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OPINIÃO POLÍTICA

Mudança de percepção

Ivan de Carvalho

Depois dos oito anos de mandato de Lula e já transcorrido ano e meio do mandato da presidente Dilma Roussef, alguns observadores começam a identificar o que se poderia chamar, numa classificação simplista, de fadiga em relação ao PT.

Mas não se trataria somente de uma fadiga devido ao já longo tempo de mando petista e da certeza de que este mando vai, no mínimo, chegar aos 12 anos.

Seria o início de uma conscientização, em segmento da sociedade que esteve e pode ainda parcialmente estar sensibilizado pelo PT e suas lideranças, de que este partido já não exibe em relação aos demais o diferencial que apresentava antes de chegar ao poder e que foi, gradualmente, atraindo simpatias.

Em outras palavras, ganha terreno uma mudança percepção: o PT de hoje não é o mesmo dos tempos em que estava na oposição. Ele, em muitas coisas, tornou-se igual àqueles partidos aos quais se opunha ou com os quais concorria. E, quanto a outras coisas, até acrescentou algumas inovações que podem ser consideradas defeituosas e que os outros partidos não apresentavam, pelo menos publicamente.

Um exemplo marcante quanto a esta última ordem de coisas é a mobilização que vem sendo feita e, mais do que isso, a que já vem sendo anunciada para defender os réus do Mensalão, o maior escândalo de corrupção da história brasileira. Essa mobilização ocorre, organicamente, dentro do PT, como também em seus braços sindical e de movimentos sociais, comandados geralmente por filiados ao partido.

A Central Única dos Trabalhadores (CUT) anunciou que vai às ruas defender a absolvição dos réus a serem julgados a partir do dia 2 de agosto pelo Supremo Tribunal Federal.

Parece que a CUT – e não demora para aparecerem na mesma esdrúxula mobilização também o MST dos sem-terra e o MST dos sem teto, entre outros – está considerando o julgamento pela mais alta corte de justiça do país alguma espécie de Fla-Flu, sem qualquer preocupação sobre a culpabilidade ou não dos réus. Se a CUT e o PT (pela voz de tantos, mais recentemente do seu presidente nacional, Rui Falcão) já os julgaram, o que há de querer, então, o STF metendo o bedelho no caso?

Essas coisas podem estar começando a saturar uma opinião pública que via no PT uma alternativa ética e já começa a convencer-se de que o partido perdeu o seu foco anterior à chegada ao poder federal. Isso se reflete nos Estados, naturalmente e a esta dificuldade somam-se outras, eventuais. Os ventos que sopravam a favor na economia em quase todo o governo Lula – e que lhe permitiram transformar os reflexos da crise norte-americana em uma “marolinha” um pouco mais forte do que foi apresentada pelo governo – agora sopram contra.

Dificuldades com retração no consumo, com inflação, com inadimplência, com a queda nas projeções de crescimento do PIB, com o custo da dívida pública, com alguns orçamentos estaduais – como ocorre na Bahia, onde leva à impossibilidade de atender expectativas da população e reivindicações setoriais – tudo isso soma-se àquela percepção de âmbito nacional sobre o desvio do partido do governo quanto a seu antigo foco ético.

Considere-se, para completar o quadro, a perspectiva de uma longa crise econômica na “zona do euro” que, somando-se à lenta e reticente recuperação norte-americana, já afeta economias como as da China, Rússia e Índia. Isso não é bom para o Brasil nem para quem o esteja governando.

jul
11


Prefeitura: fantasma no pé da escadaria
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OPINIÃO POLÍTICA

A sucessão em Salvador

Ivan de Carvalho

Antes que se saiba quem sucederá João Henrique no cargo de prefeito de Salvador a partir de 1º de janeiro do ano que vem, muita água vai ainda correr por cima da ponte Salvador – Itaparica. Não há muito a fazer para os curiosos senão observar a água passando e tentar identificar na correnteza objetos significativos.

Nesse momento de partido da campanha eleitoral oficial – a informal e supostamente dissimulada está aí faz algum tempo, com maior ou menor ênfase a depender dos candidatos e das forças que os apoiam – avaliações técnicas são importantes, não para se prever o vencedor, mas para conhecer as inclinações do eleitorado no momento em que, após todas as definições dos partidos, as campanhas dão seus primeiros passos e são planejados os seguintes, bem como a estratégia geral de cada postulante.

