nov
08
Posted on 08-11-2009
Filed Under (Artigos, Claudio) by vitor on 08-11-2009

“Seu” Magno:”prazer da política verbal”
Magno
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PERFIL

ORA, MAGNO BURGOS

Claudio Leal

Nunca vi Magno Burgos pela primeira vez. O personagem se enroscou à primeira infância como o amigo de meu avô Luiz, ambos enredados em confabulações políticas na sala de visita. Havia na casa do Bonfim o uísque de “seu Magno”, sagrado e lacrado. No carrinho de bebidas, ninguém ousava sorvê-lo. E até se defenderia a inviolabilidade do gelo.

Esse tratamento antigo, “seu”, ressoava as docilidades da Santo Amaro dos maculelês e dos canaviais, transferidas aos modos urbanos da Bahia. Vitor Hugo Soares sorria ao ouvir “seu Magno”. Talvez lhe remetesse às cerimônias da pequena Glória, nas barrancas do São Francisco, onde a civilidade era também diversa.

No Bonfim, se o tempo me refluísse, surpreenderia Magno inteiramente “seu”: a camisa mal abotoada, a fumaça serpejante do cigarro, o uísque na mesa de folhas de tabaco. Sentado na ponta do sofá – evitava o recosto –, iniciaria a argumentação com um questionamento: “Mas, rapaz, o que esses cabras pensam?”. O tom pausado e veemente desenovelaria os fatos da semana ou da última executiva do partido. “Não é não, Magno”, ouviria o avô na contradita.

Às vezes interrompia os meus deveres escolares para assistir aos dois no teatro da grande política, a que ainda se praticava ao lado de Antonio Guerra Lima, Chico Pinto, Fernando Sant’Anna, Inácio Gomes, Jorge Medauar, Rômulo Almeida, Sérgio Gaudenzi, Ulysses Guimarães, Virgildásio Senna, Waldir Pires, tantos homens.

Entrevistar os políticos contemporâneos, por imposições do jornalismo, magoa as heranças dessa arquitetura de vozes, que me impunha o compromisso com o homem, a vida e os calores de um debate, e bem pouco com os delírios do poder. Penso na letra de uma música de Chico Buarque, “Trapaças”, composta para Ulysses Guimarães na campanha de 1989. Ela recupera o sentido dessa arte da conversa entre os egressos do MDB (mais lá atrás, PSD e PTB), com mil intenções escamoteadas por gentilezas mútuas, regada a idealismos passionais, mas nada ingênuos: “Contigo aprendi/ A perder e achar graça/ Pagar e não dar importância/ Contigo a trapaça/ Por trás da trapaça/ É pura elegância”.

Como era elegante esse jogo de acenos. Magno Burgos transmitia o prazer da política verbal, do manejo adequado do humor, da língua, nas situações mais tensas. Suas tribunas: os cafés e os bares. Havia a lenda do terceiro uísque. Depois dessa dose, ele elevava a polêmica às alturas, fazia provocações sarcásticas. Pude comprovar que isso não passava de uma lenda. Magno polemizava somente a partir do primeiro copo. Nos últimos anos, nem precisaria beber. Balançava a cabeça, como quem abatia a estupidez no ar, dava um riso nervoso e indagava: “Você não está vendo que não sou nenhum idiota? Ora, senhor”. Irredutível em suas teses para ser generoso em todas as coisas vãs.

A quem acompanhou a paixão diária pelos destinos brasileiros, ouvindo-o cantarolar Ary Barroso depois de um debate ferrenho, a insinuar o valor da amizade acima das opiniões, a morte de Magno Burgos enternece, num desconsolo. Nele transparecia o mais próximo amigo dos filhos Daniel, Cristiano e Leonardo, pela jovialidade da interlocução, sempre sábia e repleta de lugares-incomuns. Ao contrário de Mallarmé, leu todos os livros e não tinha a carne triste. “Melhor andar à toa do que ficar parado à toa”, dizia, lembrando a frase do pai, antes de propor uma água de coco.

Se você tivesse o jornalismo por ofício, como este escrevinhador, Magno encarnaria o vulto do poema de João Cabral de Melo Neto, “A Willy Lewin morto”, dedicado ao intelectual pernambucano, decisivo em sua formação (apresentou-lhe os poetas surrealistas): “Se escrevemos pensando/ como nos está julgando/ alguém que em nosso ombro/ dobrado, imaginamos…”. Ele materializava esse fantasma da escrita, o homem que prelê o que fazemos, pairando sobre nosso ombro, de quem buscamos “o sim e o desagrado”.

E havia a indicação de livros, de artigos, de revistas. Seus duelos livrescos com Guerrinha: Eça e Machado, estilo e conteúdo, Balzac e Flaubert. Lembro-me de ouvi-lo aconselhar meu pai: “Chegou a hora de você ler Heródoto”. Indicou-me “A curva da estrada”, do romancista português Ferreira de Castro. A curva do livro era a que se insinua ao político em fim de carreira, tentado a trair os princípios. A sabedoria da renúncia ao poder – o que o estimulava a comparar o personagem Soriano a Chico Pinto, precocemente afastado da política. Corri os alfarrábios da Praça Tiradentes, no Rio, em 2005. Lá estava o volume de Ferreira de Castro, em edição portuguesa, com a aquarela difusa na capa: braços levantados, homens engalanados, a bandeira vermelha. Meti o livro na mala e fui ali perto ao lançamento de José Saramago, “As intermitências da morte”. Vendo-me sobraçar o romance do outro português, pedi-lhe a opinião. Folheou “A curva da estrada”, risonho.

