Caraibeira em flor: espanto para ETs/Janio

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CRÔNICA/ SERTÃO
A invasão do sertão amarelo

Janio Ferreira Soares

Para relaxar de tanta política, um filme. De ficção. O início se dá num planeta distante e seco, com milhares de alienígenas tentando encontrar um novo lar, já que o deles será extinto em breve.

Desesperadamente eles procuram planetas com características favoráveis, até que a imagem da Terra aparece no telão. Em seguida a câmera dá um zoom num ponto amarronzado e surge o sertão nordestino acompanhado daquelas letrinhas estilo Matrix, com informações do tipo: Sol e seca o ano inteiro, um povo pacato que na sua maioria vive com um cartão que lhe dá um pouco de comida e bebida no fim do mês, e o melhor de tudo: nenhum sinal de vegetação colorida ou flores, já que os ETs sofrem de uma alergia mortal. Perfeito.

Depois que todos aprovam a invasão balançando as mãos compostas apenas do polegar e do mindinho – fato que deixa a assembléia com ares de um convescote de surfistas fazendo o sinal de hang loose -, a tela escurece e na cena seguinte surgem centenas de naves partindo em nossa direção. Um close no mapa indica as coordenadas do local a ser conquistado. “9°39’3″S 38°42’7″W, Estação Ecológica Raso da Catarina.

Corta para a Terra, primavera no sertão do São Francisco, Paulo Afonso (BA). Alheias ao perigo crianças brincam nas praças cercadas de flores, com destaque para as belíssimas caraibeiras, que nessa época do ano ficam lindamente amarelecidas, especialmente no Raso da Catarina, onde, em minutos, os invasores chegarão e terão uma surpresa.

Dentro das naves, desespero. O líder quer saber quem traçou a rota, já que este não é o sertão prometido. Depois de muita discussão eles somem por trás de uma Lua crescente que, com seu traço feliz e envolta pelo dégradé das cores do pôr-do-sol, lembra um bago de tangerina sorrindo. A voz de Luiz Gonzaga canta “Não há, oh gente, oh não, luar como este do sertão…”. Sobe o letreiro: “Este filme é dedicado aos “alienígenas” Dilma e Serra, que também se assustariam se vissem as caraibeiras de outubro chuleando seus pontos dourados sobre a manta marrom da caatinga”. Fim.

Janio Ferreira Soares, cronista baiano, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso (Ba), no vale do São Francisco. Mora à sombra de caraibas em flor no sertão baiano.

out
15
Posted on 15-10-2010
Filed Under (Crônica, Janio) by vitor on 15-10-2010

Dilma na Band

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CRÔNICA DE CAMPANHA

A romaria da beata Dilma

Janio Ferreira Soares

O último debate da Band foi o mais animado de todos e serviu para mostrar aos eleitores um pouco da verdadeira Dilma Rousseff, fato até então exclusivo de alguns petistas e colegas de governo. Marina Silva e Sérgio Gabrielli que o digam.

À vontade, ela mandou diversos cruzados no fígado de um surpreso Serra, além de mostrar um tipo de olhar que, como bem observou Carlos Heitor Cony, lembrou o de Collor. Já eu fiquei mais preocupado com uma pequena veia que se dilatava acima do seu olho esquerdo toda vez que ela se irritava. Culpa da TV de Alta Definição.

Dias depois, quando todos esperavam mais golpes, eis que ela apareceu exibindo um semblante calculadamente divinal durante uma missa no santuário de Aparecida – fato que eu presumo inédito em sua biografia, já que a Folha de São Paulo a flagrou passando batida na hora do sinal da cruz –, como se fora uma cópia sem credibilidade do caipira pirapora da bela canção de Renato Teixeira, Romaria, que, por não saber rezar, foi lá apenas mostrar o seu olhar e pedir a Nossa Senhora que iluminasse a mina escura e funda da sua vida. Serra também fez o mesmo, mas, mostrando certa intimidade, até comungou. A dúvida que fica é até que ponto essas encenações são verdadeiras.

Confesso que não sou a pessoa mais indicada para discorrer sobre este assunto, apesar de batizado, crismado e criado entre tias devotadíssimas, hóstias não bentas e foguetes estocados para iluminar o Céu nas noites frias da trezena de Santo Antônio da Glória. Mas, em conversas com meu amigo Dom Guido, Bispo de Paulo Afonso, fiquei sabendo que esse tipo de fé repentina não convence muito, já que Deus costuma analisar o conjunto da obra e não somente gestos praticados com segundas intenções e sem o aval do coração – a exemplo desses jogadores que apontam para o Céu toda vez que marcam seus gols,dando a entender que só eles fazem tabelinha com o Divino.

