fev
22
Posted on 22-02-2010
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 22-02-2010

Dirceu: em movimento

============================================

OPINIÃO POLÍTICA

ZÉ DIRCEU NAS ENTRELINHAS

Aparecida Torneros

============================================

Ler sobre o Zé Dirceu, requer saber reler as entrelinhas da sua história. Políticos, os há, de toda sorte, ordem, origem, identificação ideológica, trajetória baseada em sorte ou oportunidade,perseverança, estilo próprio, carisma que vem de berço, ou crescente ao longo dos anos, com simpatia respeitável ou questionável antipatia, arrogância detestada ou coragem admirada, liderança reconhecida, capacidade de engendrar estratégias e de conciliar acordos, narcisismo acalentado, poder de persuasão, olhar futurista, sorriso largo ou contido, palavra amena ou arrebatadora, postura e presença constantes, arroubos defensivos e ataques desfechados para atiçar ou derrubar inimigos.

Um dos personagens em questão poderia ser qualquer bom profissional da política internacional ou nacional, com o nome citado nas primeiras páginas dos principais jornais que informam sobre a vida que circula nos meandros do poder de nações ou povos ao redor do mundo e precisamente nos bastidores da performance eleitoral que o Brasil assume em regime de arregimentação de votos ou de simpatizantes que gerem votos para que se atinja objetivos plenos de vitórias em pleitos espalhados em cidades, estados, regiões, rincões longínquos, lugares onde a brasilidade sacode ideias e expectativas, sob a égide do embate de idéias, atitudes, propostas, números alcançados , índices atingidos, qualidade de vida ampliada ou melhorada ou ainda sonhada por centenas de milhares de criaturas cuja necessidade maior parece alicersar-se na confiança que depositara em alguém que os protegera muito mais do que os representara em postos ou cargos de comando.

Percebe-se que há desses políticos, em forma e conteúdo, sim, deles, existem aos milhares, pelo mundo, nas histórias contadas em livros biográficos ou romanceados, e nos relatos memoráveis dos bastidores, que um dia, podem virar filmes de grande circuito, porque as historias de políticos lendários como é o caso do Zé Dirceu, rendem sinopses atraentes ao mesmo tempo em que incitam a curiosidade dos públicos mais diversos e atentos

Um brasileiro cuja história pessoal se confunde com as últimas 5 décadas da vida nacional, tal a sua vocação de fênix a ressurgir dos rolos compressores em que se viu metido ao longo dos tempos, nas perseguições da ditadura militar, na vida clandestina, na cassação, no ressurgimento à luz do comando do PT, por dezenas de anos, no papel fundamental que exerceu durante as campanhas que levaram o presidente Lula ao topo do Poder, e ainda, no efeito avassalador que a informação e a contra-informação exerceram no episódio apelidado de “mensalão”, que, a partir de 2005 espocou como se fora um meteoro gigante a bombardear a vida republicana em pleno mandato do poder petista, prato cheio para a oposição aturdida.

Interessante ler e reler o noticiário que nestes dias explode na mídia nacional trazendo a figura do Ze Dirceu para o primeiro plano novamente:
José Dirceu diz que vai subir no palanque ao lado de Dilma O Globo; Dilma sobre Zé Dirceu, “Ele é um dirigente do partido e como tal … Jornal Feira Hoje; Lula diz: Dilma é para 2 mandatos, e acrescenta:quando aconteceram todos os problemas que levaram o companheiro José Dirceu a sair do governo, eu não tinha dúvida de que a Dilma tinha o perfil para..; O Globo 09/02/10:
Dirceu sai para o confronto com FHC; A volta de Dirceu: A Tarde On Line – ?25/01/2010?, Os adversários do PT, tem na “reabilitação” do ex-ministro e deputado cassado José Dirceu, uma boa artilharia. Zé Dirceu circulou recentemente como um icone…

Ler sobre o Ze Dirceu implica em reler sua própria historia na vida brasileira com altos e baixos e com pinceladas ora romanceadas e ora realistas, e, na maioria das vezes, entremeadas com releituras sobre a furia e a intensidade com que a os veículos o assediam, o abordam, o reinterpretam, o nomeiam, tentam desvenda-lo e ainda, no auge da comunicação massificada, tentam enquadra-lo a modelos pré- estabelecidos.

O que se passa [ e que o Dirceu, político, ex presidente e fundador do PT, ex ministro do Lula, ex deputado federal, atual dirigente do seu partido, militante assumido das suas idéias, em última análise, foge aos modelos convencionais, tem no seu caminho ora pedregoso e ora vitorioso uma certa capacidade de estarrecer e surpreender, exercendo a magia dos bruxos, a competência dos bons estrategistas ou o domínio consciente e inquietante dos guerreiros, para a satisfação dos seus correligionários e a perda do sono das noites dos seus adversarios.Sua volta alvoroça a midia e aquece as falas dos especialistas, mas sobretudo, demonstra que ainda há muito a rever, reler ou renascer a partir desta figura lendária, chamada Jose Dirceu de Oliveira e Silva.

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

BOA NOITE!!!

===================================================

VOU SEM ROUPA, NOEL!


Aparecida Torneros

As imagens e o suor não me deixam mentir. Ò abre-alas que eu quero passar… Tudo esquentou neste Brasil tropical, nos tempos recentes.

