento nenhum, além da prisão. Espero que se sintam em minha casa, com as acomodações que posso dar.

SEIXAS

Os dois governadores, Miguel Arraes e Seixas Doria, foram alojados no setor dos oficiais e os outros, Mario Lima, deputado federal da Bahia, Djalma Maranhão, prefeito de Natal, muitos outros, no setor dos sargentos e soldados. Um capitão, capitão Virgílio, fazia a ligação entre o coronel e os presos. E era, como o chefe, um homem educado, civilizado, correto.

Um dia, por pressão de Magalhães Pinto, Aluisio Alves e Petrônio Portela, Seixas Dória, que era da UDN, foi solto. Antes, tinha ficado preso em Salvador, lá no quartel do Cabula, fora da cidade, onde também eu estava. Arraes, sem Seixas, ficou só, no seu quarto. E muito triste.

ARRAES

Mário Lima, com sua competente generosidade de sertanejo de Gloria, no sertão da Bahia, chamou o capitão Virgílio:

– Capitão, acho que os senhores precisam tomar uma providência. O governador Arraes está aí, sozinho, nesse quarto. Ele é um homem já de mais de cinqüenta anos, mais velho do que todos nós. Já imaginou se ele sofre alguma coisa de noite, um mal súbito, um enfarte? Quem é que vai acreditar que não foi assassinado pelos senhores?

Os presos assinaram um manifesto pedindo ao comando da ilha que transferisse Arraes para Recife. O coronel Costa e Silva levou o documento para Recife. E Arraes saiu de Fernando de Noronha e voltou para Pernambuco, onde esperou o “habeas corpus” do Supremo, que o libertou.

Arraes chegou ao Rio, foi para a Argélia.

HOMENAGEM

Centenas de baianos superlotaram o Jardim da Saudade, em Salvador, no sábado à tarde, para a despedida de Mário Lima. Sua maravilhosa família de dez filhos, netos e bisnetos, políticos, jornalistas, líderes sindicais, petroleiros e petroquímicos, que ele liderou e a quem serviu em três mandatos de presidente do sindicato e três mandatos de deputado, e seu dedicado e importante trabalho como presidente da Comissão de Direitos Sociais da Constituinte, levaram-lhe o último adeus. O ex-governador Waldir Pires,o secretário Leonelli, dirigentes sindicais, falaram por todos nós. Foi lida uma mensagem comovente e competente de Lula, como amigo e companheiro de lutas sindicais. Até por isso surpreendeu a ausência do governador Jaques Wagner, também ex-presidente de sindicato e dele aliado, como destacado membro do PMDB.

Mas sua falta não foi tão notada porque lá estavam o ministro Gedel Vieira Lima, o ex-ministro Waldir Pires, os ex-prefeitos de Salvador Virgildásio Sena e Lídice da Mata, os ex-deputados Joacy Goes, Marcelo Cordeiro, Sergio Gaudenzi, Fernando Schmidt e Genebaldo Correa, Inácio Gomes, Carlos Sodré, Carlos Marighela Filho, Luiz Gonzaga Ferreira, Sandoval Guimarães,companheiros de diretorias sindicais,inuneros amigos.

www.sebastiaonery.com

Mario Lima: calor amigueiro
lima
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OPINIÃO/LIDERANÇA

O som, a sesta e a fúria de Mário Lima

Claudio Leal

O líder petroleiro Mário Lima, vitimado aos 74 anos por um AVC, em Salvador, na sexta-feira (10), provou no sindicalismo o gosto épico da formação da Petrobras, das investidas pioneiras em território baiano ao mergulho cívico no Pré-sal. Afastado nos últimos anos das refregas diárias do Sindpetro (Sindicato dos Petroleiros da Bahia), o primeiro do setor no Brasil, do qual foi fundador, Lima guardava histórias à farta da era do sindicalismo brasileiro pré-1964, de JK a João Goulart.

