nov
28
Posted on 28-11-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos, Multimídia) by vitor on 28-11-2009


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CRÕNICA/VOZES E LUGARES


As vozes portuguesas e a minha lágrima na manhã de novembro….


Aparecida Torneros

Busco Camané e Marisa no Google. Ontem, na madrugada, eu a vi cantar no programa do Jô e lembrei da emoção que foi tê-la ouvido muitas vezes, durante minha viagem recente a Portugal, pois a guia do grupo, nas estradas daquele país lindo, punha sempre seu cd player para nos embalar diante da paisagem do seu lugar. A doçura entremeada de nostalgia, a força da paixão a mim legada por sua interpretação que sai da alma e vem direto ao meu coração…

Assim, depois de ter dormido embalada por ela, busquei-a na manhã de novembro, e tentei encontrar também o delicioso cantar do Camané, que me foi apresentado por um amigo portuense, no que este me fez um tremendo bem. Camané é tudo de bom na canção portuguesa moderna. Traz em si um sentimento do mundo que nos encoraja a viver amores e perdões. Assim, encontrei um vídeo fascinante, de quebra, estão ainda, juntos, Carlos do Carmo e Rui Veloso.

Então, minha lágrima correu e me dei conta da emoção que as vozes de Portugal me fazem brotar com sua necessidade de expressar o amor mais profundo, aquele dos amantes eternos, que sabem o quanto é possível doer um grande amor, e que, apesar das dores, não se pode fugir dele, nem se deve, pois o amor é mesmo um prêmio e os premiados com ele, vencem distâncias, vencem o tempo, vencem as dores…

Minha manhã de novembro, com um sol lá fora daqueles convidativos a me embrenhar nos mares de um Rio de Janeiro iluminado, eu aqui, trazendo para dentro de mim, as imagens de Lisboa, do Tejo, do Porto, dos muitos rios de Portugal, das suas lindas cidades, estradas, lugares, pessoas, dos amigos que tenho por lá, dos sentidos que lá me esperam para reviver momentos de fado, de canções, de vozes incrivelmente penetrantes do meu espírito voador.

Agradeço. Sou privilegiada. Sei o quanto as vozes de Portugal me embalam em sangue e sentimento. Vou até elas como um pássaro, e beijo suas nuances, sorvo do seu mel, deixo-me envolver por seus cantares, não me importo de chorar assim, como uma manteiga derretida. Sinto que a paixão em mim é um sobressalto diante da vida de um beija-flor, e sigo, sigo porque é preciso navegar e voar.

É hora de ir mais atrás e buscar também Amalia. Amalia da minha infância, da minha mocidade, das minhas primeiras incursões pelo amor que machuca e redime.

Ouço então “Com que voz”, belíssima e profunda mensagem. Nada como embalar a dor com a docilidade de um triste fado, ou de viver a volta de alguma alegria com a sapiência de um canto que inunda a alma da gente com o conforto do lamento, mas sem perder a esperança de recomeçar, de um ponto qualquer, um porto onde algum “barco negro” nos espere, para embarcarmos em direção à felicidade eterna.

E volto a sorrir, pois ao escutar Barco Negro , na manhã de novembro, vejo-me bonita de novo, através da inesquecível Amalia e da visceral voz de Marisa, singrando nas luzes das ondas de um mar revolto, entusiasmado, dançante, aventureiro, amante das terras desconhecidas, e descubro que o amor “está sempre comigo”, nem chegou a partir… por mais que isso possa parecer inacreditável… é a magia do fado, com certeza…

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária. (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com).

nov
21
Posted on 21-11-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 21-11-2009

Reffugiados
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ARTIGO/COMPORTAMENTO

Os refugiados do amor…

Aparecida Torneros

Um bando de refugiados formou-se nos últimos tempos, buscando emigrar dos seus próprios sentimentos. É bem verdade que tiveram ajuda humanitária do modo de vida consumista, um anestesiante de ação efetiva, que os afasta da realidade, dando-lhes uma plena sensação de satisfação extemporânea, um estado de “nem quero mais pensar nisso que me aflige” ou aquela pitada de desfaçatez própria do cinismo aparente.

Os refugiados do amor, em constantes arroubos justificativos para o seu comportamento, apregoam aos quatro ventos que não estão nem aí para suas histórias afetivas profundas e seguem vivendo pequenos enredos sem laços mais fortes. Preferem provar dos amores descartáveis, os tais encontros de “ficantes”, sem vínculos comprobatórios, do tipo “não haverá amanhã”, que, segundo eles, os deixam à vontade, descompromissados, livres para voar, no seu dia-a-dia, ou melhor nas suas noites após noites.

Nada sabem esses fugitivos do amadurecimento que paira sob os olhares antigos de gente que cultiva um grande e sólido amor. Sequer conseguem redimensionar a felicidade de um beijo repetido cujo gosto varia de sabor, por décadas, entre pessoas que aprendem a incorporar seus parceiros como se fossem ares para sua respiração e que não se vêem no mundo sem as presenças de figuras que os complementam.

