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Artigo/ Um lugar

A ENIGMÁTICA MONGÓLIA

JC Teixeira Gomes

Continuarei com meus leitores a viajar pelo Expresso Transiberiano, partindo da imponente Pequim até chegar à cidade de Er Lian, última etapa chinesa antes da Mongólia.
Poucas regiões do mundo serão tão ignoradas pelo Ocidente. Dela, a única coisa que sabemos é que foi a pátria de Gengis Khan, para os mongóis o herói nacional que nenhuma nação iguala.
Escondida no segredo das estepes, pelo menos desde o séc. XIX se abriu ao mundo, com o incremento da construção da ferrovia transiberiana. Mas permanece enigmática e tida como terra de extravagâncias, entre as quais a de servir escorpião grelhado (“grilled scorpion”) entre as iguarias da sua cozinha. Garanto que não comi.
A ignorância ocidental sobre a Mongólia é engordada pelo desrespeito, pois foi através das pesquisas do médico inglês John Down, no século XIX, que se criou a palavra “mongolóide” para designar os portadores da Síndrome de Down, presente até hoje nos dicionários. No entanto, é uma designação pejorativa e indigna, nascida dos preconceitos do homem branco europeu contra os asiáticos no século XIX, época de esplendor do colonialismo. Formulando uma antropologia racista, a visão eurocêntrica da Ásia ajudava o Ocidente a subjugar os asiáticos pela humilhação, para facilitar a dominação política e econômica.
Em Er Lian, fundada em l953, nosso trem foi substituído pelo russo, pela diferença da bitola dos trilhos até Moscou. Situando-se numa área que envolve um trecho do deserto de Gobi, Er Lian é um sítio palenteológico, como, aliás, toda a Ásia. Por isso, os chineses lá construíram um gigantesco Parque de Dinossauros, representados em metal, nas dimensões exatas dos seus ancestrais naturais, um assombro. O espectador fica imediatamente paralisado pelo realismo das peças expostas. Todas as espécies estão ali reunidas, dando a impressão de que são animais reais, não esculturas. Com alguma imaginação (e temor), o visitante, tomado de surpresa, pode vê-los andando, rugindo, atacando.
Os imensos animais, noventa e nove ao todo, em posições diferentes, distantes uns dos outros, foram moldados segundo os detalhes e características das descrições científicas ou das melhores representações no cinema. Mas não é Hollywood ou a Disneylândia, brincadeiras americanas. O grande parque é uma área de respeito e seriedade. É o trabalho de cientistas chineses, expondo o resultado das suas pesquisas. Custa a crer que a poderosa China não tenha ainda divulgado para o mundo o fascinante viveiro metálico dos seus dinos.
Er Lian, cidade que detém essa preciosidade, possui cerca de 120 mil habitantes, caracterizando-se por longas avenidas, além de sólidos edifícios. Sente-se que está em plena expansão. De lá, rumamos para Ulan Bator, a capital da Mongólia, país de nômades montadores de cavalos, habitantes de tendas, amantes dos grandes espaços naturais e avessos à prisão das cidades. Ainda assim, a capital, fundada em 1639, expandiu-se, e possui hoje cerca de 1 milhão e trezentos mil habitantes. Contemplada do alto de um mirante, dinâmica e irregular, não quer parar de crescer. Seu tráfego é intenso e caótico, seu comércio muito rico, destacando-se um shopping de cinco andares, com belas e elegantes mulheres desfilando sem cessar, mais alvas que as chinesas.
Se o mundo nivelou-se pela comunicação, a diferença se faz por meio da cultura. E foi nessa área que a visita mais se enriqueceu, diante da exibição do balé da Mongólia e da sua Orquestra Sinfônica, de instrumentos típicos. Sobre a marcante coreografia dos belos dançarinos mongóis, homens e mulheres de excepcional coordenação rítmica, falarei depois. Por ora, cumpre dizer que a Sinfônica da Mongólia fez uma apresentação de gala. Destaque para as vozes dos seus baixos e barítonos interpretando canções budistas. Confesso que tais vozes me elevaram – a mim, pobre homem de pouca fé – às portas do paraíso, às regiões mais diáfanas da espiritualidade humana e da concentração mística.
Mas, queridos leitores, falta muito do que dizer. No próximo artigo, contarei como dormi nas tendas de Gengis Khan, sob o frio polar da noite da Mongólia.

João Carlos Teixeira Gomes, jornalista e escritor baiano, mora atualmente no Rio de Janeiro e acaba de regressar de viagem transiberiana.

nov
09


Mãe Stela
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CRÔNICA/ SABEDORIA

Olhos magros: uma nova tendência

Maria Stella de Azevedo Santos

A minha função espiritual faz de mim uma intermediária entre o humano e o sagrado e para exercê-la da melhor maneira possível tenho como instrumento o Jogo de Búzios. Pessoas de diferentes idades, raças e até mesmo credos, buscam a ajuda desse oráculo. Surpreende-me o fato de que uma grande parte dos que me procuram sente-se vítimas de inveja.
Engraçado é que nunca, nem um só dia sequer, alguém chegou pedindo-me ajuda para se libertar da inveja que sentia dos outros. Será que só existem invejados? Onde estarão os invejosos? E o pior é quando consulto o oráculo e ele me diz que os problemas apresentados não são decorrentes de inveja, a pessoa fica enfurecida.
Percebo logo que existe ali uma profunda insegurança, que gera uma necessidade de autovalorização. Se isso ocorresse apenas algumas vezes, menos mal, o problema é que esse comportamento é uma constante. Isso me leva a pensar que cada pessoa precisa olhar dentro de si, tentar perceber em que grau a inveja existe dentro dela, para assim buscar controlar e emanar este sentimento, de modo que ela não venha a atuar de maneira prejudicial ao outro, mas principalmente a si, pois qualquer energia que emitimos, reflete primeiro em nós mesmos.
Uma fábula sobre a inveja serve para nossa reflexão: Uma cobra deu para perseguir um vagalume, cuja única atividade era brilhar. Muito trabalho deu o animalzinho brilhante à insistente cobra, que não desistia de seu intento. Já exausto de tanto fugir e sem possuir mais forças o vagalume parou e disse à cobra: – Posso fazer três perguntas? Relutante a cobra respondeu: – Não costumo conversar com quem vou destruir, mas vou abrir um precedente. O vagalume então perguntou: -Pertenço à sua cadeia alimentar?- Não, respondeu a cobra. – Fiz algum mal a você-?- Não, continuou respondendo a cobra.- Então por que me persegue?- perplexo, perguntou o brilhante inseto. A cobra respondeu: – Porque não suporto ver você brilhar, seu brilho me incomoda.
Ingênuas as pessoas que pensam que o brilho do outro tem o poder de ofuscar o seu. Cada um possui seu brilho próprio, que deve estar de acordo com sua função. Existem até pessoas cujas funções requerem simplicidade, onde o brilho natural só é percebido através do reflexo do olhar do outro.
Lembro-me de uma garotinha de apenas 10 anos de idade que a mãe me procurou para ajudá-la, pois ela ficava furiosa quando não tirava nota dez na escola. Comportamento que fazia com que seus coleguinhas se afastassem dela. Algumas tardes eu passei conversando com a garota. Um dia ela chegou me dizendo que não aparesentava mais o referido problema, que até tirou nota dois e não se incomodou.
Fiquei muito feliz, cheguei mesmo a ficar vaidosa, pois acreditei que aquela nova atitude era resultado de nossas conversas. Foi quando ela me disse:- Sabe por que não me incomodei de tirar nota dois, Mãe Stella? Ansiosa, perguntei:- Por que? Ao que ela me respondeu: – Porque o resto da turma tirou nota um. Rimos juntas da minha pretensa sabedoria de conselheira e do natural instinto de vaidade que ela possuía e que muito trabalho teria para domá-lo. O desejo que a garota possuía de brilhar mais do que os outros, com certeza atrairia para ela muitos problemas. Afinal, ela não queria ser sábia, ela queria ser vista.
O caso contado anteriormente fez lembrar-me de outro que eu presenciei, onde uma senhora repleta de ouro insistia em me dizer que as pessoas estavam olhando para ela com inveja. Cansada daquele queixume, disse-lhe que quem não quer ser visto, não se mostra.
A inveja é popularmente conhecida com olho gordo. Se não queremos ser atingidos pelo olho gordo do outro, devemos cuidar para que que nossos olhos emagreçam, não deixando que eles cresçam com o desejo de possuir o alheio. Já que fazemos dieta para nossos corpos serem saudáveis, devemos também fazer dieta para nossos olhos, pois eles refletem a beleza da alma. A tendência agora é, portanto, olhos magrinhos, mas não anoréxicos, pois alguns desejos eles precisam ter, de preferência desejos saudáveis.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Texto publicado originalmente na edição impressa do jornal A Tarde, esta quarta-feira(9)(


