dez
02
Posted on 02-12-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais, Multimídia) by vitor on 02-12-2009

Ary: motivo da data
Ary

Deu no site Samba-Choro
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ARTIGO DO DIA/MÚSICA

2 de dezembro, o Dia Nacional do Samba

Paulo Eduardo Neves

Sabe por que o Dia Nacional do Samba cai em dois de dezembro? Não, não é a data de nascimento de Tia Ciata. Também não é quando gravaram “Pelo Telefone”. Muito menos quando Ismael Silva e os bambas do Estácio fundaram a Deixa Falar. O Dia Nacional do Samba surgiu por iniciativa de um vereador baiano, Luis Monteiro da Costa, para homenagear Ary Barroso. Ary já tinha composto seu sucesso “Na Baixa do Sapateiro”, mas nunca havia posto os pés na Bahia. Esta foi a data que ele visitou Salvador pela primeira vez. Engraçado, não? A festa foi se espalhando pelo Brasil e virou uma comemoração nacional.
Atualmente duas cidades costumam comemorar o Dia do Samba, Salvador e Rio de Janeiro. Sob a batuta do músico Edil Pacheco, Salvador sempre tem promovido grandes shows no Pelourinho com os ótimos e injustamente desconhecidos sambistas locais. Gente como Riachão, Ederaldo Gentil, Nelson Rufino, Roque Ferreira, Walter Queiroz, o próprio Edil, e o falecido Batatinha, recebendo convidados mais famosos, como Paulinho da Viola, Elza Soares, Beth Carvalho e Dona Ivone Lara.
No Rio a divertidíssima festa fica por conta do Pagode do Trem. A idéia do samba surgiu quando moradores de Oswaldo Cruz resolveram criar um movimento para revitalizar o bairro, era o “Acorda, Oswaldo Cruz”. No Dia do Samba o pessoal se reúne na Central do Brasil, lota um trem e vai tocando e cantando até Oswaldo Cruz, lá formam-se trocentas rodas de samba. Depois que começou, descobriu-se que já havia sido criado décadas antes por uma das mais importantes figuras do bairro, Paulo da Portela. Naquela época o samba era perseguido pela polícia. Os sambistas faziam suas reuniões e promoviam animadas rodas dentro dos vagões do trem. Hoje o Pagode do Trem faz parte do calendário oficial da cidade e tem estado cada ano mais cheio.
Este ano o samba cairá num sábado. O esquema é o seguinte, a partir das 18h começa a concentração — com muita cerveja, claro – na Central do Brasil. Já há um trem inteiro reservado para o samba. Ano passado foram oito vagões ultra lotados, este ano já reservaram 12. Cada vagão vai com um grupo que agita uma das rodas de samba do Rio, tem o vagão da Velha Guarda da Portela, do Bip-Bip, o da Teresa Cristina e grupo Semente, o da Tia Doca e Sonho Real, e por aí vai. O trem vai direto para Oswaldo Cruz, fazendo apenas uma parada na Mangueira para pegar a velha guarda verde e rosa. Chegando, você verá a maior concentração de rodas de samba já feita. Basta umas três pessoas se encontrarem para fazer uma. O clima é um barato.
Mas é bom se preparar. É uma verdadeira maratona. Começa às 18h e vai até o último sobrevivente. No trem, vai todo mundo em pé no vagão lotado. Se não ficar perto dos músicos é até difícil escutar algo. A festa é ótima e divertidíssima, mas não vá esperando grande coisa na parte musical. O melhor é mesmo a bagunça. A Beth Carvalho costuma aparecer para dar uma força e sempre canta algo.
Ano passado chegou a ter uma regulagem sobre quem poderia ficar no vagão com os músicos mais conhecidos. A sugestão é fugir dele, fica cheio de repórteres, câmeras, chatos, luzes e gente querendo aparecer. São os menos divertidos. Preocupante este ano é que estão promovendo o evento, que nunca teve muita mídia, na – argh! – FM O Dia. Espero que não estrague a linda festa.

Paulo Eduardo Neves
(Webmaster do site Samba-Choro)

Jorge Hage:  jogo aberto na CGU
Johage

Deu na Folha de S. Paulo

Em artigo publicado na edição desta segunda-feira no jornal Folha de S. Paulo, o ministro-chefe da Controladoria Geral da União, Jorge Hage, enfrenta críticas aos órgão de controle de gastos públicos e joga aberto em suas respostas, principalmente em relação às queixas feitas dentro do governo, “a partir de justas reclamações do presidente da República quanto a paralisação e ao atraso de obras no país”. Para Hage, há inegáveis entraves que devem ser removidos. “Mas muitas das queixas contra órgãos de controle não tem nenhum fundamento”, rebate o ministro-chefe da CGU no artigo publicado na Folha, que Bahia em Pauta reproduz a seguir.

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OPINIÃO/ PRETEXTOS

Um debate equivocado

JORGE HAGE

A PARTIR das justas reclamações do presidente da República quanto à paralisação e ao atraso de obras de que o país tanto precisa, deflagrou-se um debate público que, na forma em que está posto, não levará a nada de útil. Serve só para acirrar ânimos e, pior, como pretexto para justificar conhecidas espertezas e mascarar incompetências.

Se há inegáveis entraves que devem ser removidos, não é menos verdade que muitas das queixas veiculadas contra os órgãos de controle e apresentadas ao presidente por certos gestores quando cobrados por atrasos não têm nenhum fundamento.

Um exemplo: uma autoridade estadual alegou ao presidente que certa obra atrasara porque a CGU considerara exorbitante o preço de alguns disjuntores, um valor insignificante diante do custo da obra: R$ 10 ou R$ 15, em uma obra de R$ 50 ou R$ 60 milhões.

Verifiquei e nada encontrei sequer parecido com isso: nem fora a CGU que fizera a tal glosa nem o montante era de R$ 15. Alcançava vários milhões de reais. Como esse, há inúmeros exemplos. Importa é colocar o debate em termos mais objetivos. A tensão entre gestores e órgãos de controle sempre existirá. E se resolve aplicando o princípio da razoabilidade.