Casais assim, poderiam ser chamados de “os encontrantes”, cada vez mais rareados, mais escassos no sistema produtivo capitalista, pois não os junta nem a conta bancária, tampouco a ambição pelos bens de um ou de outro. O que os une é a alegria do aconchego, a paz do lado-a-lado, o sono acompanhado, as mãozinhas dadas, os olhares para a mesma direção do arco-íris que ilumina seu caminho comum.

Quanto aos refugiados do amor, sua legião cresce com as novas gerações, especializaram-se em sobreviver de encontros superficiais, casamentos-relâmpagos, viagens rápidas pelas paixões esquecíveis, e, o que é pior, desconstruíram em si mesmos o dom de iludir, sim, o melhor dos dons, o da ilusão a dois.

Sem o sonho do dia seguinte, sem a magia do futuro feliz, sem o nirvana do amor eterno, lá se vão os peregrinos do mundo moderno, de aeroportos em aeroportos, trocando de aeronaves, voando sobre suas próprias cabeças, certos do incerto, convencidos do exercício do supérfluo, anotando em suas agendas eletrônicas os nomes que logo serão deletados, num troca-troca alucinante, confusão de bocas, olhos, cheiros, quiçá de gostos misturados.

Em algum lugar do universo, encontrarão, quem saberá, o refúgio para um exílio seguro depois de tanta fuga. E aí, será que o amor volta? Será que seus corações reaquecidos poderão renascer em paixões que os arrefeçam? Melhor imaginar que suas almas serão sábias para conduzi-los ao lugar onde a fuga cesse, o abrigo do maior amor os acolha e a eternidade os faça acordar um dentro do outro, juntos, fiéis, e para sempre. Sem mais fugirem de si mesmos!

Aparecida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulhar Necessária (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com).

nov
14
Posted on 14-11-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos, Multimídia) by vitor on 14-11-2009


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Vasco campeão no Maracanã
vasco
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CRÕNICA/ CRUZ DE MALTA

VASCO, vASCO,VASCO!

Aparecida Torneros

São 23 horas e 50 minutos de uma noite de sexta feira, 13, dia de superstição, noite de bruxas, azar ou sorte, mas o fato é que há um barulho ensurdecedor de buzinas à minha volta, que moro nas imediações do Maracanã, estádio que acaba de testemunhar a vitória vascaína, time carioca recuperado à primeira divisão, e agora campeão da rodada.

Vem à minha cabeça a noite do “Apagão”, dias atrás, recente ainda na memória de todos nós, quando vários estados brasileiros sofreram o colapso do fornecimento de energia e praticamente a força-motriz brasileira representada pela região sudeste esteve à mercê de um contraditório e inexplicado ainda episódio que nos fez sentir quase nos tempos das cavernas, não fosse a prestimosa comunicação do veículo rádio, via satélite, e equipado com modernos retransmissores movidos a geradodes potentes, que exerceram o papel fundamental de nos informar o que estava acontecendo.

Nosso povo é ordeiro em sua maioria. Quando tudo parecia à beira do caos, o volume de acidentes, na verdade, foi menor do que o esperado, e a manhã do dia seguinte trouxe a retomada da vida nacional, embora com prejuízos que ainda estão sendo avaliados além de investigação em curso que se faz necessária para elucidar as causas pífias ou naturais de tamanho desconforto a que nos vimos submetidos.

Mas não é do “Apagão” que quero falar. Quero é saudar o “Clarão”, a luz no fim do túnel, a recuperação do prestígio do futebol carioca, este esporte que movimenta massas de torcedores, gente efusiva, um povo capaz de tanta comemoração e alegria, e , enquanto escrevo, o som dos fogos invade meus ouvidos, gritos de euforia, festa da torcida, a força de uma população ciosa de direitos, deveres e com direito à festas como esta.

Um movimento inusitado se faz por aqui, as camisas em preto e branco, as bandeiras, os abraços, os gritos de “Viva o Vascão”, gente rindo, gente chorando de emoção, o Rio de Janeiro em festa, até os times adversários, através de seus fiéis escudeiros, reconhecem o esforço e a merecida vitória do Clube de Regatas Vasco da Gama.

Imagino a felicidade da minha amiga Penha, agora, com quem só devo conseguir falar amanhã, já que ela deve estar saindo do Maracanã e se dirigindo para São Januário, onde haverá, com certeza, festa a noite inteira. Penha, advogada, com quem trabalhei por muitos anos, é chefe da torcida que leva o nome de “Tulipas Vascaínas”. Senhora respeitada pela profissão e conduta, mãe de filho já homem feito, ela tem paixão pelo seu Vasco, o acompanha em jogos nacionais e internacionais, comanda seu grupo de torcedores, não falta às partidas, levando no peito a medalhinha com a Cruz de Malta, e vibrando com cada conquista do seu clube do coração.