Portanto, devagar com o andor, que o santo, apesar de ser de barro, sabe perfeitamente distinguir quem é do ramo ou quem é devoto do pau oco.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

out
05
Posted on 05-10-2010
Filed Under (Crônica, Janio) by vitor on 05-10-2010

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CRÔNICA/ UMA CANÇÃO

Quem vai para o trono?

Janio Ferreira Soares

Eu tenho um amigo que sempre compara eleição a um programa de calouros. Ele explica que quando o apresentador pergunta a opinião dos jurados sobre o desempenho dos aspirantes ao estrelato, invariavelmente eles dizem algo do tipo: “gostei muito da voz do rapaz que cantou Raul Seixas, adorei o outro que imitou Silvio Santos, mas vou votar na mocinha que interpretou Detalhes.” Na mosca.

Tanto no auditório quanto no teste das urnas, nem sempre vence o melhor ou o mais simpático. Conheço várias pessoas agradáveis e cheia de amigos que, induzidas a testar sua popularidade numa eleição, perderam justamente para aquele candidato antipático, mas que “canta Detalhes” como ninguém. Creio ter sido esse o principal problema de Dilma.

Quando Lula a escolheu como candidata e começaram os questionamentos por ela ser mais conhecida pelo seu jeito durão e técnico do que por algum atributo político, imediatamente os milagreiros do marketing começaram a adequá-la ao manjado padrão eleitoral vigente que acompanha todos os candidatos, que é o: “veja-como-eu-sou-uma-pessoa-simpática-católica-umbandista-evagélica-e-preparada-para-o-que-der-e-vier-sempre-com-um-sorriso-forçado-no-rosto.” E aí repaginaram o seu antigo visual de professora de matemática que toma a tabuada batendo a régua no birô, ajeitaram o seu cabelo, mas se esqueceram de um detalhe fundamental: não lhe ensinaram a cantar “aquela” canção do Roberto. Dizem que foi aí que começou a se desenhar o segundo turno.

De qualquer maneira, o eleitor/jurado terá uma segunda oportunidade para comparar e julgar as novas performances de Serra e Dilma, agora numa versão mais acústica, já que o metaleiro Plínio foi gongado. E acredito que os marqueteiros já devem ter traçado novidades para os seus pupilos, como talvez um duo formado por Serra e Alckmin mandando uma moda de viola, ou então Dilma, Wagner e Tarso Genro, numa mistura tri-legal de milonga, axé e dança búlgara. Uma dica: como Marina está rouca e dá sinais de que não quer ser vocalista de ninguém, o nosso Ey-Ey-Ey-Eymael se encontra disponível para qualquer canja.

out
02
Posted on 02-10-2010
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Marina: a surpresa que voa alto

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CRÔNICA/ UMA MULHER

VOE, MARINA, VOE

Janio Ferreira Soares

É uma pena que talvez não dê tempo, mas eu gostaria muito de ver Marina disputando com Dilma o segundo turno da eleição presidencial. Primeiro, porque ela me lembra aquela vizinha que sempre chega com um pedaço de bolo ou um chazinho de erva cidreira para acalmar os nervos da gente. Segundo, porque seria muito bacana uma disputa entre uma Silva e uma Rousseff. A propósito, se fosse uma luta pra valer eu até arriscaria dizer como seria a apresentação das duas.
“Neste canto do ringue, pesando o seu peso e mais o de toda a nação petista, ela, uma mineira com sangue búlgaro correndo nas veias; ela, que é a esperança dos companheiros que estavam controlados por Lula e que sonham em voltar a vestir camisetas com a foto de Che Guevara no peito; ela, que não é de brincadeiras e já foi acusada de ter feito chorar o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli; ela, que ao contrário de Lula (que sempre foi uma metáfora em constante aperfeiçoamento) é uma grande interrogação, a começar pelas sobrancelhas flexionadas em arco. Com vocês, o furacão dos pampas, Dilma Vana Rousseff!”
“No outro canto do ringue, pesando o suficiente para flutuar acima do bem e do mal, ela, que veio dos cafundós do Acre; ela, que perdeu a mãe aos 15, contraiu hepatite aos 16, e mais cinco malárias e uma leishmaniose; ela, que foi empregada doméstica, estudou no Mobral e se formou em História; ela, que aos 36 anos foi a senadora mais jovem da história da república, e depois foi ministra do Meio Ambiente no governo Lula; ela, que por não concordar “com ganhos exacerbados para poucos e resultados perversos para os mais pobres”, pediu demissão, saiu do PT e foi para o PV. Com vocês, a caboquinha Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima!”
E quando a platéia já imaginava um massacre, milhões de silvas (incluindo Lula, Marisa e José Alencar) fariam uma grande corrente e ela flutuaria tal um raro colibri, espalhando uma essência mágica sobre todos, que, hipnotizados, lhe dariam uma bela vitória no ringue e nas urnas. Voe, Marina, voe.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso , na margem baiana do Vale do São Fracisco)