Não é segredo para ninguém que, até aqui e neste momento, o deputado ACM Neto, candidato da coligação liderada pelo Democratas e composta ainda pelo PSDB, PV, PPS e PTN, está muito à frente dos demais concorrentes.

Há uma escadaria que dá acesso ao Palácio Thomé de Souza, sede do governo municipal construída por Mário Kertész no seu segundo mandato de prefeito. Se usássemos essa imagem da escada, poderíamos dizer que ACM Neto está 26 degraus acima do 15º degrau onde se encontra o deputado Nelson Pelegrino, candidato de uma coligação liderada pelo PT e que reúne 15 partidos, alguns freneticamente atraídos para a aliança nos últimos dias anteriores à convenção petista, o que passou a impressão de uma certa aflição ou, no mínimo, preocupação.

Mas até aí não há propriamente surpresa, apenas uma confirmação de outras avaliações que já vinham sendo feitas – pelo “olhômetro” dos políticos e por meios mais sofisticados do que esse –, mas com um sabor de mais atualidade. A verdadeira surpresa, se houver, é que o radialista e ex-prefeito Mário Kertész está, com a sua modesta coligação de dois partidos – PMDB e PSC – apenas um degrau abaixo de Pelegrino na escada do Palácio Thomé de Souza. Isso costuma ser considerado como pau a pau.

É cedo para conclusões, mas é evidente que, para começo de campanha, Kertész, que entrou nela por último, após um período de indefinições, deve estar feliz. Já quanto ao PT e sua coligação, o sentimento talvez continue sendo de preocupação.

Por falar neste sentimento, ontem o magistério estadual decidiu perseverar na greve que já atinge seus 93 dias. Quando se acrescentam a isso os dias sem aulas por causa da greve na Polícia Militar, fica difícil não pensar em um ano letivo perdido. Talvez não seja um fato consumado, mas pode vir a ser e, mesmo que não, essa crise terá causado prejuízos e perturbações grandes para muita gente. É um foco de insatisfação – coisa que não interessa, eleitoralmente falando, ao governo e tende a empurrar eleitores para candidatos das oposições.

No momento, um fantasma se insinua na sucessão municipal. O que era antes impensável – um segundo turno sem candidato governista – está posto como hipótese de trabalho. Ela, agora, não pode ser descartada.


OPINIÃO POLÍTICA

O discurso de cada um

Ivan de Carvalho

Dos três principais candidatos à prefeitura de Salvador, dois têm seus discursos de campanha praticamente estabelecidos – o radialista Mário Kertész, da coligação liderada pelo PMDB e complementada pelo PSC e o deputado ACM Neto, sustentado por uma coligação mais ampla, liderada pelo Democratas.

O principal elemento do discurso de Kertész será sua experiência de político e administrador, único entre os três candidatos principais que tem experiência executiva, inclusive como secretário do Planejamento do Estado da Bahia – quando a Secretaria do Planejamento teve forte componente executivo e foi responsável pelo plano, projeto e implantação do Centro Administrativo da Bahia.

Mas Kertész deverá usar, principalmente, sua experiência passada como prefeito de Salvador por duas vezes na formulação de um discurso que lhe permita convencer o eleitor que está plenamente capacitado a encontrar as soluções possíveis para melhorar a cidade e resolver alguns de seus problemas, atenuando outros.

Como sabe que a campanha da coligação liderada pelo PT vai bater muito na tecla de que é importante ter um prefeito politicamente vinculado ao governo do Estado e ao governo federal, Kertész vai fazer, neste particular, quase exatamente o que fará o candidato democrata ACM Neto – sustentar que o que vale para conseguir colaboração e recursos do Estado e principalmente da União é ter bons projetos e levá-los aos lugares certos.

Kertész terá ainda, nesse aspecto, a possibilidade de uma alegação da qual não dispõe ACM Neto – se for eleito, ele terá vinculação, sim, com o governo federal, pois seu partido, o PMDB, é o principal aliado do governo chefiado pela presidente petista Dilma Rousseff. Mesmo que esta e o ex-presidente Lula venham a aparecer nos programas de propaganda eleitoral na televisão declarando sua preferência pela candidatura petista de Nelson Pelegrino, a preferência do eleitor não precisa coincidir com a da presidente e do ex-presidente para que a vinculação política com o governo federal exista.

