fev
10

Carroças na mudança:fim da tradição

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DEU NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINEtERRA

Claudio Leal

Em reunião no Ministério Público da Bahia, nesta quarta-feira, os organizadores do tradicional desfile carnavalesco Mudança do Garcia, que vai às ruas de Salvador há mais de 80 anos, se comprometeram a não usar mais carroças puxadas por animais.

O bloco de protesto, nascido no bairro popular do Garcia, se tornou um patrimônio do Carnaval baiano e, com essa medida, pode iniciar sua decadência, já que o uso de jegues, cavalos, burros, que carregam cartazes com críticas a políticos, ficará proibido a partir de 2011. A partir deste ano, haverá restrições.

Veja também:
» Bahia: Antropólogo critica ecologistas e quer encontro de jegues
» Blog das Ruas: Em bloco de carnaval, “Jegue de Cueca” casa com “Jega de Calçola”
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Por pressão das entidades ambientalistas Terra Verde Viva e Célula Mãe e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), seção Bahia, o promotor de justiça da 2ª Vara do Meio Ambiente, Heron de Santana Gordilho, promoveu uma reunião com os organizadores do único desfile de protesto da folia de Salvador.

Barrados pelo MP, burros não irão à Mudança do Garcia (Foto: Vagner Magalhães/Terra)

– Este ano não vai ter figura de destaque, isopor, nada. Nem cavalo nem nada. Não foi só o Ministério Público, não! Estava um monte de gente lá… OAB, ambientalistas… Batemos na tecla da tradição, mas eles alegaram que a tradição não pode prejudicar os animais – diz Lorito, um dos organizadores da Mudança.

Questionado se a festa não se tornará careta, por radicalismos de ambientalistas, Lorito lamenta a proibição, mas diz que lei é lei.

– Eles alegam que só os animais estarem no meio de tanta gente, o som, o batuque, isso estressa. E o calor… Não pude falar nada. Foi constatado pelo veterinário: o animal ouve 20 vezes mais do que a gente. Vou dizer que não tem? Já vi os caras das Muquiranas (bloco de travestidos) pegarem nos testículos do cavalo. E uma mulher deu “uma tapa” no animal… Essas coisas acontecem.

Para o organizador, a Mudança se “descaracteriza” com a interferência do MP.

– Não acho que a Mudança vai acabar, mas ela se descaracteriza. Fica bonita de carroça! A gente vai ter que colocar a Mudança à altura dela. Estamos contando com todo mundo pra solucionar esse problema – relata Lorito.

Em tempo: na histórico desfile da Independência na Bahia, o 2 de Julho, há também a presença de carroças, jegues, burros, cavalos… E demais classes. Ainda não foi baixado um novo mandamento.


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Neste 5 de janeiro, data do aniversário da jornalista Maria Olívia Soares, um dos sustentáculos deste site blog , uma música só não basta para começar o dia. Bahia em Pauta então traz duas canções com o perfil da querida aniversariante, a partir de observações e sentimentos de outros dois colaboradores que a enxergam sob prismas diversos e de observatórios diferentes. Os dois, porém, Claudio e Regina, falam com o mesmo afeto e admiração que Olívia desperta em todos que convivem com ela, ou simplesmente a conhecem.

Emoção à flor da pele, que se expõe às vezes em silêncio, outras aos gritos, ela cativa a todos. Velhos e novos.Irmãos, parentes, aderentes, amigos, colegas de trabalho, companheiros de vida , de muitas lutas, de horas de prazeres, de tempos de dificuldades. De tempos de dificuldades principalmente, pois ser solidária é uma de suas maiores qualidades.

Tem outras, e defeitos também, mas deixo a palavra com Regina, que de San Francisco, na Califórnia, manda a música “O Quereres”, de Caetano, e mensagem para a aniversariante, que passa no Rio de Janeiro, cidade de seus encantos e amores, o dia de seu aniversário. Beijos e longa vida para ela pelo bem e para a alegria de todos nós que a amamos e admiramos.

(Vitor Hugo Soares, editor, Margarida, revisora, e toda equipe de BP)
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Regina com a palavra:

“Escolhi essa musica -O Quereres – para dedicar Maria Olivia no dia do seu aniversário, por ser bem representativa, na minha opinião, do seu ser. Olivia é sempre mais do que a gente quer ou espera, supera todas as expectativas. Guerreira, generosa, antenada, muito bem informada, sensibilidade a flor da pele, amiga leal, entrega-se de corpo e alma a suas causas numa dedicação total aos que foram, pela sorte, menos favorecidos.

Algumas pessoas agem com o coração, outras com a cabeça, Olivia, eu diria, age com as vísceras, todo seu ser se agita e contribui para seus atos. Sem alardear e nem mesmo aceitar credito, ela é capaz dos mais generosos gestos de carinho, que somente quem a conhece pode entender. Precisamos de muitas pessoas como essa extraordinária lutadora, mas, infelizmente, esse “artigo” esta em falta.

Muitos anos de vida, com saúde e muita força pra gozar seus prazeres, como o Rio, que entrou na sua vida pela veia do coração e a sua sempre amada Bahia. Muito amor e OBRIGADA por existir.