set
05
Posted on 05-09-2010
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CRÔNICA/GOL DE PLACA

NO TEMPO DO ACABOU CHORARE

Janio Ferreira Soares

Em outubro de 2007 a revista Rolling Stone publicou uma relação com os 100 melhores discos brasileiros de todos os tempos, escolhidos numa votação feita por 60 pessoas entre técnicos, estudiosos e jornalistas, que citaram seus 20 álbuns favoritos sem ordem de preferência, cujo destaque foi Acabou Chorare, dos Novos Baianos, o mais votado de todos.

Lançado em 1972 pela Som Livre, esse disco equivale a um daqueles petardos que só os grandes craques sabem dar na bola com o lado de fora do pé, que quando parece que está indo pra fora, muda de rumo, faz uma leve curva e surpreende o goleiro. Como o que Nelinho mandou da lateral da grande área contra a Itália na Copa de 78, ou ainda aquele outro que quase ninguém viu, mas deve ter acontecido durante as intermináveis peladas disputadas pelos meninos nos intervalos das gravações no sítio Recanto do Vovô, no Rio de Janeiro.

Na edição de julho último, a Rolling Stone voltou à carga e conta detalhes deliciosos sobre a gravação desse disco, como o caso dos capacitores de um velho televisor que foram colocados na guitarra Gianinni Supersonic de Pepeu para que ela emitisse uma distorção parecida com a da Fender de Jimmi Hendrix, ou ainda a estreita relação da banda com João Gilberto, cuja filha, Bebel, foi a grande responsável pelo título do disco. (Depois de uma longa temporada entre o México e os Estados Unidos acompanhando o pai, ela, enrolada entre o espanhol e o português, caiu no chão do sítio e, diante da preocupação de João com seu choro, levantou-se e disse: “Não machucou papai, acabou chorare.”)

Nascia ali o nome de um dos grandes discos da música brasileira, numa época em que a competência e a simplicidade dos artistas andavam no mesmo tom, fato, aliás, que acontece até hoje. Um exemplo.

Há pouco tempo eu contratei as bandas 14 Bis e A Cor do Som para um evento aqui em Paulo Afonso, e ao ligar pro escritório dos mineiros fui atendido diretamente por Sérgio Magrão, grande baixista e compositor de sucessos como Caçador de Mim (parceria com Sá – que faz dupla com Guarabyra – e que infelizmente não pôde participar do evento), que imediatamente lembrou que eles haviam tocado aqui há 14 anos, também trazidos por este locutor que vos fala. Turma boa de papo e copo, antes do show traçamos um belo pirão de surubim com pimenta, que parece ter sido um excelente combustível para fazer decolar a velha aeronave rock’n roll, que flanou mais afiada do que nunca pela noite estrelada do sertão do São Francisco.

Com a Cor do Som, foi a mesma coisa. Dadi, Gustavo e Mú (acompanhado da esposa), pegaram um avião no Rio, desceram em Salvador, se encontraram com Armandinho e equipe e enfrentaram quase 1.000 km (ida e volta) de estrada, numa boa, muito mais pelo prazer de estarem juntos relembrando casos, amores e canções, do que pelo cachê. Um retorno emocionante.
Exigências? Um bom som e uma boa cama, é claro, para acalentar as dores e os pecados do mundo. Quase nada diante das pratarias e jatinhos exigidos pelas estrelas do axé, que, com raríssimas exceções, pedem muito e não entregam nada além de estridentes acordes correndo atrás de um monte de monossílabos átonos desafinados e desconexos.