Como a Penha, milhares de vascaínos espalhados pelo Brasil e pelo mundo, a essa hora, exultam com o título, e eu conheço um que se encontra agora no interior da França, Antonio Flores, que acompanha tudo a respeito do time que ele idolatra, mesmo morando naquele país há mais de 30 anos. A torcida esportiva é mesmo assim, vai além das fronteiras, ultrapassa a razão, carrega de emoção e afeto, ilumina a alma de quem torce, é motivo de respeito por quem acompanha, une criaturas de raças e credos diversos, junta em torno de uma bandeira , um time, uma jogada, um lance, um gol, muitos corações, como neste instante, vejo e acompanho a torcida vascaína que deixa o estádio, com seu carnaval improvisado.

Futebol e vitória representam luz e energia para o povo brasileiro, esse mesmo povo que merece respeito, porque é formado de grande massa trabalhadora, e tem nas partidas de futebol um grande alento, uma intensa válvula de escape, fazendo com que nos orgulhemos do nosso esporte nacional, o mesmo que já nos deu tantas Copas do Mundo e agora, nos faz esquecer as mazelas do “Apagão”, porque nos faz cantar com os vascaínos o seu hino de Glória.

Parabéns ao Vasco da Gama, aos seus jogadores e à sua contagiante torcida! Viva o “Clarão” da alegria futebolísitica e abaixo o “Apagão” amadorístico”!

Cida Torneros, jornalista e escritora ( torcedora do América do Rio) mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária. (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com)

Aparecida Torneros

nov
03

Cochannel

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CRÔNICA / CINEMA E COMPORTAMENTO

COCO CHANEL:GARRA DE VIVER E VENCER

Aparecida Torneros

Ela nasceu no final do século XIX.
Atravessou o século |XX, com galhardia.
Foi pioneira, da vida, em seu estilo próprio, e da moda, com sua arrojada disposição de inovar. Ficou famosa, faleceu em 1971, mas seu trabalho permanece, sua lendária griffe se perpetua, e seus conceitos de liberdade de vestir para as mulheres, vieram para reinar. No filme, “Coco antes de Chanel”, o que vi, pareceu-me ainda muito pouco, em face da sua longa e produtiva vida. Entretanto, o que se vê relatado é o eixo básico que formatou sua garra para viver e vencer, num mundo competitivo e masculino, que ela tão bem enfrentou para ousar ser quem foi e continua sendo, como personagem ímpar da história feminina dos últimos tempos.

Coco Chanel, a Gabrielle aguerrida, afoita, talentosa e perspicaz, tão bem interpretada por Audrey Tautou, nos é trazida com a performance das criaturas que não se acomodam e que se entregam aos desafios do cotidiano, inclusive do amor, com sua paixão ou seu final trágico.

As imagens mostram a vida bucólica de uma França emergente para a indústria, os primeiros automóveis, a sociedade que se diverte em torno dos cavalos, o teatro com suas mulheres enchapeladas, os costumes dos espartilhos, dos excessos de flores, jóias, coisas que Chanel soube neutralizar e impor com seu estilo mais sóbrio, elegante, devastadoramente capaz de despertar a curiosidade masculina.

Através de roupas pudicas, fechadas, ela provou, muitas vezes, que o desejo se esconde onde se escondem as curvas, e também soube revelar as facetas da sensualidade feminina no jogo de luz e sombra, no pretinho básico, nas pérolas misteriosas, nos complementos charmosos, em bolsas, sapatos, chapéus e até perfumes.

O filme deixa no ar o longo tempo da sua caminhada enquanto estilista que se tornou referência mundial. O maior enfoque dessa obra da telinha, se dá à sua descoberta como pessoa, mulher, profissional e sua sede de vencer em Paris.
Há uma aura de paixão pelo desconhecido e pelo sucesso, coisas que Chanel não só perseguiu, como se apropriou com apetite voraz, sem voltar atrás, seguindo um caminho de trabalho, dedicação, sensibilidade e senso de oportunidade.
Uma mulher à frente do seu tempo, não resta dúvida, Coco Chanel, ainda pode ser contada, de mil maneiras e em todas, será sempre uma figura lendária, nos suscitando admiração e respeito. Senão, vejamos.

Chanel, quem não sonhou com ela, nos últimos 80 anos, em sã consciência, sendo mulher e habitando o Ocidente? Devo ter sido uma menina suburbana que a teve como referência distante e inatingível, enquanto a admirei de longe, acompanhei sua moda pelas revistas, notícias, ufanei com seus delirantes desfilhes e só fui usar uma gota de Chanel número 5, lá pelos meus 30 anos, quando ousei comprá-lo e submeter-me ao seu teor mágico.

Chanel, a lenda da moda, a dama do tailler, dos colares, dos sapatos semi abertos e bicolores, aquela das bolsas de matelassê, com alças em correntes, a mesma da feitiçaria francesa de mulheres magras, leves e deslizantes, ditando normas para atrizes, rainhas, primeiras damas, famosas que tinham acesso livre ao seu criativo dom de encantar.

Chanel, a menina pobre que se tornou estilista famosa. A doce mulher de negócios, uma experta cidadã antenada com a indústria da beleza e a sede capitalista do consumo de sonhos, ela mesma aparece agora em cinema, em mais de uma produção, assim como já apareceu em teatro, livros, seriados e ainda vai se superar em novas histórias que dela não cansarão nunca de falar.

