jun
10
Posted on 10-06-2011
Filed Under (Crônica, Janio) by vitor on 10-06-2011

Janio: direto de Paulo Afonso
o incrivel diálogo do poder

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CRÔNICA/CONVERSAS

O papo de Lula com Palocci

Janio Ferreira Soares

– Pôxa, Palocci, de novo!
– Mas presidente, eu achei que as coisas tinham mudado. Genoino é assessor do Ministério da Defesa; Delúbio foi perdoado; Erenice está na dela; João Paulo se elegeu deputado e foi escolhido para presidir logo a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça); sem falar em Renan, Jucá, Sarney, então eu pensei que…
– Pensou errado, Palocci, pensou errado. Esses últimos que você citou aí são velhos marinheiros acostumados a driblar tempestades. O diabo são os nossos, que não aprendem nunca. Aí aparecem esses meninos da imprensa, como se diz lá em Garanhuns, feito cães chupando manga, fuçando tudo, doidos para nos pegar na curva da displicência (“ô Marisa, anote essa para a próxima palestra.”) e dá no que dá. Mas também, você foi de uma ingenuidade que vamos respeitar! Precisava comprar um apartamento de 7 milhões? Disfarçava, adquiria um menor lá pras bandas do Itaim, financiava em 48 meses. Aí depois fica com essa cara de pamonha que saiu do fogo antes da hora, se desmilinguindo todo, sem ter como explicar essa reincidência comportamental (ô Marisa, mais uma!).
– Mas presidente, eu achei que depois da entrevista na Globo as coisas iriam melhorar.
– Fala sério, Palocci. A única coisa real ali eram aqueles carros passando ao fundo enquanto você falava. A propósito, eu vi um fusca piscando os faróis e pensei: será que é o Francenildo enviando um sinal codificado?
– O assunto é sério, presidente, e você sabe muito bem que eu não podia dizer a origem do dinheiro, senão aquela sua amnésia da época do mensalão poderia voltar. Aproveitando o embalo, diga aos companheiros que eu quero um tratamento igual ao que Zé Dirceu teve quando saiu.
– Um implante de cabelo?
– Você perde o amigo, mas não a piada, hein?
– Falando nisso, e com todo respeito ao Bernardo, que louraça! Lembra uma espiã russa dos filmes de 007. Só vejo um problema: nós, da turma da língua presa, teremos dificuldades em falar “Rousseff e Hoffmann”. Ou treina, ou diz apenas “Dilma e Gleisi”. Até breve.
– Se Deus quiser.
– Chamou?

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

maio
14


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CRÔNICA/DULCÍSSIMA

Irmã Dulce e outros santos

Janio Ferreira Soares

Em meio a ladainhas jornalísticas que perecem não ter fim, finalmente a Bahia se prepara para a beatificação de Irmã Dulce, fato mais do que justo nesta terra repleta de santos estrangeiros, divindades diversas e entidades estabelecidas.
A beatificação, leio, é a etapa que precede a concessão da patente de santo. A partir daí, uma comissão exige a apresentação de mais alguns milagres comprovados, para só então o agraciado ser canonizado pelo Papa e aí poder ser cultuado em todo o mundo.

No caso de Irmã Dulce nem precisava esse protocolo todo, já que sua obra em vida lhe permitiu um exclusivíssimo cartão fidelidade azul-celeste, desses que vem com um chip divino que dá acesso direto a sala vip do firmamento, embora, pelo seu estilo, ela preferisse padecer como uma simples mortal na longa fila do check-in eterno.

Não tenho muita intimidade com santos tradicionais apesar de ter crescido no meio deles, vizinho que fui da igreja de Santo
Antônio da Glória. Mas lembro bem das imagens com suas bochechas rosadas parecendo sorrir toda vez que o coral comandado por minhas tias desafinava a Ave Maria. Meus santos e santas favoritos continuam sendo aquilo e aqueles que, de alguma forma, deixam a vida mais leve. E isso vale tanto para o momento em que meus filhos me dão um sorriso molhado de piscina, quanto para a vez em que ouvi Milton numa distante noite de orvalho e breu, com sua voz de zabumba saindo de um velho rádio sintonizado na Inconfidência de Minas. Merecia uma vela.