REGINA SOARES
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De Cláudio Leal, um amigo querido da aniversariante e do BP:

Acho que Olívia gostaria desse vídeo, no aniversário. É o reencontro de Cartola com o pai, depois de uma briga de décadas. O pai pede para ele cantar “O mundo é um moinho”. De revirar o coração. Cartola, disse-me Olívia, foi a única pessoa a quem ela já pediu autógrafo, no projeto Pixinguinha.

abraços,
Claudio.

Manoel Ribeiro, OAS: defesa da ponte

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“Bomba! Bomba!”, diria o colunista Ibrahim Sued se vivo estivesse:
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A revista degital Terra Magazine acaba de postar matéria sobre a antrevista do engenheiro Manoel Ribeiro Filho, da OAS, publicada nesta terça-feira no jornal A TARDE, em defesa do projeto da empresa em quer ele trabalha, de construção da ponte Salvador-Itaparica, anunciada pelo governo Jaques Wagner. A construção da ponte é condenada com veemência pelo escritor João Ubaldo Ribeiro.

Diz a chamada de Terra Magazine para a matéria assinada pelo repórter Claudio leal:

“Ponte polêmica: Diretor da OAS, irmão de João Ubaldo diz que construtora quer fazer condomínios fechados em Itaparica. Polêmica é pouco. Vai pegar fogo, é só aguardar os próximos lances.

BAHIA EM pAUTA reproduz texto da TM.

( http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,014242025 )

(Postado por Vitor Hugo Soares)

Claudio Leal

Em entrevista à repórter Katherine Funke, no jornal A Tarde desta terça-feira, o irmão do romancista João Ubaldo Ribeiro, o engenheiro Manuel Ribeiro Filho – diretor da construtora OAS na Bahia, Sergipe e Alagoas – ofereceu detalhes do projeto da empresa para a construção da bilionária ponte Salvador-Itaparica. A empreiteira Odebrecht também realiza estudos.

Entre as metas da OAS, está a de construir condomínios fechados na parte central da Ilha de Itaparica, o paraíso ecológico baiano. “O irmão do atual dono da cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras diz que o estudo ‘ainda hiperpreliminar’ da OAS prevê preservação rigorosa da contracosta, criação de Parque Estadual no Distrito de Baiacu (reserva de mata atlântica, onde ficam terras que pertenceram ao avô) e condomínios fechados na parte central da ilha, que já estaria ‘degradada sob o aspecto ambiental'”, escreve a repórter de A Tarde. A ponte teria o comprimento de 12 km. Ubaldo não quis comentar as declarações do irmão.

O governo baiano lançou o edital em 14 de janeiro e recebe propostas em até 60 dias. João Ubaldo Ribeiro denunciou, no artigo “Adeus, Itaparica” (republicado por Terra Magazine, com a autorização do escritor), a intenção de grupos empresarias de transformar Itaparica em uma “patética Miami de pobre”. Escreveu Ubaldo:

– As estatísticas são outro instrumento desses filibusteiros do progresso que em nosso meio abundam, entre concorrências públicas fajutas, superfaturamentos, jogadas imobiliárias e desvios de verbas. Mas essas estatísticas, mesmo quando fiéis aos dados coligidos, também padecem de pressupostos questionáveis. Trazem à mente o que alguém já disse sobre a estatística, definindo-a como a arte de torturar números até que eles confessem qualquer coisa.

O artigo motivou um movimento nacional em apoio ao romancista itaparicano e em defesa da Ilha de Itaparica e da Baía de Todos-os-Santos. Já assinaram o manifesto “Itaparica: ainda não é adeus”: Luis Fernando Verissimo, Chico Buarque, Cacá Diegues, Milton Hatoum, Ricardo Cravo Albin, Sonia Coutinho, Jomard Muniz de Britto, Hélio Pólvora, Edson Nery da Fonseca, Sebastião Nery, Hélio Contreiras, além de companheiros da “Geração Mapa” (aglutinada por Glauber Rocha), como o poeta Fernando da Rocha Peres, os artistas plásticos Sante Scaldaferri e Ângelo Roberto, o ex-procurador-geral do Estado Antonio Guerra Lima e o músico Walter Queiroz Júnior. Houve ainda manifestações de apoio do exterior.

O texto defende um debate amplo sobre o projeto, questiona a prioridade da obra e afirma que João Ubaldo não é uma voz isolada. Escritores e professores baianos reforçam o manifesto, a exemplo de André Setaro, Ruy Espinheira Filho, Ildásio Tavares, Paulo Ormindo e Roberto Albergaria. Ontem, o apoio de Chico Buarque ampliou as discussões em torno do megaempreendimento.

Em entrevista a Terra Magazine, o secretário de Infraestrutura da Bahia, João Leão (PP), definiu:

– Maravilha! Só que os escritores estão de um lado e o povo está de outro… Rapaz, se a população não tem concepção de urbanismo, só quem tem são os escritores? ( leia aqui).

Leia em Terra Magazine

Chico Buarque: Com Ubaldo por debate

DEU NO TERRA MAGAZINE ( http://terramagazine.terra.com.br )


Claudio Leal

O compositor Chico Buarque assinou nesta segunda-feira o manifesto em defesa do escritor João Ubaldo Ribeiro no debate sobre a ponte Salvador-Itaparica, anunciada pelo governo da Bahia.