Chanel, a mulher que revolucionou a mulher no século XX, trazendo-a para um lugar onde sua feminilidade flui diante de olhos amantes de pérolas, de paixões baseadas em imagens românticas e clássicas, apesar dos tempos modernos, um adocicado século antigo permanece no semblante de uma mulher que eterniza o amor em seu coração sedento de verdadeira paixão. Aí, nesse lugarzinho especial, se instala o estilo Chanel, entre um suspiro de prazer e um profundo respirar capaz de renovar a auto-estima feminina ou sua esperança diante da vida.

Cida Torneros, escritora e jornalista, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária. (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com)

out
28
Posted on 28-10-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 28-10-2009

Búzios: presença de BB
Buzios
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CRÔNICA / LUGARES

BÚZIOS…OUTUBRO, 2009

Aparecida Torneros

Uma brisa sopra, a água tá morna, Geribá espreita os turistas e as minhocas da terra se dissolvem em cânticos de bel prazer. Estou, mais uma vez, agradeço aos Deuses, em Búzios, na casa da minha amiga-irmã, Cristina Márcia, a CM, uma criaturinha do Bem, de muito encantamento e que a mim passa ternura sempre. Pois nesse recanto abençoado , de natureza exuberante, ponto turístico internacional, vivendo à sombra de uma Brigitte Bardot que por aqui passou no auge da fama e transformou esse lugar em point para os prazeres da vida de todos nós. Vila de pescadores, balneário de crescimento mal controlado, berço de um mar azul esverdeado, adensadamente aconchegante, a paz vem me encontrar no fim de tarde, olho os barcos, tomo um chope avistando , desde o restaurante, os transatlânticos que trazem sonhadores para um encontro com suas verdades e magias interiores.

Um canto de voz argentina, o cd desliza com a arte de uma jovem Mercedes ( faz-me lembrar da grande Sosa) que por cá passou, deixando a gravação que a Cris comprou para relembrá-la, tem uma voz que me lembra Nara Leão, canta bossa nova com sotaque portenho, demonstra sensibilidade naturalmente surgida em tempo de sentimentos aflorados, coisa que em Búzios, é mesmo tão forte e comum.

Não fujo à regra, deixo-me dominar por este estado latente de viver a vida com paz, harmonia, felicidade, alegria, encantamento e crença no amanhã. Pouco importa, se Búzios está na novela das oito ou nove, que a exporta para o mundo, pouco se me dá, pois o muito já o tenho agora, entre as lufadas de vento marinho e com tanto brilho de um sol dadivoso a me queimar a pele necessitada de carinho intenso, de um tipo de chamego especial, aquele que o amor proporciona, em dose tripla, em porções generosas, quando se tem a certeza do quanto é possível e necessário conviver e respeitar a natureza em festa onipresente.

Melhor que tudo isso é refletir na grandeza de possibilidades que há em ser conivente com a sobrevivência de tal paraíso, com a responsabilidade de preservar este tesouro, salvaguardar seu conteúdo, legá-lo ás próximas gerações. Ainda bem que há movimentos de pessoas atentas a esse caminho que podem fiscalizar o cumprimento das leis e lutar pelos direitos da natureza, ainda bem!

Volto os ouvidos aos sons que me chegam das praias repletas, e o barulho das ondas é plácido, permissivo, um convite ao sabor de novos arremedos e paixões. Queria o meu amor aqui, hoje, para que ele pudesse sentir o que sinto, e partilhasse, agora , deste paraíso comigo. Um dia, quem sabe, o trago e mostro tudo, ou melhor, não mostro nada, deixo apenas que ele descubra o que já descobri, ou talvez, um pouco mais, por
que sei que ele merece e é capaz.

Que tal passar o dia em Geribá, almoçar um dourado arretado de bom no Pit Bone, na companhia da Cris, da Vaninha e com a visita do amigo Carlos. Depois, vamos tomar um sorvete na rua das Pedras?
Dá pra esticar no Shami Chou, e encarar um crepe, que delícia, talvez passar em casa e descansar um pouco antes, com a classe de quem pode sair lá pelas 10 da noite e ir comprar um chapéu, com a Marli da Boutique, enquanto se ouve o rock pauleira que alguém apresenta no barzinho apinhado. A noite tá só começando, Búzios ferve no fim de semana, amanhã tem mais, a gente acorda e vai pra João Fernandes, aquele lugarzinho tão especial cercado de verde, com água deliciosa, repleto de hermanos argentinos, e o sol é um presente que nos enfeita as almas. É quase verão, mas ainda é outubro, 2009…

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro. É editora do Blog da Mulher Necessária, onde o texto foi publicado originalmente) (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com)

out
20

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CRÔNICA / CLAMOR

CREIO NO RIO DE JANEIRO

Aparecida Torneros

Amplio minha sensação e vou adiante, alguns meses mais, aí está o nosso verão… Visão comprometida, ultimamente, sinto um clamor geral em torno do meu lugar, tanto a cidade, como o bairro onde moro, Vila Isabel, me põe à mercê de um mundo brabo, violento, discriminatório, injusto e desigual, com mortes rondando cada esquina desavisada e o caos instalando-se nos desvãos das comunidades que sobrevivem à custa de lutas insanas.

