jan
04
Posted on 04-01-2010
Filed Under (Artigos, Janio) by vitor on 04-01-2010

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CRONICA/RECOMECO

O PRIMEIRO SOL DE 2010

Janio Ferreira Soarea

Neste ano que se inicia prometendo acalorados debates políticos e esportivos envolvendo Wagner, Souto, Geddel, Dunga, Dilma, Serra e o nosso infalível democrata cristão Eymael, só tenho a certeza de uma coisa: quaisquer que sejam os resultados das eleições e da Copa do Mundo, a vida continuará uma festa para Kaká e Cia e para os frequentadores das colunas de Mônica Bergamo e de July. Já para a maioria dos ouvintes do serviço de alto-falante Jota Araujo, aqui na vizinha cidade de Glória, tudo vai depender da barra que antecede ao primeiro Sol do ano.

Se ela se fizer presente, retardando por alguns segundos a espetacular visão das nuvens formadas pelas garças que sobrevoam as manhãs do São Francisco, pode ser que João Vaqueiro se anime a arar um pedaço de terra pra plantar os seus grãos. Digo pode ser, porque ele, embora crente, anda desconfiado dessa lenda (que reza que quando aparece uma barra antes do primeiro amanhecer vai ser um ano de chuva), desde que, no começo de 2009, foi na onda de uma que segurou o Sol por mais de três minutos, plantou duas tarefas de melancia e perdeu tudo.

Na sua percepção a coisa toda começou a desandar depois da globalização e da internet. Ele cita como exemplo o fato de seu neto varar as madrugadas proseando com outro menino lá nos cafundós da China e ainda por cima vendo sua imagem no monitor. E termina dizendo que do jeito que a coisa vai, é capaz de qualquer dia aparecer uma foca nadando na beira do São Francisco.

Exageros a parte, realmente o mundo anda meio estranho. Mas o que me conforta um pouco é essa espécie de déjà vu climático, que faz com que uma tragédia atual seja anunciada como a maior que aconteceu há 80, 90 anos, quando, presumo, o desmatamento e a emissão de gases eram bem menores.

Pra terminar (ou pra começar), crendo ou não em barras, tomando Sidra ou Veuve Clicquot, desejo a todos um grande início de ano. De preferência ouvindo uma velha canção de Roberto, daquelas do tempo em que as estrelas mudavam de lugar e chegavam mais perto só pra ver. Eu vou de Eu Preciso de Você. Pra Valéria. Sempre.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso

dez
19
Posted on 19-12-2009
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CRÕNICA/ COTIDIANO

ARRUDA,ADEMAR DE BARROS E PABLO

Janio Ferreira Soares

Na sala de espera do oftalmologista, dois vizinhos de cataratas comentam sobre os últimos acontecimentos. Apuro meu ouvido e consigo pescar algo sobre o aumento dos aposentados, o preço dos ansiolíticos e, claro, sobre o escândalo político do momento, já que nossa gente engravatada não se cansa de mostrar o seu valor. Monetário, diga-se.

Do meu lado esquerdo uma senhora choramingando um misto de colírio e lágrimas me cutuca com seu roliço cotovelo e sussurra, com aquele semblante característico das atrizes de um filme de Almodóvar – ou de alguma novela mexicana -: “fariam a mesma coisa, esses dois descarados!”. Antes de esboçar qualquer forma de contato, uma mocinha delicada inclina minha cabeça pra trás e pinga uma gota de colírio em cada olho, o que basta para me transformar num lacrimoso coadjuvante daquele dramalhão latino. “Mui prazer, mi nombre es Pablo”.

