maio
06

Cadeira Vazia: hit da boataria

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DEU NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE

( http://terramagazine@terra.com.br )

CLAUDIO LEAL E MARCELA ROCHA

Nas férias dos congressistas, em Brasília, uma espécie de flor, por vezes confundida com cogumelo, brota nos corredores do Congresso, nas salas dos ministérios e nos jantares noturnos: a “flor do recesso”. Consiste no despetalar de boatos e informações desencontradas que alimentam a mídia enquanto os protagonistas (e suas verdades) vão às praias e paraísos outros.

Neste ano eleitoral, a primeira floração veio com a suposta candidatura do ex-governador mineiro Aécio Neves a vice de José Serra, validada por uma suposta estratégia tucana que traria uma suposta campanha imbatível. Supostamente, os jornais não deram a mínima para os insistentes desmentidos de Aécio: “Chance zero de ser vice de Serra”, declarou o líder mineiro, em entrevista a Terra Magazine (18 de janeiro), confirmando uma reportagem de dezembro :

– Eu reconheço e respeito a posição de alguns companheiros que gostariam de ver uma chapa composta pelo governador Serra e por mim. Mas, da mesma forma que respeito essa posição, é natural que eles respeitem o meu ponto de vista de que essa chapa não é adequada para nós vencermos as eleições.

Mas o leitor, o internauta e o radio-ouvinte ainda se deparam com especulações sobre o destino de Aécio, autodeclarado candidato ao Senado. Serra beija o colega mineiro no lançamento da pré-candidatura, em Brasília. Aécio vice? Das montanhas mineiras, ele estará com Serra. Aécio vice?

Primo de Aécio, o senador Francisco Dornelles (PP-RJ) entra como desdobramento da novela familiar e política – ou genérico. Versões: se Aécio quiser, ele vai ser vice de Serra; o PP se afasta de Dilma; Dornelles almoça com Dilma; Serra vai se encontrar com o provável aliado. A batalha pelo minuto e 20 segundos do PP no horário eleitoral é fermentada pelas alianças estaduais. Dornelles poderá ser vice de Serra? Sim e não. Nem sempre as novelas se orientam por um final pré-definido.

Cardeais tucanos como João Almeida, líder do PSDB na Câmara, não escondem a ordem da preferência: “O Plano A é Aécio. Se ele não quiser, o Plano B é Tasso Jereissati. O Plano C é Dornelles”.

Tasso e Aécio disseram “não”.

Diante dos torcedores – da imprensa e da política -, o senador Francisco Dornelles assume a filiação à escola Tancredo Neves: “Não há política sem boato, sem lenda, sem história. Quando eles ganham força própria não adianta confirmar nem desmentir”.

E o plano D?

Terra Magazine apresenta algumas das guerras de versões jorradas na imprensa. Flores marcadas para murchar em junho. Outra vez Tancredo: quando o mar bate na rocha, é preciso saber o que é mar e o que é espuma.

FLORES MINEIRAS

O PT de Minas Gerais firmou a imagem de que está enfraquecido. Os jornais narram uma batalha infinda por nada. A legenda fez suas prévias sabendo que o vencedor seria aquele que cederia sua candidatura a Hélio Costa, o candidato do PMDB. Nasceu com a mesma previsibilidade do corte da cabeça de Ciro Gomes (PSB) na sucessão presidencial.

O ex-prefeito de Belo Horizonte e um dos coordenadores da campanha de Dilma Rousseff, Fernando Pimentel, venceu o pleito consciente de que seria preciso compor com o PMDB, para não envenenar as articulações nacionais. Em primeiro lugar, a candidatura Dilma. À imprensa, as negociações com o PMDB são iluminadas para não desagradar as bases mineiras. Derrotado nas prévias, o petista Patrus Ananias conhece o jogo decifrado pelo senador Wellington Salgado (PMDB): “Já está tudo acertado. Podem até fazer um charme, mas no final vão entrar na nossa limusine”.

Após a vitória, Pimentel garantiu, em sua primeira conversa com jornalistas, que não iria “abrir mão do palanque único”. Ou seja, já sinalizou o acordo com o PMDB. “Tudo será resolvido com a boa política mineira”, afirmou o ex-prefeito de BH. Mas o baile prossegue: Pimentel será candidato? O PT arriscará a aliança nacional de Dilma? Pimentel vai esperar suas intenções de voto crescerem nas pesquisas?

No segundo colégio eleitoral do País, Fernando Pimentel só causará estranheza se fizer questão de sua candidatura a governador e atrapalhar a campanha de Dilma, da qual é coordenador. Minas não deve estar onde nunca esteve.