Desde os tamborins até a disputa presidencial. Tem Dilma, Serra e Ciro se acotovelando no camarote para serem “vistos” pelos foliões do Galo da Madrugada em Recife. No carnaval baiano, quem se preza e quer ser notado pela plebe, não vai deixar de passar por Salvador, salvando sua reputação de onipresente na festa da praça do povo, ainda que a sabedoria popular salva a Pátria e põe na berlinda a animação mais desprovida de compromisso eleitoral.

O grande vencedor do reino da folia é o voto dado à alegria contagiante da nossa gente , embalada pelo samba, o pula-pula, o frevo, a timbalada, as marchinhas, os cordões, o ritimo afro, o batuque sentido na boca do estômago, o convite ao recesso de tanta pressão do resto do ano.

Mais quente que o verão carioca, impossível. Madonna e afins vão disputar espaço nos camarotes da Sapucaí. Tá se derretendo cada pedacinho de juízo, e nem se pensa em mais nada a não ser cair na rua, acompanhar o bloco, misturar-se o pobre e o rico, o novo e o velho, tem o suvaco do Cristo, o bloco do Boi Tatá, o Simpatia é quase amor, o Carioca da Gema, o bloco das Carmelitas, a banda de Ipanema, o Concentra mas não sai, o humor carioca é pródigo em criar suas manifestações momescas.

Tradição espirituosa e espiritualizada, tem dedo da Chiqhinha Gonzaga, aí isso tem, do Pixinga, do Ari, do Braguinha,do Jamelão, da Emilinha, gente que animou os velhos carnavais, que nos legou esse patrimônio cultural indestrutível e fervilhante. Se as escolas paulistas arrebentam em tecnologias e o samba vai-vai, seu Nenê e seu Leandro honrarm a memória do grande Adoniram, aquecem nossos corações na cadência do samba trabalhado e amado.

Amar o samba, amar o carnaval, explodir em mil manifestações em cada esquina ou camarote, estar na correria e no suaodouro de mais um momento especial da cultura brasileira. Carnaval é tempo de ebulição, nele, evaporam-se tristezas, elucidam-se mistérios, engendram-se amores impossíveis, abre-se espaço para beijos improváveis, o mundo pára por aí, e nós vamos nos divertindo como podemos e devemos, sem a preocupação de sermos votados. Isso, deixamos pra eles e elas que nos olham como potenciais eleitores. Mas, é preciso esclarecer de uma vez por todas, nestes dias, escolhemos escolas vencedoras, musas rebolativas mais performáticas, cantores e puxadores de samba mais vibrantes, baterias emonionantes, fantasias deslumbrantes, sorrisos estonteantes, abraços reconfortantes, ruas apinhadas, multidões ao sabor dos ventos carnavalescos, gente sem nome e sem sobrenome, amamos sim os galhofeiros, os que brincam com as mazelas do cotidiano, que fazem a festa, que nos mostram um Brasil maravilhoso , o Brasil do espírito do seu povo que está pairando acima dos candidatos, dos governantes, dos poderosos.

O poder é dos foliões agora, por alguns dias, quem há de duvidar da grande força que é a multidão acalorada gritando sua alegria de viver a despeito de todo o resto? Viva o clima tórrido e espiritualizado do carnaval 2010, cada um de nós sabe que todo esse calor produz nossa própria superação, afinal, como cantou e imortalizou o grande Noel Rosa, do alto da sua boemia figura, “eu hoje estou pulando como um sapo pra ver se escapo desta praga de urubu”,já estou coberto de farrapo eu vou acabar ficando nu, pois esta vida nao está sopa e eu pergunto com que roupa que eu vou, pro samba que você me convidou?”

Vou sem roupa , Noel!!! Os candidatos é que precisam vestir suas fantasias e tentar nos encantar, não é?

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

fev
04
Posted on 04-02-2010
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 04-02-2010


==================================================

CRÔNICA / IDENTIDADE

O Homem da Tarja Preta, do meu amigo Contardo

Aparecida Torneros

Quando li o texto do Contardo Calligaris sobre o filme “Um homem sozinho”, descobri que eu tinha escrito quase igual a ele sobre o mesmo tema, e resolvi comunicar-me, pra dizer-lhe isso, ou seja, falar das impressões semelhantes que certos motivos inspiram ao incidir sobre nossos sentimentos e reflexões.

Qual não foi minha surpresa porque depois disso, ele e eu iniciamos uma troca de emails. De forma amena e coloquial, fomos nos conhecendo, ainda que distantes fisicamente. Até que, finalmente, o encontrei, no lançamento do seu livro “Um conto de amor”, que ele veio autografar também no Rio.

Ao lançar o meu livro “A mulher necessária”, troquei com ele algumas confidências e medos de principiante. O Contardo, com seu jeito italianão de ser, incentivou-me e acalmou, deu-me força, mandei pelo correio um exemplar, direto pro seu consultório de psicanalista experiente.

Muitas vezes eu me deleito com seus artigos da Folha, concordando em número, gênero e grau, entretanto, há vezes em que discordo plenamente do que ele diz, mas admiro sua verve solta, sua sinceridade freudiana, sua sensibilidade humaníssima, e sigo sendo sua amiga e fã.

Um dia, ele me convidou para a estréia do Homem da Tarja Preta, li a respeito, bateu-me enorme curiosidade. Já tínhamos trocado correspondência aludindo sobre as cobranças que a sociedade impõe aos homens, no exercício da sua masculinidade estereotipada. Não pude comparecer à estréia, mas, em passagem de alguns dias por Sampa, em abril de 2009, aproveitei que estava na casa de uma amiga e ex aluna, e fomos, em quatro, eu, ela e os pais dela, pessoas que estimo muito, ambos, na casa dos setenta anos, e muito religiosos.