Mais tarde, já no táxi, óculos escuros pra não dar bandeira e evitar lampejos pós-dilatação, o motorista puxa assunto. Como percebo que não há outra opção senão entabular uma prosa movida a pagode romântico e a aroma de alfazema, vou direto ao que interessa. “E Arruda, hein?”. Antes que ele discorra a típica verborragia daqueles que têm a solução para todos os problemas do mundo, me lembro que até há pouco a deixa era: “e o Zuleido, hein?”, que veio antes de: “e o Sarney, hein?”, que, por sua vez, sucedeu a: “e o Delúbio, hein?”, o que prova que Brasília roda, roda e parece que nunca surge um minuto de comercial.

O mais preocupante é que a esperada indignação das pessoas está dando lugar a uma impotência acrescida de pitadas de normalidade, muitas vezes acompanhada de uma conivência do tipo: “eu não, mas se alguém encher as meias e depois me der um apartamento em Paris, tudo bem”.

Chego ao meu destino, me despeço de mais uma sumidade autônoma e observo que logo a frente um senhor acena para outra viagem movida à política e à voz de Belo, naturalmente. Pelo semblante deve ser do tempo de: “e o Ademar de Barros, hein?”. Só me resta encarnar Pablo, meu personagem latino, e seguir cantarolando Tu Me Acostumbraste.

(Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na região do Vale do São Francisco )

dez
05
Posted on 05-12-2009
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Maracanã: domingo de emoções
marac

CRÔNICA/ FUTEBOL E POLÍTICA

SÃO MUITAS EMOÇÕES

Janio Ferreira Soares

Apesar de tecnicamente nivelado por baixo, não me lembro de um Campeonato Brasileiro tão vibrante como o que se encerra neste Domingo(6). Logicamente não se compara com o de 1988, quando o Bahia foi campeão. Que o diga os moradores de Glória, no sertão baiano, que até hoje recordam os fatos que aconteceram naquela tarde de Fevereiro, cujas comemorações só não entraram pelo dia seguinte porque um torcedor mais empolgado invadiu a igreja de Santo Antônio e tentou vestir uma camisa tricolor no padre que celebrava a missa, o que quase provoca aquela que poderia ser conhecida na literatura de cordel como “A peleja entre tricolores embriagados e beatas enfurecidas nas terras do escritor Raimundo Reis”.

Mas voltando ao campeonato atual, o que mais empolga nesta rodada final não é só a disputa pelo título. Lá na cauda da tabela existe uma outra competição tão ou mais emocionante, que vai indicar os times que irão disputar com o Bahia a Segunda Divisão de 2010. E o mais impressionante é que esses jogos estão acontecendo com os estádios lotados, o que prova que os torcedores também vibram com a mediocridade. Mas, enquanto isso, em Brasília, 19 horas.

Se a coisa anda pegando fogo pelos estádios, no Planalto finalmente materializou-se aquele famoso artefato masculino que até há pouco só servia para guardar certos tipos de documentos e que, de uns tempos pra cá, ganhou a atividade de cofre. Trata-se da cueca com bolso, traje que eu só ouvira falar quando meu tio Lindemar foi a Salvador nos anos 60 comprar o terno da sua posse como prefeito de Glória e, com medo de assaltos, mandou costurar duas enormes algibeiras na sua samba-canção, o que provocou um grande alvoroço na Adamastor na hora em que ele enfiou a mão por dentro da calça para pagar a conta. É que o pessoal da loja pensou tratar-se de uma arma e foi um deus nos acuda.

Mas agora é relaxar e aproveitar a última rodada do Brasileiro. Afinal, como dirá Roberto Carlos aos seus fãs neste Sábado, em Pituaçu, “se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi”. Essa frase também cai como uma luva para a torcida de muitos times. E para Arruda e sua turma.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no Vale do São Francisco.

nov
26

“EU NÃO PEÇO DESCULPAS”-Caetano e Mautner

Dona Lindu: mãe de Lula
Dlindu

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CRÕNICA/ MÃES

De dona Lindu para dona Canô

Janio Ferreira Soares

Minha cara Canô, daqui de onde estou andei acompanhando essa confusão toda que começou quando seu filho disse que o meu Luiz era analfabeto, e confesso que até agora não entendi o porquê de tamanha agitação. Afinal, o Brasil é ou não é uma democracia? E numa democracia, pelo que eu aprendi no curso que o mestre Paulo Freire mantém por aqui – e nas conversas com várias pessoas que ficaram minhas amigas quando souberam quem eu era -, todo mundo pode falar o que quiser. Bem diferente daquele tempo em que ninguém podia sequer pensar em falar mal de um presidente que era preso, torturado e até morto. Ou então se exilava em Londres, não é mesmo?