Articulado por amigos, jornalistas e escritores, o texto “Itaparica: ainda não é adeus” já foi assinado por Luis Fernando Verissimo, Cacá Diegues, Milton Hatoum, Sonia Coutinho, Jomard Muniz de Britto, Hélio Pólvora, Edson Nery da Fonseca, Sebastião Nery, além de companheiros da “Geração Mapa” (aglutinada por Glauber Rocha), como o poeta Fernando da Rocha Peres, os artistas plásticos Sante Scaldaferri e Ângelo Roberto, o ex-procurador-geral da Bahia Antonio Guerra Lima e o músico Walter Queiroz Júnior.

O governo da Bahia pretende construir uma ponte de 13 km na Baía de Todos-os-Santos, ligando Salvador a Itaparica, a maior ilha marítima brasileira. Para o secretário de Infraestrutura da Bahia, João Leão (PP), “os escritores estão de um lado e o povo está de outro”, como afirmou em entrevista publicada hoje por Terra Magazine.

Com o apoio de Chico Buarque, alguns dos principais intelectuais brasileiros defendem um debate amplo sobre a construção da obra polêmica. Para João Ubaldo, se a ponte for construída, Itaparica entrará na zona urbana de Salvador e terá seu ecossistema gravemente ameaçado.

Diz a abertura do texto:

“Os abaixo-assinados, cidadãos brasileiros, encontraram no emocionante e esclarecedor artigo “Adeus, Itaparica” (…) argumentos consistentes e equilibrados para inaugurar um debate amplo sobre o anteprojeto de construção da Ponte Salvador-Ilha de Itaparica, anunciado pelo governo do Estado da Bahia. O itaparicano João Ubaldo, cujos romances puseram a Ilha na geografia literária brasileira e universal, é uma voz qualificada para questionar elementos sombrios e outros mais claros do empreendimento, previsto como bilionário para os cofres públicos e incerto para o destino ecológico e econômico da maior ilha marítima do Brasil. O autor de “Viva o povo brasileiro” não está sozinho em seus questionamentos”.

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jan
29

Emannoel Araujo: tombamento

DEU EM TERRA MAGAZINE:

CLAUDiO LEAL

Nas anotações de “turista aprendiz”, a bordo do navio Manaus, o escritor Mario de Andrade descreveu perplexidades ao avistar a encosta de Salvador, em dezembro de 1928: “Da vista de S. Salvador que a gente enxerga de bordo tem um pedaço bem no centro em que as casas se amontoam num estardalhaço de janelas, andares, telhados, parece mentira… não é mentira não, é estardalhaço”.

Se um viajante refizesse a trajetória do polígrafo Mario de Andrade, e na Baía de Todos-os-Santos existisse uma hipotética ponte de 13 km, entre a primeira capital do Brasil e a Ilha de Itaparica, o “estardalhaço” do casario certamente seria substituído pela visão de uma serpente de concreto.

Para preservar o conjunto dessa joia ambiental, o artista plástico Emanoel Araújo, fundador do Museu Afro-Brasil e ex-diretor da Pinacoteca de São Paulo, propõe a salvaguarda da Baía de Todos-os-Santos, que corre o risco de ganhar uma ponte bilionária anunciada pelo governador baiano Jaques Wagner (PT). Emanoel se associou ao escritor João Ubaldo Ribeiro na defesa da Ilha de Itaparica e do mar da Bahia.

– A Baía de Todos-os-Santos tem que ser tombada. Porque sempre foi motivo de relatos históricos de viajantes, como o de Maria Graham (escritora britânica, 1785-1842) e Maximiliano da Áustria, que descreve o esplendor. Não se pode simplesmente criar uma ponte cortando essa baía, porque ela tem uma inteireza, vai pelo Recôncavo e forma essa magnitude. Tem que ser respeitada essa geografia. Se quiser fazer um caminho rápido, que se faça por Feira de Santana. Esse anúncio da ponte é tão extraordinário que termina ficando somente no anúncio – ironiza o artista.

Emanoel Araújo teve um enfrentamento recente com o governo do Estado (clique aqui). Convidado a expor no Museu Rodin Bahia, do qual foi idealizador, ele enfrentou um oceano de burocracias e desistiu da travessia em corredores estatais depois que pediram seu currículo. Em tom de conselho, Emanoel diz a Ubaldo:

– O governador (Jaques Wagner) não tem credibilidade nenhuma. Isso é um anúncio de campanha eleitoral. Ubaldo, não se despeça de Itaparica, a ponte não vai sair! Mas a degradação da Ilha vai continuar por conta de todos os farofeiros. Não acredito que vão fazer essa ponte. E, além do mais, pra quê? Não tem sentido nenhum.

Para o ex-diretor do Museu de Arte da Bahia, o governo baiano “não tem a menor capacidade para tocar nenhum projeto com essa magnitude.”

– Tive a experiência do Museu Rodin. Eles tiveram sete anos pra organizar e o que fizeram lá é uma lástima.