– Líamos muito há uns anos. Mas hoje está um tanto superado.

Ferreira de Castro antecipou um desencanto com o socialismo quando Saramago ainda estava investido de ilusões ideológicas. Magno divertiu-se com a reação do Nobel de Literatura, mas reafirmou o valor do livro para qualquer homem público.

O comportamento que mais o irritava era ver alguém se declarar “sem lado” (Olívia Soares lembrou esse aspecto no necrológio). Uma tarde presenciei seu ataque a um desconhecido contrário à tríade MST-Lula-Esquerda, mas disposto a pairar sobre o PT e o PFL. “Pare de dizer que você não tem um lado”, reagiu Magno. “Um fascista e um comunista se conhecem de longe. Você é um fascista, eu sou um comunista, nunca vamos nos entender!”. Pegou os jornais, “boa tarde, meu filho”, e foi embora. Minutos depois, espreitou a mesa e me surpreendeu novamente sozinho. “Era só pra me livrar daquele chato. Eu não agüento, não…”.

Agora que a morte nos impõe um sentimento uniforme, elaboro mil teorias para explicar essa existência tão original, firme na subversão do cotidiano pelas leituras de contracorrente, inversas às dos jornais. Apesar de ele ter sido vereador em Londrina, vislumbro em Magno um daqueles personagens de Balzac, prenhe da História e ocupado nos desvios da corte, entretanto mais interessado nos bastidores, certo de que o poder absoluto lhe valeria menos do que a observação livre da comédia humana. Preferiria freqüentar as tertúlias da marquesa de Listomère do que integrar o governo de Napoleão. Não serei incompleto: Magno desejaria a companhia de Napoleão num jantar da marquesa. Era um afinado conhecedor do corso, de Balzac e dos pais fundadores dos Estados Unidos.

Quem lhe saboreou as frases? “Há uma grande diferença entre os homens da minha geração e a garotada que foi para a luta armada. Quando nós acordamos para a política, caímos numa democracia, a de 1946. Os garotos da guerrilha, quando despertaram para política, caíram numa ditadura, a de 1964. É bem diferente.” Numa crítica ao caudilho gaúcho: “Brizola é aquele tio que conquistou o direito de mijar na sala”. Antecipando-se ao desconcerto de um amigo quase obrigado a aplaudir o discurso de uma adversária: “Não precisa aplaudir essa não. Deixa comigo. De palmas eu sou ótimo!”. E mais: “Se ele for candidato ao Senado, votarei no suplente”. Meu irmão, Luís, outro interlocutor contumaz, testemunhou sua proeza de preservar, durante décadas, a primeira e a última página de “Thais”, romance de Anatole France: “Naquele tempo o deserto era povoado de anacoretas”, desatou a ler de dentro.

O escrever tem as danações de apaziguar Magno, trancafiá-lo em julgamentos lineares, em sentenças sobre sua ausência nos cafés. Somos trezentos, trezentos e cinqüenta, e nada alcançáveis por palavras. Bem mais inglório o desafio da escrita quando o ausente é uma presença em nós refletida, na incerteza do sim, do desagrado e do silêncio. Ora, senhor.

Claudio Leal, jornalista , mora em São Paulo e trabalha na revista digital Terra Magazine.

nov
06

Burgos:”ânsia renovadora e libertária”
Burgos
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MEMÓRIAS, ESPANTOS E SAUDADES

Claudio Leal

Morre Magno Burgos. Memórias, espantos e saudades. Por ora, recupero uma lúcida análise do amigo, da época da transição democrática. Para aqueles que o conheceram e os que não saborearam sua lucidez derramada em uísques e cafés, mas nunca turvada pelo cigarro, segue o texto que talvez tenha sido o preferido do nosso guru. Escrito no calor dos revanchismos e das pazes finais (definitivas?) da ditadura militar.

Em 12 de agosto de 1979, o jornalista Tarso de Castro republicou esse artigo de Magno sobre a Anistia no lendário Folhetim, da Folha de S. Paulo. A pedido do romancista e ex-editor-chefe da Tribuna da Bahia, João Ubaldo Ribeiro, Tarso introduziu o texto na edição especial às vésperas da votação no Congresso.