A peça é forte, moderna, antenada, questionadora, instigante. O público reage de muitas maneiras, e uma delas, é rejeitando seu conteúdo desafiador. Claro que me vi em palpos de aranha, quando o casal de senhores ao meu lado indignou-se com o personagem que se travestiu de mulher em plena noite, em frente ao computador, soltando seus demônios. Minha amiga, numa consequente defesa psicológica, dormiu quase o tempo todo, grudada nos pais que permaneceram até o fim, segundo eles, em respeito a mim.

Eu, por minha vez, confundi sentidos, mas admirei a coragem do autor, trazendo à baila um tema tão vivo na comunicação atual. As conversas fantasiosas das salas de bate-papo frente ao dilema de seres que não se reconhecem nos modelos que lhes são impostos. Vi que o Contardo lá estava, acompanhado do casal Bruna Lombardi e Carlos Alberto Ricelli, mas, na saída, com a pressa dos meus acompanhantes, não pude cumprimentá-lo. Fiz depois, via email.

Agora, depois de muitas apresentações em várias capitais brasileiras, O Homem da Tarja Preta chega à Bahia, e certamente, será objeto de reação e reflexão, apesar das vésperas de carnaval diluirem, em tese, o pensamento crítico a um questionamento real e presente na vida nossa de cada dia. Modelos de vida sufocados pela necessidade de corresponder ao que de nós esperam por aí.

Vale conferir e observar. Vale assistir e polemizar. Vale perceber que todos podemos ser e ter “nick names” em salas de bate-papo, ao passo que usemos máscaras protetoras, em madrugadas silentes, no escuro dos nossos porões incendiados. Contardo é sensível, pode nos acordar de sonhos ou de pesadelos feéricos através de texto tão contundente, é bem verdade que pode também nos fazer rir e nos proporcionar momentos de descontração por nos sabermos protegidos por tarja preta, na foto do jornal, que nem revela nossos rostos e nem diz verdadeiramente quem somos nós…

Aparecida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária.

Um brinde de amigas na Flórida e…

——————————————————–
.. uma linda melodia: inesquecíveis

=================================================

CRÔNICA/ UM LUGAR

1994, UMA VIAGEM INESQUECÍVEL

Aparecida Torneros

Aquela viagem… inesquecível… Eu, minha prima Carmen, sua filha Luciana e meu filho Leandro, os jovens, com 16 anos, nós quarentonas, brincalhonas e divertidas.

Hoje Léo e Lu tem 32 anos. Ela é mãe da Bia , casada com o Saulo e moram em Salvador. O Léo é professor, mora no Rio.

Fomos pra casa da Edie, uma americana que era viúva do nosso tio-avô Obidio, irmão da avó Carmen, ela nos recebeu em Orlando, e de carro, fomos para sua casa em Jacksonville, norte da Florida.

Dias de frio, idas a shoppings, o forte de Sant Agostin, Miami, passeios, estradas, pizzas, sanduiches, histórias, risadas, feiras, caminhadas, compra de um 486, que era o computador mais moderno da época, rs, uma sucessão de encontros com o dia a dia do Way or life, dos americanos.

Cansamos de repetir sobre o Brasil para a Suzete, a Sula, a Jennie, os amigos, os vizinhos da Edie, que conheciam muito pouco sobre o nosso país. Estranhavam porque nós quatro sabíamos falar bem o inglês, se nunca tínhamos morado fora daqui… preconceito, desinformação, e um jeito de ser muito comercial, que nos incomodava muito.

Entretanto, o carinho da Edie compensava tudo. Sua vontade de nos agradar, as comidinhas que fazia, a dispensa abastecida de refrigerantes de todos os sabores, da cereja à uva, pra nós, naquele tempo,uma grande novidade.

Eu, morena, ainda, de cabelos escuros naturais, cheia de cachos ( kurls) que elas elogiavam tanto. Lu, lindissima, magrela, sonhando em ser médica, e o meu Léo ainda nâo definira o papel de professor que assumiu nos últimos anos, mas, devorava os jogos Sonic, e nos guiava, por lá como um cicerone, usando sempre boné e rabo de cavalo.

Brindamos algumas vezes ao sentimento melhor que nos uniu naquele janeiro de 94, o amor, a glória dele, o amor entre familiares, o sentimento que nos proporcionou encontro tão marcante, cujas lembranças hoje rememoro.

Na volta, quando dormimos uma noite num motel de Miami, deu pra sentir a pujança da cidade, mas nossos melhores dias tinham ficado pra trás, no aconchego da casa cercada de grama, calefação a 21 graus, enfeitada de lembranças que a Edie colecionara em tantas viagens que fez ao Brasil, na companhia do tio Obie.

Sessões de slides, pipocas, brincadeiras, ela nos fazia rir quase o tempo inteiro, e ainda, o papagaio dela na cozinha, o Sean, a repetir ” good morning” toda a vez que acendíamos a luz ,mesmo de madrugada. A lareira foi acesa uma vez e desligamos a calefação. Motivo: ela queria que os meninos comessem mashmellow torrado nas brasas, tradição americana.

Enquanto lavávamos a louça do jantar, muitas vezes, cantarolamos juntas: “You have to give a little, wait a little, that is the glory of love”. Também , uma noite, descobrimos que ambas éramos apaixonadas por Dinah Washington e a ouvimos quase até o amanhecer.

