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05
Posted on 05-10-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 05-10-2009

Acenos da janela
ivexuxa
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OPINIÃO DO LEITOR

“BAIANO NÃO NASCE, ESTRÉIA”

Carlos Lima Cavalcanti Neto

A Bahia ocupou nas décadas de 60 e 70 lugar de destaque nos cenários cultural e político brasileiro. Daqui saíram artistas como Gil, Caetano, Bethânia e Gal, Tom Zé, João Gilberto… Isso, aliás, é do conhecimento de todos. Uma peculiaridade desses artistas é que além de executar belissimamente seus ofícios ainda se inseriam no contexto político, demonstrando suas indignações quanto ao período em que vivíamos sob a ditadura militar ou, mesmo, lançando o Tropicalismo, movimento político-cultural, que até hoje ainda sofremos a influência, positiva é claro.

A partir da década de 80, com o retorno do país à democracia, mudanças bruscas aconteceram. Na economia vivemos um dos piores períodos do século. Tanto que essa foi considerada a década perdida. Isso influiu fortemente na área cultural, principalmente em nossa terra. A partir de 1983, surgiram bandas e cantores com uma proposta diferente: alterar o ritmo e as letras das músicas tocadas no carnaval da Bahia. As marchinhas e as músicas inteligentes de Dodo e Osmar e Moraes Moreira davam lugar à letras pobres e ritmos alucinantes. Surgia ali Chiclete com Banana, Asa de Águia, Cheiro de Amor, etc.

Com o passar dos anos, a grande quantidade de bandas e cantores iam se alternando no mercado da música, a maioria se desfazia na mesma velocidade dos ritmos e algumas poucas se firmavam nesse mercado, promissor e pouco exigente. Nesse ínterim outras bandas também surgiam, entre elas a Banda Eva e a cantora Ivete Sangalo. Essa cantora hoje figura no cenário nacional como uma das mais importantes e influentes artistas. Isso também o mais incauto dos brasileiros também já sabe.

Mas essa influência agora orbita não na política, não na cultura, mas no estrelismo pobre e sensacionalista das revistas de fofoca, dos programas da Xuxa e da Hebe Camargo. O nascimento de seu filho Marcelo parou quase um andar de um Hospital da Bahia, numa cópia caricata do nascimento da filha de sua comadre Xuxa, que veio visita-la. Pobre Bahia e pobre daqueles que deixam suas casas e suas famílias para tomar um ônibus e ir até a instituição ver por uma fresta a estrela da axé music. Enquanto muitos morrem nas filas dos hospitais de gripe e de verminose, o que torna essa ostentação descabida e desrespeitosa. Reservam um andar de um hospital para a estrela dar à luz a um filho.

A comparação até parece uma mesquinhez da parte desse que vos escreve, mas é o retrato nítido e incontestável da cultura baiana que transparece. Enquanto que as bandas como Olodum, Didá, Malê de Balê e outros, perecem com a falta de patrocínio e com as dificuldades financeiras.

(Carlos Lima Cavalcanti Neto é leitor e colaborador do Bahia em Pauta)

set
29
Posted on 29-09-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 29-09-2009

Marilia: passividade da classe média…
marmuricy
…e imprensa sensacionalista na origem
visalvador
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Deu em Terra Magazine:

A revista digital Terra Magazine ( http://terramagazine.terra.com.br)  publica nesta terça-feira, 29, artigo assinado pela jurista baiana e professora de Direito, Marilia Muricy, ex-secretária estadual de Justiça. O título em sí, “Sentimentos Sociais e Segurança Publica”, já demonstra precupação muito além da trivialidade com que o tema da violência tem sido tratado ultimamente no país, de um modo geral, e na Bahia dos tumultos e incêndios mais recentes, em particular.
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Na chamada para o texto de Marília Muricy, uma referência na Bahia e no país nas questões relacionadas com a ética e a defesa dos direitos humanos, TM destaca que a autora vai direto ao ponto ao identificar na origem do problema a imprensa sensacionalista e a passividade da classe média diante da violência policial.

“Enquanto a polícia, sob a alegação irada e cada vez mais audaciosa de estar respondendo à agressão contra “os seus” vai ampliando sua sequência de extermínios, as “classes médias” fazem “vista grossa” e não negam seu aplauso às “tropas de elite”.

Com autorização de TM, o site-blog Bahia em Pauta reproduz a íntegra do texto que merece reflexão sobre cada parágrafo de informação e análise sobre o que é dito e o que se esconde sobre o tema. Confira.

(Vitor Hugo Soares)

SENTIMENTOS SOCIAIS E SEGURANÇA PÚBLICA

Marilia Muricy

Vivemos hoje, no Brasil, entre o medo e o ressentimento silencioso. Do medo se incumbe, com eficiência ímpar, o jornalismo sensacionalista que nos agride dia a dia com o retrato de nossa miséria, embora sistematicamente resista a divulgar exemplos de solidariedade, tão comuns na vida anônima do cotidiano. O mudo ressentimento é resultado da aviltante consciência da injustiça secular e da impunidade cada vez mais robusta, quer nos processos que atingem figuras notáveis da República, quer nos que afetam a população pobre, vítima das lutas internas do tráfico de drogas e da arrogância policial que estufa o peito e faz trejeitos risonhos de vitória para indicar o número de suas vítimas ou, conforme dizem, daqueles que os ameaçam, “justificando” o imediato aniquilamento.

Embora de feitio distinto, os dois processos convergem, em suas perversas consequências. Do ressentimento surge a indiferença pelos assuntos públicos que, afinal “não tem jeito”; é a descrença crônica no papel das instituições, que constitui uma das mais graves doenças da democracia. Isso, em um país, cujos órgãos legiferantes parecem padecer de um surto de “penalização” que se ocupa de pescar minúsculos problemas, deixando, na rede, espaços por onde podem circular os tubarões. Tem-se a impressão de que os nossos “experts” em penalização andam vistoriando a experiência internacional e, sem maior atenção às condições culturais de cada país, concluem: “onde há pena, que seja bem vinda entre nós”. Do medo surge o confinamento das camadas sociais em que se concentram, segundo os órgãos de inteligência policial, as ações do tráfico.

Até por ser recente o meu afastamento da Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do Governo da Bahia e, por isso, bem nítidas as lembranças positivas e negativas que tenho dessa enriquecedora experiência, vou limitar o espaço desse artigo, a partir desse ponto, a discutir os sentimentos sociais das nossas elites e do homem comum quanto a segurança pública, destaque quase unânime nas pesquisas de opinião, como flagelo social.