Milton Santos: um pensador da Bahia e do país
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Deu na revista SO

Manuca Ferreira

Responda rapidamente: quem é o maior pensador baiano atualmente? Não, não vale Robyssão, que prometeu um livro inspirado em George Orwell. Tampouco a pequena grande liderança política Pepy Safado. Passamos por um vazio de pensamento que compromete seriamente o futuro do estado. A Bahia, que já produziu figuras do quilate de Ruy Barbosa, Rômulo Almeida, Anísio Teixeira, Milton Santos, hoje sofre uma aridez tamanha nos meios políticos.

Os citados já morreram, mas mesmo grandes figuras políticas de outras gerações (que pensam o estado), ainda vivos, passam por um processo de serem deixados de lado como é o caso do ex-governador Waldir Pires. Qual é a Bahia que queremos?

Não se trata de quem está no poder. As alternativas políticas ao atual governador do estado, nem de longe, podem ser enaltecidas como capazes de fazer algo melhor do que está posto, afinal de contas têm também a sua parcela de responsabilidade. Se fossem tão bons quanto dizem ser, não teríamos lugares do estado vivendo em condições análogas à Europa medieval.

“E uma terceira via?”, podem questionar alguns. A nossa atual terceira via se assemelha tanto com a segunda no modo de pensar e agir, que não é à toa estarem de namoro público para se tornarem uma só. Aliás, qual é o projeto de quem quer a cadeira do Palácio de Ondina? “Ah, ainda não temos projeto”, argumentam. Se não têm projeto, a disputa é pelo poder puro e simples?

Os discursos são pequenos: “Ah, Pernambuco está passando a Bahia. Ah, isso. Ah, aquilo”. Que bom que Pernambuco e o resto do nordeste estão se desenvolvendo. A Bahia, idem. Em questões econômicas, estamos excelentes. O que preocupa é a falta de perspectiva intelectual. Alguém que queira moralizar os nossos costumes políticos, por exemplo, avançando em pensamento republicano, que não esteja a fim de lotear o Estado com indicações políticas.

Não sou ingênuo e concordo que quem ganha tem que governar junto, dando espaço aos aliados, mas como diz um professor meu: o que explica a necessidade do presidente do Fundo de Amparo à Pesquisa ser um indicado político, sem as devidas condições acadêmicas para o cargo? Há que se ter limite.

É preciso alguém que se preocupe de fato com a nossa memória cultural. Salvador está largada às traças e ao mercado imobiliário. Só não vê quem não quer. A culpa é do governador ou é da prefeitura? De ambos? Talvez. Mas, sem dúvida, ainda mais do gestor municipal que tem que pensar isto aqui de forma grandiosa. É inadmissível com o tamanho que tem, Salvador não possuir uma secretaria ou um gestor cultural que assuma a manutenção do Patrimônio Histórico da Humanidade.

Salvador tem que ser capaz de manter o Pelourinho em funcionamento. Tem que ser capaz de reformar o entorno da Igreja da Conceição da Praia, melhorar o Subúrbio Ferroviário e entregar à população uma orla decente. Não se justifica mais de dois anos de embargo judicial em relação às novas barracas de praia e não se ouve uma palavra sequer das autoridades municipais. Aliás, que autoridades?

A capital baiana é a terceira maior cidade do País. Precisa de transporte público de qualidade. Sem essa de que o ônibus é a grande opção que nós temos. Que piada! Salvador precisa de metrô, de ônibus, de bonde, de VLT, de trem, BRT, tudo integrado e funcionando o maior tempo possível. A título de registro, o metrô de São Paulo funciona das 4h40 a 1h em alguns dias da semana.

E não para ficar apenas na seara dos governos, precisamos de empresários que queiram o desenvolvimento intelectual disso aqui. Um mercado jornalístico mais ousado e menos amigo do governo e das oposições, que não se contente com jogos políticos e/ou econômicos. Por enquanto, meus amigos, o que vejo é que a Bahia parou de pensar.

Deu na revista digital Terra Magazine:
No colo de Margarita, cartaz com o rosto de João Paulo II (Foto: Bob Fernandes)
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Bob Fernandes

Direto de Guadalajara

Abre-se o portão do Santuário de los Mártires. Do lado de fora, a multidão em êxtase.

Sob escaldante sol de 32 graus à uma da tarde, se acotovelam velhos, crianças, deficientes em cadeiras de rodas, casais com recém-nascidos, jovens, vítimas de paralisia… Quando sete homens com emblema do Vaticano no uniforme cruzam o portão com o esquife, o empurra-empurra, os gritos, as súplicas e os cânticos que se elevam, criam uma atmosfera de transe. Os coros se misturam e ecoam Cerro del Tesoro abaixo:
-Se ve, se siente, Juan Pablo está presente… Se ve, se siente, Juan Pablo está presente…
-Juan Pablo, Segundo, te quiere todo el mundo…Juan Pablo, Segundo, te quiere todo el mundo…

No esquife de acrílico, a réplica em cera do Papa João Paulo II morto.

