jun
14
Posted on 14-06-2010
Filed Under (Artigos, Janio) by vitor on 14-06-2010

Mariana Ximenes: um motivo a mais

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CRÔNICA/TORCIDA

O QUASE FREVO HOLANDÊS

Janio Ferreira Soares

Como bem lembrou Tostão, a Seleção holandesa sempre chega como uma das favoritas, mas nunca ganhou uma Copa do Mundo. Mais ou menos como a viúva Porcina, que foi sem nunca ter sido. Pela estréia contra a Dinamarca a história tende a se repetir.

Confesso que também ficaria muito feliz se ela fosse campeã um dia, já que eu tenho uma grande simpatia por esse País que quase nos colonizou e que deixou em Recife marcas tão fortes que num fim de uma tarde dos 70, regada a muita cerveja e vodka com tang limão, alguns amigos cismaram que tinham vacas holandesas pastando às margens do Capibaribe em meio à pontes e canais, e partiram para vê-las de perto. Mais não digo, pois só consigo lembrar-me de vagos mugidos distantes, que tanto podem ter vindo das imaginárias leiteiras como dos floreios vocais/medievais do holandês Thijs Van Leer, que naquele instante mandava o clássico Hocus Pocus, do Focus, no Roadstar da velha Brasília.

Não sei se sou eu ou se é a nossa Seleção que anda sem graça, mas eu ainda não consegui me transformar num guerreiro tomador de cerveja, nem entrei no clima ufanista da Globo. Também não sei a escalação do Brasil de cor, acho Kaká aquele típico santinho do pau oco que sacaneia os amigos no final do filme, além de não enxergar ninguém com lágrimas sinceras estocadas pra derramar diante de um fracasso. É como diz o meu amigo Miguel Baiano: “Ó paí, a cara dos sacanas! Tão tão preocupados com a conta da Coelba no final do mês…!”.

Só mais um motivo pra torcer pelos holandeses, além dos já citados acima. Parece que descobriram no DNA de Mariana Ximenes – que é filha de mãe cearense – um misto de flor de mandacaru com toques de bulbos de tulipas brancas. Quer prova maior de que fomos colonizados pelo povo errado?

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no Vale do São Francisco.

jun
08
Posted on 08-06-2010
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CRÔNICA/DESTINOS

TRÊS HOMENS EM CONFLITO
Janio Ferreira Soares

Os leitores mais grisalhos devem se lembrar deste faroeste de 1966 onde Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach interpretam três pistoleiros, cujo título original (Il Buonno, Il brutto, Il Cattivo) ganhou diversas traduções por aí, sendo o Bom, o Mau e o Feio a mais famosa delas.
Lembrei deste filme por dois motivos. Primeiro, porque Clint Eastwood completou 80 anos na semana passada (31/05), mantendo uma produção cinematográfica e uma postura raríssimas de se ver no meio artístico. Segundo, porque esse título me remete a outros três homens que atualmente estão na berlinda, prontos para ir ao céu ou ao inferno num piscar de olhos. Aécio, Dunga e Serra são os seus nomes e se você os associou a sequência da tradução do título original a idéia era essa mesmo, embora ela possa mudar dependendo do que acontecer nos próximos dias.
Comecemos por Dunga, que saiu daqui bastante criticado por não ter convocado determinados jogadores, mas que se conseguir levar o Brasil ao título passará de bruto e teimoso para uma espécie de “predestinado que conseguiu imprimir na seleção a mesma garra do capitão que ergueu a taça em 1994 – embora sem mostrar o talento do futebol brasileiro”. (É que a nossa imprensa às vezes cede, pero perder o mote, jamais!).
Já Aécio Neves, o mineiro boa pinta com ar de moço bom, continua sendo o sonho de consumo das moçoilas casadoiras e dos tucanos em geral, que ainda sonham em tê-lo como vice. Só que o mocinho das alterosas, pão de queijo entre os dentes e furinho no queixo a La Robert Mitchum, continua resistindo. Se Serra conseguir se eleger sozinho, tudo bem. Caso contrário, ele levará para a eternidade a pecha de não ter ficado ao lado do “feio” na hora em que ele mais precisou. Quando não para elegê-lo, pelo menos para fazer a diferença diante das fotos de Dilma, Temer e Serra na tela de uma assustada urna eletrônica.
Mas agora é hora de torcer pelo Brasil, apesar de Dunga e Jorginho. É que eu nunca vi uma dupla personificar tão bem a expressão “chatos de galochas”. Galochas Nike, logicamente!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no Vale do São Francisco

maio
20
Posted on 20-05-2010
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Marina: “gata é pouco”