Quando a saudade batia, nos anos subsequentes, ela, já doente, ligava pra mim nas noites de sábado… e sussurrava…I love you, Maria… eu respondia, embargada….Me too, aunt Edie, I love you too!

Aparecida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

jan
23
Posted on 23-01-2010
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 23-01-2010

Cida: saudades de cheiros e sabores

CRÔNICA/ RIO-BAHIA
=================================================
FIM DE SEMANA

Aparecida Torneros

O fim de semana começa na sexta à noite. Pode se iniciar mais cedo, com um telefonema da Cris, de Búzios, falando da ida a Buenos Aires, no seu niver, em 29 de janeiro. Helô já marcou, irá dia 4 de fevereiro, e só volta depois do carnaval. Pena que ainda não poderei ir com elas, por agora. Mas o verão no Rio é imperdível, desculpem a imodéstia!

Reja também ligou, convidou pra assistir peça de teatro, mas não poderei ir, marquei outras coisas, fica pro próximo. Katia chamou pra ir na casa dela no Recreio, adiei, entrou na fila, ela compreendeu.

Quanto ao fim de semana, pra todos os efeitos, é quando o pessoal pára nos bares da cidade e entorna chope após chope, pelo menos neste tórrido verão de 2010, enquanto o temporal me prende por mais de uma hora dentro de um ônibus entre o Leblon e a Vila Isabel, no auge das oito da noite. Fui na igreja de santa Mônica, rezar e me solidarizar pela perda da D. Antonia, mãe do Luiz e sogra da Tê, casal que considero irmão nesta vida. Antes da chuva, peguei a carona da Verinha, para estar na missa, em tempo.

Consigo chegar em casa às dez, mas tô tão cansada pra sair e a cidade tá alagada. Falo por telefone com um bando de amigas e familiares. Perdi a novela da Helena.

Então, combinamos a tarde de sábado, uma visita à mais nova integrante do clã das “mujeres” descendentes de Carmen Torneros. Ana Beatriz tem 3 meses de idade, é baiana, está no Rio pela segunda vez na vida, veio em dezembro, e voltou nesta semana de janeiro, com a mãezona Luciana, e a vó Carminha, mas a belezinha precisa retornar a Salvador, pois a Lu é médica e recomeça o trabalho em fevereiro.

Vou conhecer a Bia, minha priminha-sobrinha-neta que é fofa e adora um avião, ainda bem! Aí, me bateu mesmo uma saudade da Bahia. Vou combinar com a Lu, não dá mais tempo de me organizar para o carnaval, mas vou depois, com certeza. Adoro Salvador, sinto-me em casa e sua aura me tranporta para um clima de muita paz toda vez que por ali caminho, quando como o acarajé, olho o mar, sinto a sua gente tão acolhedora, onde fiz vários amigos e ainda por cima, cheiro seus temperos tão quentes.

No sábado à noite, minha sobrinha Ana Paula ( jornalista quase “pronta”, que me orgulha muito!) sugeriu irmos no Siri, pertinho de casa, que tem os melhores pastéis de camarão do pedaço, lugar pra se jogar conversa fora, e curtir frutos do mar. Prometo convidar uma galera, quem sabe mais primos e primas da ala jovem, que curtem esse programinha conosco. Quanto à manhã de domingo, já que a Cris ( outra prima, jovem estudante de biologia) vem dormir aqui em casa, penso em caminhar com ela em volta do Maraca, e levá-la pra frazer a tal visita guiada por lá, que ensina tudo sobre a sua história, além de encontrar bandos de gringos que todo o dia ali vão conhecer a história do futebol brasileiro.

Já marquei também um cineminha light na tarde de domingo, tipo quatro e meia, no shopping Tijuca, o filme, comédia, “amor sem escalas”, pra refrescar a cuca, comer pipoca, preciso convidar a Belliza e outras priminhas, quem sabe topam a curtição de uma jovem tarde de domingo versão dois mil e dez?

Para fechar o fim de semana, programão: show as oito, do outro lado da baía ( ou da poça como costumamos brincar!), na praia de Icaraí, com o Marcos Valle, e uma tschurma de responsa…50 anos da Bossa Nova. Meu ex aluno da faculdade, Luiz Fernando, jornalista da Secretaria de Cultura de Niterói ( Nikite) me convidou, já avisei a umas cinco amigas e tá praticamente confirmado. Atravessaremos o mar pela ponte em busca de uma comemoração justa, bem ao estilo da nossa geração, talvez eu até durma por lá, na casa da Dê, outra jornalista antenada e alegre, e só retorno ao Rio na segunda cedo, pra resolver os probleminhas da outra semana que começa.

Por enquanto, nossa, eta sábado quente, este! As praias estão apinhadas, minha amiga Beatriz, de Buenos Aires está no Rio, ontem encontrei com a Tereza Cristina, que me avisou. Preciso ligar hoje pra ela, e marcar de ir na Argentina em tempo recorde, por uns três dias, ou um “ratito” mais…

Ah, na lista dos telefonemas, devo incluir meu filhão, que talvez possa nos encontrar no cineminha amanhã, se estiver de folga do trampo, já que o Pedro, meu sobrinho também jornalista de esportes, estará de plantão, acompanhando as peripécias do campeonato futebolístico e afins.

