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Posted on 07-10-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 07-10-2009

Dilma abre o coração em O Globo/img. Arquivo
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CRÔNICA / SENTIMENTOS

O coração da candidata Dilma

Aparecida Torneros

A entrevista publicada no domingo, dia 4 de outubro, no Jornal O Globo, Rio de Janeiro, é precedida de um esclarecimento que antecipa aos leitores sobre as circunstâncias do “ping-pong” que se segue. O box introdutório menciona “adversidade”, reencontro da entrevistada Dilma Housseff com o entrevistador Jorge Bastos Moreno, fala da sobrevivência diante da doença, da cura anunciada para o câncer após tratamento e na longa conversa que se iniciou num café da manhã e se estendeu quase até a hora do almoço.

O jornalista deixa entrever que a ministra abriu mão da agenda oficial para divagar nas ondas da emoção que é recuperar a sede de viver, citando inclusive ” Hoje percebo a intensidade da tarde. Observo atentamente o que o vento faz com as folhas das árvores, sinto o perfume das flores e o cheiro da terra”.

A partir daí, segue-se um abrir de um coração de candidata, ou melhor, um coração feminino, prestes a se “apaixonar” por algo ou alguém mais humano e menos administável, do ponto de vista de qualquer autor de novela, digamos que a reportagem em destaque no jornal carioca, revela uma “nova” Dilma, que relembra até as novelas que assistiu ainda jovem, na cadeia, acompanhada das outras presas políticas.

Mas, ela vai além, repensa sobre a paixão, fala de literatura, de música, aliás, canta algumas letras famosas, segundo seu interlocutor, o jornalista Moreno, hábil no mister de deixar a entrevistada tão à vontade que ela responde “infelizmente não”, logo de cara, à primeira pergunta formulada. -” A senhora está namorando? Está apaixonada?”

Assim, o que é possível ler, tanto ao pé da letra, como nas entrelinhas da peça jornalística, traz o perfil dos sentimentos de uma mulher como qualquer outra, que vê a vida com olhos de quem precisa divulgar que convive bem com a solidão, porque, na verdade, ela mesma classifica ” é o bom convívio consigo mesmo”.

Dilma lista suas preferências musicais, tão variadas e de um teor eclético presumível para quem trafega em mundos populares e eruditos, com a missão profissional de melhor entender o povo ao qual se postula como possível candidata a governar, em eleições que esmiuçarão tudo, desde de sua vida pessoal, passando pelo seu comportamento político, e incluindo o nível de equilíbrio necessário para alguém que pode vir a comandar um país como o Brasil.

Se candidata, e se eleita, pela primeira vez, o Brasil terá uma mandatária usando saias , batons e brincos, sem perder de vista que estarão a seu cargo, como chefe do Executuivo, observar com atençaõ os números do PIB, os investimentos necessários para o crescimento da renda per capita das classes mais baixas, e ainda, manter-se serena e conciliadora, por vezes, e noutras, ter pulso firme, apaziguar questões adversas, articular apoios, ser “anticaos”.

Ela cita o livro “anticâncer” como o que mais ganhou durante a fase difícil da doença que enfrentou, diz que deve ter recebido uns 20 exemplares, que o leu, que valeu a pena e que o distribuiu em São Paulo, provavelmente, entre os doentes que conheceu.

A entrevistada relembra o personagem Sinhozinho Malta, vivido pelo ator Lima Duarte, e conta que a primeira novela que lembra de ter assistido foi Irmãos Coragem, nos tempos da cadeia. Dilma solta-se pelos caminhos sensitivos da musicalidade, da literatura, da tietagem por Roberto Carlos, do qual diz gostar demais, e aponta “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos”, como uma das suas preferidas.

Cantarola uma do Chico : ” A Rita levou meu sorriso, no sorriso dela …” e se diz apaixonada por aquela intitulada “Quem te viu , quem te vê”. Destaca o trecho que gosta mais: ” Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria, quero que você assista, na mais fina companhia”.

Do Gil, ela fala em Procissão, e tenta lembrar outras, e do Pinxiguinha, ela lembra de Rosa. Canta uma parte memorável; ” Tu és, divina e graciosa, estátua majestosa do amor, por Deus esculturada”

Mas quando se refere a Noel Rosa, a ministra canta inteira a que fala na Noite de S. João. “Nosso amor que eu não esqueço, e que teve seu começo numa festa…”

A entrevista, que ocupou página inteira, e ainda prossegue em meia página mais adiante, acrescenta muito mais sobre os gostos musicais e literários da Dilma candidata, da Dilma cantadora, da Dilma sobrevivente de doença grave, da Dilma que adora João Cabral de Melo Neto, que chega a lembrar dos sonhos infantis, um deles, segundo ela, o que durou mais tempo, o de ser bailarina.

O inusitado da reportagem, em termos de informação ao público que, estatisticamente, parece mesmo conhecê-la ainda muito pouco, e deve ter sido o fato de que um jornal de grande circulação, num domingo de amplo espectro de leitores, se dispôs a divulgar o coração da candidata Dilma.

Uma senhora que está sendo preparada para tentar a disputa no pleito máximo da condução dos caminhos nacionais, e que, até agora, falava de pré-sal, de usinas termo-nucleares, de obras e orçamentos para o programa de aceleração do crescimento, ou se defendia de tiroteios políticos naturais que partem de adversários também interessados na mesma luta pelo poder, ou na democrática e oportuna onda de colocações plausíveis entre situação e oposição.

