set
15


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CRÔNICA / VIVÊNCIAS

SALVE JORGE!

Aparecida Torneros

O jovem compositor e cantor brasileiro estava pela primeira vez em tournê, no Japão. Apresentava-se na boate “Copacabana”, no centro de Tóquio. Era 1972, fevereiro. Embarquei para a terra do sol nascente, com a recomendação da chefia de reportagem da revista “O Cruzeiro”, de mandar boas matérias sobre o carioca Jorge Bem (ele ainda não atendia por Benjor), peguei o avião numa segunda feira de carnaval. Por sorte, eu tinha assistido ao desfile do Salgueiro, na avenida Presidente Vargas, e essa foi a primeira coisa que ele me perguntou. Também era a primeira vez na sua vida que não desfilava pela escola do coração. Seus olhos brilharam quando lhe contei como estivera lindo na passarela do samba, o Acadêmicos do Salgueiro.

A quase menina, repórter estreante, a nível de correspondente internacional, com pouco mais de 20 anos, acabava de ser escalada para a viagem de 26 horas, com paradas em Lima, Los Angeles e Alasca, num valente e pequeno boeing antigo, da saudosa Varig. Esta era eu, a jornalista em início de carreira, rumo ao oriente desconhecido e misterioso, onde ficaria por alguns meses para cobrir assuntos variados e enviar matérias, via tripulação de bordo da companhia aérea brasileira, já que, ainda não tínhamos alcançado a era da internet e a telefonia ainda se completava depois de horas a fio, de espera. Só assim eu podia falar com minha família, aos domingos, em ligação difícil com voz embargada tanto pela emoção quanto pela má qualidade do sinal que acontecia por cabos submarinos, por incrível que possa parecer hoje.

Pois o Jorge, salve ele, lá estava, com todo o gás, acompanhado de um trio, o Mossoró, só mais tarde surgiu a famosa banda do Zé Pretinho. O trio, do qual me lembro com alegria, pois havia o Nereu Escovão, figura especial que me fez rir muito em nossas andanças pela cidade. Lembro de um domingo em que fomos, os cinco, ver os jardins do Palácio do Imperador Hiroíto, cujo cortejo passou e todos abaixaram as cabeças, inclusive nós, já que era proibido olhar para o Imperador.

Estivemos também passeando em templos budistas, e até fomos ver a cerimônia do Chá numa casa de gueixas, onde tivemos que negociar minha entrada, pois mulher não entra, e eu fui a exceção.

Aprendemos a admirar aquela cultura por diversos aspectos, talvez o mais marcante seja a sua hierarquia e o respeito às tradições.

Naquele domingo, eu tinha levado um par de luvas, fazia muito frio, eles não pensaram nisso, então , por acordo, cada um de nós podia ficar cinco minutos com as mão calçadas, e o rodízio foi motivo de mil brincadeiras, correrias, pegas-pegas, de jovens brasileiros perdidos em manhã gelada pelas ruas de uma cidade que ainda não havia se contaminado pela loucura ocidental. Isso aconteceu depois, nos anos 80.

As reportagens saíram em série, por algumas semanas, a revista publicou as impressões que enviei, sobre o quanto era interessante ver os japoneses pulando e acompanhando o samba brasileiro, a nossa música sendo absorvida com emoção por gente de gostos tão diferenciados. Eles pronunciavam “sambá”, com acentuação forte no final da palavra, e um toque risonho do seu espanto pela chegada da cultura brasileira que iria se fixar definitivamente no cenário japonês, ao longo das próximas décadas, através de música, futebol, imigrantes e grande aproximação dos dois países.

Na volta ao Brasil, revi o Jorge algumas vezes, cruzando em aeroportos ou assistindo seus shows, acompanho sua trajetória, ímpar, ele é um artista múltiplo e único, de som especial e inconfundível. Naquele tempo, brindou-me com uma música com o meu nome. Embora não tenha sido um sucesso, “Apareceu a Aparecida”, é,para mim, uma manifestação de carinho de um talentoso ídolo da música brasileira, a quem rendo homenagem, desejando sempre, muito sucesso e saúde. Salve Jorge!

Aparecida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeir, onde edita o Blog da Mulher Necessária. (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com)

set
06
Posted on 06-09-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 06-09-2009

O “carinha” se deu mal
macara

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CRÔNICA/ NOITE FELIZ

A CARA DO “CARINHA”

Aparecida Torneros

Minha amiga gritava, a cada um dos três gols do Brasil no jogo contra os agentinos, que assistimos na noite de sábado, com imagens desde Rosário, no calor da torcida: – quero ver a cara do Maradona…mostra!!!

E numa sequência prometida, a televisão focalizava a cara do “carinha”, ruminando a impáfia que lhe é característica, ao som do samba bem dançado da equipe “dunguiana” que lavava nossa alma de brasileiros bons de bola, enquanto a rivalidade se alimentava mais uma vez da paixão pelo futebol, comum aos dois países vizinhos, colados nesse Mercosul fadado a buscar um caminho econômico-social e até político, com mais irmandade e menos “briga de galo”.

Mas, a torcida imensa, a brasileirada de plantão, na verdade, era um coro de valentes diante de um desafio de “europeus de araque”, segundo ouvi de outra amiga, ao definir os argentinos.

Permitam-me discordar. E como a raiz da palavrinha, indica “cord”, que quer dizer coração, é com ele mesmo, o meu coraçãozinho apaixonado pelas terras argentinas, e por seu povo, onde fiz e tenho muitos amigos e amigas, que preciso dizer que “amigos, amigos, jogos à parte”.

