dez
21
Posted on 21-12-2009
Filed Under (Artigos, Gilson, Multimídia) by vitor on 21-12-2009

==================================================
CRÔNICA/ UM NOME,UM LUGAR

NELSINHO, ROBERTO E AS BALEIAS

Gilson Nogueira

Nelsinho Mota vinha em direção oposta à minha. O sol e o céu azul eram as duas únicas coisas acima de nossas cabeças, além de Deus, gaivotas perdidas e aviões. Deu-me, ali,vontade de cumprimentar o grande Nelsinho, mas, meio acanhado, passei por ele, em silêncio,sorrindo, para dentro, com a brisa a beijar-me a cara. Fiz de alguma forma, sem querer, o charme dos que não dão bola para celebridades.

Nelsinho, jornalista, poeta, compositor, produtor musical dos bons, seguiu seu caminho. Eu ia para o bar de Vevé. Nelsinho, possivelmente, deveria estar visitando a Ilha, mais uma vez, hospedado no Galeão Sacramento, em Mar Grande, ou em casa de algum amigo ou amiga. Não me importei para onde ele caminhava. Torci para que conhecesse Vinagre, Brígido, Biro Biro, Joca, Salvinho e outros parceiros de farras etílicas, sob a sombra dos coqueiros da Ilha e dos nossos sonhos. Ao vê-lo passar, com aquele jeito cariocamente blasé, pensei: “ Esse cara é foda! É um talento, faz parte da minha geração. Ele também deve cagar para esse negócio de cultuar famosos e poderosos, como se fossem eles feitos de outro material que não a carne.

Seriam de acrílico?! Nossa geração não era chegada a essas babaquices que os dendês no sangue adoram promover no Carnaval da Bahia. Famosos, celebridades e poderosos uma ova, eles que se lixem. Comigo não cola!!! Todos os humanos são iguais, na fila da transitoriedade, seguindo a dinâmica da vida.

Dentre as melhores coisas feitas na Ilha, lembro, aqui, à véspera da abertura oficial do Verão, amanhã, 219o artigo foi escrito domingo,20), no calendário do tempo, que andar em Itaparica, sem que o pavor de ser assaltado não faz mais parte da geografia poética do lugar.É impossível, hoje, ficar sozinho, em harmonia com aquele paraiso. Os bandidos impedem a paz de quem procura esse estado de espírito na ilha.

Mesmo assim, para quem nunca experimentou embriagar-se com sua beleza, com o astral que domina esse território, vale a pena tentar. Nesse momento, faça como fiz, várias vezes, deixe seus pés à beira d´água, onde, certamente, uma canção, em forma líquida, irá refrescar seu corpo, sua cabeça, a lhe dizer que a paz depende de nós.

Se o calor impedir a aventura, estacione seus pensamentos na sombra de um barco, ou de uma barraca qualquer, dessas que vendem cerveja, para admirar a paisagem, admitindo que, além do horizonte deve ter algum lugar bonito para viver em paz. Fique de olhos abertos, para sua segurança. E viva Nelsinho, Roberto Carlos e as baleias!!!

Gilson Nogueira é jornalista

“Quem sou eu, poeta?”
Tom
==================================================

======================================================
CRÕNICA/SAUDADES

Quem sou eu, poeta?

Gilson Nogueira

Quem sou eu para falar de você, poeta? Eu não sou Deus. Só Ele pode falar de você. Mais ninguém. O máximo que posso fazer é escutá-lo, assim, com os ouvidos do coração. E tocá-lo, na sua falta, com o tato da alma. E caminhar em sonhos ao princípio de tudo, imaginando ver você se transformando em gente depois de ser aquela estrela que iluminou o nada. O nada que virou o mundo. O mundo que admirou e virou você.

Quem sou eu, poeta, para dizer o todo e de tudo que você é! Não, poeta, não, não quero escrever o que você foi, o que você fez pela música brasileira e o que você representou e representa para a Bossa Nova. Definitivamente, não, poeta! O mistério, acho, não se define.

