Reynaldo Gianecchini
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CRÔNICA

Sorrir desmoraliza a dor

Janio Ferreira Soares

Leio que o ator Reynaldo Gianecchini anda “na maior felicidade” e muito confiante na sua luta contra um câncer. Leio também que Lula, apesar do tratamento quimioterápico, “está bem-humorado e feliz”, principalmente com o seu Corinthians – a um passo de ser campeão brasileiro. Se eles não estiverem jogando para a plateia, estão no caminho certo.

Recentemente passei algumas horas num corredor de um hospital e pude observar que, mesmo em nítida desvantagem, a alegria consegue comer pelas beiradas e penetrar sorrateira no espaço onde o sofrimento é rei, para, quando nada, dar uma bela desmoralizada na dor. Como no caso de uma menina com poucos meses de vida que deu entrada no setor pediátrico depois de engolir uma banda de um comprimido de origem desconhecida e, mesmo se esgoelando num choro de dar pena, de vez em quando esboçava um luminoso sorriso, como se dissesse: “relaxem, que daqui a pouco eu fico boa e vou pra casa brincar”.

Já na ala feminina, uma senhora beirando os 80 anos resolveu voltar aos seus tempos de adolescente e começou a paquerar descaradamente o jovem médico que lhe atendia, dizendo, toda melosa: “me leve pra casa, doutor, que aí o senhor vai ver como eu vou ficar boazinha, boazinha!”, provocando boas gargalhadas em alguns pacientes que, pelo menos por alguns instantes, se esqueceram da agonia de ficar horas e horas apenas assistindo o percurso do soro viajando lentamente até entrar em suas veias.

Não sei até que ponto o bom humor das pessoas tem a ver com a sua longevidade, mas tenho pra mim que aqueles que não se levam muito a sério e conseguem rir de si mesmos têm mais chances de receber alguns anos de acréscimo, mesmo depois de esgotado o tempo regulamentar. Agora, aqueles que levam a vida como se ela fosse uma espécie de pós-graduação para algum NBA celestial e agem como se os problemas do mundo dependessem de suas performances de vendedores de Delta Larousse, aí já não sei. Se o juiz for dos meus, é cartão vermelho antes mesmo que a primeira frase de
Paulo Coelho saia de suas bocas.


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Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no lado baiano do Vale do Rio Sâo Francisco

nov
11


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CRÔNICA

A primavera dos dragões da USP

Janio Ferreira Soares

Apesar de não gostar muito do estilo literário de Nelson Motta, corri para comprar seu último livro, A Primavera do Dragão – A Juventude de Glauber Rocha -, na esperança de que as deliciosas histórias do biografado amenizassem a minha cisma com a escrita do autor.
Capa de primeira, letras graúdas, cadeira de balanço ajustada no ponto exato da sombra de uma mangueira para não dar chance ao Sol do São Francisco, lá vou eu rumo a Vitória da Conquista e adjacências na ilustre carona de uma turma da pesada.
Pouco depois da metade do livro recebo a visita do amigo Mestre – leitor voraz também conhecido como Tarzan por conta de sua intimidade com as coisas da natureza (a propósito, o seu diálogo com um pica-pau através de batidas percussivas num tronco de uma velha quixabeira já virou um clássico nas rodas de viola) -, que assunta: “e aí, bom? Posso levar?”. Confesso que me deu vontade de emprestá-lo, mas desisti e fui até o final, até para não parecer implicância com o escritor que nunca envelhece. Mas não teve jeito.
Sabe aquela sensação de quando você espera algo arrebatador e recebe na caixa da vitrola um lance tipo Araçá Azul? Pois foi mais ou menos isso que aconteceu, porém fiquei na minha, esperando outras opiniões.
Primeiro liga o Mestre, revoltado: “quer dizer que nem o dragão nem os dragãozinhos queimavam uma coisinha pra animar o ambiente, é? Me engana!”. Mas só depois que eu li no Terra Magazine os depoimentos de João Carlos Teixeira Gomes (Joca), Antonio Guerra Lima (Guerrinha) e Fernando da Rocha Peres (o bananeira fake), danados da vida com as inverdades do livro, foi que eu vi que não estava sozinho no quesito pôxa-mas-que-desperdício-de-histórias-bacanas.
Falando em dragão, pensei que não existiam mais bichos-grilos, mas alguns sobrevivem na USP e agora lutam por baseados livres nas dependências do campus. Beleza. Como sugestão, eles deviam reivindicar uma extensão da USP na região de Cabrobó (PE), com uma fábrica de mariola e uma padaria por perto – e com uma polícia importada da Jamaica fazendo a ronda. O Mestre seria jubilado.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Francisco