Não é que sejamos inimigos futebolísticos, ou quase isso, mas é que nossos meninos, em campo, refletem uma necessidade que temos, de confirmar nossa hegemonia mundial no que tange à magia em torno dela, da redondinha, a tal “pelota”, aquela bola que rola bonitinha indo direto à rede adversária, para nosso contentamento e vitória.

Mas e a cara dele? Pois é, minha amiga, que é médica, e faz plantão aos domingos, saiu tarde da minha casa, ia dormir feliz e, certamente, ao chegar no hospital no domingão imprensado com o feriado, de alma “vingada”, deve ter brindado os colegas e pacientes com um sorrisão daqueles, pois ela viu a cara do “carinha”, engolindo nossos sapos, nossas cobras, ou melhor, engolindo sua armação, seus trejeitos de “melhor dos melhores”, diante de uma brava gente brasileira que foi lá, na casa do adversário e botou pra quebrar.

Bem que se tentou, de certo modo, minimizar a tentativa de massacre, afinal, foi tudo preparado, um campo onde a torcida argentina ficaria de cara com o gramado, e devia xingar e achincalhar nossos meninos, mas a tática não colou, não deu certo, o tiro do Maradona saiu pela culatra, e nossos jogadores desempenharam o papel que todos os compatriotas esperávamos.

Os liderados do Dunga produziram a cara mais abobalhada e tola, ressabiada e sem graça nenhuma, de um “carinha” chamado Diego, um tal de Maradona bom de blá-blá-blá…

E o que valeu, gritou minha amiga: Olha a cara de “bunda” dele! E todos, na minha sala, caímos na gargalhada. O Brasil todo era a cara da alegria. E o Dunga, pô meu… é o nosso “cara”, ainda bem… Salve os carinhas bons de bola, toda a troupe, nossos garotos mestiços, acanhados, humildes, vindos de todos os lados, que não se intimidaram com manobra de “gringo”, pois são a cara do Brasil, do país que lidera o futebol no mundo, “sorry”, periferia, como já dizia o grande Ibrahim Sued, irreverente e direto!

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro. (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com)

ago
27
Posted on 27-08-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos, Multimídia) by vitor on 27-08-2009


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A jornalista e a artista em Sampa
Elcida

CRONICA BRASILEIRA

Elza, a baiana, a carioca, a brasileira…

Cida Torneros

Já assisti a Elza “dura na queda”, ao vivo, umas 4 ou 5 vezes na vida, em shows. O encanto, a vê-la cantar, é repetido. Em abril, em São Paulo, no tradicional Bar Bhrama, lá estava ela novamente, fechando uma temporada. Fui com uma amiga paulistana, de origem gaúcha, que nunca tinha tido a chance de ouvir “Elzinha” in persona.

Sua arte sobrepuja as mazelas da própria vida e ela segue nos fazendo superar expectativas, recomeçando sempre. Inigualável cantora, voz de jazz e de samba, ou vice-versa, mulher de energia, dura na queda, vida de baixos e altos, aquela que dá a volta por cima, veio da comunidade, desceu o morro, subiu os mais altos prédios do mundo, esteve por Nova York, onde viveu algum tempo. Minha amiga deslumbrou-se.

Quem pode passar imune por Elza Soares, essa carioca pequena e forte, e agora, a mais nova baiana, cuja interpretação do Hino Nacional brasileiro, na abertura dos Jogos Panamericanos, cantando à capela num Maracanã repleto de gente do mundo inteiro, era ela a verdadeira síntese do seu povo, arrepiando sua gente e se oferendo inteira para a Pátria Amada Brasil. Uma ocasião, eu a assisti no Teatro Rival, no Rio de Janeiro, num show intitulado “Do cocxi até o pescoço”, também inesquecível.

Dessa vez, na noite paulista, como das outras anteriores, estive flutuando na sua magia, e com ela até cantei Feitiço da Vila, samba do Noel em homenagem à Vila Isabel, bairro em que moro no Rio de Janeiro.

Tanto faz que ela se apresente no Rio, em Sampa, em Salvador, ou qualquer outra cidade do nosso país, ou no exterior, sua graça e talento sobressaem, ela fez escola, história e marca sua presença como ninguém no cenário da música popular brasileira.

Só consegui sussurrar no seu ouvido um “Deus te abençoe”, enquanto pude ficar pertinho dela, e no nosso dueto de 5 segundos, seu carinho ao me oferecer o microfone para cantar um samba de Noel, é o mesmo sentimento que ela passa para cada público que tem a oportunidade de vê-la e ouvi-la, ao vivo.

Filha de uma lavadeira e de um operário, foi criada na favela de Água Santa, subúrbio de Engenho de Dentro. Cantava, desde criança, com a voz rouca e a cadência ritimada dos sambistas do morro. Aos 12 anos, já era mãe e aos 18, viúva. Trabalhou como lavadeira e operária numa fábrica de sabão e, com 20 anos, aproximadamente, fez seu primeiro teste como cantora, na academia do professor Joaquim Negli, sendo contratada para cantar na Orquestra de Bailes Garan e a seguir no Teatro João Caetano.

Em 1958, foi à Argentina com Mercedes Batista para uma temporada de oito meses, cantando na peça Jou-jou frou-frou. Quando voltou, fez um teste para a Rádio Mauá, passando a se apresentar depois em muitas outras emissoras, e por intermédio de Moreira da Silva, foi parar na Rádio Tupi e depois começou a trabalhar como crooner da boate carioca Texas, em Copacabana, onde conheceu Silvia Teles e Aluisio de Oliveira que a convidou para gravar. No seu primeiro disco, gravado em 1960, pela Odeon, cantou “Se acaso você chegasse” ( Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins), alcançando logo grande sucesso.