Pretendo, apenas, continuar, em silêncio, como estou agora, reverenciando sua permanência enquanto “ Deus”, enquanto santo no meu altar das maiores saudades, fazendo o sinal da cruz, como faço, ao sair de casa, e sempre, nos flagrantes de fé , ao ouví-lo tocar piano – e cantar suas canções eternas.

Não vou, jamais, chorar você, poeta, que não foi feito para ir embora, para a despedida, para a tristeza, na certeza que você ficou, que você está vivo, como luz que não se apaga, como chama infinita, a clarear a vida, a iluminar instantes de eternidade, com sua música.

As lágrimas de sua ausência, 15 anos após sua partida, para ficar ao lado de Deus, são diferentes das lágrimas comuns. Elas colorem o ar, como pétalas de orvalho balançando na roseira que você plantou. E sua foto na moldura, poeta, na parede da minha saleta do computador, parece respirar. Você não se apaga, poeta. A fumaça que escapa do charuto que você sustenta lendo uma partitura desenha no espaço um adeus ao contrário. É um anúncio de chegada! Chegue mais, poeta, chegue mais, você é vida. A vida não morre.

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador de primeira hora do Bahia em Pauta, programador sempre presente da Radio BP.

nov
19
Posted on 19-11-2009
Filed Under (Artigos, Gilson, Multimídia) by vitor on 19-11-2009

Oceania: bar e templo

Oceania

===================================================<

CRÔNICA/ UM LUGAR

BEIJO NO CHÃO

Gilson Nogueira

O tampo de madeira escura da mesa vazia à minha frente nivelava-se com o alto da balaustrada e com a linha do horizonte feito de azul de céu e mar. Era um sábado de chuvisco e sol. E de uma lágrima invisível a escorrer sobre a mesa para cair no chão. Não havia notado a coincidência das linhas da mesa, da balaustrada e do horizonte, enquanto atirava-me nas ondas das lembranças da juventude, na perspectiva de sair dali depressa para não ter que ficar abraçando quem não via.

Na última vez que estive naquele bar, o mais bem localizado do Farol da Barra, deixei um abraço de despedida preso ao guardanapo como parte da gorjeta. A felicidade continua lá, ainda que solitária, nas vozes da última farra que ficou no ar.

Por aquelas bandas balneárias do Farol, o Privé, que não existe mais ( foi lá que tomei meu último uísque de solteiro e que surgiu-me a idéia de fundar o Vat 69, o primeiro bloco de carnaval a deitar, em plena folia, na Avenida Sete de Setembro), era o mais forte concorrente do Bar Oceania.

Ah, o Privé, pedaço de Búzios, em Salvador, lugar tão gostoso de beber o pôr-do-sol, devidamente acompanhado, com gelo no copo, quanto seu filé au poivre, superado, mais tarde, pelo do Berro D`Água! Ah, o Berro, outro ponto maravilhoso da boemia soteropolitana, de vida mundana na totalidade dos seus prazeres!

A vida era o suspense da tanga, o debruçar-se no balcão até a última gota de poesia, a certeza do não morrer tão fácil. Na escuridão, havia estrelas, ainda, a nos fazer caminhar sem medo. O Clube Cabana da Barra, que conserva sua classe, desde que foi construído pela Marinha do Brasil, fica no meio do caminho do ontem Privé e do hoje Boteco do Farol, que, especula-se, deverá voltar a ser chamado pelo antigo nome, Bar Oceania, localizado embaixo do edifício que leva o batismo continental e que funciona, na minha imaginação, ali, como sentinela monolítico em defesa dos encantos da Cidade de Salvador da Bahia.

Metrópole que, infelizmente, tornou-se, por inércia dos seus governantes, vítima da brutal transformação de hábitos e costumes imposta pela violência urbana. Salvador que vê seus espaços de amizade, de confraternização, de festa sem patrocínios, de aconchego, levado na base dos dengos todos que emanam do coração da sua gente, do melhor samba de roda do mundo, serem fechados por falta de público, de pessoas que gostariam de cantar até o sol raiar , mas que são obrigadas a ficar trancafiadas, em casa, com medo de morrer na rua.

É grande a vontade de cantar, de novo, aquela música deixada no Oceania.