Em meio às elites, os comportamentos já se tornam mais ou menos padronizados; cinde-se o espaço público, esbraveja-se contra a ineficiência da polícia, mas não se hesita em estabelecer com ela acordos de “complementação salarial” que bem lembram as práticas mafiosas. E quando chega a “barbárie”, provocada por fato real ou suposto, a ambivalência se manifesta: para que o excesso, perguntam alguns? Afinal, foi merecido dizem outros! E é algo semelhante, que baseia as reações irracionais às chacinas que ocorrem na periferia e não poupam crianças nem adolescentes, corpos expostos nas primeiras páginas de jornal, imagens destacadas na TV, sem qualquer escrúpulo por parte dos editores.

Porém a ambivalência não é privilégio das elites. Acossados por uma forte sensação de impotência e frágeis vínculos de solidariedade, também os que são vítimas privilegiados da violência envolvem-se na cumplicidade do silêncio e o “salve-se quem puder” termina por ser a única saída, frente ao desamparo produzido pela escassez de instituições de proteção, que as lideranças e os militantes dos direitos humanos lutam, sem sucesso, para fortalecer.

Enquanto a polícia, sob a alegação irada e cada vez mais audaciosa de estar respondendo à agressão contra “os seus” vai ampliando sua sequência de extermínios, as “classes médias” fazem “vista grossa” e não negam seu aplauso às “tropas de elite”, vibrando com o sangue que escorre das telas, em filmes campeões de audiência.

Os direitos humanos, base do Estado Democrático de Direito parecem, com exclusão da militância que ainda resiste, terem sido postos em estado de letargia. Vez por outra, uma audiência pública reúne autoridades do Estado e lideranças comunitárias. Unidos na crítica e no protesto, órgãos do Estado e militantes, daí não resulta, como seria de se esperar, ações concretas de defesa social. Enquanto isso, o Programa de Segurança com Cidadania (Pronasci) um dos mais criativos do Governo Federal, voltado a desvincular o problema de segurança pública de sua versão policial, habilitando policiais e formando, para a paz, lideranças de territórios pré-selecionados, insiste, em alguns Estados, em privilegiar compra de armas e equipamentos, sendo tímidas e até inexistentes as ações que lhes são próprias.

Fui Secretária de Justiça do Estado da Bahia, durante dois anos e meses, o suficiente para aumentar a minha convicção de que a imprestável instituição das prisões, não se confunde com a humanidade que lá está: a humanidade a que pertenço, no bem e no mal, carregada de contradições e paradoxos, capaz de ser intensamente cruel e surpreendentemente terna. Sem descuidar da segurança, investi pesadamente em trabalho, saúde, educação, esporte, lazer, procurando reduzir os níveis de desumanização que a prisão acarreta, do início ao fim da pena. Presos e presas foram levados a assistir peças de teatro. Com a contribuição de um maestro que também acredita nas pessoas, formamos um coral de homens e mulheres presos, que terminou apresentando-se durante a solenidade de transmissão do cargo, na presença do Governador do Estado, que não fez questão de disfarçar a comoção que sentia e que seu rosto revelava, tal como a plateia, que, ao final da exibição, aplaudiu de pé o coral.

Ainda guardo no rosto a sensação das lágrimas. Mas houve outras, bem salgadas, de que não me arrependo ter derramado, já que com o sofrimento também se aprende, e muito.

E não posso deixar de lado um depoimento. Talvez por habituada, pela atividade docente, a falar a verdade pude, logo ao assumir a Secretaria, declarar que o crime organizado exercia forte poder dentro dos presídios. Não creio que a ninguém isso tenha soado como novidade. Novidade sim, era a declaração ter partido da própria Secretária, ainda que com a ressalva de que o combate aos acordos internos era um desafio a que o Estado não poderia fugir. Não é difícil imaginar o efeito dessas declarações sobre a aliança entre líderes prisionais e seus parceiros. Esse efeito, aliás, atingiu seu ponto máximo quando começaram as transferências das lideranças para presídios de segurança máxima, distantes de sua área de poder.

Mas a batalha antecedeu as transferências. Aquela altura, eram aproximadamente oito mil internos no sistema da Secretaria de Justiça e seis mil amontoados nas delegacias de polícia, faltando-lhes tudo, inclusive espaço para dormir, sendo o revezamento uma prática comum, regulada pelo “mercado das cadeias”.

Embora o quadro que encontrei fosse de superpopulação em todos os lugares, uniram-se todos em uma cantoria única, que lembrava as antigas carpideiras, repetindo obviedades que o Brasil todo conhece, o mundo lamenta e não consegue resolver. Quando solicitei ao governador Jaques Wagner que me liberasse das funções de secretária, estava em paz e ainda estou. Mas fica no fundo a dor de uma pergunta. Terá o nosso trabalho contribuído de fato para levantar a auto-estima da população carcerária? Caso positivo, e daí? Menos me importaria se, alguns disséssemos que “gastamos velas com defunto ruim”, caso houvesse no horizonte, oportunidade, de que na saída, em vez da quase fatalidade da reincidência, a sociedade os acolheria, na família e com trabalho…

Felizmente, nesse quadro de frustrações e protestos, e esperanças tão poucas, um futuro melhor se anuncia no trabalho de educação para os direitos humanos, já deflagrado pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos do Governo Federal e cujo projeto tem como pressupostos radical mudança de paradigma para a segurança pública no Brasil.

Hans Jonas, em seu Princípio Responsabilidade, lembra que já é hora de deslocar o centro da solidariedade social, transferindo-o do individuo para fincá-lo em estâncias coletivas. Melhor ainda é dizer, com Ricoeur, que as nossas utopias, por designarem, apesar de sua força, “lugar nenhum”, devem ser substituídas pelo “futuro possível da esperança”. É com o que sonho, braços abertos para um mundo de paz.

Marilia Muricy Machado Pinto, mestre em Ciências Humanas, doutora em Filosofia do Direito, é ex-secretária da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do Estado da Bahia..

set
24
Posted on 24-09-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 24-09-2009

Estacionamento na Holanda: “bicicleta é para eles”
biciholanda
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Deu na coluna
Na coluna Em Tempo, que ele assina diariamente na Tribuna da Bahia, o jornalista Alex Ferraz publica na edição, desta quinta-feira, 24, as seguintes notas sobre o novo factoide politicamente correto nacional:

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Bicicleta?