FLORES CARIOCAS

O rebolation eleitoral do Rio de Janeiro é protagonizado pelo casamento de Fernando Gabeira (PV) e César Maia (DEM). Como padrinhos, os pré-candidatos à presidência Marina Silva e José Serra. A Zona Sul vê desconforto, mas Gabeira, desde o início, não sentiu nenhum. Mil e uma notas sobre os benefícios da aliança, os conflitos éticos de Gabeira, as restrições de Alfredo Sirkis… Cimentada a aliança, tudo ficou assim como na canção “Cadeira vazia”, de Lupicínio Rodrigues: “Vou te falar de todo coração/ Não te darei carinho nem afeto/ Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto”.

Agora surge um novo drama lupiciniano. Que não existe. Gabeira apoia Marina ou Serra? O PV decidiu: ele é somente de Marina. O rebolation das notas públicas não esconde a verdadeira finalidade da candidatura Gabeira: fortalecer a campanha do paulista José Serra no Rio de Janeiro.

Cesar Maia, candidato ao Senado, apoia Serra. Em nenhuma entrevista, Gabeira nega sua preferência pelo ex-governador de São Paulo. Mineiro de Juiz de Fora, ele também elogia Marina. Indicado pelo PSDB do Rio para ocupar a vice, o ex-deputado federal Márcio Fortes peca por expressar a mais verde sinceridade: “Gabeira anda com ele”. Ele é Serra.

FLORES BAIANAS

Dizia o ex-governador Octávio Magabeira (1886-1960) que “o baiano é capaz de gastar 100 para o outro não ganhar 10”. Mas andam exagerando no domicílio eleitoral do Senhor do Bonfim. Para puxar a escada dos concorrentes, as plantações se intensificam no processo de escolha do candidato ao Senado, na chapa do governador Jaques Wagner (PT).

Depois da desistência do ex-afilhado de ACM, o senador César Borges (PR), Wagner pediu ao PT para debater o nome mais viável. De cedo, o ex-ministro da Defesa Waldir Pires demonstrou o desejo de concorrer a uma vaga do Senado. Esbarrou no petista ungido pelo governador e pela bancada na Assembleia Legislativa, o ex-secretário de Planejamento Walter Pinheiro.

Em 2008, a deputada federal Lídice da Mata (PSB) abandonou sua candidatura à prefeitura de Salvador para apoiar Pinheiro, que estava mal nas pesquisas (perderia para o PMDB). Como retribuição, ele se comprometeu a não entrar no vespeiro do Senado, em 2010. Compromisso firmado no gabinete de Wagner. Agora, Pinheiro entrou na disputa. Quer a preferência. Lídice, até o momento garantida na segunda vaga do Senado, pode dividir o apoio da militância petista com um companheiro de chapa eleitoralmente menos competitivo.

Outro concorrente de Pinheiro numa provável disputa interna pela candidatura a prefeito de Salvador em 2012, Nelson Pelegrino sentiu-se livre para submeter seu nome ao partido na sucessão senatorial. Quer o passe daqui a dois anos. Na instância definitiva, quem decide a escalação é o governador, como esclarece o presidente do PT baiano, Jonas Paulo.

Porém, inúmeras flores nascem no asfalto. E na imprensa. Nas colunas de notinhas, Waldir é o preferido de Wagner. Maldade. Os dois lados riem fundo. Pois há um mês circulava que Wagner não queria ouvir falar do nome de Waldir. Ambos sustentam conversas respeitosas, mas, sem enganos, o governador não esconde a simpatia por Pinheiro. O que não o impede de repetir, adiante, o mineiro Magalhães Pinto: a política é nuvem.

O PMDB, liderado no Estado pelo ex-ministro Geddel Vieira Lima, é apontado por petistas como o ervanário das notícias desencontradas, para tumultuar as decisões do rival. Geddel não quer a candidatura de Waldir, ao lado de Lídice, porque arriscaria ainda mais a campanha do senador César Borges (PR) – o qual, segundo o PSDB, já perde nas pesquisas para o ex-aliado ACM Júnior (DEM).

COGUMELOS GAÚCHOS

O PSDB anuncia: o PP gaúcho vai apoiar a reeleição de Yeda Crusius e a candidatura José Serra. Crescem as chances de Dornelles ser vice de Serra – os jornalistas se antecipam. No mesmo dia, o PP desmente: sem aliança proporcional, não há acordo. “Se dependesse de mim, eu recomendaria que fizesse (a aliança)”, declarou Serra, em visita ao Rio Grande do Sul. E, se dependesse de Dilma, o PP se aliaria ao PT, apesar do veto da executiva pepista.

No eterno retorno brasileiro, Paulo Maluf janta em 24 de abril com o presidente do PSDB, Sérgio Guerra. Em honra da aliança Serra-Dornelles. Uai, o Maluf? Como especialista em passado, ele disse à Folha de S. Paulo: “Se eu pudesse ser um conselheiro, eu diria (a Serra): ‘olha, pensa de maneira séria’. Porque ele (Dornelles) adiciona tempo (de TV) e adiciona voto. E tem mais: é um candidato com um passado nota dez.”

