mar
29
Posted on 29-03-2013
Filed Under (Crônica, Gilson) by vitor on 29-03-2013


“Arena é o cacete: não vai pegar”

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CRÔNICA DA CIDADE

À Espera do Inesperado

Gilson Nogueira

A cor dessa cidade sou eu
O canto dessa cidade é meu
A cor dessa cidade sou eu
O canto dessa cidade é meu

Inspirado na música de Daniela Mercury e Tote Gira, de 1992, “ O Canto da Cidade”, da qual não esqueço os versos acima, inicio este texto sintonizado nela e no que o poeta escreveu. Por isso, entendo, a cidade de Salvador é minha, como, também, sua, leitor. Salvador é, em síntese, a casa de cada um, haja nascido nela, ou não.

Quero-a, portanto, acima de tudo, protegida pelo Espírito Santo, segura, abençoada por todos os Orixás, limpa, quase sagrada, bem decorada, confortável, com tudo nos seus devidos lugares, lindíssima.

A Barra é a varanda iluminada em que me encontro. E a tenho, ampla, de portas e janelas sempre abertas para a brisa que sopra do mar entrar e fazer a festa com a luz do sol, de janeiro a dezembro de cada ano. Em estado de oração, imagino a cidade onde nasci em mais uma comemoração de seu aniversário, que acontece neste 29 de março, recebendo como grande notícia do dia a Fonte Nova haver resgatado, com destaque, seu nome oficial, ou seja, Estádio Octávio Mangabeira.

A eterna Fonte Nova, absurda e estupidamente denominada, hoje, de Arena ( Argh!).

A Fonte Nova tem nome de batismo e ele deve ser destacado, sempre, em respeito ao povo da Bahia, na fachada: Estádio Octávio Mangabeira, em letras garrafais, ou melhor, garafarredondíssimas. Estádio Octávio Mangabeira, em aço, inoxidável, reluzente como o vulto do grande homem público que foi Octávio Mangabeira, ex-governador da Bahia, construtor da maior “praça esportiva” ( alô, alô Zédejesusbarreto, Martinho Lélis, Zé Ataíde, Oldemar Seixas, Mário Freitas, Sylvio Mendes, Luís Brito!!! ) do Norte e Nordeste do país.

Em tempo, chamar a Fonte Nova de Arena, com certeza, não combina com o jeito de ser do povo da Bahia e do falar baiano. Arena é o cacete, diria ( ou dirá, quem sabe!) o jornalista Ancelmo Góis, em sua coluna, no Globo.

Arena, na minha opinião, não vai pegar na velha Cidade da Bahia. Baiano vai ao Barradão, ao Jóia, ao Armando Oliveira, ao escambau a quatro, mas, à Arena, jamais!

Quem viver verá.

Voltando à menina sapeca pela qual sou apaixonado.Na sua vaidade, mais que natural, de mãe de Martha Rocha e Marta Vasconcellos, misses eternas da Boa Terra, cantada como uma das mais belas metrópoles do mundo, a aniversariante aparenta estar triste, desanimada. Senti isso, ao ver a praia do Farol da Barra, quase vazia, em um dia de forte calor.

Aproximei-me, devagarinho, do Edifício Oceania e fiquei de ouvidos atentos na esperança de escutar o que minha cidade dizia. De repente, um susto: “ Beijo não, não, irei tomar banho, quando eu sair, cheirosa, penteada, vestidinha, de vestido novo, perfumadinha do banheiro, eu falo com você!”

“ Uau!!!” Exultei, irei conversar com a minha cidade e, logo, perguntar-lhe:
“ Você gostaria de ganhar de presente, no seu dia, pintura caprichosa no Edifício Oceania, que, no Carnaval, parecia usar meia vermelha? E, de quebra, pintar aquelas portas de ferro já enferrujado, em parceria da Prefeitura Municipal de Salvador com o condomínio do prédio?”

“ Acho boa idéia! E mais, por que não sugerir, aos gestores da cidade, um concurso para ver quem fará a melhor recuperação da fachada do seu imóvel, desde a Ribeira até Itapuã, envolvendo particulares e não particulares?”