No arquivo da Folha, em São Paulo, tirei uma cópia da página do caderno cultural, dividida por Ubaldo e Magno: “Um ato de coragem. De generosa coragem”. Belo desfile de erudição e equilíbrio, palavras que se projetam para o Brasil contemporâneo, quando se discute os limites da anistia a torturadores. A seguir, a apresentação de Tarso e o artigo de Magno. (Claudio Leal, jornalista, para Bahia em Pauta))

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“Na terça-feira, dia 7, o jornal ‘Tribuna da Bahia’ trazia um artigo do seu comentarista econômico Magno Burgos, em que ele surpreendia os leitores ao deixar de lado o emaranhado de temas que envolve a sua área para se debruçar sobre a questão da Anistia. Apesar de concluir, logo no início, que é ‘mais fácil lutar pela anistia ampla geral e irrestrita, do que escrever sobre ela, porque muitos já o fizeram, praticamente esgotando o assunto, com talento e muito amor’, Magno Burgos acrescenta em seu artigo ‘Conviveram em democracia’, uma contribuição lúcida e apaixonada à análise do tema. Comovido, João Ubaldo Ribeiro passou a mão na tesoura e enviou para o Folhetim, o artigo de Magno Burgos. E nós o transcrevemos aqui em seus principais tópicos. Tem razão o João Ubaldo. Nosso leitor deve tomar conhecimento dessa contribuição do Magno Burgos, justo no momento em que está nas mãos do Congresso a decisão de uma Anistia sem adjetivos, que ajude esta Nação a reencontrar-se com a sua história.”

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Conviveram em democracia

Por Magno Burgos

A luta pela anistia é incessante ao longo da História. Desde o seu etmo “Amnestia” (esquecimento) do fecundo gênio grego, no arcontado de Solon, às lutas do CBA no Brasil de hoje, o homem agitou-se movido pela ânsia renovadora e libertária, em face das idéias dominantes. Por isso, em todas as épocas e em todos os meios, os lutadores pela anistia dos vencidos desses embates, escreveram páginas de heroísmo e desenvolveram a teoria do esquecimento do delito político, deixando à História o julgamento dos acontecimentos e dos personagens.

Muitas vezes, no rolar do tempo, o julgado, o penalizado, o bandido torna-se o herói perante a História. Outras tantas, as idéias que produziram mártires, quando triunfantes, produzem vítimas.

Ser cristão era crime hediondo no tempo dos césares e pagava-se na arena com a vida. Já na Idade Média, não ser cristão era crime igualmente hediondo e pagava-se com a vida nos tribunais da Inquisição.

Esta tem sido a dolorosa contingência da vida em sociedade.

No Brasil, não tem sido diferente. Somos herdeiros de uma história pontilhada de lutas fratricidas pela disputa do poder político, culminando todas, passada a refrega, pela anistia ampla, geral e irrestrita.

Assim, no Império, foram anistiados os Cabanos, os Balaios, os Farrapos, os Praieiros etc. Na república sucedem-se as anistias desde 1892, que completam uma série de dez ou doze, incluindo Aragarças e Jacareacanga.

Destaque-se para glória do homem brasileiro, que todas foram amplas, gerais e irrestritas, porque alcançavam todos os delitos políticos, todos os condenados, procurados e exilados, sem qualquer restrição ao exercício e às vantagens da atividade anterior, quer militar quer civil.

Tanto assim que exercitando a anistia, esta Pátria levou à Câmara, ao Senado, ao Ministério do Exército, aos Governos de Estados e até à Presidência da República, cidadãos anistiados como: Euclides Figueiredo (2 vezes), Filinto Muller, Estilac Leal, Octávio Mangabeira e Gaspar Dutra.

Isto demonstra, que na melhor tradição brasileira, os caminhos do poder político passam pelos cárceres, pelo exílio e pela anistia.

Vai daí, a anistia agora proposta pelo general Figueiredo é indigna da tradição que por duas vezes anistiou o seu pai. É mesquinha e covarde porque nem tudo esquece e nada repara. Por ela seu pai não seria deputado, nem Gaspar Dutra presidente da República.

Os jovens que empunharam armas, assaltaram bancos e mataram e morreram, o fizeram contra um Governo violento e ilegítimo, que seqüestrou, torturou e negou o habeas-corpus.

Tanto é crime seqüestrar um embaixador quanto um cidadão comum, não importa se o autor foi um jovem desesperado ou um Governo arbitrário.

A guerrilha urbana, que deixou um saldo de mortos e feridos, foi uma resposta à violência institucionalizada. Talvez ingênua, talvez intempestiva, mas sem dúvida heróica e essencialmente política.

O conceito universal de terrorismo que se aplica às Brigadas Vermelhas, não é o mesmo para a OLP nem seria meses atrás para os sandinistas hoje juízes dos seus algozes.

Com efeito, as Brigadas Vermelhas atuam numa sociedade livre, sem qualquer restrição ao pensamento ou à atividade política, ao contrário do que ocorria no Brasil onde tudo era proibido pela repressão, inclusive pensar e discordar.

Mais do que pragmático, hipócrita e frágil, o regime político que reconhece a OLP e nega anistia aos jovens que a ele resistiram a pretexto de haverem cometido crime de sangue. Não que seja incorreto o reconhecimento da OLP mas, enquanto não for concedida internamente a anistia ampla, geral e irrestrita, o gesto não será mais do que uma barganha imoral, indigna do povo brasileiro e dos combatentes palestinos.

Rui Barbosa, combatendo uma proposta de anistia restritiva, do alto do seu saber jurídico chamou-a de “anistia inversa e penal”.

Isto quer dizer que em anistia não há meio termo. Ou é ampla, geral e irrestrita ou é um instrumento punitivo.

A anistia, como reclama a Nação brasileira, jamais será uma dádiva. Em qualquer circunstância será sempre um ato de coragem. De generosa coragem.

