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“Como explicar sabor do murici pisado com rapadura?”
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CRÔNICA/SENTIMENTOS

DUAS OU TRES COISAS SOBRE MARIO LIMA

Janio Ferreira Soares

Como bem disse mestre Vitor Hugo, ele era uma figura das mais raras. Com os amigos, plácido como os remansos que o São Francisco formava nas encostas de sua Glória natal. Com os adversários, forte como as águas do mesmo rio, que mais na frente desembocavam nas cachoeiras de Paulo Afonso. Assim foi Mário Lima, ou melhor, Marão, que era como eu o chamava durante nossos longos papos, ultimamente (que pena!) só por telefone.

Costumo dizer que quem nasceu ou viveu por esses lados do Brasil sempre levará consigo, até o último suspiro, fatos e acontecimentos que ficam definitivamente anotados na memória. É que o sertão, assim como os ferros que marcam o couro do gado com as iniciais do dono, também deixa na gente dezenas de lembranças que são quase impossíveis de apagar e de explicar.

Como traduzir para uma pessoa, por exemplo, o gosto de um leite espumando, ainda quentinho, saído diretamente do peito da vaca, se ela só tomou o de pacote? Como chegar para alguém e explicar que cheiro tem as flores do tamarineiro ou o vento que sopra antes da chuva chegar, se ele mora numa cidade de concreto? E como dizer pro seu vizinho de apartamento que o mesmo Sol que esturrica árvores, chão, animais e bem-te-vis, no final da tarde nos dá de presente um deslumbrante céu alaranjado, cenário perfeito para ecoar o som da difusora da praça tocando a Ave Maria? Sinceramente, só pra quem é daqui. E Mário, apesar de cidadão do mundo, nunca deixou de sê-lo.

Prova disso é que toda vez que eu escrevia um artigo que falava sobre esses sentimentos ele vibrava e dava um jeito de falar comigo, apesar de, na época, eu morar no meio do mato e ter como único meio de comunicação um velho telefone via rádio, que vivia a mercê dos humores dos ventos que sopravam de Paulo Afonso. Foi o que aconteceu quando eu fiz o artigo A Noite dos Filhos Ausentes, que fala sobre a volta dos filhos de Glória que moram em outras cidades para festejar a trezena de Santo Antônio.

Nesse dia ele me ligou e, animadíssimo, apesar de já meio adoentado, ficou horas e horas lendo cada parágrafo pra mim, como se eu não soubesse o que eu mesmo tinha escrito. “Veja que maravilha, Janio”. E lia, com a sua voz deliciosamente familiar: “Pena que muitos glorienses da pesada não podem vir. Para eles, uma sugestão. Nessa noite, pensem num som de zabumba e pífano tocando no pátio da igreja e no chiado dos foguetes subindo e espalhando seus pequenos fragmentos de luz pelo céu. E se por acaso a boca salivar, liguem não, é apenas a velha memória lembrando de um tempo em que os tamarindos e umbus-cajás pareciam eternos”. E completava, rindo e emocionado: “Janinho, você é um porreta!”.

Sem querer bater na trave da pieguice – mas já batendo -, tenho pra mim que antes de virar pequenos fragmentos de luz pelo céu ele ouviu zabumbas, foguetes, matracas e sinos, e sentiu no canto da boca o gostinho de um murici pisado com rapadura num velho pilão de um alpendre qualquer. Que sacanagem com a gente, Marão!

Janio Ferreira Soares, cronista, nascido em Glória – como Mario Lima que acaba de partir – é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no Vale do São Francisco.

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