Mas agora é hora de festejar a primeira santa baiana, apesar de ela já sê-la de há muito no meu altar secreto, local onde também guardo outros baianos aureolados por mim, a exemplo de Caymmi, esse mestre de canções em forma de rezas, que além de acalentar têm o dom de espreguiçar minha alma; de Glauber, um santo guerreiro de premonições certeiras e inspirações geniais; de Jorge Amado, santo sonso do pau-oco e maioral em inventar personagens divinais; e de Raul, Wally, Gregório, Waldick…, sem falar nos vivos. Mas aí são outros caracteres.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco


Delúbio: quanto vale a barba dele?
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CRÔNICA/ BARBUDOS

Quanto vale a barba de Delúbio?

Janio Ferreira Soares

Numa rápida consulta ao Google, fica-se sabendo que no Egito Antigo o seu uso era uma forma de status, enquanto na Idade Média os membros da Igreja Cristã eram orientados a raspá-la para se diferenciarem dos judeus e mulçumanos. Já em outras culturas seus portadores carregavam a fama da sabedoria, da excentricidade, da falta de higiene e até, acredite, do aumento da potência sexual.

Existem ainda os que a usam para encobrir um queixo estilo Noel Rosa, ou simplesmente por preguiça de tirá-la. O fato é que, desde o tempo em que os nossos ancestrais descobriram que lascas de pedras afiadas podiam removê-la, a barba está sempre ali, ó, representando uma marca pessoal, ou sendo sumariamente raspada.

Já o bigode – esse estranho adorno que rivaliza em esquisitice com a gravata borboleta – de há muito deixou de ser um simples complemento, aí dependendo do beiço de quem o usa. (Por exemplo: sobre a boca do famoso – pelo menos na Bahia – delegado Magalhães, ele vira uma espécie de homenagem em 3D a nossa gloriosa Claudia Ohana).

Bastante utilizado pelos germânicos e gauleses em suas batalhas – e por sarneys e jucás em seus disfarces -, o bigode também era cultivado por militares da chamada linha dura e por humoristas como Cantinflas, Carlitos e o impagável Zé Bonitinho, o que prova a sua versatilidade. É tanto que Freddy Mercury e o pessoal do Village People fizeram dele um poderoso estandarte do movimento gay.

Para quem ainda não sabe, na Bahia (onde mais poderia ser?) está acontecendo uma grande jogada de marketing de uma empresa de lâminas de barbear, que consiste em pagar uma boa grana para raspar algumas – como diria Odorico Paraguaçu – penugens solidificadas de fisionomistas juramentados. Foi assim com Bell, do Chiclete, e em breve será a vez do governador Wagner. Dizem que o próximo alvo poderá ser Lula. Sugiro Delúbio. É que ele está voltando à ativa e nada mais adequado do que uma cara bem lisa a nos sorrir. Sem falar que pode até pintar um cachê extra do Óleo de Peroba.

Pra maquiagem

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Vale do São Francisco


Paulo Afonso: tudo começava com o disco do Rei
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Janio escreve de Paulo Afonso, na beira do Rio São Francisco, do lado baiano, no dia dos 70 anos do rei Roberto Carlos:

No dia em que Roberto Carlos está completando 70 anos, lembrei dos antigos natais daqui de Paulo Afonso, quando a cidade só entrava no clima depois que as canções de seu novo LP começavam a tocar nos serviços de alto-falante e nas rádios. Era a senha para os comerciantes montarem suas barracas no chão de terra batida, e correr para ver quais seriam os primeiros a batizá-las com os nomes de seus novos sucessos – ou com o nome de alguma canção sua.