Fui obrigado a ouvir e ver em rádios e TVs de todo o País, no Dia Mundial Sem Meu Carro, incentivo ao uso de bicicletas para nos livrarmos dos engarrafamentos nas grandes cidades brasileiras. Alices, pelo amor de Deus, em que país vocês vivem? Tentem comprar uma bicicleta e sair pedalando por Rio, Salvador, Recife, São Paulo… Você receberá um murro pelo meio da cara e vão tomar sua bicicleta e ainda vão lhe dar uns chutes na barriga porque você foi otário demais.

Bicicleta é para lá…

A agenda internacional 2009, que a Holanda deu de brinde a jornalistas de todo o mundo, mostra a rainha do país indo de bicicleta para a abertura anual do Parlamento. Mostra artistas, empresários, políticos e donas-de-casa indo de bicicleta para o trabalho e o lazer. Sim, a Holanda é um país todo plano. A renda per capita ultrapassa o equivalente a 70 mil reais (a da Bahia é de menos de 7 mil reais). Lá ninguém rouba bicicletas. Ponto final.

O carro da Big

Minha assessora para assuntos de mobilidade, diante da realidade cruel da Bahia, deu um aviso aos “ecochatos” e aos “especialistas” em trânsito (kkkkkkk): “Olhe, seu Alex, no ano que vem comemorarei o Dia Mundial Sem Meu Carro comprando um tanque de guerra igual àquele da modelo lourésima do programa “Brazilian Next Top Model”. E me deixem, viu?!”
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Leia íntegra da coluna de Alex na Tribuna da Bahia

set
21

Zé Celso Martinez, em cena de Hamlet
Zécelso

Deu no Terra Magazine

Uma das personalidades mais importantes do teatro brasileiro. Zé Celso Martinez Corrêa dispensa comentários, mas vamos lá. Diretor, ator e dramaturgo, ele está em cena desde a década de 50. Nos anos 60, liderou o Teatro Oficina – grupo amador formado na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Foi ali, no Largo de São Francisco, que se formou o Oficina. Hoje, um templo de cultura em São Paulo, que dali tem expandido raios iluminados para o país inteiro, incluindo a Bahia.
Inovador, contestador e originalíssimo, ingredientes indispensáveis para quem sonha com um país melhor, Zé Celso, hoje com 70 anos, esbanja vigor e muita disposição para seguir realizando em prol da arte no Brasil. Dirigindo, adaptando ou colaborando, ele trabalhou com nomes como Augusto Boal, Raul Cortez, Bete Coelho, Chico Buarque, William Shekespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht, Gorki, Amir Haddad, Sartre, entre tantos outros.
É dele o polêmico (como sempre) manifesto publicado originalmente no site do grupo Oficina, com autorização para reprodução na revista digital Terra Magazine e que também Bahia em Pauta leva a seguir aos seus leitores.
( Maria Olívia e Vitor Hugo Soares)

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PLEBISCITO

José Celso Martinez Corrêa

Quando soube da candidatura de Marina Silva fiquei muito feliz. Sou admirador de suas lutas pela AMAzônia mas quando li uma reportagem sobre sua posição, pirei:
Criacionista, admite que Darwin deva ser ensinado nas classes mas juntamente com a BíBlia; contra o aborto e contra as pesquisas com células tronco e em religião não acredita na biodiversidade dos deuses, é monoteísta, evangélica!, causadora junto com outros monoteísmos de tanta guerra e terrorismo no mundo. Religiões que partem da idéia estúpida de que há somente uma verdade, a sua.
Se é para se ensinar a mitologia cristã da origem do homem na Bíblia vamos também fazer os alunos conhecerem os mitos e ritos indígenas, africanos, budistas, da arcaica e riquíssima Grécia, que narram a origem do homem. Como uma ecologista do Amazonas não pode ter percebido a riqueza imensa das religiões de origem Tupy!!!?
Quanto ao aborto, as brasileiras e também os brasileiros tem que ser os donos de seu próprio corpo. O Estado não tem que se meter. Isto é nazismo.
Nós precisamos nos desenvolver nesta maravilha que são as pesquisas sobre as células tronco. É sintoma de maior atraso, que pensei ser defendido somente por idiotas como Bush, e caí de quatro quando uma defensora da vida declara esta posição.
Vi no Jornal do Brasil, em uma pesquisa, que se Lula fosse candidato teria a a maior votação, em 1º Lugar, líder absoluto com 21,9% de votos e Serra em 2º lugar com apenas 7%.
Está claro que o povo de que faço parte quer a continuação deste governo que trouxe ascensão social da base da pirâmide, abriu-se para todo o mundo inaugurando uma política internacional de solidariedade e Lula tornou-se, por isso, como declarou o presidente Obama, o político mais popular do mundo, que fez criar-se um Ministério da Cultura com o divino Gil e o maravilhoso consolidador, o ecologista Juca Ferreira. A Polícia Federal, pelos poderes humanos como o do policial Protógenes, apesar de todos os panos quentes dos que não tem o espírito da res-pública, da coisa comum, tem conseguido trazer à tona toda a corrupção. A liberdade de manifestação no Brasil é completa, apesar de juízes como o que proibiu o jornal Estadão, darem os toques que indiciam a ditadura que paira ainda das oligarquias familiares no Brasil e que Lula tem sabido até usar para poder governar.
Se no Peru, na Venezuela, por razões democráticas diferentes, fazem-se plebiscitos para que governos que estão dando certo para a maioria permaneçam, porque não iniciarmos um movimento por um plebiscito para que Lula, atendendo à voz da democracia VIVA não formol-lizada, triunfe?
Amor Ordem e Progresso.

José Celso Martinez Corrêa é Presidente da Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona. Em outubro, retorna a São Paulo com “Cacilda!!”. Artigo também publicado no site do Teatro Oficina.

set
14

Enigmas do cigarro
fumante
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OPINIÃO/ FUMANTES

Cigarro, apenas um substituto da masturbação?

Jardel Dias Cavalcanti

Freud dizia que o cigarro é apenas o substituto da masturbação. Numa civilização repressora dos instintos sexuais, que prefere investir sua energia libidinal mais no trabalho que no prazer, o stress gerado pela ausência de uma satisfação plena criaria uma tensão que deveria ser sublimada de alguma forma.

A masturbação seria o calmante necessário para essa energia reprimida e acumulada dentro do corpo do homem impedido pelo “princípio da realidade” de ter tanto prazer quanto desejasse.