Gilson Nogueira é jornalista

nov
12
Posted on 12-11-2009
Filed Under (Artigos, Gilson) by vitor on 12-11-2009

Cuidado com o bolinho
BOLINHO
—————————————————————-

CRÔNICA/ COMIDA TÍPICA

BOLINHO FAJUTO

Gilson Nogueira

Bolinhos boiam em uma pequena bacia de alumínio sobre o balcão de madeira de um quiosque de concreto e tijolos aparentes, quase em frente ao local de saída dos passageiros que desembarcam dos aviões que chegam ao Aeroporto Internacional Deputado Luis Eduardo Magalhães. Por Aeroporto Dois de Julho e Aeroporto de Ipitanga este equipamento da capital dos absurdos também é conhecido. Alô, alô Dois de Julho, quero seu nome de volta, no espaço que é seu, urgente!!!

O cheiro do azeite de dendê do bolinho que acaba de ser fritado impregna o ar de Bahia. Narinas abertas, porta de entrada do olfato, o cheiro viaja nas vias do cérebro e estimula-me o desejo de comer um deles. Com camarão e pimenta, que é como baiano que é baiano gosta, sem negócio de vatapá, salada e outros complementos que fazem do bolinho sanduíche de feijão. Modas do tipo, muitos filhos da Terra da Felicidade abominam. Aliás, baianos da gema de araque preocupam-se mais com a quantidade dos complementos do que com o bolinho como um todo saboroso.

A “baiana” gentilmente atende meu pedido. A ânsia de devorar o quitute faz-me pedir desculpas ao motorista que havia ido apanhar-me no Dois de Julho, ou melhor, no Luis Eduardo, ou…Ofereço-lhe um. O motorista não quer. Pago quatro reais, pelo bolinho, à “baiana”, e entro no carro. Sapeco a primeira mordida, na iguaria, e sinto que sua aparência me engana.

Por conta do camarão aferventado que o acompanha, o bolinho não me inspira confiança. A fome e a saudade de minha terra se misturam e fazem-me embarcar na hipótese de uma possível infecção intestinal, por engolir aquele camarão escuro, com pinta de terrorista.

Vou em frente. Nhac. nhac, nhac, nhac. Não sinto o gosto característico do bolinho. Tem mais, ele parece ter sido feito no óleo de soja, suponho. Alguma coisa impede sua massa de apresentar o gostinho característico. Pesada, bruta, sem gosto de feijão fradinho, é a massa. Como gosto não se discute, desisto de comê-lo e o guardo para atirá-lo na cesta de lixo. A Avenida Paralela não merecia aquele bolinho, apesar da merda que ela está, com seu engarrafamento que parece conduzir ao inferno.

O bolinho que conheço desde criança, quando os saboreava, ao pé do tabuleiro de Maria, no Relógio de São Pedro, após as aulas no Ginásio de São Bento, é outro. Ah, o nome dele é acarajé. Isso, a-ca-ra-jé! Ou acará! Ele é a marca da afroreligiosidadeculturalgatsronômicabaiana, ícone do povo que é de santo e de Bahia sem dendê no sangue, apenas, na frigideira. Dendês no sangue, alcunha nascida da verve do jornalista Tasso Franco, para esses enganadores da baianidade.

O bolinho que boiava na bacia deveria estar sendo vendido por uma baiana do acarajé autêntica, em seu traje de soberana no reino das delícias da comida de origem africana, em tabuleiro de madeira, ou de ouro, se possível, simbolizando, na principal porta de entrada da cidade, a magia desta terra que encanta os que a conhecem e a admiram por sua riqueza cultural, por sua alegria sincera, por seu povo festeiro, por sua forte participação na Independência do Brasil, por ter sido ela sua primeira capital.A Bahia com H, como canta João Gilberto.

Ao chegar na garagem de casa, o motorista, enquanto entregava-me as malas,educadamente, pergunta ! E aí, doutor, não gostou do acarajé?”

Não.

“ Pois é, os turistas, que não conhecem acarajé, acham uma delícia!”

Tudo bem, meu caro. Eles, os gringos – e não gringos – e os responsáveis pela gestão do turismo no Estado. Esses, por estar o acarajé sendo apresentado dessa forma, aos que chegam à Bahia , não estão nem aí, nem vão chegando, para absurdos como o do acarajé sendo vendido como se fosse um bolinho qualquer.