A animação dentro da Van que leva os meninos da Cor do Som para o show lembra o de um transporte colegial. No trajeto, Dadi pergunta a Armandinho algo sobre o tom de uma música que ele não recorda, Gustavo amola as baquetas e grunhe qualquer coisa numa língua que parece viking, enquanto eu converso com Mú e sua esposa sobre trufas e cinema mudo, um de seus discos solo.

Na platéia, centenas de velhos e novos baianos aguardam ansiosos, com a alma certamente cheirando a talco, como bumbum de bebê.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso (BA)

ago
21
Posted on 21-08-2010
Filed Under (Crônica, Janio) by vitor on 21-08-2010

Plínio: “da-lhe velhinho’

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CRÔNICA POLÍTICA/NANICOS

Plínio e os nanicos

Janio Ferreira Soares

O título acima poderia ser o de um desenho animado, onde reinaria uma mistura de personagens que fazem parte do contexto. (Plínio Raposo, ou simplesmente Plínio, é aquele garoto rico e chato que paquera Glória e por isso é inimigo mortal do dono do gibi, o grande Bolinha. Quanto a nanico, é como Fred Flintstone chama carinhosamente seu amigo Barney). Mas a verdade é que o assunto continua sendo a sucessão presidencial, só que dessa vez não falarei de Dilma, Serra ou Marina, mas sim daqueles que estão à margem do processo e são conhecidos exatamente como candidatos nanicos.

Cada um está tendo menos de um minuto na TV para tentar convencer o eleitor de que, por exemplo, Ivan Pinheiro, do Partido Comunista Brasileiro – que promete fechar o senado e reconhecer as FARC como organização política – tem condições de chefiar a nação.

Você também pode optar pelo companheiro Rui Costa Pimenta, do Partido da Causa Operária, que não apresentou nenhuma proposta ao TSE, preferindo governar de acordo com as carências sociais, ou, ainda, escolher Zé Maria, do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado – que foi expulso do PT por ser considerado muito radical – que anuncia a taxação das grandes fortunas e a estatização do sistema financeiro.

Há também a opção pelo bom e velho democrata cristão, Eymael, que tem como grande trunfo a nova versão de seu famoso jingle “Ey, Ey, Eymayel..”, nas versões axé, milonga e sertanejo. Agora vai.

Mas se você quiser garantir o futuro dos bebês, a melhor escolha é Levy Fidelix, do Partido Renovador Trabalhista Brasileiro, que promete uma poupança de dois mil reais para cada recém-nascido, resgatável quando o mesmo fizer 21 anos. Uma espécie de Bolsa Fralda ou Bolsa Xixi, tanto faz.

Quanto a Plínio de Arruda, do PSOL, o papo é outro. Além de pregar um calote na dívida interna, os candidatos morrem de medo do que essa espécie de punk da melhor idade pode aprontar nos debates. Espero que ele honre a fama e revele a verdadeira face de cada um. Como diria Pernalonga: dá-lhe, velhinho!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na região do Vale do São Francisco

jul
22
Posted on 22-07-2010
Filed Under (Crônica, Janio) by vitor on 22-07-2010

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CRÔNICA/ PERDAS

O triste fim do Jornal do Brasil

Janio Ferreira Soares

“Quem lê tanta notícia?”. Ao fazer esta pergunta em 1967 nos versos de Alegria, Alegria, Caetano Veloso devia estar de saco cheio de passar por bancas lotadas de jornais estampando matérias sobre a morte de Che Guevara, a visita do General Costa e Silva ao Papa Paulo VI, as tropas americanas bombardeando o Vietnam com napalm, ou a posse de Delfim Neto no Ministério da Fazenda. Quanto às resenhas sobre o lançamento do LP Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e do compacto simples com Penny Lane de um lado e Strawberry Fields Forever do outro (ambos dos Beatles), ou ainda algo sobre a morte de Guimarães Rosa, certamente estavam nas páginas do excelente Caderno B do Jornal do Brasil, na época um contraponto aos vigiados primeiros cadernos e às barras pesadíssimas que nos espreitavam nos bares, esquinas, sertões e gerais.
Nos anos 70, quando eu estudava em Salvador, gastava quase toda minha grana em discos, livros, revistas e jornais. Além dos locais eu comprava o Estadão, O Globo, Folha de São Paulo e o Jornal do Brasil, e passava boa parte do dia devorando-os e vibrando com uma turma de colunistas e cronistas que tinha um jeito todo especial de escrever, sobretudo nos cadernos culturais. Mesmo de férias no interior eu sempre encontrava um jeito de mandar alguém enviá-los, especialmente as edições dominicais, pesadas e preciosas pérolas de papel.
A propósito, vibrei muito quando começou toda essa onda de Internet e descobri-os novamente a disposição dos meus ainda ávidos olhos, antes mesmo de o galo cantar. É claro que paginá-los com um simples toque nem de longe se compara ao prazer de folheá-los manualmente, embora essa possibilidade tátil continue existindo quando das minhas viagens, infelizmente agora com um desfalque irreparável.
É que a partir de setembro não mais terei o prazer de comprar o velho JB nas bancas. Dalí em diante, só na Internet. Não que não valha a pena acessá-lo via rede. Mas que vai ser muito esquisito sabê-lo para sempre ausente das minhas mãos numa manhã chuvosa de um domingo qualquer, isso vai. Uma pena.