Mas como nossa cultura culpabiliza este ato solitário (mais barato e mais seguro que uma prostituta, mas menos prazeroso que o amor pago ou não pago), resta ao homem o estravazamento no vício (cigarro, drogas e bebida), na neurose ou na violência. Quem não consegue liberar a tensão de alguma forma, termina com um câncer inusitado (somatização) ou comendo feito um maluco (principalmente chocolate e gordura) e morrendo por doenças ligadas ao consumo destes alimentos.

O uso do cigarro seria uma das saídas mais decentes. O vício seria, portanto, apenas uma forma de se compensar instintos latentes que os costumes de um mundo civilizado empurram para as regiões misteriosas do inconsciente. A satisfação gerada pelo cigarro produz uma sensação de libertação desta tensão entre desejo e insatisfação. Essa sensação é similar ao relaxamento gerado pelo orgasmo.

Há explicações químicas para o prazer gerado pelo cigarro. Segundo a médica Paula Basinelli, “se fumar não fosse prazeroso, ninguém o faria. O fato é que o cigarro se firma cada vez mais como uma das drogas mais eficazes para combater a ansiedade e depressão, estados emocionais típicos do nosso estilo de vida”. “A nicotina ativa neurotransmissores no cérebro responsáveis pela liberação de substâncias como a Dopamina e a Serotonina, que são poderosos antidepressivos”, explica a cardiologista Jaqueline Scholz Issa, autora do livro Deixar de fumar ficou mais fácil. Para Basinelli, “a dupla Dopamina + Serotinina parece mesmo imbatível. A primeira dá sensação de alegria, felicidade e bem-estar. Já a Serotonina é um estimulante que dá coragem, bom humor e controla o apetite. Perfeito, não?”.

Mas há questões que vão além da química. O cigarro tem um valor cultural que ultrapassa a leitura simplória do vício causado pela nicotina ou pela leitura freudiana da questão. Desde o glamour dos fumantes no cinema, quando o fumante de tabaco se eleva à condição existencial de uma personalidade psicológica intensa, até à ideia de um companheiro para a solidão, o cigarro ocupa nossas vidas há séculos fazendo parte de rituais sociais significativos para nossa convivência sócio-cultural.

Uma vez perguntaram a Freud por que ele fumava tantos charutos se sabia que o cigarro era apenas um substituto das frustrações. Ele respondeu peremptoriamente: “Às vezes, um cigarro é apenas um cigarro”.

Sim, é possível, caro Sigmund. No vício ou uso do cigarro (pois há usuários, como eu, que não são viciados) há implicações de várias naturezas. Entre elas, uma que está sendo desrespeitada atualmente ao se colocar o fumante quase que na posição de um criminoso social: a liberdade do cidadão de fazer o que quiser com sua própria vida, dedicando-se a um prazer de livre escolha.

Junto a essa proibição, o controle sobre a propriedade privada dos bares, impedidos de permitirem o uso do cigarro (mesmo em fumódromos). Como alertou João Pereira Coutinho, no seu artigo publicado no caderno “Ilustrada” da Folha de São Paulo, do dia 18/08/09, “proibir o fumo em lugares fechados, como bares ou restaurantes, é um ataque à propriedade privada e à liberdade de cada proprietário decidir que tipo de clientes quer acolher no seu espaço. O mesmo raciocínio aplica-se aos clientes, impedidos de decidir livremente onde desejam ser acolhidos”.

O que se deve garantir é o direito do cidadão em decidir que bar ele quer frequentar; se odeia cigarro, ele é livre para que procure um bar de não fumantes. Quem está desrespeitando a lei é o Estado, que deveria ser processado pelos donos de bares. Se o cigarro fosse um produto proibido, como a maconha o é, aí, sim, o Estado poderia impedir os bares de liberarem o fumo, mas sendo livre o uso de cigarro (e outros entorpecentes como o uísque, vodka, cerveja etc.) é incoerente a sua proibição em estabelecimentos particulares.

É incoerência dizer que o cigarro mata num país onde os índices de criminalidade são terríveis, onde a poluição ambiental e sonora e a química dos enlatados envenenam diariamente as células de nossos corpos tornando-os propensos, por isso, ao câncer. Mas… outro dado médico: viver em uma cidade poluída é mais arriscado que fumar um maço de cigarros por dia? Segundo o Dr. Alessandro Loiola: “Fique sabendo que o risco de câncer associado à poluição é 100 vezes menor que o risco trazido pelo cigarro. Largue este hábito maldito agora”.

E o excesso de trabalho a que é submetido o trabalhador mal pago do terceiro mundo? Doenças na coluna, nas mãos, nas pernas, tensões do trânsito, alimentação pobre, lazer precário e noites mal dormidas (em São Paulo, para se chegar ao trabalho a classe pobre e média acorda às 5 da manhã e chega em casa às 9 da noite ? perde-se quatro horas da vida dentro de ônibus lotados, que não andam, às vezes tendo-se de fazer o trajeto de pé). Consequência: morte tão lenta quanto a causada pelo cigarro.

Se pensarmos em termos freudianos, o cigarro, como a prostituta, tem uma função social bem positiva. Se a prostituição fosse proibida, com certeza o número de estupros aumentaria substancialmente. Com a proibição ao cigarro o nervosismo vai subir, pois está se criando uma espécie de proibição moral ao se demonizar o fumante. A culpa gerada pelo fato de se ser usuário do pequeno cilindro de fumo e fumaça vai levar muitas pessoas a abandonarem o vício e o grau de stress vai explodir em vários lugares como consequência disso.

Quantos casamentos, quantas amizades, quantas relações empregado-empregador continuam a existir apenas porque se pode acender um cigarro e pensar dez vezes antes de se explodir com alguém?

Mallarmé dizia que entre ele e o mundo deveria existir uma leve cortina de fumaça, esta produzida pelo charuto que sempre carregava e que pode ser visto no seu belo retrato pintado por Manet. Talvez o primeiro retrato existencialista da história. Nessa afirmação do poeta francês está implícita também uma concepção de poesia e arte apenas como sugestão, como a imagem das coisas tornadas indefinidas por causa da fumaça do cigarro.

Eu tenho uma amiga, Vreni Widmer, que se mudou da Suíça para o Brasil, que sempre acende um cigarro, apenas um, no fim do dia, reservando esse momento ritual para repensar a vida diariamente. O cigarro sendo o elemento que faz sua ligação com as correntes subterrâneas do seu ser.