“ Boa noite”

Boa. Cuidado com o camarão !

Gilson Nogueira é jornalista

nov
05

Mata do Corcovado: sem medo de bala perdida
matcorcovado
==============================================
CRÕNICA / LUGARES

UM SONHO VERDE

Gilson Nogueira

A mata do Morro do Corcovado parece querer invadir meus sonhos na noite morna do Rio. O Cristo Redentor entra pela janela. E um silêncio sem medo de balas perdidas me faz beber a paz que esta cidade precisa. Sinto-me pronto ao repouso do dia que termina com ressaca de saudade do Porto da Barra. Por ter sido mais uma vez abençoado pelo Verde Deus das florestas cariocas, acho-me o índio que um dia devo ter sido. Antes do sono, cubro-me das certezas que reforçam-me a fé em Deus. Suspiro estrelas.

Pela manhã, no Jardim Botânico, com minha mulher e minha primeira netinha, ouvi a natureza cantando através dos pássaros com quem Tom Jobim conversava. Exatamente, ali, no JB, passeando por seus canteiros e caminhos exalando beleza e história, recolhi outros silêncios no meu cesto de esperanças. Rezei, enquanto andava, para o planeta encontrar saídas, a fim de não se transformar em uma bola de fogo. E guardei na escuridão das minhas novas utopias a possibilidade de ver minha netinha poder respirar um mundo melhor, de mais amor, sem violência. Entre desejos, êxtases e preocupações, a agonia silenciosa de não poder responder a pergunta: Como fazer para colar as duas partes antagônicas da Cidade Maravilhosa? Sorri, sem ironias de canto de boca, acreditando que a grande solução está no resgate da fé no Todo Poderoso.

Ao meio dia, voltando para casa, fotografei pés de Andiroba, que significa “ gosto amargo”, em tupi-guarani. Antes, apanhei, no chão, algumas de suas amêndoas, para deixar secar, ao sol do sertão de Serrinha, na Bahia de Todos Nós. Continuarei rezando, esperando vê-las brotar amazônias entre mandacarus.

Gilson Nogueira , jornalista baiano, está no Rio de Janeiro

out
30

==================================================
CRÔNICA / MONUMENTO

BROCHE NELES!

Gilson Nogueira

Uma réplica da imagem do Cristo Redentor forma o broche da campanha “Eu Sou de Cristo” que a Igreja lançou terça-feira (27), no Alto do Corcovado, visando arrecadar dinheiro para a manutenção do monumento que está necessitando de reforma na sua estrutura interna e no seu revestimento externo.

Os entendidos dizem que o Cristo sofre com os desgastes do tempo e com fenômenos climáticos, como ventos, chuvas, raios, e a incidência do sol. A Igreja venderá o broche, a R$ 7,00 nas 252 paróquias da Arquidiocese do Rio. Bela iniciativa, para recuperar a imagem, eleita, há dois anos, uma das sete maravilhas do mundo moderno e que, segundo versão atualizada do Guinness World Records, é a maior estátua de Jesus Cristo no mundo.

Com a eleição da capital do Estado do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 2016, um dos mais notáveis cartões-postais do país jamais necessitou tanto de cuidados especiais, como esses que, a partir de agora, serão tomados, pela Igreja. Resta, contudo, rezar, a fim de que a venda dos broches renda a importância capaz de garantir a manutenção do Cristo.

Ah, ia esquecendo da pergunta que não quer calar! Quantos broches da campanha os governos municipal, estadual e federal pretendem adquirir? Respostas para o Bahia em Pauta. Obrigado.

Gilson Nogueira, jornalista ( Direto de Botafogo, no Rio de Janeiro)

out
15
Posted on 15-10-2009
Filed Under (Artigos, Gilson) by Margarida on 15-10-2009

pnoel

================================================

CRÔNICA / ESPIRAL

Presente de Natal

Gilson Nogueira

        Uma nota curta, em jornal de grande circulação, informava sobre cursinho grátis de Papai Noel. Para ser bem sucedido nas provas, pensei, basta ter um coração bom. Na mesma edição, um pequeno poema, com o título “Quem eu sou?”, finalizava : “Não sabes quem sou? Sou o amor/A vida/Onde está a chave de seu coração?/Abra a porta e deixe-me entrar.”O achado poético deu-se ao folhear o suplemento infantil do jornal.