Um Rio de Janeiro, em chamas, literalmente perplexo ao combater o crime, a injustiça social, o crescimento desordenado, em plena guerra do tráfico, praça de combates físicos e emocionais. Como boa carioca, aposto na salvação não da lavoura, mas da minha cidade maravilhosa. Creio, a partir de tantas iniciativas, que algo pode, deve e está sendo feito, no sentido de reorganizar minha gente humilde e lhes oferecer paz e esperança. Não é nosso privilégio esse estado de coisas extremamente revoltante, causando mal-estar e um sentido inglório da vida em sociedade, nos tais tempos modernos, onde há um grito que ecoa, intensamente, nos corações dos habitantes de lugares assim, densamente povoados, entranhados de competição e falta de oportunidades, uma selva de sonhos puros ou um cemitério de desejos profanos, quando alguém nasce já trazendo o estigma do medo da vida que virá.

Pois é, não dá pra ser totalmente feliz, diriam os filósofos ou os observadores sociais, há um certo temor pairando além do horizonte dos morros cariocas. Mas o mesmo temor não terá pairado além das Torres Gêmeas? ou dos destroços de Beirute ensanguentada? ou ainda não será este o semelhante sentimento que a humanidade identifica a cada tentativa de compreender os subterrâneos de um mundo cujo calor corresponde não só à estação do verão escaldante, em regiões assim tão tropicais, mas inclusive, e sobretudo, à combustão provocada pelas bombas, pelos tiros, pelas explosões cinematográficas que ocupam manchetes e redimem pensamentos cansados de assistir a barbárie em pleno século XXI.

Amplio mesmo meu conteúdo esperançoso, embora sofrido, patético e até certo ponto infantil. O Rio tem jeito, o mundo também. Olho o verão que vem aí. Sei que o Sol nasce para todos e lembro do Chico Buarque, em algum lugar onde li que ele disse o “Rio tá ferrado”, mas aqui até engarrafamento é bonito, pois é só observar a paisagem e esperar.

Pois esperemos, confiemos, pois, como das guerras oficiais e também das “oficiosas”, tem sempre um sem número de lições para se aprender, por em prática soluções e conclusões, refazer o chão, replantar o trigo, as flores, reconstruir cidades como depois dos terremotos, aliás, a humanidade é mestra nessa coisa de renascer das cinzas…

Vamos lá, minha gente, “Olha o Rio de Janeiro , aí!” dirá o puxador da Escola, no carnaval de 2010, depois que fizermos um minuto de silêncio, chorado , sentido, curtido e apascentado, pelas vítimas, que nas últimas décadas, deram suas vidas, a serviço do combate à violência, ou foram atingidas por balas de trajetória perdida.

Os que integram do chamado mundo do crime, com suas histórias pesadas, muitas vezes também enredados em horrores e circunstâncias, quantas vidas desperdiçadas de jovens incautos, mal orientados, prisioneiros de um mundo estranho , detentores de valores confusos, corações de pedra, além da imaginação.

É possível detectar, engrossando as fileiras dos combatentes em batalhas absurdamente fomentadas por armamentos cuja tecnologia lembra a ficção, fuzis e escopetas, granadas e lançadores de chamas, tornando meninos magricelas em kamikases oriundos da miséria humana, ou mesmo do desconforto sub desenvolvido de um status social abaixo do desejável e aceitável.

Mas o verão vem aí, ninguém duvida. O sol brilhará, de novo, as praias ficarão lotadas, a beira mar nos brindará com paisagem digna de quadro pintado exposto nas paredes de museus internacionais, alguém vai compor um samba-canção melodioso e nostálgico, ainda vamos chorar nossos mortos mais um pouco, e apesar disso, brincaremos o carnaval, ressurgiremos das cinzas, continuaremos as lutas, e vamos amar uns aos outros, como for possível, tomando um chope pra distrair…

Legiões vestidas de branco farão novas passeatas, bradando gritos de Paz, enfeitando a orla carioca, de esperança, e esse povo sofrido, mas com vocação para ser feliz, não vai deixar cair a peteca. Vai dar a volta por cima, vai recuperar a auto-estima, vai cantar com Noel, Vinícius, Chico, Martinho, Zeca, e tantos outros, a melhor música da virada. O amor vai impregnar as almas dos amantes, que como eu, transbordarão carinho, na terra prometida, num janeiro de reencontro com a essência de cada casal que se busca e se quer bem.

Talvez surja mesmo um coro, tipo “We are the world”, onde cada um vai soletrar um verso em prol do renascimento de uma cidade especial, a cidade do verão tórrido, que apaga suas dores com a água fria do mar, e deixa que as lágrimas salgadas se confundam com o gosto do oceano imenso, onde tudo se dilui, inclusive o medo de seguir em frente. Salve Rio de Janeiro, salve “geral”!