Wagner:”nome com peso político-eleitoral”

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Deu na revista digital Terra Magazine

Claudio Leal

Depois do recuo do senador César Borges (PR), ex-afilhado político de ACM cooptado pelo ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB), os petistas podem sair fortalecidos na chapa do governador da Bahia, Jaques Wagner (PT).

A frente governista conta com três nomes consolidados, mas não totalmente imunes a ajustes: além de Wagner, candidato à reeleição, Otto Alencar (PP) deve ocupar a vice e a deputada federal Lídice da Matta (PSB), uma das vagas do Senado. Com a desistência do PR, a executiva do PT recebeu o aval para discutir a candidatura própria ao segundo posto de senador.

Nesta segunda-feira, 19, os petistas se reuniram em Salvador para iniciar os debates internos. Do Palácio de Ondina, há a recomendação de que o nome tenha “peso político-eleitoral” e não seja garimpado somente no PT. Nos bastidores, os petistas recobraram a “autonomia” e pretendem definir-se por um dos três pré-candidatos apresentados ontem: o ex-ministro da Defesa Waldir Pires e os ex-deputados federais Walter Pinheiro e Nelson Pelegrino. Aliado do governador, o deputado estadual Marcelo Nilo (PDT) é um dos cotados.

O presidente estadual do PT, Jonas Paulo, defende uma escolha consensual, sem a realização de prévias. Ainda que se mantenha em relativa reserva, este também é o desejo de Wagner, sabedor dos ânimos conflituosos das correntes internas do partido.

Por ora, a escalação das tendências: a Democracia Socialista e a Reencantar querem Pinheiro; a EDP (Esquerda Democrática Popular), Pelegrino; a CNB (Construindo um Novo Brasil), Waldir Pires, também apoiado por lideranças representativas do PT, como Emiliano José, Zezéu Ribeiro, Geraldo Simões e Joseph Bandeira.

“O partido me designou para conversar com os aliados sobre a complementação da chapa. Wagner tem a tendência de definir o vice e colocou o partido para conduzir as conversas sobre o Senado. Ele não fez um pedido pessoal, não apoiou previamente um nome”, diz o presidente regional, Jonas Paulo. Na próxima segunda-feira, a executiva deve reunir-se outra vez. O PSB e o PCdoB integram as articulações.

Os debates consomem as noites dos petistas, mas, por antecipação, aceita-se que Jaques Wagner defina seus companheiros de chapa. Os defensores da candidatura Waldir Pires o apontam como o único candidato “suprapartidário” (isto é, acatado pelos demais aliados e com manancial de votos de ex-governador), mas Pelegrino e Pinheiro têm forte liderança na militância petista.

João Henrique:reação assusta

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CLAUDIO LEAL

Na semana do aniversário de 461 anos de Salvador, o prefeito João Henrique Carneiro (PMDB) recuou diante de protestos de moradores e anulou o decreto de desapropriação de imóveis numa área de 324 mil metros quadrados. Em 13 de maio de 2009, Terra Magazine divulgou, com exclusividade, a ameaça a uma das regiões mais belas de Salvador, na Cidade Baixa.

À época, o antropólogo Roberto Albergaria, um dos principais mobilizadores na oposição ao projeto, afirmou que se tratava de “uma monstruosidade burocrática”. Em parceria com empreiteiras, a Prefeitura pretendia construir shoppings, marinas e parque hoteleiro. Os habitantes da região congelada para fins de desapropriação nunca foi ouvida sobre os planos de João Henrique. O governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), considerou “estranho” o decreto: “É muito estranho…. é muito esquisito…. Espero que não esteja ligado à especulação imobiliária”.

Numa entrevista Terra Magazine, o secretário de Desenvolvimento Urbano, Habitação e Meio Ambiente de Salvador, Antonio Abreu, reconheceu que não ouviu, oficialmente, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Mais: admitiu a demolição de prédios históricos, como a Fábrica Luiz Tarquínio, marco do início da industrialização baiana, no século 19. Para o secretário, um campo de futebol, localizado na praia da Boa Viagem, era mais “emblemático” e “histórico” do que a fábrica: “Aquele campo de futebol é emblemático. Você não conhece um itapagipano que não tenha jogado ali”.

A nulidade foi pu­blicada no Diário Oficial do Município de 30 de março de 2010.

A área de 324 mil metros quadrados, na orla da Baía de Todos os Santos, inclui bens tombados pelo patrimônio histórico – como o Abrigo D. Pedro II e o Forte do Monte Serrat, palco da resistência aos holandeses em 1624 -, prédios abandonados, residências, lojas de varejo, antigas fábricas e casarões seculares.