Janio Ferreira, cronista, é secretário de Cultura e Turismo da cidade de Paulo Afonso (BA), no Vale do São Francisco

jul
09
Posted on 09-07-2010
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Telê: um treinador de verdade

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CRÔNICA/SELEÇÃO

O cochilo dos deuses da bola

Janio Ferreira Soares

Chateados com o desempenho de nossa Seleção e com essa Copa, os deuses apaixonados pelo verdadeiro futebol brasileiro devem ter cochilado durante todo o primeiro tempo de Brasil e Holanda. Só isso para explicar a espetacular enfiada de Felipe Melo para o gol de Robinho, além de outros lampejos que poderiam provocar outra injustiça histórica. Mas aí veio o intervalo e Garrincha, Telê e Didi resolveram que era hora de parar com aquela enganação e começaram a chutar bolas na porta do céu para acordá-los, evitando assim que se repetisse 1994, quando uma Seleção que tinha no miolo Dunga, Mauro Silva, Mazinho e Zinho sagrou-se a melhor do mundo. Ainda bem que deu certo.

Aliás, foi a partir dali que criou-se o mito de que o importante é a vitória a qualquer preço, de preferência com os jogadores comemorando os gols com as mãos erguidas para o céu, como se lá morasse algum fã desse futebolês burocrático. Deveriam era apontar para a grama, pois certamente é embaixo dela que estão os verdadeiros admiradores dos volantes de cabeças raspadas especialistas em botinadas.
Já vi muita gente criticando a Era Dunga, mas até agora não vi nenhum comentário sobre a Era Ricardo Teixeira, principal responsável por tudo que está acontecendo com o nosso futebol. A propósito, vê-lo falando é o melhor laboratório que um ator pode fazer para interpretar um personagem com cara de nojo e desdém, desses que não tem nenhuma consideração pelo próximo. Tipo Marlon Brando no papel de Carlos Imperial.

Tão ou mais poderoso que qualquer Presidente, é ele quem vai comandar a organização da Copa 2014. Tomara que fique apenas com a parte operacional e deixe o espetáculo por conta de um técnico que traga de volta o nosso velho estilo de jogar e, se não for pedir muito, que se vista normalmente.
No mais é torcer para que daqui a quatro anos meus filhos pelo menos chorem por um time que mereça suas lágrimas, independente do resultado. Como aquelas que escorreram pelo meu rosto em 1982, em homenagem a melhor Seleção que eu já vi perder em minha vida.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso

jul
02
Posted on 02-07-2010
Filed Under (Artigos, Janio) by vitor on 02-07-2010

Marina: “pense numa cabocla jeitosa”