“ Porretíssima sua sacada, minha deusa, aniversariante! Vou citar, aqui, alguns deles: A Igreja de Santo Antonio da Barra, o casario da Conceição da Praia, todos os fortes da capital, caprichando na sua iluminação externa, as calçadas de toda a Orla Marítima, instalando lixeiras, em azul e branco, luminosas, a fim de chamar a atenção dos passantes e educá-los. Ah, são muitos os locais! Sem esquecer de derrubar todos os cacetes-armados, como aquele “sanitário”, encostado em uma árvore, “construido” por algum imbecil, na Rua Engenheiro Celso Torres, na Graça!’

” Além do que é necessário a população saber que o Brasil começou aqui”
“Para o bem ou para o mal?”
“ Não me complique. Deus é quem sabe.”

Gilson Nogueira, jornalista, é colaborador do BP


Elevador Lacerda:Má gestão ameaça entregar
símbolo público da cidade a negociantes
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CRÔNICA

Baratas e ratos da Cidade da Bahia

Gilson Nogueira

Um copo com água foi o remédio que uma cliente encontrou para se acalmar depois de nocautear uma barata voadora que acabara de subir no seu ombro no interior de uma loja localizada na Avenida Sete de
Setembro, ontem, no Centro de Salvador.O “rebu” durou pouco, mas, o tempo suficiente para provocar correria do mulherio em pânico, adiamento de compras, boatos fulminantes, como assalto com arma de fogo, e obrigar a jovem senhora a despir-se da blusa que vestia para
ficar, apenas, por poucos minutos, de sutiã, na base do desespero e, posteriormente, alívio, por ter aplicado o cruzado que atirou a barata invasora na calçada, logo pisoteada, com raiva, por um curioso, que trajava camiseta do Esporte Clube Bahia ,e que só foi embora
quando o segurança da loja mandou a galera de enxeridos evacuar o pedaço.

Era horário de pico na área habitada, à noite, por drogados e ladrões, que vivem aterrorizando moradores e transeuntes, a poucos passos do prédio antigo da Secretaria de Segurança Pública, majestosamente situado diante do Jardim ( sujo) da Piedade, onde mendigos e vagabundos imaginam ser hóspedes de hotel ao ar livre, com direito a companhia do Gabinete Português de Leitura, de duas igrejas católicas, e, juntinho, da loteria do mestre Gildo Alfinete, do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, tão maltratado quanto suvaco de aleijado, como diz o povo, e outros imóveis de alto valor e importância.

Ou seja, o Centro de Salvador é o paraíso do abandono e da esculhambação, no salve-se quem puder dos camelôs e consumidores, nos passeios, espremidos, a sugerir folia momesca, entre ratos e baratas. “Imagine o Trio-Elétrico deslizando alegria no asfalto quente e a galera jogada contra as paredes e vitrines”, afirmou a empregada doméstica que presenciou a cena da barata baixo astral e a
consumidora aflita.

“Foi o maior corre-corre, com as mulheres gritando e a coroa enxuta tremendo mais que vara verde. Aliás, depois que ela levantou da cadeira e colocou a blusa deu pra ver seu corpão, o que fez o segurança, que estava também assustado, ficar todo cheio de gentileza,” acrescentou a testemunha do fato inusitado.

O lance, revelado com pitadas de exagero, ou não, lembra trechos de chanchadas cinematográficas assistidas nos antigos cinemas da Baixa dos Sapateiros, nos anos 1950/1960. Mais um episódio hilariante, quase tragicômico, em meio a outros, do mesmo nível, que agitam, para
o bem ou para o mal, aquele trecho de Salvador?
Sim, o Centro da Cidade é o símbolo da decadência da administração urbana de uma das sedes da próxima Copa do Mundo de Futebol. É uma zebra, diria o apostador da Loteca.

Creio eu, tanto no que se refere ao seu patrimônio histórico, quanto no aspecto do comércio, dos negócios, em geral, o Centro da Cidade, nem de leve lembra o período em que as escadas rolantes do Edifício
Fundação Politécnica, em São Pedro, e a da Loja Duas Américas, na Rua Chile, eram atração de peso para rapazes e moças e idosos, homem e mulher, interessados em consumir e paquerar, sem a violência a
interromper-lhes os passos.

Enquanto isso, o Elevador Lacerda vai balançando por falta de cuidado e sendo entregue à iniciativa privada para que dele cuide e não o deixe cair. Um ícone do turismo baiano e, sobretudo, um dos caracteres definidores da nossa identidade, do nosso berço, como primeira capital do Brasil, fora das mãos do poder público. Por essa
a Cidade da Bahia, não esperava.