Em seguida foi para São Paulo, participou do primeiro festival de Bossa Nova no teatro Record e na boate Oásis, gravando seu segundo LP , “A bossa negra”.

Em 1962, apresentou-se ao lado de Louis Armstrong, como artista representante do Brasil na Copa do Mundo, em Santiago , no Chile. Nessa época conheceu Garrincha, com quem se casou.

Elza gravou centenas de músicas, fez inúmeras apresentações pelo Brasil e no exterior, interpretou os compositores mais famosos e expressivos desde Dorival Caymi a Vinicius, Tom, João Donato, e Ataulfo Alves, de quem eternizou Mulata assanhada.

Quem não lembra sua performance em Estatuto da Gafieira, de Bili Blanco, ou do Tributo a Martin Luther King, de Simonal e Ronaldo Bôscoli?

Sua carreira foi marcada por muitos sucessos e sua vida pessoal passou por revezes que a fizeram enfrentar dores e ter que seguir em frente. A partir de 1986, depois da morte de Garrinchinha, seu filho com o jogador de futebol Garrincha ( 1933-1983), ela passou nove anos na Europa e nos EUA.

De volta ao Brasil, gravou em 1997 o CD Trajetória, com músicas de Zeca Pagodinho, Guinga e Aldir Blanc, Chico Buarque, Noca da Portela e Nei Lopes. Ainda em 97 lançou o livro “Cantando para não elouquecer”, biografia escrita por José Louzeiro ( Editora Globo).

Elzinha é essa Diva da música brasileira, cheia de gás, tem o canto nas veias e o tom no balanço do corpo, brinca com a voz e com seu público e a minha sorte foi poder revê-la ali, na esquina da Ipiranga com São João, há poucos meses.

A mulher e a artista se confundiam com a garra e o talento, tudo misturado na noite paulista, ao som da voz de uma Elza, uma brasileira, uma lutadora, melhor dizendo, uma vencedora, que é referência de vontade de viver, encantando a nós, que somos seus fãs, e àqueles que ela arrebata e faz se apaixonarem pela energia que dela emana. E ainda pude ter a “canja” de me atrever a cantar com ela. Agora, que ela acaba de “virar’ oficialmente baiana, ninguém segura mais a nossa Elza Soares, ela segue, “tirando o sossego da gente”, oh Elzinha assanhada!!!

Aparecida Torneros é jornalista e escritora, mora no Rio de janeiro, onde edita o Blog A Mulher Necessária, título também de seu livro de artigos e crônicas. (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com)

ago
23
Posted on 23-08-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos, Multimídia) by vitor on 23-08-2009

CRÕNICA/VIDA

DANÇANDO COM O TEMPO

Aparecida Torneros


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dança
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Uma dedicatória plena de sensibilidade:
“Para as meninas com mais de 60 que ainda dançam”

A dedicatória eu li, na manhã instigante de domingo, em pleno final de agosto, justo quando permaneço atenta ao meu movimento interno, às vésperas de completar os meus orgulhosos 60, no próximo dois de setembro.

Está no site-blog, Bahia em Pauta (http://bahiaempauta.com.br/), um verdadeiro frescor, que mistura notícias com sensibilidade, editado pelo jornalista Vitor Hugo Soares, desde Salvador, apresentando a sugestão de sua irmã, Regina, que mora em São Francisco, mas segue antenada às coisas do patropi, ao exibir um vídeo com Novos Baianos e Marisa Monte, com a interpretação de “A menina dança”.

Pois é, somos mesmo “meninas”, que ainda dançam, ou melhor, dançamos!

Ontem mesmo, marquei de ir, no sábado próximo, dançar com um amigo, e ele perguntou se eu topava cair num forró, na feira de São Cristóvão, no meio da cultura nordestina que ali é ponto de referência turística nacional e internacional, onde o Gonzagão paira sobre todos, com seu baião intencionalmente pródigo de nos fazer embalar corpo e alma.

Adorei a idéia, confirmei, já estou me preparando, psicologicamente, para dançar a noite inteira, envolver-me na cadência da música, balançar os braços, tornar leves meus pés e pernas, cantarolar letras que dizem tudo, soltar as ancas em direção ao prazer que os movimentos musculares podem proporcionar, diante de um som que nos envolve desde os póros até a medula, nos fazendo ultrapassar dimensões.

Chegar aos 60 e ir além, “dançando” conforme a música, espantando os males, cantando para o mundo ouvir que temos garra. Sim, a mulherada madura tem demonstrado exatamente isso, sua sede de viver com qualidade. Deixamos de lado e pra trás o que não presta mais, não nos acrescenta, temos muito a fazer e aprender. Ontem , também, na manhã de sábado, lá fui eu para a minha primeira aula de francês. Nem imaginem como fiquei feliz, no meio de outros alunos(jovens e maduros) consegui pronunciar o tal “biquinho” tão característico da língua e trouxe dever de casa para fazer, completarei frases, ouvirei o cd, vou me dedicar em mais esse desafio.

Estar com 60 ou mais, “aprendendo” todos os dias, a viver e amar, do jeito que for, esbanjando decisão, tirando lições de onde nem se pensa que pode sair alguma coisa, às vezes. Noutro dia, aprendi com uma “menina” de 30, que há que se manter algum mistério sobre a declaração de um amor. Ela me disse: “eu nunca digo a um homem que estou amando, mesmo que esteja!”. Fiquei pasma, perguntei porque, ela foi enfática: ora, para ele não se sentir seguro demais, e eu “dançar”…

Aí, vejam, eu compreendi outro tipo de dança, a da gíria, muito usada nas bandas cariocas, do tipo malandrinho, “viu, você dançou, amiga!”