Se o Congresso assim o entender e num gesto de grandeza transformá-la em ampla, geral e irrestrita, dele poderemos dizer como Tucídides, o grande historiador grego, escreveu sobre os estadistas de sua pátria: “Eles esqueceram e daí avante conviveram em democracia”.

(Magno Burgos – Transcrito da “Tribuna da Bahia” de 7/08/79).

out
02

joca
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João Carlos Teixeira Gomes, jornalista e escritor, filho do primeiro goleiro do Bahia, solta chispas e verbos contra os cartolas do clube baiano, numa entrevista carregada de atávica paixão tricolor, publicada pela revista digital, Terra Magazine, com assinatura do repórter baiano Claudio Leal (rubronegro dos bons). O tricolor de aço está ameaçado de voltar à Série C e vive colapso administrativo. Isso, para Joca, é um fenômeno social que requer reação cívica dos baianos como no 2 de Julho. Bahia em Pauta reproduz a entrevista, na íntegra, para seus leitores. Confira. (VHS)

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Claudio Leal
De Salvador (BA)

Alcançava todas as bolas. No jargão futebolístico dos anos 30, o primeiro goleiro do Esporte Clube Bahia, Teixeira Gomes, era “uma antena”. Pegava tudo. Naquela tarde do Campo da Graça, mítico e extinto gramado de Salvador, a antena tricolor contrariou o epíteto e sofreu um frango. Ora vá, torcida. O corpulento goleiro passou a reagir às vaias com bananas e ofensas. No campo em que, anos mais tarde, o cronista Antonio Maria irradiaria outras pelotas, ele seria capaz de irromper uma batalha para honrar sua fama de arqueiro. Revoltados, os torcedores avançaram contra Teixeira Gomes e suas bananas.

Hora do folhetim: à beira do gramado, num carro, o dono do cinema Jandaia, João Oliveira, acompanhava o jogo com suas filhas, como num corso carnavalesco. Em solidariedade, ofereceu abrigo ao fugitivo no automóvel, ao lado de suas pequenas. Desse frango nasceria um casamento: entre respirações sobressaltadas, Teixeira Gomes se enamorou por Célia, uma das filhas de Oliveira.

O escritor e jornalista João Carlos Teixeira Gomes nasceu dessa fuga e desse encontro improvisado. Nascido em 1936, filho de um dos primeiros ídolos do Bahia, Joca, como é conhecido desde os tempos da Geração Mapa – protagonizada pelo cineasta Glauber Rocha -, deve ao tricolor baiano o primeiro respiro de vida. Agora que o clube esboça um retorno à Série C, depois de perder em casa para o Duque de Caxias (2×1), e vive uma decadência sem precedentes, Joca se integra atemporalmente ao Batalhão dos Periquitos, grupo de baianos que atuou no expurgo das tropas portuguesas em 1823, para conclamar:

– Que a torcida do Bahia incorpore o espírito revolucionário dos baianos do 2 de Julho e se una nas ruas, nas praças, pressionando nas rádios, na internet e nos jornais, os incompetentes que afundam um clube glorioso, para estabelecer a grande e definitiva reação, pois o Bahia hoje depende, exclusivamente, do amor e do poder da sua torcida.

Autor da melhor biografia de Glauber e de competente ensaio sobre a obra de João Ubaldo Ribeiro, Teixeira Gomes promove disparos telefônicos aos amigos a cada derrota humilhante. Fundado em 1931, o Esporte Clube Bahia caiu para a Terceira Divisão em 2005 e neste outubro beira outra vez o rebaixamento para o quinto círculo do inferno. O escritor ressalta: a crise do tricolor é um “fenômeno social”.

– O Bahia não é apenas um clube esportivo, mas uma força social no Estado da Bahia.

Presidido pelo deputado federal Marcelo Guimarães Filho (PMDB) – primogênito do empresário e ex-deputado preso pela Polícia Federal em 2007, Marcelo “pai” -, o clube é dominado há décadas pelo mesmo grupo, que não esboça afastamento e até absorve os opositores. Patrimônio alienado, trocas frenéticas de técnicos, atrasos no pagamento dos jogadores, humilhações sucessivas, constelação medíocre e continuísmo de cartolas. Teixeira Gomes diagnostica:

– São notoriamente pessoas absolutamente incompetentes para soerguer um clube que vem sofrendo uma desmoralização continuada e intolerável para sua imensa torcida. Basta vermos que as sucessivas diretorias incompetentes, dentro dessa linha de continuísmo, não foram sequer capazes de fazer do Bahia uma equipe de competência média para disputar os torneios locais e nacionais.

Leia a íntegra da entrevista com o tricolor João Carlos Teixeira Gomes, ex-editor-chefe do Jornal da Bahia e autor, entre outros livros, de “Tempestade Engarrafada”, de “Glauber Rocha, esse vulcão”, do best-seller “Memórias das Trevas” e do romance recém-lançado “Assassinos da Liberdade”.

Terra Magazine Em colapso administrativo, o Esporte Clube Bahia perdeu em casa para o Duque de Caxias e agora corre o risco de voltar para a Terceira Divisão. Filho do primeiro goleiro do clube e torcedor extremado do tricolor baiano, como o senhor analisa a derrocada do Bahia?