A imagem, em tamanho natural, vestida com batina branca e coberta por ornamentos sacerdotais; sobre os ombros e tórax, a escarlate Mozzetta Papal e, descendo até a altura do joelho, a estola em negro e dourado com símbolos do Vaticano.

Nas mãos cruzadas sobre o peito, o crucifixo. Num relicário pouco acima, a ampulheta com uma porção do sangue de João Paulo II.

O travesseiro ergue um pouco a cabeça do Papa. Quem a cotovelaços e empurrões consegue chegar perto da réplica se depara com um rosto sereno. Na lateral da urna, a inscrição “Beato Juan Pablo”.

Pregado na parte inferior da urna de acrílico, pouco além das solas dos sapatos do Papa, o brasão do seu pontificado.

Não há espaço para todos. A multidão não estava convidada para a missa na sede provisória do Santuário de Los Mártires. Ali deveriam estar apenas 90 sacerdotes, membros da cúpula da Arquidiocese, e próximos do Cardeal Juan Sandoval Iñiguez.

Mas a multidão de fiéis subiu o Cerro, a pé ou de carro, e suplica em coro:
-Queremos ver al Papa! …Queremos ver al Papa!…

Por entre os fiéis, ambulantes sacodem bandeirolas, cartazes e fotos de João Paulo II, e apregoam:
-El Santo Padre Juan Pablo, dez pesos! Dez pesos por El Santo Padre Juan Pablo!

Ao fundo da tenda que abriga a Sede Provisória, ergue-se um esqueleto de aço em forma de arcos. São as fundações do Santuário dedicado a 26 Santos e 24 Beatos martirizados no México. Em construção já há quatro anos, numa área de 14 hectares, a igreja para 12 mil fiéis –mais 40 mil no adro-, um hospital e um escola de enfermagem.

Aos pés do Cerro del Tesoro e do Santuário, Guadalajara.
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Van que carrega a réplica em cera do Papa João Paulo II morto é cercada por fiéis (Foto: Bob Fernandes)
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Desde 25 de agosto, até 15 de dezembro, a réplica de João Paulo II morto percorrerá 94 dioceses do México. Metade do périplo foi feito e a Conferência Episcopal avalia que mais de 8 milhões de fiéis já viram e tocaram no esquife.

Estima a igreja que somente entre esta quarta e sexta-feiras na Región Valles (Cocula, Ameca, Tala e San Martín Hidalgo), nas filas da Basílica de Zapopan, da comoção no Santuário de Los Mártires e na Catedral Metropolitana, mais de 300 mil mexicanos foram ver João Paulo II em cera. E o relicário com seu sangue.

Carregada pelos sete homens, a urna ultrapassa o portão. Policiais militares se dão as mãos, formam um corredor a caminho da Van onde será depositada a imagem. A cobertura de acrílico viaja numa segunda Van.

Moldada com um cera especial, a réplica resiste a temperaturas de até 45 graus. Só assim não sofreu danos, salvo uma ou outra pequena trinca, em fornalhas como são as regiões de Oaxaca, Chiapas e Veracruz.

Para compensar, quando o calor é tanto o ar condicionado dentro da Van baixa até os 12 graus.

Luiza, 50 anos, conhecida por “Lula”, está colada à Van que transportará João Paulo II. Agarrado à mãe, quase sem conseguir manter-se em pé, Henrique, 14 anos. Enquanto enxuga com as mãos a saliva que escorre dos lábios do filho vitimado por paralisia cerebral, a mãe faz coro com a multidão. Que se espreme, se empurra e suplica:
-…Queremos ver al Papa!… Queremos ver al Papa!

Dentro da Van que transporta o João Paulo II em cera, Javier Cinta, 45 anos, e Mike Berni, 46. Trajam calças pretas e camisetas polo, brancas, com símbolo do Vaticano à altura do peito. Camisetas com código de barra em metal; para que não se extraviem.

Bob Fernandes)

Javier Cinta e Mike Berni na Van que transporta a réplica de cera (Foto: Bob Fernandes)

Javier trabalhou na embaixada do México no Uruguai dos 19 aos 21 anos. Viajou para Porto Alegre, Rio de Janeiro, conhece alguma coisa do Brasil. Ele e Mike, dois dos sete homens que, nas suas palavras “levam o Santo Padre por todo o país”.

Javier é católico, como Mike, mas não se considera um “místico”. Sobre a longa viagem e seus significados, avalia:
-É uma carga muito especial de energia que nos acompanha…

Mike atalha:
-Vimos coisas incríveis…

Eles contam.

No município Playa Vicente, estado de Oaxaca, uma jovem de 15 anos foi conduzida numa cadeira de rodas até ser posta em frente à urna. Mike recorda:
-Ela gritava, urrava blasfêmias, chamava o Santo Padre de Hijo de Puta, Hijo del Diablo…, dizia coisas inomináveis… até que, de repente, ela desfaleceu…

O despertar da jovem minutos depois, já serena, olhos postos na imagem de cera, mãos cruzadas em sinal de contrição, surpreendeu os dois guardiões. Mas o que mais impressionou Javier Cinta não foi a reação da jovem:
-…o que me provocou espanto e uma emoção incomum é o que as pessoas em volta começaram a repetir em voz alta: ‘milagre, milagre…’

Javier relata o episódio e, novamente, acrescenta:
-Sou católico, mas não sou um místico, não vejo coisas…

Ele e Mike concordam quanto ao que mais os tocou ao longo da viagem:
-A armação em acrílico e o corpo em cera pesam 300 quilos. Todos os dias, quando chegamos a alguma cidade, nós sete a carregamos. Mas quando vamos transportá-la de volta para a Van,
quase não conseguimos… pesa muito, muito mais…

Mike, Javier e os outros cinco guardiões chegaram à mesma conclusão:
-O que faz a urna pesar cada vez mais é a energia das pessoas que a cercam e tocam…

Margarita Carrilo Gouna, 87 anos, tenta abrigar-se do sol dobrando um jornal sobre a cabeça. Ela tem asma, artrite, está numa cadeira de rodas, mas não veio ao santuário para pedir nada:
-Eu vim porque amo o Santo Padre…

Bob Fernandes)

No colo de Margarita Carrilo Gouna, cartaz com o rosto de João Paulo II (Foto: Bob Fernandes)

A urna de João Paulo II está nos fundos da Van. A multidão se espreme para tentar chegar às janelas, sacar fotos com máquinas e celulares, lançar bilhetes e objetos para perto da imagem, luta para ver o Papa Karol Wojtyla de cera.