Cravo Albim:”impostura”


Cravo Albin denuncia “impostura e vilania”

Assim como Emanoel Araújo, o musicólogo Ricardo Cravo Albin, fundador do Museu da Imagem e do Som, assinou o manifesto “Itaparica: ainda não é adeus”, em apoio à campanha de João Ubaldo Ribeiro. E vincula a cobiça de empreiteiras e imobiliárias sobre o paraíso ecológico baiano com o que ocorre em outras cidades brasileiras, a exemplo de Penedo, em Alagoas. Cravo Albin, um dos maiores conhecedores da história da Música Popular Brasileira, deixou uma mensagem no momento em que apoiou o romancista:

– A indignação de Ubaldo não é só legítima e necessária. Vai além, muito além. É um grito – talvez uma prece até canônica – contra o farisaísmo dessa canalha que usurpa todo um País em nome – meu Deus! – do progresso. Eu nunca me acostumei a aceitar tamanha impostura e vilania. Empreendi, recordo agora, uma campanha para salvar a cidade colonial de Penedo, terra de minha mãe, de uma ponte medonha que ligaria Alagoas a Sergipe. E tive que lutar inclusive contra meus parentes.

João Ubaldo:”Itaparica é patromôno brasileiro”

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Segue a avalanche desencadeada pelo escritor João Ubaldo Ribeiro com o seu artigo “Adeus, Itaparica”. Com 655 palavras, Ubaldo conquistou o apoio de escritores, artistas, professores, jornalistas e demais profissões, como dizem os radialistas, para a defesa da Ilha de Itaparica, ameaçada pela construção de uma ponte sobre a Baía de Todos-os-Santos, anunciada pelo governador da Bahia – como assinala a revista digital Terra Magazine na apresentação da entrevista exclusiva do autor de “Viva o povo brasileiro”.

A conversa de João Ubaldo com o repórter Claudio Leal, acaba de ser postada em TM, nesta quinta-feira. Direto da ilha, o escritor não foge do debate sobre a ponte e soma novos e poderosos argumentos á discussão. Depois de atacar o projeto do governador da Bahia, Ubaldo ganhou o apoio de Verissimo, Milton Hatoum e Cacá Diegues e muita gente mais na Bahia e no País, como pode ser verificado nas assinaturas do manifesto de apoio ao escritor itaparicano, que corre na web( VEJA NO BAHIA EM PAUTA)

João Ubaldo Ribeiro usa, mais uma vez, com brilho, huior, arte e elevado poder de argumentação, sua arma invencível: a palavra.

Sobre a repercussão nacional do assunto, João Ubaldo declarA e avisa.

– Vejo que não estou falando no vazio. A Ilha de Itaparica não é um patrimônio só dos itaparicanos. É um patrimônio brasileiro

Leia a entrevista em Terra Magazine ( http://terramagazine.terra.com.br ), que Bahia em Pauta reproduz:

(VHS )

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CLAUDIO LEAL

O escritor João Ubaldo Ribeiro poderá dar alívio aos que desconfiam do poder de uma crônica. E que Rubem Braga nos ouça. Com 655 palavras, em “Adeus, Itaparica”, Ubaldo conquistou o apoio de escritores, artistas, professores, jornalistas e demais profissões, como dizem os radialistas, para a defesa da Ilha de Itaparica, ameaçada pela construção de uma ponte sobre a Baía de Todos-os-Santos, anunciada pelo governador baiano Jaques Wagner (PT).

Em solidariedade ao romancista itaparicano, e contra o projeto bilionário da ponte de 13km, nasceu o manifesto “Itaparica: ainda não é adeus”, que conta com as assinaturas do cineasta Cacá Diegues, dos escritores Luis Fernando Verissimo, Milton Hatoum, Sonia Coutinho, Jomard Muniz de Britto, Hélio Pólvora e Edson Nery da Fonseca, do jornalista Sebastião Nery, além de companheiros da “Geração Mapa” (aglutinada por Glauber Rocha), como o poeta Fernando da Rocha Peres, os artistas plásticos Sante Scaldaferri e Ângelo Roberto, o ex-procurador-geral da Bahia Antonio Guerra Lima, entre outros.

– Vejo que não estou falando no vazio. A Ilha de Itaparica não é um patrimônio só dos itaparicanos. É um patrimônio brasileiro – declara Ubaldo, em entrevista a Terra Magazine.

Apesar do apoio de intelectuais baianos e nacionais, o romancista tem enfrentado uma campanha negativa dos partidários da ponte e de filiados ao PT. De “romantismo não enche barriga” a “ele mora no Leblon”, os torpedos dos adversários lhe soam como… “burrice”. Ubaldo responde aos que cobram seu endereço postal:

– Dizer que não se mora aqui é uma perfeita burrice. Dorival Caymmi morava onde? Ruy Barbosa morava onde?… O governador morou onde esse tempo todo? – ironiza, referindo-se ao carioca Jaques Wagner.

Para o autor do clássico “Viva o povo brasileiro”, a Bahia tem um “descaso horroroso” com o patrimônio histórico e o meio ambiente. Ubaldo afirma que o caos do ferry boat, na ligação marítima entre Salvador e Itaparica, é proposital, para justificar a contrução de uma ponte bilionária. Há filas imensas durante feriados prolongados. Segundo o jornal A Tarde, as construtoras OAS e Odebrecht são as fontes dos anteprojetos do empreendimento.

– A população tem toda razão em ficar com raiva do ferry boat e querer a ponte… Não vai se esperar do povo a mentalidade de um urbanista -sustenta o escritor.