Não é que a gente ou dança ou “é dançado”? Há até um projeto social, de ensino de ballet em comunidades pobres, que preconiza a inclusão social de jovens, intitulado “dançando para não dançar”, com o duplo sentido, já que a meninada desavisada, de repente, dança mesmo nos embalos traiçoeiros do tráfico. O trabalho a que me refiro é digno de aplausos, pois já colhe frutos e tem levado alunos egressos de suas aulas e sonhos, a virarem bailarinos expoentes em companhias de ballet importantes como o Royal de Londres, por exemplo.

Nada fica mais claro do que deixar-se levar pelo fluxo das ondas sonoras. Cooptar-se pelo clima que a música proporciona. Ter a idade da lua ou o tempo dos deuses, completar o ciclo da marés ou atingir a velocidade-luz das almas livres, o que importa mesmo é viver dançando.

Dançar vivendo também vale. Acabo de me imaginar recebendo um interessante telegrama expresso que diz: ” VIDA DANÇA SEMPRE PONTO APROVEITE TUDO PONTO MENINA DENTRO VOCÊ ETERNA PONTO BEIJOS ASSINADO VIDA”

Cida Torneros , jornalista e escitora, é editora do blog da Mulher Necessária, mora no Rio de Janeiro. (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com)
(reproduzindo no meu blog a sugestão linda do Vitor e da Regina
Ouçammmmmmmm e dancemmmmmmmmmmmmmmmm
http://www.youtube.com/watch?v=m3BTJn4ZKgM )

ago
16
Posted on 16-08-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 16-08-2009

Marina e Dilma: reviravolta
eleição
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OPINIÃO/ SUCESSÃO

Marina e Dilma:trocando gravatas

Aparecida Torneros
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As notícias dão conta de que há uma guerra sem gravatas nos bastidores da política nacional. Sem gravatas, mas com bravatas, o que é rotineiro nesse gênero de brigas pelo espaço do poder máximo do executivo nacional. A novidade é o escanteio para o qual foram jogados os nomes masculinos.

Um Brasil cada vez mais feminino surge no cenário do comando com rédeas curtas, pois fica claro que há entre as possíveis candidatas, um fio que as liga ao discurso menos brincalhão a que nos acostumamos. Qual delas compararia episódios da vida nacional a passes de futebol? Talvez aprendam, para chegar mais perto dos ouvidos torcedores do eleitorado masculino, que hoje, estatisticamente, já é minoria.

Manchetes estampam a reviravolta no quadro sucessório presidencial que há muito vem beirando a feminilidade, com as presenças de canditadas em fase de pré-escolha ou de reedição de propostas. Roseana foi o balão de ensaio, da saga maranhense herdada do feudo da família Sarney, Heloísa, das Alagoas, é sempre um nome em pauta, com sua postura de salvadora da Pátria que se coloca bem, na medida do possível, quando lhe é dada a chance de emergir. Marta Suplicy está entre as menos cogitadas, atualmente, mas fez seu nome na historia paulista e nacional, entre declarações gozadoras que no fundo são audaciosos avanços da mulherada em busca do espaço antes ocupado pelo mundo dos machos a quem cabia falar o que bem lhe aprouvesse.

Eis que surgiram, de uns tempos para cá, duas figuras tão fortes e tão combatentes, de vidas pessoais visivelmente corajosas, a Marina e a Dilma. E aí estão elas, na disputa, atropelando prognósticos, um prato cheio para as instituições de pesquisa, capazes de acirrar o debate, de confundir os eleitores, mas , sobretudo, figuras propensas a enriquecer a já cansativa e repetitiva campanha eleitoral que nos invade ouvidos, olhos e paciência, via televisão, rádio e afins, nos anos eleitorais.

É que Marina usa somente bijuterias feitas com sementes da Amazônia, este é um dado a considerar, sua brasilidade acreana, certamente vai encantar parte do público como referência nacional. Dilma, a forte, enfrenta com dignidade o tratamento contra doença séria e não pára de trabalhar. Marina tem olhos de guerreira da tribo, Dilma absorve as mazelas do Governo e as transforma em obras, procedimentos, números positivos, comanda equipes e esbanja mais tecnicismo do que jogo partidário. Marina tem voz doce e sorriso meigo. Dilma tem voz empostada e sorri pouco, mas, lança olhares de incentivo aos brasileiros que dela esperam continuidade dos melhores programas da era lulista.

Parece que elas não tem companheiros candidatos ao posto de “primeiro damo”, são mulheres que se acostumaram a lutar sozinhas, salvo engano, talvez nem tanto, pois tem filhos, trazem a experiência da maternidade, fator ímpar na decisão de qualquer dirigente que busque equilibrar sentimentos e razão, coisa que mãe faz o tempo inteiro, ao longo da sua vida.

Fala-se em acordo para que não venham a se bater muito nos debates, caso sejam confirmadas como reais candidatas ao cargo no Palácio do Planalto, e , no fundo, nem há que se esperar uma peleia de mulheres ciumentas ou ambiciosas. O que se verá, se realmente acontecer, será o duelo de duas guerreiras, instadas pela solução que proporão ao país que amam, além do mais, o que se verá como fato novo, é que elas usarão baton e enfeites, ao seu modo, alguns arranjos de cabelos, cortes ou coques, talvez unhas pintadas, quem sabe uma fragrância cítrica de flores nativas, ou ainda roupas de corte sóbrio, não faltarão saias longas, colares, óculos fashion, expressões amigas, tipo “minha querida”, ou coisa que o valha, e dentre tantas suposições, uma agora me intriga…

Se combinassem as duas e chegassem de camisas e gravatas ao primeiro debate televisivo, criariam a maior expectativa de marketing, nunca dantes imaginada.