O estado, como um todo, vai descendo a ladeira. E não é a da Conceição da Praia, outro papo.

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador do Bahia em Pauta

ago
11
Posted on 11-08-2011
Filed Under (Artigos, Gilson) by vitor on 11-08-2011


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Mártires e Heróis

Gilson Nogueira

Toca o Trio Los Panchos, Contigo Aprendi. Um céu azul-silêncio, quase primavera, com nuvens róseas algodão-doce,brincando de aquarela, nas bordas da Lagoa do Abaeté e do Aeroporto, que já foi Dois de Julho, forma parte do quadro de tristeza espelhada na enorme tela de nylon a bailar na fachada de um prédio em construção, na Avenida Euclydes da Cunha, bairro da Graça, em Salvador.

Caminhando, por ali, há pouco, percebi, ao vento, um grande lenço branco, de mais de 70 metros de comprimento, por 40 de largura, tremular um adeus monumental aos nove heróis da vida que morreram, no início desta semana, aqui, na capital, após o elevador em que estavam, no edifício que construíam, despencar de grande altura.
Meu Deus!

A tragédia, com os conterrâneos, repercute, até agora, e faz o festeiro povo da Bahia parar para chorar – e rezar -, em manifestação de sua dor pela perda dos briosos operários do imóvel em construção, como, também, anonimamente, solidarizar-se com os familiares, companheiros de trabalho e amigos dos mortos.

Eles, os nove trabalhadores, vítimas da fatalidade, lídimos representantes da gente que faz do seu suor e do seu talento a argamassa de um Brasil com vergonha na cara, são, agora, merecedores de homenagens póstumas de todos os tipos e credos e devem ter, já, erigido, em sua memória, um monumento, feito com o coração, de granito, em praça pública, sob a forma do sol, já que, de algum modo, a luz daqueles homens continuará a iluminar o trabalho de cada dia.

A suposta quebra do eixo da roldana que sustentaria os cabos de aço do equipamento seria uma das causas da tragédia. Que seja feita justiça, então! E que os governos municipal e estadual lembrem-se de mandar providenciar, urgentemente, sem burocracia, o local adequado, para colocar o monumento aos mártires da construção civil.

Gilson Nogueira é jornalista

Ilustração: Gilson Migué

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CRÔNICA / CINEREALIDADE

FICHA LIMPA

Gilson Nogueira

Acabo de ler mais uma crônica de Arnaldo Jabor, um dos gênios do cinema brasileiro, que tem em Glauber Rocha seu principal autor. Jabor é nome sonoro, lembra aquelas badaladas, digamos, escuras, emocionantes, boooommm, boooommm, booommmmmmm, que precediam o começo do filme principal na tela branca da sala de projeção do Cinema Guarani da minha mocidade, na Praça Castro Alves, em Salvador, Bahia, Brasil.

Brasil varonil, cuja sonoridade neologística-silibal-final rima, agora, com o palavrão que seu povo parece estar ensaiando para mandar, de uma só vez, do meio da rua, aos políticos corruptos que destroem a imagem do país aos olhos da sua população e do mundo.

Glauber, como Jabor, é um nome sonoro e que, também, emociona. Glauber sugere suspense, algo, assim, como aquele toque de caixa ligeiro à entrada em cena de um trapezista maior em uma grande tarde de domingo de circo grande. Lembra, ainda, Glauber, acho eu, som gutural, desses que dão balão na língua de poeta ou de clarim anunciando, e conclamando, aplauso a eleitos e eleitas adentrando ao palco do teatro das ilusões concretizadas, como, por exemplo, o Brasil sério que todos os brasileiros almejam.

Baixo o pano da lembrança de Jabor e Glauber, dispo-me das fantasias que estimulavam idéias e recordações, para, de repente, encontrar-me em um túnel escuro, fétido, com ventilação precária, úmido e frio, onde ouço ecoar a voz da realidade a dizer-me: “ E aê, gente boa, sabe a lâmpada que, aqui, existia, e a sua função de acender-se, automaticamente, à possibilidade de uma salvação para este país? Pois é, já era! Roubaram a lâmpada, a única, disponível! Não há mais jeito a dar.”