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CRÔNICA/PERFIS

Uma doce jaguatirica e um mico dourado

Janio Ferreira Soares

Em agosto de 2009, quando ainda se especulava quais seriam os candidatos a presidente da república, eu fiz um artigo que descrevia a senadora Marina Silva como um bichinho manso e assustado que, se provocado, poderia dar um bote certeiro qual uma jaguatirica acuada. Quando é agora, por ocasião da escolha de Guilherme Leal como seu vice, eis que ela assume publicamente essa sua porção felina.
Tudo começou quando o cartunista Mauricio Ricardo escreveu no seu twitter que ela ia “ficar gata”, já que o seu vice é o dono de uma das maiores empresas de cosméticos do País. Bem- humorada, ela rebateu: “Gata é pouco, vou ficar uma jaguatirica!”. E continuou: “Se você olhar uma jaguatirica, ela é tão doce, é tão leve…!”. Quando um repórter lembrou que o felino também arranhava, ela completou: “Arranha quando ela é injustamente provocada. Uma jaguatirica no seu habitat, respeitada, tem as unhinhas bem guardadinhas e bem macias”. Grande Marina!
Fico aqui, entre o Raso e o Rio, pensando como estariam as pesquisas eleitorais se o nosso pastor Inácio, mui digníssimo entendedor de jogo de peteca a fissões nucleares, andasse com a senadora a tiracolo apresentando-a aos seus seguidores como a sua ungida. Eu sei que é arriscado falar em hipótese, mas acredito que com o seu perfil de mensageira de boas novas, Marina seria quase uma unanimidade. É claro que a questão religiosa – como bem lembrou o ator Wagner Moura numa recente entrevista – é preocupante, principalmente no que diz respeito às pesquisas com células-tronco. Mas nada que um papo com Gil, Gabeira e outros avatares que habitam e curtem os baratos que a floresta proporciona não possa resolver. (Em tempo: Marina é evangélica, enquanto Dilma e Serra, pelo andar da carruagem, são duas entidades comandadas pela religião que melhor lhes convier).

De qualquer maneira, é muito bacana ver uma candidata com um humor natural e hábitos aparentemente normais diante de tantas mutações físicas e ideológicas de seus concorrentes. Mas o melhor é que eu acho que jamais correremos o risco de ver a nossa meiga jaguatirica frequentando algum cabeleireiro da moda, como fez Dilma recentemente, cujo penteado me pareceu uma espécie de homenagem ao topete do mico-leão-dourado. A bicharada e a floresta, na dúvida, agradecem as deferências.

Janio Ferreira Soares, cronista , é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso (BA), no Vale do Rio São Francisco)

maio
12
Posted on 12-05-2010
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Dunga: “aqui pra vocês!”

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CRÔNICA/DRIBLES

Dunga, Temer, Dorneles e Zinho

Janio Ferreira Soares

Agora que finalmente saiu a tão esperada lista dos jogadores que irão disputar a Copa de 2010, começarão os animados debates sobre as injustiças que geralmente acontecem nessas ocasiões. Sempre foi (e será) assim desde que o lado mulato do nosso DNA, inzoneiro como ele só, conseguiu driblar os genes europeus de nossas células e nos deu uma infinita geração de gênios da bola, que passa por Garrincha, Pelé, Tostão, Zico e companhia e, de lambuja, ainda nos dá Neymar, Ganso e a meninada da Vila, verdadeiros colírios para os que acham que o futebol foi feito para divertir e não necessariamente para ser campeão.