Os que não conseguem se aproximar, suplicam, em coro:
-Queremos ver al Papa!…Queremos ver al Papa!

Uma e meia da tarde. A multidão cerca e conduz as duas Vans, passo a passo, disputando as janelas. Uma ambulância e dois carros da Policia Estadual de sirenes ligadas, 32 graus, e o cântico que provoca lágrimas e vertigens:
-Se ve, se siente, Juan Pablo está presente… Se ve, se siente, Juan Pablo está presente…

Ambulantes com cartazes, bandeirolas e fotos de João Paulo II apregoam:
-El Santo Padre por cinco pesos! El Santo Padre por cinco pesos!

Outubro, 27. Em quatro dias, a 1 e 2 de novembro, começam os festejos do “Dia de Muertos”, com abundância de caveiras nas ruas. Tradição há mais de três mil anos, quando a Deusa
Mictecacíhuatl já era cultuada como “La Dama de la Muerte”.

As Vans, lentamente, embicam ladeira abaixo no Cerro. Solo árido, pedregulhos, cascalho fino e uma terra amarelada. Uma senhora tropeça e cai, dois meninos escorregam e, por segundos, são pisoteados.

A multidão, em êxtase e atropelo, desce a ladeira do Cerro del Tesouro atrás de João Paulo II e seu sangue. Mike murmura:
-Nem com um Beatle eu vi isso…

Mike já assitiu e acompanhou o show de um Beatle, Paul McCartney.

Não apenas. Mike e Javier, assim como outros guardiões do João Paulo II de cera, e de seu sangue, já cuidaram de astros pop como Ricky Martin, Shakira…

Afinal, Javier e Mike, hoje com brasões do Vaticano no peito, trabalham para a Radical Entertainment.

Especializada em grandes espetáculos e turnês de astros pop, a Radical Entertainment foi contratada pelo Vaticano. Para guardar a réplica de João Paulo II e seu sangue na longa viagem México adentro.

Bob Fernandes, editor-chefe de Terra Magazine,está no México, cobrindo os Jogos Pan Americanos 2011.

fev
26


Juazeiro(BA) e Petrolina(PE): vizinhas
e irmãs às margens do Velho Chico
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Ponto de Vista /Tribuna da Bahia

Voltando a Juazeiro e Petrolina

Consuelo Pondé de Sena

Nenhum lugar permanece inalterado senão na lembrança de quem o recorda ou revê. Tudo muda e, às vezes, é doloroso observar que não se tem controle sobre essas transformações.

Fazia muito tempo que não visitava as duas cidades vizinhas e irmãs, Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), localizadas no semi-árido brasileiro, às margens do “Rio da unidade nacional”.

Por sempre desejar rever o já visto, arrisquei-me na aventura de ir ao encalço do passado, no pressuposto de que conseguiria situar-me tranquilamente nos espaços preservados na memória. Ledo engano. “Nada do que foi será do mesmo jeito em que foi um dia”.

Mas, essa busca compulsiva e infrene sempre me conduz ao retorno, como se fosse possível deter o tempo rever as coisas do mesmo jeito.

Refletir nada custa, daí as considerações que se seguem. Embora situadas em estados diversos, as duas cidades banhadas pelo São Francisco são solidárias e cúmplices. Muitas pessoas vivem de um lado e trabalham no outro. Talvez, pelo destino comum, que as identifica, pelo rio majestoso que as separa e, ao mesmo tempo, as une, não se percebe as dissensões comuns às cidades vizinhas ou avizinhadas.

Certo é que, os naturais de cada cidade consideram sua terra natal melhor do que a outra, o que não é de estranhar, porque o sentimento de naturalidade impõe a defesa de cada território por parte dos seus respectivos habitantes.

Bem, para fazer essa visita, programada por minha prima Lígia, carioca, com alma de cigana, resolvemos fazer o trajeto pelo ar. Em confortável e novíssima aeronave, viajamos para Petrolina, na manhã do dia 24 de janeiro, alcançando-a pouco tempo depois.

Viagem agradável, céu azul, sem as terríveis turbulências que amedrontam a todos, inclusive os mais afeitos às viagens aéreas, desembarcamos leves e lépidas no aeroporto da cidade pernambucana, demandando para o Petrolina Pálace Hotel, onde ficamos hospedadas.

A última vez que havia estado em Juazeiro foi em 1992, quando do lançamento do livro “Juazeiro-trajetória histórica”, de minha autoria e de Angelina Garcez, editado pela Prefeitura Municipal daquela cidade, na gestão Joseph Wallace Bandeira, político e intelectual de rara sensibilidade. Prefaciou a obra o saudoso Professor José Calasans.

Àquela altura, para levar a efeito essa tarefa, nós, as autoras do trabalho, fomos inúmeras vezes à cidade de Juazeiro, fazendo o longo trajeto em ônibus de carreira. Na extensa estrada que conduz ao local, que desejaríamos pesquisar, íamos conhecendo vários lugares.

Podemos verificar, in loco, as agruras do meio ambiente, as dificuldades para alcançar a região, sentindo na pele o calor escaldante do semi-árido e imaginando o que é viver sob o sol causticante da região. Naquelas visitas freqüentes passamos a conviver mais de perto com pessoas acolhedoras, dentre quais destaco o casal Neide e Humberto Pereira, ele conceituado médico, colega e amigo de meu marido, Plínio Garcez de Sena.

Que saudades senti desta vez, das ocasiões em que lá estive, quando se realizavam concorridas jornadas médicas. Plínio, eufórico, reencontrava os colegas e todos nos divertíamos com as histórias do passado. Eram momentos de muita alegria e perfeita confraternização.

Não reencontrá-los, não mais estar com os amigos queridos, na acolhedora casa da Praça da Bandeira, ver vazia a morada de Neide e Humberto foi uma tristeza para mim. Para consolar-me, passei alguns minutos na Igreja de Nossa Senhora de Grotas, padroeira local, tendo a sorte de conhecer Maria Senhora, pessoa lhana e simpática, que me pôs a par dos últimos acontecimentos da velha urbe sanfranciscana.

Minha impressão foi a de que Juazeiro tem crescido desordenadamente, enquanto Petrolina vai ganhando foros de progressista cidade.

Não posso deixar de fazer referência aos bons restaurantes de Petrolina, especialmente o Maria do Peixe, o Capivara, Dona Emília e o Isaías, este último no Bodódromo, curioso e atrativo conjunto de casas de pasto, onde os pratos preferidos são o bode e o carneiro.

Depois de idas e vindas de um lado para outro, fomos conhecer a Ilha do Rodeadouro – lugar aprazível onde os moradores de ambas as margens curtem o fim de semana.