Aí, num gesto conjunto, Dilma e Marina, tirariam e trocariam as tais figuras simbólicas do traje masculino tradicional, com fazem os jogadores de futebol, com a troca de camisas, e nós teríamos a chance de ver, abolido, definitivamente o crime do colarinho branco em terras brasileiras. As gravatas entrarão para a história então, como fatos passados, e lenços coloridos, de poás, floridos, verdes e amarelos, enfeitarão os pescoços de uma e de outra, qualquer que seja a vencedora, já que a hora feminina do comando brasileiro chegou, afinal.

Aparecida Torneros, jornalista e escritora, autora de “A Mulher Necessária, mora no Rio de Janeiro.(http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com)

ago
06
Posted on 06-08-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 06-08-2009

Marilyn: eterno glamour
marilyn
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CRONICA/GLAMOUR

Marilyn Monroe:47 anos sem ela…

Aparecida Torneros

Quarta-feira, 5 de Agosto de 2009

“Uma Marilyn glamourosa enfeitiçou platéias no mundo todo, nos anos 50 e 60, tornando inesquecível seu sorriso, emoldurado por cabelos platinados, em corpo curvilíneo, um delírio masculino daqueles tempos, ela era mesmo a namoradinha da América que encantava com ar de menina dengosa um público ávido de vê-la desempenhar o papel de boneca mimada, em tantos filmes, na frente das câmeras, alimentando o sonho americano.

Por trás das luzes da ribalta, a quase indefesa Marilyn viveu a penumbra das recorrentes depressões e tentativas de suicídio, dos amores que a abandonaram, das decepções que pareciam não combinar com o frenezi dos repórteres e paparazzis que a seguiam buscando notícias estonteantes, enquanto ela passava por seus altos e baixos pessoais, entrando e saindo de romances perigosos ou tórridos, com diretores, políticos, mafiosos e escritores.

Interpretou mulheres ingênuas e fêmeas fatais, dançou diante de olhos desejosos, piscou para garotões e senhores, flertou com soldados no front, cumpriu jornada de estrela hollywwodiana espalhando nudez comportada ou beijos de bocas vermelhas com jeito de cerejas que deviam ser colhidas para a torta da casa da familia classe média americana.

Foi engolida pelo sonho, viveu então o pesadelo, não suportou a pressão, tomou medicamentos para dormir, dormiu para sempre, há 47 anos, surpreendendo seus fãs, porque estava no auge da vida, era uma figura carismática, representava a mulher para ser querida e não para morrer tão sofrida e solitária.

Marilyn continua a ser a namoradinha do cinema americano que antecedeu a tecnologia, ela pertence à galeria dos artistas cult, tem um lugar na história da indústria cinematográfica, um lugar de destaque, vendeu muitas imagens para salas espalhadas no mundo todo, imprimiu a marca da feminilidade a la perua, bem sexy, bem arredondada, muito rebolativa, bem maquiada, com cabelos descoloridos, ares de gata angorá, atriz obejto de desejo, expressiva criatura, cuja história pessoal confundiu-se com desamor e desencontro.

Mas, sua arte levou alegria e emoção a milhões de pessoas e ainda é possível abrir mão do preconceito e assisti-la em filmes memoráveis. Eu, quando preciso mergulhar numa fuga para o tempo das conquistas absolutamente desprovidas de interesses materiais, revejo sua atuação com Yves Montand, quando ela canta que seu coração pertence ao Papai, uma canção de Cole Porter, em momento máximo da sua carreira, que me faz admirar sua garra, em transparecer talento, apesar das suas lutas em defesa dos seu equilíbrio emocional. Nessa interpretação, ela aparece, magistral e sedutora, prendendo nossa atenção, o que nos faz compreender a extensão do seu alcance enquanto estrela do seu tempo, na calçada da fama e no céu da consagração merecida.

Cida Torneros é jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária, onde este texto foi originalmente publicado.

ago
01
Posted on 01-08-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos, Multimídia) by vitor on 01-08-2009


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Hippies/Blog da Mulher Necessária
hippies

CRÔNICA/MEMÓRIA
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WOODSTOCK, 40 ANOS: PAZ, AMOR E REFLEXÃO

Aparecida Torneros

Conheci Maggio, um hyppie argentino remanescente, que vive no litoral paranaense, há cerca de três anos. Saudei-o na sua resistência, pois permanece fiel aos ideais de não se curvar ao way of life americano ou ao jeito consumista de ser, como pregaram os seus companheiros nos anos 60 e 70. Encontrei-o no dia 30 de agosto de 2006, vivendo num carro-casa, em Antonina, no Paraná. Comprei dele um colar de contas, do seu artesanato, e conversamos por uns cinco minutos.

Somos da mesma geração, eu, como simpatizante do movimento hippie, em determinada fase da minha juventude, cultuei hábitos de usar objetos que não pertencessem à grande indústria. Bolsas e cintos, os confeccionados pela Lucia Ritto, saudosa amiga jornalista que estudou comigo na universidade. Saias, as indianas, feitas à mão. Colares , aos milhares, brincos, idem, bandanas na cabeça, tudo da feira deles, em Ipanema e também na praça da República, de São Paulo, onde fui em 1969 e vivi uma experiência inusitada. Um hippie alemão, de repente, disse que estava apaixonado por mim, que, aos 19 anos, ria muito da situação, mas quando o ônibus da faculdade ia partir de volta ao Rio… os colegas me puxavam pra entrar no veículo por um braço e o tal hippie louro dos olhos azuis me puxava pelo outro braço, falando um espanhol carregado de expressões de sofrimento. Ele dizia….vem comigo, vamos pra Bahia e vamos ser felizes…eu não fui…deixei para trás, naquele momento a grande chance que tive de cair na estrada…como era comum naqueles tempos…

Então, quando conheci o Maggio, me deu aquela nostalgia… e ao nos despedirmos, ele disse “que Dios te bendiga”, retribuí, desejei-lhe felicidades, e senti que ele parou nos anos 70, mas está bem… é o que quer…renunciou a toda a vida capitalista… optou pela solidão das noites nas estradas, mostrou-me o violão, o chimarrão que toma… continua sonhando…em paz e amor… é um sobrevivente do movimento…

Em sua homenagem, vou rememorar Woodstock.