João Carlos Teixeira Gomes – É preciso notar, em primeiro lugar, que o Bahia não é apenas um clube esportivo, mas uma força social no Estado da Bahia. Basta que se dimensione a grandeza da torcida de um clube que, por si só, é capaz de encher um estádio das dimensões da Fonte Nova, como ficou patente para todo o Brasil, mais uma vez, no episódio da queda da arquibancada da Fonte Nova em 2007 (no jogo contra o Vila Nova). Ora, diante de um fenômeno dessa envergadura, é inconcebível que sucessivas diretorias incompetentes, notoriamente vinculadas aos interesses e às ambições do senhor Paulo Maracajá (ex-presidente do clube e atual conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios), venham levando em progressão ininterrupta um clube dessa força popular à completa desmoralização e à decepção profunda da sua torcida. O sofrimento hoje da grande massa que se identifica com o Bahia, pelas cores do clube e pelas suas tradições de vitórias, inclusive com dois campeonatos brasileiros, no rol de suas conquistas, é um fato que transcende a esfera puramente esportiva para se transformar num verdadeiro trauma da sociedade baiana.

Terra Magazine – O senhor fala em “trauma da sociedade baiana” e isso me leva a perguntar se a decadência do tricolor não está vinculada à própria mediocridade cultural e econômica da Bahia, que vive uma estagnação cultural profunda?

Não vejo não. Vejo no plano esportivo. Como jornalista, mais do que como torcedor, vejo a decadência do Bahia como consequência de uma espantosa incapacidade administrativa, que foi acentuada a partir dos 7 x 0 que o clube tomou na Fonte Nova em jogo contra o Cruzeiro, na gestão de Marcelo Guimarães, o pai (em 2003). Dali começou o Bahia a despencar para as divisões inferiores, sem capacidade de organizar sequer um time de futebol que mantivesse ao menos as tradições locais, de conquistas de campeonatos na Bahia.

Terra Magazine – O atual presidente do clube, que contou com muitas simpatias políticas, é filho do ex-presidente Marcelo Guimarães, que foi preso numa operação da Polícia Federal, a Jaleco Branco. A crise se origina também dessa incapacidade de se renovar?

Exatamente. Não tem havido renovação. A incapacidade de renovação administrativa se deve à permanência do grupo que, sob a chefia hoje dissimulada de Paulo Maracajá, incluiu depois uma figura sem a menor tradição no clube que foi o senhor Petrônio Barradas, sequenciando a desastrosa gestão do ex-deputado estadual Marcelo Guimarães e hoje continuada por seu filho. São notoriamente pessoas absolutamente incompetentes para soerguer um clube que vem sofrendo uma desmoralização continuada e intolerável para sua imensa torcida. Basta vermos que as sucessivas diretorias incompetentes, dentro dessa linha de continuísmo, não foram sequer capazes de fazer do Bahia uma equipe de competência média para disputar os torneios locais e nacionais. Há um dispêndio enorme de contratações de jogadores sem condições de vestir a camisa do Bahia, distanciados das tradições do clube, técnicos improvisados e, sobretudo, dispersando os recursos imensos que o clube angaria pela fidelidade da sua torcida. Medianamente administrado, com políticas realísticas em relação ao novo estágio do futebol brasileiro, o Bahia seria um clube auto-suficiente e com um substancial patrimônio físico.

E, no entanto…
Não tem nem mais acomodações dignas para seus jogadores, vai perdendo progressivamente o pequeno patrimônio que construiu ao longo dos anos, sem direito a nunca ter tido um grandioso estádio que suas tradições impunham. O conjunto desses fatos aponta para o absoluto despreparo da camarilha que ao longo de todos esses anos vem desgovernando o Esporte Clube Bahia, tendo chegado ao cúmulo de contratar um ex-dirigente do Esporte Clube Vitória (Paulo Carneiro), já expulso das fileiras do clube rival para comandar o setor de futebol do Bahia. Esqueceram-se de que esse mesmo dirigente, quando presidente do Vitória, humilhava a diretoria do Bahia nos jogos do estádio Barradão, não mencionando no letreiro sequer o nome do Bahia, que era simplesmente “o visitante”.

Paulo Carneiro, que agora foi defenestrado também do Bahia, afirmou que o tricolor tinha uma torcida de “suburbanos”. (risos) Essa eu não sabia! Ele punha “visitante” no letreiro…

Terra Magazine – Apesar da crise evidente, há uma movimentação de velhos opositores para aderir ao grupo de Marcelo Guimarães Filho. Alguns eram até raivosos. Como definir esse ensaio de adesão?

Uma coisa espantosa! Essa aproximação é uma coisa espantosa e infunde a desesperança entre a sofrida torcida do Bahia. Creio mesmo que, ao lado dos interesses permanentes de retorno do senhor Paulo Maracajá, apostando no caos para aparecer como salvador da pátria, está a ausência de uma oposição unida e capaz de trabalhar contra a atual diretoria para o soerguimento do clube. É um dos fatores que respondem pela permanência de longo tempo dos coveiros, porque não há uma proposta concreta de reação capaz de empolgar a torcida e levá-la outra vez para as ruas como em 2006. O torcedor do Bahia é hoje um desesperançado.