Já outra querida amiga, que é cantora, a Marie Irene, tem sentido como positiva a ausência de fumo nos bares em que ela canta, pois sua voz melhorou significativamente e está livre daquele cheiro horrível de cigarro que fica encrustrado na roupa de quem frequenta ambientes com fumantes.

Eu sou um fumante irregular. Se estou em um bar bebendo posso acender um cigarro e fazer dele uma companhia agradável, que aumenta meu prazer e relaxamento nesse raro momento de lazer. Se me sento para escrever e me sinto bloqueado, um cigarro pode ser o disparador das frases que sucessivamente vão acontecer em seguida. Também posso ficar meses sem fumar, como agora, sem o mínimo incômodo.

Não me irrito com a presença de fumantes em bares, restaurantes, reuniões. Ao contrário, a presença do cigarro dá um charme ao ambiente e a quem estiver fumando. Sempre deixo cigarros e charutos em casa para visitas poderem se deliciar com o prazer do fumo.

No entanto, o beijo feminino cheirando a cigarro me incomoda um pouco. Não vejo sentido no uso do cigarro numa ocasião tão especial como o encontro amoroso. O cigarro impede a absorção do cheiro natural da pele, elemento que aguça nossa sensibilidade erótica. Também me causa estranheza o prazer do cigarro após o ato amoroso, já que deveríamos estar bastante relaxados. Para algumas pessoas, o cigarro pós-ato é um ampliador do prazer que se acabou de ter; para outros, o cigarro antes da relação seria uma espécie de calmante para se entrar de forma segura na aventura das trocas afetivo-sexuais. A cada um seu prazer e sua dor.

Eu tive uma namorada que fumava bastante e o quanto isso era charmoso é indescritível. Que classe a menina tinha ao portar um cigarro na mão e levá-lo à boca! Essa imagem vale por todos os prazeres que se pode ter. Como a imagem de uma grande obra de arte, esta imagem não abandonará nunca a minha mente.

Mas o charme não é comum a todos os fumantes. Há aqueles que nem conseguem segurar direito o cigarro e o tragam de uma forma tão nervosa e desajeitada que o tornam o gesto de fumar insignificante. O fumante charmoso é aquele que leva o cigarro à boca e o traga como se estivesse tendo uma grande ideia ou movendo o universo no seu gesto.

O ex-fumante é um chato, mas não deixa de ser também um sujeito que teve uma melhoria significativa da saúde. Segundo pesquisas médicas, ao se largar o cigarro em poucos dias nota-se uma melhora do paladar, da tosse, da capacidade física, do olfato, da potência sexual e da autoestima. Em seis meses melhora-se a circulação sanguínea e o risco de infecções respiratórias. Em um ano cai 50% o risco de morte por problemas vasculares. Em dez anos reduz-se o risco de morte por câncer pulmonar.

As doenças geradas pelo cigarro são apenas o sinal da vingança do corpo contra o espírito liberto pela tragada do cigarro. Sendo sublime e terrível, segundo uma famosa frase do escritor Oscar Wilde, “o cigarro é a forma perfeita de prazer: elegante e jamais satisfaz”.

Jardel Dias Cavalcanti , mestre em História da Arte pela UNICAMP (SP), escreve para o site Digestivo Cultural, onde o artigo foi originalmente publicado. A sugestão para o Bahia em Pauta veio da jornalista e escritora carioca, colaboradora do BP, Aparecida Torneros.

set
13
Posted on 13-09-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 13-09-2009

Fogo em São Paulo, como em Salvador
fogo

Bahia em Pauta publica a seguir um artigo enviado pelo filósofo Selvino Heck, no qual o pensador gaúcho reflete sobre recentes incidentes de choques violentos entre a população de bairros populares de São Paulo e a polícia. Um tema atual , revelador e um texto que merece ser lido com máxima atenção -inclusive por políticos, empresários e administradores públicos – neste dias de tumultos em Salvador.
(Vitor Hugo Soares)
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ARTIGO / FRONTEIRAS


‘QUASE TUDO TRABALHADOR’

Selvino Heck

Ana Cristina Macedo tinha 17 anos. Nasceu em Crateús, no Ceará. Era mãe de um bebê de um ano de oito meses. Era evangélica e freqüentava a escola de samba Imperador do Ipiranga. Ana Cristina foi morta quando retornava do primeiro dia de aula no bairro Heliópolis, São Paulo, capital.

A favela de Heliópolis tem 125 mil habitantes, a maior de São Paulo, e fica encravada na fronteira entre São Paulo e São Caetano do Sul. É dividida entre a parte ‘nobre’, onde 62% das casas têm esgoto, e o núcleo ‘miserável’, onde nenhuma tem.

Heliópolis esteve no centro do noticiário e das manchetes nas últimas semanas. A morte da jovem Ana Cristina desencadeou fortes protestos da comunidade, que tiveram como resposta operações de guerra da polícia militar paulista. Noticiou-se que quem ‘orquestrava’ a revolta da comunidade eram traficantes, em troca de cestas básicas. Uma rede de televisão mostrou um bilhete de convocação da população, supostamente escrito por traficantes e bandidos. As cestas básicas ninguém nunca viu.

Marilene Pereira de Souza, sogra de Ana Cristina, disse: “Isso tudo é inverídico. Cansamos de apanhar da polícia e resolvemos protestar.” Segundo Geldaci Carvalho, moradora, “aqui é quase tudo trabalhador”. Para Cristiane Alves, “os policiais entram nas nossas casas, sem mandado, roubam nossas coisas, batem na gente, em busca dos bandidos”. Antonia Cleide Alves, presidente da Associação de Moradores de Heliópolis, afirma que “os protestos não foram organizados pelos traficantes. Foi a indignação que motivou o protesto. O que aconteceu aqui é que fomos invadidos pela violência que levou a vida da jovem Ana Cristina.”

Este é mais um exemplo da criminalização dos movimentos sociais tão presente na história brasileira. Como quase sempre, há violência só de um lado, do lado dos pobres, dos humilhados, dos que nunca tiveram nem voz nem vez. Do lado do poder, é preservação da ordem pública e da lei. Que ordem? A da desigualdade e da injustiça social? Que lei? A que serve aos poderosos, ao poder estabelecido e ao status quo?