      Senti-me saboreando letras com gosto de sapoti, groselha, chocolate, pipoca e delícias outras de crianças de todas as idades. Meu peito parecia recheado de ternura, na mensagem do aprendiz de poeta. Logo, uma calda de sorvete de umbu lambuzou minhas utopias. E fiquei, ali, parado, deliciando-me, enquanto, no ventinho frio, que soprava da África, prosseguia olhando o céu, tentando descobrir o urubu que se perdeu nos ares.

     O bicho subiu tanto, tanto, na espiral, que, de repente, acima de nuvens, altíssimas, sumiu! Será que estou enxergando direito ou foi o urubu abduzido? A matutar sobre a última hipótese, considerando que os extraterrestres estão habituados a visitar o Planeta Terra, como dizem os ufólogos, admiti que o urubu misterioso havia entrado de gaiato no disco voador. Antes fosse no navio. Mas, que pretendem, mesmo, os alienígenas? Seqüestrar urubus? Cortem essa, bichos!

       Os bandidos desse país, sim, merecem isso. Não seria melhor abduzi-los e, depois, jogá-los em um buraco negro,lá, nos confins da eternidade,onde, indistintamente, todos se transformariam em um monte de merda cósmica? Pronto, Papai Noel, nesse Natal, este será o presente do povo brasileiro! Basta, agora, apenas, combinar com os homenzinhos verdes a realização do serviço. Sem custos.

 Gilson Nogueira é jornalista

set
17
Posted on 17-09-2009
Filed Under (Artigos, Gilson) by vitor on 17-09-2009

Montanha: passos sobre a cidade
montanha
================================================
CRÔNICA/ ANDANÇAS

VAMOS ANDAR EM SALVADOR

Gilson Nogueira

Andar faz bem à saúde. Por isso, vamos andar! O centro da cidade de Salvador é de meu andar sem fim. Vou da Barra ao Terreiro de Jesus, sem cansar, e volto, no pique, como se diz, por aí, em boa forma. Com fôlego. De gato. Aliás, quem dera que tivesse as sete vidas do gato! Como não sou esse mamífero felídeo, contento-me com a vida que tenho. E levo. Feliz. A que Deus deu, basta-me. Mesmo assim, gostaria de possuir a agilidade dos bichanos, para caçar os ratos que proliferam à beira deste lado do Atlântico.

E como são muitos, os ratos!. Coisa do Diabo.Respiro Bahia Antiga, a cada passo, nessas horas de contemplação soteropolitana. E em outras, também, como, por exemplo, ao ouvir o toque do triângulo do taboqueiro anunciar a delícia da meninada. A história da cidade, perpetuada em seus caminhos, e a saudade dos anos de mocidade, de tempos bons, que não voltarão, jamais, acompanham-me, nos exercícios citadinos. E fora deles.

Seus cheiros e vibrações, positivos, entram pelos poros, pelas narinas, atingem-me a alma, em cheio, ponto de chegada de emoções diversas, falam-me ao coração, suavizam-me a dor do golpe provocado pelo desencanto de flagrar absurdos e abandonos, como o da praça em frente ao Palácio da Aclamação, em estado quase deplorável, e a fachada daquele magnífico exemplar de arquitetura luso-soteropolitana, sem tintas, que lhe fariam mais bonito, como foi, um dia, no Governo de Octávio Mangabeira, o inesquecível líder baiano que deu nome ao estádio a ser demolido em nome da Copa do Mundo de Futebol de 2014, como se a história de uma cidade, de um povo, fosse um bába, desses jogados por pernas-de-pau ,em terrenos baldios.

História que é rasgada, cinicamente, na mesa das conveniências políticas, para dar lugar a caprichos de quem só pensa no vil metal. Sim, são eles, sim, assassinos das nossas tradições seculares. Esse cartolas robóticos do poder e de uma entidade milionária que manda no mundo da bola, cujo nome Fifa, foneticamente, dá vontade de transformar em palavrão. Nunca, jamais, esses gringos pisaram nas areias do Abaeté, que é uma lagoa escura, arrodeada de areia branca, fonte inspiradora do maior poeta das belezas da cidade onde nasceu, o magnífico Dorival Caymmi, a voz do mar.