Terra Magazine – Você aceitaria ver um jogo do Bahia?
Para mim, ver o Bahia jogar sempre foi uma alegria imensa, pois me acostumei desde criança a ver o uniforme glorioso que meu pai vestiu como goleiro e fundador. Mas eu sou, sobretudo, amante do bom futebol, do futebol bem jogado, e os times que essas sucessivas diretorias incompetentes têm organizado nos últimos anos é de uma mediocridade de campos de interior atrasado.

Terra Magazine – Como se diz na Bahia, times pra “um baba”?
De babas, ou para o público do Sul do País, de peladeiros desastrosos.

Terra Magazine – Houve passeata de torcedores, protestos, mas há apenas, neste momento, uma apatia, um desalento. Qual o último recurso dos torcedores?

Uma boa pergunta. Em 1823, os baianos se uniram para expulsar os portugueses recalcitrantes, que permaneciam em Salvador e tentavam desunir o País. Que a torcida do Bahia incorpore o espírito revolucionário dos baianos do 2 de Julho e se una nas ruas, nas praças, pressionando nas rádios, na internet e nos jornais, os incompetentes que afundam um clube glorioso, para estabelecer a grande e definitiva reação, pois o Bahia hoje depende, exclusivamente, do amor e do poder da sua torcida, porque da sua diretoria há longo tempo só tem encontrado traição. Pois é isso exatamente o que são os diretores, a partir de Marcelo Guimarães pai e filho, Petrônio Barradas e todos os demais maracajistas (seguidores de Paulo Maracajá): traidores das glórias e de toda a rica trajetória do Esporte Clube Bahia.

set
12
Posted on 12-09-2009
Filed Under (Artigos, Claudio, Entrevistas) by vitor on 12-09-2009

Mãe Stella, admirada e seguida por Olyntho
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O texto a seguir sobre a morte do escritor da Academia Brasileira de Letras, Antonio Olyntho, foi publicada neste sábado, 12, na revista digital Terra Magazine.

Assinado por Claudio Leal, remete a uma entrevista realizada por telefone pelo repórter baiano com o imortal da ABL, publicada em outubro do ano passado, na qual Olyntho fala de sua estreita e antiga relação com os terreiros baianos de Candomblé, em especial com o Axé Opô Afonja, de Mão Senhora, conduzido atualmente por Mãe Estela.

Bahia em Pauta reproduz o texto de hoje e recomenda a entrevista de outubro em TM (http://terramagazine.terra.com.br).
(VHS)

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Claudio Leal

Morto neste sábado, no Rio de Janeiro, aos 90 anos, o escritor Antonio Olinto manteve vinculações profundas com o Candomblé baiano – talvez seja o último remanescente do grupo de artistas e intelectuais que incluía Jorge Amado, Dorival Caymmi, Carybé, astutamente incorporados ao Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador, por mãe Senhora (a ialorixá saudada por Vinicius de Moraes no “Samba da Bênção”).

Membro da Academia Brasileira de Letras, Antonio Olinto era também o mais velho Obá de Xangô do terreiro hoje liderado por mãe Stella de Oxóssi. No posto civil mais alto do Candomblé, ele tinha como confrades o compositor Gilberto Gil, o antropólogo Vivaldo Costa Lima e o professor Muniz Sodré. “Esses ministros eram antigos reis, príncipes ou governantes dos territórios conquistados por Xangô no país de Yôrubá”, explica o historiador Edison Carneiro em Candomblés da Bahia.

Em 2008, após a morte de Dorival Caymmi, Olinto concedeu uma entrevista a Terra Magazine sobre suas vivências nos terreiros baianos. Lembrou-se de sua amizade com pai Agenor Miranda Rocha (1907-2004), sacerdote e professor no Rio de Janeiro.

– … a Mãe Senhora era uma sábia. Muito inteligente, naquela inteligência natural do povo. E também foi aprendendo. Ela fazia uns discursos bem bons. Sabia falar. E preparou a menina, né? A Stella, que foi filha dela em tudo. Ela morreu e não foi ainda Stella, foi Ondina. Depois dela, todos nós nos reunimos e o Agenor foi jogar os búzios. Ela foi preparada por Senhora para isso.

Nesta entrevista, Olinto contou seu projeto de preservar as obras de arte reunidas em viagens à África, vasto acervo compartilhado com a esposa Zora Seljan.

– Temos aqui 200 esculturas africanas de madeira no meu apartamento. Nós fizemos uma exposição no Sesc do Flamengo e no Sesc de Madureira. Com a morte da Zora, eu fiz um instituto cultural Antonio Olinto, que foi aprovado pelo governo, e eu pretendo doar tudo isso para o instituto. Tenho 16 mil livros, mais essas 200 esculturas, pintura… não tem mais lugar pra pintura. Caixas e caixas com pinturas guardadas. Seria o Instituto Antonio Olinto com o museu Zora Seljan de Arte Africana.