Nesta questão, ACM Neto se diferenciará de Kertész, pois o candidato democrata representa a oposição tanto ao governo estadual quanto ao federal. Ele terá de sustentar que bons projetos e conhecer os caminhos pelos quais se chega aos recursos para executá-los são suficientes, enquanto, sem envolver-se em elogios, preserva de críticas importantes o atual prefeito. Também fará, como é evidente, um apelo ao novo – já que Mário Kertész obviamente não está à vontade para fazê-lo, não pela idade, mas por já ter sido prefeito duas vezes, enquanto Pelegrino também não, pois é a quarta vez que concorre à prefeitura de Salvador, isso sem contar a prévia de 2008, que perdeu para Walter Pinheiro.

Kertész não poupará a administração municipal e com isso estará atirando automaticamente também contra o PT, que dela participou durante quase todo o primeiro mandato do prefeito João Henrique, inclusive comandando, entre outros, o setor de saúde, que nessa época apresentou gravíssimos problemas – além da habitual questão do mau desempenho, regra do SUS em todo o país e de modo especial no Nordeste e Norte.

Pelegrino será quem encontrará mais dificuldade para formular um discurso atraente e isso é grave para quem tem 13 minutos de propaganda gratuita na mídia eletrônica em cada bloco. Além do antediluviano argumento da afinidade com os governos estadual e federal, já usado até o cansaço pelo extinto carlismo, que mais incluirá no seu discurso? Não parece haver interesse nem condições para ataque frontal à atual administração municipal.

jul
07


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Opinião política

Em busca do bom fim

Ivan de Carvalho

A romaria que fizeram ontem à igreja do Bonfim alguns candidatos às eleições municipais – na primeira sexta-feira do mês e no primeiro dia da campanha eleitoral oficial – e tudo que lá aconteceu é material que poderia dar muito o que pensar, se hoje não fosse sábado. Mas é. Então vamos dispensar vãs filosofias. Que seja o episódio considerado em seus aspectos menos complexos ou, de preferência, mais simples.

Em tempos antigos, os militantes do PC do B eram obrigados a estudar a Bíblia para aprender a contestá-la. Era um treinamento político. Isto me foi contado por um ex-militante do partido, que hoje não tem mais nenhuma relação com a sigla nem com a ideologia que ela supostamente representa. É livre pensador e os conhecimentos bíblicos que detém vieram desses estudos compulsórios.

Aliás, vale abrir parêntesis para dizer que, no PC do B, as coisas continuam sendo compulsórias e o comando continua sendo centralizado. É o que os mais sofisticados, fora do PC do B – dentro é difícil ser sofisticado – chamariam de “centralismo democrático”, que não tem nada de democrático e tudo tem de centralismo.

Por conta dessa compulsoriedade e desse centralismo, foi eliminada a candidatura da deputada federal Alice Portugal a prefeita de Salvador sem que ela sequer houvesse sido consultada. Uma candidatura que vinha sendo afirmada e reafirmada sem parar durante muitos meses pelo partido, enfaticamente confirmada poucos dias antes da eliminação pelo presidente estadual da legenda, deputado federal Daniel Almeida.

E quem tomou a decisão final, que fez a agulha magnética do partido virar biruta e dar uma rabeada de 180 graus? O deputado-presidente Daniel Almeida. O comando é dele.

Fechando os parêntesis e voltando aos relacionamentos religiosos do PC do B. Se o partido, ao estudar a Bíblia, houvesse lido com atenção o profeta Isaías, não teria levado seus filiados a tanto esforço e sacrifício, pois saberia de antemão ser tudo isso inútil. Teria encontrado lá, escrita há bem mais que dois milênios, uma frase simples, definitiva: “E quebrou-se o martelo de toda a Terra”. Para bom entendedor, meia palavra basta. Não precisava o profeta falar na foice. Mas o PC do B não era bom entendedor.

Bem, quanto à romaria ao Bonfim, algumas coisas valem um registro, ressalvando-se que, segundo a Constituição, a liberdade religiosa é intocável, assim como a de opinião. Dito isto, fica-se à vontade para comentar.

A candidata a vice-prefeita na chapa do petista Pelegrino, vereadora Olívia Santana, do PC do B, foi à missa e comungou, segundo o site Política Livre. Mas ela é do PC do B e o partido tem o ateísmo como um de seus princípios filosóficos mais elementares e fundamentais.