E era com a rua transformada numa espécie de coletânea do Rei, que você podia tomar um refrigerante dentro da Lady Laura , comer um cachorro-quente Na Paz do seu Sorriso, ou então se empanturrar de cerveja com batata frita na Ilegal, Imoral ou Engorda e ir curar a ressaca tomando um caldo de cana Embaixo dos Caracóis de Seus Cabelos.

Eu mesmo cansei de sair da Amada Amante, passar em frente das Flores do Jardim da Nossa Casa e ir tomar a saideira sob a lona de Jesus Cristo, que, qual a capa pendurada, assistia a tudo e não dizia nada. Velhos tempos, belos dias.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso

fev
20


Usina de Paulo Afonso: poder de iluminar
e desligar as luzes do Nordeste
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CRÔNICA/LUZES

Apagão, Ronaldo e estrelas

Janio Ferreira Soares

Passava da meia noite de sexta-feira, 04 de fevereiro, quando as luzes de Paulo Afonso desapareceram. Pensando tratar-se de um problema local, imediatamente abri a janela para ver até onde ia a extensão do breu e calcular o tempo em que a turma da Coelba iria me devolver os compressores que abrandam minha insônia e climatizam meus medos. Porém, ao ver o complexo das usinas da Chesf completamente apagado, percebi que o problema era mais sério que uma simples canela arriada num transformador qualquer, o que foi logo confirmado por uma rádio pernambucana que anunciava todo o Nordeste às escuras, inclusive com algumas tentativas de saques a lojas de Recife. Como aqui é outra onda, coloquei meus óculos de avivar distâncias e fui para o quintal contemplar o lado bom do apagão.

Lembrando uma peneira gigante vazando luzes, lá estava o firmamento qual uma imensa concha acústica reverberando latidos distantes acompanhados de pios de corujas e ruídos de aviões mais além ainda, formando sons perfeitos para ouvidos que até há pouco eram torturados por um “valei-me Deus, é o fim do nosso amor”, mais gritado do que cantado vindo de um clube próximo. Aos poucos, mulher e filhos foram chegando e ficamos um bom tempo desplugados de telas e demais vícios eletrônicos, apenas curtindo os vagalumes, que lembravam pequenos leds diante da imensidão de estrelas e galáxias que quase nunca aparecem por conta dos clarões das cidades, mas que, assim como o outro lado da Lua, continuam lá.

A propósito, uma estrela de admirável grandeza felizmente percebeu que o hidrogênio que habitava seu núcleo rareava cada vez mais e, antes de virar uma simples nebulosa, decidiu não mais iluminar os gramados do mundo. Ronaldo, um dos maiores atacantes que eu já vi jogar, enfim foi vencido pelas dores e pela gravidade, e sabiamente antecipou o seu crepúsculo. Uma pena.

Voltando ao apagão, aqui mesmo neste espaço eu já alertei que se o governo não desse a devida atenção a Paulo Afonso a gente podia apertar um botão e desligar o Nordeste. Viu só o teste?
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Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo da cidade de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco, sede da CHESF, um dos maiores complexos hidrelétricos do País, responsável pelo abasstecimento de energia do Nordeste.

fev
05
Posted on 05-02-2011
Filed Under (Crônica, Janio) by vitor on 05-02-2011


Dilma e Lula:diferenças de estilo
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CRÔNICA/DIFERENÇAS

SERÁ QUE DILMA AGUENTA?

Janio Ferreira Soares

Um mês e pouco depois de Dilma Rousseff assumir a presidência, observa-se uma estranha calmaria nas falas de Bonner e Fátima, nas páginas das folhas e nos bares do País, a ponto de meu filho, Juca, 14 anos de games, guitarras e metade-da-vida-vendo-Lula-todo-dia-na-tevê me perguntar se ela já tinha tomado posse.

Depois da confirmação e da tentativa de esclarecimentos (“cada um tem seu estilo, o dela é assim mesmo…”), ele deu de ombros como quem diz: “ela é que sabe”, que apesar de não ter nada a ver, soou mais ou menos parecido com o “Fernando Henrique começou assim”, chantagem das mais rasteiras proferida recentemente pelo deputado federal, Paulinho da Força.