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CRÔNICA

O homem que decifrava ventos

Janio Ferreira Soares

Como um clarividente do sertão, João Vaqueiro gabava-se de que não precisava ler jornais ou assistir TV para saber o que se passava pelo mundo, já que possuía o dom de entender os recados do vento. Bastava alguém comentar alguma notícia recente, que ele dizia: “conte outra que essa o vento já me soprou ontem”, e aí partia uma melancia, se ajeitava na cadeira trançada de fitas plásticas coloridas e então começava a contar a sua versão do fato, geralmente recheado de peculiaridades.

Para aqueles que iam na onda e perguntavam como se dava o processo ele explicava, com a propriedade de um Deus grego responsável pelos alísios, que os mais difíceis de compreender eram os que sopravam entre setembro e dezembro, pois vinham açoitados e misturados com cheiros primaveris e algazarras de passarinhos no cio, causando embaraços olfativos e sonoros. Já os de maio/junho eram os seus preferidos, pois chegavam mansos e perfumados pelas delícias juninas, aí incluídas pamonhas, canjicas e moçoilas com gotas de alfazema calculadamente colocadas na saboneteira da clavícula, que era exatamente o lugar onde ele encostava a cabeça durante o forró no pátio da igreja. Pena que o velho gabola não esteja mais aqui para nos dar suas interpretações sobre as últimas rajadas vindas do Planalto Central, que nesses tempos pós-Inácio andam zunindo mais do que os assobios dos fantasmas dos antigos filmes de terror. Mas presumo suas respostas.

Dilmista ferrenho, inicialmente ele culparia a herança maldita recebida por sua musa, reforçando que todos os ministros demitidos até agora foram-lhes servidos numa bandeja de inox com manchas suspeitas nas bordas deixadas por apenas quatro digitais. Em seguida, para não perder a fama, comentaria sobre sua fantasia de vê-la com um espanador de penas de ema faxinando o Alvorada, e, por fim, iria até um descampado, colocaria a mão no ouvido e voltaria, tripudiando: “querem saber quem é o próximo a ser espanado depois de Orlando Silva? Pois vão aprender a ler os ventos, seus willianbonistas!”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, margem baiana do Rio São Francisco

set
30
Posted on 30-09-2011
Filed Under (Crônica, Janio) by vitor on 30-09-2011

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CRÔNICA

Meia-noite no Relógio de São Pedro

Janio Ferreira Soares

Apesar da baianidade e do charme de sua gente, atualmente não vejo nenhum dos motivos estéticos, sonoros e aromáticos que me pegavam de jeito quando eu ia passar minhas férias na cidade da Bahia. Hoje eu ando pelas suas ruas e ladeiras e, no lugar das exclamações que naquele tempo finalizavam meus alumbramentos, agora só me restam interrogações pontuando inúmeros por quês diante de tantas modernidades de fachada e tantos maus tratos diários.

Outro dia, caminhando pela Avenida Sete, parei perto do Relógio de São Pedro e por um bom tempo tentei me ver descendo as escadas rolantes da Fundação Politécnica com uma sacola cheia de vinis indo em direção a Lobrás, com a exclusiva intenção de me fartar diante de um sorvete daqueles. Mas a única coisa que vi, ou melhor, ouvi, foi uma espécie de voz da consciência me dizendo algo do tipo: “deixa de saudosismo barato, seu velho safado. Não vês que onde anseias Concerto for Bangladesh e Araçá azul (lacrado!), Raghatoni e Fantasmão? E onde salivas banana split, casquinha do MacDonald’s? Se oriente, meu tio!”.