Mas o motivo principal dessa missiva (eu adorava quando o locutor da Rádio Clube de Pernambuco falava assim quando alguém mandava uma cartinha,) era para lhe pedir que parasse com a idéia de se desculpar pelo que o seu menino disse do meu. É que eu notei que ele não estava gostando muito dessa sua intenção, do mesmo modo que o meu também ficaria danado se na época da ditadura eu ligasse para o Golbery ou para um diretor da Ford pedindo desculpas pelas greves que ele comandava no ABC.

Mas agora Inês é morta (a propósito, nunca a encontrei por aqui), pois Wally Salomão acabou de me contar que o meu Luiz ligou lá de Roma para você depois que soube da sua vontade de lhe pedir essa espécie de mea-culpa materna. Aliás, nós demos boas risadas imaginando a cara de Caetano diante disso tudo e Wally ainda saiu cantando Eu Não Peço Desculpas, que ele gravou com Jorge Mautner.

Bem, agora eu tenho que me despedir, porque muita gente quer saber a minha opinião sobre o filme que diz que o meu Luiz agora também é filho do Brasil. Ainda não vi a cópia pirata que Glauber me emprestou, mas parece que andaram colocando algumas frases na minha boca, dessas que uma mulher sertaneja com um monte de filhos pra criar não tem tempo nem de pensar. Ah, adorei o seu livro de receitas, O Sal é um Dom. Se eu encontrar maturi por aqui vou fazer uma moqueca pra Jorge Amado e Gilberto Freire. Beijos em Mabel. Com respeito, Lindu.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo da cidade baiana de Paulo Afonso, no Vale do São Francisco.

out
31
Posted on 31-10-2009
Filed Under (Artigos, Janio, Multimídia) by vitor on 31-10-2009

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CRÔNICA / LUGARES

Enquanto não chegar ao Leblon…

Janio Ferreira Soares

Recentemente estive no Rio de Janeiro, e a cidade continua linda e aparentemente tranquila. Pelo menos naquele pedaço que liga Copacabana, Ipanema e Leblon, sempre cheio de gente bonita e de dezenas de botequins frequentados por ubaldos e carusos, que tanto pode nos remeter a um fim de tarde em Itaparica ou a uma charge na primeira página de O Globo, quanto a uma novela de Manoel Carlos, aí dependendo do gosto do freguês.

O problema é o que rola no lado B da cidade depois que o Hotel Marina acende suas luzes e a Rocinha, Vidigal e adjacências também começam a piscar as suas num belo e assustador sincronismo, cujo resultado a gente só fica sabendo pelos jornais do dia seguinte. Aliás, a violência que acontece quase diariamente nas favelas do Rio me lembra aquelas chuvas de verão que inundam os fins de tarde de São Paulo.

Quem as vê pela televisão tem a impressão de que toda a cidade está um caos. Mas, para quem está na região dos Jardins ou na Av. Paulista, a realidade é outra.

É o que ocorre no Rio. Enquanto o couro come nos morros e favelas, as praias e bares da zona sul continuam lotados, nem aí pras balas traçantes que cortam os céus da Guanabara. E para a grande maioria que entorna um chope atrás do outro como se não houvesse amanhã, aqueles morros nada mais são do que uma espécie de mantenedores oficiais, cuja função é fazer chegar a eles o pó que inspira certos discursos repletos de sociologia barata e adornados por dialetos cheios de gírias e outros babados.