Nestas horas, crescem o preconceito e a discriminação. ‘É pobre, é suspeito prévio.’ ‘É preto, só pode ser ladrão. Encosta ele na parede e revista.’ Como diz Antônia Cleide, “quem já tem o pé atrás com favela fica mais ressabiado ainda”.

Isso tudo está acontecendo em tempos de realização da 1ª Conferência de Segurança Pública (CONSEG). Os caminhos da democracia e da justiça social são longos, muitas vezes tortuosos. Num país em que foram assassinados milhões de índios, escravizados milhões de negros, e onde ainda hoje se assassinam sem-terras, escravizam-se trabalhadores e se matam milhares de jovens por ano, a maioria trabalhadores, negros e moradores de bairros pobres e favelas, as comemorações devem ser sempre feitas com cuidado. A consciência, a prática e o respeito diário aos direitos humanos de todos e todas, embora conhecidos e reais avanços, garantidos pelo poder público e pela mobilização social, precisam ainda ser conquistados definitivamente. Assim como a urgência de se acabar com todo e qualquer preconceito e discriminação.

Como disse dona Geldaci, aqui e no Brasil é quase tudo trabalhador, pagador de impostos, que corre atrás do pão de cada dia, do sustento da família, de cidadania, de respeito, de ser gente. Tem, pois, direito de protestar, organizada e desorganizadamente. Afinal, foi assim, no Brasil e no mundo, em todos os tempos, que pobres e trabalhadores garantiram alguns (poucos) direitos e dignidade: na revolta, no protesto, na mobilização, na organização, na consciência de que devem lutar juntos, de forma coletiva e solidária.

Selvino Heck, filósofo, ex-deputado constituinte pelo Rio Grande do Sul, é sssessor especial do Gabinete do Presidente da República.

set
12
Posted on 12-09-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 12-09-2009

Projeto municipal: “uma carnificina”
Alberga

OPINIÃO / SALVADOR

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Roberto Albergaria
De Salvador (BA)

No youtube, o leitor vai se surpreender com esta aberração arquitetônica perpetrada pela Secretaria do Desenvolvimento Urbano de Salvador para liquidar de vez a nossa bela península de Itapagipe.

Uma carnificina, pois prometem, de acordo com o vídeo postado misteriosamente na internet, arrasar com todas as nossas singelas casinhas, talvez para construir uma “Nova Sauípe” para os turistas endinheirados na empobrecida orla de cá – expulsando-se os velhos nativos. Ou seria uma obragem ainda mais ridícula: pois o secretário teria admitido “transformar parte da Cidade Baixa em algo parecido com Ipanema ou o Leme do Rio de Janeiro” (segundo um blog local).

Projeto mal-obrado, sem nenhuma preocupação histórica e cultural, sem o mínimo respeito ao nosso espírito de lugar e às “coisas da Bahia” em geral. Uma iniciativa pseudo-vanguardista cheia de obscuridades e subterfúgios – pois a cada hora os “mandachuvas” da Prefeitura dizem e mostram uma coisa diferente. Basta que olhemos o que eles vêm dizendo e desdizendo aqui mesmo no Terra Magazine há meses.

Seguem algumas idéias iniciais sobre esta invencionice travestida de “melhoramento” e “requalificação” que está sendo cometida pelos gestores “desenvolvimentistas” da Prefeitura desta cada vez mais triste Cidade da Bahia. Na verdade, trata-se do mais desavergonhado empreendimento de desurbanização de uma área histórica que apareceu no Brasil nos últimos tempos.

Ainda não sabemos o que significa o fato de a Secretaria do Desenvolvimento Urbano ter colocado logo esta “animação” no Youtube (tinham baixado, quase que secretamente, um edital de desapropriação da área em março – e prometido um projeto bem definido para outubro).

No vídeo, não sobra pedra sobre pedra. Nem as nobres construções do Patrimônio Histórico baiano mais antigas, tampouco os prédios de utilidade pública da área costeira (escolas, hospitais, albergues, pensionatos) são poupados. Deletaram o majestoso Abrigo D. Pedro II, suprimiram totalmente a antiga Fábrica de Luiz Tarquínio, a Fratelli Vita, o Hospital São Jorge, a tradicionalíssima Escola Abílio César Borges…

Tudo vira um frio vazio – cortado de asfalto e canteirinhos centrais, num paisagismo “hollywoodiano” artificialíssimo…

Os infelizes autores desta monstruosidade digital ignoraram, igualmente, o entorno do Grande Patrimônio representado pelas edificações mais antigas e “nobres” da área — que formam o “colar de preciosidades históricas da orla da península”.

Conjunto de fortes, igrejas, casarões senhoriais que ficarão isolados, descontextualizados culturalmente, desanimados humanamente. Sobras perdidas neste deserto de grandes espaços abertos, pontuados por medíocres e repetitivas “modernosidades” de concreto e vidro…

O casario tradicional da região é tratado como um puro monturo de trambolhos (“essas coisas” – que só estariam atrapalhando a visão do mar, nas palavras simplórias e interesseiras do Sr. Secretário, ainda quando recém-enfiado no “balaio de gatos” partidário do prefeito João Henrique).

Na verdade, os burocratas da desurbanização da nossa orla descartam não só os bens culturais de grande porte, mas também os pequenos: especialmente o que temos em nossa arquitetura ordinária de artesanato espontâneo e de arte sensível produzidos pelas pessoas comuns. Um respeitável Pequeno Patrimônio civil acumulado ao fio das sucessivas gerações da nossa Itapagipe “remediada” – dos arredores da da praia do Cantagalo à da Boa Viagem. Local ameno em que subsistem as mais belas miúdas relíquias dos nossos vários passados – uma espécie de paraíso urbano perdido, sob vários aspectos…

Em sua míope visão do alto, os desenhistas digitais paus-mandados da SEDHAM desprezaram todas nossas pitorescas casinhas e sobrados tão lindamente coloridos (tal como aparecem, p.ex. no livro As Cores do Bonfim, da atenta profa. Rosa Alice França).

Na verdade, os novos Donos da Cidade (os barões nacionais da construção & a elite neopatrimonialista local que comanda a máquina municipal) só pensam em dinheiro e poder. Desconhecem por completo não só as especificidades sócio-culturais do nosso feitio nativo de edificações residenciais, mas também do nosso intrincado urbanismo viário, “passando o trator” sobre toda a densa história dos nossos caminhos (minuciosamente retrilhados pela erudita Profa. Mariely Santana).