Durante três dias, em agosto de 1969, cerca de quase 500 mil jovens acamparam na fazenda do leiteiro Max Yasgur, a 80 quilômetros de Woodstock, no estado de Nova York e promoveram, em clima de Paz e Amor, com muita música e liberdade vivenciada, o festival que entraria para a história do homem ocidental, como o momento culminante da geração que pregou o fim da industrialização desenfreada, a revolução dos costumes e a fantasia de se repensar o caminho que o mundo frenético havia tomado até ali, com seus conceitos ultrapassados e suas posturas necessitando reavaliação.

Filmes, imagens em fotos, gravações de músicas e shows, marcam até hoje, a passagem daqueles dias na lembrança de quem testemunhou, compareceu, assistiu, acompanhou ou só ouviu falar. Famílias de hyppies, grupos de roqueiros, adeptos de novas moralidades, idealizadores de comunidades modernas, curiosos, religiosos em fase de reflexão profunda, gêneros de seres descompromissados com o stablesshement, todos se multiplicaram em sensações que redimensionaram a juventude planetária a partir do seu grito de protesto, que coube em encontro e congrassamento, música e união em torno de uma aura de bem aventurança ou de mal olhado por parte dos conservadores atentos em sufocar tal insurreição nascente capaz de desestabilizar o status quo vigente…

Passados 40 anos, eis que na memória é possível trazer de volta os expoentes de Woodstock e seus legados. Através do tempo, observo que aquela gente teve um papel relevante na estrada, pois foi caindo nela que bandos de jovens impuseram novos modos de se compreender o planeta e de se viver os sentimentos humanos. Hair, a ópera rock, depois reproduzida em filme, mostrou que havia um misto de poderio e prepotência, na guerra do Vietnam, massacrando, além de envenenar sonhos ou mesmo de mutilá-los.

Recordo as noites em que dancei e cantei “não confie em ninguém com mais de 30 anos”, no final dos anos 60, imaginando que minha geração podia reformar o mundo e consertar o que estivesse torto na humanidade. Além da militância política, havia na causa hippie, pregando Paz e Amor, um bando de sonhadores, lutadores, corajosos jovens que se conscientizavam da necessidade de lutar, protestar e concorrer para a mudança social, conquista de liberdade democrática, sede de justiça, e um arrazoado sem fim de propostas voltadas para uma sociedade mais justa e igualitária.

Foi-se o tempo, foram-se muitos anéis, mas sobraram muitos dedos, e ainda estamos aí, de alguma forma, protestando.Os que tombaram em prol desses ideais, não o fizeram em vão. Alguns sucumbiram prisioneiros das drogas, outros, das alucinações extemporâneas, muitos, vítimas das guerras insanas, e, todos, sem exceção carregaram e carregam, o estigma do seu laço com aquele momento ímpar, de grito da juventude mundial. As barricadas dos estudantes em 68, na França, antecederam o boom anti-convencional acontecido em Woodstock, em 69.

Nada ocorreu em vão. Há, por parte das gerações seguintes, um furor tecnológico e consumista capaz de impulsionar novos sonhos. Guardadas as devidas proporções, é possível hoje, juntar muitos fenômenos musicais, culturais e políticos, nessas 4 décadas, em torno de uma chama que permanece acesa no coração dos que ainda se indignam com a acomodação diante das injustiças e da sede capitalista torrencial.

Uma vez Woodstock, sempre Paz, Amor e Reflexão! Obrigada , Maggio, pela sua resistência de tantos anos!!

Cida Torneros é jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

jul
28
Posted on 28-07-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 28-07-2009

CRÔNICA / MUTANTES

Caleidoscópio ( crônica para saudar Helô)

Aparecida Torneros

cida
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Um sonho de segundos, e o colorido vai passando como num mundo mágico, aos nossos olhos, formando figurinhas brilhantes, flores e cabalas, à medida que os pedacinhos de vidro se movem diante da luz, em espectro sonhador. Helô, a eterna hyppie, me mostrava suas criações, naquelas tardes de Búzios, na casa da Cris, quando eu precisava ver mesmo as cores da vida renovada. Saudade de pintar o mundo com a ilusão de um bom caleidoscópio. Ilusão de ótica, olhar de criança encantada, lá iam meus pensamentos enveredando pela alegria que pode ser tão intensa quando se valoriza um ângulo profundamente especial.

É assim que busco ver os momentos todos. Tão efêmeros na sua beleza abundante, enquanto o milagre da vida acontece para que valorizemos os encontros com os sonhos, mesmo acordados para uma realidade que pode ser dura à nossa volta.

No grande caleidoscópio do universo, os elementos vão mudando de lugar, matematicamente ordenados em crescimento eterno. O bing-bang da explosão originária de que tanto falam os cientistas, nos trouxe essa misteriosa luz para nos fazer criaturas extasiadas com o inexplicável, o espaço que continua a se expandir, os mundos que ainda nos são tão desconhecidos, os planos acima e abaixo que devem ser as tais morados da casa do Pai, como um dia se referiu o Mestre Jesus, numa de suas parábolas tão divulgadas pela fé enquanto nossas figurinhas se enroscam em torno de nossos ínfimos umbigos, a nos ligar ao tempo e ao espaço.