Consuelo Pondé de Sena, historiadora, escritora, cronista, dirige o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia


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Deu na revista digital Terra Magazine:
http://terramagazine.terra.com.br/

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A TARDE e o Egito

Francisco Viana
De Salvador (BA)

Salvador – Há algo em comum, a despeito de se tratarem de histórias absolutamente distintas, entre a readmissão de um jornalista demitido injustamente pelo tradicional jornal A TARDE, de Salvador, e a queda do ditador egípcio, que ficou no poder por 30 anos. Qual? Em ambos os casos houve momentos reivindicatórios de massa. Num caso, a massa dos jornalistas do próprio jornal, no caso egípcio, grandes massas populares. Vou me fixar no caso de A TARDE e das mobilizações.

Primeiro um registro. Comecei minha carreira em A TARDE. Era um jornal conservador, mas do tipo liberal clássico. Não cedia a pressões, por mais ferozes que fossem. Defendia suas ideias e jornalistas. Na esfera política, dormia um sonho quase medieval: defendia o baiano nas questões do dia a dia, mas se revelava avesso a grandes reformas estruturais. Contudo, como na era medieval, havia uma consonância plena – o quase plena – entre o que professava e o que fazia. Deixei A TARDE no alvorecer dos anos 70 quando fui trabalhar em O Globo, no Rio de Janeiro, mas nunca deixei de acompanhar o jornal. Os primeiros anos de vida de um jornalista duram tanto como a vida e, talvez por isso, A TARDE foi sempre alvo de atenção, uma referencia.

Hoje, em Salvador, abro os jornais, leio os blogs, recebo e-amails de amigos e o que vejo: A TARDE imersa numa grave crise de identidade. A demissão do jornalista em foco, não é um episódio isolado. Precisa ser analisada à luz da realidade brasileira. A sociedade mudou. Mudaram os ventos políticos, mudaram as vontades. Diminuiu a influência da mídia, crescem os espaços públicos de manifestação. Na era do carlismo, a Bahia viveu uma situação opressiva em que “liberdade” de imprensa era ditada pela maior ou menor adesão a Antonio Carlos Magalhães. Os espaços públicos eram restritos. O tempo quase imóvel. Não havia liberdade para a sociedade. Não havia, portanto, liberdade para a imprensa.

Agora, a perspectiva é outra. A notícia é em parte um exercício da técnica, em parte um exercício da política. Editar um jornal exige uma visão de mundo ampla. Universal. Ser jornalista requer atenção: a quem servir: à sociedade ou aos interesses comerciais da empresa jornalística? Eis a questão, eis o enigma, eis o impasse. Os jornalistas de A TARDE que levantam a voz para reclamar da demissão do colega estão, em outras palavras, sendo pioneiros em trazer essa questão à cena. Qual é o sentido da liberdade de imprensa? Como articular democracia e liberdade de imprensa? Qual é o sentido da democracia para os jornalistas?

São questões que todo brasileiro tende a se colocar na atualidade. Qual é o significado dessa palavra tão falada e tão pouco levada à prática, democracia? Por isso, fiz a comparação com o Egito. Onde chegará, numa outra escala, a rebelião das massas? Se caminhará para uma autêntica liberdade?

A lembrança dos gregos é inevitável. Pereceram por força da escravidão. Não conseguiram transformar a liberdade num bem comunitário, no sentido de sociedade. Não fizeram da beleza e a força da igualdade um patrimônio comum. Será que nós conseguiremos? Essa a relação entre os movimentos de massas e a democracia. Não se consegue a liberdade sem a ação. Esse o desafio que enfrenta o jornalismo brasileiro nos dias atuais: equilibrar o poder empresarial dos que editam os jornais com o poder das redações. Não se trata apenas de fazer um jornal melhor ou de se conquistar leitores.

Essa conquista resultará da qualidade dos profissionais e da harmonia com a sociedade. O desafio é como o jornalista poderá exercitar a liberdade de criticar, denunciar, fiscalizar ou mesmo aplaudir. É uma questão de uso efetivo do espaço público. O que está em jogo é mais do que a readmissão de um colega. Isto é importante. É vital. Mas é importante que não se esqueça do modelo de negócio do jornal. É, repito, guardadas as proporções o drama egípcio: o que acontecerá passada a euforia inicial pela renúncia do ditador?

Penso que os jornalistas de A TARDE estão dando um exemplo supremo. Trata-se da coesão, do sentimento de solidariedade, da capacidade de se revoltar e de se expor. Enfim, estão trazendo à vida a indignação. Uma sociedade que não tem, nem cultiva tais predicados está condenada a fenecer, a se autodestruir. Na rebelião de A TARDE existe a chama de uma fenômeno que cedo ou tarde vai incendiar o jornalismo brasileiro, exigir mudanças das empresas jornalísticas. Onde iremos chegar, não sei. Sei de um fato histórico: o movimento dos jornalistas de A TARDE é uma advertência. Como é uma advertência, o movimento das massas no Egito. Não existe o homem único, nem a empresa única. Existe, sim, a sociedade e a plenitude do ser humano em geral. Esse o sentido da advertência. Uma empresa jornalística, como qualquer outra empresa, precisa ter credibilidade. Com a diferença de que a empresa jornalística é testada pela opinião pública todos os dias. Como criticar, se não há credibilidade? Dai, a antiga ética de A TARDE. Era preciso ter credibilidade. Será que os gestores – é assim que se passou a chamar, não ? – têm consciência de tal nuança nada sutil?
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Francisco Viana é jornalista, mestre em filosofia política pela PUC-SP, consultor de empresas e autor do livro Hermes, a divina arte da comunicação. É diretor da Consultoria Hermes Comunicação estratégica (e-mail: viana@hermescomunicacao.com.br). Repórter de destaque em coberturas nacionais e internacionais por grandes veículos da mídia brasileira, começou profissionalmente em A TARDE.

fev
11
Posted on 11-02-2011
Filed Under (Artigos, Eventuais) by vitor on 11-02-2011


Aguirre:reflexo da insensatez
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ARTIGO/IMPRENSA E PODER