Nossa, além de tórrido, cada fim de semana deste verão é entupido de coisas a fazer, realizar, comidinhas e bebidinhas gostosas, gargalhadas, e ontem, na costumeira sessão de psicanálise que tenho nas manhãs de sexta, ouvi do terapeuta um compensador elogio, sobre o meu jeito “vibrante” de levar a vida… e pensei comigo, feliz, que para coroar tudo isso tenho a companhia maravilhosa de um amor que habita nas vizinhanças do meu coração e comparece no meu ego a cada bom dia que nos trocamos pela vida.

Afinal, desejar bom dia uns aos outros é espargir energia positiva, e pode-se acrescentar na receita, beijos , abraços, sorrisos, saudades arrefecidas, certezas felizes de que há em todo fim de semana, na verdade, um recomeço de vida, embutido e prestes a romper a casca do ôvo.

Vou lá, o week end tá borbulhando em mim, o que não quer dizer que eu não sinta as dores dos irmãos que no mundo sofrem as injustiças e as intempéries, mas significa que é preciso viver o que a vida nos oferece e entender que tudo é mesmo passageiro como um breve fim de semana. O ideal é valorizar cada instante em que se pode sorrir e abraçar alguém, nas semanas que recomeçam e nas almas que se reencontram.

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro. Edita o Blog da Mulher Necessária, onde o texto saiu originalmente.

jan
19
Posted on 19-01-2010
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 19-01-2010


==================================================

CRÕNICA: UMA MULHER

Ells Regina:a vida sem ela

Aparecida Torteros

Os anos 70 me revisitaram, repentinamente, quando li, no Blog Bahia em Pauta, sobre os 28 anos sem a voz ao vivo, de Elis Regina, aquela pimentinha pequenina de arte possante, interpretações magistrais, aquela figurinha risonha e ao mesmo tempo intempestiva, braba e desafiadora, a mesma Elis que nos deixou atrás de uma porta que se fechou pra sempre, sob a viagem de uma droga traiçoeira, que nos roubou de cena criatura tão talentosa, mulher brasileira sintonizada com seu tempo, a Elis que nos ensinou a cantarolar sobre o falso brilhante.

Fomos meninas de “falsos brilhantes” nos dedos, sim, imitação da vida, sonhos hollywoodianos de amores felizes para sempre, atropelando-se na crueza de uma ditadura militar plena de injustiças e freios, escapando-se pelo viés dos festivais da canção, a ponte do respiradouro que as composições musicais representaram diante da repressão, e aquela voz de veludo que se transformava em grito de protesto, o grito dos acorrentados, a nossa Elis nos apontando os neguinhos da estrada, os passos da dança em ritmo de dois pra lá e dois pra cá, o canto dos desesperados por amor verdadeiro, a mesma voz que nos falou como nenhuma outra das águas de março, e nos pôs à prova, com o bêbado e o equilibrista.

Porta-voz de um período de constentação e proclamação dos direitos de ser livre e viver essa liberdade à frente do seu próprio tempo, lá se foi Elis para o trono dos deuses, em dia em que nos doemos nas entranhas, nos sentimos perdidos, e a tarde que caiu sobre nós, se fez noite, nos tornamos bêbados trajando luto, sofrendo não só a sua perda, mas sobretudo, o quanto dali por diante seria a vida sem ela presente.

Dela, ainda bem, ficaram as canções, as gravações, os filmes agora em dvd, e os filhos, por obra e graça, todos ligados à música, e bem talentosos, honrando seu dna e sua memória.

Elis é magestade, ela me deixou mesmo louca e ainda me deixa, quando me ponho a re-ouvir, na sua versão inconfundível, o clássico Fascinação, e é esta interpretação, de 1978, que me traz de volta a menina que fui , como ela, com aqueles cabelos cortados ao estilo Jane Fonda, protestando contra a guerra do Vietnam, sonhando os sonhos mais lindos, na transversal do tempo, emocionada e gravemente atenta a cada nota que sua garganta emite, no milagre da tecnologia que me permite sentir novamente o quanto Elis me fascina ainda, e certamente, o faz com todos os que tem a chance de se deixarem seduzir pelo seu brilho verdadeiro.

De falso, só o brilhante do dedo da menina que dançou nos bailes de formatura, quando era bom imaginar que um dia, quem sabe, ela nos mandaria um recado do tipo :”alô alô, terráqueo, aqui quem fala é Elis Regina, estou morando em Marte, pra varia vocês estão em guerra?”

Pois é, Elizinha, o ser humano tá cada vez mais down no high society, e você tá cada vez mais fascinante no céu das estrelas cujo brilho não se apagará nunca, sabia?

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, edita o Blog da Mulher Necessária, onde o texto foi originalmente publicado.

jan
06
Posted on 06-01-2010
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 06-01-2010


======================================================
CRÔNICA/UMA ESTRELA

Minhas lembranças de Dalva de Oliveira, em 1972

Cida Torneros

Em mim, a Dalva entrou cedo demais, através dos discos em 78 rotações que ouvia meus avós e tios tocarem na velha vitrola na casa do subúrbio carioca, lá em Ramos, nos anos 50. Sua voz ecoou por décadas, e foi se restringindo depois, a duas canções inesquecíveis que acompanharam meus carnavais da adolescência, pelas gravações de Máscara Negra e Bandeira Branca.