Pois a “poderosa” Dilma foi apresentada, “frágil”, de coração aberto, digamos assim, entre os devaneios do seu interlocutor, ou os sonhos agora difundidos para os homens disponíveis que se habilitarem a se candidatar a um lugarzinho especial no tal “coração apaixonável” ( por que não?) da candidata a nossa chefe de Governo.

O próprio Jorge Bastos Moreno deixou escapar no seu texto que ” esse é o mistério que a campanha eleitoral certamente não vai revelar – uma pena para um país que nunca teve um primeiro-damo”.

Aparecida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, e edita o Blog da Mulher Necessária, onde o texto foi publicado originalmente) (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com)

out
06
Posted on 06-10-2009
Filed Under (Artigos, Laura) by vitor on 06-10-2009

France Telecom: “suicídios assustam”
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ARTIGO / PRESSÕES

Por trás dos suicídios na France Telecom

Laura Tonhá

Notícias de suicídio sempre assustam, estamos pouco preparados para lidar com a desistência diante da vida. A nossa cultura: ocidental, global, midática, séc. XXI reza que a vida é “maravilhosa” e que só não é feliz, lindo e rico quem não quer. Difícil entender porque num mundo tão “maravilhoso”, o suicídio seja uma opção cada vez mais freqüente.

A onda de suicídios na France Telecom talvez não tenha tido a cobertura na imprensa mundial que o fato merecia, ou uma análise mais profunda que explicasse o que leva 24 funcionários de uma empresa a se suicidarem num período de 1 ano e meio.

A morte mais recente aconteceu no último dia 28, um funcionário atirou-se de um viaduto, depois de escrever uma carta denunciando o clima profissional vivido no seio da gigante das telecomunicações francesa.

De acordo com a AFP, rede de notícias da França, o empregado trabalhava numa central de chamadas da France Telecom em Annecy, nos Alpes. Casado e pai de dois filhos, o homem de 51 anos deixou dentro do carro uma carta dirigida à sua mulher, “evocando o sofrimento vivido no contexto profissional”. A mulher do suicida explicou aos investigadores que “o seu marido se encontrava muito depressivo há vários meses”.

Os sindicatos informaram que o funcionário tinha sido transferido recentemente para uma central telefônica onde as condições de trabalho são péssimas.

“É aterrorizante. Ele trabalhava numa secção conhecida há muito tempo por ser insuportável, havia uma verdadeira indiferença, nenhum calor humano, não se falava senão de números, os empregados eram carne para canhão”, palavras de Patrice Diochet, do sindicato CFTC.

Conforme notícias da AFP, também no mês de setembro, um técnico de 48 anos da cidade de Troyes esfaqueou a si próprio durante uma reunião, após ouvir que teria que mudar de função; e uma mulher de 32 anos cometeu suicídio em um dos escritórios do grupo em Paris, a funcionária pulou da janela do quarto andar de um prédio após uma reunião.

Os sindicatos afirmam que todo esse desespero é causado pela reestruturação crônica da France Telecom e por pressões no ambiente de trabalho.

O Blog de Luiz Nassif explica que a empresa francesa implantou uma política de “mobilidade sistemática” de seus “cadres” ( quadros técnicos e administrativos com cargos de chefia intermediária). Por essa política, a cada 3 anos esses funcionários são transferidos de local de trabalho. Além disso, estabeleceu metas individuais de produtividade que geram uma concorrência insuportável entre colegas de trabalho, metas, aliás, consideradas por trabalhadores e sindicalistas geralmente impossíveis de serem atingidas com os meios materiais disponíveis.

A editora de Época Negócios, Alexa Salomão, escreveu em sua coluna: “A France Telecom não é “uma qualquer”. Foi uma estatal poderosa, privatizada no final dos anos 90. O Estado detém 26% do capital, o que ainda faz dela um patrimônio francês. Seu lucro, no ano passado, superou os quatro bilhões de euros. Mais de 100 mil pessoas trabalham na empresa. Por tudo isso, o que está ocorrendo lá – e da forma como está ocorrendo – ultrapassa a fronteira do surreal”.

Surreal em qualquer lugar, mais surreal na França, mundialmente conhecida por trabalhadores engajados em seus direitos; local onde práticas como o “boss-napping” (sequestro de executivos de empresas, que vão demitir pessoas, para negociação de melhores condições para os trabalhadores) recebem apoio da população.

Paulo Nogueira, editor do blog Diário do Mundo, em reportagem sobre a França, ressalta que o francês tem uma relação com o trabalho bem diferente do que se vê nos Estados Unidos, e consequentemente no Brasil. A vida fora do escritório faz parte da cultura dos franceses, os americanos vêem isso com a mesma desconfiança misturada com desprezo com que os franceses vêem a cultura workaholic e consumista entranhada nos Estados Unidos.

De acordo com Nogueira, um executivo que trabalhou na França escreveu há pouco um artigo revelador para o New York Times em que relata sua dificuldade:  “Meus superiores me avisaram para evitar a palavra changement (mudança) nas conversas com minha equipe; “evolução” seria mais palatável. Mudança está associada a idéias e conceitos importados, coisa que é difícil de engolir para os franceses”.