O Abaeté, ainda, sobrevive, apesar das perdas sofridas. Os destruidores de nossos ícones culuturais não sabem o que significa o som do berimbau, não comeram abará, nem acarajé, não ouviram dizer do grande Oscar da Penha, o Batatinha, um dos mais notáveis sambistas que o planeta conheceu. São pessoas que dançam com a bunda no chão, porque não sabem p…nenhuma de Bahia.

Nas minhas andanças, atenho-me às que proporcionam-me bem-estar, apreciando sabores que exalam da paisagem, como a do querido e imorredouro Ginásio de São Bento, onde estudei , nove anos, o Largo Dois de Julho, das suas feiras ordeiras e limpas,vendo-me, menino, carregando sacolas cheias de delícias da terra, acompanhando mamãe, para levar o fruto do trabalho para casa, o Ipiranga, o Central, Colégio Estadual da Bahia, orgulho de gerações, como a minha, de Paulinho Boca de Cantor, Júlio Souza, Djalma, Fernando Carvalho, e outros, meus ginásios de ensino de primeira, de aprendizado e crescimento, o Guarani, Liceu, Excelsior, Art, Glória, Pax, Jandaia, Capri, Tupi, cinemas de filmes que não esqueci, que seguem sem o The End, na tela das recordações.

As fitas, em preto e branco, no auditório, perto da cúpula do mosteiro do velho São Bento, com os caubóis e seus cavalos galopando nas cadeiras de jacarandá, onde sentávamos a molequeira que imperava, enquanto o saudoso Dom Norberto, um dos maiores educadores que o Brasil já teve, não aparecia, para impor, com o simples chegar de sua sombra, silêncio sepulcral, já que, Dom Caetano, outro monge, gente boa, soprando apito de guarda de trânsito, não conseguia fazer a galera silenciar. Era uma maravilha!!!

Nas veias da cidade, o suor de quem carregava pastas, paletós, na correria, na luta, em tecnicolor, no dia-a-dia, sem medo de ser surpreendido por ” gravata” de assaltante. Cidade, hoje, desfigurada, quase, pela insensibilidade de quem se elege prometendo melhorias para ela e sonha perpetuar-se no cargo na base dos conchavos que não resolvem os problemas mais simples. Quem duvidar disso, agora, tome um ônibus, no Campo Grande, e vá até o bairro de Cosme de Fé … arias. Entre lá e sinta, na primeira curva, as carências de sua comunidade. Quem disser que está tudo bem, depois da viagem, irá contar verrugas nos dedos.

Caminhando e cantando – e seguindo a canção, que assobio, em ritmo de bossa Nova, em paz -, atinjo a ladeira do Pau da Bandeira, onde contei válvulas de TV. Antes, a Fernandez, onde vendi camas, armários, geladeiras. A descida para a Barroquinha, o Restaurante Cacique era ali. Hoje,em seu lugar, o vazio, o silêncio, como fantasmas de filme interrompido pela brutalidade do corte da insensatez. Nesse corte da história, lembro a Tribuna da Bahia, hoje, arrumando a mesa de lembranças memoráveis para sua festa comemorativa de quarentona exemplar, em defesa da Democracia, a chama eterna do Jornal da Bahia, a Manchete, do meu dileto amigo Pio, o Varandá, a Montanha de lavar pinto em bacia, a Baía de Todos os Sábados, ou melhor, dos Santos, sem esses navios invasores de suas águas, nas quais derramam óleo e mijo, contribuindo para a sujeira do maior cartão-postal da capital dos absurdos.

E do país que assiste a violência deitar a rolar. O bilhar do Abel, onde malandro era o gato que não tomava banho e andava limpo. Dos abrigos da Sé, dos ônibus e dos bondes, do Plano Inclinado Gonçalves, de Fialuna, no Samba do Ai, improvisando jazz puro, no libertário Vat 69, bloco que fundei, depois de uma ressaca ganha no Anjo Azul, do sarapatel de Biu, bem pertinho dele, e de muito, muito mais.