Antes, enfatiza:

– Com R$ 120 milhões, R$150 milhões se resolve o problema do ferry boat e se passa a administrar bem. É uma solução que está em qualquer canto do mundo. Até no Maranhão, que é um Estado pobre, o ferry boat funciona. Aqui não pode funcionar…
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Leia a conversa com o neto de Ubaldo Osório, o romancista João Ubaldo Ribeiro.

Terra Magazine – Como o senhor avalia o manifesto em apoio a sua campanha contra a ponte na Baía de Todos-os-Santos?
João Ubaldo Ribeiro – Com alegria. Porque vejo que não estou falando no vazio. A Ilha de Itaparica não é um patrimônio só dos itaparicanos. É um patrimônio brasileiro. É um patrimônio nacional, não só histórico como geográfico, com um potencial turístico maravilhoso, com várias áreas ainda de Mata Atlântica. E já tem ponte! É a Ponte do Funil. Li o texto de uma jornalista, Ana Muniz, que foi da Tribuna da Bahia, com argumentos bons. Vale a pena ler. ( clique aqui ) Se o serviço de ferry boat fosse administrado, não teria problema nenhum. Agora, eles não querem. Com R$ 120 milhões, R$150 milhões se resolve o problema do ferry boat e se passa a administrar bem. É uma solução que está em qualquer canto do mundo. Até no Maranhão, que é um Estado pobre, o ferry boat funciona. Aqui não pode funcionar…

Um argumento falho do governo?
Em primeiro lugar, já tem ponte. E a Ponte do Funil não vai suportar mais esse tráfego. Um sujeito que passa seis horas no ferry boat de hoje, pode passar três ou quatro pra vir por Santo Antonio de Jesus, dirigindo, em vez de mofar na fila.

Falam de sua residência no Rio…
Dizer que não se mora aqui é uma perfeita burrice. Dorival Caymmi morava onde? Ruy Barbosa morava onde?

Alguns secretários e assessores do governo se incomodam com isso. Esquecem a presença de Itaparica em seus romances?
É. O governador morou onde esse tempo todo? Itaparica é conhecida no mundo inteiro, está nas enciclopédias! Isso é chato porque parece que eu estou me gabando. Mas é verdade. Ponho na orelha dos livros: “Nasceu em Itaparica”. Vem gente conhecer por causa dos meus livros, as pessoas vêm me procurar.

O projeto dessa ponte está dentro de uma série de atentados contra o patrimônio histórico e o meio ambiente em Salvador, na Bahia?
Um descaso horroroso. Como estou dizendo, o ferry boat precisa ser desmoralizado pra poder a população ficar contra. É isso que estão fazendo. A população tem toda a razão em ficar com raiva do ferry boat e querer a ponte. Porque não é obrigação da população, reduzida culturalmente pelo fato que é a pobreza, a falta de educação formal… Não vai se esperar do povo a mentalidade de um urbanista. Eles vão votar na solução mais rápida, que vá ao encontro das necessidades deles. Ou seja: “Botem logo a merda dessa ponte porque eu não vou passar sofrendo aqui”. Só que isso é a curtíssimo prazo, porque, no dia seguinte, com a inauguração da linha “Praça da Sé-Baiacu” (ri) É verdade… “Terminal da Lapa-Misericórdia”, não sei o quê, Amoreiras… No outro dia não tem mais um terreno de sobra aqui na Ilha, que será invadida… Um pepino gigantesco. Agora, esse negócio de morar… Por exemplo, o presidente Lula precisa dormir nas ruas de São Paulo pra saber as condições dos moradores de rua de São Paulo? Tenho certeza que esse é um bom combate.

Terra Magazine

jan
07

A canção que unia Dalva a Lamenha

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CRÕNICA/ENCONTROS

Sylvio Lamenha e Dalva de Oliveira, outra canção de amor

Claudio leal

O nome do cronista caiu na mesa. Ligeira busca na memória, persistente dúvida interna, um movimento das sobrancelhas rarefeitas. O professor Cid Teixeira, esse gênio de historiador desengravatado, recorre aos dois entrevistadores: “Sylvio Lamenha ainda é vivo?”. Resposta do antropólogo Roberto Albergaria, numa síntese melancólica: “Todos já estão mortos, Cid”.

Pois veja, depois de uma sentença tão definitiva, do lado cá dos vivos os companheiros de boêmia e de jornalismo deram de reviver Sylvio Lamenha a cada capítulo da minissérie global “Dalva e Herivelto – Uma canção de amor”, um brilhante diário para os telespectadores. Mas, por desígnios da morte, falta um espectador das desventuras do casal mais talentoso e briguento da música brasileira.

Imitador e fã extremado de Dalva de Oliveira, capaz de reproduzir os erres estridentes da cantora, Lamenha é uma pontada de saudade a cada aparição de Adriana Esteves, a intérprete da “Divina”. Jornalista do Diário de Notícias nos anos 60, o advogado Antonio Guerra Lima se lembrará por décadas das manhãs em que Sylvio cantava na redação um clássico de Herivelto Martins, “Ave Maria no Morro”, enquanto batucava na máquina a coluna “Hi-So”, insuperável em vibração cultural e diversidade de rostos. Ele pode ser flagrado no ofício, caderneta em punho, como um colunista social do filme “Tocaia no Asfalto”, de Roberto Pires. Encerrava a tripa de notinhas, invariavelmente, com um poema: “E, no mais, poesia é axial”.