À figura da mulher amadurecida eu aliei uma impressão pessoal de observar um olhar muito triste, que eu pressentia que talvez um dia a vida me desse oportunidade de desvendar o porquê. Sabia pouco da sua história, conhecia seu filho cantor, de voz magnânima, o Peri Ribeiro, que me encantava nos shows que assisti ao lado da Leni Andrade. Também, impossível não ter ouvido falar do sucesso do seu ex-marido, o compositor Herivelto Martins, ressaltando a belíssima Ave Maria no Morro, canção que teve tantas gravações e correu o mundo, representando o Brasil.

O tal dia chegou em 1972, quando eu trabalhava na revista semanal O Cruzeiro, e me mandaram fazer um plantão no Hospital São Lucas, em Copacabana, onde a cantora-estrela Dalva se encontrava internada, agonizante. Devíamos preparar um caderno especial sobre sua vida, e a qualquer momento, quando ela morresse, a publicação ia ser encadernada para o consolo do seu público e para o faturamento de vendas da empresa, como sempre acontece na indústria cultural.

O tal plantão rendeu dias e noites, revezando-nos, entre os companheiros de redação, e do departamento fotográfico, a quem cabia registrar as fotos dos visitantes, geralmente, na entrada da casa de saúde, no hall onde ficamos acampados, já que não nos era permitido subir ao seu quarto. Muitas vezes vimos seus filhos chegarem e saírem com os olhos cheios de lágrimas, era possível sentir no ar que aquela estrela que se apagava com dores de grande artista, também levava um número incrível de fãs contagiados por seu trabalho de décadas, ao desespero, que pude constatar no seu velório, no teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, e ainda, no cemitério, durante seu enterro, que lotou não só o campo santo, como as ruas abarrotadas de pessoas que cantavam Bandeira Branca.

Foi uma justa homenagem a quem tanto ofereceu de sua alma, coração e vida ao povo brasileiro, principalmente o carioca, pois, no Rio de janeiro, ela brilhou como ouro tanto na vigência do Trio do qual participou por muitos anos, ao lado de Herivelto Martins, abrilhantando os shows ao vivo nas estações de rádio, e ainda, nas noites inesquecíveis do Cassino da Urca.

Eu não a conheci de verdade. Estive ali, bem próxima, sentindo, por tabela, sua dor e a dor dos que a amaram tanto, mas aprendi a sentir o quanto essa criatura foi especial no cenário da história da música popular brasileira. Hoje, fico muito feliz que tenham produzido uma mini série sobre ela e sua vida, pois considero um direito das novas gerações tomarem conhecimento de histórias de artistas grandiosas como Dalva foi.

Ela continua sendo uma verdadeira estrela do céu, do mar, e da vida de um tempo em que oferecer sua arte era como dar-se aos sentimentos mais interiores, misturar alma e coração, estômago e emoção, ao cancioneiro popular, às mazelas de amores felizes e infelizes, aos altos e baixos próprios da vida de qualquer mortal necessitado de amor, compreensão, reverência, perdão e homenagem merecida como esta que ora se apresenta na televisão brasileira.

A estrela Dalva no céu desponta e a lua anda tonta, com tamanho explendor…viva Dalva, viva sua história que merece ser recontada e , sobretudo, reverenciada.

( Aparecida Torneros, jornalista, escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária )

jan
05
Posted on 05-01-2010
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 05-01-2010

VIDAS LADEIRA ABAIXO

Aparecida Torneros

Impossível não se chegar ao fundo da dor compartilhada e humana, deixando-se afundar-se no assento, enquanto se assiste, repetidamente, pela televisão, as notícias das tragédias das águas, na virada do ano, em Angra, no Rio de Janeiro, e em tantos outros lugares onde o verão e suas cheias trazem, sobretudo, a certeza da nossa pequenez diante da natureza imensa.

A engenharia nacional se gaba, e com razão, de feitos maravilhosos, pontes desafiantes construídas mundo afora, entretanto, nas encostas molhadas, quando o barro desmorona, tudo rola ladeira abaixo, vidas se perdem na inútil tentativa de explicação racional, para a ocupação desordenada e irresponsável do solo urbano, em cidades grandes ou pequenas, através de edificações permitidas ou clandestinas, num misto de desrespeito e irresponsabilidade compactuados por sociedade e autoridades, quadro este que já nos cansamos de ter na frente dos olhos e de viver nas emoções alteradas.

As tais águas que o Tom cantou lembrando que eram comuns em março, por aqui, no hemisfério sul, na verdade, se fazem presentes no mundo inteiro, em épocas diversas, e principalmente, passaram a surpreender o Planeta, a partir do fenômeno do aquecimento global, das mudanças climáticas inesperadas e ainda imprevisíveis na sua totalidade. Cientistas tentam desvendar mistérios, governos de países poluídores tentam adiar suas ações, cidadãos tentam conviver em espaços cada vez mais restritos em termos de segurança física ou de ares respiráveis.

Tristes imagens de vidas ceifadas rolando com paus e pedras, pelas barranqueiras, gente inocente indo embora na agonia dos soterramentos, prefeituras com administradores baratinados ao constatar que a omissão é tão culpada quanto a ação, e muitas vezes, vai muito além. Isso porque permite a desordem urbana e a instalação do caos social como é o caso das comunidades que cresceram à mercê de invasões para depois se tornarem reféns do tráfico ou da ilegalidade. Louvável sempre é e será cada atitude no sentido de pacificar “morros” em guerra, resgatar cidadanias ou elevar qualidade de vida de populações carentes. Mais do que louvável, é emergencial a decisão de mudar o quadro monótono que nos fere alma e coração, com as constatadas e irreversíveis catástrofes de verão.