Negro, prosa mansa, Mário Lima tinha acesso ilimitado aos gabinetes federais. Ele liderava o mais atuante sindicato de petroleiros – fonte de seus votos pelo PSB – e sabia amaciar radicais e pelegos; era “metade PSD, metade Coronel Reis”, define o jornalista e amigo Sebastião Nery, referindo-se ao chefe político de Glória (BA), cidade natal de Lima, às margens do Rio São Francisco.

Deputado federal constituinte na década de 80 (subia à tribuna com o capacete da Petrobras), Mário sustentou musculatura política até o golpe militar de 1964, quando foi preso e confinado na Ilha de Fernando de Noronha, em dependência próxima às dos governadores depostos Miguel Arraes e João de Seixas Dória.

A sede revanchista contra o sindicalista baiano não deixava de estar ligada ao máximo estreitamento de relações entre Estado e sindicatos. Jango permitia a Lima uma intimidade, um calor amigueiro, uma afabilidade, o que pode ser visto como uma artimanha do presidente-estancieiro, herdeiro incompleto de Getúlio Vargas. “Eu nem precisava bater na porta de Jango”, dizia Mário Lima.

Mas algumas vezes o ex-ministro Antonio Balbino bateu na madeira ao ver corroer a autoridade presidencial. Consultor-geral da República, Balbino ouviu um sindicalista dirigir-se ao Excelentíssimo Senhor: “Ô Jango, tu….”. Sentiu o ímpeto de raspar as paredes do Planalto ao ouvir outro visitante aconselhar Jango a não encaminhar um pedido ao consultor-geral: “Com esse cara estamos perdidos!”. Alvo da ofensa, Balbino aguardou a reprimenda de Jango, mas, ao sentir que esta não viria, tratou de soltar perdigotos e exigir respeito.

Mais cerimonioso nos lances de intimidade, Mário Lima liderou a campanha “Ou equipara ou aqui pára”, que exigiu o nivelamento salarial da Bahia com os trabalhadores do Rio e de São Paulo, em 1960. O governador Juracy Magalhães mandou cercar a refinaria de Mataripe, o centro petrolífero que lançava uma chama solitária nas noites imensas da Baía de Todos os Santos. Cobrindo a greve pelo Jornal da Bahia, Nery furou o cerco e testemunhou a coragem do “negro obâmico”.

De volta à redação, no Centro de Salvador, o jornalista político redigiu uma nota incendiária contra o governador baiano. “Juracy mandou a PM, que deu muitos empurrões. Ele dizia que não era mais o tenente com o revólver na mão, mas o general com o terço. Aí escrevi: Juracy bate de terço!”, conta Sebastião Nery, mais tarde um antijuracisista enragé. “Mário virou herói e foi eleito com uma votação extraordinária”.

Em 1º de abril de 1964, ao saber da ocupação da refinaria de Mataripe, Mário Lima foi cobrar notícias precisas do governador Lomanto Júnior sobre a prisão dos trabalhadores. Na escadaria do Palácio da Aclamação, travou um diálogo áspero com o secretário de Segurança Pública, Francisco Cabral, que já estava alinhado com os golpistas e ignorava as ordens de Lomanto.

Cabral mandou prender o deputado federal, abrindo uma crise de autoridade no governo. Correu o boato de que Lima teria ameaçado “explodir” Mataripe. Essa história contraria tanto o ar cordato do sindicalista como a impossibilidade tática da ameaça. Depois de ser lançado num poço solitário no colonial Quartel do Barbalho – um outro tipo de poço, embora também sujo de óleo -, viu a saúde minguar. Numa masmorra idêntica, estava o companheiro Nery.