A Prefeitura chegou a anunciar, com estrépito, o projeto “Salvador Capital Mundial”, oferecido ao Estado por empreiteiras, oficialmente como parte das mudanças de infraestrutura para a Copa do Mundo de 2014. O governo municipal não apresentou um estudo sobre o impacto humano das maquetes e esboços. Depois de críticas de urbanistas, ambientalistas e moradores, oferece o primeiro recuo.

mar
31
Posted on 31-03-2010
Filed Under (Artigos, Claudio) by vitor on 31-03-2010

Paulo Skaf: afagos do PC do B

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Claudio Leal

As articulações do PCdoB com o presidente da Fiesp e pré-candidato do
PSB ao governo paulista, Paulo Skaf, provocam divergências entre
comunistas e a direção nacional do PT. Nasce incômodo também da
candidatura do cantor Netinho de Paula ao Senado, que concorre no
mesmo campo da ex-prefeita paulistana Marta Suplicy (PT).

O líder do governo na Câmara Federal, Cândido Vaccarezza (PT-SP),
chegou a defender o nome do comunista Aldo Rebelo em lugar de Netinho,
no que foi rebatido pelo ministro dos Esportes, Orlando Silva. O
presidente nacional do PCdoB, Renato Rabelo, e a presidente estadual,
Nádia Campeão, abriram os diálogos com Skaf. Dentro do partido, há
opiniões opostas quanto aos frutos da aliança.

Na semana passada, numa reunião do comitê político do PCdoB, o
delegado Protógenes Queiroz (responsável pela Operação Satiagraha), o
pré-candidato ao Senado Netinho de Paula, o vereador Alcides Amazonas
e Nádia Campeão, defenderam o apoio a Skaf. Na avaliação do grupo,
essa candidatura ajudaria a dividir os votos do PSDB no Estado. Para
além disso, consideram importante a união em torno do “socialista”.
Aliado nacional da legenda, o senador Aloizio Mercadante concorrerá ao
governo pelo PT.

Como parte das articulações, Protógenes Queiroz, candidato à Câmara
Federal, tomou café-da-manhã com Paulo Skaf na última segunda-feira,
na Fiesp. O encontro durou mais de três horas. Ontem foi a vez de
Nádia Campeão conversar durante uma hora com o provável aliado. A nova
rodada de debates do comitê político do PCdoB vai ocorrer depois da
Semana Santa, em 5 de abril.

mar
31

ACM Jr: em busca de Aécio

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A revista digital Terra Magazine publica nesta quarta-feira entrevista na qual o senador baiano ACM Jr revela que o DEM vai esgotar convite para Aécio ser vice de Serra. BP reproduz a conversa de ACM Jr com o repórter Claudio Leal, de TM, na qual o sernador considera sede de poder o apoio de ex-aliados do carlismo à chapa do petista Jaques Wagner à reeleição.

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Claudio Leal

Para o senador ACM Jr. (DEM-BA), ainda não morreu a ideia de trazer Aécio Neves para a vice do presidenciável José Serra (PSDB-SP), que se desincompatibiliza nesta quarta do governo de São Paulo. Apesar das sucessivas recusas do líder mineiro para compor a chapa tucana, o DEM pretende insistir até a náusea.

– Nós temos que esgotar as possibilidades de ter o governador Aécio na vice. A partir daí, nós pensaremos outro nome – defende o senador democrata, ainda que o DEM tenha a prerrogativa de indicar o vice.

Em entrevista a Terra Magazine, o empresário e político comenta a adesão de velhos aliados de seu pai, o ex-senador baiano ACM (1927-2007), à chapa eleitoral do governador Jaques Wagner (PT-BA). O petista finaliza uma aliança com os ex-carlistas Otto Alencar e César Borges.

– No momento em que se identificar que eles foram aliados nossos e agora querem se aliar ao PT por questões de repartir poder, é claro que o eleitor vai ficar desconfiado e pode votar contra – critica.

Terra Magazine – Senador, como tem evoluído as articulações para a vaga de vice de José Serra?
Antonio Carlos Jr. – A candidatura de Serra é consolidada, favorita, nós estamos contentes com a posição do governador e vamos fazer uma grande festa em Brasília, no dia 10 (de abril), para lançar a candidatura dele. Estamos bastante otimistas. Em relação ao vice, vamos aguardar para fazer a melhor escolha.

O DEM vai apresentar o nome?
Primeira coisa: nós temos que esgotar as possibilidades de ter o governador Aécio (Neves) na vice. A partir daí, nós pensaremos outro nome.

O senhor ainda aguarda o governador Aécio Neves? Ele já desmentiu essa possibilidade.
Ainda vamos esgotar a possibilidade de ter o governador Aécio como candidato a vice. A partir daí, vamos pensar em outra alternativa.

O que o senhor pensa do apoio de ex-aliados do seu pai, o ex-senador ACM, à chapa do governador petista Jaques Wagner?
Na verdade, é claro que muita gente gosta de estar próximo do poder. Vejo a aliança como uma tentativa de se manter em suas posições de poder. Mas isso pode ser uma coisa contrária, porque quando repassar a origem dela, vão ver que não se misturam posições ideológicas absolutamente diferentes. Pode ser prejudicial. O eleitor não vai ver com bons olhos essa aliança.