Não, ainda não tinha assistido Meia-Noite em Paris, a nova e pequena obra prima de Woody Allen. Se tivesse, quem sabe esperaria as doze badaladas noturnas do velho relógio (por sinal também francês) para, como no filme, pegar um frescão e dar uma volta não pela Paris de Buñuel e Scott Fitzgerald, mas pela Bahia de Glauber e do grande escritor gloriense e boa vida, Raimundo Reis, que comia buchada e arrotava foie gras, enquanto teclava seus escritos numa mesa furada por brasas de cigarros sem filtro e pontilhada de manchas de destilado escocês.

Continuando na onda do filme, o quê você faria se tivesse a chance de pegar uma carona para o passado? Eu, como o espaço já está no fim, correria para o Teatro Castro Alves a tempo de ver o Clube da Esquina cantando Criaturas da Noite, e depois iria com a turma do Mar Revolto tomar uma cerveja no bar do aipim, na Boca do Rio, na ilustre companhia do “meu caro amigo Afonsinho”, craque de bola, de papo e da canção de Gil.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no Vale do São Francisco

set
17
Posted on 17-09-2011
Filed Under (Crônica, Janio) by vitor on 17-09-2011

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CRÔNICA

ROCK IN DILMA

Janio Ferreira Soares

Se FHC estava mais para a Bossa Nova e Lula para o trinado de Zezé de Camargo e Luciano, Dilma, com seu topete e suas jaquetas bem talhadas é a cara do rock pesado alemão, embora ela insista em recusar a sina de uma autêntica metaleira-faxineira-linha-dura-pós-Nina Hagen, que por pouco tempo encheu de esperança essa moçada que começou a sair às ruas para protestar contra a corrupção, fato que certamente deverá acontecer no Rock in Rio que começa na próxima semana. A propósito, rock e política têm tudo a ver.

Lembro que na primeira edição do festival, em 1985, além da lama dando na canela e das filas intermináveis para comprar Malt 90 morna, vivíamos uma enorme expectativa de mudanças por conta da eleição de Tancredo Neves, com vários artistas brasileiros subindo ao palco com a bandeira nacional em punho e gritando palavras de ordem, na certeza de que, como cantava Cazuza, os dias finalmente nasceriam felizes.

Mas aí veio a diverticulite do presidente e a atuação do doutor Pinotti pôs fim à perspectiva do refrão do Barão Vermelho vingar, entrando em seu lugar o lamento de Coração de Estudante, que viria a ser o réquiem da Nova República. (Tenho uma tia que até hoje, quando ouve “quero falar de uma coisa…”, diz: “hein, hein, o bichinho de Tancredo!”).

Não sei ao certo o que levou a presidente a cessar o ímpeto de bater de frente com o pessoal do toma lá dá cá. Dizem que foi uma orientação do melhor do melhor do mundo em não saber o que se passa ao seu redor, mestre maior em acomodar balaios de gatos, ratos e demais espécies.

Em todo caso, seria bacana se ela aproveitasse o embalo do Rock in Rio e se rebelasse contra o seu tutor, abandonando para sempre essa falsa imagem que querem colar nela de uma presidente acústica e assumindo definitivamente a sua porção rock’n’roll. “Let’s go, Lady Roussef!”

Para findar, uma pergunta rimada. Qual será a lógica do universo em bombardear o fígado do Dr. Sócrates e deixar que as bochechas de Jaqueline Roriz reluzam como as romãs que não couberam na canção de Djavan?

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso


Sarney vestido para voar/Jornal Pequeno(MA)
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CRÔNICA / ATOS SECRETOS

Antes de Sarney partir

Janio Ferreira Soares

A foto de Sarney com roupa de veraneio ao lado do helicóptero da PM do Maranhão (este feudo disfarçado de estado que deveria ter um bigode no lugar do til), parece ser uma espécie de “coisas que ainda me faltam fazer para que todos vejam que Lula tem razão quando diz que eu não sou uma pessoa comum”.