Talvez isto explique um pouco porque 24 trabalhadores franceses preferiram a morte a seguir o padrão “workaholic”, para não dizer selvagem, que grandes empresas adotam para concorrer num mercado global.

Lembro-me de uma conversa recente com um amigo psicólogo em que ele dizia que a psicologia nas organizações é uma farsa. Nas palavras dele, ainda que psicólogos organizacionais estejam “na moda” e ganhem muito dinheiro com pesquisas de clima e cultura organizacional, entre outras técnicas de análise das relações humanas corporativas, no final das contas, o que prevalece nas empresas privadas é o lucro. E por ele vale tudo.

Depois das 24 mortes o presidente da France Telecom, que não divulgou seus próprios dados sobre os suicídios, anunciou um congelamento temporário das transferências e mudanças de funções de funcionários até o final de outubro. E foi só. O salve-se quem puder está legalizado.

Laura Tonhá, publicitária baiana, é uma das criadoras do Bahia em Pauta.

out
06
Posted on 06-10-2009
Filed Under (Artigos, Laura, Multimídia) by Laura on 06-10-2009

Continua “bombando” na web a entrevista, do mês passado, no Jô Soares, da consultora sensual Suzana Leal. Vale a pena assistir é uma aula de bom-humor e sabedoria diante dos revezes da vida. Suzana perdeu o marido para uma grande amiga e deu a volta por cima; também montou seu próprio negócio, depois de algum tempo longe do mercado de trabalho, e hoje é uma empresária de sucesso.  

A primeira parte da entrevista segue abaixo. Para assistir a continuação basta clicar ao lado. Parte 2  Parte 3 Parte 4  Boas risadas.

Por Laura Tonhá

out
06
Posted on 06-10-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 06-10-2009

Deu em Terra Magazine

A revista digital Terra Magazine publicou sábado passado, 3, artigo do jornalista Francisco Viana, sobre os 40 anos anos do surgimento do jornal Tribuna da Bahia, evento marcante que se celebra neste mês de Outubro, e o impacto da forma e conteúdo do jornal pensado e conduzido em seus primeiros anos por Quintino de Carvalho.

Bahia em Pauta reproduz a seguir o texto de Viana, que fala também do jornalismo que então se praticava na Bahia .Confira. (Vitor Hugo Soares)

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Chico Viana: atento às mudanças/img. TM
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OPINIÃO/ JORNAIS

UMA ÉPOCA DE OURO

Francisco Viana (De São Paulo)

Hoje, vou dedicar a coluna à Tribuna da Bahia que está fazendo 40 anos. Faço-o porque seminal para toda uma geração de jornalistas, uma época fundadora. Quando a Tribuna da Bahia começou a circular – as imagens daquele tempo desfilam na memória como um filão encantado – eu trabalhava em A TARDE. Foi uma revolução. Na redação, não se falava de outra coisa que não fosse o novo concorrente. O que fazer?

A Tribuna era aguerrida. Sua redação criativa e muito jovem. Cultivava a magia da palavra, o veneno da palavra, a força do fato, explorava as contradições do fato. A TARDE era o contrário: uma redação de profissionais da antiga que começava, timidamente, a se oxigenar com a chegada dos alguns poucos repórteres recém-formados. Vivia de fama, da reputação modelada nos tempos do Dr. Simões Filho, o liberal conservador que fundou o jornal. Seus olhos, nada ingênuos, fixavam-se em duas instituições basilares: a Igreja e as Forças Armadas. Mas equilibrava-se ao centro e seus movimentos gravitavam no rumo do liberalismo clássico. Seu redator-chefe, o venerando Jorge Calmon era um esteio contra o obscurantismo do regime. Anticomunista, orgulhava-se de proteger os jornalistas de esquerda ou contrários ao regime. Enfim, um jornalista honrado que acreditava genuinamente no modelo liberal de fazer jornal.

A TARDE estava acomodada no tempo-espaço da história passada. Sua diagramação lembrava os jornais dos anos 30: pesada, sem vida, produto de uma cultura burocrática, onde a rotina era encher as páginas, não a arte de torná-las atraente para o leitor. Enquanto a primeira página da Tribuna tratava as noticias como um filme de arte, A TARDE lembrava um filme do cinema mudo, com imagens que nada falavam e textos eternamente privados de voz. Mas A TARDE reagiu. E reagiu com vigor. Passou a buscar criatividade, trabalhar melhor os fatos, pensar mais a cidade, dar mais atenção às reportagens. Onde foi encontrar tanta energia? Na sua história, na sua fundação, nas campanhas em defesa da Bahia e dos baianos que tanto se orgulhava. Corria a lenda que o baiano preferia deixar de comer o pão a deixar de comprar A TARDE. Foi esse mito de fundação, digamos assim, que nutriu o jornal de entusiasmo, de uma apaixonante vontade de fazer.

Entre os que comandaram a ofensiva, três nomes se destacaram, à época – José Curvello, Fernando Rocha e Brito Cunha. Revezavam-se na chefia de reportagem. Experientes, tiveram inestimável valor educativo. Lideravam. E havia também alguns jovens vindos da Faculdade de Jornalismo da UFBA, entre eles Vitor Hugo Soares (colunista de Terra Magazine), Agostinho Muniz e Suzana Serravalle, esta uma das raras mulheres repórteres, inspirava a redação com uma glamorosa combinação de beleza, elegância e inteligência.