“ Mas, e agora, como fazer, diante do caos que se anuncia, do apocalipse político que está por vir, com essa bandidagem tomando conta da nossa república?!

“ Sei não, amigo, sei não, acho que o melhor que os que estão com esperança em ver o Brasil progredir no quesito da moralidade na política deveriam fazer é não votar em quem não tenha ficha limpa. Se virem, rápido!”

“Falou, amiga, é isso aí, é isso aí!!! “
Gilson Nogueira é jornalista

Rio:paisagem da janela do ap de Gilson

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CRÔNICA/SENTIMENTOS

Feijoada carioca

Gilson Nogueira

Dois grandes bolos, um de banana e outro de laranja, sobre a mesa onde Tico, o gato mais misterioso do mundo, resgatado em Santa Tereza , deu para subir durante o almoço da família. Minha netinha, ajoelhada na mesinha de centro da sala, assistindo Ra Tim Bum. O sol aparece entre as nuvens escuras da chuva que deverá cair lá pelas oito horas da noite. Seus raios ultrapassam a vidraça esquentando o pequeno quarto do computador e do toca discos.

Retiro a camisa azul e branca de malha de manga comprida fabricada em Blangadesh que ganhei de presente de minha filha mais velha de aniversário e mergulho na idéia de escrever uma crônica falando de comportamento. Tudo porque acabo de ler Ruy Castro, na Folha de São Paulo, relembrando encontros, como repórter, com atrizes de cinema, na época das reportagens em revista e jornais em que trabalhou.

Meu genro acaba de encontrar-se, casualmente, com o filho do colega Ancelmo Gois, no corredor da Cobal do Humaitá. Não cumprimentei o amigo porque,quando me dei conta, estava falando sozinho, próximo a mesas e cadeiras vazias de uma pizzaria que serve de arquibancada das torcidas cariocas em dias de clássicos transmitidos, ao vivo, por canais abertos e fechados de TV.

Ouço o som do motor do primeiro helicóptero a sobrevoar a cabeça da estátua do Cristo Redentor transportando turistas que pagam nota preta para registrá-la em fotos e filmes.Entram pela janela um cheiro de churrasco e as buzinas e vozes de mais um sábado na cidade do Rio de Janeiro das orquídeas enfeitando troncos de árvores, entre as quais uma de flores amarelas que combinam com o azul do mar e o verde da floresta cariocas.

Tico mia.Pisaram o rabo dele. Minha netinha dá as ordens e indaga: ” Vamos almoçar aonde ? ” Respondo: “ Academia da Cachaça,na Barra da Tijuca!” Aprovação total. E a crônica nascida da idéia de falar das coisas efêmeras?,pergunto-me. Não dá para demorar. São,quase,duas horas da tarde, o estômago ronca feijoada. “ Não esqueçam o CD de João Gilberto,para escutarmos,no carro! ,lembra minha mulher.

Começa a esfriar, de novo, na terra em que verão e inverno dormem juntos.O Rio continua um barato. Cada dia mais maravilhoso!

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador da primeira hora do Bahia em Pauta

abr
21
Posted on 21-04-2011
Filed Under (Artigos, Gilson) by vitor on 21-04-2011


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ARTIGO/Desilusões
Em plena madrugada, sonhei estar pintando com as palavras, no lugar de pincéis e tintas. Um foguete bêbado fez-me acordar. Levantei da cama e fui saber o resultado do jogo entre o Bahia e o Atlético do Paraná, no computador que não dorme. Deu o que eu imaginava, ao desligar a TV, com o Bahia levando dois gols do chamado “Furacão”, logo no início da partida. Pintei, na imaginação, uma natureza morta, traduzindo os cinco a zero que o Tricolor de Aço trouxe na bagagem para Salvador.

UM DRIBLE NA SAUDADE

Gilson Nogueira

Hoje, pela manhã, no Largo da Graça, ao encontrar o amigo Luís, cineasta de visão crítica aguçada, autor de curtas e longas metragens papo cabeça, ouvi do vizinho de bairro, intelectual da pesada, que está a produzir mais um longa, centrado no período da Ditadura, que o Bahia é uma piada.

Sem querer discutir futebol, o que já não faço desde o dia em que o Estádio da Fonte Nova virou poeira na estrada do tempo, concordei com Luís, torcedor do Vitória, o do lendário dirigente Raimundo Rocha Pires, o Pirinho.