Ninguém há de discordar da necessidade de aprimoramento dos procedimentos de controle. É indiscutível também que a paralisação de uma obra ou de um programa social é ruim para o país e só deve ocorrer como último recurso. Do mesmo modo que se responsabilizarão os culpados pelas fraudes, há que fazê-lo também quanto às paralisações descabidas.

Mas a discussão, que já vinha malposta, distorceu-se ainda mais com a divulgação de um estudo de juristas de fora do governo, encomendado (há dois anos) pelo Ministério do Planejamento com vistas a um futuro projeto de lei orgânica da administração.

Não se trata, ainda, de um projeto do Executivo, pois sua discussão mal começou. A CGU, por exemplo, discorda de grande parte do que ali se propõe para a área do controle, pois há inúmeros equívocos, inclusive conceituais, além da ausência da visão concreta que só a vivência da prática oferece.

O controle só de resultados é um ideal que pressupõe aprimoramento ainda não alcançado por nossa administração. Não podemos negligenciar o controle da legalidade e de procedimentos porque não temos, ainda, uma burocracia profissionalizada na maioria dos órgãos.

No atual governo é que se começou a restaurar a burocracia estável, que em grande parte fora substituída por terceirizações (de todos os tipos) nas últimas décadas. Isso na esfera federal. Pior ainda nas demais.

Por isso mesmo, as licitações nem sempre são baseadas em bons projetos, pois não havia capacidade nos órgãos para elaborá-los. Os editais eram (ainda são, às vezes) influenciados pelas próprias empresas licitantes. Não temos bons referenciais de preços nem de especificações. E por aí vai.

Assim, não dá para “facilitar” no controle da conformidade. O que se há de fazer, e estamos fazendo, é racionalizar ao máximo esse controle e combiná-lo com o de resultados. Procurando orientar o gestor antes que os problemas se tornem irreversíveis (controle preventivo).

Várias obras deixaram de ser paralisadas porque recebemos, na CGU, gestores federais, governadores e prefeitos para discutir os apontamentos de auditoria e encontrar soluções, levando em conta a lei e os resultados.

Além disso, fazemos uso do que há de mais moderno na tecnologia da informação para prevenir situações de risco que se revelem frequentes, mapeando tipologias de fraudes (nosso Observatório da Despesa Pública já identificou mais de duas dezenas delas só na área de licitações).

Ademais, ampliamos a transparência dos gastos, para que os cidadãos participem, cada vez mais, da fiscalização, o que tem dado excelentes resultados (o Portal da Transparência, hoje referência global, vai agora abrir páginas sobre a Copa 2014 e as Olimpíadas 2016, divulgando desde os projetos até a execução). É por aí que deve evoluir o controle.

Não se trata de reduzi-lo nem de aumentá-lo, mas de racionalizá-lo, de forma a contribuir para a boa gestão, e não criar obstáculos a ela. Os obstáculos devem ser reservados para os que pretendam fraudar licitações, superfaturar obras, escamotear lucros no BDI. E, infelizmente, ainda encontramos muito disso em nosso dia a dia.

No Brasil, como no mundo, nessa área não há anjos. A corrupção, aliás, é hoje tópico de destaque da agenda mundial. Não dá para baixar a guarda.

JORGE HAGE, 71, mestre em direito público pela UnB (Universidade de Brasília) e em administração pública pela Universidade da Califórnia (EUA), é ministro-chefe da Controladoria Geral da União.

nov
04
Posted on 04-11-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 04-11-2009

Toffoli: festa de arromba
mintoffoli
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PALAVRA DO LEITOR:

BRUMADO ( BA) – A informação de que a Caixa Econômica Federal entrou com R$ 40 mil para pagar a festa realizada em homenagem à posse do ministro José Antônio Toffoli no Supremo Tribunal Federal é reveladora dos maus costumes que pautam as relações nos órgãos públicos. Não é razoável que um banco público patrocine convescote para 1,5 mil pessoas a pretexto de comemorar a posse de um ministro da Suprema Corte.

Toffoli diz que não organizou o jantar e não pediu ajuda. Achava que a festa estava sendo bancada pela Associação dos Juízes federais, com a contribuição dos seus associados. Não estava. A Ajufe pediu R$ 50 mil à Caixa. levou R$ 40 mil. O valor é insignificante, mas, assim como o pufe da governadora Yeda Crusius, torna-se símbolo de uma forma de ver a coisa pública.

O caso se torna ainda mais emblemático por se tratar de um pedido de patrocínio feito por juízes federais para saudar a chegada de um novo ministro ao STF. A justificativa da Caixa para o patrocínio é um primor: o dinheiro foi dado visando retorno mercadológico. Traduzindo, seria uma oportunidade de divulgar produtos e serviços em uma festa para “público de relacionamento institucional” do banco.

A doação da Caixa abre caminho para um bom debate sobre patrocínios de estatais e de empresas privadas a eventos organizados por magistrados. Como em algum momento os tribunais podem ser chamados a julgar causas que envolvem esses patrocinadores, sempre ficará a dúvida sobre a intenção de quem banca um congresso, uma viagem ou um jantar de confraternização.

A discussão sobre os limites do aceitável por juízes é antiga. Em 2005, por exemplo, virou polêmica nacional a viagem ao Chile de 12 ministros do STJ, acompanhados das mulheres, com despesas pagas pela Amil, um dos maiores planos de saúde do país.

( Geraldo Guedes, leitor do Bahia em Pauta, mora em Brumado, região da Chapada Diamantina)

nov
01

O editor de Bahia em Pauta recebeu inúmeras mensagens por e-mails, a propósito do Artigo da Semana, ”Na Bahia de olho no Uruguai”. O texto foi publicado na revista digital Terra Magazine (de Bob Fernandes), no Blog do Noblat e no site da Rádio Metrópole (Salvador) além, evidentemente, deste site-blog Bahia em Pauta.