Pensando bem, o quê o nosso inolvidável sindicalista queria? Que uma mulher criada na disciplina paramilitar continuasse por aí interpretando Dilma da Silva, personagem bolada e esculpida pelas experimentadas mãos do publicitário João Santana?

Que de repente ela incorporasse o estilo “caboclo conciliador de todos os credos” que baixava em Lula toda vez que ele se via diante de um agrupamento de pessoas ou de algum pepino? Portanto, nada mais normal que a presidente, fazendo jus à fama pregressa de técnica linha dura, aposente a capa cheia de estrelas – e o cinto de cometas – e retome a identidade da velha Rousseff de guerra que fora aprisionada no baú dos interesses eleitorais, quando nada, para dar um belo susto nos milhares de paulinhos que conspiram por aí.

Até agora o grande barato dessa diferença de estilos entre criador e criatura é observar as feições assustadas dos velhos viciados de sempre, uma vez que todos esperavam tetas ainda mais turbinadas jorrando o doce líquido que os sossega e os sacia. Por conta disso eles estão chorando ameaças e querendo colo. Resta saber se o espírito maternal de Dilma é o daquelas mães que deixam o bebê se esgoelando no berço até parar o dengo e cair na real, ou se ela é daquelas que não aguentam pressão e acordam no meio da noite para dar de mamar “ao fofo do Paulinho da mamãe!”. Segure a onda, presidente.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco


João Ubaldo: baiano porreta
faz 70 domingo(23) na ilha
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CRÔNICA/ UM PORRETA

NEM TODO JOÃO É UBALDO

Janio Ferreira Soares

Todo mundo tem um João em sua vida. Eu mesmo fui amigo de um com oitenta e tantos anos de gabolice que atendia pela alcunha de Vaqueiro, cujo perfil transitava entre Clint Eastwood e Charles Bukowiski. Do eterno caubói carregava o estilo de quem entra sem pressa no saloon, acotovela-se no balcão e vira várias doses de whisky com o mesmo prazer que eu tive ao tomar minha primeira fratelli numa lanchonete da Carlos Gomes. Do escritor levava o jeitão do velho safado que pisca para as dançarinas do mesmo recinto e as arrastava para uma banheira cheia de espuma e possibilidades. Pena ter partido sem realizar seu sonho maluco de dar um grau em Dilma, “rodopiando num forró pé-de-serra pra ela perder a autoridade e o juízo”. Grande figura.

Na Bahia, celeiro natural de cores e nomes, abundam joões. Tem o de sobrenome Gilberto, mestre em acordes e influências; tem o rei da confusão, de Gil; tem o Valentão, de Caymmi; têm os que carregam a pecha de Ninguém, Bobo e Sem-Braço; e, por esses dias, têm dois que estão passando por momentos distintos.

Um anda despertando a ira dos soteropolitanos e periga tornar-se unanimidade no quesito “sinônimos desaforados terminados em ado” (odiado, execrado, abominado…). Trata-se do prefeito João Henrique, que está deixando Salvador virar algo nunca dantes imaginado. Já o outro pode ser descrito por predicados bem diferentes dos dirigidos ao alcaide, embora com as mesmas harmonias verbais. João Ubaldo (admirado, venerado, festejado…), craque maior na arte de transformar caracteres em obras-primas, estará completando 70 anos neste domingo, 23 de janeiro, data que, torço, vire feriado municipal no restante da Ilha de Itaparica, posto que, no bar de Espanha e adjacências já o é de há muito.

De Paulo Afonso, cidade onde sargento Getúlio veio buscar um preso em um de seus melhores livros, este locutor se inclui no coro dos contentes e faz votos para que o farol da Ilha continue guiando e protegendo os passos do seu filho mais porreta toda vez que ele sair pra bater pernas pelas ruas do Leblon.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo da cidade de Paulo Afondo, do lado baiano do Rio São Francisco, com vista para Alagoas e Pernambuco.