Além disso, havia notícias de que ela professava a religião do candomblé. A mim não importa, mas o eleitor, ou uma parte do eleitorado, talvez queira saber: é ateia, do candomblé ou católica?

E quanto a Pelegrino, ficou discretamente na nave da igreja. Mas se queria pedir ou dar graças ao Senhor do Bonfim, não tinha motivos para que sua subida à colina fosse marcada, na descrição de Raul Monteiro, “pelo espocar de fogos e dezenas de rojões”, como se fosse ele o Próprio, desfilando no Domingo de Ramos. Deve ter feito falta o jumentinho.

Quanto a ACM Neto, infiltrou-se tão bem que, se o Senhor descesse e pegasse a cruz, ele estaria no lugar e hora certa para assumir o papel de Simão, o Cireneu.

jul
05

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OPINIÃO POLÍTICA

Cassação e voto aberto

Ivan de Carvalho

Há, no Brasil, uma luta de parte da sociedade para acabar com o voto secreto nas casas legislativas. A alegação, algo simplista, é a de que os parlamentares foram eleitos pelo povo e este deve conhecer suas posições políticas, administrativas e éticas – todas elas definidas, em instância final, pelos votos que dão ao decidir as mais variadas questões, desde a aprovação ou rejeição de propostas legais à aprovação ou rejeição de nomes para certos cargos e à cassação de mandatos eletivos.

Mas um rápido exame dos casos em que o voto secreto é atualmente praticado no Congresso Nacional – na maioria deles, no Senado Federal – e nas Assembléias Legislativas ou até nas Câmaras Municipais leva à fácil conclusão de que o bom senso não recomenda a mudança radical que se tem proposto com tanto barulho.

Há um caso em que o sentimento corporativo tem levado a decisões que irritam a sociedade – tanto a parte dela que defende o voto parlamentar aberto de forma ampla como a que não chega a tanto, por ser capaz de perceber o outro lado da moeda. Ainda assim, há razões para dúvida quanto ao melhor caminho a seguir.

Refiro-me as votações secretas em que os plenários da Câmara, do Senado e demais casas legislativas decidem, em votações secretas, sobre cassação ou não dos mandatos de um ou alguns de seus pares. O sentimento corporativo – defesa recíproca, além de relações de amizade e preservação coletiva de poder da função de parlamentar – conspira para que, no voto secreto, longe dos olhos do eleitorado e da sociedade, prevaleça a transigência com os “malfeitos”.

Claro que a instituição sai ferida – e cada vez mais profundamente, pela repetição de episódios –, mas, individualmente, o parlamentar que vota secretamente pela manutenção de um mandato que não deveria subsistir não tem sua decisão conivente revelada aos eleitores e à sociedade. Assim, ele acha que, pessoalmente, “escapou”, driblou a opinião pública e geralmente isso é mesmo verdadeiro.

Ontem, o plenário do Senado aprovou, por 56 votos a 1, o fim do voto secreto para as cassações de mandato de deputados e senadores. A chamada Proposta Emenda Constitucional do Voto Aberto (só para o fim mencionado) deverá ainda tramitar na Câmara dos Deputados para que possa ser promulgada. Não se espera que haja tempo de a futura norma tornar-se vigente a tempo de reger a votação sobre a cassação do mandato do senador Demóstenes Torres. Mas isto não importa, é apenas um caso isolado.

É certo que a Câmara também aprovará a PEC. Vale observar que, assim como o corporativismo pode resultar em decisões coniventes com o erro, a eliminação do voto secreto em um dos casos previstos na Constituição, esse caso de cassação de mandatos parlamentares, tem seus riscos. Uma pressão muito forte de um governo com ampla maioria pode, por causa do voto aberto, levar a uma decisão injusta ou levar parlamentares sem firmeza (são muitos) a votar contra a própria consciência para não ir contra o governo, o partido, certas entidades ou movimentos sociais, a opinião pública, a posição majoritária da mídia. E, assim, a preocupação em não deixar de punir o errado pode levar, em casos extremos ou em caso de fraqueza do regime democrático, a punir o inocente.

De qualquer maneira, o caso de cassação de mandato, dos previstos na Constituição, é o único em que – por causa do notório corporativismo – é admissível o voto aberto. Nos outros casos constitucionais, extinguir o sigilo seria incentivar pressões, intimidação, tudo de ruim para o exercício da liberdade e da democracia.