Helô, que um dia encontrei em Buenos Aires, é aquela pessoinha de vida migrante, a mesma que conta histórias de lugares onde já viveu, da Amazônia, do Morro de São Paulo, na Bahia, que confecciona luminárias e micro-oratórios, como o que tenho aqui comigo, do tamanho de uma caixa de fósforo, com um São José segurando o menino Deus, no colo da fantasia, envolto em pedrinhas brilhantes, colocadas meticulosamente pelas mãos da artista, aquela que sabe presentear com delicadeza dos seus dedos cada vez que cria seu mundinho particular e o divide conosco.

Pois é, como a Helô é a única criatura que conheço que ainda produz caleidoscópios, encantando crianças e adultos, ela me provoca vontades infantis de sair correndo pelos campos, cheirar flores e observar passarinhos, admirar borboletas, deixar que o gosto da chuva me ensope a língua, me encha a boca, no descompromisso quase impossível de viver a liberdade de ser.

Saúdo a saudade dela, nem sei onde está agora, talvez na praia de Atafona do norte do Estado do Rio, talvez na casa da filha que vive na Argentina, quem sabe, novamente, produzindo artesanato pelos lados de Búzios, ou ainda, em alguma seresta de fim de tarde, na casa de amigos cantadores, reverberando luminosidade sob prismas de fantasia.

Helô me deve um caleidoscópio e vou cobrar, aliás, estou cobrando, pois, em certos minutos do meu universo pequeno e rico de perguntas sem resposta, preciso mesmo é de fixar meus olhinhos num artefato tão múltiplo de imaginação e viajar nas imagens lindas que o acaso vai formando, unindo formas, misturando cores, trocando rapidamente o lugar da geometria engenhosa de algum Deus especialista na criação de pequenas verdades, mentirinhas necessárias e brilhos com sabor de eterna infância.

Aparecida Torneros é jornalista, cronista e escritora, mora no Rio de Janeiro
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ps : A crônica foi escrita em 2008 e a Helô me presenteou com o caleidoscópio meses depois, eu o tenho na minha mesinha de cabeceira, gosto de olhá-lo, na contraluz, à noite, muitas vezes, antes de adormecer, para que meus sonhos reproduzam cores e formas lindas e exuberantes.
Cida Torneros

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jul
22
Posted on 22-07-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos, Multimídia) by vitor on 22-07-2009


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CRÔNICA/TEMPO

Essa moça tá diferente… uauuuuuuuuuuuuuuu

Aparecida Torneros

Ela era eu, e eu era ela, em 69, vendo o astronauta descer na lua, saindo em 70, pra dançar na rua, em Copacabana, quando o Brasil ganhou a copa. Tanto copo, tanto samba, tanta lua, tanta rua, a moça era eu, magricela, saltitante, cercada de gente, na areia, na maré cheia, em noite de lua branca, éramos um bando de meninos e meninas caminhando na madrugada, o Chico saltando de banda, soletrávamos a banda, que passava, víamos o mundo passar e virar de cabeça pra baixo, o país se escondia no subterrêneo da torturada juventude, da torturante ditadura, nós éramos eles e eles eram todos os que nos perseguiam, dedos em riste, a praia vazia nos dias de chuva, os ventos soprando nos dias de agosto, o amor disposto, aquele que crê, amor de gente nova, de moços e moços, pobres criaturas sonhadoras, com direito a se encantar pra desencantar depois, dando guinadas no futuro, deixando de ficar na janela, descendo para o asfalto, ganhando as calçadas, desfilando de minis, fazendo parte da história, na passeata, no ato, no protesto, no sexo, no envolvimento, no engajamento, da tomada de lugar, marcando posição, defendendo a liberdade, gritando questões de ordem, desordenando tudo, uma geração inteira, de hyppies e guerrilheiros, de gente esfusiante, desafiante, corajosa, em verso e prosa, eles eram elas e elas eram eles, os barcos embarcando canções, festivais, composições, prêmios, viagens, novos rumos, novos baianos invadindo os templos boêmios cariocas, os meninos do Rio, os morros que nao tinham vez, e que buscaram voz, que se favelizaram, as comunidades somos nós e os instintos são de todos…as fotos e os filmes em preto e branco, a revelação, o processo, no escuro, a imagem de um tempo, ela era eu, eu era ela, ele nem sabia se era o meu bem, eu nem sabia lhe dar o meu amor, éramos assim, a medida de um momento em que o mundo parecia simples de ser encarado e resolvido, e ela era prá-frente, e ele estava prá-lá-de-marraqueshi, baseando-se na previsão do tempo, em Woodstok, sem destino, sem lenço , sem documento,ela nem se importava com o cílio postiço, tinha blindagem e maquiagem, usava a pílula, era moderna, misturava os hálitos, os hábitos, os duas peças, os monoquinis, biquini cavadão, o asa delta, o puro sangue de trote vencedor, lá ia ela , e eu era a própria alegria de ser, naqueles anos de 69 e 70, por sentir o amor, enquanto ela era a própria tristeza de ver, naqueles anos de 69 e 70, por ver a dor dos presos políticos, ela e eu nos confundíamos, nos alternávamos, nos desentendíamos, nos questionávamos, nos enturmávamos, nos acostumávamos a ser ora ela e ora eu…
agora ela tá diferente de mim e eu tó diferente dela, só no tempo, porque na carinha de hoje, ambas, reproduzimos a de anteontem, ainda bem…