A Salvador que inalo, senhores, tem cheiro de perfume, de passado brilhante, honroso. Não me refiro a esse monstro que está sendo alimentado pela especulação imobiliária que irá engolir, de vez, sua história, caso não sejam tomadas providências urgentes visando envolver a sociedade sobre o futuro da primeira capital do Brasil. A população de Salvador começa a sentir o peso do crescimento desordenado, sufocada, de quebra, pela violência, em suas múltiplas formas. É, portanto, fundamental ir em frente. Afinal, somos todos iguais, somos todos irmãos.

Gilson Nogueira é jornalista

ago
30
Posted on 30-08-2009
Filed Under (Artigos, Gilson, Multimídia) by vitor on 30-08-2009


==================================================
“Os faróis se cruzam na velocidade do seu anonimato. Lá de cima, um olhar bêbado se perde no crepúsculo. O filme se repete, a cada fim de semana, sem enredo, sem enquadramentos, sem bitolas. A despedida foi para valer? Talvez. Apesar do corte, resta a trilha sonora a estimular o recomeço. O som do trompete rompe o silêncio, no exato instante em que o telefone toca. Não há voz do outro lado. Apenas, um suspiro, um longo suspiro feito convite de amar em silêncio. Baixa-se pano. A vida segue. As luzes, em agonia noturna, se cruzam, sem dar a chance de ver a face de quem as acendeu.”

(Gilson Nogueira, jornalista, colabora com o Bahia em Pauta)

ago
29
Posted on 29-08-2009
Filed Under (Artigos, Gilson, Multimídia) by vitor on 29-08-2009

Pedaço do mar…
mar
…guardado na canção
==========================================

==============================================
CRÕNICA DA CIDADE

PEDACINHO DO MAR

Gilson Nogueira

Contento-me com um pedacinho de mar, entre edifícios ao pé do Morro Ipiranga. Enxergo-o, ao longe, do basculante de casa, na impossibilidade de mergulhar nele, no seu azul, pelo menos, hoje. Avistá-lo, assim, não faz diferença. Tenho-o perto, sempre, dentro de mim, em forma de sonho, de canção, de esperança.

O mar é, para mim, mensagem. E, às vezes, meio. Toma-me o mar o pensamento, a certeza e a dúvida. Ainda que o embevecimento, diante de sua beleza, faça-me cantá-lo, sei muito bem que é um bicho traiçoeiro e, poeticamente, espelho do céu. Vida e morte. Sorriso e dor. Entendo-o, por conveniência, mas, não gostaria que fosse assim. O mar tinha que ser livre para as crianças, o tempo todo, como desenho animado.
Respeito-o. Não o desafio. Se o fizer, vou perder. O mar é maior que a aventura. Sinto-me, portanto, vencedor, vivo, dono do mundo, parceiro do silêncio, filho de Deus, agradecido, por saber que o mar é meu e de quem o admira, e não o maltrata.

Ah, seus horizontes! Sempre que os contemplo, fico impedido de ir adiante, nas minhas conjecturas medianas, ao tentar concluir a travessia entre a racionalidade e a loucura, aquela, que não agrada os chatos metidos a saber de tudo.

O mar, paroxismo líquido, incógnita infinita, do peixe e do pescador. E de todos os que o tratam com dignidade, sem querer aproveitar-se de sua inocência, para o mal. Ah, o mar… sem uma ilha, sem um navio, sem um barco, sem uma ave a fazer-lhe companhia, você é um grande solitário ( sabia?), sempre em busca do amanhã! Pretendo encontrá-lo, amigo, logo.

Aí, então, vou molhar os dedos da mão direita em suas águas, dar-lhe um forte abraço e fazer o sinal da cruz, pedindo proteção a Iemanjá. Depois, gritar, bem alto: “ Salve a Bahia, Senhor!!!”

Gilson Nogueira é jornalista

Pages: 1 2 3 4 5

  • Arquivos

  • junho 2018
    S T Q Q S S D
    « maio    
     123
    45678910
    11121314151617
    18192021222324
    252627282930