O PT sempre fez muitas críticas ao pai do senhor… Eram inimigos históricos. Como avalia essa adesão?
É isso que pode prejudicar esses candidatos. No momento em que se identificar que eles foram aliados nossos e agora querem se aliar ao PT por questões de repartir poder, é claro que o eleitor vai ficar desconfiado e pode votar contra.

mar
29

Thiago sobre Armando: “amigo completo”

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DEU NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE:
(Thiago de Mello recitou “Cotovia” para Armando Nogueira)
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CLAUDIO LEAL

Terrível ofício, o de despedir-se dos amigos. O poeta Thiago de Mello foi acordado na manhã desta segunda pela morte do jornalista Armando Nogueira, seu “amigo principal” durante seis décadas. “Começamos a fazer jornalismo no mesmo dia, em 1952, e nunca mais nos separamos”, conta o escritor amazonense, enquanto chora no aeroporto de Manaus, à espera de um avião para o Rio de Janeiro.

Nas travessias aéreas, Armando e Thiago disputavam uma guerrilha de marchinhas e canções. Quem sabia mais jardineiras, auroras e chiquitas bacanas? Havia ainda os diálogos entrecortados por citações de Machado de Assis. De memória.

– Primeiro, andei de barco. Depois, andei de carro, para pegar o avião e ouvir a fala macia do meu amigo. Estive com ele há dez dias, falei no ouvido dele. Agora, vou pegar o mesmo voo. Só que dessa vez não vou ouvir mais a fala suave do meu amigo. Vou vê-lo dormindo pela última vez.

Armando Nogueira morreu a um dia do aniversário de Thiago de Mello, que completa 84 anos neste 30 de março. Nunca publicou um livro sem submetê-lo, antes, ao cúmplice de poesia. “Ele não era o melhor amigo, não. Era o amigo principal, era o amigo completo”, proclama o vago mago, como o definiu Pablo Neruda. “Me acordava para ler uma crônica”.
Há onze dias, no hospital Copa D’Or, o poeta de Barreirinha recitou o poema “Cotovia”, de Manuel Bandeira, no ouvido de Armando:
“- Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que saudades me deixaste?”
“Ele reconheceu minha voz e abriu o olho esquerdo”, descreve Thiago de Mello, perto de desligar o telefone: “Adeus, companheiro!”.
E adeus, Armando Nogueira.
***
Por que não terminar de ler o poema de Manuel Bandeira, na despedida do cronista de “Na grande área”?
“Cotovia”
– Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que saudades me deixaste?
– Andei onde deu o vento.
Onde foi meu pensamento
Em sítios, que nunca viste,
De um país que não existe…
Voltei, te trouxe a alegria.
– Muito contas, cotovia!
E que outras terras distantes
Visitaste? Dize ao triste.
– Líbia ardente, Cítia fria,
Europa, França, Bahia…
– E esqueceste Pernambuco,
Distraída?
– Voei ao Recife, no Cais
Pousei na Rua da Aurora.
– Aurora da minha vida
Que os anos não trazem mais!
– Os anos não, nem os dias,
Que isso cabe às cotovias.
Meu bico é bem pequenino
Para o bem que é deste mundo:
Se enche com uma gota de água.
Mas sei torcer o destino,
Sei no espaço de um segundo
Limpar o pesar mais fundo.
Voei ao Recife, e dos longes
Das distâncias, aonde alcança
Só a asa da cotovia,
– Do mais remoto e perempto
Dos teus dias de criança
Te trouxe a extinta esperança,
Trouxe a perdida alegria.
(Manuel Bandeira)

Jorge Amado:na casa do Rio Vermelho

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DEU NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE

Claudio Leal

A família do escritor Jorge Amado desmente os boatos de que esteja à venda a casa do Rio Vermelho, onde o romancista baiano viveu a partir dos anos 60, em Salvador (BA). “Essa notícia não tem nenhum fundo de verdade. A casa é nossa, cuidamos dela, nunca nos deram um tostão para preservar”, reage Paloma Amado, filha de Jorge e Zélia Gattai. Em conversa com Terra Magazine, ela afirma que não pretende “entrar em polêmica” sobre o assunto, mas rebate uma nota publicada pela revista “IstoÉ”.

Inicialmente, houve a ideia de que a casa se transformasse num memorial ou museu, como relatou a escritora Zélia Gattai no livro “Memorial do Amor” (2004). “Por que não aproveitá-la para um museu?”, sugeriu Jorge Amado. Para escrever suas obras, ele dividia-se entre a casa da rua Alagoinhas, 33, em Salvador, e um apartamento no bairro do Marais, em Paris. “Por que ficaria eu sozinha nessa casa? Por que não manter abertas as portas para os admiradores de Jorge Amado, aqueles que aparecem diariamente, ansiosos de conhecer o ambiente onde o escritor viveu durante tantos anos, inspirou-se e escreveu seus romances?”, cogitou Zélia.