A vontade , meio vaidosa confesso, era trazer todas essas mensagens para publicar no espaço principal deste Blog baiano, de coração latino-americano e sentimentos do mundo inteiro. Mas como isso é querer impossível, tecnicamente inviável, a saída é publicar a mensagem de um leitor que, para este editor, sintetiza as demais.

São palavras calorosas, informativas e bem escritas de um uruguaio que vive no Brasil e ensina há décadas em São Paulo: Dr. Fernando M. Araujo-Moreira, Professor Associado do
Departamento de Física e Engenharia Física – UFSCar (a conceituada Universidade de São Carlos)., onde ele coordena o Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia; a Rede Nacional de Nanobiotecnologia Aplicada a Medicina e a Defesa, e o Projeto UNIBRAL (Capes/DAAD)

Professor Fernando Araújo com a palavra:

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Encantos de Montevidéu
montevideu
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Caro Vitor,

Foi um prazer imenso, mais do que ler, “sentir” as suas palavras falando
da terra onde nasci, na sua matéria “Na Bahia de olho no Uruguai”.

Contrariamente ao que observo na maioria das reportagens sobre o Uruguai,o seu texto mostra claramente que “el paisito”, como carinhosamente nós o chamamos, entrou na sua alma e no seu coração. Acredito que são poucos os que, para mim, detém esse privilégio.

Há 26 anos, eu fiz o caminho inverso desses tantos nomes ilustres da
história recente que você menciona e adotei esta terra maravilhosa como a minha própria Pátria. Mas nunca deixei de ser uruguaio, nem de me emocionar até as lagrimas ouvindo o hino nacional do Uruguay, esse
pedacinho de terra tão sofrido mas também tão cheio de glórias.

O Brasil, de uma ou outra maneira, sempre tem estado ligado a todos nós … Crescí ouvindo a minha mãe comentar as obras de Jorge Amado, seu escritor predileto… Ou o meu pai ouvindo e se deleitando com as músicas do Villalobos. E, trazendo a tona uma das personagens que você menciona no seu texto.

O meu pai teve a honra de conhecer pessoalmente o presidente
João Goulart, vizinho da minha cidade natal, San Carlos, onde minha
família está desde a sua fundação em 1763! Na década de 60, quando o Jango ja estava no exilio, ele se dirigiu ao banco onde meu pai trabalhava (Banco Comercial, agencia Punta del ESte).

Lá, meu pai o reconheceu e, seguindo a típica educação “oriental” (como somos chamados os uruguaios) o chamou de “senhor Presidente”…. Até hoje meu pai conta a emoção que esse gesto causou no Jango, que não soltava a mão do meu pai num comprimento para lá de significativo.

Parabéns novamente pela sua matéria!

Um grande abraço,

Fernando
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E para fechar esta nota: Viva o Uruguai e sua gente especial! (Vitor Hugo Soares)

out
30
Posted on 30-10-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 30-10-2009

Em noite de insônia à véspera do feriadão brasileiro, como ele próprio assinala por e-mail ao editor, o jornalista Patrick Brock produziu o segundo e excelente artigo para o Bahia em Pauta. Desta vez mexe com economia, uma de suas especialidades no jornalismo, com texto de gente grande e refinado humor baiano misturado com sangue anglo-saxônico, ou vice-versa. Fala dos medos americanos pós-crise das moradias e diante de outra que parece próxima, às vésperas do Halloween, “festival de origem pagã em que os americanos tentam exorcizar seus temores”. Um primor, de texto e de análise. Confira(VHS)

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>maodollar.
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ARTIGO / AMERICANOS

O declínio do dólar e o sorriso de Mao

Patrick Brock, de Nova Iorque

Um dos filmes assistidos nos EUA ultimamente se chama “Atividade Paranormal”. Produzido em 2007, conta a história de um casal que se muda para uma casa nos subúrbios de San Diego, na Califórnia, um dos estados que mais simbolizaram o sonho americano de prosperidade material. A esposa se diz perseguida desde pequena por uma entidade e logo depois da mudança coisas estranham começam a acontecer. O marido faz pouco do terror dela, mas os dois acabam chamando um especialista em demônios para estudar a casa. Há um espírito maligno que se alimenta de energia negativa na casa, diz o homem. No estilo falso-documentário de “A Bruxa de Blair”, o filme custou apenas US$ 15.000 e já rendeu mais de US$ 60 milhões à Paramount, subsidiária do conglomerado americano Viacom, também dono da rede de televisão CBS.

Além da conveniente proximidade com o Halloween, festival de origem pagã em que os americanos tentam exorcizar seus inúmeros medos, o sucesso do filme parece ecoar também o trauma nacional da recente crise imobiliária. Estimulado por incentivos tributários para os interessados na compra da primeira casa própria, e também pela magnitude do declínio no próprio valor dos imóveis, o mercado imobiliário voltou a dar sinais de vida, com leve alta no valor médio das residências.

Em vez de enfrentarem o terror em suas próprias casas, os americanos podem se dar ao luxo de ver seus medos refletidos metaforicamente no casal cujo sonho de prosperidade é transformado em pesadelo. Enquanto isso, já se avizinha uma nova crise, desta vez com os imóveis comerciais, muitos deles vitimados pelas falências de empresas e surgimento de shoppings fantasmagoricamente vazios.

Desde a Grande Depressão, nos anos 30, os americanos viveram um grande período de expansão econômica irregular, mas impressionante. Mesmo com as esporádicas recessões, o padrão de vida da população continua refletindo sua renda per capita de US$ 40.000, a sexta maior do mundo. Homens como Warren Buffett, o presidente do conglomerado Berkshire Hathaway, fizeram fortunas durante esse período. Para o americano médio, essa pujança se traduziu em fácil acesso a credito, carros e casas espantosamente grandes e baixo desemprego.

Mas agora a situação mudou e o desemprego está perto de 10%. Se estudarem os efeitos negativos da globalização na economia americana, talvez os manifestantes que costumam inundar as ruas contra o imperialismo ianque aplaudissem seus efeitos niveladores sobre a economia mundial.