Gay “avant la lettre”, Lamenha era ralhado pelo paternal diretor dos Diários Associados na Bahia, Odorico Tavares: “Senhor Silvio, eu lhe dou uma coluna social e o senhor só me põe homem?”. Além de Dalva, a grande paixão platônica de Lamenha era o irmão de uma famosa miss com duas polegadas a menos. Baixem as cortinas.

Os trinados do baiano não tardaram a cativar o rouxinol. Ficaram amigos de copo e de palco. Em 1972, em fase de declínio, Dalva foi produzida pelo jornalista Tarso de Castro, parceiro do colunista social nos verões baianos, quando faziam farras em Salvador e na Ilha de Itaparica, não raro embarcados na lancha do construtor Walter Fernandez, a Atrevida (“O mundo é mais bonito/Com Benito/ A vida só tem vez/ Com Walter Fernandez”, anotava na Hi-So).

Numa sacada de fera, Tarso incluiu o jornalista no show da decadente Dalva, que morreria naquele ano, no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro. Lamenha, autor da contracapa de um dos discos da cantora, atuava ao lado da musa Leila Diniz. Nome do espetáculo? “Vem de ré que eu estou de primeira”. Deu até pra notar o sorriso do leitor. Quem não viu a silhueta deve conferir a magnífica caricatura de Lamenha incorporando a estrela do rádio, feita pelo craque do bico de pena Ângelo Roberto.

O livro inspirador da minissérie global, “Minhas duas estrelas”, do grande cantor Pery Ribeiro (escrito em parceria com Ana Duarte), traz duas histórias em que Lamenha se torna reincidente no álcool e na amizade. Os gays sempre foram fãs ardorosos de Dalva, registra o filho da artista com Herivelto, “e esse era dos mais fanáticos”. Depois de um show com Chico Anysio, em Salvador, os músicos foram recebidos pelo prefeito da cidade.

Temeroso com a aproximação de Sylvio – a mãe deveria permanecer a quilômetros de qualquer drinque –, Pery Ribeiro passou o jantar olhando para os lados, atento à chegada do homem “inteligente e bom de papo”, mas desencaminhador de Dalva.

Perto do fim do encontro, ressurge a ave Lamenha, que arrebanha sua mãe para a noite de Salvador. Um telefonema desperta Pery na madrugada: embriagados, os dois não deixavam o dono de um bar de “quinta categoria” encerrar o expediente. Noutra temporada baiana, Lamenha introduziu conhaque no camarim da cantora, furando o bloqueio imposto pelo apresentador Luis Vieira. Bêbada, Dalva de Oliveira não conseguiu terminar o programa televisivo.

Sylvio Lamenha morreria de câncer, mas antes experimentou a fusão de bebida e desesperança, a mesma esteira em que derrapou a carreira de Dalva. Fantasiado de Nero, com uma lira furtada por Glauber Rocha e amigos do túmulo de Castro Alves, naufragou-se em cachaça e lança-perfume num baile do Bahiano de Tênis. Terminou no hospital, em coma. Mas não será lembrado somente por essas milongas. Projetado em Dalva, Lamenha encarnava esse desejo etéreo de distrair a morte com representações de hedonismo e alteridade. Até certa dose, valeu o engenho.

Claudio Leal é jornalista.

dez
17
Posted on 17-12-2009
Filed Under (Artigos, Claudio) by vitor on 17-12-2009

Simone e Paris: perfeita combinação
Simone
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Paris sob a neve de dezembro/ img.Arquivo
neve

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De férias mais que merecidas da redação da revista digital Terra Magazine, em São Paulo, onde trabalha ao lado de Bob Fernandes, o jornalista Claudio Leal passeia por Paris nestes dias de Dezembro do intenso inverno francês – mais intenso ainda para um baiano de Itapagipe.

Na França ou em qualquer lugar onde esteja, porém, Claudio carrega com ele elementos essenciais de sua personalidade e de sua profissão: atitudes gentis, conhecimento e cultura sempre supreendentes (pela idade) e faro jornalístico afinado para o que acontece em sua volta.

Tudo isso está presente no texto da mensagem que ele mandou da capital francesa para o editor deste site-blog. Pedi permissão para compartilhar a mensagem do querido amigo e brilhante colega com os leitores do Bahia em Pauta. Um presente de fim de ano. Confira.
(Vitor Hugo Soares)

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MENSAGEM DE PARIS

Rosas vermelhas para Simone

Vitor,

Minhas devidas licenÇas, pois você não pediu nem nada, mas eu deixei uma rosa em seu nome (e com seu nome) para Simone de Beauvoir, em Montparnasse.

Rosa vermelha, para contrastar com a Paris cinza e azul deste insano dezembro, quando Sarkozy impõe um debate fascista sobre a “identidade nacional” – num artigo mediocre no Le Monde – e a intelectualidade francesa pouco reage a essa ofensiva.

Certamente Simone, ou seu marido – que nada reclamou da rosa do brasileiro -, podera inspirar os imigrantes (antropólogos, religiosos, professores) que se opõem ao debate da direita enragé, muitos deles ouvidos pelo velho Libération.