A propósito, Fernanda Torres escreveu uma genial peça que está em cartaz por lá, cujo título é Deus é Química. Conta a história de um casal (ela e Luiz Fernando Guimarães) que enquanto espera uma pizza acompanhada de 200 gramas de pó, assiste de um apartamento em Ipanema a uma guerra entre policiais e bandidos.

De uma forma bem humorada, Fernanda (ela mesma uma ex-viciada em cocaína) consegue chamar a atenção para esse tema tão polêmico, e ainda faz uma profecia. A de que, em breve, essa guerra pode finalmente chegar à zona sul. Aí, essa gente bronzeada que faz de conta que não tem nada a ver com isso, talvez acorde pro mundo. Ou continue pedindo uma pizza. Com a borda bem branquinha, faz favor.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso (BA), na região do Vale do São Francisco )

out
20
Posted on 20-10-2009
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Paulo Afonso recebe príncipe
principe

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CRÔNICA / MONARCAS

A NOVA ROTA DE DOM LULA

Janio Ferreira Soares

No dia 16 de Outubro de 1859, o jovem imperador Dom Pedro ll e a imperatriz Teresa Cristina, pegaram um barco em Piaçabuçu, no baixo São Francisco alagoano, pernoitaram nas cidades de Penedo, Pão de Açucar e Piranhas, e finalmente chegaram ao objetivo principal da viagem que era conhecer as magníficas cachoeiras de Paulo Afonso, num passeio que ficou conhecido como Rota do Imperador. Exatos 150 anos depois, outro monarca, também barbudo e igualmente acompanhado por sua imperatriz de estimação, navega pelas mesmas águas, só que dessa vez por outras paragens e com finalidades bem diferentes do que faz crer a programação divulgada.

Segundo a mesma, trata-se de uma visita oficial para inspecionar as obras de transposição do Rio São Francisco. Mas até os mandins e surubins que ainda insistem em perpetuar a espécie sob suas águas sabem que a história não é bem essa. A principal intenção de Dom Lula é apresentar a imperatriz Dilma, a escolhida, a um povo que só a conhece através da TV.  Ao mesmo tempo, usando toda a experiência adquirida em anos e anos de megafone em punho, gerar factóides ribeirinhos para a imprensa que está acompanhando a Coluna Lula, bela sacada dos jornalistas Claudio Leal e Bob Fernandes, cujas reportagens da missão foram reproduzidas pelo Bahia em Pauta, blog do mestre Vitor Hugo, que a propósito foi criado comendo piaba assada com pirão de farinha nas margens do rio em questão.

Para comemorar os 150 anos da chegada de D. Pedro por essas bandas, o governo de Alagoas está refazendo a sua rota. Saída 16/10, de Piaçabuçu e chegando aqui em Paulo Afonso ontem, Segunda Feira, dia 19.  Na comitiva, o principe Dom João de Orleans e Bragança e mais alguns representantes da família real, além de políticos e jornalistas. Infelizmente eles não vão poder ter a visão das cachoeiras. Em seu lugar, verão os belos paredões de granito ainda marcados pelo limbo das águas que tanto encantaram o imperador.

Semana passada, lá pra cima do mesmo rio, seguiu o baile. De um lado, Geddel e sua claque, fazendo um barulho danado. Do outro, Jaques Wagner e sua torcida, entoando gritos de guerra.  No meio, Lula, conduzindo a moça e comandando a massa. Só faltou Serra, de chapéu de palha e calça arregaçada (qual Russo), no meio do picadeiro. “Alô, alô, seu Chacrinha, velho guerreiro! Alô, alô, Terezinha! Roda, roda, roda e avisa um minuto de comercial….”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso (BA), no Vale do São Francisco.

out
04
Posted on 04-10-2009
Filed Under (Artigos, Janio, Municípios) by vitor on 04-10-2009