Assange: ele talvez descobrisse o segredo
da antecipação do desfile cívico da Bahia

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OPINIÃO POLÍTICA

Holmes, Assange e a antecipação

Ivan de Carvalho

Devido ao infausto acontecimento da morte de Sherlock Holmes, que não conseguiu descobrir como reprogramar seu DNA para chegar a este confuso ano de 2012, os mais curiosos poderiam convidar o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, a investigar o que foi mesmo que aconteceu para que as comemorações do 2 de Julho fossem antecipadas em uma hora, tanto de manhã quanto à tarde.

O enigma é simples de descrever. O difícil é decifrá-lo. Precisa-se de ajuda.

A descrição. A Fundação Gregório de Matos, vinculada à prefeitura de Salvador, elaborou a programação, segundo o costume, marcando a saída do desfile, pela manhã, para as 9:30 horas. Mas às 8:30 horas o desfile começou a deslocar-se da Lapinha. À tarde, o início das comemorações também foi antecipado em uma hora, segundo registrou ontem a imprensa.

A Fundação Gregório de Matos disse, por sua assessoria de comunicação, que a antecipação de horários atendeu a “ordens superiores”. Segundo um jornal, uma “alta fonte” da prefeitura informou que a antecipação fora solicitada pelo cerimonial do governo do Estado.

O secretário estadual de Comunicação, Robinson Almeida, disse ao mesmo jornal que não foi nada disso: o cerimonial apenas informara à fundação os horários em que o governador chegaria para os eventos. E o governador, em entrevista a uma emissora, disse que não teve influência na antecipação.

Com seu método dedutivo, imagino que Sherlock Holmes começaria por perguntar-se qual teria sido o móvel do “crime” e a quem o “crime” de surpreender o público dos eventos com a antecipação interessaria, embora o caso, evidentemente, não seja criminal. Aliás, para não deixar passar batido, cumpre registrar – até porque é fato relevante, agressão física à autoridade máxima do Estado – que o único crime evidente e, pois, inegavelmente praticado durante o desfile da manhã foi do manifestante que conseguiu furar o isolamento de segurança e atingiu o governador Jaques Wagner com uma haste de madeira.

Mas, voltando ao caso dos horários, Holmes está fora de combate e o método de Julian Assange não é dedutivo e sim o de obtenção de documentos reservados guardados em arquivos idem. Poderia dar uma ajuda enorme à Comissão da Verdade. Infelizmente, ele pediu asilo na embaixada do Equador, não sei se porque não simpatiza com o governo brasileiro ou se tem especial simpatia pelo presidente Rafael Correa, que já havia entrevistado antes de fugir de casa (estava em prisão domiciliar) e entrar na embaixada do Equador em Londres.

Julian Assange, se for chamado e aceitar o convite, certamente se lançará à busca das comunicações entre o cerimonial do governo do Estado e a Fundação Gregório de Matos. Se, além de possíveis ofícios e e-mails, pudesse ter acesso a gravações de ligações telefônicas (não é especialista nesta arte das polícias brasileiras, a federal à frente), aumentariam suas chances de decifrar o enigma, que seriam absolutas se conseguisse escutar conversas entre pessoas das duas esferas de poder, a estadual e a municipal.

Talvez Assange descobrisse que foram os caboclos que exigiram a antecipação. Capricho deles.


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OPINIÃO POLÍTICA

O cenário pronto

Ivan de Carvalho

O cenário de candidaturas à prefeitura de Salvador e a posição de cada partido estavam ontem assentadas. Há três candidaturas principais, as de ACM Neto, da coligação liderada pelo Democratas, de Nelson Pelegrino, da coligação liderada pelo PT e de Mário Kertész, da coligação PMDB-PSC. A estas acrescentam-se as do deputado Márcio Marinho, do PRB e de Henrique Assis, da coligação PSOL-PSTU-PCB.

O PSC chegou a ser considerado integrante da coligação liderada pelo PT e de fato estava praticamente acertada sua participação, mas resolveu afastar-se na última hora e coligou-se com o PMDB, declarando que percebeu haver aí mais condições de influir com suas propostas e valores. O PSC tem imersão no segmento evangélico, assim como o PRB do bispo-deputado Márcio Marinho.

Em termos de partido, estava faltando uma definição, a do PDT. É que o partido decidira, em convenção, entrar na coligação que apoia o candidato petista Nelson Pelegrino, desde que pudesse indicar o candidato a vice-prefeito em sua chapa, ou então ter candidato próprio. Mas quando o PC do B recuou espetacularmente de uma campanha de meses a fio pela candidatura da deputada Alice Portugal, que o partido declarava irreversível, ficou acertado que os comunistas indicariam o nome para a vice de Pelegrino.