Deixei a flor com a seguinte inscrição: “De Vitor Hugo Soares para Simone de Beauvoir”. Nada mais escrevi. Mas tirei uma foto que pretendo entregar-lhe no meu retorno ao Brasil.

Claudio

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EM TEMPO: Na manhã desta quinta-feira chegou outra mensagem de Claudio, com a autorização para publicar o texto , acompanhada da notícia:
“Esta nevando em Paris hoje. Transtorno para veiculos, lojistas e pedestres. Mas a cidade fica mais bonita com um manto branco”.

Grande Claudio! Bahia em Pauta agradece poder começar o dia assim. Boas férias. (VHS).

nov
18
Posted on 18-11-2009
Filed Under (Artigos, Claudio) by vitor on 18-11-2009

João Carlos: Pela honra do Bahia
Joca
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Deu em Terra Magazine

CLAUDIO LEAL

O presidente do Esporte Clube Bahia, Marcelo Guimarães Filho, move um processo contra o jornalista e escritor João Carlos Teixeira Gomes em razão de críticas à diretoria do clube, no artigo “Como salvar o Bahia”, publicado no jornal baiano “A Tarde”. Apresentado em 27 de outubro, o processo “2925365-2/2009” corre na 15ª Vara Crime de Salvador e será apreciado pelo juiz Antonio Silva Pereira.

“Em entrevista a Terra Magazine, Guimarães, cartola e deputado federal (PMDB), expõe o trecho que motivou a ação judicial:”
– Eu não tô aqui agora nem com a ação, nem com o texto, o que eu vou tentar reproduzir talvez não seja literalmente a mesma coisa, mas foi algo do tipo: o dinheiro do clube sai pelos ralos ou pelos bolsos de quem o dirige. Eu acho que aí, né… Já passa do limite.

No artigo editado no jornal “A Tarde”, em 17 de outubro de 2009, Teixeira Gomes lamentou “que o clube tenha chegado ao nível de humilhação a que foi atirado pelas administrações que o desmoralizam há tantos anos consecutivos”.

Filho do primeiro goleiro do Bahia, o escritor prosseguiu: “As últimas diretorias do Bahia conseguiram uma façanha esportiva realmente inédita: inventaram a crise ininterrupta, a decadência irreversível, a degradação permanente, portanto a mais injustificável e dolorosa.”

O trecho que irritou o presidente do clube traz uma crítica fundamentada em reportagens jornalísticas sobre o grupo de cartolas que comanda o Bahia há mais de 30 anos, aqui e ali renovado por herdeiros e políticos aliados: “Lançaram o Bahia em todas as divisões inferiores, não conseguem ganhar nem o campeonato baiano, fazem contratações desastrosas (como a de Paulo Carneiro, confissão de falência de comando), jamais conseguiram armar um time digno, estão alienando todo o patrimônio sem construir coisa alguma, as rendas dos jogos somem pelo ralo (ou pelos bolsos), as contas (irregulares) vivem sob suspeita, como o provou A TARDE em recente reportagem.”

Em entrevista a Terra Magazine, uma semana antes deste artigo, Teixeira Gomes havia conclamado a torcida tricolor a reagir, nas ruas, contra os cartolas do Bahia. “Que a torcida do Bahia incorpore o espírito revolucionário dos baianos do 2 de Julho e se una nas ruas, nas praças, pressionando nas rádios, na internet e nos jornais, os incompetentes que afundam um clube glorioso”.

Procurado na tarde desta quarta-feira, João Carlos Teixeira Gomes não foi encontrado. Joca, como é conhecido desde os tempos da Geração Mapa – protagonizada por Glauber Rocha – é ex-editor-chefe do Jornal da Bahia e autor, entre outros livros, de “Tempestade Engarrafada”, de “Glauber Rocha, esse vulcão” (melhor biografia sobre o cineasta), do best-seller “Memórias das Trevas” e do romance recém-lançado “Assassinos da Liberdade”.

Na década de 70, durante a ditadura militar, Joca foi perseguido pelo governador biônico Antonio Carlos Magalhães e enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Em 1972, numa decisão histórica, o Superior Tribunal Militar deu vitória ao jornalista, que continuou a se opor ao governador imposto pela ditadura.

O presidente do Bahia, que integrou o grupo político de ACM, afirma que não conhece a história do jornalista.
– Não, não o conheço e, sinceramente, eu fico bastante sentido por outro lado, porque não o conheço. Conheço a história dele de ouvir falar, mas nunca troquei palavra com ele, nunca apertei a mão dele. E ele não conhece as minhas intenções – diz o cartola.
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Leia a íntegra da entrevista do presidente do Bahia, Marcelo Guimarães,

em Terra Magazine  (  http://terramagazine.terra.com.br )

nov
11
Posted on 11-11-2009
Filed Under (Artigos, Claudio) by vitor on 11-11-2009

Bar em São Paulo ontem: luz de vela.
BRAZIL-BLACKOUT/

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Deu em Terra Magazine

A dupla afinada de repórteres da revista digital Terra Magazine, Claudio Leal e Diego Salmen, caminha na escuridão da madrugada de São Paulo, na noite do apagão no País, e revela o que pouca gente e praticamente nenhum veículo de comunicação noticiou – pelo menos com tanto talento, bom humor, perspicácia , visão crítica e – como de hábito – talento jornalístico.