Zora Seljan foi a primeira esposa do cronista Rubem Braga. E Olinto jamais se livraria de uma frase viperina do velho Braga: “Ela melhorou de marido, mas piorou muito de estilo”

Mario Lima: calor amigueiro
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OPINIÃO/LIDERANÇA

O som, a sesta e a fúria de Mário Lima

Claudio Leal

O líder petroleiro Mário Lima, vitimado aos 74 anos por um AVC, em Salvador, na sexta-feira (10), provou no sindicalismo o gosto épico da formação da Petrobras, das investidas pioneiras em território baiano ao mergulho cívico no Pré-sal. Afastado nos últimos anos das refregas diárias do Sindpetro (Sindicato dos Petroleiros da Bahia), o primeiro do setor no Brasil, do qual foi fundador, Lima guardava histórias à farta da era do sindicalismo brasileiro pré-1964, de JK a João Goulart.

Negro, prosa mansa, Mário Lima tinha acesso ilimitado aos gabinetes federais. Ele liderava o mais atuante sindicato de petroleiros – fonte de seus votos pelo PSB – e sabia amaciar radicais e pelegos; era “metade PSD, metade Coronel Reis”, define o jornalista e amigo Sebastião Nery, referindo-se ao chefe político de Glória (BA), cidade natal de Lima, às margens do Rio São Francisco.

Deputado federal constituinte na década de 80 (subia à tribuna com o capacete da Petrobras), Mário sustentou musculatura política até o golpe militar de 1964, quando foi preso e confinado na Ilha de Fernando de Noronha, em dependência próxima às dos governadores depostos Miguel Arraes e João de Seixas Dória.

A sede revanchista contra o sindicalista baiano não deixava de estar ligada ao máximo estreitamento de relações entre Estado e sindicatos. Jango permitia a Lima uma intimidade, um calor amigueiro, uma afabilidade, o que pode ser visto como uma artimanha do presidente-estancieiro, herdeiro incompleto de Getúlio Vargas. “Eu nem precisava bater na porta de Jango”, dizia Mário Lima.

Mas algumas vezes o ex-ministro Antonio Balbino bateu na madeira ao ver corroer a autoridade presidencial. Consultor-geral da República, Balbino ouviu um sindicalista dirigir-se ao Excelentíssimo Senhor: “Ô Jango, tu….”. Sentiu o ímpeto de raspar as paredes do Planalto ao ouvir outro visitante aconselhar Jango a não encaminhar um pedido ao consultor-geral: “Com esse cara estamos perdidos!”. Alvo da ofensa, Balbino aguardou a reprimenda de Jango, mas, ao sentir que esta não viria, tratou de soltar perdigotos e exigir respeito.

Mais cerimonioso nos lances de intimidade, Mário Lima liderou a campanha “Ou equipara ou aqui pára”, que exigiu o nivelamento salarial da Bahia com os trabalhadores do Rio e de São Paulo, em 1960. O governador Juracy Magalhães mandou cercar a refinaria de Mataripe, o centro petrolífero que lançava uma chama solitária nas noites imensas da Baía de Todos os Santos. Cobrindo a greve pelo Jornal da Bahia, Nery furou o cerco e testemunhou a coragem do “negro obâmico”.

De volta à redação, no Centro de Salvador, o jornalista político redigiu uma nota incendiária contra o governador baiano. “Juracy mandou a PM, que deu muitos empurrões. Ele dizia que não era mais o tenente com o revólver na mão, mas o general com o terço. Aí escrevi: Juracy bate de terço!”, conta Sebastião Nery, mais tarde um antijuracisista enragé. “Mário virou herói e foi eleito com uma votação extraordinária”.

Em 1º de abril de 1964, ao saber da ocupação da refinaria de Mataripe, Mário Lima foi cobrar notícias precisas do governador Lomanto Júnior sobre a prisão dos trabalhadores. Na escadaria do Palácio da Aclamação, travou um diálogo áspero com o secretário de Segurança Pública, Francisco Cabral, que já estava alinhado com os golpistas e ignorava as ordens de Lomanto.

Cabral mandou prender o deputado federal, abrindo uma crise de autoridade no governo. Correu o boato de que Lima teria ameaçado “explodir” Mataripe. Essa história contraria tanto o ar cordato do sindicalista como a impossibilidade tática da ameaça. Depois de ser lançado num poço solitário no colonial Quartel do Barbalho – um outro tipo de poço, embora também sujo de óleo -, viu a saúde minguar. Numa masmorra idêntica, estava o companheiro Nery.

Sequestrado, Mário aterrissou na Ilha de Fernando de Noronha – onde já estivera em degredo o jornalista Helio Fernandes -, convertida em cárcere dos inimigos do regime militar. Nunca chegou a trocar palavra com o pequenino Seixas Dória (o “réu sem crime”), mas interferiu pela transferência de Miguel Arraes. Alertou ao administrador da Ilha, o coronel Costa e Silva:

– Desculpe, coronel, mas vou dar um palpite. Tiraram o Seixas daqui. Sou jovem, estou sozinho, não tenho problema nenhum. Mas ficou o Dr. Miguel Arraes, um homem nacional, que já tem 50 e tantos anos. O senhor já pensou se ele tem um infarto? Se morre o Arraes? Por mais que o senhor diga que ele é um convidado do senhor, vão achar que ele foi morto em Fernando de Noronha…

Entre fumaças de charuto, o velho Arraes gostava de recordar esse espevitado conselho. Dali a dias o ex-governador pernambucano seria transferido para Recife – em seguida, o exílio.