Sequestrado, Mário aterrissou na Ilha de Fernando de Noronha – onde já estivera em degredo o jornalista Helio Fernandes -, convertida em cárcere dos inimigos do regime militar. Nunca chegou a trocar palavra com o pequenino Seixas Dória (o “réu sem crime”), mas interferiu pela transferência de Miguel Arraes. Alertou ao administrador da Ilha, o coronel Costa e Silva:

– Desculpe, coronel, mas vou dar um palpite. Tiraram o Seixas daqui. Sou jovem, estou sozinho, não tenho problema nenhum. Mas ficou o Dr. Miguel Arraes, um homem nacional, que já tem 50 e tantos anos. O senhor já pensou se ele tem um infarto? Se morre o Arraes? Por mais que o senhor diga que ele é um convidado do senhor, vão achar que ele foi morto em Fernando de Noronha…

Entre fumaças de charuto, o velho Arraes gostava de recordar esse espevitado conselho. Dali a dias o ex-governador pernambucano seria transferido para Recife – em seguida, o exílio.

Este é o Mário Lima público. Mas, que tipo! o homem dos bares.

Cassado, livre dos cárceres, ele viajou para São Paulo em 1965, disposto a comemorar o aniversário com os amigos Hélio Duque, José Wilson, Sebastião Nery, Domingos Leonelli e Nelito Carvalho, também escondidos na capital paulista. Destino: Bar Pilão, Arouche. Numa mesa do canto, tristíssimo, o cantor Carlos Galhardo (“com aquele cabelão de puteiro, mal pintado”, brinca Nery). Convidado de Lima, Wilson berrou, porreteiro: “Olha quem tá ali: aquele merda do Carlos Galhardo!”. Para evitar uma briga – e a chegada da polícia -, Lima ergueu a voz:

– Fora daqui! O senhor não tem dignidade para ficar em nosso meio!

Ali restaram os dignos, sorvendo caipirinhas. A namorada de Nelito, Marilu, era cantora do bar e atendeu ao pedido cavalheiresco de um trovador: emprestou seu violão para ele tocasse. Na terceira música, o desconhecido recebeu o abraço consagrador de Carlos Galhardo, e mais os aplausos da mesa dos subversivos. Empolgado, o cantor anônimo mandou servir uísque para os fãs. Ainda mais grato, sentou na mesa, sorriu e pagou a conta da noitada. A caminho de casa, Mário vomitou no táxi de um português. “Ou pagam a limpeza ou chamo a polícia!”, clamou o chofer. Uma furtiva cédula foi jogada no banco traseiro e todos os amigos sumiram nas ruas do Centro.

Repórter da Folha de S. Paulo, Hélio Duque decidiu pegar o jornal rodado na madrugada. Lá estava uma entrevista do cantor anônimo. Bem, este era seu segundo ofício. Durante o dia ele atuava como delegado-geral de Ordem Política e Social de São Paulo, cuja especialidade não era servir uísque, mas fazer cantar os inimigos do regime…

Outro Mário Lima numa mesa do Chez Bernard. Em 2006, num almoço, embalado por um vinho, levantou-se da mesa e… desapareceu. Corremos os olhos nas outras mesas – nem sinal. Na porta do restaurante, em Salvador, Mário reaparece: fazia uma sesta dentro do carro. Era a metade Coronel Reis que dormia, a evocar as tardes nas varandas do São Francisco.

Após duas horas de discursos de amigos, políticos e ex-sindicalistas, o líder petroleiro foi enterrado no sábado, 11 de julho, no Cemitério Jardim da Saudade, em Salvador. Nesse borbulhar de orações fúnebres, havia também o desejo de que Mário fosse dormir mais tarde.

Claudio Leal é jornalista, trabalha na revista digital Terra Magazine, onde este texto foi publicado originalmente (http://terramagazine.terra.com.br)

jul
13
Posted on 13-07-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos, Multimídia) by vitor on 13-07-2009


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CRÔNICA / MAGESTADE

RC , o Rei e seus súditos, muito além do horizonte da mídia

Aparecida Torneros

Um rei que não perde a majestade nem debaixo d’água, assim é o Roberto Carlos, o cantor que se apresentou no sábado dia 11 de julho para um público de milhares de admiradores no estádio do Maracanã, em show comemorativo dos seus 50 anos de carreira, enquanto uma chuva caía sobre as pessoas fascinadas diante do ídolo.