“O Bahia é uma piada, de péssimo gosto, caro Lula. Pior que isso, um palavrão. Não é mais o time que fazia o povo sorrir em azul, vermelho e branco. Antes, durante e depois da qualquer partida de futebol. Fosse contra quem fosse. Era uma chama de entusiasmo que saia da boca do túnel da velha Fonte e incendiava de paixão o estádio inteiro, fazendo com que até os inimigos se confraternizassem, em plena arquibancada. Não era um time, como já disse, parecia coisa de Deus, misteriosamente inexplicável. Creio que, no fundo, bem no fundo, a razão para essa descaracterização total do Tricolor de Aço, aquele que, um dia, Nasceu para Vencer, como dizia seu slogan, atualmente esquecido, o que está faltando ao time é fé no santo, além de brio, matéria-prima básica para levar qualquer competidor ao triunfo.”

Levado pela emoção, ao ser cumprimentado efusivamente por outro amigo, que acabara de estacionar sua camionete preta no passeio do mercadinho, bem próximo ao antigo Campo da Graça, driblei uma lágrima que se formava, na transparência do inesperado,com um belo sorriso e um pensamento:“ Senhor do Bonfim continua sendo Bahia! Ele haverá de dar cartão vermelho a essa cambada de enganadores da torcida!”

E voltei para casa, com o leite de côco que havia faltado para a moqueca de badejo, pensando no Bahia, o que conquistou a Taça Brasil. Que saudade da p…, meu rei!”

Gilson Nogueira é jornalista

jan
14
Posted on 14-01-2011
Filed Under (Crônica, Gilson) by vitor on 14-01-2011


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CRÔNICA/TEMPESTADES
)

CHOVA OU FAÇA SOL

Gilson Nogueira (Do Rio de Janeiro

Ao ouvir o trovão, imaginei um raio cortando ao meio o Cristo Redentor. Chovia forte no Rio de Janeiro. O aparelho de TV já havia sido desligado. Era dia de Lua Crescente, tempo de novos começos, como afirmam os que acreditam no que dizem as fases da Lua. Logo, pegaria no sono, para mente e corpo relaxarem. Dormi direto.

Ao acordar, no dia 13, estupefação, angústia diante da tragédia na região serrana do estado fluminense relatada no jornal. Faltaram palavras para traduzir o que lia. A dor não permitia que elas formassem uma frase. Uma dor aguda, profunda, sem tradução alguma, que dói diferente da dor comum, até agora. E que vai doer bastante em todo mundo para sempre.

Que absurdo, meu Deus, a morte de mais de 500 pessoas, por causa dos problemas provocados pelas chuvas! Como pôde acontecer uma coisa assim, meu Pai, em pleno verão, época de férias e de festa de sol, de uma hora para outra, com aquela gente toda, em Nova Friburgo, Petrópolis,Teresópolis e em cidades de menor tamanho do Rio???!!!

Não há palavras que definam o sofrimento dos que perderam seus parentes e amigos, nesta hora. Há, sim, uma certeza. Enquanto os interesses políticos de homens públicos que só querem o “vem a nós e ao vosso reino nada”, como diz o ditado, sobrepuserem-se aos interesses do povo, tragédias como a que faz o Brasil sofrer agora voltarão a acontecer.Chova ou faça sol.

Gilson Nogueira é jornalista

nov
23


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CRÔNICA/ANOTAÇÕES

APARECER, JAMAIS!