Como Jack Nicholson e Morgan Freeman, protagonistas do filme Antes de Partir – que ao saberem condenados por uma doença terminal listam uma série de coisas que sempre sonharam realizar -, Sarney, talvez sentindo-se expirar, também resolveu fazer a sua “lista da bota”, fato corriqueiro entre aqueles que sabem que estão prestes a batê-la.

Chego a imaginá-lo logo cedo tomando guaraná Jesus com própolis de maribondos e depois seguindo em direção ao seu escritório-caverna, onde, ao contrário do morcego que simboliza Batman, um bigode se faz presente desde a maçaneta da porta até a sua famosa agenda-buço (um presente de um padeiro português primo do ex-primeiro-ministro Mario Soares), onde ele anota suas performances.

É claro que, pela idade, confusões acontecem, mas Roseana está sempre atenta para segurar a onda. Como recentemente, quando o nosso incomum imortal insistia em falar com Agaciel (ex-diretor do Senado) para nomear uns parentes através de atos secretos, no que foi prontamente alertado por ela, que disse: “não, papai, isto o senhor já fez. Mas providenciei um passeio de helicóptero que o senhor vai amar!”.

Como sugestão para suas próximas aventuras, recomendo um selinho na presidente Dilma. É uma coisa que está super na moda e o máximo que pode acontecer é Suplicy achar que se trata de algum ato de desagravo ao ministro Pedro Novais por conta daquele lance do motel e, na sequência, tascar um beijaço de cinema em Ideli Salvatti.

De todo modo, na próxima quinta, 8 de setembro, São Luís estará comemorando 399 anos. Portanto, que ninguém se espante se ele chegar ao senado empunhando um zabumba e convocando Pedro Simon, Jarbas Vasconcelos e João Durval para dançarem o Bumba-meu-boi do Maranhão. Ele pode tudo.

Janio Ferreira Soares, cronista. é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no lado baiano do vale do Rio São Francisco


Janio Ferreira Soares
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CRÔNICA/ SENTIMENTOS

Quando o “a” era difícil

Janio Ferreira Soares

Duas mortes anunciadas. A primeira é a da tevê de tubo, que brevemente deixará as prateleiras das lojas e sobreviverá apenas nos quartos dos fundos e na memória de quem, como eu, ficava horas em frente à velha Colorado valvulada mesmo depois de encerrada a programação, apenas observando o indiozinho analógico da TV Itapoan sorrindo um riso preto e branco para mim – sem jamais imaginar que um dia eu veria os seus descendentes em alta definição nos leds da vida.

A outra é a da escrita cursiva (aquela em que as palavras são formadas por letras emendadas pelas pontas), que em algumas cidades americanas já deixou de ser ensinada, dando lugar a outras habilidades consideradas mais úteis, como digitar textos em teclados de computadores.

Quanto ao fim da tevê de tubo, tudo bem, agora, acabar com o ensino da grafia cursiva é preocupante, pois indica que no futuro poderemos ter o fim de todas as formas de letras escritas, o que provocará a extinção definitiva de uma geração que vivia escrevendo versos, poemas e cartas apaixonadas para amores doces e vis, em noites regadas a álcool, desejos e canções. (Cá pra nós, há coisa mais impessoal do que um e-mail de amor?).

Recentemente eu tive o prazer de almoçar com Ariano Suassuna aqui em Paulo Afonso e, enquanto traçávamos uma tilápia (que no exterior é chamada de Saint Peter, o que nos levou a pedir perdão ao todo poderoso por estarmos cometendo a heresia de comer um de seus mais queridos apóstolos), quis saber do que ele precisava para criar, já que está na moda (além do computador) neguinho usar a falta de apoio governamental como se isso fosse determinante para brotar a inspiração, e ele respondeu, com aquela voz que parece saída do fundo de um pote vazio: “Só de uma resma de papel e de uma caneta”. E tome-lhe limão na espinha de São Pedro.