A turma da faculdade sabia escrever. Tinha visão quanto ao jornalismo moderno que começava a ser entronizado no dia a dia da cidade. Levou para a redação uma maior profundidade na compreensão da realidade, sobretudo a realidade política. Na “guerra” com a Tribuna – sim, era uma autêntica guerra – A TARDE tinha um trunfo e soube aproveitá-lo. Era matutino. Fechava às 10 da manhã. Como a Tribuna era vespertina, muitas vezes tirava partido do tempo para dar furos. Lembro de um acidente de avião em que morreram vários oficiais da casa militar do Governo. Os corpos chegaram a Salvador depois da meia noite. A Tribuna mobilizou seus melhores repórteres, entre eles Sérgio Mattos, mas A TARDE saiu na frente.

Era assim. Uma vitalidade prática. Uma mistura de criatividade e ação. A concorrência era pedagógica. Aprendi muito na redação de A TARDE – a velha e a nova guarda. Era uma redação unida, solidária. Aprendi principalmente com Vitor Hugo, de gestos calmos, mas de inabalável firmeza de atitudes. Creio, foi graças a ele que comecei a ler e estudar Marx e, também, a pensar o Brasil pela ótica do antigo ceticismo grego, sempre determinado a demolir verdades e buscar a compreensão da totalidade e das contradições dos fatos. Mais tarde, já em O Globo, no Rio de Janeiro fui compreender que o jornalismo é mais ou menos como a dialética marxiana: uma aproximação dos fatos por ondas sucessivas, mas sempre atenta aos dados da realidade. É o que se chama da análise concreta da realidade concreta. Marx desenvolveu seu método a partir de Hegel, mas foi o jornalismo que o ensinou a valorizar os fatos. E o que fez dele um grande jornalista. Quem lê o 18 Brumário de Napoleão Bonaparte se surpreende com o absoluto rigor na tratamento dos fatos. Ou seja, a análise da realidade histórica é feita a partir do real.

Voltando à redação de A TARDE. Eu estava com 18 anos. Ainda não tinha cursado a Faculdade. Ficava encantado com o modo da Tribuna escrever, com a edição do jornal, com a vitalidade da reportagem. E vivia na redação. Chegava as 7 da manhã, saia às vezes às 10 da noite. A redação ficava na Praça Castro Alves. Ainda ouço a algaravia das cansadas máquinas de escrever, ainda vejo a luz fosforescente a iluminar as arcaicas mesas de madeira um tanto carcomida e posso ouvir os gritos de Curvello pedindo pressa porque o jornal precisava adiantar o fechamento para a manhã seguinte. É uma paisagem não fugitiva, a despeito da passagem do tempo.

Participei ativamente da virada de A TARDE. Suava a camisa. Havia duas publicações me fascinavam, à época. A Tribuna e a revista Realidade. Sabia o nome dos repórteres de memória e, também, das reportagens. Lia também o L’Express e o Le Monde Diplomatique, mas com dificuldade pois ainda dava os primeiros passos no aprendizado do francês. Era uma espécie de coringa. Podia estar fazendo uma reportagem sobre a seca em Irecê ou juazeiro, como um desastre de avião ou um buraco de rua.

Foram anos preciosos. Visto à distância, foi uma época singular. Havia uma ditadura no país, mas a Bahia era uma espécie de éden. Servia de abrigo para os militantes sitiados no Rio de Janeiro e São Paulo. O emprego era fácil, a sociedade acolhedora e, na verdade, tornou-se uma espécie de divã de psicanálise nacional. E havia um dado que não pode ser esquecido: a industrialização, que se afirmava lentamente, gerava riqueza e dava base ao ciclo de renovação que faria da Tribuna um ícone e uma metáfora. Ícone, porque se tornou referência de jornalismo dinâmico e moderno. Metáfora porque simbolizava uma época de ouro que, infelizmente, se exauriu.

A palavra síntese daqueles tempos era concorrência. Saudável e ativa. Não a concorrência pela concorrência, mas a concorrência para fazer o melhor, servir ao leitor. Denunciar o regime nas entrelinhas. Um dado que me marcou até hoje foi o vigor ético da nova geração. Falava-se muito desse tema. Não de uma ética utilitária, mas de uma ética ditada pelo caráter das ações. Os recém-chegados da faculdade viam o jornalismo como uma profissão. Não um passaporte para conseguir empregos públicos. Navegavam no sonho de salários dignos e navegava-se no sonho da independência de opinião.

Os repórteres de A TARDE e da Tribuna, como também o Diário de Noticias e do Jornal da Bahia disputavam palmo a palmo o furo, a reportagem bem escrita, as manchetes. O JB mais à esquerda, mais cioso da sua intelectualidade, mais agressivo. O Diário de Noticias mais para o centro, mais governista, mais suave. Mas com uma redação competente. Fazia-se jornalismo. O bom texto, o bom repórter tinha valor. Respirava-se vontade de ir além das expectativas. Havia uma visão crítica da sociedade. Dava prazer trabalhar. A lógica dominante era da paixão pelo fazer acontecer. Se destacar. Visitar a estação do tempo de 40 anos atrás não é saudosismo, mas, sim, um tributo à memória. Como ensina Hannah Arendt é a memória que garante a eternidade da ação fugaz dos homens. Fico por aqui. Dedico este artigo a todos os companheiros daqueles tempos de guerra (contra a ditadura) e utopia (como vontade transformadora). Foi um privilégio ter participado daqueles dias e noites de recriação do jornalismo.