A propósito, pelo método adotado por Dunga até agora – e até por ele ter feito parte daquela história -, prevejo uma seleção bastante parecida com a de 1994, cujo meio campo era simplesmente formado por ele, Mauro Silva, Mazinho e Zinho. E você há de convir que, se nós conseguimos o tetra com esse quarteto no miolo, tudo pode ser possível. A diferença era que, na época, Romário e Bebeto voavam lá na frente feito dois anjos serelepes, certamente guiados por um arrependido Deus amante do futebol arte, que cochilou feio naquela tarde de 1982 no estádio Sarriá, quando a genial seleção de Telê perdeu para a Itália de Paolo Rossi, dando a munição necessária aos defensores do futebol de resultado. Uma pena.

Mas se a coisa promete ser sofrida nos estádios africanos (Dunga rejeitou as pressões por Ganso e Neymar), por aqui, mais precisamente nos bastidores da sucessão, outra lista de convocados é aguardada com grande expectativa. Trata-se dos nomes dos vices de Dilma e Serra que, pelos pretendentes anunciados, pode causar certa decepção, principalmente no lado estético.

Enquanto a petista vai de Michel Temer, o tucano ameaça com Francisco Dornelles, tio de Aécio Neves, o seu preferido. Guardada as proporções, é mais ou menos como a saída do galã Raí (que chegou a Copa de 94 como titular absoluto) para a entrada de Mazinho. Mas, como para esse pessoal o que vale é o resultado, vamos aguardar a bola rolar. Com a palavra, o torcedor. Em seguida, o eleitor.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Turismo e Cultura de Paulo Afonso (BA), na região do Vale do São Francisco.)

abr
24
Posted on 24-04-2010
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CRÔNICA

Beatles, dízimo e pedofilia

Janio Ferreira Soares

Os últimos dias foram bastante movimentados no mundo da fé e da música. Começou com a igreja católica publicando um artigo no Observatório Romano (diário oficial do Vaticano) absolvendo os Beatles das condenações que lhe foram impostas 44 atrás, que iam desde as supostas mensagens implícitas em suas músicas louvando o satanismo e as substâncias alucinógenas, até a blasfêmia. Em seguida, uma reportagem da Folha de São Paulo mostrou um treinamento dado aos pastores da Igreja Universal, onde os mesmos recebiam orientações de como arrecadar o dízimo em tempos de crise usando a bíblia, que nessas horas deixa de ser um livro santo para se transformar numa espécie de Forbes celestial.

No que diz respeito à atitude do Vaticano em perdoar os Beatles 40 anos depois do fim da banda, normal. Aliás, até me arrisco a dizer que essa mea-culpa deve ter partido de alguém com a sabedoria de perceber que a voz de Paul MacCartney cantando Michelle faz menos mal aos princípios cristãos do que a performance do monsenhor Luiz na cidade de Arapiraca (AL), que em público seguia a cartilha episcopal, mas no privado se guiava pelas tentações carnais atribuídas ao capeta.

Quanto aos pastores da Universal, tiro o meu chapéu para a teatralidade em nome de Jesus. Só acho que quando indivíduos que se denominam representantes divinos pegam o atalho da esperteza, alguma coisa está completamente fora de ordem. Ademais, todos sabem que entre o discurso e a prática existe um enorme abismo cheios de provocações lançando assovios traiçoeiros em direção aos cordeiros de Deus que, uma vez cooptados, preferem engrossar a fila dos pecadores a tirar os pecados do mundo.

Mas isso é discussão para o dobro deste espaço e para pessoas mais capacitadas. Sendo assim, despeço-me muito preocupado com o que pode acontecer com as presenças de Lennon e Harrison tocando harpas com os querubins em um céu de diamantes. Quanto ao monsenhor Luiz e os espertos pastores, a vaga dos dois Beatles ao lado de Lúcifer está aberta. Se apertar, cabem todos.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no Vale do Rio São Francisco

mar
26
Posted on 26-03-2010
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Ronaldo: o fenômeno festeja

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CRÔNICA/ COMPORTAMENTO

ARTILHEIROS, DANÇAS E DEBOCHES

Janio Ferreira Soares

Tudo bem que o futebol mudou, mas eu acho que estão exagerando nas comemorações ludopédicas. Nada contra artilheiros extravasando suas emoções com danças e deboches pós-gols, apesar de eu preferir o velho soco no ar acompanhado de abraços – como faziam Pelé, Tostão e Zico -, ou alguma provocação política, no estilo Reinaldo e Sócrates, que sempre erguiam o punho fechado após balançar as redes. Mas hoje, quando os jogadores já entram em campo maquiados e prontos para performances diante das câmeras das tevês, ensaiar coreografias parece ser tão importante quanto um treino tático.