Cada vez menos industrializados, os EUA cedem à China o papel de fábrica do mundo e se transformam numa economia predominantemente de serviços; nesse meio tempo, os salários foram pressionados pela concorrência em nível mundial, tornando difícil sobreviver com os empregos que antes permitiam um padrão de vida confortável. Os pais estão assistindo ao mundo em que cresceram desmoronar com o desemprego dos filhos recém-formados nas faculdades, que cobram preços exorbitantes mas não servem mais para garantir o emprego. Antes forte, a moeda nacional é corroída cada vez mais pela inflação.

Sessenta e quatro anos atrás, os EUA emergiram vitoriosos do maior conflito militar da humanidade. Na cidadezinha de Bretton Woods, no Estado de New Hampshire, ditaram o modelo econômico do pós-guerra. Desde então, o combalido dólar ainda reina absoluto. É a moeda número um dos mercados de câmbio de Mogadisu a Londres. O governo americano sabe disso e tem aproveitado o peso das verdinhas para operar em US$ 1,3 trilhão no vermelho e sem qualquer lastro físico desde os anos 70, quando Richard Nixon acabou com o padrão ouro. Diferentemente do império britânico, a “paz americana” usou o poder do capital, das ideias, das armas e principalmente da moeda para se manter por cima da carne seca.

No fim do século 19, se popularizavam no Reino Unido os romances de invasão, como Drácula (1897), do irlandês Bram Stoker, em que uma estrangeiro sinistro se dirige a Londres para sugar na fonte o sangue da civilização mais próspera de então. Esse e outros livros refletiam o temor dos britânicos de que se avizinhava a decadência de sua dominância. Cinquenta anos depois, com o império dissolvido e o país devastado pela Segunda Guerra, o Reino Unido teve que pedir um empréstimo camarada de US$ 45 bilhões da ex-colônia para se reconstruir. Só terminou de pagá-lo em 2006. Hoje em dia a China é que assumiu o papel dos EUA nessa equação – segundo o Departamento do Tesouro dos EUA, a República Popular da China é maior detentora de títulos do Tesouro, com US$ 800 bilhões em agosto. Até o Brasil está nessa brincadeira: é o sexto maior detentor de Treasuries no mundo, com US$ 137 bilhões.

Continuam as reuniões, mas diferentemente de Bretton Woods, não surgem soluções; no máximo algum líder mundial pede a fundação de uma nova ordem. Mas essa ordem ainda não apareceu em definitivo; o sistema de bancos centrais iniciado após a Grande Depressão parece ter freado o ímpeto devastador da crise. Talvez a solução surja de um camponês da China que abandona a fome do povoado e, tal qual retirante, vai buscar um emprego nas fábricas do litoral. Ou talvez de uma vila africana, como Wangari Maathai, queniana ganhadora do Nobel da Paz de 2004 que inspirou um movimento responsável por plantar mais de 20 milhões de árvores.

O total de reservas chinesas em Treasuries aumentou quase US$ 230 bilhões desde agosto do ano passado. Até agora no ano, a China já cresceu 7,7%. Na nota de 100 iuanes, Mao até parece sorrir.
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Links:

Reino Unido quita dívida da Segunda Guerra com os EUA:
http://www.independent.co.uk/news/business/news/britain-pays-off-final-instalment-of-us-loan–after-61-years-430118.html

Maiores detentores de títulos do Tesouro, segundo dados do governo americano:
http://www.treas.gov/tic/mfh.txt

China ultrapassa o Japão em investimento nos Treasuries:
http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2008/11/18/AR2008111803558.html

Biografia de Wangari Maathai, no site do Prêmio Nobel:

http://nobelprize.org/nobel_prizes/peace/laureates/2004/maathai-bio.html

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Patrick Brock é jornalista, tradutor e faz mestrado na universidade de Nova York

out
25

Michelini: Argentina condena seu algoz
Michelini
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OPINIÃO / DIREITOS HUMANOS

O advogado Inácio Gomes, referência na defesa democrática e dos direitos humanos na Bahia, enviou e-mail para o editor do Bahia em Pauta. Pela atualidade da informação e pela qualidade do conteúdo da análise, este site-blog reproduz na íntegra o texto de Inácio.
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INÁCIO GOMES

“Hoje, dia 25/10, a Tarde em sua pagina B8, publica noticia que entendo merece sua atenção. Resumindo:
Foi julgado pela justiça militar o general reformado Jorge Oliveira Róvera acusado do assassinato do ex-senador Zelmar Michelini, um dos fundadores da coalizão de esquerda Frente Ampla que hoje governa o Uruguai.

O general, 82 anos, era acusado de quatrio homicidios e 107 sequestros e desaparecimentos, entre eles, o do escritor rgentino Harldo Conti e dos cidadãos uruguaios Rosario Barreto e William Whiteaw. Ao final do julgamento foi condenado á prisão perpetua.

Enquanto isto, no Brasil, torturador é anistiado; eleito senador; deputado federal e ocupam importantes cargos na administração publica. Em futebol podemos ser melhores do que a Argentina. Na defesa dos direitos humanos e condenação dos que os desrespeitaram Maradona comanda um que , á todo instante, nos derrota por 10 a 0.

out
22
Posted on 22-10-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 22-10-2009

Leon: Senhor Revivendo / TM
leonrevivendo

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Em qualquer lugar onde esteja instalado com o seu laboratório de alta precisão -em sua janéla de Salvador que dá para a Baia de Todos os Santos ou no meio do maior tumulto da pauliceia desvairada e adjacências, como agora – o músico e produtor Paquito tem sempre um telescópio especial para enxergar o que passa despercebido para muita gente, mesmo no meio jornalístico que não é exatamente a sua praia, mas onde ele sabe nadar como poucos.

É o que fica evidente, por exemplo, desde o primeiro parágrafo do artigo que ele assina nesta quinta-feira, 22, na revista virtual Terra Magazine ( http:/terramagazine.terra.com.br ) , para falar sobre a morte de Leon Barg, o cabeça da gravadora Reviverndo, que partiu domingo passado. Barg foi também o criador de um selo de disco que “pôs à disposição do público em geral – não só os especialistas -gravações em CD raras e antigas da canção popular”, registra Paquito.