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CRÔNICA/Pelo Telefone

O telefonema de Lula para FHC

Janio Ferreira Soares

– Alô, Fernando Henrique? Desculpe o adiantado da hora, é o Lula.
– Olá, Lula, demorou a ligar, hein?
– Como é que você sabia que eu ia…
– Ora, Lula, não precisa de rapapés, eu sei bem o que é isso. Fiz até uma aposta comigo mesmo que você ligaria em menos de uma semana. Ganhei. Aliás, até nisso você tem sorte, ter alguém para ligar, pedir conselhos. Pior foi quando eu saí, pois só tinha a opção de falar com o Collor, Itamar ou Sarney. Desisti. Pensei até em fazer como o Elio Gaspari e tentar um contato com o Juscelino para pedir-lhe uns conselhos, mas aí o e-mail podia cair na caixa do Getulio… (risos). Confesso-lhe que se não fosse a Ruth para me suportar nos primeiros meses, não sei não, acho que tinha enlouquecido. Mas, desculpe “companheiro”, acho que eu me empolguei. Como estão as coisas (riso de satisfação no canto da boca), abrindo muitas portas?
– Olha, Fernando, eu pensei que fosse fácil, mas a coisa é pior do que eu imaginava. Não consigo dormir direito, ando sonhando com a Ideli Salvatti com uma tarrafa nas mãos cantando como pode um peixe vivo viver fora da água fria. Viro pro lado e vejo Michel Temer com a capa de Christopher Lee mordendo o pescoço de uma jovem loira.
– Calma, amigo, isso é o que eu chamo de Delirium Post, ou, no popular, ressaca do poder. É algo parecido com a ressaca normal, só que vem acompanhada de assombrações. Eu mesmo tinha sonhos horríveis com o ACM e o Jader Barbalho presos numa jaula e eu como o zelador responsável pela tosa. Ruth não dormia com meus urros. A propósito, você devia ligar para a Dilma e sugerir-lhe a criação de uma espécie de clínica de reabilitação para ex-presidentes. Se ela resistir, lembre-a da possibilidade de daqui a quatro anos ela vir a sonhar dançando um tango num motel de beira de estrada com o ministro do turismo, como é mesmo o nome dele, aquele que tem cara de velho tarado de chanchada italiana?
– Pedro Novais… Mas Fernando, o que você me aconselha nesses primeiros dias? Viajar para uma praia, fazenda…
– (Rindo) Se eu não fosse seu amigo lhe recomendaria uma turnê de uns três meses pelo “circuito Ingrid Betancourt”, que compreende a Colômbia, Venezuela e Bolívia, já que você vivia dizendo que eu só gostava do Elizabeth Arden. Ou então abrir uma igreja. Você daria um ótimo pastor. Mas, falando sério, acho que você devia sumir por uns tempos e deixar a Dilma em paz. Mas é sumir mesmo e não ficar como se fosse um errante que se recusa a cumprir o seu destino.
– Acho que eu não consigo.
– Consegue. Em breve a Ideli sairá dos seus sonhos e aí você poderá voltar a contar carneirinhos.
– Você me deu uma boa idéia. Quantos faltam até 2014?
– Boa noite, Lula!
– Marisa, traga uma calculadora, rápido!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turisno de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

dez
10

Wagner: o garoto de Rodelas

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CRÔNICA/ UM LUGAR

WAGNER MOURA EM RODELAS

Janio Ferreira Soares

Apesar de o título sugerir, Wagner Moura não faz parte de nenhuma receita de sanduíche (queijo, pastrami, duas rodelas de Wagner Moura, alface…). A Rodelas em questão era uma cidade do sertão baiano que sumiu do mapa em 1988 por conta da construção da barragem de Itaparica, cujo processo de inundação parece ter sido uma das cenas mais marcantes aos olhos do então menino Waguinho, embora o péssimo roteiro tenha sido escrito não pelos craques que hoje tem a honra de tê-lo como protagonista, mas por tecnocratas que se lixaram para a história dos rodelenses.