Tomemos como exemplo o jovem time do Santos, que está resgatando o jeito alegre de jogar bola e, por tabela, as grandes goleadas. No último domingo, ao aplicar 9 x 1 no adversário, várias danças foram apresentadas até que, a partir do sétimo gol, os jogadores começaram a se abraçar como nos velhos tempos. Certamente, não acreditando em tal placar, os meninos da Vila ensaiaram poucos gingados. É por isso que eu sugiro aos clubes a contratação dos profissionais baianos que ensinam aquelas danças que estouram nos carnavais, para que não haja essa, digamos, quebra de harmonia. Antecipadamente aconselho algumas adaptações de acordo com cada jogador.

Adriano, por exemplo, poderia comemorar os seus gols com a dança da motinha amassada, em homenagem aos últimos acontecimentos com sua pacata noiva. Já Ronaldo Fenômeno, para relembrar, festejaria os seus comendo sanduíches escondidos debaixo da camisa, enquanto Dentinho, de batom e peruca, chegaria por trás com uma fanta litro dentro do calção, dançando um arrocha, é claro. E o que dizer de Vagner Love puxando de suas tranças o fuzil do traficante que o escoltou durante uma festa num morro, metendo bala numa foto do deputado Ibsen Pinheiro no placar eletrônico, no rap do pré-sal?

Tudo isso me faz lembrar do camarada que todo dia enfiava o braço na traseira do elefante da Globo para limpar os seus dejetos, e dizia, orgulhoso: “o importante, meu caro, é que estou no show bussines!”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo da cidade de a Paulo Afonso, no Vale do São Francisco

fev
27
Posted on 27-02-2010
Filed Under (Artigos, Janio) by vitor on 27-02-2010

Ubaldo: lagartos, lagartixas e calangos

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CRÔNICA/TRIBUTO


DEIXEM UBALDO EM PAZ

Janio Ferreira Soares

Apesar de continuar achando que tudo não passa de mais um belo lance eleitoral criado pelos marqueteiros do governo Wagner – certamente apoiado por algum desafeto de João Ubaldo, talvez com raiva por ter levado ao pé da letra o seu romance O Sorriso do Lagarto, e após meses em busca de uma lagartixa feliz só ter encontrado calangos balançando cabeças como se afirmando sua tendência à estupidez -, peço licença (com ar de vênia, em homenagem ao professor Manoel Ribeiro), para meter o bedelho nesse furdunço político-sentimental-arquitetônico que começou depois do anúncio da construção da ponte Salvador-Itaparica, embora eu ache que ela continuará hibernando na prancheta dos sonhos.

Não estou aqui defendendo ou condenando nada, até porque a única ponte que interessa por essas bandas (alô, Aninha Franco!) é alguma que leve a miséria e o analfabetismo para bem longe do sertão e na volta desemboque num desses lugares de sonho que aparecem na propaganda do governo da Bahia – tipo Itacaré. Só acho que velhos baianos como João Ubaldo, Cid Teixeira, Waldir Pires, J. C. Teixeira Gomes, Caetano, Gil e tantos outros, merecem, independentemente de ideologias, um mínimo de consideração. Quando não pelas opiniões, pelo menos pelo jeito bacana de levar a Bahia por aí.