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CRÔNICA/ DESCOBERTAS

Dilma, Abílio Diniz e João Vaqueiro

Janio Ferreira Soares

Leio na Folha de São Paulo que a candidata Dilma Rousseff participou de uma reunião com mulheres da alta sociedade paulistana na mansão do empresário Abílio Diniz, dono do Pão de Açúcar.
Segundo a bem informada Mônica Bergamo, em cuja coluna o sorriso dos habitués parece que fez um pacto com o botox, no ágape estava presente grande parte do PIB feminino que apenas gasta, além de outras moçoilas independentes que ostentam tailleurs Armani com a mesma pose que suas antepassadas desfilavam valentinos pelos salões do Grand Hotel Ca’d’Oro. Ah, que saudades do bollito misto circulando nos almoços dominicais!
Como sempre faço quando leio essas coisas, corri para contar a boa nova a seu João Vaqueiro, oitenta e tantos de galhofa e gabolice que, para minha surpresa, agora adotou sobre as pálpebras um suspeito aro tartaruga com lentes semi-rayban, que nem de longe lembra àquele que se mantinha na ativa graças a uma fita isolante grosseiramente enrolada na haste esquerda. Coisas do Bolsa Família, ele confessa com um sorriso matreiramente diagonal.
Lhe conto que muitas convidadas se surpreenderam com o novo visual de Dilma. “Ela é muito mais bonita pessoalmente. Não que seja linda, mas você vê que ela deu um trato, fez uma plástica. O pescoço está tudo de bom, o olho nem tanto”, disse uma das presentes.
Depois de me servir um copo de ki-suco de groselha com um dedo de açúcar no fundo, ele tira o paraguaio rajado do rosto e noto que seu olho esquerdo também está meio arriado. Suponho um derrame, mas imediatamente ele me corrige justificando que foi de tanto piscar pras meninas na trezena de Santo Antonio da Glória. Agora seja!
Tempos atrás ele dizia que se pegasse Dilma num forró ela ia ver com quantos paus se fazia uma canoa. Pergunto se ainda encararia uns rodopios gonzaguianos com a pupila do monsenhor Inácio agora que ela sofreu uma repaginada capilar e epidermiana e ele responde que vontade ainda tem, o problema é que, com a plástica no pescoço, o molejo tende a ficar prejudicado.
“Quer um pouco de Jurubeba? É bom pro fígado e dá sustança”. Declino, e lhe pergunto quem vai ganhar a eleição. Para minha surpresa ele diz que torce pra Marina Silva. Antes que eu lhe peça motivos, justifica: “Pense numa cabocla jeitosa! E pra completar, eu soube que ela tem asma. E você deve saber que não tem afrodisíaco melhor prum homem da minha idade do que um piado no pé do ouvido no meio da madrugada”. Vivendo e aprendendo. Grande João Vaqueiro!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no Vale do São Francisco.

jun
25
Posted on 25-06-2010
Filed Under (Artigos, Janio) by vitor on 25-06-2010

CRÔNICA/CRAQUES E BOLAS

O sofrimento da Jabulani

Janio Ferreira Soares

Minha primeira bola foi um presente do meu tio Lindemar e veio acompanhada de calção, meião, camisa e chuteira. Eu tinha lá meus sete anos e ele achava que eu seria um craque. Mas assim que eu percebi que não levava nenhum jeito para o futebol comecei a devorar seus livros, discos e revistas. Foi melhor assim.
Também foi ele quem me levou para ver o meu primeiro jogo numa Fonte Nova ainda térrea e segura. Foi um Bahia e Cruzeiro daqueles, já que no time mineiro estavam Tostão, Dirceu Lopes e Cia. Saí do estádio hipnotizado, achando que todos os jogos da minha vida seriam espetáculos iguais. Mas bastou um Galícia e Leônico para que eu percebesse que jogadores capazes de fazer um menino do interior voltar para o sertão acreditando que anjos existem eram raríssimos.
Dito isto, estou bem à vontade para dizer que continuo admirando o que realmente vale à pena, independente de paixão ou patriotismo. Isso serve tanto para o esporte como para qualquer tipo de arte. Ou você é daqueles que torcem para que um filme brasileiro ganhe o Oscar mesmo sabendo que ele é muito inferior a uma produção, digamos, argentina, só por causa de sua porção Dom e Ravel? Se for, pisou na bola.
E por falar nela, jamais presenciei uma ser tão maltratada como essa de nome Jabulani. Até agora só a vi acariciada quando tocada pelos pés de Messi ou pelas mãos dos árbitros ao pegá-la no pedestal antes das partidas. No mais, é só dor em vários idiomas.
Aliás, se essa bola falasse, certamente diria que felizes foram suas antepassadas, que mesmo sem nenhuma tecnologia de ponta eram tratadas como deusas por craques que apesar de calçarem pesadíssimas chuteiras de couro cru, flutuavam pelos gramados feito anjos conduzidos pelas mesmas asas que eu vi naquela noite nos ombros de Tostão e Dirceu Lopes, num tempo em que o futebol e a vida eram de fantasias, e a Bahia, com seus geniais artistas e poetas desfolhando bandeiras, organizando movimentos e orientando carnavais, era a ponta-de-lança da geléia geral brasileira que o Jornal do Brasil anunciava.

jJanio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no Vale do São Francisco .

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