No Rio de Janeiro, por exemplo, muito se tem avançado, nas comunidades que ora são aquinhoadas com as obras do PAC, Programa de Aceleração do Desenvolvimento, exemplificando Rocinha, Complexo do Alemão, Manguinhos, entre outras, através de remoções de moradores em áreas de risco, construção de moradias em áreas desapropriadas ou abandonadas, instalação de equipamentos sociais e mobiliários, como escolas, postos de saúde, hospitais, teatros, bibliotecas, praças, quadras de esportes. Saudável, sim, mas ainda é muito pouco em termos percentuais para atender aos milhões de criaturas que habitam não só os morros, encostas, mas também baixadas, faixas marginais de rios que transbordam, lugares onde não há infra-estrutura suficiente capaz de abrigar seres humanos com vida digna, segura e respeitada.

Ao mesmo tempo em que vi e li, nos últimos dias, por diversas ocasiões, a sofrida transmissão desse noticiário aterrador, assisti também, no filme Lula, o filho do Brasil, às cenas da enchente em local onde ele e sua família moravam, em São Paulo, quando sua mãe d.Lindu, seus irmãos e ele próprio, ainda bem jovem, fogem como podem, das águas que carregam tantas dores.

Pois nessa tomada , aliás muito bem filmada, a personagem vivida por Gloria Pires, mãe do Presidente, preocupa-se, sobretudo, com o macacão de metalúrgico de seus filhos, que ia se estragar com a enchente, e a peça do vestuário era, na verdade, o melhor representante da cidadania de sua família, com filhos operários, em busca de um lugar ao sol, um lugar mais seguro, bem estruturado, protegido das cheias, com bons alicerces, fincado em terreno propício, assegurado como ideal para viver e progredir.

Somos todos filhos do Brasil, esperamos sim, que nosso solo, mãe gentil, nos permita viver e morar, sem tantos riscos ou tantos desmandos, sem tantas omissões e muito menos sem tantas águas rolando e levando junto com elas nossas alegrias de um verão a mais, um verão que poderia ser menos trágico, talvez mais prazeroso, talvez menos entregue à força de uma natureza que pode não ser totalmente contida, mas que precisa e dever ser, finalmente, respeitada por quem faz cumprir as leis, neste país gigante pela própria natureza.

Cida Torneros, jornalista, escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o o Blog dfa mulher Necessária (  http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com/ )

dez
28
Posted on 28-12-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 28-12-2009

Sãofrancisco
================================================
CRÕNICA/ MISSÃO

Os “franciscanos” Lucas e Tobias

Aparecida Torneros

Cruzei com eles em Búzios. Um andava descalço, me disse que sua vida anterior fora em Belo Horizonte, antes de abraçar a missão de se dedicar aos pobres. Adotou o nome de Tobias, usa o corte de cabelo igual aos primeiros seguidores de Chico de Assis, o santo católico italiano que desafiou os poderosos, ao defender pessoas abandonadas e animais, há séculos atrás.

O outro, que me perguntou se podia brincar, fazendo uma careta alegre na foto que tiramos, chama-se Lucas, veio das bandas de São Paulo. Contaram-me que vivem na cidade praiana fluminense, numa casa de acolhida a gente que é recolhida nas ruas de cidades como o Rio de Janeiro, entre outras.

Quando perguntei como são essas criaturas que eles cuidam, sua expressão era de compaixão e amizade. Tobias definiu: “nossos irmãozinhos que vem das ruas, em sua maioria, sofreram muito e alguns precisam lutar contra o vício do álcool. Na casa, temos recebido homens entre 40 e 70 anos e vivemos somente de doações. Aceitamos roupas e alimentos, além de medicamentos, concluiu”.

Conversamos sobre outras coisas mundanas, como por exemplo o hábito de andar descalço nas ruas, ou a fuga das suas vidas anteriores, ou ainda sobre o resgate da causa dos degredados, dos excluídos, dos chamados “zeros” à esquerda. Os dois jovens sorriam mansamente enquanto me respondiam. Olhares plácidos, simpáticos, atenciosos, me pediram que indicasse nomes para que incluissem nas suas orações.

Agradeci. Dei alguns nomes. Senti-me pequenina diante da grandeza do seu gesto de enfrentar as agruras do seculo XXI como instrumentos da paz cristã. Seguem à risca a oração famosa do Mestre, consolam onde há desespero e onde há ódio, levam amor aos corações. Imagino que todos os dias devem reforçar suas crenças nos exemplos de Franciso, Antônio e Clara, entre tantos, que fundaram alicerces de dedicação ao próximo na era moderna.

Os filhos de S.Francisco seguiriam a pé. Podiam pegar um ônibus em direção à casa onde vivem e trabalham, mas não levam dinheiro e se precisam de algo, pedem, são pedintes da caridade alheia.

Quando ofereci o dinheiro para que pegassem um transporte, só aceitaram a quantia exata correspondente ao valor das passagens. Mas, como eu não dispunha de dinheiro trocado, e teriam que ficar com o troco, foi mesmo muito difícil convencê-los que eu não queria a sobra. Podiam levar, eu argumentei.

Entretanto, os meigos rapazes foram comigo ao jornaleiro e a um bar na tentativa de trocar a nota de 10 reais. Alegavam que só precisavam tres reais e 60 centavos e que não era certo ficarem com o resto.

Em dado momento, tive a luz. E o pão? Não tinham que comprar pão para os habitantes da casa? Pois que passassem numa padaria e gastassem o restante da quantia em pães para os irmãos. Que retornassem à casa levando aproximadamente seis reais de pão. Era uma doação que eu estaria fazendo, falei.