Aparecida Torneros, escritora e jornalista, apaixonada pelo Rio de Janeiro, cidade onde mora e edita o Blog da Mulherr Necessária. (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com)

out
07
Posted on 07-10-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 07-10-2009

Dilma abre o coração em O Globo/img. Arquivo
midilma

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CRÔNICA / SENTIMENTOS

O coração da candidata Dilma

Aparecida Torneros

A entrevista publicada no domingo, dia 4 de outubro, no Jornal O Globo, Rio de Janeiro, é precedida de um esclarecimento que antecipa aos leitores sobre as circunstâncias do “ping-pong” que se segue. O box introdutório menciona “adversidade”, reencontro da entrevistada Dilma Housseff com o entrevistador Jorge Bastos Moreno, fala da sobrevivência diante da doença, da cura anunciada para o câncer após tratamento e na longa conversa que se iniciou num café da manhã e se estendeu quase até a hora do almoço.

O jornalista deixa entrever que a ministra abriu mão da agenda oficial para divagar nas ondas da emoção que é recuperar a sede de viver, citando inclusive ” Hoje percebo a intensidade da tarde. Observo atentamente o que o vento faz com as folhas das árvores, sinto o perfume das flores e o cheiro da terra”.

A partir daí, segue-se um abrir de um coração de candidata, ou melhor, um coração feminino, prestes a se “apaixonar” por algo ou alguém mais humano e menos administável, do ponto de vista de qualquer autor de novela, digamos que a reportagem em destaque no jornal carioca, revela uma “nova” Dilma, que relembra até as novelas que assistiu ainda jovem, na cadeia, acompanhada das outras presas políticas.

Mas, ela vai além, repensa sobre a paixão, fala de literatura, de música, aliás, canta algumas letras famosas, segundo seu interlocutor, o jornalista Moreno, hábil no mister de deixar a entrevistada tão à vontade que ela responde “infelizmente não”, logo de cara, à primeira pergunta formulada. -” A senhora está namorando? Está apaixonada?”

Assim, o que é possível ler, tanto ao pé da letra, como nas entrelinhas da peça jornalística, traz o perfil dos sentimentos de uma mulher como qualquer outra, que vê a vida com olhos de quem precisa divulgar que convive bem com a solidão, porque, na verdade, ela mesma classifica ” é o bom convívio consigo mesmo”.

Dilma lista suas preferências musicais, tão variadas e de um teor eclético presumível para quem trafega em mundos populares e eruditos, com a missão profissional de melhor entender o povo ao qual se postula como possível candidata a governar, em eleições que esmiuçarão tudo, desde de sua vida pessoal, passando pelo seu comportamento político, e incluindo o nível de equilíbrio necessário para alguém que pode vir a comandar um país como o Brasil.

Se candidata, e se eleita, pela primeira vez, o Brasil terá uma mandatária usando saias , batons e brincos, sem perder de vista que estarão a seu cargo, como chefe do Executuivo, observar com atençaõ os números do PIB, os investimentos necessários para o crescimento da renda per capita das classes mais baixas, e ainda, manter-se serena e conciliadora, por vezes, e noutras, ter pulso firme, apaziguar questões adversas, articular apoios, ser “anticaos”.

Ela cita o livro “anticâncer” como o que mais ganhou durante a fase difícil da doença que enfrentou, diz que deve ter recebido uns 20 exemplares, que o leu, que valeu a pena e que o distribuiu em São Paulo, provavelmente, entre os doentes que conheceu.

A entrevistada relembra o personagem Sinhozinho Malta, vivido pelo ator Lima Duarte, e conta que a primeira novela que lembra de ter assistido foi Irmãos Coragem, nos tempos da cadeia. Dilma solta-se pelos caminhos sensitivos da musicalidade, da literatura, da tietagem por Roberto Carlos, do qual diz gostar demais, e aponta “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos”, como uma das suas preferidas.

Cantarola uma do Chico : ” A Rita levou meu sorriso, no sorriso dela …” e se diz apaixonada por aquela intitulada “Quem te viu , quem te vê”. Destaca o trecho que gosta mais: ” Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria, quero que você assista, na mais fina companhia”.

Do Gil, ela fala em Procissão, e tenta lembrar outras, e do Pinxiguinha, ela lembra de Rosa. Canta uma parte memorável; ” Tu és, divina e graciosa, estátua majestosa do amor, por Deus esculturada”

Mas quando se refere a Noel Rosa, a ministra canta inteira a que fala na Noite de S. João. “Nosso amor que eu não esqueço, e que teve seu começo numa festa…”

A entrevista, que ocupou página inteira, e ainda prossegue em meia página mais adiante, acrescenta muito mais sobre os gostos musicais e literários da Dilma candidata, da Dilma cantadora, da Dilma sobrevivente de doença grave, da Dilma que adora João Cabral de Melo Neto, que chega a lembrar dos sonhos infantis, um deles, segundo ela, o que durou mais tempo, o de ser bailarina.

O inusitado da reportagem, em termos de informação ao público que, estatisticamente, parece mesmo conhecê-la ainda muito pouco, e deve ter sido o fato de que um jornal de grande circulação, num domingo de amplo espectro de leitores, se dispôs a divulgar o coração da candidata Dilma.