Este é o Mário Lima público. Mas, que tipo! o homem dos bares.

Cassado, livre dos cárceres, ele viajou para São Paulo em 1965, disposto a comemorar o aniversário com os amigos Hélio Duque, José Wilson, Sebastião Nery, Domingos Leonelli e Nelito Carvalho, também escondidos na capital paulista. Destino: Bar Pilão, Arouche. Numa mesa do canto, tristíssimo, o cantor Carlos Galhardo (“com aquele cabelão de puteiro, mal pintado”, brinca Nery). Convidado de Lima, Wilson berrou, porreteiro: “Olha quem tá ali: aquele merda do Carlos Galhardo!”. Para evitar uma briga – e a chegada da polícia -, Lima ergueu a voz:

– Fora daqui! O senhor não tem dignidade para ficar em nosso meio!

Ali restaram os dignos, sorvendo caipirinhas. A namorada de Nelito, Marilu, era cantora do bar e atendeu ao pedido cavalheiresco de um trovador: emprestou seu violão para ele tocasse. Na terceira música, o desconhecido recebeu o abraço consagrador de Carlos Galhardo, e mais os aplausos da mesa dos subversivos. Empolgado, o cantor anônimo mandou servir uísque para os fãs. Ainda mais grato, sentou na mesa, sorriu e pagou a conta da noitada. A caminho de casa, Mário vomitou no táxi de um português. “Ou pagam a limpeza ou chamo a polícia!”, clamou o chofer. Uma furtiva cédula foi jogada no banco traseiro e todos os amigos sumiram nas ruas do Centro.

Repórter da Folha de S. Paulo, Hélio Duque decidiu pegar o jornal rodado na madrugada. Lá estava uma entrevista do cantor anônimo. Bem, este era seu segundo ofício. Durante o dia ele atuava como delegado-geral de Ordem Política e Social de São Paulo, cuja especialidade não era servir uísque, mas fazer cantar os inimigos do regime…

Outro Mário Lima numa mesa do Chez Bernard. Em 2006, num almoço, embalado por um vinho, levantou-se da mesa e… desapareceu. Corremos os olhos nas outras mesas – nem sinal. Na porta do restaurante, em Salvador, Mário reaparece: fazia uma sesta dentro do carro. Era a metade Coronel Reis que dormia, a evocar as tardes nas varandas do São Francisco.

Após duas horas de discursos de amigos, políticos e ex-sindicalistas, o líder petroleiro foi enterrado no sábado, 11 de julho, no Cemitério Jardim da Saudade, em Salvador. Nesse borbulhar de orações fúnebres, havia também o desejo de que Mário fosse dormir mais tarde.

Claudio Leal é jornalista, trabalha na revista digital Terra Magazine, onde este texto foi publicado originalmente (http://terramagazine.terra.com.br)

jul
06
Posted on 06-07-2009
Filed Under (Artigos, Claudio) by vitor on 06-07-2009

Lobo Antunes: feijoadas de Ubaldo
antunes

O repórter Claudio Leal passou o fim de semana no Rio de Janeiro recolhendo pérolas entre os participantes (escritores e público) da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Generoso, como sempre, o jornalista baiano oferece algumas preciosidades aos leitores do Bahia em Pauta, a exemplo das recordações do escritor português, Antonio Lobo Antunes, das feijoadas que o baiano João Ubaldo preparava na cozinha, com pés descalços, nas frias madrugadas de Lisboa. Confira.

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Claudio Leal

PARATY-RJ – Na mesa mais elogiada da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), sábado (4/7), o escritor português António Lobo Antunes contou ao jornalista Humberto Werneck sua amizade com os baianos Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, depois de confessar admiração pelo poeta e cronista mineiro Paulo Mendes Campos.

Lobo Antunes guarda o sabor de uma temporada gastronômica “portuguesa” de Ubaldo. Quando residia em Portugal, o autor de “Sargento Getúlio” chamava o amigo para pernoitar uma feijoada. “Ele fazia a feijoada às duas horas da manhã, de chinelo, no inverno, como se estivesse no verão da Bahia…”. O prato era servido às 4h.

***

O romancista português, que lançou recentemente “O Meu Nome é Legião”, lembrou outra boutade ubaldiana. João Ubaldo não escrevia nenhuma obra, em Portugal, mas respondeu à cobrança de um jornalista: “Tenho escrito, sim. Meu pseudônimo é António Lobo Antunes”.

***

“Era um homem maior que sua obra”: Jorge Amado, “um homem sem inveja”, pelos olhos de Lobo Antunes, o que tanto soa como um elogio quanto um drible em avaliações críticas sobre os romances do baiano que o consideva um “filhote”.

“Por que você vive me beijando, Jorge?”.

“Porque gosto de lamber os meus filhotes…”

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No sábado, o craque do jornalismo Gay Talese autografou seus livros, lançados no Brasil pela Cia. das Letras, no espaço dos autores da Flip. Por fora da festa, uma mulher puxava a filha pelo braço. “Mãe, quem é?”. Depois de olhar o alinhado Talese, metido num impecável terno de filho de alfaite, a mãe deu o parecer: “Ah! É o (Ariano) Suassuna…”

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