Quem, no país inteiro, sendo amante da música, não guarda pelo menos um disco da Reviverndo em sua discoteca?, pergunta Bahia em Pauta, que reproduz a seguir a íntegra do artigo de Paquito publicado na TM. Bravo!
(Vitor Hugo Soares)
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CRÔNICA OPINATIVA / MÚSICA

LEON

Paquito
De São Paulo (SP)

Leon Barg, da Revivendo, morreu domingo retrasado. A notícia, nesses termos, parece contraditória, e me chegou, num susto, através de Robinson Roberto, que nos apresentou. A Revivendo, criada por ele, é um selo de discos que pôs à disposição do público em geral – não só os especialistas – gravações em Cd raras e antigas da canção popular.

Com sua coleção de discos de 78 rotações, que corresponde a, aproximadamente, dois terços do que foi lançado no Brasil desde o início do século XX, Leon lançou Cds, com encartes detalhados, de Carmem Miranda, Noel Rosa, Francisco Alves – seu ídolo maior – Mário Reis, Lamartine Babo, Anjos do Inferno, Quatro Ases e Um Coringa, Geraldo Pereira, Lupicínio Rodrigues, Braguinha, Almirante, etc, só pra falar dos anos 30 e 40, a chamada fase de ouro da nossa música.

Dos anos 50, ele disponibilizou a obra de Luis Gonzaga em uma série de cerca de 15 Cds – assunto que já tratei nesta coluna – coisas que a RCA, gravadora do Rei do Baião nunca havia relançado, como a primeira gravação do clássico Asa branca. Gregório Barrios, Libertad Lamarque e Carlos Gardel, da América Latina, são outros nomes que me vêm à mente, e que tiveram títulos lançados por Leon, pois, a despeito de ter uma equipe, que incluía seus filhos, a Revivendo era ele.

Mais do que arqueologia ou nostalgia, os lançamentos da Revivendo mostravam que muitas das gravações que foram revividas, ainda em Lp, nos primórdios do selo, e em Cd, são encantadoras. Não se tinha ainda uma tecnologia como a de hoje, mas o charme sobra. Como em todas as épocas, há coisas boas e ruins, mas, sem dúvida, o século XX foi o século da canção. E, no Brasil dos anos 30, 40, e 50 é criatividade por todos os lados, que foi desembocar na música moderna brasileira, de bossa-novistas a pós-tropicalistas. E, artisticamente, Carmem Miranda e Noel Rosa não ficam nada a dever a Chico Buarque ou Gal Gosta. São equânimes.

Leon era pessoalmente encantador, um judeu baixinho do Recife, de olhos pequenos muito vivos – cujos ancestrais vieram da antiga Bessarábia – a procurar sempre por discos antigos pra sua coleção. Na defesa das idéias, era firme e exaltado, o que lhe dava força pra manter a Revivendo sem nenhum tipo de apoio, oficial, ou não.

Aos amigos que fazia pelo Brasil, entre os quais eu me incluía, ele presenteava com discos em suas viagens periódicas para o Recife, Salvador, Rio, etc. Reunia sempre uma turma grande pra almoçar e não nos deixava pagar a conta. Mas sempre nos dizia que a Revivendo andava com dificuldades, pois, apesar de ter uma coleção invejável, com fonogramas que as gravadoras nem possuíam mais, os direitos sobre as gravações ainda eram das multinacionais do disco, a quem ele tinha de pagar pelo que lançava. Com a crise na indústria do disco, a situação se complicou. E ele mantinha uma relação ótima com todas as gravadoras. Quando a EMI, por exemplo, preparou a caixa com todo material de Carmem Miranda na gravadora, levou Leon com a esposa pra Londres, para acompanhar a remasterização na Abbey Road. Claro, os discos usados como matriz eram de Leon.

O período em que o selo esteve bem coincidiu com a ascensão comercial do compact-disc. Com Leon, morre aos poucos um jeito de pensar a música comercialmente. Agora, as pessoas simplesmente baixam no computador as gravações. No entanto, com respeito aos fonogramas antigos, pouca coisa foi digitalizada. Ficamos, portanto, a ver navios. Há menos de um mês, ele esteve na Bahia e Robinson me procurou para que nos encontrássemos. Como eu não estava bem de saúde – uma gastrite – não pude ir ao almoço entre amigos. Leon, no entanto, disse a Robinson: “quero ver o Paquito!”

Eles chegaram lá em casa perto da hora do almoço e saímos a procurar um restaurante que atendesse a nossas idiossincrasias alimentares: eu não podia comer nada pesado, Robinson não comia carne, e Leon não gostava de restaurantes naturais, mas nunca ingeria nada que tivesse alho, que ele detestava. Ficamos rodando meio tontos sem objetividade, até encontrar um lugar. Assim que nos sentimos mais confortáveis e saciados, fiquei descobrindo coisas que não sabia como, por exemplo: a música Vou me casar no Uruguai, de Gadé, do repertório de Moreira da Silva, foi gravada originalmente por Almirante. Leon ainda me disse que ia lançar um disco com a faixa, e me enviaria pelo correio.

Esses e outros discos não mais virão, independente do que for acontecer à Revivendo. Não receberemos mais suas ligações nem teremos o prazer da sua companhia. E, a despeito do lugar-comum da frase, Leon Barg era uma pessoa cheia de vida, não combinava com a morte. Vai fazer falta. Ficarão, no entanto, as revivências.

out
21
Posted on 21-10-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 21-10-2009

Idosos: a questão inevitável
idosos
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OPINIÃO / IDOSOS

QUEM VAI CUIDAR DE NÓS?

Milton Dallari

Às 17h da segunda-feira, 19 de outubro, o Estado de São Paulo tinha exatamente 41.783.677 habitantes. A contagem, atualizada minuto a minuto, é da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados. Desse total, cerca de 4,5 milhões são pessoas com mais de 60 anos. O Seade estima que, até 2020, o Estado terá 7,1 milhões idosos. Em todo o Brasil, atualmente, eles somam 21 milhões de brasileiros, de acordo com o IBGE. Os índices de natalidade caem em ritmo impressionante e o crescimento já é negativo em algumas regiões, ou seja, em torno de 1,6 filho por casal. Quem quiser acompanhar os números da Seade, basta acessar o site http://www.seade.gov.br/produtos/projpop/index.php.