Manda quem pode, obedece quem tem juízo

Washington de Souza Filho *

Ainda vivo, o jornalista Aurélio Velame, para comentar um dos muitos casos de desmandos vividos em redações, na época na Tribuna da Bahia, usou uma frase, adequada para o momento atual, da demissão de Aguirre Peixoto, jovem jornalista, repórter de A Tarde.
– Pior do que ser capataz é ser chicote de feitor.
Aurélio, bom frasista, excelente redator de títulos e, posteriormente, editoriais, criou a expressão em um momento de discussão interna, em que a tônica era o poder exacerbado de quem determina o cumprimento de ordens, adequadas a uma conveniência relacionada ao que é chamado nas redações de IP – interesse do patrão, na linguagem dos jornalistas.
A demissão de Aguirre é um reflexo da insensatez que, infelizmente, faz parte das redações, nas quais as relações de poder sempre atingem o elo mais fraco da corrente. A justa reação da redação de A Tarde é compreensível pela natureza e caráter de Aguirre, a quem conheci e convivi como aluno da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. A situação, porém, deveria ser analisada pelo papel que desempenham os repórteres como ele – gente que precisar estar nas ruas.
A razão apontada para a demissão dele tem ligação com outro recente, com a participação dos mesmos personagens, apontados como os responsáveis pela decisão do jornal: os empresários acusados, de acordo com diversas publicações, de integrarem um esquema para a ocupação de áreas diversas de Salvador, em especial na orla e na avenida Paralela, apontado como especulação imobiliária. Um fato que ganhou espaço nas páginas policiais, com acusações de diversas formas – de extorsão a tráfico de influência.
A punição a Aguirre é por ter agido de forma diferente, como jornalista. Sem nenhuma máscara, levantou as informações, procurou as fontes, quis ouvir a todos. Elaborou a sua reportagem e a submeteu aos responsáveis pela publicação. O risco ao qual ele foi exposto é uma tendência do jornalismo atual, que transforma o autor de uma reportagem em alvo de quem tem o poder, em especial do dinheiro como o seu maior símbolo – e inibe o jornalismo como ação de interesse público. No regime militar, era uma prática comum, promovida, solidariamente, por muitos editores e chefes em geral, salvaguardar os autores com a omissão do nome, a assinatura. O peso da publicação era do meio de comunicação.
O fato corresponde a um padrão, infelizmente comum nas redações, em que os diversos chefes têm os seus poderes condicionados pelos interesses dos seus patrões, em uma atividade que em a crença comum é a de que o jornalista é um ser livre para exercer a sua capacidade, desde que cumpra os diversos preceitos da profissão – a sua garantia de proteção, do valor do seu trabalho e do seu veículo. A demissão de Aguirre tem outro peso, com o fato de que a informação, pelo avanço da tecnologia ter favorecido o desenvolvimento de formas diversas de comunicação, que ampliaram o limite para a sua divulgação. O necessário é a apuração, de forma clara, para a publicação, de maneira honesta, de fatos – algo que muitas vezes não ocorre.
A disposição de fazê-lo culpado é a comprovação do que sempre disse Aurélio. O evidente, no caso, é que os algozes nem precisaram sujar as mãos.

*Washington Filho é Jornalista, professor da Faculdade de Comunicação (UFBA)


DEU NO SITE DE CHICO BRUNO ( http://www.chicobruno.com.br/ )

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Direto da Varanda: Chico Bruno

O novo secretário e a velha prática carlista

O jornal A Tarde foi às ruas do Centro Historio de Salvador ouvir a opinião de turistas sobre o estado de conservação do espaço onde a cidade nasceu.
Os visitantes saúdam o local como um dos mais bonitos e importantes sítios históricos do mundo, mas reclamam do péssimo estado de conservação.
A jornalista Mary Weinstein, autora da reportagem lembra que “o Programa de Recuperação do Centro Histórico, iniciado em 1992, contou com aprovação entusiasmada de vários setores, até 1994, quando começou a enfrentar ritmo lento de execução. Em 1995, a mídia já dava conta da degradação que ameaçava retornar ao sítio classificado pela Unesco”.

Mary aborda, ainda, que “em 2007, o governo Jaques Wagner se propôs a prestar atenção especial ao que passava a ser chamado de Centro Antigo, agregando bairros adjacentes ao conceito do conjunto. E divulgou iniciativas como a requalificação da comunidade da Rocinha e a instalação de um escritório de referência”.
Como não poderia deixar de ser, Mary foi ouvir “o recém-empossado secretário da Cultura, Albino Rubim”, que substituiu o diretor de teatro Márcio Meirelles, ex-secretário da primeira gestão de Wagner e autor do plano de requalificação do sítio histórico.
Albino diz que “faz um reconhecimento da área e dos problemas, como os apontados por turistas e baianos. E avisa que, antes de mais nada, está tomando pé da situação”.
As primeiras palavras do secretário deixam no ar a sensação que ele vive em outro planeta, pois a questão do Centro Histórico está presente no dia a dia dos soteropolitanos há décadas.
Mas, para não se furtar a conversa com a jornalista, Rubim diz obviedades como “essa área é vital. É um símbolo, um espaço compartilhado, que dá identidade à cidade. É onde Salvador nasceu. Quem fala de Salvador não se refere à Pituba ou Itaigara, mas ao Centro Antigo. Os soteropolitanos e turistas sabem que este centro tem uma importância extrema para a nossa concepção de cidade”.

E prossegue o secretário explicando que houve um momento em que a cidade se deslocou. “E essa não é uma singularidade de Salvador. Aconteceu em várias cidades. A questão é como intervir nesses centros”, reflete.

Rubim crítica o que foi feito pelos governos carlistas.
Para ele aquela intervenção tinha tudo para não dar certo, pois “foi voltada para o turismo. E não poderia haver sustentabilidade ancorada no turismo. Não havia potencialidade. Teria que ter uma dinâmica com suporte da população”.
O interessante é que Rubim ao mesmo tempo em que diz que precisa tomar pé da situação, discorre sobre as intervenções ocorridas no local nos anos 90 e mostra conhecimento sobre o plano de Meirelles para a área.
Mas, o secretário coloca os pés pelas mãos, ao discorrer sobre uma suposta “substituição dos moradores”.

Usando um palavreado confuso, ele afirma que “foi uma revitalização sem a população e determinados empreendimentos que davam vida ao lugar. Criou-se um simulacro de dinâmica. Uma revitalização sem considerar os grupos afros, sem uma concatenação. Como era novidade, a classe média frequentou. O Estado jogou uma grana ali, uma situação artificial. E começou a decadência. Para ser honesto, muito antes do governo Wagner”.
Ora, bolas!
O secretário começa mal a jornada.
Os grupos afros e os “empreendimentos que davam vida ao lugar” nunca se afastaram do Pelourinho, muito pelo contrário são eles que mantêm acessa a chama mágica do local.
O grande problema do Centro Histórico de Salvador é o desleixo.
A prefeitura de Salvador, por exemplo, há muito tempo não dá a mínima atenção ao sítio histórico da cidade. A municipalidade vive a sombra das intervenções feitas pelo governo do Estado.
Entra prefeito, sai prefeito e o Centro Histórico é tratado como se fosse um enclave do governo estadual em Salvador.
Justiça seja feita à ex-prefeita Lídice da Mata que tentou reverter essa história, mas foi massacrada pela intolerância de Antônio Carlos Magalhães, que usurpou o Pelourinho do poder municipal com a conivência dos prefeitos da época transformando-o em uma bandeira eleitoral.
O pior é que Meirelles não tentou reverter essa lógica e ao que parece Rubim tende a mantê-la.
Esta na hora do prefeito João Henrique resgatar o controle do Pelourinho para Salvador, talvez essa ação o tire do buraco em que se encontra.