Não conheço João Ubaldo pessoalmente apesar de ter tido um belo álibi para fazê-lo quando, meses atrás, eu estava no Rio e ao sair da livraria Argumento com seu último livro, O Albatroz Azul, o avistei com amigos no boteco Tio Sam. Confesso que se não fosse minha timidez, teria puxado um papo de autógrafo e me apresentado como o cara que, tempos atrás, trocou alguns e-mails com ele a respeito de um artigo publicado no jornal A Tarde, onde eu brincava sobre o que teria acontecido se, em vez de ter ido para Salvador e conhecido Glauber, ele continuasse estudando em Aracaju. Nesse caso, essa ponte seria unanimidade, este artigo não existiria e os lagartos continuariam tristinhos, coitados, apenas balançando suas cabeças e rabos para os imbecis de plantão.

( Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismoe de Paulo Afonso(BA), na região do Vale do São Francissco)

fev
13
Posted on 13-02-2010
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Moraes Moreira: volta ao ninho/Terra Magazine

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CRÔNICA / CARNAVAIS

Moraes Moreira e o Rebolation

Janio Ferreira Soares

Andei acompanhando os debates realizados pelo jornal A Tarde sobre o Carnaval de Salvador e a maioria quer a volta da praça e do poeta. Eu também. Agora só falta combinar com os russos. Mas adianto que vamos perder.

Todo ano a turma com mais de cinquenta Carnavais questiona o modelo da folia e reclama dos blocos e camarotes, que continuam avançando pelo asfalto, coitado, que nesses dias deve estranhar a quantidade de pés paulistas a lhe pisotear. Mas o pior é que o único eco dessas discussões é o pancadão do Chiclete reverberando na caixa dos peitos dos nativos (apenas 19%, segundo pesquisa do governo), cada vez mais espremidos entre tapumes e churrasquinhos de gato.

O problema – ou a solução, aí depende dos cifrões – é que o Carnaval baiano virou um grande negócio e funciona basicamente para os donos de blocos, camarotes e emissoras de tevês, além da selecionada fauna que frequenta certos espaços nababescos, totalmente excitada pela possibilidade de cruzar com celebridades entre caipiroscas de seriguela e canapés by Dadá.

Quanto aos saudosistas, um conselho: se conformem, ou procurem algo parecido. Sugiro Recife, pois lá ainda se brinca um autêntico Carnaval de multidões sem cantor, com milhares de pessoas fantasiadas indo pra rua só pelo prazer de ficar nas calçadas esperando passar algum bloco de sopro ou de percussão pra ir atrás.

Há uns dois anos eu cruzei com Moraes Moreira depois de sua participação no Quanta Ladeira, bloco comandado por Lenine, e a visão do velho exilado baiano caminhando à vontade entre colombinas e pierrôs, enquanto o som dos metais da orquestra do maestro Spock invadia as esquinas do Recife Antigo, foi quase de fazer chorar.

Agora, 10 anos depois, finalmente o genial pombo correio volta ao ninho. Mas uma coisa me preocupa. O que passará pela sua cabeça quando, ao cantar Chão da Praça, ele procurar a mão do poeta e der de cara com os apresentadores da Band exaltando o Rebolation. É capaz de a saudade pegá-lo de novo pelo braço e em 2011 levá-lo de volta pra embriaguez do frevo.

( Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na região do vale do São Francisco )

jan
29
Posted on 29-01-2010
Filed Under (Artigos, Janio) by vitor on 29-01-2010

Covas no palanque: um craque

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CRÔNICA / DIFERENÇAS

O AVATAR DE DILMA E SERRA

Janio Ferreira Soares

Meu último artigo sobre a foto de Lula carregando um isopor na cabeça teve uma repercussão acima da média. Muitos entenderam que eu estava puxando o seu saco, outros acharam que não sou digno de uma só palavra ao seu respeito, enquanto alguns entraram na onda e simplesmente curtiram, assim como eu fiz quando vi aquela genial imagem estampada nos jornais. Afinal, não todo é dia que a gente dá de cara com um presidente andando de modo tão distraído.