A pergunta é inevitável: quem vai cuidar de nós (desculpem os leitores que tiverem menos de 60 anos)? Com menos nascimentos, menos crianças, menos jovens, menos casamentos estáveis, o cenário é preocupante. Poucas serão as famílias que terão estrutura para cuidar de seus “velhinhos”. E será muito difícil que em lares de apenas um filho, ou mesmo dois, haja condições de um deles estar ao lado do pai ou mãe o tempo todo. Justamente na hora de receber um “obrigado” e uma boa dose de “carinho” por tudo o que fizeram ao longo da vida, pais e mães correm o risco de ficar sem o mínimo de assistência ou então de serem enviados a um asilo (nos casos em que as condições econômicas permitirem).

O conselho para os que hoje ainda estão trabalhando é óbvio: façam uma poupança especial para garantir o próprio sustento e bem-estar na velhice, em condições de pagar um bom plano de saúde, um bom asilo ou de contratar acompanhantes e enfermeiras no caso de permanência na própria casa. Fica cada vez mais difícil deixar essa tarefa para os filhos (ou filho único), às voltas com seus próprios compromissos de trabalho e familiares.

Para esticar a própria independência, é fundamental cuidar da saúde desde a juventude. Felizes os casais que podem desfrutar de um período de 10, 15 ou 20 anos de sobrevida após a aposentadoria, sem depender de assistência direta e médica em tempo integral. E o cuidado com a saúde depende mais de boa vontade, de esforço próprio, do que de condições econômicas. Não é preciso ter dinheiro para deixar de beber, de fumar e para praticar exercícios físicos, incluindo as caminhadas matinais e do final da tarde.

O bem-estar na velhice é um desafio constante, que se constrói ao longo da vida profissional, muito antes da aposentadoria. E não adianta ficar à espera de benesses do governo, como assistência médica de qualidade e uma aposentadoria digna (privilégios de uma parcela ínfima de nossos idosos).

As autoridades públicas, nas três esferas de governo, pouco estão fazendo para construir uma infraestrutura capaz de absorver essa população acima de 60 anos. Aqui e ali pipocam algumas iniciativas, como o Futuridade, programa paulista que inclui campanhas educativas sobre envelhecimento, ampliação de ações e serviços e formação de profissionais para lidar com os idosos. A capital, pelo menos, conta com dois centros de Referência do Idoso, onde são feitos 12 mil atendimentos por mês. Outras iniciativas pipocam em igrejas e entidades assistenciais, em especial com a organização de grupos de voluntários para fazer visitas e companhia a idosos doentes e solitários.

No Congresso, tramitam projetos que visam a aumentar o valor das aposentadorias, seja para quem vai se aposentar como para quem luta para manter o poder de compra de seus benefícios. Aí se encaixam os projetos sobre o fim do malfadado “fator previdenciário” (mecanismo que achata mais a aposentadoria na medida em que aumenta a expectativa de vida) e sobre a obrigatoriedade de reajuste do salário de aposentados e pensionistas pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor, mais o percentual de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).

Para os que não pensaram em fazer seu “pé de meia” ou não tiveram condições para isso, a aposentadoria é a única fonte de renda. Que ela seja cada vez mais “justa” e capaz de proporcionar uma vida digna à terceira idade.

Milton Dallari é conselheiro da Associação dos Aposentados da Fundação Cesp e diretor administrativo e financeiro do Sebrae-SP.

out
10
Posted on 10-10-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 10-10-2009

Patrick Brock: no Haiti
Patrick
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Bahia em Pauta estende neste sábado, 10, reluzente tapete vermelho para receber direto de Nova Iorque o jornalista Patrick Brock como seu mais novo colaborador.Ex-intergrante da editoria Internacional, do jornal A TARDE, Partrick sempre se destacou como um dos mais brilhantes repórteres de sua geração na Bahia, além de contista de texto criativo, fora do trivial e sempre intrigante.

Inquieto, olhar atento e cabeça antenada, Patrick detesta acomodamento e gosta do risco no trabalho jornalístico, como o que o levou um dia a se ver metido nas ruas e favelas do Haiti em conflito. Há mais de três anos mora em Nova Iorque, onde começou trabalhando no Wall Street Journal, biblia da economia americana. Agora é copidesque e tradutor e faz mestrado na CUNY. Em seu primeiro texto para BP ele encara um tema candente, polêmico e atual: O Nobel de Obama e a o dilema americano no Afeganistão.

Uma honra tê-lo agora neste site-blog baiano de sonhos cosmopolitas.

Chega mais Patrick!

(Vitor Hugo Soares )

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Afeganistão: tragédia se alastra
Afegão

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OPINIÃO / MUNDO

A hora de Obama

Patrick Brock

A batalha no Campo Keating começou na sexta-feira, uma semana antes de o presidente americano Barack Obama ser agraciado com o Prêmio Nobel da Paz. Até 350 rebeldes atacaram a pequena base, que fica aos pés de duas montanhas na Província do Nuristão, na fronteira com o Paquistão. Os rebeldes usaram as montanhas para atacá-la com lança-foguetes e artilharia, provocando um incêndio. Encurraladas, as tropas tiveram de pedir reforço aéreo. Chad Bardwell, natural de Liman, no Estado de Wyoming, pilotou um dos helicópteros Apache envolvidos na batalha e disse a uma repórter da rede ABC News que ficou chocado quando chegou ao local e viu a maior parte da base em chamas, com insurgentes ultrapassando o perímetro de proteção. Os americanos finalmente abandonaram a base no domingo passado, após contabilizar 8 mortos e 24 feridos. Entre os insurgentes, de 100 a 150 mortos, disse um porta-voz do Exército americano. Siga este link
(http://abcnews.go.com/video/playerIndex?id=8758970) para ver imagens da batalha feitas pela ABC News.