Aí o PDT saltou fora. Sem vice, não. E foi procurar em seus quadros um nome para candidato a prefeito. Não achou. O deputado Marcos Medrado, que se colocara durante meses como aspirante à prefeitura, como é de seu hábito fazer em toda eleição municipal, mais uma vez deu marcha-a-ré e disse que ele não. Não foram encontrados voluntários.

Então o PDT e o PMDB conversaram. Mas o PDT, que apoia e participa do governo Wagner, queria a vice na chapa da coligação que sustenta a candidatura do radialista e ex-prefeito Mário Kertész. Tinha uma alegação um tanto ingênua: indicar um nome para vice seria uma justificativa ante o governo Wagner para que a posição do partido de integrar uma coligação adversária fosse assimilada sem traumas – e sem retaliação política – pelo governo.

A condição não foi atendida. O PDT seria aceito numa coligação proporcional, se quisesse, mas indicar o vice, não, pois isto entraria em choque com duas coisas: o fato de a chapa já ter a vaga de vice preenchida pelo peemedebista Nestor Neto e o discurso que o candidato Mário Kertész vem fazendo sobre partilha e unidade de governo. Assim, a negociação não progrediu e o PDT, como naturalmente não irá para ACM Neto, vai apoiar Pelegrino em condições políticas bem desagradáveis, sem indicar vice depois de se haver afastado por isto. Fica uma dúvida: se o PDT anunciou, como registra o noticiário, que sua convenção decidiu delegar poderes à direção para indicar o vice de Pelegrino ou lançar candidato próprio a prefeito, como é que o partido não vai fazer uma coisa nem outra, mas uma terceira?

Dois de Julho – Uma festa para ACM Neto e Mário Kertész, um contratempo para Nelson Pelegrino. O contratempo era esperado. Havia a greve dos professores. O governo e o PT reagiram com o discurso sobre democracia e liberdade e os internos da Fundação Dr. Jesus com o barulho que fizeram para diminuir a zoeira dos protestos


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OPINIÃO POLÍTICA
O sonho e a realidade

Ivan de Carvalho

1. A direção estadual do PC do B decidiu, ontem, manter a candidatura da deputada federal Alice Portugal à prefeitura de Salvador, deixando de atender, pelo menos por enquanto, aos vigorosos e insistentes apelos do governador e do PT. Mas não foi uma coisa definitiva – uma porta foi deixada aberta para uma possível revisão da decisão, a partir de reunião do diretório municipal, que estaria mais próximo dos problemas da capital.

Em verdade, o que há com o PC do B é que a pressão pela desistência da candidatura própria em favor do apoio ao candidato do PT, deputado Nelson Pelegrino, é muito forte. Os comunistas integram a base do governo estadual petista, no qual têm cargos, incluindo a Secretaria Especial da Copa.

O segmento do partido que participa diretamente do governo tem tendência, digamos, “natural”, para atender o apelo visando à unidade da base em torno de Pelegrino.

Outra corrente do PC do B, incluindo a quase totalidade da militância, quer a candidatura própria de Alice Portugal, que vem deixando clara sua vontade de levar a candidatura a prefeita até às urnas. Esta é, aliás, a orientação fixada pela direção nacional do PC do B para estas eleições, a ser aplicada onde for possível. O partido tem considerável expressão político-eleitoral em Salvador. O resultado dessa divergência interna – ainda que camuflada – logo será conhecido.

2. Outra questão é a posição tomada pelo PSB, cuja liderança de maior expressão na Bahia é a senadora Lídice da Mata, que conduz o partido na Bahia em conjunto com o secretário estadual de Turismo, ex-deputado Domingos Leonelli.

O PSB já descartou a candidatura de Lídice à prefeitura, porque a senadora mesma resolveu pelo apoio do PSB ao petista Pelegrino, em nome da unidade da “base” do governo Wagner, do enfrentamento do que PSB, PT e governo chamam de “direita” e em gratidão pelo esforço de Wagner para assegurar a eleição da senadora em 2010, quando o PT tendia a concentrar seus esforços na eleição apenas de Walter Pinheiro, deixando a Lídice a tarefa difícil de vencer quase que só por conta própria o senador César Borges, candidato à reeleição.