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Francisco Viana é jornalista, consultor de empresas e autor do livro Hermes, a divina arte da comunicação. É diretor da Consultoria Hermes Comunicação estratégica e colunista de Terra Magazine (e-mail: viana@hermescomunicacao.com.br )
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out
05
Posted on 05-10-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 05-10-2009

Acenos da janela
ivexuxa
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OPINIÃO DO LEITOR

“BAIANO NÃO NASCE, ESTRÉIA”

Carlos Lima Cavalcanti Neto

A Bahia ocupou nas décadas de 60 e 70 lugar de destaque nos cenários cultural e político brasileiro. Daqui saíram artistas como Gil, Caetano, Bethânia e Gal, Tom Zé, João Gilberto… Isso, aliás, é do conhecimento de todos. Uma peculiaridade desses artistas é que além de executar belissimamente seus ofícios ainda se inseriam no contexto político, demonstrando suas indignações quanto ao período em que vivíamos sob a ditadura militar ou, mesmo, lançando o Tropicalismo, movimento político-cultural, que até hoje ainda sofremos a influência, positiva é claro.

A partir da década de 80, com o retorno do país à democracia, mudanças bruscas aconteceram. Na economia vivemos um dos piores períodos do século. Tanto que essa foi considerada a década perdida. Isso influiu fortemente na área cultural, principalmente em nossa terra. A partir de 1983, surgiram bandas e cantores com uma proposta diferente: alterar o ritmo e as letras das músicas tocadas no carnaval da Bahia. As marchinhas e as músicas inteligentes de Dodo e Osmar e Moraes Moreira davam lugar à letras pobres e ritmos alucinantes. Surgia ali Chiclete com Banana, Asa de Águia, Cheiro de Amor, etc.

Com o passar dos anos, a grande quantidade de bandas e cantores iam se alternando no mercado da música, a maioria se desfazia na mesma velocidade dos ritmos e algumas poucas se firmavam nesse mercado, promissor e pouco exigente. Nesse ínterim outras bandas também surgiam, entre elas a Banda Eva e a cantora Ivete Sangalo. Essa cantora hoje figura no cenário nacional como uma das mais importantes e influentes artistas. Isso também o mais incauto dos brasileiros também já sabe.

Mas essa influência agora orbita não na política, não na cultura, mas no estrelismo pobre e sensacionalista das revistas de fofoca, dos programas da Xuxa e da Hebe Camargo. O nascimento de seu filho Marcelo parou quase um andar de um Hospital da Bahia, numa cópia caricata do nascimento da filha de sua comadre Xuxa, que veio visita-la. Pobre Bahia e pobre daqueles que deixam suas casas e suas famílias para tomar um ônibus e ir até a instituição ver por uma fresta a estrela da axé music. Enquanto muitos morrem nas filas dos hospitais de gripe e de verminose, o que torna essa ostentação descabida e desrespeitosa. Reservam um andar de um hospital para a estrela dar à luz a um filho.

A comparação até parece uma mesquinhez da parte desse que vos escreve, mas é o retrato nítido e incontestável da cultura baiana que transparece. Enquanto que as bandas como Olodum, Didá, Malê de Balê e outros, perecem com a falta de patrocínio e com as dificuldades financeiras.

(Carlos Lima Cavalcanti Neto é leitor e colaborador do Bahia em Pauta)

out
05
Posted on 05-10-2009
Filed Under (Artigos, Rosane) by vitor on 05-10-2009

Mercedes Sosa: indicação para três Grammys/img. Página 12
gracias
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O Grammy e Mercedes Sosa

Rosane Santana

BOSTON (EUA) – A rede de TV CNN e o jornal The New York Times noticiaram ontem a morte de Mercedes Sosa, a quem chamaram de “A voz da América Latina”. A intérprete imortalizada em cancões como “Gracias a la Vida” e “Volver a los 17”, ganhadora de dois Grammy Latino, concorre novamente ao prêmio que será entregue no próximo mês em Las Vegas, com o disco Cantora 1, seu último trabalho, indicado para três categorias, incluindo álbum do ano e melhor álbum folclórico.

Mercedes que já foi comparada a americana Joan Baez, também conhecida por seu estilo vocal distinto e opiniões políticas, não pode ser reduzida a categoria de intérprete do folclore latino-americano, como declararam apressadamente, logo após sua morte, alguns órgaos da imprensa mundial. Sua voz grave e potente, que brotava das cordilheiras e vales andinos, profundamente enraizada no seu passado e na sua cultura – politicamente engajada, quando os tempos lhe exigiram, o que lhe valeu o exílio -, cantou os mais variados estilos, folk, pop, MPB (em suas incursões com Milton) e bossa-nova.

O que verdadeiramente há de marcante nessa intérprete, além da voz inconfundível, personalíssima, é que quando cantava, Mercedes sempre colocava sua alma, parecendo encarnar os versos de Ricardo Reis, um dos heterônimos de Fernando Pessoa : “Para ser grande, sê inteiro, nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és. No mínimo que fazes…”, razao de sua profunda identidade com o povo latino e o que explica a sua grandeza e sua longevidade como artista- uma intérprete que superou o próprio tempo e se manteve por mais de meio século fazendo sucesso -, como prova sua recente indicacão para o Grammy.