Não foi divulgado o número exato de soldados americanos em Keating, mas já estava acertado que a base seria abandonada, de acordo com a estratégia do general Stanley A. McChrystal, escolhido por Obama para comandar a guerra no Afeganistão. Diante da escalada de ataques rebeldes e a instabilidade nas cidades, McChrystal optou por abandonar as áreas mais remotas do país e se concentrar em garantir a segurança das cidades. Difícil de ignorar o paralelo com a guerra do Vietnã nos anos 70. O relatório confidencial de McChrystal para o presidente sobre a guerra no Afeganistão vazou no “New York Times”, no melhor estilo “Pentagon Papers”, e não é nada animador. O general disse que a coalizão pode perder o controle do país se não enviar pelo menos mais 40.000 soldados.

Enquanto isso, no Reino Unido, na Itália e nos EUA, continuam a chegar os caixões embalados em bandeiras. O presidente americano tentou mostrar humildade ao aceitar o prêmio, mas a situação da guerra no Afeganistão pode forçá-lo a sacrificar mais vidas no conflito. Diante do número crescente de mortos e a perda de territórios para os guerreiros do Talibã, e do fracasso das eleições, claramente fraudadas pelo governo do atual presidente, Hamid Karzai, ultimamente o único sucesso americano em sua incursão militar na região tem sido os ataques com aviões teleguiados contra líderes rebeldes.

Obama foi indicado para o Nobel 12 dias depois de eleito. O arcebispo da África do Sul, Desmond Tutu, ele próprio agraciado com o prêmio em 1984, disse que a decisão do comitê em Oslo mostra que se espera grandes feitos de Obama, e reconhece seus esforços de tentar dialogar com o mundo árabe depois de anos de hostilidade durante o governo de George W. Bush. Já o líder sindical e ex-presidente da Polônia Lech Walesa disse que foi cedo demais. “Ele não fez nenhuma contribuição até agora. Só agora começou a agir”. Walesa ganhou o prêmio em 1983. Talvez o comentário mais significativo do dilema enfrentado por Obama, que chegou ao poder com uma mensagem restauradora de esperança e diálogo, seja o comentário do porta-voz do Talibã, Qari Yousef Ahmadi: “Obama só fez aumentar a guerra. Suas mãos estão sujas com o sangue do povo afegão”. Chegou a hora de Obama mostrar que não é só carisma e fazer merecer a honra de ser escolhido como um símbolo da paz, encontrando a solução para acabar com mais essa herança sangrenta da era Bush.

Patrick Brock
, 30 anos, trabalha há três anos como copidesque e tradutor em Nova York e faz mestrado em Literatura Inglesa na CUNY.

out
06
Posted on 06-10-2009
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 06-10-2009

Deu em Terra Magazine

A revista digital Terra Magazine publicou sábado passado, 3, artigo do jornalista Francisco Viana, sobre os 40 anos anos do surgimento do jornal Tribuna da Bahia, evento marcante que se celebra neste mês de Outubro, e o impacto da forma e conteúdo do jornal pensado e conduzido em seus primeiros anos por Quintino de Carvalho.

Bahia em Pauta reproduz a seguir o texto de Viana, que fala também do jornalismo que então se praticava na Bahia .Confira. (Vitor Hugo Soares)

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Chico Viana: atento às mudanças/img. TM
chico
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OPINIÃO/ JORNAIS

UMA ÉPOCA DE OURO

Francisco Viana (De São Paulo)

Hoje, vou dedicar a coluna à Tribuna da Bahia que está fazendo 40 anos. Faço-o porque seminal para toda uma geração de jornalistas, uma época fundadora. Quando a Tribuna da Bahia começou a circular – as imagens daquele tempo desfilam na memória como um filão encantado – eu trabalhava em A TARDE. Foi uma revolução. Na redação, não se falava de outra coisa que não fosse o novo concorrente. O que fazer?

A Tribuna era aguerrida. Sua redação criativa e muito jovem. Cultivava a magia da palavra, o veneno da palavra, a força do fato, explorava as contradições do fato. A TARDE era o contrário: uma redação de profissionais da antiga que começava, timidamente, a se oxigenar com a chegada dos alguns poucos repórteres recém-formados. Vivia de fama, da reputação modelada nos tempos do Dr. Simões Filho, o liberal conservador que fundou o jornal. Seus olhos, nada ingênuos, fixavam-se em duas instituições basilares: a Igreja e as Forças Armadas. Mas equilibrava-se ao centro e seus movimentos gravitavam no rumo do liberalismo clássico. Seu redator-chefe, o venerando Jorge Calmon era um esteio contra o obscurantismo do regime. Anticomunista, orgulhava-se de proteger os jornalistas de esquerda ou contrários ao regime. Enfim, um jornalista honrado que acreditava genuinamente no modelo liberal de fazer jornal.

A TARDE estava acomodada no tempo-espaço da história passada. Sua diagramação lembrava os jornais dos anos 30: pesada, sem vida, produto de uma cultura burocrática, onde a rotina era encher as páginas, não a arte de torná-las atraente para o leitor. Enquanto a primeira página da Tribuna tratava as noticias como um filme de arte, A TARDE lembrava um filme do cinema mudo, com imagens que nada falavam e textos eternamente privados de voz. Mas A TARDE reagiu. E reagiu com vigor. Passou a buscar criatividade, trabalhar melhor os fatos, pensar mais a cidade, dar mais atenção às reportagens. Onde foi encontrar tanta energia? Na sua história, na sua fundação, nas campanhas em defesa da Bahia e dos baianos que tanto se orgulhava. Corria a lenda que o baiano preferia deixar de comer o pão a deixar de comprar A TARDE. Foi esse mito de fundação, digamos assim, que nutriu o jornal de entusiasmo, de uma apaixonante vontade de fazer.