Bem, o interessante é que surgiu na mídia uma curiosa hipótese, um raciocínio atribuído ao PSB ou a parte dos socialistas, pelo menos. Lídice foi apoiada por Wagner e consequentemente pelo PT em 2010, apoia Pelegrino este ano, pagando a “dívida” e em 2014 realiza o sonho – um sonho que ela sempre teve – de disputar o governo do Estado com o apoio do PT.

“Sonho meu, sonho meu”. Mas não do PT. Para realizar o sonho da senadora e ex-prefeita, o PT teria de desvencilhar-se das aspirações do senador Walter Pinheiro, do secretário Sérgio Gabrielli, do prefeito Luiz Caetano e do secretário-chefe da Casa Civil, deputado Rui Costa, para não falar de aspirantes não petistas como o presidente da Assembléia Legislativa, Marcelo Nilo.

Mais grave: o poder no Estado da Bahia é importante para o projeto de poder e consolidação da hegemonia do PT em âmbito nacional. O PSB não tem motivos para imaginar que o PT tenha vocação para Fernando Lugo. Especialmente quando o PSD, presidido e comandado pelo governador Eduardo Campos, de Pernambuco, apresenta, no campo da chamada “esquerda”, crescimento rápido, que no momento o coloca como aliado-concorrente do PT, com possibilidade de tornar-se apenas rival em futuro não distante.

jun
28


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OPINIÃO POLÍTICA

PT põe barbas de molho

Ivan de Carvalho

Sobre a escolha do sucessor do prefeito de Salvador, João Henrique, existiam duas presunções aceitas sem maiores polêmicas: haveria segundo turno nas eleições e nele o candidato do PT, Nelson Pelegrino, apoiado por uma ampla aliança partidária, estaria presente.

A primeira dessas presunções continua existindo, apesar da desistência de alguns partidos em lançarem candidatos, portanto criando facilidade, ainda que apenas teoricamente, para que o pleito não seja levado a uma decisão no segundo turno.

Assim é que o PP, que tinha como candidato o deputado federal e ex-chefe da Casa Civil do prefeito João Henrique, João Leão, desistiu da candidatura própria para apoiar o candidato do PT, Pelegrino e indicar o vice em sua chapa, José Mattos, recém- saído da Secretaria Municipal de Tranportes e Infraestrutura. Foi aí que o prefeito João Henrique, do PP, numa estonteante manobra que surpreendeu o PT e o próprio PP, liberou o PTN – que, com o deputado João Carlos Bacelar, presidente deste partido, comanda a Secretaria Municipal de Educação – para apoiar a candidatura do democrata ACM Neto e viajou em missão oficial seguida de férias. Um ambiente de barata voa se instalou no PT e no PP.

Então, o PT entendeu que o prefeito não apoiaria Pelegrino e que, assim, já não interessava o vice a ser indicado pelo PP. Pelo contrário, melhor seria que o PP voltasse a ter o deputado João Leão como candidato a prefeito. A candidatura foi reposta. Mas faltava o dinheiro para a campanha de Leão. Na terça-feira, o PP ficou sabendo que o prefeito João Henrique não tinha meios de ajudar o caixa da campanha. Então o PP resolveu jogar a toalha e voltar a ficar sem candidato e apoiar o do PT, mas sem indicar-lhe o vice, já que perdera o cacife para isso – e o cacife do PP, no caso, era o apoio discretíssimo do prefeito João Henrique a Pelegrino.

Sem o prefeito, com ACM Neto ganhando o apoio do PTN, que em Salvador tem força eleitoral expressiva, e montando uma aliança de peso reconhecido, enquanto surgiam indícios precisos de crescimento da candidatura peemedebista do radialista e ex-prefeito Mário Kertész, o sinal de alarme acendeu-se no PT. Insinuava-se, melhor dizendo, insinua-se como consistente, ou pelo menos factível, a hipótese de um segundo turno em que o petista Pelegrino não esteja presente. Uma disputa entre ACM Neto e Mário Kertész – o inferno do PT.

Intensificaram-se as articulações. O PSB da senadora Lídice da Mata acabou com o zum-zum-zum em torno de sua hipotética candidatura e anunciou que apoia Pelegrino. O deputado Capitão Tadeu Fernandes, que queria porque queria ser candidato a prefeito pelo PSB foi solenemente ignorado. O PSC de Eliel Martins foi rapidamente atraído à mesma coligação, onde o PR do senador César Borges, apesar de todos os percalços internos por causa dessa decisão, já se incluíra, atendendo a convites irrecusáveis.