Comprada com os dólares da venda dos direitos autorais de “Gabriela, cravo e canela” à Metro Goldwin Mayer (MGM), a residência baiana era frequentada por artistas e intelectuais – de Vinicius de Moraes e José Saramago ao poeta cubano Nicolás Guillén, Roman Polanski e Jack Nicholson. Agora, ela virou um enigma da cultura brasileira. O destino do acervo de um dos escritores brasileiros mais reconhecidos no exterior permanece incerto, sem apoio do Estado e do empresariado nacional. “Estamos cuidando com recursos próprios”, diz o filho do casal de escritores, João Jorge Amado.

Em 2008, as obras de arte – parte delas guardadas num apartamento no Rio de Janeiro, vendido recentemente – foram a leilão na Soraia Cals Escritório de Arte. Havia quadros e desenhos de Carybé, Carlos Scliar, Djanira, Floriano Teixeira, Segall, Volpi, Anita Malfatti, Flávio de Carvalho, Pancetti, Antonio Bandeira, Diego Rivera e Picasso, entre outros artistas plásticos.

“Brasil não reconhece Jorge Amado”

Apesar de evitar a polêmica sobre o rumo do acervo do pai, Paloma esclarece que batalhou durante três anos por recursos para a conservação da casa do Rio Vermelho e a abertura de um memorial. “Minha mãe era a única contrária ao tombamento”, afirma Paloma, indignada com uma frase atribuída a Zélia Gattai, de que temia a venda de todo o espólio pelos herdeiros. “Tentam difamar a gente por uma coisa que não existe. Se mamãe lesse essa nota que me leram!…”, lamenta. Ela ainda se recorda de um conselho: “Não pense que o fato de ser minha filha vai ajudar. Se tem quem goste, tem quem não goste de mim”.

O tombamento era uma medida recomendável para a captação de recursos estatais, mas a ideia terminou abandonada pela família, depois ter sido submetida ao Conselho Estadual de Cultura da Bahia. Com a venda das obras de arte, iniciaram uma reforma na casa, que conta com gradis do pintor Carybé. As cinzas de Jorge e Zélia foram espargidas embaixo de uma mangueira, no quintal.

Recém-radicada no Rio de Janeiro (“a Bahia sem meus pais é muito triste”), Paloma revela um espanto:

– Onde eu passo, a obra de meu pai é aplaudida. Estive na Universidade do México e houve uma aclamação. Ele foi homenageado pela Feira do Livro de Santo Domingo. Uma coisa bonita. Só não vejo isso no Brasil. Não reconhecem.

A fundação criada pelo pai, no Pelourinho, também enfrentou tormentas financeiras. Em março de 2007, o governo da Bahia cortou o repasse mensal de R$68 mil para a Fundação Casa de Jorge Amado. A entidade preserva cerca de 250 mil documentos do autor de “Cacau”, “Capitães da Areia”, “Gabriela” e “A morte e a morte de Quincas Berro D’Água”. Indignado, o romancista João Ubaldo Ribeiro protestou contra a medida e contribuiu para o recuo do governo baiano:

– Vou esculhambar, vou continuar a bater, e chamar o povo baiano aos brios! Não nasce um Jorge Amado a toda hora! E ficam aí uns beletristas de segunda categoria fazendo críticas aos romances dele. Esquecem que Jorge Amado foi um grande romancista, lido e traduzido em todo o mundo! – criticou Ubaldo.

À época, em entrevista a Terra Magazine, o governador Jaques Wagner (PT) justificou os cortes e garantiu a retomada do financiamento:

– Por determinação da Procuradoria Geral, o Estado não pode financiar em 100% a fundação. No máximo, 80%. São coisas que teria que modificar e quero antecipar: João Ubaldo está falando agora, mas estas modificações já estavam sendo feitas e conversadas com a fundação. Falta acertar detalhes… Ela tem um nível de fundação adequado e o repasse será mantindo – assegurou Wagner.

“Empresários só queriam explorar imagem”

Nos últimos anos, a editora Companhia das Letras tem relançado as obras completas de Jorge Amado, no que talvez seja a única ação pela permanência do “doutor em romance”, como o definiu Mário de Andrade, em comentário sobre “Mar Morto”. Os livros “Capitães da Areia”, “Quincas Berro D’água” e “Os velhos marinheiros” foram adaptados para o cinema e devem estrear até 2011.

Quanto ao memorial, nenhum passo. Paloma Amado cita os exemplos da casa do sociólogo Gilberto Freyre, em Pernambuco, e das três moradias do poeta Pablo Neruda, no Chile, “recuperadas pela Telefonica da Espanha”. No Brasil, indiferença pelo romancista baiano.

– Ninguém se interessou. Os empresários vinham com um contratinho pronto para se tornarem donos do nome de Jorge Amado. Queriam explorar a imagem. Não aceitamos isso – diz a filha.

Último ato. Quando o projeto do memorial ganhou o selo da Lei Rouanet, no tempo em que Gilberto Gil ainda ocupava o Ministério da Cultura, “a Petrobras disse que não dava mais dinheiro”. Segundo Paloma, após os reparos, a casa tem sido cuidada pelo neto do escritor, João Jorge Filho.