Lucas e Tobias me beijaram as mãos e o rosto. Foram-se com seu passo lento. Agradeceram. Legaram-me uma profunda lição. Deixaram-me a lembrança da foto do nosso encontro. Muito mais, me exemplificaram sobre a renúncia ao mundo consumista.

Despedimo-nos e segui para encontrar minhas amigas que me esperavam no restaurante. Ao entrar e sentar para almoçar, agradeci o prato de comida, repensei sobre o dinheiro, revi conceitos sobre o amor e a missão que damos às nossas vidas. Alimentei o corpo, embora a alma já tivesse se alimentado de sabedoria e desprendimento.

( Aparecida Torneros, jornalista, escritora, mora no Rio de janeiro, onde edita ol Blog da Mulher Nercessária.).

dez
18
Posted on 18-12-2009
Filed Under (Aparecida, Artigos, Multimídia) by vitor on 18-12-2009


===============================================
CRÕNICA / SENTIMENTOS                       

 

                           CUANDO ME ENAMORO

                          Aparecida Torneros*

 

 

Dezembro chegou ao meio e um estado indiferente, morno, pleno de pasmaceira, havia me tomado de assalto, por duas semanas. O esforço repetido de me fazer compreender num mundo tão incompreensível. Kopenhagem fracassada, o clima indo pra cucuia, o mundo em clima de “salve-se quem puder”, meu umbigo pedindo isolamento, o computador desligado, a ausência de inspiração para escrever, a solidão disfarçada pelas aulas de francês, um desgosto estranho que tem sabor de “esse filme eu já vi e morro no final, tô fora”, a saudade da infância, a saudade de risadas ecoando na memória dos dias em que eu nem imaginava que a vida podia ser finita, e também nem questionava a pequenez da sombria face dos egoístas ou dos que desrespeitam seres e natureza, sentimentos e confianças, achei que ia percorrer este dezembro, fugindo de mim mesma, como na música do Roberto, a 200 km por hora.

Nenhuma chance de ir ao shopping e fazer compras natalinas, o desânimo de enfeitar a casa para as festas, uma única vontade, fechar-me em copas, enclausurada no ninho da própria solidão de um final de 2009, pensativo e desconfortante, após perder tios idosos, cansar-me de tantas esperas, decepcionar-me com os conceitos de amor e amizade.

  A gota dágua, um telefonema, de longe, na quase madrugada de uma manhã enevoada. A voz disse “buon jour”, mas o tom era de discórdia, talvez a disputa mais infantil de um triângulo amoroso tão extemporâneo quanto a mediocridade que permeia a história de amores mal resolvidos. O silêncio me invadiu, internamente. Pra que responder, se qualquer palavrinha em nada ia modificar o acontecido?

  Melhor me “desenamorar”, não da vida, pois desta e por esta, estou em constante enamoramento, aliás crescente, no dia após dia… Refiro-me ao desencantamento por criaturas humanas e falhas, como eu, pessoas que são previsíveis e desconcertantes, que fazem parte de um inúmero e retumbante eco dos sonhos não vividos, dos tempos que nem chegam a chegar afinal.

  Mas, o destino prega peças, tripudia previsões, oferece saídas, janelas, abre portas, ilumina caminhos, põe na casa ao lado um olhar de carinho, o de alguém que me fez recomeçar o dezembro, bem no meio, acelerando um repentino estágio de “quero tudo” para a segunda quinzena. Peguei-me sorrindo, internamente, redescobri a canção que fala de se enamorar e dar a alguém o melhor que se tem para dar, sonhos e olhares brilhantes. Como um renascimento pré-vivencial, reconheço a alegria que volta ao meu coração, não posso desperdiçar o resto do ano, com lamúrias e tristezas. Estou pronta para refazer projetos, vejo que o tempo me dá um sobressalto, vou correr atrás do prejuízo, vou enfeitar minha vida, com detalhes de luz e cores.

  Então, eis que o mundo se colore de novo, vou a alguma festa com urgência, compro logo uma bolsa cor de cenoura, não posso fazer por menos, sou personagem do sonho de quem me confessa que me acha “charmosa”, acho que um vulcão me sacode em tempo de corre-corre, imagino-me recuperando o fôlego, acendendo as luzes da casa inteira, o sol renova minha sede de viver, o que terá sido pior do que ter perdido 15 dias sem perpectivas de festejar dezembro?

  Foram dias para refletir sobre escolhas infundadas, momentos que ficaram para trás, e daqui pra frente, lá vem o Roberto de novo, “tudo vai ser diferente”, preciso recomeçar o mês, tenho dias para preencher com música, festa, carinho, amizade, bem naquele tradicional “clima” de um dezembro freneticamente solucionado em termos de esperanças renovadas.

  Lá vou eu, Papai Noel, me aguarde que baixo na sua chaminé e lhe dou de presente um sorriso tao grande que serei capaz de incendiar o futuro de um 2010 bem mais feliz ainda. Boas Festas, feliz resto de dezembro, e obrigada por ter a chance de recomeçar a ser feliz.

  Cida Torneros, jornalista, escritora e cronista, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária.

=====================================================

Pages: 1 2 3 4 5 6 7

  • Arquivos

  • junho 2018
    S T Q Q S S D
    « maio    
     123
    45678910
    11121314151617
    18192021222324
    252627282930