Uma senhora que está sendo preparada para tentar a disputa no pleito máximo da condução dos caminhos nacionais, e que, até agora, falava de pré-sal, de usinas termo-nucleares, de obras e orçamentos para o programa de aceleração do crescimento, ou se defendia de tiroteios políticos naturais que partem de adversários também interessados na mesma luta pelo poder, ou na democrática e oportuna onda de colocações plausíveis entre situação e oposição.

Pois a “poderosa” Dilma foi apresentada, “frágil”, de coração aberto, digamos assim, entre os devaneios do seu interlocutor, ou os sonhos agora difundidos para os homens disponíveis que se habilitarem a se candidatar a um lugarzinho especial no tal “coração apaixonável” ( por que não?) da candidata a nossa chefe de Governo.

O próprio Jorge Bastos Moreno deixou escapar no seu texto que ” esse é o mistério que a campanha eleitoral certamente não vai revelar – uma pena para um país que nunca teve um primeiro-damo”.

Aparecida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, e edita o Blog da Mulher Necessária, onde o texto foi publicado originalmente) (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com)

out
03

riodej

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Cida Torneros

Do senso de humor carioca, ninguém duvida, e logo que foi anunciada a vitória do Rio de Janeiro na disputa para sediar as Olimpíadas de 2016, começou a circular na internet, com notoriedade nas bandas dos usuários do twitter, uma frase brincalhona, parodiando o mote da campanha do presidente americano Obama.
– Yes, we “créu”!
Divulgada junto de uma imagem caricaturada que lembra o homem mais poderoso do mundo, mas com as feições modificadas para o saudoso Mussum, humorista carioca que fez parte da turma dos trapalhões.
A frase, galhofeira e oportuna, pelo teor de alegria que invade o povo brasileiro pela vitória em Copenhagem, é reflexo também da utilização pelo próprio presidente Lula, que se referiu ao fato de que agora nós podemos sim realizar a sonhada competição, pela primeira vez na América do Sul, no Brasil e no Rio de Janeiro, ao defender a candidatura emocionada da capital conhecida internacionalmente por suas belezas naturais.

humor

Mas o espirito brincalhão do carioca prevaleceu, e a imagem disseminada no mundo cibernético, lembra também o nosso Pelé, tem um pouco de cada mestiço brasileiro, traz um sorriso feliz e um certo ar de quem teve malandragem suficiente para esperar a sua hora… Afinal, o Brasil ganha o status de país capaz de capitanear um sonho de atletas, empresários, torcedores, governantes, jovens, crianças e idosos que gritam pelas ruas : Sim , nós podemos!

(Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro e edita o Blog da Mulher Necessária, onde o texto foi publicado originalmente: (www.blogdamulhermecessaria.blogspot.com)

set
28

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CRÔNICA / MULHER

bbardot

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75 anos e sempre La Bardot

Aparecida Torneros

Acho que o ano era 1962. Não estou bem certa. Eu e minhas amigas pré-adolescentes copiávamos para costureira os modelos das calças saint-tropez, a la Brigitte, o que era a última moda e nos deixava com o umbiguinho de fora. Cintura baixa, a pernas em patas de elefante, blusinhas de organza leve, alguns babadinhos e frou-frou. Nossos cabelos, para seguir a musa sensual francesa que despontava como objeto sonhado nas telinhas, ainda nos atrevíamos a pintar mechas claras nos cabelos e usar grandes franjas que caíam selvagengente pelo rosto, emoldurando ares de menina em carinha de mulheres aprendizes.

A Brigitte era nossa ferinha indomável, dava gosto de ler nas revistas semanais as reportagens sobre seus amores , casamentos, rodagens de filmes. Seus ares quase infantis, de BB, literalmente passando aquele jeito de adolescente sapeca, usando por exemplo modelitos em xadrez cor de rosa com babadinhos de bordado inglês, quem não se lembra de vestidos com bolsos, mangas tres quartos, lacinhos e decotes audaciosos?

Ela ditava moda, induzia a comportamentos, incitava a desvendar mistérios de uma femea que Deus criara para seduzir através da sua arte e do seu encanto físico, a uma legião de fãs que se espalharam pelo mundo. Seu amor pela natureza, pelos animais, pelo planeta, é precursor das campanhas ecologicamente corretas dos tempos atuais. Ela se fazia natural por ser, intuitivamente, encantando-se com as praias agrestes da pequenina colônia de pescadores em Búzios, que hoje é reflexo do sua passagem por aquelas terras do Estado do Rio, para onde acorrem turistas ansiosos de conhecer a orla Bardot e tirar fotos com a estátua dela, que na beira do mar, acalenta os sonhos da mulher amante das praias.

Brigitte resistiu ao tempo, como defensora dos animais, como símbolo sexual, como artista polêmica em torno de posições assumidas e por muitas lutas que trava em prol da sobrevivência de muitas espécies.