Com milhões de leitores e cúmplices de sua obra, Jorge Amado não consegue mobilizar financiadores

Serra: “estou cansado”/MSN

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CLAUDIO LEAL (DE SÃO PAULO)

No lançamento do livro “Diário de bordo – A viagem presidencial de Tancredo”, do embaixador e ex-ministro Rubens Ricupero, terça (16) à noite na livraria Cultura, em São Paulo, o governador José Serra chegou com um cortejo de D. João VI, perto do fim do expediente.

Driblando perguntas sobre a sucessão nacional – “Estou muito cansado… O dia foi cansativo” -, o pré-candidato do PSDB pediu a um rapaz para largar o cigarro e aceitou posar para fotos com uma criança. Pedido ideal para um candidato com sequito de D. João VI.

Depois de caras de cinema para cinco cliques com a menina de colo, Serra devolveu-a aos braços da mãe, que fez tatibitati:

– Minha filhinha tirou uma foto com o futuro presidente!

Ao ouvir a frase, Serra deu um recuo e ponderou:

– Mas foi ela que quis!

Claudio Leal é jornalista

mar
12
Posted on 12-03-2010
Filed Under (Artigos, Claudio) by vitor on 12-03-2010

O traço crítico de Glauco

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Claudio Leal

Quando morrem, os humoristas não merecem ir para o céu. Assassinado junto com o filho, Raoni, na madrugada desta sexta-feira, em Osasco (SP), o cartunista Glauco Villas Boas inviabilizou seu passaporte para o lugar-comum dos vertebrados: era impertinente, livre, subversivo e de oposição. Olhando bem, nesta República poucos justificam os quatro carimbos. Não confundir um humorista com os piadistas e os imitadores anedóticos. Estes são aceitos em qualquer festa. Os humoristas, em seus confrontos de Oscar Wilde, Dorothy Parker ou Millôr Fernandes, não gozam descanso terreno ou eterno.

Sem coincidência, Glauco se hospedou por nove meses no lendário apartamento de Henfil na rua Itacolomi, em São Paulo, nos anos 70. Esse encontro de fradins e geraldões insinuava um ritual de passagem do humor do “Pasquim” para o da geração de craques como Laerte, Angeli e Glauco. Não havia admiração pacífica. A agilidade do traço de Henfil, quase “caligráfico” – como destacava Jaguar -, e a liberdade no uso do espaço do cartum contagiaram “Los 3 Amigos”. “Estou falando com Deus, pensava, quando conheci o Henfil. Os Fradinhos, aquele traço todo solto, o uso do palavrão – o trabalho dele era um avanço muito grande”, declarou numa entrevista.

Mas o que o distanciava do mestre era justamente o que determinaria a personalidade artística de Glauco: o impulso dessacralizador da política. A partir de 1977, iniciou sua colaboração com a “Folha de São Paulo”, no momento em que o humor vivia o conflito entre a militância e a contestação da esquerda. Ele reduzia a República a seus elementos mais infantis, para revelar o nonsense de engravatados e congêneres. Fernando Henrique Cardoso, papada e tremedeiras de intelectual da primeira infância. Lula, charuto híbrido de sindicalista e líder plenipotenciário. Os gestos infantis são, óbvio, fundadores do ser humano. E Glauco descascava as pompas dos políticos brasileiros até deixá-los montados num cavalinho. Não parece o Arruda num carrossel?

Suas charges (“cartuns editoriais!” – bradaria o humorista Osmani Simanca), na página de Opinião da “Folha”, vibravam nesse Olimpo dos palpiteiros do jornalismo (sempre revestidos de uma gravidade que não se ajusta à nossa esquina). A surpresa da caricatura nascia do movimento, dos nervos. Geraldinho e Geraldão, Dona Marta, Zé do Apocalipse e Doy Jorge se metem em tumultos vários, alguns deles animalescos – em diálogo e traço. Glauco banqueteou-se com o budismo, Carlos Castañeda, Osho e o Santo Daime. Agora vemos que tinha uma clarividência corrosiva. No desassossego com a notícia de sua morte, a última tirinha da Dona Marta desconcerta por enquadrar a violência:

“- Chefinho tenso… Vou fazer uma massaginha…

– Experimenta! (Clic! Revólver apontado)

– Experimento, fica bem quietinho! (Fuzil na nuca).”

Glauco morreu aos 53 anos, em sua casa. Quatro tiros no (nosso) peito. Os deuses dos grandes humoristas costumam falhar. E ouvimos Geraldão, no quadrinho final: Mãe, que merda!