Entre os que comandaram a ofensiva, três nomes se destacaram, à época – José Curvello, Fernando Rocha e Brito Cunha. Revezavam-se na chefia de reportagem. Experientes, tiveram inestimável valor educativo. Lideravam. E havia também alguns jovens vindos da Faculdade de Jornalismo da UFBA, entre eles Vitor Hugo Soares (colunista de Terra Magazine), Agostinho Muniz e Suzana Serravalle, esta uma das raras mulheres repórteres, inspirava a redação com uma glamorosa combinação de beleza, elegância e inteligência.

A turma da faculdade sabia escrever. Tinha visão quanto ao jornalismo moderno que começava a ser entronizado no dia a dia da cidade. Levou para a redação uma maior profundidade na compreensão da realidade, sobretudo a realidade política. Na “guerra” com a Tribuna – sim, era uma autêntica guerra – A TARDE tinha um trunfo e soube aproveitá-lo. Era matutino. Fechava às 10 da manhã. Como a Tribuna era vespertina, muitas vezes tirava partido do tempo para dar furos. Lembro de um acidente de avião em que morreram vários oficiais da casa militar do Governo. Os corpos chegaram a Salvador depois da meia noite. A Tribuna mobilizou seus melhores repórteres, entre eles Sérgio Mattos, mas A TARDE saiu na frente.

Era assim. Uma vitalidade prática. Uma mistura de criatividade e ação. A concorrência era pedagógica. Aprendi muito na redação de A TARDE – a velha e a nova guarda. Era uma redação unida, solidária. Aprendi principalmente com Vitor Hugo, de gestos calmos, mas de inabalável firmeza de atitudes. Creio, foi graças a ele que comecei a ler e estudar Marx e, também, a pensar o Brasil pela ótica do antigo ceticismo grego, sempre determinado a demolir verdades e buscar a compreensão da totalidade e das contradições dos fatos. Mais tarde, já em O Globo, no Rio de Janeiro fui compreender que o jornalismo é mais ou menos como a dialética marxiana: uma aproximação dos fatos por ondas sucessivas, mas sempre atenta aos dados da realidade. É o que se chama da análise concreta da realidade concreta. Marx desenvolveu seu método a partir de Hegel, mas foi o jornalismo que o ensinou a valorizar os fatos. E o que fez dele um grande jornalista. Quem lê o 18 Brumário de Napoleão Bonaparte se surpreende com o absoluto rigor na tratamento dos fatos. Ou seja, a análise da realidade histórica é feita a partir do real.

Voltando à redação de A TARDE. Eu estava com 18 anos. Ainda não tinha cursado a Faculdade. Ficava encantado com o modo da Tribuna escrever, com a edição do jornal, com a vitalidade da reportagem. E vivia na redação. Chegava as 7 da manhã, saia às vezes às 10 da noite. A redação ficava na Praça Castro Alves. Ainda ouço a algaravia das cansadas máquinas de escrever, ainda vejo a luz fosforescente a iluminar as arcaicas mesas de madeira um tanto carcomida e posso ouvir os gritos de Curvello pedindo pressa porque o jornal precisava adiantar o fechamento para a manhã seguinte. É uma paisagem não fugitiva, a despeito da passagem do tempo.

Participei ativamente da virada de A TARDE. Suava a camisa. Havia duas publicações me fascinavam, à época. A Tribuna e a revista Realidade. Sabia o nome dos repórteres de memória e, também, das reportagens. Lia também o L’Express e o Le Monde Diplomatique, mas com dificuldade pois ainda dava os primeiros passos no aprendizado do francês. Era uma espécie de coringa. Podia estar fazendo uma reportagem sobre a seca em Irecê ou juazeiro, como um desastre de avião ou um buraco de rua.

Foram anos preciosos. Visto à distância, foi uma época singular. Havia uma ditadura no país, mas a Bahia era uma espécie de éden. Servia de abrigo para os militantes sitiados no Rio de Janeiro e São Paulo. O emprego era fácil, a sociedade acolhedora e, na verdade, tornou-se uma espécie de divã de psicanálise nacional. E havia um dado que não pode ser esquecido: a industrialização, que se afirmava lentamente, gerava riqueza e dava base ao ciclo de renovação que faria da Tribuna um ícone e uma metáfora. Ícone, porque se tornou referência de jornalismo dinâmico e moderno. Metáfora porque simbolizava uma época de ouro que, infelizmente, se exauriu.

A palavra síntese daqueles tempos era concorrência. Saudável e ativa. Não a concorrência pela concorrência, mas a concorrência para fazer o melhor, servir ao leitor. Denunciar o regime nas entrelinhas. Um dado que me marcou até hoje foi o vigor ético da nova geração. Falava-se muito desse tema. Não de uma ética utilitária, mas de uma ética ditada pelo caráter das ações. Os recém-chegados da faculdade viam o jornalismo como uma profissão. Não um passaporte para conseguir empregos públicos. Navegavam no sonho de salários dignos e navegava-se no sonho da independência de opinião.

Os repórteres de A TARDE e da Tribuna, como também o Diário de Noticias e do Jornal da Bahia disputavam palmo a palmo o furo, a reportagem bem escrita, as manchetes. O JB mais à esquerda, mais cioso da sua intelectualidade, mais agressivo. O Diário de Noticias mais para o centro, mais governista, mais suave. Mas com uma redação competente. Fazia-se jornalismo. O bom texto, o bom repórter tinha valor. Respirava-se vontade de ir além das expectativas. Havia uma visão crítica da sociedade. Dava prazer trabalhar. A lógica dominante era da paixão pelo fazer acontecer. Se destacar. Visitar a estação do tempo de 40 anos atrás não é saudosismo, mas, sim, um tributo à memória. Como ensina Hannah Arendt é a memória que garante a eternidade da ação fugaz dos homens. Fico por aqui. Dedico este artigo a todos os companheiros daqueles tempos de guerra (contra a ditadura) e utopia (como vontade transformadora). Foi um privilégio ter participado daqueles dias e noites de recriação do jornalismo.

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Francisco Viana é jornalista, consultor de empresas e autor do livro Hermes, a divina arte da comunicação. É diretor da Consultoria Hermes Comunicação estratégica e colunista de Terra Magazine (e-mail: viana@hermescomunicacao.com.br )
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