É, meu caro Ariano, pelo jeito, logo chegará ao fim a sua geração e a de meu primo Mourão, que ao voltar de seu primeiro dia de aula, chegou todo assustado para a nossa avó e disse: “mas vó, como o ‘a’ é difícil!”. Era, Mourão, era.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Vale do Sâo Francisco


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CRÔNICA/ MEMÓRIA

Viva o futebol brasileiro

Janio Ferreira Soares

A primeira vez que entrei na Fonte Nova foi para ver Bahia e Cruzeiro, jogo que ficou para sempre gravado num velho vídeo-cassete que cultivo no Dique do Tororó da memória, que de vez em quando aciono só para me lembrar de um tempo em que craques como Tostão e Dirceu Lopes voavam pelos gramados feito anjos barrocos salpicados de estrelas soltas sobre o manto azul das Gerais.

Logo depois daquele alumbramento vibrei com as feras de Saldanha, com o tri no México, com o timaço de Telê e com alguns lampejos do Flamengo de Zico, do Atlético de Reinaldo, do Internacional de Falcão e dos brasis de Romário e Ronaldo, mas nada que superasse a emoção daquela noite na Fonte de um anel só, quando um menino acostumado a duas ruas e um rio correndo rumo às cachoeiras de Paulo Afonso descobriu que o futebol ia muito além do que se apresentava no campo de terra de Santo Antonio da Glória.

Quando é agora, na última quarta-feira de julho, alguma coisa baixou na Vila Belmiro e decretou que naquela noite (apenas naquela noite) uma geração de brasileiros que até então só ouvira falar da época em que o nosso futebol era de sonho e magia, finalmente teria a oportunidade de saber com quantos Neymar se faz um Pelé e com quantos Ronadinho se faz um Garrincha. “Jovem torcedor: futebol brasileiro. Futebol brasileiro: jovem torcedor”. Estava feita a apresentação.

Assisti ao espetáculo ao lado de Juca, meu filho de 15 anos, que até aquele dia tinha no Barcelona a sua única referência de fantasia. Mas depois que Neymar fez aquilo que eu não ouso dizer o nome (até porque não sei) com os zagueiros do Flamengo e Ronaldinho fez aquele gol de falta, vi no seu olhar o mesmo brilho que clareou o meu quando Dirceu Lopes deu um drible tão desconcertante no grande Roberto Rebouças que quase lhe quebra o espinhaço.

Foi um jogo tão perfeito que até o locutor não foi o chato do Galvão Bueno. Se fosse, o zagueiro teria derrubado Neymar, a barreira não teria pulado e Juca, coitado, iria continuar achando que Bahia e Vitória nem são tão ruins assim.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso (BA), no Vale do São Francisco.

jul
09

Jânio: numa boa, não aguento
mais esse papo”

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ARTIGO/ CULTURA

Bombeiros da cultura baiana

Janio Ferreira Soares

Sempre que eu ouço: “vamos resgatar a nossa cultura”, logo imagino uma senhora roliça vestindo saia de brocado e turbante de prata, com um bobó de camarão numa mão e um jarro de oferendas a Yemanjá na outra, entalada num bueiro arrodeado de babilaques e sacis-pererês, gritando: “salve-me com seus versos incorretos, ó Gregório de Mattos; valei-me São Glauber, jogue-me o copião de Terra em Transe para que eu possa subir pelos seus takes; oh! senhor Deus dos desgraçados, sei que vou morrer, não sei o dia… Adeus, ó choça do monte! Adeus, palmeiras da fonte! Adeus, amores… adeus!”.

Numa boa, não aguento mais ouvir esse papo de que a cultura baiana precisa de políticas e verbas públicas para voltar a brilhar, como se leis e financiamentos parissem gênios. Se assim fosse, era só o governador Jaques Vagner direcionar todo o orçamento do governo para a Secult que teríamos de volta os tempos da “Bahia de Castro Alves, do acarajé, das noites de magia, do candomblé”.