Confira o texto que Bahia em Pauta reproduz, postado no day after do blecaute em TM (http://terramagazine.terra.com.br) (Vitor Hugo Soares )

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Claudio Leal e Diego Salmen

Sabem os paulistanos que andar a pé pelas ruas da capital durante a noite não é tarefa das mais seguras – esteja o flaneur na Cracolândia, nos Jardins ou Itaquera. Sem luz, a experiência pode variar entre um ato de valentia, onde todos são suspeitos em potencial, ou uma caminhada agradável. O atrativo, porém, é o mesmo: a penumbra.

Na Avenida Paulista, a queimação de maconha corre em liberdade, nos grupinhos que se sentam em frente a estabelecimentos comerciais fechados. Nas beiradas do Parque Trianon, o infatigável “trottoir” dos michês. Quatro garotos de programa zanzam na noite escura da alma.

Tradicionais pontos noturnos fecham as portas. Na praça Vilaboim, em Higienópolis, a banca de revistas 24h encerra o expediente. Coisa igual ocorreu somente em 2006, na noite dos ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital). A lanchonete Fifties, na mesma praça, resiste ao apagão.

Na rua Haddock Lobo, outra baixa para a turma da ressaca. A padaria Bela Paulista, também 24h, suspende os trabalhos. Padeiros e atendentes ficaram à porta, num papo amistoso. Infortúnio semelhante ao de outras casas de pasto na rua Augusta.

De nome sugestivo, o Corujão é um dos poucos sobreviventes. Mesas espalhadas na calçada, reunia alguns dos zumbis dispersos na região. A geladeira estava desligada, apesar do boteco ficar bem de frente a uma sub-estação de energia.

– Tem cerveja quente aí?
– Só gelada.
– Mas como?
– Energia solar.
– Manda duas.

Nunca antes na história deste País houvera um apagão com tão poucas velas. Bem executado, o atendimento é realizado com o auxílio das luzes de telefones celulares. Casais e amigos se divertem.

– Se eu tivesse no Congresso, tinha luz nessa porra!

O relógio marca 00h09. Volta ligeira da luz.

– AEEEEE!

Cinco segundos depois, trevas novamente.

– AEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!

Na esquina da Augusta, o rádio do carro irradia o embaraço do governo, porta-mala aberto.

– 20% da nossa energia vem de lá… 80% do Sudeste sofre com o apagão…

De outro carro, um grito a ser decifrado:

– Olha a mulher dando a luz ali!

O sumiço da energia redime o rádio como principal meio de informação na capital paulista. Porteiros, pedestres, motoristas colados no aparelho.

– A linha de transmissão… Desde 2007 se alerta o governo da existência de riscos na linha de transmissão…

Na rua Peixoto Gomide, o bar apinhado de gays notívagos, sentados no chão ou escorados na parede. Um grupo de seis pessoas forma uma roda, abastecida por cerveja, embaixo de uma árvore. A única mulher diz aos “miguxos”:

– Não tenho nenhum problema em namorar gays. Mas o cara precisa avisar! Já namorei muitos “bi”, meu. E já fiquei com mulher…

Uma da manhã, dezesseis funcionários do Hospital Sírio-Libanês fumam na saída da rua Barata Ribeiro. Os enfermeiros e a palavra repetida:

– Itaipu…

Os rostos iluminados apenas por farois. Viaturas deslizam no asfalto e lançam as luzes giratórias nos edifícios. O trabalho da polícia parece ter se intensificado para evitar que a cidade se transformasse em mote de livro para José Saramago. Em uma hora, mais de 10 viaturas cruzaram o caminho da reportagem. Felizmente, não houve enquadro.

Em alguns pontos da cidade, iluminações misteriosas, como na Rua Cel. Xavier de Toledo, na Estação da Luz e em hoteis e hospitais. Destaque para o prédio da Fiesp, cujas luzes natalinas reluziam despreocupadamente na Av. Paulista. Situação excepcionais, porém.

Largo do Paissandu, Consolação, Praça do Correio, Avenida Tiradentes, Pinacoteca, Batalhão da Rota, Praça Santos Dummont, Terminal Santana, Jardim São Paulo. Tudo no mais absoluto breu.

Caminhões avançam cruzamentos, sem sinalizações ou buzinas. Semáforos agora são meras convenções sociais, que oscilam entre a educação escandinava de alguns motoristas às tentativas de atropelamento. No centro, a linha 107P/10 acelera rumo à zona norte da cidade. De um passageiro:

– Hoje vai ser difícil para as putas ganharem dinheiro. Como vão mostrar o corpo?

Na Avenida Voluntários da Pátria, farois de carros denunciavam o vai e vem das garotas de programa, aparentemente despreocupadas com a falta de energia. Às 1h30, as luzes dos prédios começam a piscar, na Avenida Nove de Julho. Fez-se a luz. Do lado Centro, meia hora depois, ainda prevalece a escuridão. O mesmo na zona norte.

Enquanto isso, autoridades buscavam solucionar o apagão que atingiu 18 Estados e o vizinho Paraguai. Falha na transmissão? Explosão de gerador? Terrorismo? Sabotagem de Fernando Lugo? Quem apagar a luz por último é a mulher do padre.

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