Até ontem, fortíssima era a pressão para que o PC do B – que desde o começo dizia que dessa vez não ia ter pra ninguém e que lançaria candidatura própria à prefeitura, a da deputada Alice Portugal – aderisse. O partido já dava claros sinais de rendição, ante as fortes motivações apresentadas para uma aliança com os comunistas pelo governador, segundo o presidente estadual, deputado Daniel Almeida. As motivações, não reveladas, são óbvias: três candidaturas aptas a irem ao segundo turno deixarão uma delas fora do segundo turno. O PT faz o que pode para que não seja a dele.


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OPINIÃO POLÍTICA

ROBERTO SANTOS

Ivan de Carvalho

Roberto Figueira Santos, por proposta da Mesa Diretora, aprovada pelo plenário da Assembléia Legislativa, recebe hoje, às 10 horas, a Comenda 2 de Julho. A saudação ao ex-governador será feita pelo presidente da Casa, Marcelo Nilo, porque foi quem teve a idéia da homenagem. Mas ele não podia apresentá-la como uma proposta dele, pois esta é uma prerrogativa da Mesa Diretora como um todo – o que, aliás, contribui para a relevância da comenda.

Quando foi escolhido governador da Bahia, o homenageado de hoje confidenciou a algumas pessoas próximas que gostaria de ser chamado, pela imprensa e a mídia eletrônica, de Roberto Figueira Santos, a forma que usei no início desta nota. Este seu desejo, talvez reflexo de praxes de uma intensa e vitoriosa vida acadêmica, não foi atendido no ambiente informal da política e da mídia.

Prevaleceu quase que imediatamente o tratamento de Roberto Santos e, como acaba ocorrendo com a maioria dos líderes políticos e outras pessoas muito conhecidas e muito citadas pela mídia e pela população, logo passou a ser Roberto. Pelo menos, alternativamente, pois muitas vezes, nas ocasiões solenes ou quando os editores precisavam de mais letras na manchete, usavam Roberto Santos. Creio que ele entendeu a “intimidade” pública e percebeu sua vantagem.

Mas vale lembrar outras coisas sobre Roberto Santos. Médico pela Universidade Federal da Bahia, especializado em clínica médica durante temporada nas universidades de Cornell, Michigan e Harvard (EUA) e em medicina experimental em Cambridge (Inglaterra), atuou na medicina, inclusive como professor na UFBa, foi secretário da Saúde da Bahia, cargo que deixou quando nomeado reitor da UFBa, posição que já fora ocupada por seu pai, Edgard Santos. Foi governador, presidente do CNPq, ministro da Saúde, presidente do Conselho Federal de Educação, representante do Brasil no Conselho Diretor da Organização Mundial de Saúde, órgão da ONU.

Depois de exercer o mandato de governador e para ajudar as oposições, disputou eleições para o governo mais duas vezes, a primeira delas em condições que, ele certamente sabia, inviabilizavam sua eleição e a segunda em circunstâncias que a tornavam, não impossível, mas muito difícil. Em 1986, apoiou a candidatura de Waldir Pires ao governo. E em 2010 publicou artigo em que – mesmo sendo do PSDB, que apoiava Paulo Souto – explicava as razões pelas quais iria votar em Jaques Wagner. Não tentei fazer aqui uma síntese da vida política de Roberto Santos, só mencionar alguns dados.

Como governador, ele foi importante. Coube-lhe uma tarefa vital para a Bahia, uma grande parte da implantação do Pólo Petroquímico de Camaçari. A barragem de Pedra do Cavalo, responsável pela maior parte do abastecimento de água de Salvador e Feira de Santana. Em Salvador ainda, o Centro de Convenções, o Museu de Tecnologia e toda a implantação dos equipamentos do Parque Metropolitano de Pituaçu, criado por decreto do então prefeito Fernando Wilson Magalhães. Mais: construção de 3 mil salas de aulas, 33 Centros Sociais Urbanos e construção de habitações populares pela URBIS.

No entanto, tão importante quanto tudo que acima foi citado e muito mais que ele fez, terão sido o exemplo de dignidade, honradez e seriedade que tem dado ao longo de toda a sua vida, pública e privada.

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