Sua história musical tão decantada por diversas formas de mídia se confunde com a vida de gerações de brasileiros comuns, aqueles que aprenderam a cantarolar suas canções, enquanto varrem as ruas, atendem nos postos de gasolina, ouvem o rádio dos automóveis, sintonizam pequeninos transmissores no alto amazonas, ligam receptores de tevê nas praças das cidades interioranas dos rincões nacionais, acorrem a shows em grandes casas de espetáculos, no nordeste ou no sul, se ligam atentamente aos especiais transmitidos em rede nacional nos finais do ano, como parte das comemorações natalinas e até incorporam expressões suas que podem servir para orações contritas ou para declarações rasgadas de amor e paixão.

Se ele passou por poucas e boas, ao longo da sua vida pessoal e profissional, soube conservar uma característica que é fundamental para a comunicação social, fala com o coração a linguagem da sua gente brasileira, independente de idade, credo, raça, classe social, e costuma enfatizar mesmo é o amor que o une ao seu público.

Isso lhe confere um lugar cativo como o Rei, embora, nas entrevistas e declarações se apresente sempre como o humilde homem que veio lá de seu pequeno Cachoeiro de Itapemirin para conquistar o mundo musical e sagrar-se o mais comunicativo entre tantos talentos, aquele que se identifica em forma e conteúdo com os intrincados aspectos da semiologia dos significados que garantem o feed back dos receptores e dos diversos públicos.

O que se viu no Maraca lotado foi uma partida espetacular onde o jogo se resumia a vários gols de placa marcados por um astro que é craque da empatia popular, o mesmo Roberto Carlos cujos símbolos são cultivados carinhosamente por décadas, apresentou-se com o tradicional “calhambeque”, vestiu-se de branco, lavou a alma dos seus súditos, garantiu a audiência do Oiapoc ao Chuí, na noite de um sábado frio e chuvoso, e levou ao delírio gente de todas as partes, de todas as espécies, de todas as idades, repetiu canções que todos sabiam de cor, riu e chorou, abraçado ao amigo Erasmo Carlos, e à maninha Wandeca, levou paz a milhões de espectadores que, por algumas horas, esqueceram da violência e vivenciaram o que ele define simplesmente como amor entre ele e seu público.

Edgard Morin teorizou bastante sobre os Olimpianos e como suas vidas passam a ser vividas por seus adoradores, Roberto é um deles, mas vai além do simples Olimpiano da mídia industrial porque ultrapassa modismos, movimentos, atenua diferenças, consegue apresentar-se junto de um Caetano Veloso no Teatro Municipal para comemorar 50 anos da Bossa Nova, tem suas músicas cantadas nas igrejas de várias religiões, quando fala da espiritualidade e de Jesus Cristo, tem ainda um percentual respeitável das chamadas “ trilhas sonoras de motel”, atende aos casais enamorados nas diversas fases das suas vidas afetivas, reverencia as mulheres de 40, as que usam óculos, as baixinhas, as gordinhas, as abandonadas, as sonhadoras, e aos homens, empresta bons argumentos para conseguirem conquistas ou para lograrem reconciliações.

Ter um CD do Roberto na manga do colete, ou no MP4, deixar que algumas das suas centenas de músicas aguardem para serem ouvidas ou cantadas no momento certo. Há sempre uma delas destinada ao instante necessário, até aquela do “Cachorro que sorriu latindo”, quando o homem volta pra casa e espera ser recebido de braços abertos pela família.

Engenhosidade, senso de oportunidade, feeling, estrela, tenacidade, boa produção, cuidadosa escolha de repertório, e voz macia com trejeitos de homem que conserva o menino que todos gostariam de proteger, são tantas emoções e tantos ingredientes que concorrem para fazer dele uma unanimidade nacional, apesar dos narizes torcidos de alguns, quem não se rendeu alguma vez a um canto do gênero: Como é grande o meu amor por você?