O prefeito e a primeira dama de Salvador
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A editoria de Política do jornal Tribuna da Bahia realizou um mergulho de profundidade no mar turvo, cheio de esconderijos e labirintos mal iluminados da Prefeitura de Salvador , e produziu revelações importantes, cruciais mesmo, e até aqui pouco divulgadas – salvo raras e pontuais exceções.

Estão expostas na reportagem política assinada pela reporter Fernanda Chagas. Pelo mérito jornalístico e pela relevância das informações, Bahia em Pauta reproduz o texto da TB. Bravo!
(Vitor Hugo Soares)
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Fernanda Chagas

Um mergulho nos bastidores da política baiana e nos porões do poder municipal em busca de um entendimento melhor da atual crise que atinge a Prefeitura de Salvador revela um diagnóstico surpreendente: nove entre 10 políticos e não políticos ouvidos são diretos ao afirmar que o problema da Prefeitura tem várias origens, desde a queda de arrecadação aos repasses cada vez mais enxutos do Fundo de Participação dos Municípios, mas que o problema maior e que amiúda os outros não está em João. Está em Maria.

Com seu estilo voluntarioso, sempre presente em quase todos os momentos ou decisões tomadas pelo marido prefeito, a primeira-dama Maria Luíza acabou por criar uma figura externa ao poder municipal capaz de em muitas situações ter sua opinião transformada numa bíblia a ser seguida fielmente sob pena de uma perigosa colisão política de imprevisíveis, ou nem tanto, consequências para quem desvia do seu pensamento.

Sua personalidade forte ajudou, em muitas ocasiões, a fortalecer posições do prefeito, mesmo quando o exército aliado parecia em desvantagem para cruciais batalhas. Mas, na maioria das vezes, essa ajuda tem se tornado um tormento ou uma dor de cabeça para o marido prefeito, e, inserida no tabuleiro do poder municipal como uma peça que lá se instalou e parece irremovível, vai contribuindo hoje para o crescente desgaste experimentado pelo alcaide.

Contam que a primeira intervenção de Maria deu-se antes mesmo de João fazer a última prova do terno da posse para o seu primeiro mandato. João queria o irmão Sérgio na Casa Civil, por achá-lo – como meio mundo político acha – jeitoso e habilidoso para o trato com uma casa nervosa como é a Câmara Municipal. Sergio chegou a ser contatado, estava inclinado a aceitar, mas Maria foi contra.

Argumentou que não cairia bem para o perfil do alcaide trazer para um gabinete ao lado do seu exatamente o seu irmão, apesar de suas inegáveis qualidades políticas.

A interlocutores privilegiados ela teria dito: ele não senta naquela cadeira. E Sergio não sentou. Mas se por intuição feminina ou sopro de algum vidente, Maria acertou em cheio nessa intervenção. Mesmo sem estar no gabinete ao lado do mano, foi seu líder na Câmara e lá, com seus atributos, conseguiu a inédita façanha de aprovar todos os projetos encaminhados pelo executivo.

E por unanimidade. Sergio revelou-se uma peça importante no começo da primeira gestão de João, mas quando ia ao Palácio sentava num confortável sofá de couro preto na antessala do prefeito. Jamais na, nem tão confortável assim, cadeira de secretário Chefe da Casa Civil. Como previu Maria.

Era só o começo de uma gestão e de uma conturbada história de palpites e intervenções, felizes e infelizes, da primeira-dama que, para muitos, acabaram levando o prefeito à perda da sustentação política na Câmara, da confiança de influentes caciques políticos e até de fraternos amigos que, convidados a emprestar sua colaboração ao núcleo do poder municipal, acabavam enxotados não exatamente pelo prefeito, mas por uma estranha luz que parecia iluminar – ou não – seus pensamentos e decisões.

Pressão cresce e, com ela, as exonerações
Ao passar dos dias, o poder de fogo da primeira-dama, inevitavelmente, foi aumentando. Seus palpites e intervenções saltaram de esporádicos para constantes e os secretários de governo e assessores diretos foram virando alvos diretos. Um bom exemplo a ser citado foi o do advogado Carlos Sodré, ex-secretário particular do prefeito na primeira gestão, que em dezembro de 2005 pediu exoneração – o primeiro de uma série –, por se sentir desconfortável com algumas observações da primeira-dama.

Segundo Sodré, ele nunca teve nenhum problema pessoal nem com o prefeito nem com a própria Maria Luíza. “Sempre fui tratado com respeito. O problema foi no campo administrativo.

“E, o primeiro erro do prefeito foi permitir que ela (Maria Luíza) tivesse tanto espaço e poder. Afinal, foi ele quem foi eleito pela população. Ele que tem por obrigação gerir os destinos da cidade, mas, com o desejo de ajudar, ela acabava interferindo em tudo. Por interferência dela, foi criado um clima de dificuldades até para mim.

Quando percebi que o clima era muito ruim, já que ela interferia em tudo, até na hora do almoço, pedi para sair”, relembrou. Ainda, segundo Sodré, cerca de 156 nomeados do primeiro e segundo escalão já foram demitidos por interferência de Maria Luíza.

“Para comprovar, basta pegar o Diário Oficial do Município e o maior detalhe é que, no afã de ajudar, ela interfere no governo sem pedir segredo. A primeira-dama acaba se metendo em tudo. Ou seja, com ela por perto, quando os meus males forem velhos, os de alguém serão novos”, desabafou.
Nos bastidores do poder credita-se à primeira-dama a saída de valiosos quadros, auxiliares que muito contribuíam com a gestão municipal, mas acabaram agastados com algumas intervenções de Maria. Entre eles, é possível mencionar entre os casos mais recentes os dos secretários José Carlos Brito (Saúde), André Curvello (Comunicação), Carlos Ribeiro Soares (Educação) e Fábio Mota (Serviços Públicos), alguns da cota do PMDB, antigo partido de Maria Luíza, pelo qual ela tomou “ódio mortal”, ao se desentender com o líder da sigla, Geddel Vieira Lima.

O caso de Curvello, que também não resistiu às pressões e entregou o cargo, após ter pedido demissão quatro vezes, foi um dos mais emblemáticos. Sua saída teria sido gerada após uma resposta da Secretaria de Comunicação sobre um assunto polêmico ligado à gestão municipal.

A nota teria deixado o prefeito numa situação delicada e, sem hesitar, a primeira-dama partiu em defesa do marido e criticou a posição da Secom, leia-se de Curvello, de forma aberta.