Mas , o que me parece bem ao seu jeito e quase passa despercebido, é que ela é a própria defesa do seu exemplar humano, um espécime raro de fêmea livre, consciente, decidida, resolvida, amante do amor como entrega e realidade, criatura capaz de oferecer dádivas de prazeres em olhares perseguidores, aqueles que sempre a perseguiram na tentativa de descobrir seus banhos de sol em nudez tão natural quanto inocente, tão pura quanto sintonizada com a paisagem que a acolheu sempre nos esconderijos onde habita e ainda mora, com seus animais e seus amores.

Ela está casada desde os 58 anos de idade com o mesmo homem, segundo o noticiário, parece bem feliz no casamento longo, e , aos 75 anos, dá exemplo de vida bem vivida, continua sendo um sonho de mulher inalcançável para muitos fãs. Por sorte, não perdeu a sensualidade dos olhares e da boca, inconfundível, de lábios cujo coração desenhado mantém o convite ao prazer de viver a vida, com pouca roupa, pés descalços, cabelos ao vento, sorriso espontâneo, ela é a receita simples de vida ao ar livre ou de um estrelato que convive pacificamente com a bandeira da causa ecológica universal.

Brigitte continua a mesma menina, quem duvidar, que a acompanhe e constate, segue brigando para salvar bichinhos e preservar reservas ambientais, esbraveja contra poluição e matanças de espécies indefesas, abraça focas, beija cães e gatinhos, deita ao sol nas manhãs do verão francês e ressurge de vez em quando, em ocasiões especiais, quando sua aparição tem o dom de restituir ao público décadas de magia de uma deusa loura, tão senhora de si agora, como ousou ter sido antes, e como será sempre, confiante e intensa, como diria a propaganda de produtos de beleza.

Cida Torneros, escritora e jornalista, mora no Rio de Janeiro. Este texto foi postado originalmente no Blog da Mulher Necessária , que ela edita. (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com)

set
25
Posted on 25-09-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 25-09-2009


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CRÔNICA / SONHOS

A NOVELA E PARIS

Aparecida Torneros

As cenas se passam na escadaria da Catedral de Montmatre, o casal protagonista da novela das oito, em lua de mel, observa Paris do alto da colina.

Enquanto trocam carinhos, fazem promessas de amor, já que a vida nos é passada em sua eterna novela, e vivê-la é sonhar, é rodar um filme, é projetar desejos, é aspirar felizes momentos e imortais realizações.

Paris tem essa propriedade: exacerba a capacidade humana de sonharmos acordados, impõe felicidade aos olhares, indica êxtases, convida a experimentarmos o que antes nos pareceria improvável. Paris nos permite o proibido, nos incita ao que é misterioso, tem em sua aura de luminosidade, o segredo dos grandes amores, Paris é a festa dos corações, é o berço das paixões arrebatadoras, Paris é sempre Paris.

Ali, quem não ousa esperar o gênio da lâmpada que, a qualquer momento nos brindará com a imagem de uma obra de arte, ou com a canção das ruas, com a boemia dos insones ou com o cântico dos enluarados. Paris tem sabor de vida vivida, realmente, naquela cidade, um conjunto de fatores concorre para que o mundo se ajoelhe e agradeça.

E quem não se intimida pela paisagem dos barcos que singram as águas do rio Sena, enquanto o mundo gira ao seu redor? E o centro do universo se resume a um toque de mãos nalguma cintura, ou ao abraço manso de um casal que planta a semente do amanhã, antevendo filhos e netos, criando situações de futuro, ao mesmo tempo em que o presente os invade com sofreguidão.

Assim é Paris, intensa e repleta, infestada de turistas, circulante com sua população nativa e seus imigrantes sazonais, irreverente nas suas calçadas de cafés e gente sentada a ler e conversar. Paris parece não ter pressa, e, no entanto ela corre através do tempo perpetuando sentimentos, explodindo em shows noturnos, acariciando lembranças, organizando memórias, superando-se.

Paris alucina? Alguém já disse. Paris é uma festa? É público e notório o seu contentamento onde se festeja a vida e a luxúria, o prazer e o luxo, o amor e a alegria. Paris está em chamas? Constantemente, historicamente, socialmente, e até, ideologicamente.

Paris não sai de moda. Paris não se cansa de provocar sonhos nas pessoas de todos os cantos do mundo que a ela vão pedir a bênção dos deuses da fantasia. Em Paris, toma-se o elixir da inquietação para se curar a ressaca de qualquer embriaguez, principalmente daquela que corresponde à viagem entorpecente que a cidade oferece.

Nada mais justo que uma novela, como já se viu em tantos livros e filmes, mostrar um casal em lua de mel no coração de Paris. É que o amor vivido em Paris é símbolo de encontro eterno, como eternos são os sonhos humanos que atravessam gerações aquecendo as almas, ou melhor, iluminando-as, tendo como fundo a Torre Eifel e como moldura, o céu parisiense.

Só me cabe lembrar que em Paris deixei um inesquecível olhar preso no horizonte, e lá, voltarei para desvendar o alcance da minha mirada, a cada manhã de primavera, ao lado de quem é capaz de me fazer ampliar minha visão do mundo.

Cida Torneros, escritora e jornalista, mora no Rio de Janeiro, onde edita o site A Mulher Necessária (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com)

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