Cida Torneros é jornalista , poeta e escritora, autora do livro ” A Mulher Necessária”, mora no Rio de Janeiro.

jul
17
Posted on 17-07-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos, Multimídia) by vitor on 17-07-2009


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CRÔNICA/ MÚSICA

COISAS DE MENINAS REBELDES

Cida Torneros

O pequeno disco de vinil, compacto simples, era como o chamavam, rodava manso sobre a vitrolinha portátil num quarto de meninas, em Copacabana, devia ser 1969 ou 70, e a música melodiosa e triste era sussurrada pelas vozes de três jovenzinhas rebeldes, eu e minhas duas primas. A música que nos embalou, variava de gosto e estilo, mas nas horas de desilusão, minha prima Regina, que faleceu há pouco tempo, aos 53 anos, sapecava a voz do Antonio Marcos, cantando “eu hoje estou tão triste, eu precisava tanto conversar com Deus”.

Tínhamos entre 17 ou 19 anos, nos vestíamos para sair na noite, escondidas, é claro, esperando que meus padrinhos, pais delas, pegassem no sono. Queríamos ir a alguma “boite”, com vestidos de mini saia, sapatos salto agulha, bem perto, na Fernando Mendes,onde, nos deslumbrávamos como os artistas que iam dar canja, e nossa bebida de praxe era mesmo a cuba libre. O que queríamos mesmo era aprender a amar.

Tínhamos a meninice brejeira, a pele bronzeada pela frequencia habitual às areias de Copa, o encantamento pela novidade, a sensação da transgressão, e, ao mesmo tempo, o medo de alguma aventura mais arrojada, nada fazíamos a não ser trocar beijinhos com namoradinhos tão jovens quanto nós, e corríamos pra casa, onde entrávamos, com os sapatos na mão, rezando para que a Lady,cadelinha de estimação não desse nem um latido, denunciando nossa chegada no apê, onde ainda viraríamos o resto da madrugada, fofocando sobre pequenos delitos, ou fumando um cigarrinho comum, cujo cheiro íamos disfarçar com perfume em spray.

O disco ia chegando ao final, a tecnologia era mesmo manual, e uma das tres esticava o dedinho para que a agulha voltasse ao princípio da música, e lá íamos nós, envolvidas pelo questionamento sobre a tristeza que começávamos a descobrir ser tão comum nos amores desfeitos pela traição, quando pegávamos as mentiras mal contadas dos tais namoradinhos aprendizes de conviver as emoções da ternura e do prazer. Havia também o fato de que muitas vezes nos entusiasmávos por homens que não nos davam bola por acharem que éramos bobinhas demais e não tínhamos a malicia necessária para um “verdadeiro affair”.

A canção do jovem autor, entre muitas outras, era sucesso, e, ao mesmo tempo, era um libelo inocente para o futuro que teríamos que enfrentar. Ele mesmo, que foi prisioneiro do alcoolismo e morreu em consequencia disso, nos transmitiu, além do talento, uma amargura suficiente para que nos identificássemos com uma das mais cruéis rotinas dos relacionamentos, seus finais dolorosos, as decepções amorosas, os finais onde um dos parceiros teria mesmo que chorar. Então, nos diálogos das três, quantas ocasiões não nos perguntamos: Então o amor era isso? Traiçoes, desilusões e sofrimentos?

Acho que foi nessa época que aprendemos também a saber chorar pelos amores perdidos, pelos amores sonhados, pelos amores mal sucedidos, sem entretanto termos desistido de voltar a buscar qualque tipo de amor, pelo resto de nossas vidas.

Já se passaram quase 40 anos, e hoje, ao ouvir a tal interpretação do saudoso cantor, me vi, exatamente como aquela menina-moça ( como éramos chamadas), sentindo um frio na alma, um aperto no peito, a saudade da esperança daqueles dias de juventude, o cansaço de tantas tentativas de encontrar amor sincero, e aí, desabei num pranto sofrido, doído, inteiramente descontrolado, resgatando um momento que dentro de mim, se repete, como um presságio.

A vida rolou, e ainda rola, Regina deixou filhos adultos e sua irmã Lena hoje é viúva com filhos e netos, ainda trabalha e gosta de dançar. Pouco nos vemos, mas quando nos encontramos, é possivel relembrar as artimanhas quase infantis que ousamos viver, como por exemplo, fugir num fusca de algum amigo para tomar sol na Barra, que era um deserto e o fim do mundo, mas nos dava a dimensão de que esse mesmo mundo cresceria mais. Ainda iríamos ultrapassar fronteiras maiores e nos aventurarmos em caronas de avião indo buscar o amor em lugares e países distantes. Talvez o amor seja mesmo essa coisa impossível, na concepção da tal felicidade fantasiosa, e nem adianta fugirmos para praias desertas ou cidades apinhadas, porque onde houver um coração humano sedento de paixão, sempre haverá a possibilidade de amar alguém que nunca soube o que é o amor, como revela a letra da tal musiquinha.

Vou esticar o dedinho e desta vez, já não existe mais o vinilzinho pequeno, nem gira melancolicamente na noite da minha saudade, mas posso teclar no yutube, ouvir muitas vezes a voz dos meus 18 anos, e, aos 60, ainda vou chorar mais um pouquinho por que o tempo não apagou minha tristeza diante de amores desfeitos, de amores que não me deram diploma, por ser ainda uma aluna que não aprendeu direito como amar e ser aprovada com a medalha da felicidade.

Cida Torneros , jornalista e escritora, autora do livro “A Mulher Necessária”, mora no Rio de Janeiro.

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