Paulo Afonso: “mil vivas aos Franciscos”
cachoeira
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CRÔNICA / FRANCISCOS

Flores para o rio que clareia a noite

Janio Ferreira Soares

Neste Domingo, 04 de outubro, comemora-se o dia de São Francisco, padroeiro de Paulo Afonso (BA) e rio do mesmo nome que, sabe-se lá como e quando, partiu das Gerais se arrastando feito cobra pelo chão até chegar aqui e se jogar por entre pedras, mandacarus e portais, isso bem antes de suas águas serem desviadas pra dentro de ferozes turbinas, que girando pás e eixos finalmente ampliaram a profecia do faça-se a luz – só que, dessa vez, em vez do Sol, iluminaram-se as noites nordestinas.

Os poucos que me lêem devem saber que eu o conheci ainda menino na velha cidade de Glória (BA), levado que fui por mãos fortes e carinhosas para molhar meus pés nas suas correntezas, numa espécie de apresentação a que muitas crianças ribeirinhas são submetidas quando se dão por gente. “Janio, São Francisco; São Francisco, Janio.” Começava ali a nossa história, apesar de só o descobrir de verdade mais adiante, quando subi numa goiabeira no quintal da casa de minha avó e o vi por inteiro passando em direção a Paulo Afonso, levando consigo toda a imponência e quietude daqueles que sabem a força que tem.

Esse é o São Francisco, rio com nome de santo (ou vice-versa), que os forasteiros adoram chamar de Velho Chico, enquanto nós, catingueiros de guerra e dependentes de suas águas, simplesmente o olhamos e o louvamos, assim como se olha e se louva um fim de tarde no sertão.

E para homenageá-los (o rio e o santo), vamos realizar uma procissão fluvial que passará por baixo da ponte que dá acesso a Paulo Afonso e que depois seguirá em carreata até a igreja de São Francisco, uma belíssima construção da arquitetura gótica datada de 1950, localizada no ponto mais alto da cidade. Inclusive, quando a procissão estiver passando, algumas pessoas planejam jogar pétalas de flores para amenizar um pouco as toneladas de lixo que diariamente são derramadas nas suas águas.

Justa e merecida homenagem, principalmente vinda de humanos. É que a velha e sábia natureza de há muito já faz a sua, matizando com suas cores a sua longa Via Crucis, que, apesar de todas as agressões, continua tendo forças para iluminar nossas vidas e, de quebra, ainda consegue adoçar um pedaço do mar das alagoas. Mil vivas aos Franciscos.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso (BA)

set
18
Posted on 18-09-2009
Filed Under (Artigos, Janio) by vitor on 18-09-2009

Armando: opinião
armando
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CRÔNICA / INCÊNDIOS

FALTA ARMANDO OLIVEIRA

Janio Ferreira Soares

Ando pela noite de um sertão estranhamente frio para dias setembrinos, quando de repente escuto no rádio a voz grave de um locutor anunciando que mais um ônibus foi queimado nas ruas de Salvador. Dessa vez, diz ele com sua voz necessitando de médios, agudos e algumas pitadas de credibilidade, o fato deu-se na Av. Vasco da Gama.

Imediatamente me vem o tempo em que eu acompanhava o campeonato baiano pelas ondas da Rádio Sociedade, e Djalma Costa Lino me orientava quanto ao posicionamento dos times no gramado da Fonte Nova. Paro o carro, coloco um CD da Cor do Som pra rodar e ponho-me a imaginar, não de que lado estão postados os jogadores, mas sim em que direção o vandalismo se deu.

Terá sido no gol do Dique do Tororó, onde a torcida do Bahia explodia em festa quando o tricolor ainda lhe dava motivos? Ou será que foi no sentido da ladeira, onde a galera do Vitória vibrava nas velhas tardes de domingo? Detalhes esportivos a parte, àquela altura pouco importava se as chamas ardiam no azul de Jezebel ou no céu de Calcutá. O importante era tentar traduzir – e, se possível, entender – os sinais contidos nas fumaças que vagavam pelos céus de uma vulnerável e assustada Bahia.