Não entendem patavina das particularidades do comércio de material elétrico e hidráulico da rua Barão de Cotegipe – o mais sortido de toda a cidade. Além de que esses iluminados “modernizadores” – sem nenhuma sensibilidade patrimonial, sem arte, nem alma – desconsideram totalmente o cenário das tantas devoções cristãs que já transformaram nossa praieira wetland numa espécie de Jerusalém tropical (além do Bonfim, temos os santuários das duas quase-santas baianas a menos de 300 metros, as ex-irmãs Dulce e Lindalva).

O fato é que esta massacrante “limpeza visual” (ou “faxina étnica”?) que o Mercado e a Prefeitura estão promovendo não é só desumana – mas, também, burra: pois o “arrabalde” de Itapagipe encarna o que sobrou de mais característico da “Cara-de-Bahia-com-H” (de Velha São Salvador) que tínhamos. A península ainda resistindo com vivacidade, depois das tantas mortificantes demolições realizadas pelos “picaretas do progressismo” nos limites da nossa Cidade Antiga desde o séc. XX.

Se bem que tal mega-operação de desurbanização, pulverizando uma extensa área de mais de 5 quilômetros representará a destruição de um conjunto de bens culturais e, mesmo, turísticos, de alto valor para todos os baianos – tanto os da Cidade Alta quanto Baixa, Nova e Velha.

Ora, para esses Exterminadores do Passado o espaço não tem memória, as malhas de interação dos habitantes não têm a mínima importância, nossas casas são meros abrigos impessoais e intercambiáveis segundo a lógica macro-espacial que preside tanto a ganância do Mercado-Rei (os grupos imobiliários que agora querem explorar a orla interna da baía que para eles estaria “completamente degradada”) quanto a suposta racionalidade planejadora do Estado Onipotente.

Mercado & Estado (agora unidos no velho Crony Capitalism brasileiro com o novo nome de Parcerias Público-Privadas) teriam o direito de dispor da cidade ao seu bel prazer.

E a lógica deles é a da indiferença. Negocistas que não têm nenhum amor à cidade, ao patrimônio, à beleza, nada… O que importa é o vale-tudo dos seus interesses imediatos, é o modelo de gestão da cidade que lhes for mais útil, o modelo de arquitetura que lhes for mas rentável.

Somente lhes interessam nossa linda “vista para o mar”, nosso pôr-do-sol (um bem precioso para seus empreendimentos).

Enfim, o pretensioso projeto turístico-recreativo-embromativo deles é um jeito tosco da arquitetura de nouveau riche deslumbrado – um xadrez “racional” de torres de vidro quadradonas agredindo o contexto paisagístico da área, destruindo nossos corredores culturais tradicionais, arrasando todo o caprichoso bordado do casario que dá a Itapagipe esta adorável atmosfera de “cidade do interior”. Como sentimos no beco das Calçolas, na Rua do Céu, no alegre Campo do Torebão, entre os libidinosos “jacarés” da Beira Mar, até…

Transformaram tudo numa paisagem de fachada, numa mascarada futurista “pra inglês ver”– inspirado em cidades estranhas (ou “genéricas”), numa coleção de clichês urbanísticos surrados.

Na verdade, este projeto de interesse particular do Secretário do Desenvolvimento Urbano, não passa de um arranjo cênico enganoso nos mais variados sentidos. Estética do “qualquer lugar” – empedrada nesta selva de torres-armengues cinzentas e imensas (mas o gabarito legal não era 3 andares nos primeiros quarteirões?).

Uma obra de técnicos canhestros, a serviço das manobras dos políticos espertalhões de sempre… Pois quanta ignorância rola neste vídeo no que se refere ao modo de vida e de habitação tradicional do orgulhoso cidadão itapagipano, quanto à organicidade, lentamente consolidada, da configuração urbana da península…

Enfim, nessa maquete virtual transparece o espírito de geometria sem finesse do grupo dos urbanistas, arquitetos e videomakers que costumam servir tão bem tantos graves senhores dinheirosos & poderosos. Como esses mais novos, que vem destruindo as partes mais preciosas desta cidade que levamos séculos para construir.

Mais um negociarrão que funcionaria à maneira daquelas “picaretas do progresso” que arrasaram a Sé no século passado. Melhoramentos para a elite (e pioramento para nós, arraia miúda). Renovação que não passa de um uma “destruição criativa” perversa – pura criação de benefícios para os empreendedores-predadores & para a elite neo-patrimonial de sempre – “novidadeiros” que exploram e controlam a Bahia desde Thomé de Souza.

Roberto Albergaria é professor de Antropologia da UFBA, doutor pela Universidade de Paris III e um potencial sem-teto da área desapropriada pela Prefeitura.

(Texto publicado originalmente na revista digital Terra Magazine)

set
10
Posted on 10-09-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 10-09-2009

Nothing Hill/ Um lugar
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Nothing Hill/ Um lugar
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Não faz muito tempo, em visita a Londres, fiquei hospedado em um hotelzinho aconchegante e bem transado de Nothing Hill. Ficava a poucos passos da maioria das lojinhas, brechós, restaurantes, bares e livrarias no cenário do filme que conta a bela história de amor entre Júlia Roberts e Hugh Grant no famoso bairro londrino.

E ainda dava para ir caminhando, sem muito esforço, até o mercado de Portobello Road, onde Gilberto Gil, no exílio, viu aquele seu camarada da canção “cair naquela fossa”, e onde encontrei o craque Rai caminhando contra o vento. Andando para a esquerda, também se chegava à pé, sem suar, ao fantástico Hyde Park, um dos orgulhos da capital britânica..

Ao ler o texto a seguir, da repórter da BBC Brasil, não resisti à emoção e à saudade. Decidi então compartilhar tudo com os leitores do Bahia em Pauta, incluindo a vontade de voltar por lá. Quem sabe algum leitor perdido está por aquelas bandas do mundo, ou algum leitor cidadão do planeta está arrumando as malas para ir a Londres e mata as saudades de Notinhg Hill por mim.

Enquanto isso, curtam texto delicioso de Maria Luisa Cavalcanti e, se de repente der vontade de pegar um avião não estranhe: você não está sozinho(a). Pode apostar!

(Vitor Hugo Soares, editor)

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Notting Hill, muito além do sábado

Maria Luisa Cavalcanti (BBC Brasil)

No último fim-de-semana, satisfiz uma das minhas maiores curiosidades desde que vim morar em Londres, há sete anos: conheci o jardim que serviu de cenário para o romance de Julia Roberts e Hugh Grant no filme Um Lugar Chamado Notting Hill.