Gilson Nogueira

“ Balanço da bossa – antologia crítica da moderna música popular brasileira”, livro escrito por Augusto de Campos, que, agora, releio, provoca-me vontade de ouvir “sucessos musicais”, em discos de vinil, com aquele som puro, e de listar, no sentido de exercitar a memória, cantores e cantoras nacionais que conheci como repórter de rádio e de jornal, nas décadas de 1960 e 1970 do século passado, em Salvador
A lembrança de anotar nomes como Cauby Peixoto, Miltinho, Dick Farney, Luizinho Eça, Tim Maia, Rita Lee, Nelson Ned, Caetano Veloso, Fafá de Belém, Gilberto Gil, Wilson Simonal, e outras feras da música, nesta crônica, não tem nada a ver com o interesse em “ aparecer”, coisa, aliás, que não faz parte, convictamente, da minha maneira de ser. “Aparecer” jamais, assim como desesperar, nunca, gente boa, que me honra com a leitura destas linhas !
“ Repórter não aparece”, foi uma das primeiras verdades que escutei ,na velha Universidade Federal da Bahia, a Ufba, onde graduei-me, em Jornalismo, no ano de 1971. Sinto-me, até hoje, apaixonado pela profissão de jornalista. Busco, com a mesma intensidade, transmitir, aos mais jovens, principalmente, o conselho ouvido no primeiro dia de aula.
Alguns amigos, dos velhos tempos de baba, no meio da rua, em Nazaré, dizem que, desde o dia em que minha mãe vestiu-me a primeira fralda, atuo na área. “ E se derrubar é pênalti”, garantem eles.Talvez, por saberem que, bebezinho, no berço, eu queria trocar a chupeta por um microfone, a fim de anunciar a chegada da querida Bebé, de Pojuca ou, quem sabe, cantar, igual a Nélson Gonçalves, a “Deusa da Minha Rua”.
Verdade, ou não, parentes mais próximos entendiam que o fato de gostar de brincar, aos oito anos, de fazer jornal, em papel de desenho, e multiplicá-lo, em casa, utilizando folhas de carbono, aquele menino de olhar invocado teria que, um dia, vir a ser jornalista. O que pode acontecer hoje, também, com as crianças que não movimentam mais o chocalho e, sim, o mouse do computador. Estas, no ritmo em que o mundo dança, onde tudo se cria e se transforma, quase nada se perde, e a vida surpreende, no rol de acontecimentos inimagináveis, que causam múltiplas reações, em idade adulta, lá na frente, poderão lembrar de nomes de gente famosa que conheceram e anotar, no papel, seus nomes, como faço, para matar o tempo e ativar a cuca.
Agora, para que algum neurônio sacana não se apague, por pirraça, puxo a fita do passado e lembro o dia em que o “furioso” Tim Maia, no Hotel Acácia, ao chegar do Aeroporto Dois de Julho, onde fui apanhá-lo, com um amigo meu – e dele-, no curto período em que atuei em rádio, ofereceu-me, ao abrir a janela do seu apartamento, que dava para a Rua Carlos Gomes, uma “nuvem” que acabara de criar. “ Obrigado, velho Tim!” E lá fui eu, para casa, sorrindo muitooooooo, com aquela vozeirão ecoando nos meus ouvidos : “ Vaaaaaiiiii?”

Gilson Nogueira é jornalista e uma das melhores crias do radio baiano

nov
01
Posted on 01-11-2010
Filed Under (Crônica, Gilson) by vitor on 01-11-2010


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Bahia em Pauta traz para seu espaço principal as palávras postadas no espaço de comentários deste site blog pelo jornalista e poeta Gilson Nogueira sobre a morte de Ildásio Tavares e a sensação de orfandade intelectual e de vazio humano que a notícia provoca em gerações de baianos, como este editor do BP. Confira. (VHS)
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CRÔNICA/UM POETA

BAHIA QUE MORRE

Gilson Nogueira

Abro o computador com a mesma sede de informação que me faz ,no início do dia, ler o jornal. Os olhos batem na notícia da morte de Ildásio Tavares. A sempre mesma dor da perda de um amigo deixa-me sem palavras. No lugar delas, a exclamação: Oh,Deus! E um silêncio se transforma em prece de pedir a Ele que o receba em festa porque o grande poeta Ildásio foi a Bahia em carne e osso. Ao mesmo tempo, a lágrima que chora sua partida estimula o riso por sabê-lo vivo. E ele ,feito santo, de bata branca, parece surgir de sandália de couro no altar de minhas sagradas lembranças.

Eis o homem, magnificamente inteligente, literaturalmente belo, deixando-me orgulhoso por ensinar-me a tratar a poesia como se lapida diamante. Sob o sol de um sábado que iluminava nosso encontro, vivi, um dia, no Porto da Barra, entre uma dose e outra de um uisque honesto, um dos maiores instantes na face da Terra,na companhia de um gênio.