Rosane Santana, jornalista, mora em Boston e estuda na universidade de Harvard.

out
04
Posted on 04-10-2009
Filed Under (Artigos, Multimídia, Newsletter, Vitor) by vitor on 04-10-2009

Despedida de Mercedes: fila e lágrimas em Buenos Aires
despedida

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No dia 11 de novembro de 2007 (o Bahia em Pauta ainda não estava nem em gestação), escrevi para publicação no espaço que disponho há anos, todos os sábados, no Blog do Noblat, um artigo intitulado “Ela (Mercedes Sosa) e elas”, que foi publicado tanbém no Ponto de Vista, espaço de Opinião do jornal Tribuna da Bahia.O texto fala de um momento político na América Latina marcado pela intensificação da participação feminina na política e no poder , que coincidia com o retorno aos palcos, no México, depois de longa ausência por motivos de saúde,da grande cantora argentina que morreu na madrugada deste domingo.

Quase dois anos depois o texto vai republicado. Agora no Bahia em Pauta, no dia da partida de Mercedes. Vai a título de informação deste site-blog, mas igualmente de tributo deste editor a uma das artistas que mais contribuiram para o amor do jornalista pela música e paixão pela América Latina.

Com um beijo de saudades no coração de La Negra. (VHS)

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ELA(MERCEDES SOSA) E ELAS

Vitor Hugo Soares (24/11/2007)

Miro a Cordilheira dos Andes e os altiplanos do México, enquanto no Atlântico Sul o tucano Fernando Henrique Cardoso sai do silêncio temporário e abre o bico em nova arrelia contra o seu sucessor no Palácio do Planalto, Luiz Inácio Lula da Silva, ao sugerir que o governante petista detesta a educação, “a começar pela própria”. O novo bafafá já se propaga pelos blogs – a começar por este do Noblat -, com a dura resposta do ministro petista Tarso Genro, e a briga, nem sempre em tons exemplares, promete ser das boas.

Acontece que ando meio saturado dos freqüentes ataques de ciumeira dessa relação tumultuada de amor e ódio entre FHC e Lula. Desvio a atenção para o suplemento cultural da edição “on-line” do jornal chileno “La Tercera”. Ali encontro uma notícia que espero há quase 10 anos: a cantora argentina Mercedes Sosa superou finalmente a enfermidade que a obrigou a um longo afastamento dos palcos e volta a espalhar pela América Latina, o seu canto inimitável, na série de apresentações pelo continente iniciada ontem na Cidade do México.

Em seu giro , Mercedes apresenta o espetáculo “Gracias a la Vida”, considerado pela crítica como um canto de louvor e entusiasmo renovado de quem sai de depressivo e prolongado fundo de poço. A amiga de Milton Nascimento e dos estudantes pode soltar o vozeirão outra vez em “Como la cigarra”, para mim uma de suas mais emblemáticas e comoventes canções.

“Tantas veces me mataron, tantas veces me mori,/ Sin embargo estoy aqui, resucitando”. Imagino à distância essa música se espalhando pela noite da capital mexicana neste final de semana, como tantas vezes vi os garotos e adultos de Buenos Aires fazerem na saída de teatros e casas de discos, quando a artista estava no auge. E como eu próprio me vi fazendo nos anos 70, em meu primeiro show com a argentina de Tucuman, em histórica noite no Teatro Castro Alves, em Salvador.

“Cantando al sol, como la cigarra/ después de um año bajo la tierra/ igual que sobreviviente/ Que vuelve de la guerra”. Desta vez, o mergulho de Mercedes foi mais longo do que uma simples estação. Aparentemente também, muito mais dolorido para a sua alma sensível.

Nos últimas décadas ouvi muito e vi de perto algumas vezes está que é uma das minhas cantoras preferidas. A última vez que estive próximo dela foi há cerca de dois anos, em Buenos Aires, quando Mercedes compareceu a uma apresentação do espetáculo em que o cantor e compositor Victor Heredia celebrava 30 anos de carreira em um teatro de Corrientes, no coração da capital portenha. Foi uma noite inesquecível, até mesmo pelo que deixou de acontecer, como a prevista canja da cantora.

Na platéia, Mercedes demonstrava profundo abatimento físico e parecia extremamente deprimida. Não subiu ao palco. Heredia pediu desculpas ao público e explicou que ela estava “muito gripada e afônica”, impedida de cantar. Agradeceu a presença da cantora no teatro, mesmo doente, e a casa quase vem abaixo de aplausos. Guardei comigo a impressão de que, no corpo e na mente da artista, se escondiam bem mais que um simples resfriado. E conservei a esperança de que, fosse o que fosse, seria passageiro.

Em sua ressurreição, constato agora com alegria que Mercedes Sosa não só voltou à superfície como manteve o prumo. De longe, a impressão é de que ela segue íntegra e fiel ao que sempre foi ao longo de toda a carreira. Quinta-feira, na véspera da primeira das três apresentações que fará no México – a última será neste domingo em Guadalajara –, convocou jornalistas para uma entrevista coletiva e aproveitou para fazer uma convocação política às conterrâneas da revolucionária Fryda Kallo: “As mulheres deste país devem sair a ganhar eleições, porque sabem o que custa manter a casa e manter o trabalho”.