Graças ao Open Garden Squares, uma iniciativa que uma vez por ano abre aos simples mortais vários desses jardins particulares e secretos de Londres, pude ver de verdade o portão que Anna Scott e William Thacker pulam em seu primeiro encontro, o cantinho em que se beijam, o banco em que namoram pacificamente à espera do primeiro bebê.

Procurei o local por anos e anos, e cheguei até a acreditar em um boato internético de que ele não exisitiria, e que cada cena teria sido feita em um jardim diferente da cidade. Mas uma representante do Open Garden me garantiu: foi tudo filmado no Lansdowne and Elgin Crescent Gardens.

Notting Hill, o filme, e Notting Hill, o bairro, têm o poder de me fazer sonhar com uma vida perfeita, onde minha casa seria enorme e linda, onde eu teria grana para frequentar sem culpa os restaurantezinhos, as livrarias e as lojas fofas da região, onde haveria flores e romance a cada esquina e onde Londres seria eternamente ensolarada.

Mas mesmo com os pés no chão e apenas alguns trocados na carteira, há muito o que se ver e curtir por ali.

O grande atrativo do bairro ainda é o mercado de Portobello Road, que acontece todos os sábados. Confesso que cansei um pouco deste programa, talvez pelo excesso de visitantes e também por ele parecer ter virado um grande “camelódromo”.

Mas Notting Hill vai muito além do sábado: a feira de produtos orgânicos às quintas, os agitos às sextas, as matinês no Electric Cinema aos domingos – o melhor dia também para quem quer explorar as lojas com calma e silêncio.

E se você não quer esperar até 12 e 13 de junho do ano que vem para o novo Open Garden, pode olhar os jardins do alto dos ônibus 7, 23 e 52.

Ou fazer como Anna e Will e entrar sem ser convidado. Às vezes algum morador acaba esquecendo o portão aberto – o que já aconteceu comigo, by the way.

set
06
Posted on 06-09-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 06-09-2009

Argentinos: perdidos em Rosário/ El Clarim
argentinos

OPINIÃO/ Maradona

Maradona sem rumo

Por Daniel Guiñazú

Diego Maradona pensou e executou a partida com o Brasil com transparente infantilidade. Supôs o técnico ( e ninguém o questionou) que mudar a sede para Rosário, com o espírito exaltado da torcida em um estádio menor e com a pressão que isso significaria para os brasileiros, seria suficiente para para inclinar a coisa a seu favor. Ficou claro ao final dos 90 minutos que não alcançou nada disso. Os brasileiros absorveram sem pestanejar o apoio do público. E ganharam caminhando. Com uma resolutividade, um domínio da situação, uma solidez coletiva e destaques individuais que se situaram muito acima da confusão celeste e branca.

O problema maior da Seleção é que nem sequer existe um Plano A. Há tempo que subsistem as dúvidas sobre o que pretende Maradona. Não basta . Não bastam invocações retóricas e o motivacional para armar um time competitivo. Também não é suficiente lançar em campo os melhores homens . Se não existe uma idéia clara de que é preciso jogar, tudo o demais passa a ser secundário, E esse é o grande esse é o grande que a derrota da noite de sábado recoloca sobre o tapete. Diego e Bilardo repetem que não há espaço para trabalhar. É um pretexto. Dunga recebe tanto ou mais jogadores do exterior que a Argentina. E ao mesmo tempo arma times compactos, que há tempo vêm demostrando a nossos selecionados uma superioridade que, atualmente, parece abissal.

(Texto opinativo publicado na edição deste domingo (6) pelo jornal argentino Página 12. Traduzido por Vitor Hugo Soares, editor de Bahia em Pauta)

ago
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Posted on 30-08-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais, Newsletter) by vitor on 30-08-2009

jornal
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O texto que Bahia em Pauta reproduz a seguir, assinado por Julio Daio Borges, foi publicado originalmente em 11/04/2008, no site Digestivo Cultural, quando a respeitada revista New Yorker proclamou que os jornais impressos estavam técnicamente mortos. Permanece com extraordinária atualidade neste domingo de fim de agosto que antecipa dias de profundas mudanças – não necessariamente para melhor – na imprensa escrita e no jornalismo profissional da Bahia.

Em tempo: qualquer semelhança pode não ser mera coincidência. Confira. (Vitor Hugo Soares)
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JULIO DAIO BORGES

“Primeiro, foi a melhor revista do mundo, The Economist, proclamando, em setembro de 2006, que os jornais estavam tecnicamente mortos. Agora, no último 31 de março, foi a vez da New Yorker, a “segunda” melhor revista do mundo, proclamar: os jornais estão morrendo. Segundo Eric Alterman, que assina o texto “Out of Print”: na era da internet, ninguém descobriu ainda como salvar o formato jornal — nos Estados Unidos e no resto do mundo.

De acordo com Alan Mutter, empreendedor do setor de mídia (entrevistado para a matéria), nos últimos três anos, os jornais norte-americanos, ou melhor, as empresas que os produzem, perderam 42% de seu valor de mercado na bolsa. The New York Times, por exemplo, viu suas ações caírem 54%, em Wall Street, desde 2004. E não é apenas especulação financeira: desde 1990, um quarto dos empregos em jornais norte-americanos foram simplesmente extinguidos.

Sem contar que apenas 19% dos americanos entre dezoito e 34 anos afirma “ter dado uma olhada” num jornal de papel no último mês (a idade média do leitor de jornal, nos Estados Unidos, está em 55 anos, e subindo). Não à toa, as famílias que foram, por décadas, proprietárias de marcas estabelecidas nos EUA, como The Wall Street Journal e Los Angeles Times, venderam a maior parte de sua participação.

A empresa que dirigia The Washington Post deixou de ser só de “mídia” para acrescentar um braço de “educação”. Mas analistas de mercado, como os do Deutsche Bank, aconselham seus clientes a se desfazerem logo das ações de jornais, mesmo que sejam do “melhor do mundo”, The New York Times. Um pouco atrasados, os jornais vêm migrando para a internet — contudo, como reforça a New Yorker, suas receitas on-line ainda não cobrem as perdas em anúncios e circulação.

Lembrando a previsão de Philip Meyer — de que os jornais vão desaparecer antes de 2050 —, a segunda melhor revista do mundo pede que se abra, logo, o Newsmuseum, o museu do jornal.

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Bahia em Pauta comenta: Depois não digam que ninguém avisou!

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