Pois a noite de 11 de julho, segundo ele próprio, foi a maior emoção da sua vida, uma vida de um persistente brasileiro dedicado ao que escolheu fazer, de homem com talento aliado a trabalho, de pessoa sensível ao movimento que invade a alma de um povo que o sente tão próximo, que faz dele um quase irmão, quase confidente, quase vizinho, um personagem quase comum que é ao mesmo tempo um Rei com um reinado bem delineado.

O seu trono é alma do povo brasileiro e o cetro que empunha é o coro de milhões de vozes que podem ser ouvidas nos confins, além do maracanã, muito além da lógica e bem mais além do horizonte da mídia. Onde deve ter um lugar tranqüilo pra nossa gente amar a saga do Roberto Carlos, tanto assim.

Aparecida Torneros, jornalista, escritora e professora universitária, mora no Rio de Janeiro. Esta crônica foi postada originalmente no Blog da Mulher Necessária (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com), editado pela autora.

jul
13
Posted on 13-07-2009
Filed Under (Artigos, Multimídia, Regina) by vitor on 13-07-2009

Pic-nic no parque
festival
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CRÔNICA / CALIFORNIA DREAM

DOMINGO NO PARQUE

Regina Soares

É verão na Califórnia, o Estado Dourado (Golden State), faz jus a seu nome. Dias brilhantes de sol que nos empurra pra fora de casa, especialmente se é Domingo. Para mim só tem um caminho: O Parque Stern Grove www.sterngrove.org no coração de San Francisco onde desde 1932 se realizam concertos musicais grátis para um publico cada vez mais numeroso e diversificado.

O Stern Grove é um lugar lindíssimo, um clarão no meio de uma pequena floresta de eucaliptos. Foi adquirido por Rosalie M. Stern e entregue a cidade de San Francisco em homenagem ao seu esposo Sigmund, um destacado líder cívico. Encantada com a acústica do local, Mrs. Stern determinou que o local seria preservado como parque no qual o publico pudesse desfrutar, “admission-free” (sem custo), de apresentações de musica, dança e teatro, aumentando assim a fama mundial que San Francisco desfruta como reconhecido centro cultural.

Nesse Domingo (12), a atração principal foi Joan Baez, como sabemos, uma legenda da musica folclórica dos Estados unidos por mais de 50 anos. A, reconhecida mundialmente guitarrista, vem fazendo musica como forma de despertar consciência social, desde o deplorável ate o glorioso da condição humana. Nos anos 60’s e 70’s ela esteve lado a lado com Martin Luther King Jr., Cesar Chavez, Bob Dilan, Woody Guthrie, entre outros. Baez continua impressionando com sua voz suave e sua postura de ativista social, como nesse Domingo, quando ela dedicou sua apresentação aos Iranianos que saíram as ruas clamando por liberdade e justiça em seu pais.

Quem me conhece, e ate os que nem tanto, já devem saber que musica, e arte em geral, são como o ar para mim, vital! Acredito que tem forca de apaziguar, ativar, apaixonar, envenenar, inebriar, aclarar, revolucionar, e por ai vai… não tem como subestimar a influência em nossos atos e na direção que damos a nossas vidas. Joan Baez é só um exemplo disso.

Regina Soares é advogada, mora em Belmont, área da Baia de San Francisco, Califórnia (EUA)

jul
12

“Como explicar sabor do murici pisado com rapadura?”
murici1
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CRÔNICA/SENTIMENTOS

DUAS OU TRES COISAS SOBRE MARIO LIMA

Janio Ferreira Soares

Como bem disse mestre Vitor Hugo, ele era uma figura das mais raras. Com os amigos, plácido como os remansos que o São Francisco formava nas encostas de sua Glória natal. Com os adversários, forte como as águas do mesmo rio, que mais na frente desembocavam nas cachoeiras de Paulo Afonso. Assim foi Mário Lima, ou melhor, Marão, que era como eu o chamava durante nossos longos papos, ultimamente (que pena!) só por telefone.