Em recente entrevista a revista Rolling Stone, ele disse: “Lembro-me pouco do que fiz dias atrás, mas me lembro muito da minha infância. E me lembro bem de Rodelas, porque a gente sempre passava as férias lá e depois morou lá. E eu estava lá no momento da mudança, quando construíram uma cidade chamada Nova Rodelas e mudaram todo mundo pra lá. Foi uma experiência antropológica extraordinária. Todas as relações culturais e sociais com o lugar se perderam com a água. Teve muita gente que morreu deprimida, alcoólatra.”

Eu sei bem o que é isso, meu velho Capitão Taoca, porque também sou um órfão de cheiros e sinos; de relâmpagos clareando a curva do rio e da chuva arranhando nas telhas uma balada de ninar gente grande; e, claro, daquele sarro atrás da igreja (a minha, de Santo Antônio da Glória; a sua, de São João Batista) ouvindo a voz do mestre Waldick profetizando que hoje a noite está calma e que a minha alma esperava por ti.

Doze anos antes de Rodelas, Glória também submergiu de uma forma ainda mais crua, pois naquele tempo o extraordinário verde dos tamarineiros e umbuzeiros era a nossa única artilharia diante do oliva que dominava a nação.

E foi assim que José e Alderiva, Ceci e Zé da Silva, filhos, amigos e outras rimas, de repente se viram em terras estrangeiras, deixando pra trás sonhos e boleros sob as águas de um rio prisioneiro e triste, que nem de longe se parece com aquele que de vez em quando ainda corre solto nas lembranças de quem viveu por lá.

Jânio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na parte baiana do Vale do Rio São Francisco;

nov
11
Posted on 11-11-2010
Filed Under (Crônica, Janio) by vitor on 11-11-2010

Amado Batista: sucesso de fato

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CRÔNICA/AFOGAMENTOS

Chico Buarque, Amado Batista e Florentina

Janio Ferreira Soares

Essa onda de discriminação contra os nordestinos por conta da grande votação de Dilma é apenas mais uma das milhares que acontecem diariamente no Brasil. A maioria é disfarçada e silenciosa, como quando alguém entra num restaurante estrelado destoando do padrão estético estabelecido (de bermudas, por exemplo) e recebe uma sequência de olhares fulminantes que começa pelo porteiro, passa pelo garçom, se acentua no maitre e chega ao ápice com o cochicho dos comensais. Outras são mais abertas e corajosas, como a opinião dessa garota que sugeriu nos afogar. Só acho que ela deveria ter apontado quais seriam nossas alternativas.

Deixaríamos este vasto mundo nas profundezas de uma cacimba ou na turvez de um barreiro meado? Sob as pontes do rio Capibaribe ou de susto, com um balde de água jogado na nossa cara, já que temos a fama de não conhecer muito bem o líquido? E quem nos afogaria? Paulistas de escafandros Lacoste ou gaúchos de bombachas flutuantes?

Seguiríamos pacificamente rumo ao asfixiamento ou puxaríamos a nossa temida peixeira para reagirmos de acordo com a lenda lampirônica que habita esses rincões? Detalhes, minha filha, detalhes.

A verdade é que tudo que tem um apelo popular tende a ser taxado preconceituosamente. Um exemplo que até hoje gera calorosas discussões é a tal breganização da música brasileira. Em qualquer roda de chope com fundo musical mais elaborado, neguinho puxa logo o mote de que bom era no tempo em que só Chico, Caetano, Tom Jobim e afins “faziam sucesso”. Que sucesso, cara pálida? Eles faziam música de qualidade, mas sucesso quem faz é Amado Batista e os sertanejos de calças justas – que vendem milhões de discos e lotam ginásios -, ou o cearense Tiririca, que usando a força de um personagem se elegeu com mais de um milhão de votos, coincidentemente na terra da moça que prega o nosso fim.

Mas o negócio é relaxar, como faz um gay da região, que diz que vai se vestir de Florentina e se afogar na foz do São Francisco, pois lá é a maior concentração de Nego D’água por metro cúbico do rio.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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