E quando eu pensava que ouviria – ou leria – alguma opinião com a categoria e o bom senso do nosso saudoso Armando Oliveira, eis que surgem alguns comentaristas de ocasião, cada qual tentando puxar a sardinha pro seu lado.

Para a oposição, que no fundo quer mais é que o atual governo também arda em brasas, à culpa é do comandante, inclusive dizendo que violência começa com W, de Wagner. Para a situação, mais uma vez a culpa é da tal herança maldita, que pelo jeito será a eterna pièce de rèsistence governista, uma espécie de Detalhes, que o rei Roberto Carlos sempre puxa da manga pra turbinar seus shows quando as senhorinhas da platéia ameaçam cochilar.

Pra terminar, eu planejava concluir este artigo citando algum autor, de preferência estrangeiro, só pra deixá-lo um tantinho chique. Mas sou mais o estilo Armando. Sendo assim, toca o bonde, motô, pois parece que só queimam marinete.

ago
31
Posted on 31-08-2009
Filed Under (Artigos, Janio) by vitor on 31-08-2009

Belchior: calção mais curto que o de M. Sergio?
msergio

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CRÕNICA/DESAPARECIDO

Carta de Paulo Afonso

Janio Ferreira Soares

Vitor, meu velho, agora que acabou o mistério sobre o paradeiro de Belchior, tava aqui conversando com o meu tio Lindemar (82 anos de sertão e de América do Sul) sobre o que pode ter levado o nosso ex-famoso compositor popular a se escafeder por aí e viver, como naquela canção de Gonzaguinha, com a perna no mundo.

Teria sido orientação do mesmo marqueteiro que mandou Dilma Roussef sumir por uns tempos para poder voltar por cima? Vergonha dos companheiros Mercadante e Sarney, fiéis seguidores da tradição de ostentar fartos pelos faciais no breve espaço compreendido entre o nariz e o lábio superior? Medo de embarcar em algum avião por conta dos últimos acidentes aéreos e, na poltrona do lado, não encontrar nenhuma mão disposta a segurar a sua? Ou será que o principal motivo é a velha falta de dinheiro no banco e de parentes importantes (o caseiro Francenildo que o diga), que lhe acompanha desde o tempo em que ele era apenas um rapaz latino-americano egresso de Sobral?

Segundo Franciel Cruz, jornalista, rubro-negro e proprietário dos Blogs Ingresia e Victoria Quae Sera Tamen, essa onda toda o pegou de calção mais curto do que aquele que Mário Sérgio usava nos tempos em que executava uma saraivada de elásticos em cima de Ubaldo e Sapatão. Indagado por uma menina sobre o que achava desse desaparecimento, nem pestanejou: “ué, e ele ainda está vivo?”

Outro que ficou meio perdido sobre esse assunto foi o menino Claudio Leal. Logo depois da primeira reportagem do Fantástico, ao chegar a redação do Terra Magazine e verificar que muitos comentavam sobre o fato, ele passou um bom tempo sem entender absolutamente nada. Aos poucos foi que o bardo itapagipano percebeu que estavam falando do desaparecimento de um tal de Belchior. É que a sua seletiva memória não está acostumada a guardar bigodes que não lhe interessa, muito embora ele ainda tenha terríveis pesadelos com o delegado Magalhães lhe perseguindo pelas ruas da Ribeira. A propósito, os únicos buços que ele recomenda são os do Coronel Chabert e Balzac, que inclusive dividiram com ele um lugar na arquibancada do Pacaembu durante um jogo do Vitória contra o Corinthians. Danado, esse Claudio.