Costumo dizer que quem nasceu ou viveu por esses lados do Brasil sempre levará consigo, até o último suspiro, fatos e acontecimentos que ficam definitivamente anotados na memória. É que o sertão, assim como os ferros que marcam o couro do gado com as iniciais do dono, também deixa na gente dezenas de lembranças que são quase impossíveis de apagar e de explicar.

Como traduzir para uma pessoa, por exemplo, o gosto de um leite espumando, ainda quentinho, saído diretamente do peito da vaca, se ela só tomou o de pacote? Como chegar para alguém e explicar que cheiro tem as flores do tamarineiro ou o vento que sopra antes da chuva chegar, se ele mora numa cidade de concreto? E como dizer pro seu vizinho de apartamento que o mesmo Sol que esturrica árvores, chão, animais e bem-te-vis, no final da tarde nos dá de presente um deslumbrante céu alaranjado, cenário perfeito para ecoar o som da difusora da praça tocando a Ave Maria? Sinceramente, só pra quem é daqui. E Mário, apesar de cidadão do mundo, nunca deixou de sê-lo.

Prova disso é que toda vez que eu escrevia um artigo que falava sobre esses sentimentos ele vibrava e dava um jeito de falar comigo, apesar de, na época, eu morar no meio do mato e ter como único meio de comunicação um velho telefone via rádio, que vivia a mercê dos humores dos ventos que sopravam de Paulo Afonso. Foi o que aconteceu quando eu fiz o artigo A Noite dos Filhos Ausentes, que fala sobre a volta dos filhos de Glória que moram em outras cidades para festejar a trezena de Santo Antônio.

Nesse dia ele me ligou e, animadíssimo, apesar de já meio adoentado, ficou horas e horas lendo cada parágrafo pra mim, como se eu não soubesse o que eu mesmo tinha escrito. “Veja que maravilha, Janio”. E lia, com a sua voz deliciosamente familiar: “Pena que muitos glorienses da pesada não podem vir. Para eles, uma sugestão. Nessa noite, pensem num som de zabumba e pífano tocando no pátio da igreja e no chiado dos foguetes subindo e espalhando seus pequenos fragmentos de luz pelo céu. E se por acaso a boca salivar, liguem não, é apenas a velha memória lembrando de um tempo em que os tamarindos e umbus-cajás pareciam eternos”. E completava, rindo e emocionado: “Janinho, você é um porreta!”.

Sem querer bater na trave da pieguice – mas já batendo -, tenho pra mim que antes de virar pequenos fragmentos de luz pelo céu ele ouviu zabumbas, foguetes, matracas e sinos, e sentiu no canto da boca o gostinho de um murici pisado com rapadura num velho pilão de um alpendre qualquer. Que sacanagem com a gente, Marão!

Janio Ferreira Soares, cronista, nascido em Glória – como Mario Lima que acaba de partir – é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no Vale do São Francisco.

jul
11
Posted on 11-07-2009
Filed Under (Artigos, Ivan) by vitor on 11-07-2009

Deu na coluna

Na Tribuna da Bahia, edição deste sábado(11), o jornalista Ivan de Carvalho divide a sua coluna em três comentários sobre temas políticos na ordem do dia, com título unificado: “O idioma, o escândalo, o prazo”.São todos eles assuntos verdadeiramente dignos de notas, que levados ao leitor com o estilo único de Ivan, ficam mais dignos e interessantes ainda. Bahia em Pauta reproduz a seguir o primeiro. E recomenda os demais. Confira. (VHS)
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Lula:reformador idiomático
kibe
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O idioma, o escândalo, o prazo

Ivan de Carvalho

1 – O presidente Lula, que terá chegado à noite a Brasília, procedente da Europa, disse lá, ontem, que os senadores (referia-se aos do Brasil) são “inquadráveis”. Assim, inventou uma palavra, o que, neste caso, e tendo em vista a natureza do vocábulo inventado, se não sinaliza conhecimentos vernáculos do presidente que recentemente reformou o idioma por decreto, confirma-lhe a criatividade lingüística, malgrado a língua presa.