No que diz respeito a José Carlos Brito, circula nos bastidores que a sua saída se deu pelo simples fato de Maria querer participar mais de perto da gestão do Fundo Municipal de Saúde e Brito ter batido de frente por ser o titular da pasta. Este teria sido o estopim para sua cabeça ir a prêmio. Já no caso do secretário Fábio Mota, classificado pelo prefeito como um dos seus melhores quadros, também teria saído por pressão da deputada Maria Luíza, simplesmente por fazer parte da cúpula dos Vieira Lima.

Assim, técnicos de renomada qualificação acabaram defenestrados de posições estratégicas da máquina municipal sem uma explicação muito lógica. Outros preferiram pedir as contas e tomar outro rumo por constatarem que estavam entrando numa perigosa rota de colisão com a primeira-dama, onde haveriam de pagar um preço altíssimo por mais algumas semanas ou meses de sobrevida. E, fincado na sólida estrutura familiar, o prefeito seguia e segue a ouvi-la em momentos delicados ou, muitas vezes, nem tanto.

Sempre presente com palpites temidos
A figura muitas vezes invisível, mas sempre presente, da primeira-dama foi criando no mundo político uma sensação de que o que era acordado com João muitas vezes sucumbia diante de uma eventual resistência de Maria, da voluntariosa e sempre voltada a ajudá-lo Maria, mas, para muitos, de alguns palpites infelizes ou posições emocionais, incompatíveis com a gestão de uma capital como Salvador.

“Não é justo dizer que ela viva a conspirar ou a querer, em algum momento, o mal para o prefeito ou para a cidade. Ela apenas exagera em seus palpites, sufoca o prefeito em momentos onde seu bom senso seria o melhor conselheiro e ela acaba sendo ouvida. E desandando tudo que ia muito bem para frente. E com a cadeira de deputada, aí é que a coisa ficou pior ainda”, desabafa um ex-auxiliar de João.

No campo político, porém, esses palpites são tidos como “temidos” pela pequena margem de acertos e por tornar acordos longamente negociados ou cuidadosamente costurados susceptíveis de um rompante de Maria.

“Ela age guiada pela intuição feminina, mas deixa que o emocional fale mais alto. Com isso, em vez de interpretar uma situação levando em conta os vários elementos que a compõem, vai logo se posicionando, desfazendo alianças ou trabalhando para que elas não durem muito. Seu desejo de ajudar a faz querer exercer um poder incompatível com o que é de direito na máquina municipal, e quando não é ouvida começa a afiar uma potente e fatal guilhotina, independente do brilho que emane da cabeça a ser decapitada”, dispara outro destacado personagem da vida pública baiana.

Na visão da líder do PT na Câmara, Vânia Galvão, se isso, de fato, estiver ocorrendo, as recomendações de Maria Luíza ao prefeito, sem dúvida, são de péssima influência.
“Afinal, a cidade enfrenta uma grave crise. Portanto, o conselho que dou a ela, como representante da classe feminina, é que deixe o prefeito exercer o seu papel, que as urnas lhe destinaram”.

E Sodré sentencia: “tem que haver uma força-tarefa de todos os partidos pelo bem de Salvador para garantir a governabilidade na cidade. Contudo, sem a intromissão de Maria Luíza”, reiterou.

jan
19


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Texto publicado ontem (18), no blog Tribuna Livre

Artigo/Elis

Na memória feito tatuagem

Viviane Moreno

Amanhã (hoje, 19/1) faz 25 anos que Elis Regina, uma das maiores intérpretes da música brasileira (para muitos, a maior), se foi, aos 36 anos, supostamente por complicações que envolveram overdose de cocaína e abuso de álcool. Vários relançamentos e merecidas homenagens não deixam a data passar em branco.

Encerrada prematuramente, a trajetória da cantora começou cedo. Elis nasceu em Porto Alegre, em 17 de março de 1945. Com apenas 11 anos, cantava na Rádio Farroupilha. Assinou o primeiro contrato profissional, na Rádio Gaúcha, em 1959, e no ano seguinte foi para o Rio de Janeiro, onde gravou o primeiro compacto, pela Continental.

Com a missão fazer frente a Celly Campello, da concorrente Odeon, Elis estreou em LP em 1961, aos 16 anos. «Viva a Brotolândia», assim como «Poema de Amor», de 1962, trazia calipsos, rocks e boleros. A vida toda, Elis rejeitou esses dois discos, agora relançados pela Som Livre.

Em 1964, foi cantar no Beco das Garrafas, reduto da bossa nova, onde aprendeu com o bailarino americano Lennie Dale a célebre coreografia que lhe valeu o apelido de «Hélice Regina». Contratada pela TV Rio, passou a trabalhar ao lado de Jorge Ben e Wilson Simonal, mas foi em 1965 que tornou-se conhecida nacionalmente, ao vencer o I Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior, defendendo a música «Arrastão», de Edu Lobo e Vinicius de Moraes.

Foi ao lado de Jair Rodrigues, com quem gravou três volumes de «Dois na Bossa», que Elis apresentou um dos programas musicais mais importantes da música brasileira, «O Fino da Bossa», que estreou em 1965, na TV Record.

A carreira solo da Pimentinha decolou com o disco «Elis», de 1966. Em 1969, intensificou sua carreira no exterior, fazendo shows nas principais capitais européias e latino-americanas. Em 1974, gravou, nos Estados Unidos, um de seus discos mais marcantes, «Elis e Tom». Curioso que, dez anos antes, atuando como diretor musical da gravação de «Pobre Menina Rica», peça de Vinícius de Moraes e Carlos Lyra, o maestro vetou a cantora, então com 19 anos, para o papel principal. «Essa gaúcha é uma caipira, ainda cheira a churrasco!», teria dito, sumariamente.

Entre 1973 e 1978, Elis teve em sua companhia o que seu filho João Marcello Bôscoli (músico, assim como os irmãos Pedro Camargo Mariano e Maria Rita) chamou de «quarteto mágico»: César Camargo Mariano (piano, teclados, arranjos e direção musical), com quem foi casada, Luizão Maia (baixo), Paulinho Braga (bateria, às vezes trocando baquetas com Chico Batera) e Hélio Delmiro (guitarra). Foi com esse elenco de craques que Elis realizou o grande show de sua carreira, durante 17 meses, entre 1975 e 1976, no Teatro Bandeirantes: «Falso Brilhante», relançado agora pela EMI, em DVD, junto de «Na Batucada da Vida» e «Doce de Pimenta».
Em 1979, participou do Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, e gravou um de seus maiores sucessos, «O Bêbado e a Equilibrista», de Aldir Blanc e João Bosco, dupla que lhe forneceria inúmeros sucessos, como «Caçador de Esmeraldas», «Mestre-sala dos Mares», «Dois pra Lá, Dois pra Cá».

Uma intérprete completa e excepcional

Viviane Moreno é jornalista

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