Aos 72 anos, a intérprete que fez de “Coração de Estudante” um hino também da América Latina, chama a atenção para o bom momento das mulheres na política atual. Citou fenômenos como as mandatárias do Chile, Michelle Bachelet; da Alemanha, Ângela Merkel, e de sua conterrânea Cristina Kirchner, que tomará posse na Argentina nos próximos dias. Até ontem, pelo menos, Mercedes Sosa parecia desconhecer que o presidente Lula começa a colocar na fila dos nomes fortes à sua sucessão – o da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef.

Em sua passagem pela Cidade do México, a caminho de Santiago do Chile e de outras cidades da América Latina onde levará o show Gracias a la Vida, Mercedes Sosa rende um tributo especial aos estudantes mortos em 1968, no trágico massacre na Praça das Três Culturas de Tlatelolco, ocorrido em 2 de outubro de 1968, dias antes do início dos Jogos Olímpicos do México. Segundo grupos de direito humanos, o massacre deixou uns 300 mortos, a maioria estudantes, como registrou na época a premiada repórter Oriana Falacci nas reportagens que produziu dentro do olho do terremoto.

A cantora argentina fala da enfermidade, que a obrigou a recolher-se por longa temporada: “Cheguei a estar muito grave, em 97 os médicos entravam e saiam de minha casa sem saber o que eu tinha”. Mas aproveita para desmentir a quem anda espalhando por aí que este seja o seu giro de retirada dos palcos: “Nada disso”, reage. Bemvinda, Mercedes! Siempre.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitors.h@uol.com.br

out
04
Posted on 04-10-2009
Filed Under (Artigos, Janio, Municípios) by vitor on 04-10-2009

Paulo Afonso: “mil vivas aos Franciscos”
cachoeira
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CRÔNICA / FRANCISCOS

Flores para o rio que clareia a noite

Janio Ferreira Soares

Neste Domingo, 04 de outubro, comemora-se o dia de São Francisco, padroeiro de Paulo Afonso (BA) e rio do mesmo nome que, sabe-se lá como e quando, partiu das Gerais se arrastando feito cobra pelo chão até chegar aqui e se jogar por entre pedras, mandacarus e portais, isso bem antes de suas águas serem desviadas pra dentro de ferozes turbinas, que girando pás e eixos finalmente ampliaram a profecia do faça-se a luz – só que, dessa vez, em vez do Sol, iluminaram-se as noites nordestinas.

Os poucos que me lêem devem saber que eu o conheci ainda menino na velha cidade de Glória (BA), levado que fui por mãos fortes e carinhosas para molhar meus pés nas suas correntezas, numa espécie de apresentação a que muitas crianças ribeirinhas são submetidas quando se dão por gente. “Janio, São Francisco; São Francisco, Janio.” Começava ali a nossa história, apesar de só o descobrir de verdade mais adiante, quando subi numa goiabeira no quintal da casa de minha avó e o vi por inteiro passando em direção a Paulo Afonso, levando consigo toda a imponência e quietude daqueles que sabem a força que tem.

Esse é o São Francisco, rio com nome de santo (ou vice-versa), que os forasteiros adoram chamar de Velho Chico, enquanto nós, catingueiros de guerra e dependentes de suas águas, simplesmente o olhamos e o louvamos, assim como se olha e se louva um fim de tarde no sertão.

E para homenageá-los (o rio e o santo), vamos realizar uma procissão fluvial que passará por baixo da ponte que dá acesso a Paulo Afonso e que depois seguirá em carreata até a igreja de São Francisco, uma belíssima construção da arquitetura gótica datada de 1950, localizada no ponto mais alto da cidade. Inclusive, quando a procissão estiver passando, algumas pessoas planejam jogar pétalas de flores para amenizar um pouco as toneladas de lixo que diariamente são derramadas nas suas águas.

Justa e merecida homenagem, principalmente vinda de humanos. É que a velha e sábia natureza de há muito já faz a sua, matizando com suas cores a sua longa Via Crucis, que, apesar de todas as agressões, continua tendo forças para iluminar nossas vidas e, de quebra, ainda consegue adoçar um pedaço do mar das alagoas. Mil vivas aos Franciscos.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso (BA)

out
03

riodej

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Cida Torneros

Do senso de humor carioca, ninguém duvida, e logo que foi anunciada a vitória do Rio de Janeiro na disputa para sediar as Olimpíadas de 2016, começou a circular na internet, com notoriedade nas bandas dos usuários do twitter, uma frase brincalhona, parodiando o mote da campanha do presidente americano Obama.
– Yes, we “créu”!
Divulgada junto de uma imagem caricaturada que lembra o homem mais poderoso do mundo, mas com as feições modificadas para o saudoso Mussum, humorista carioca que fez parte da turma dos trapalhões.
A frase, galhofeira e oportuna, pelo teor de alegria que invade o povo brasileiro pela vitória em Copenhagem, é reflexo também da utilização pelo próprio presidente Lula, que se referiu ao fato de que agora nós podemos sim realizar a sonhada competição, pela primeira vez na América do Sul, no Brasil e no Rio de Janeiro, ao defender a candidatura emocionada da capital conhecida internacionalmente por suas belezas naturais.

humor

Mas o espirito brincalhão do carioca prevaleceu, e a imagem disseminada no mundo cibernético, lembra também o nosso Pelé, tem um pouco de cada mestiço brasileiro, traz um sorriso feliz e um certo ar de quem teve malandragem suficiente para esperar a sua hora… Afinal, o Brasil ganha o status de país capaz de capitanear um sonho de atletas, empresários, torcedores, governantes, jovens, crianças e idosos que gritam pelas ruas : Sim , nós podemos!

(Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro e edita o Blog da Mulher Necessária, onde o texto foi publicado originalmente: (www.blogdamulhermecessaria.blogspot.com)

out
03
Posted on 03-10-2009
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 03-10-2009

Lula e Pelé: emoção à flor da pele…
pelula
…que invadiu o Rio
BRAZIL-OLY2016-RIO DE JANEIRO
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ARTIGO DA SEMANA

AS FACES DA VITÓRIA DO RIO

Vitor Hugo Soares

Semana passada, no plenário da ONU, o presidente Lula reeditou o antigo “sapo barbudo” das lutas sindicais e políticas na região do ABC paulista nos anos 70. De cara amarrada e palavras duras, ele atacou os golpistas de Honduras, garantiu abrigo a Manuel Zelaya na embaixada brasileira em Tegucigalpa, defendeu o direito de retomada do posto de governo pelo presidente eleito, usurpado pelas armas. Em seguida, retomou as vestimentas franciscanas, que lhe têm caído como luva nesta década, para ajudar a produzir , ontem, uma vitória histórica para a América do Sul.

Em Copenhague ele jogou mais um papel tão crucial quanto arriscado. Desta vez, porém, optou estrategicamente pela face do “Lulinha paz e amor”. Assim o presidente do Brasil desfilou esta semana sob o céu da Dinamarca. Cenário sheakespeariano cheio de paixões trágicas e desencontradas; manobras muitas vezes desleais e mal-encobertas; conspirações e traições sem fim de todo lado. Neste cenário Lula entrou de corpo, alma e convicção, mas vestido de modéstia , na defesa vitoriosa do Rio de Janeiro para sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

Nesta refrega internacional entre Rio, Madri, Chicago e Tókyo, dá gosto e comove ver a imagem de Luiz Inácio Lula da Silva que a televisão transmite de Copenhague para o Brasil e para o planeta inteiro interessado no desfecho da disputa encarniçada. Com o auditório repleto de celebridades mundiais de todos os esportes, das artes, dos negócios e da política, é praticamente impossível – a não ser por cegueira ideológica ou preconceitos inqualificáveis -, não ser contagiado pela emoção do ex-operário metalúrgico no seu terno azul e elegante gravata nas cores da bandeira nacional, que está na tribuna.

“Essa candidatura não é só nossa, é também da América do Sul, um continente com quase 450 milhões de homens, mulheres e cerca de 180 milhões de jovens, um continente que nunca realizou os Jogos Olímpicos. Está na hora de corrigir esse desequilíbrio. É hora de acender a pira olímpica em um país tropical, na mais linda e maravilhosa cidade: o Rio de Janeiro”, dispara Lula, com pontaria política e diplomática de um campeão olímpico de tiro.

Apesar dos argumentos convincentes e irrespondíveis, esta não foi uma missão fácil. O presidente, Pelé, o governador, o prefeito do Rio, o cineasta Fernando Meirelles com seu filme de beleza e apelo irrecusáveis, além de todos os mais diretamente envolvidos nesta batalha da Dinamarca – e não são poucos – seguramente sabiam disso. E se não sabiam, basta ver a reportagem que o jornal espanhol El Mundo publicou ontem, assinada pelo repórter Fernando Mas.

O texto mostra primorosamente como o Hotel Marriot, nas margens de um dos principais canais de Copenhague, se transformou nesses últimos quatro dias, no centro das conspirações olímpicas. A caça e conquista do voto definitivo era a missão de todas as delegações que buscavam até a tarde de ontem, converter-se na sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Assinala o jornal de Madri:

“O rei Juan Carlos de Espanha em uma suíte. A rainha Sofia em outra. Zapatero em uma terceira. Todos no sétimo andar do Marriot. O sexto andar está reservado para os negociadores brasileiros, com Lula da Silva à frente. Os delegados que visitavam as suítes do sétimo andar eram reclamados em seguida num piso mais abaixo. O terceiro, onde atuava Michelle Obama, a desenvolta primeira-dama dos Estados Unidos”, conta o texto de El Mundo.

Michelle comandou as negociações em favor de sua cidade, até o presidente Obama desembarcar na Dinamarca, na undécima hora, para as manobras do inútil esforço final em favor de Chicago, cuja população parece não chorar muito a derrota, assim como os habitantes de Tókyo, cidade do oriente que já abrigou uma Olimpíada.

O Rio venceu! Viva o Rio! Nenhum lugar de mundo merecia mais este triunfo magnífico. A vitória não será em vão, mas cobra, a partir de agora, o cumprimento das emocionadas e, seguramente, decisivas palavras do presidente brasileiro em Copenhague: “Os que nos derem essa chance não se arrependerão. Os jogos no Rio serão inesquecíveis (…). Para o movimento olímpico será a chance de sentir o nosso sol. Será a chance de falar para o mundo que a Olimpíada é de todos”.

Bravo! “Viva a sua paixão”, como recomenda o maravilhoso e também decisivo filme de Fernando Meireles mostrado ontem em Copenhague para o mundo. Viva o Rio, com sua gente tão maravilhosa quanto a cidade.

E viva a América do Sul, outra grande vitoriosa de ontem na Dinamarca.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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