Os senadores são “inquadráveis” por não poderem ser enquadrados pelo presidente, que se referia à decisão do senador José Sarney, presidente do Senado, de optar pela instalação da CPI da Petrobras para atenuar as pressões da oposição e de outros setores a respeito dos escândalos que envolvem o Senado e o próprio Sarney, pessoalmente. Referia-se também à “desobediência” da bancada do PT que manteve, “pro forma”, a posição favorável à licença de Sarney por 30 dias, apesar de pedido de Lula em contrário.

Se prosseguir como reformador idiomático e criador de palavras, a colaboração de Lula no setor acabará lhe jogando nos braços o Prêmio Nobel de Literatura.

LEIA INTEGRA DA COLUNA DE IVAN DE CARVALHO NA TRIBUNA DA BAHIA

jul
11
Posted on 11-07-2009
Filed Under (Artigos, Gilson) by vitor on 11-07-2009

Flavio Luiz: talento baiano na prancheta
flavio

CRÕNICA/PERFIL
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O SALTO DO GÊNIO

Gilson Nogueira

“O cartunista baiano Flávio Luiz (hoje ilustrador da África) é um dos 50 convidados para participar do álbum comemorativo dos 50 anos de carreira de Maurício de Souza, criador da Turma da Mônica, ao lado de nomes como Ziraldo, Laerte, Fábio Moon, dentre outros”.

Nelson Cadena, publicitário, redigiu a nota acima para a sua coluna Mídia, do Jornal da Metrópole. O JM, senhoras e senhores, leitores do Bahia em Pauta, é um veículo impresso, em tamanho tablóide, distribuído, gratuitamente, às sextas-feiras, na Grande Salvador. Por sua qualidade editorial, segundo alguns de seus leitores mais assíduos, acaba tão rápido quanto cerveja gelada em dias de sol forte na praia do Porto da Barra.

Cadena não me conhece. Portanto, não seria capaz de aquilatar a satisfação que experimento ao ver Flávio, meu irmão caçula, entre os cobras do cartum do país na edição comemorativa do ciqüentenário de estrada de Maurício de Souza.

Por acompanhar a carreira de Flávio, desde o dia em que ele, ao nascer, fez com um lápis que caiu no seu berço uma caricatura de Deus, entendo que os fãs desse baiano genial, bem como a Turma da Mônica, devem estar felizes da vida com o convite feito ao cartunista dono de traço mágico para engrandecer a obra que saúda o bruxo responsável por fazer a HQ brasileira ser mais valorizada, através de seus personagens encantadores, como o é Cebolinha.

Lembro de Flávio pequenino, no chão da sala de jantar, rabiscando coisas. Entre uma olhada e outra no que ele desenhava, no papel, via figuras que se movimentavam, sem que ele percebesse. Um dia, imaginei que um daqueles personagens iria sair dali e ganhar o mundo. Fiquei calado, não disse nada a ele, nem a ninguém, em casa. Segui conferindo confiante, torcendo, rezando e testemunhando o crescimento fantástico do trabalho de Flavinho. Até que, de repente, aquela figura, que ameaçava saltar do caderninho de Flávio Luiz, mais que depressa virou gente e deu um salto sensacional, para ser amada no mundo inteiro. Com vocês, ele, Aú, o capoeirista!

Acessem http://www.auocapoeirista.com.br

Gilson Nogueira é jornalista
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PS Escolas do interior paulista que não obtiveram uma boa avaliação do IDESP (Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo) receberam uma lista de projetos pedagógicos a escolher, nos quais podem desenvolver programas paradidáticos que ajudem a melhorar o desempenho de seus alunos. Entre os projetos encontra-se um específico com a utilização de quadrinhos e para tal a indicação foi a utilização do álbum recém lançado pela editora Papel A2, AÚ, O CAPOEIRISTA, de autoria de Flávio Luiz. O IDESP (Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo) é um indicador de qualidade das séries iniciais (1ª a 4ª séries) e finais (5ª a 8ª séries) do Ensino Fundamental e do Ensino Médio”
Traço marcante de Flávio
capoeira

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