É claro que ele é um ser humano normal – como, aliás, comentou um raivoso leitor -, passível de hipertensão, suores e ressacas. Mas eu não consigo imaginar, por exemplo, FHC, nos tempos em que ele também passava férias na praia de Inema, com qualquer outra coisa na cabeça que não o seu vistoso topete, ou, no máximo, um livro de Jean Paul Sartre aparando o Sol, com dona Ruth ao lado também lendo o seu, tal uma Simone de Beauvoir dos trópicos. (A propósito, uma cena normalíssima, pois os dois sempre tiveram o saudável hábito da leitura).

E “vive la différance”, como costuma dizer um amigo itapagipano de alma francesa, pois é exatamente ela que acirra esses debates e nos dá a munição diária para preencher espaços vazios, principalmente nesse período em que a tensão pré-eleitoral está começando a pegar fogo.

E por falar em campanha, se os marqueteiros oficiais não abrirem os seus estoques de surpresas, como aquela em que Lula surgiu de terno Armani quando todos o esperavam com a velha camiseta de sempre, essa eleição presidencial poderá ser uma das mais chatas da história. É que tanto Serra quanto Dilma passam longe da escola de políticos como Brizola, Mário Covas ou o próprio Lula, craques em animar debates.

Mas esses magos da mídia são capazes de criar uma espécie de Avatar dos candidatos, onde de repente eles poderiam assumir formas mais humanas, sei lá, com Serra incorporando um mano da periferia paulistana, enquanto Dilma surgiria como defensora da Amazônia, num misto de Marina Silva com a heroína Neytiri.

O problema é convencer o eleitor da veracidade dessas performances, pois elas podem parecer tão verdadeiras quanto Xuxa citando João Ubaldo ou Baudelaire numa manhã de um sábado qualquer.

( Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no Vale do São Francisco )

jan
17
Posted on 17-01-2010
Filed Under (Artigos, Janio) by vitor on 17-01-2010

Lula e Marisa em Inema: “moço, tem de mangaba?”

img.Estadão

CRÕNICA / SUCESSÃO

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LULA, O ISOPOR E A SUCESSÃO

Janio Ferreira Soares

Não tem pra ninguém. Lula continua sendo o maior marqueteiro dele mesmo, seja dominando a platéia qual um esperto pastor diante de fiéis embasbacados, seja tirando uma onda na presença de reis e rainhas de verdade ou de realezas de algum maracatu do baque virado – tanto faz -, lá vai Luiz se lixando para qualquer tipo de liturgia, como se o mundo se resumisse ao agreste pernambucano e adjacências.

A sua recente aparição em terras baianas carregando um isopor na cabeça como se fora um simples vendedor de picolé, com dona Marisa um pouco atrás quase dizendo: “moço, tem de mangaba?”, traduz muito bem esse seu lado populista, que, forçado ou não, praticamente o iguala ao mais comum dos brasileiros, desses que no fim de semana botam uma havaiana nos pés, uma velha bermuda e vão até a esquina comprar cerveja para a rapaziada que está chegando. Já os seus prováveis sucessores…

Impossível imaginá-los em situações semelhantes, quiçá próximas. Serra, no máximo, vai imitar FHC e montará num lombo de um jumento em terras nordestinas depois de experimentar uma buchada de bode, mesmo que em seguida acabe com o estoque de antiácido do mercado. Quanto a Dilma, apesar de ter aposentando a peruca e agora desfilar com uma aparência tipo volver a los 17 después de vivir un siglo, também não leva jeito para tais arroubos, embora orientada pelo experiente mestre Inácio, grande arteiro pernambucano e craque maior no ofício do mamulengo.

Seja como for, 2010, o ano do tigre, será regido por Vênus, Iemanjá e Oxalá. Não sei até que ponto a junção dessas forças irá influenciar o comportamento dos candidatos, principalmente porque este será também um ano de Copa do Mundo. Mas antes tem o Carnaval, e não se espante se Serra aparecer no meio dos Filhos de Gandhi desafinando no agogô, ou Dilma surgir ao lado do Chiclete com o molejo característico dos dançarinos do fandango gaucho.

Agora, se alguém vir um barbudo de rosto familiar vestindo um abadá todo suado, completamente à vontade no meio da galera, não tenha dúvida, é o cara do isopor.

JANIO FERREIRA SOARES, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso (BA)

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