Ao meu lado, Ildásio, dando o terceiro tratamento em um poema que escrevi para meu pai, sacudiu-me o peito de orgulho por ser seu súdito. Senti em sua pena iluminada, no momento, em que ele escrevia ser Gilson mistura de vinagre e mel, a reverberação do som do tambor que saúda o orixá da palavra, o doce cumprimento verbal do boêmio cheio de festa e fantasia e a manha do capoeirista que não temia a cara feia do diabo. Afinal, para mim, e para muita gente mais, Ildásio possuia, no seu jeitão desassombrado, um certo quê de Deus das Letras, um jeito debochado de uma santidade mulherenga. É isso!

Que porra, Ildásio!!! Vai ser fodinha sorrir sem você daqui pra frente ? Ah, tome uma com o Pai!

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador e amigo do Bahia em Pauta desde o começo do site blog.

out
18

Serrinha(Ba): estação sem o trem de gente
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Crônica/Tempo e lugares

O Maracassumé e o trem faminto

Gilson Nogueira

A louça era branca, como, branco, o avental do professor de desenho do Colégio São Bento, Arlindo. Com ele nos ensinando trabalhos manuais, começávamos a utilizar régua e compasso, no despertar dos “artistas” e, principalmente, do fazer bem os trabalhos, a fim de tirar boas notas, a caminho de mais um ano a ser vencido na estrada da vida, expressão esta bastante utilizada por aquele garoto tirado a poeta que, um dia, já formado, ao encontrar-se com o mestre de trabalhos manuais, disse-lhe: “ Você continua o mesmo, Arlindão, não mudou nada, forte e simpático, que Deus o conserve, sempre jovial, com esse seu carisma, professor!” Nunca mais vi o bom Arlindo!

Voltando à louça. Havia, também, pratos, bule de café, açucareiro, mantegueira, potes e outros apetrechos de mesa, em azul e branco, com aqueles desenhos de cavalos e castelos e um nome inglês indicando haver sido fabricados na Europa.

O ar de silêncio e cheiro de coalhada, sem esquecer o de perfumes de coisa antiga e de alecrim, invadiam cozinha,salas, quartos e a varanda, onde havia um sino, cor de ouro, tocado por tio Dida, toda vez que ele nos via chegar, nas férias, para uma visita, acompanhados dos nossos pais.

A primeira vez que ouvi o som daquele sino aconteceu na primeira visita. Justamente, dia do batizado! Não sei, não lembro se foi meu ou de anjos, e passarinhos, de todas as cores, que voavam lá, dia e noite, como se o paraíso fosse, ali, naquele local com pinta de presépio, perto da Estação e do Matadouro.

Recordo, com clareza, que, depois de pedir a benção ao irmão de minha avó paterna, que Deus a tenha, a primeira coisa que eu fazia era correr para a entrada do Sítio Maracassumé, montar na cancela ,e ficar a ver o trem passar. Já escrevi sobre ele, o trem faminto, em texto que enviei, não lembro quando, para a Tribuna da Bahia, jornal que, ao folheá-lo, até hoje, sinto a pulsação do novo e o exalar dos seus ideais calcados no forte propósito democrático, há mais de 40 anos, preconizado por seus fundadores, antigos e novos dirigentes e colaboradores.

Foi, ali, em Serrinha de minhas doces lembranças de brincadeiras de criança, como fazer de conta que era caubói, atirando com a ponta do dedo indicador da mão direita, que, ao pescar piabas e traíras, no riacho da Bela Vista, vendo o trem passar no pontilhão, sobre o Açude da Bomba, onde imaginei o dia em que não veria mais o trem faminto.

Foram-se os anos de criança, ficaram recordações que dão sabor especial ao cardápio de saudade daquela época em que o mundo parecia outro, literalmente. Não havia violência. Isso é tudo. E não estou tão distante, assim, dos tempos de criança. No pontilhão, atualmente, passam trens, de carga, somente, não mais como antes, aos montes.Os de passageiros, pelo que soube, “já eram!”.

– Um moço de Salvador falou que o trem de gente pra Juazeiro vai voltar, com aquelas máquinas porretas, sem chaminés, mais rápidos!”
Tomara! As locomotivas dos antigos trens, pretas e douradas, inglesas, quando passavam, imponentes, engoliam trilhos, distâncias, retas e curvas, ziguezagueando feito serpentes , no mato, em busca de mais comida, imaginava eu, que ficava contando o número de vagões do bicho e dando adeus para as pessoas nas suas janelas, como se todas elas fossem da minha família. O mundo parecia mais feliz. As pessoas sorriam mais.

Gilson Nogueira

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