A propósito, alguém aí pode me dizer qual a política cultural usada no período em que Gregório de Mattos destilava sua verve flamejante pelos becos malcheirosos da província, ou qual a lei de incentivo ajudou Castro Alves a colocar seu Navio Negreiro singrando os mares da genialidade? E quais os investimentos feitos pelos ex-governadores Antonio Balbino, Juraci Magalhães, Lomanto Júnior e Luiz Viana Filho, para provocar em Caymmi, Assis Valente, Mário Cravo, Capinan, Cid Teixeira, João Ubaldo, Jorge Amado, Caetano, Wally Salomão, Gil, Glauber, Tom Zé, Raulzito e afins, tanta criatividade? Nessa linha, ACM deve ter curtido vários dias de barato total no Sítio do Vovô, ajudando os Novos Baianos na concepção de Acabou Chorare, um dos maiores discos da música brasileira. Aliás, sob o seu bigode – e casacos de generais – a Bahia viveu inesquecíveis temporadas de verão, com a vanguarda e a contracultura mandando ver debaixo de chuva, suor e chicote, numa época em que a arte, agradecida, não procurava desculpas nem cifrões, simplesmente acontecia.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

Janio e a zanga de Gonzagão

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ARTIGO/ FORRÓ?

Forró não é isso

Janio Ferreira Soares

Se vivo fosse, certamente Luiz Gonzaga estaria amuado em algum canto do Sertão do Araripe, danado da vida com o que andam fazendo com o ritmo em que ele era o maioral. O forró, essa deliciosa levada nordestina que é a melodia perfeita para estes dias de ternas fogueiras, coloridos balões e estrangeiras garoas, está sendo brutalmente desfigurado por algumas bandas movidas a dançarinas de pernas grossas e cantores robotizados, que abusam do tripé “cachaça, rapariga e gaia” para iludir milhares de jovens de que forró é isso. Deveriam ser processados por propaganda enganosa e atentado aos dominguinhos da vida.

A propósito, o jornalista pernambucano, José Teles, fez um belo artigo sobre o tema. Ele diz que esse tipo de música já se encontra tão massificada na cabeça da meninada, que está criando entre eles uma arriscada cultura na qual mulher é sempre safada e descartável, cachaça é pra beber até cair e carro não é apenas um meio de transporte, mas lotação para encher de raparigas. Ele prossegue dizendo que quando um cantor chega numa praça pública e pergunta se tem rapariga na plateia e centenas de mulheres levantam as mãos, alguma coisa está fora de ordem. E o mais preocupante é que essa juventude, em breve, poderá assumir o poder. Oremos.

Devo minha formação musical ao rádio. De Orlando Silva até o novíssimo som que vinha de Liverpool, nada escapava do bom e velho Transglobe Philco, meu fiel companheiro nas madrugadas da vida. E foi através dele que eu tive os primeiros contatos com o baião de Luiz Gonzaga e o suingue de Jackson do Pandeiro, e, mais adiante, com os forrós de duplo sentido do Trio Nordestino e Genival Lacerda, cujas Passei a Noite Procurando Tu e Ele Tá de Olho é Na Butique Dela, se comparadas às barbaridades de hoje, soam quase infantis.

Sinceramente, não sei até que ponto a música influencia na formação de um jovem. Mas sei que, fatalmente, ela servirá de fundo musical para diferentes fases de sua vida. Como agora, quando, talvez induzido pelo som de bandeirolas açoitando o ar, me pego assoviando aquela velha canção em que Luiz Gonzaga pede ao seu amor para olhar pro céu só pra ver como ele está lindo.

Já essa turma que abre a mala do carro e obriga toda a vizinhança a ouvir alguém berrar que é pra beber, cair e depois levantar, me deixa bastante preocupado, não só pela qualidade dos sons que eles levarão consigo, mas, principalmente, porque muitos seguem esses conselhos ao pé da letra e, depois de beberem todas, saem dirigindo loucamente, correndo o risco literal de bater, se esbagaçar e aí, sim, nunca mais se levantar. Definitivamente, isso nunca foi forró. Muito menos o seu propósito.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Francisco.

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