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OPINIÃO/ JUSTIÇA E CULTURA

O Lado BB do Ministério Público: como arrasar a Mudança do Garcia

Claudio Leal

Fez bem o promotor do Ministério Público, Heron José Santana Gordilho, em esclarecer a proibição de jegues e outros animais cavalgáveis na tradicional Mudança do Garcia, do carnaval de Salvador. Enfrentar o debate é um mérito de cavalheiro. No artigo “Consideração moral dos animais”, publicado em A Tarde (18/02), o promotor respondeu às críticas do antropólogo Roberto Albergaria, ainda que tenha preferido omitir o nome do interlocutor. Exato: uma técnica dos maus polemistas.

Como sabe o Cavalo Branco de Napoleão, o MP, a OAB e mais dois ou três ongueiros pressionaram os organizadores da Mudança a não usar animais no desfile da segunda-feira momesca. Ninguém sabe se o veto se estenderá aos Encourados de Pedrão, no cívico Dois de Julho, e à carruagem da Rainha Elizabeth II. Quem adivinhar o próximo desdobramento da chicotada contra a história da Mudança, ganha um exemplar do “Febeapá”, de Stanislaw Ponte Preta.

Porém o cabriolé não deve andar rápido. Voltemos ao artigo do dr. Heron José. Numa linguagem elevada, ele afirma que “a cultura da ignorância não consegue perceber que houve consenso entre os interessados”. Depreende-se da candura dessa frase o conforto das lideranças de um bairro popular diante do cerco de engravatados e ambientalistas xiitas. O consenso, nesse ambiente de argumentos surreais, lembra “a ordem superior” do samba “Despejo na favela”, de Adoniran Barbosa. A alternativa do favelado era sair “pra não ouvir o ronco do trator”.

Num Estado em que não houvesse a “cultura da ignorância”, o MP não se atreveria a esvaziar uma manifestação cultural quase secular sem receber questionamentos formais da Secretaria da Cultura (onde está Marcio Meirelles?), do Conselho Estadual de Cultura, do Instituto Geográfico e Histórico, da Câmara Municipal e de organizações da sociedade civil.

O primeiro efeito se apresentou no desfile de 2010. Houve uma redução absurda das belas carroças e jegues, tradicionalmente com cartazes de protestos. E os remanescentes não fugiram à regra de conduta dos anos anteriores. Afinal, qual era o problema? Para 2011, promete-se a proibição total. Duas ONGs sem relevância pública conseguirão arrasar um patrimônio de Salvador. Restará o vaivém de bandeiras sindicais vazias. Os medidores de decibéis de jegue podem identificar outras falsidades: inelutavelmente, haveria maus-tratos contra animais na Mudança do Garcia; por óbvio, os carnavalescos se comprazem com torturas a cavalos e jumentos.

Prevaleceu o Lado B.B. (Brigitte Bardot) do Ministério Público. Enquanto alguns promotores se esforçam para evitar a ocupação selvagem das áreas verdes da Avenida Paralela, há os que preferem seguir os ensinamentos da ronronante atriz francesa: “Eu dei minha beleza e minha juventude aos homens. Agora dou minha sabedoria e minha experiência aos animais”. Ouvem-se dois relinchos no presépio.

Qual a diferença entre legislar e impor mandamentos supostamente ambientalistas a lideranças populares indefesas? O promotor de Justiça, com a retórica do marxismo, decreta que “a inclusão dos animais em nossa esfera de dignidade moral é um processo histórico irreversível”. Além de ser um contrassenso axiológico, contraria ainda qualquer rabiscado livro de filosofia e o próprio acúmulo mental do Oriente e do Ocidente. “Dignidade moral” possuem os cordeiros dos blocos carnavalescos, outra vez submetidos a intocáveis subcondições de trabalho.

O MP só não argumenta em sânscrito quando recorre a Mahatma Gandhi para dar tom erudito ao acordo. “Gandhi, em sua política de não violência, afirmou certa feita que ‘a grandeza de uma nação e o seu progresso moral podem ser avaliados pela forma com que ela trata os seus animais'”, diz o promotor. Entretanto, retirado da redoma da política, o líder indiano é um exemplo de reacionarismo e princípios anti-humanos, como atesta o escritor George Orwell num ensaio não-hagiográfico incluído na coletânea brasileira “Dentro da baleia”
(Cia. das Letras).

“Os ensinamentos de Gandhi”, expõe Orwell, “não estão de acordo com a crença de que o Homem é a medida de todas as coisas e de que nossa tarefa é tornar a vida digna de ser vivida neste mundo”. Defensor do voto de bramahcharya, o pacifista tentou eliminar o desejo sexual de seu cotidiano (após experiências na área). Prossegue o autor de “A revolução dos bichos”: “A autobiografia deixa vago se Gandhi se comportou de forma desatenciosa com a esposa e os filhos, mas de qualquer maneira deixa claro que em três ocasiões ele se dispôs a permitir que a esposa ou um filho morresse em vez de fornecer o alimento animal recomendado pelo médico”. Para Gandhi, o único jeito era dançar o “Rebolation”. Ainda é melhor dar dignidade moral aos cordeiros e capim aos muares da Mudança.

Claudio Leal é jornalista
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