No mais, é esperar que alguns artistas em atividade sigam o exemplo do cearense e sumam. De preferência, definitivamente. A lista é grande. Abração.

Janio Ferreira Soares, cronista , é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no Vale do São Francisco

ago
08
Posted on 08-08-2009
Filed Under (Artigos, Janio, Multimídia) by vitor on 08-08-2009

CRÔNICA VIVA

VERSOS (E REVERSOS) DE SARNEY

Janio Ferreira Soares

Em agosto de 1989, após uma dura luta contra o câncer, morria o grande mestre Luiz Gonzaga. Vinte anos depois, vendo o senador José Sarney agarrar-se com unhas, dentes e bigode à cadeira da presidência do Senado, me vem à lembrança os versos de A Triste Partida, genial composição de Patativa do Assaré que Gonzagão imortalizou com seu inconfundível estilo, que narra a saga de uma família nordestina a caminho de São Paulo. (Para quem não lembra, essa canção é aquela que começa com um lamento de um pobre pai sertanejo que depois de constatar a inexorável pressa do tempo e a falta de chuva em suas terras (“Setembro passou, Outubro e Novembro, já tamo em Dezembro, meu Deus, que é de nós?”), joga a sua turma em cima de um caminhão e parte para São Paulo em busca de seus sonhos).

Tenho a leve impressão de que todo dia, ao sair do Senado, Sarney deve cantarolar estes mesmos versos, mudando apenas a ordem dos meses e, claro, atropelando a métrica, o ritmo e o bom senso.
Na sua versão, Fevereiro passou, Março e Abril também, Maio, Junho e Julho já eram, e “já tamo em Agosto, meu Deus, que é de mim?” (Ou, no seu caso, “de nós”, aí dependendo se ele quer incluir no seu pau-de-arara, Renan, Collor e até o presidente Lula, já que aquela baixaria protagonizada pelo senador alagoano contra ele e sua filha, Lurian, parece que chafurdou definitivamente nas profundezas desse enredo de quinta categoria).
Aliás, o Senado deveria contratar com certa urgência um pai de santo ou algo parecido para executar uns trabalhos de descarrego na cadeira presidencial e no seu entorno, já que os últimos que por lá passaram não tiveram tempo sequer de se coçar.
Foi assim com ACM, que apesar de aparentemente protegido por certos Orixás baianos não resistiu à tentação de saber como votavam os colegas e dançou; foi assim com o Don Juan da Pajuçara, Renan Calheiros, que também não soube resistir à outra tentação, digamos, mais diabólica e da cor do pecado, que o levou do gozo eterno ao quinto dos infernos em pouquíssimo espaço de tempo; e, por fim, está chegando à vez do nosso Sarney, que poderia muito bem ter continuado na sua, escrevendo artigos e arrumando empregos para netas, genros e agregados, mas não.

Abduzido pela doce tentação de poder praticar centenas de atos secretos sem pensar no amanhã, ele agora está prestes a seguir o mesmo destino de seus antecessores, que, é bom que se diga, perderam a coroa, mas não a majestade.
Na seqüência de A Triste Partida, depois de vender o jumento, o cavalo e até o galo, a família pega a estrada. No meio do caminho, os filhos começam a lembrar do que deixaram pra trás e choram. Um deles pergunta ao pai: “e meu pobre cachorro, quem dá de comer?”. Já o outro, falando com a mãe, diz: “mãezinha, e meu gato? Com fome e sem trato, Mimi vai morrer.” No embalo, a filhinha, tremendo de medo, diz: “mamãe, e meus brinquedos, minha boneca e meu pé de fulô?”.

Patativa morreu em 2002. ACM, em 2007. Renan e Collor continuam soltos e fagueiros. Sarney, mesmo perdendo, ganha. Lula é ele mesmo e suas circunstâncias. E com você, tudo bem?

Janio Ferreira Soares , cronista da região do Vale do São Francisco, é o atual secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso (BA).

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